Confira as observações musicais de Aderaldo Luciano, com sua Playlist. São textos e músicas pescadas no cotidiano. São frutos dessa quarentena que se prolonga e é preenchida com buscas e encontros nas ondas da rede e do Spotify!
O poeta enlouqueceu na noite passada, deitado na barca da morte: as sombras da ansiedade. As paredes e o teto o transformaram no Conde de Monte Cristo, uma cela minúscula e escura. Mas recebeu no café da manhã a possibilidade de mais um dia, talvez de mais um fim de semana. O poeta ouve música, o poeta busca as canções. O poeta encontra Sabah Moraes. O poeta gosta de carimbó. O Pará é um imenso rio onde o sol nunca se põe, onde o poeta navega numa canoa invencível.
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Sigo na noite que segue também. Há chuva nas ruas, há frio nas veias, há sonhos em véus. Os cães estão calados. No frio parece que eles perdem a capacidade de dialogar. Nenhum grito, nenhum uivo, latido algum. A voz de Karsu Dönmez é uma lâmina beijando-me o coração e, por algum portal cardíaco secreto, chegando a alma. Vou apagar a luz. Vou desligar o mundo. Vou descer pelo Karasu. Vou com ele e com o Kabhur. Vou para o Mar. Vou me deixar.
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Por um breve momento, no escuro, senti a Terra parar. Foi breve, mas foi vero. As nuvens desceram, bem devagar. Tenho certeza que ninguém notou. Tudo continua como estava. Os vizinhos estão aprofundados em suas telas. Eu também estou, mas senti a Terra dar um breque. Sei que aconteceu porque meus gatos levantaram a cabeça ao mesmo tempo e espicharam as orelhas. Eles ouviram o som. Eles ouviram a música. Foi um experimento de Deus. São muitas almas subindo ao céu. Tenho certeza.
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Desci ao porão dos que remavam. Desci a seus pesadelos. Desci para flagrá-los remando. É isso que fazem para mover nossa imensa caravela. À frente dos que remam e suam, outro condenado bate o ritmo do tambor. É esse ritmo que aprisiona os que remam. É esse ritmo que aprisiona o que toca. Estamos todos condenados a remar. Quando subi ao convés, Vardan Hovanissian e Emre Gültekin apontavam para Adana, cidade onde quase todos morreram.
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Persegui flores toda minha vida. Borboleta, eu. Nas imensas planícies da Mongólia, vaguei por vários dias, planei sobre os mistérios, assustei cavalos selvagens e rondei Genghis Khan. Nas noites aninhei-me com frio no pedúnculo de alguma flor adormecida. Quando o sol nascia, ou um pouco antes, o orvalho evaporava e eu continuava minha jornada rumo ao Orkhon, entre os montes Khangai. Busco Karakorum, onde morreu meu pai.
A lua lá fora
Hoje desci pra levar o lixo lá para o lugar do prédio em que o lixo espera, em estado fermentativo, até ser levado para o lugar onde todo o lixo do mundo se acumula e nos espera. Na verdade avança metro a metro sobre nós. Mas não é sobre isso que quero falar, e sim sobre descer as escadas desde meu terceiro andar até o térreo, de máscara, para me livrar do lixo e dar com aquele portal mágico que se tornou a porta da rua do nosso prédio. Lá estava ela, fechada, com seus vidros transparentes, através dos quais eu via a rua. [Texto de Toinho Castro]
Hoje desci pra levar o lixo lá para o lugar do prédio em que o lixo espera, em estado fermentativo, até ser levado para o lugar onde todo o lixo do mundo se acumula e nos espera. Na verdade avança metro a metro sobre nós. Mas não é sobre isso que quero falar, e sim sobre descer as escadas desde meu terceiro andar até o térreo, de máscara, para me livrar do lixo e dar com aquele portal mágico que se tornou a porta da rua do nosso prédio. Lá estava ela, fechada, com seus vidros transparentes, através dos quais eu via a rua. Lá estava a rua, como se nada devastadoramente inesperado tivesse acontecido em 2020, como se esses cinco ou seis meses. Como se lá fora não houvesse mais de cem mil vidas a menos, mais de cem mil círculos de famílias e amigos mergulhados na tristeza da perda.
Já havia me livrado do lixo e fiquei ali contemplando brevemente a porta da rua fechada. Enfim caminhei até ela e a abri. Senti a brisa delicada de 23º, resquício da frente fria que já nos abandona ao sabor da primavera que se achega na cidade. Nem um mês inteiro falta. Deixei a porta entreaberta e desci os degraus até o portão e, finalmente, a calçada. A rua. Por um milésimo de centésimo de um lapso de segundo, senti como na Imbiribeira, 40 anos atrás. O corpo noturno do mundo. Lá na esquina, o bar aberto, iluminado, e com algumas pessoas a conversar na calçada. Mas eu não escutava o que elas diziam e os automóveis na via principal pareciam passar em silêncio, o silêncio de filme mudo que se espalhava pelas coisas. Lembrei de um texto de Jorge Luis Borges, do qual sempre lembro, chamado Sentir-se em morte, em que ele rememora a experiência de, numa caminhada a esmo, chegar a essa rua remota, de casas baixas. Nenhuma casa se aventurava à rua; a figueira escurecia a esquina; os portõezinhos – mais altos que as alongadas linhas das paredes – pareciam trabalhados com a mesma substância infinita da noite. — Ele escreve.
Todo aquele cenário se apresenta tão antigo e, simultaneamente, tão deslocado do tempo, que bem poderia ser mil oitocentos e tantos. O fácil pensamento Estou em mil oitocentos e tantos deixou de ser algumas poucas aproximativas palavras para entranhar-se em realidade. Senti-me morto, senti-me um percebedor abstrato do mundo. Recordei também de um poema de Allen Ginsberg, no qual encontramos o verso, na tradução de Claudio Willer:
Tive um lampejo de claridade, vi o sentimento no coração das coisas, saí para o jardim chorando.
São esses momentos de um limpidez que nos ocorrem num mundo turvo. Alegra-me que seja consequência de descer com o lixo, essa tarefa que se tornou árdua, cercada de protocolos que a quarentena nos impõe, e também permeada de inseguranças. Mas foi esse fio que eu puxei e que me levou à rua, enquanto atrás de mim deixava um outro fio, um fio de prata, que dizem prender o espírito ao corpo quando esse se aventura nos territórios dos sonhos ou nas viagens astrais. E foi assim que, como um antigo astronauta preso a nave, flutuando sobre os destroços do mundo, eu vi a Lua, com seu disco incompleto, brilhando tanto no céu sem nuvens. Há quanto tempo não a via, ainda mais assim tão nítida. Da minha janela tenho meu quadrante de céu, uma faixa estreita, delimitada por prédios. Em certos períodos do ano posso contempla-la da minha janela, mas nos últimos tempos ela andava sumida. Porque tudo gira… a Terra gira, em torno do seu eixo inclinado, a Lua gira, arrodeia a Terra e ambas se lançam em torno do sol, numa dança contínua de mútua influência que define as estações do ano, as marés, as corrente submarinas, o movimento nem sempre sutil das placas tectônicas… eventualmente tudo findará, com o sol consumindo seu combustível final e se expandindo para engolir as órbitas de Mercúrio, Terra e Marte, num evento tão grandioso quem nem nos será dado participar, mínimos que somos.
Bem ao lado da Lua havia algo que muitos diriam ser uma estrela, e que eu sabia ser Júpiter, porque leio esse tipo de coisa, porque nunca se sabe quando podemos precisar de uma informação assim. E veja só, eu estava justamente diante de um momento como esse. Lá estava eu e lá estava Júpiter, bem ao lado da Lua, e eu sabia.
Bem ao lado da Lua é modo de dizer, pois sabemos o quanto essas relações são ilusórias. O gigante gasoso, que de tão grande e massivo por pouco não se tornou um sol, dista quase cinco anos de viagem desde a Terra. Enquanto a Lua está logo ali. Na falta de gravidade em que me sentia, pensei que poderia nadar até lá de braçadas, arrastando atrás de mim, pesada, a minha cápsula, presa ao meu escafandro pelo fio de prata. Carregando comigo Raquel, os gatos, nossos livros e discos, as mudas de limão doce… rumo a Lua, sabendo que não há estrelas no caminho, porque elas estão bem além, muito além de Júpiter e suas família de outras luas, e seus anéis. Sim, Júpiter tem anéis. E esses pensamentos, comigo ali, de pé na calçada do prédio, no silêncio primordial da rua, um silêncio que estava me esperando desde eras priscas… por quanto tempo revoaram esses pensamentos na minha cabeça? Dois minutos? Cinco?
Ainda enevoado recolhi meu meu fio de prato rumo ao interior da minha nave-mãe. Fechei a escotilha e olhei uma última vez para a rua e para o imenso céu sobre ela. Esse céu que nada sabe sobre nós e nossa desventura quarentênica. Subi as escadas e o lixo ficou para trás também, a ser recolhido logo pela manhã. vamos deixando tudo para trás… a rua, as noites, o lixo, enquanto avançamos sem rumo, nos afastando velozmente daquele ponto indizível, concentrado, mínimo, de onde tudo explodiu e expandiu preenchendo esse conceito estranho chamado Nada, em que demos por existir, seja lá o que for a existência.
Já em casa, no calor dos meus, escrevi esse texto, a ser publicado sem data, mas com uma data de expiração. Quando o Sol em suas últimas convulsões de energia, varrer do universo isso tudo que seguimos deixando para trás. Há de restar uma enorme nuvem de gás e poeira, que há de ser berço de algo futuro. Há de restar uma nave ou outro prodígio a carregar algo que sobre de nós. Ou mesmo a terra estará atravessando a escuridão do cosmo em busca de outro lar. Tem um livro sobre isso, do escritor chinês Liu Cixin sobre isso, e um filme também, inspirado no livro! Recomendo… ainda temos um mundo para viver.
+ POEMAS DO TESSERATO | CALÍ BOREAZ
tesserato é um súbito lugar de fusão. em toda a fusão existirá um momento de confusão? numa sucessão de interseções de espaços e tempos em movimento — como se estivessem girando num grande hipercubo —, o sujeito poético se desloca ao longo da imobilidade. toda a imobilidade conterá uma suspensão? nesse amplificar-se, entre estar e já-não-estar, entre a inexistência de um pouso e a espera por si mesmo já nesse pouso, é traçada uma inexplorada dimensão. os poemas — em verso e prosa — de tesserato são tentativas de atingir o tanto de um instante. [Poemas de calí boreaz]
estou muito compenetrada na imagem suspensa de um hipercubo a girar
: na visão do pássaro a passar entre os fios da fiação-elétrica-sobre-azul : na janela do 8º andar por onde cai lentamente alguém — em forma de nada : no momento em que uma cor se apaga e outra se acende no semáforo : no vidro a emudecer o frenesim do lançamento na livraria-café : na fé quanto à necessária inutilidade de toda a poesia ali contida na medida em que ela é o contributo humano à infinitude do mundo — e para que serve o infinito
eu estou muito compenetrada na imagem suspensa de um hipercubo a girar
: na intermitânsia do letreiro a anunciar o café curativo da ansiedade : na busca alheia do gesto que livre a palavra do livro : no suave compadrio entre o que arde em cada coisa da cidade : na cidade como arte do encontro de linhas geométricas mas não de gente : na tampa do esgoto que não explode pouco antes que eu pise nela : no fogo a comer a outra parte da cidade enquanto esta sofre de esgotamento tampado, enquanto eu
continuo muito compenetrada na imagem suspensa de um hipercubo a girar
: na rasteira balística dos bilhões de sapatos ritmados a desarrumarem-se rumos : na consciência da carteira vazia de notas e moedas e mesmo do que as precede : na súbita e esmagadora surgência de um prédio abandonado : na súbita e esmagadora percepção da beleza que há num prédio abandonado : no que há de súbito e esmagador em perceber que no abandono assim muito assumido nos livramos de quase tudo e quase nada nos falta, só um pouco de ar, e por isso é que eu
ainda estou muito compenetrada na imagem suspensa de um hipercubo a girar
atenta, a ver se a aresta-âmago a-que-brilha pára de frente pra mim parece simples mas estou há oito mil anos nesta vã guarda e depois não sei — penso que brilharei e esmerilharei todas as formas da leveza e da inutilidade inaugurais penso que até sou capaz de pular carnavais (outra vez) assim como quem se expande a partir de um 8º andar levando consigo os pássaros os semáforos os estilhaços dos vidros — e da poesia as tampas dos esgotos pelo ar e os passos dos funâmbulos finalmente a desabar e os fogos todos soltos a confiarem-se as danças dos grandes vazios dos grandes lugares o café os livros o poder de compra recalculadamente a brincarem de avoar com as crianças ah, depois não sei — penso que a cidade toda será não o chroma key do artista mas a carótida das profundas crianças que nada sabem da língua e só querem o abandono da cambalhota no ar, e rir e rir demasiado . o que sei é que no desmazelo poético da cidade o hipercubo continua a girar e eu, aqui à margem de tudo, largar-me! não me posso distrair é que se não tivesse já parado, ainda podia parar . com uma vênia ao equilibrista está tudo justificado
tempografia comigo de costas a olhar a fotografia que prendi
na parede última da décima primeira casa estrangeira, uma janela trans-espacial para a vista do quarto dos meus avós. num tropeço do atlântico, escorrego assim para os lados da lezíria do tejo, mais para dentro, e mais para dentro, ali onde termina o campo e principiam as tintas cítricas dos crepúsculos, e as estações frutadas, e a promessa do sumo quente das oliveiras, e de onde, tão de repente, se contempla a abundância do que precede tudo. dessa janela, ela amanhecia antes do inteiro mundo, e ela é que ligava a brisa os pólens e a cor rosa-chá da manhã, enquanto ele, de radinho baixo muito ao pé do ouvido, nem acordava (porque nunca dormia), desanoitecia.
e o que sinto, aqui parada a esta janela, não é a arrebentação da saudade, e sim a breve metálica sensação de um eu-futuro a olhar-me enquadrada aqui olhando o quadro
mas o que sinto, aqui parada a esta janela, não é tanto a fantástica projeção de um eu-futuro a olhar para mim-agora, e sim a longa consciência de um eu-passado — a olhar pela janela real e — sabendo que, um dia, aquela casa toda mesmo primeira seria estrangeira e aquela vida toda mesmo infinita seria enquadrada
Os poemas estão sempre chegando nas águas da Kuruma’tá, vindos de toda parte, de todo tempo. Poemas feitos por gente que anda por aí, que atravessa os campos e as ruas, que senta na varanda para ver a chuva cair, com sua dança, com seu contornar as coisas, ganhar o mundo. Grato, Juraci, por fazer chover hoje, aqui. [Poema de Juraci Augusta da Cruz]
Os poemas estão sempre chegando nas águas da Kuruma’tá, vindos de toda parte, de todo tempo. Poemas feitos por gente que anda por aí, que atravessa os campos e as ruas, que senta na varanda para ver a chuva cair, com sua dança, com seu contornar as coisas, ganhar o mundo. Grato, Juraci, por fazer chover hoje, aqui. — Revista Kuruma’tá
Poema de Juraci Augusta da Cruz
Da janela ouço a musica E vejo a dança
Cai a chuva Molha o telhado Rega a amendoeira Passa na biqueira Desce e rega a rua Fazendo-se um rio de riso solto
Cai a chuva Cantando O som da via E a vida canta Gota após gota Sem alarde Num balé de harmonia e paz
Cai a chuva Ela não machuca Canta e, suavemente chega ao chão No chão vira riacho, ao pé da calçada Não briga com os obstáculos Rodeia cada pedra e segue Cantando Bailando Numa prece de gratidão
A chuva como a vida, dança E dançando ensina A cair sem alarde Seguir sem se impor Falar sem gritar, sem levantar a voz Driblando obstáculos Dançando livre A dança da plenitude Da humildade E da esperança de virar mar E amar.
Macaé, julho de 2020
Playlist I
Inauguramos hoje na Revista Kuruma’tá as observações musicais de Aderaldo Luciano, com sua Playlist. São textos e músicas pescadas no cotidiano. São frutos dessa quarentena que se prolonga e é preenchida com buscas e encontros nas ondas da rede e do Spotify!
Titane segurou minha mão, tranquilizando-me. Foi me guiando, me mostrando os pequenos acidentes na pauta, revelando as margens da estrada, a tessitura da Areia, o ouro do seu timbre, a riqueza de seu cantar. Eu estava triste. Eu era triste. Eu fui triste, mas caminhei, deixei a Titane o direito a meus olhos, a meus ouvidos, a meu coração. No fundo do sertão, onde tudo é vivo, onde tudo é mistério, onde tudo é reflexo aurífero, nós caminhamos para a eternidade. Era final de tarde. O sol pedia socorro. E nós o socorríamos.
2
Veio a tarde como veio a chuva, preparando-se, prenunciando-se um pouquinho fria, um ‘cadinho cinza. Nesses esquemas, a saudade de minha terra também se achega. Naquele tempo, não muito longe, eu me deitava, pegava Borges e me abraçava com ele. Mas agora, está aqui, cantando a terra, Sandra Belê. Mugido do tempo, ruminação dos recantos saudosos. Essa minina tomou o rumo do mundo, trilhou o caminho da cacimba etérea. Me leva com tu que eu voo.
3
Se não fosse a saudade, eu teria certeza de minha inexistência, da inexistência do meu tempo, do final dos meus sonhos. Minhas dores não me fariam saber o sabor do dissabor. Então Socorro Lira me oferece a cabeça da canção do mundo numa salva de prata. Ela, Socorro, e Vanja Orico abriram-me a armadilha e aqui estou, uma lágrima e um nó no peito, uma vontade de confessar meu futuro e predizer minha leveza. Não, não estou triste, é sodade, meu bem, sodade do meu amor!
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E vem lá de longe, de não sei de onde de dentro de mim, a voz de Buika, a força de Buika, a vastidão de seus caracóis vocais. Ela sabe que estou quedado no assoalho dos deuses. Ela sabe de minha fragilidade atemporal. Um sopro basta para me despedaçar. Ela sabe. E completa a audição. Os acentos e as notas, a rouquidão rasgando o peito, uma brasa descendo sobre o sentimento. Eu poderia gritar-lhe: “Yo vengo a ofrecer mi corazón!”
5
O tempo rude que nos envolveu, o povo rude que nos amaldiçoou, esse tempo e esse povo não são capazes de assassinar as sensibilidades, fechar as portas do sonho, barrar a negociação secreta da sobrevivência. Ouço agora Ane Brun e penso em cada palavra. A vida promete muito e muito oferece e muito cobra. Um toque de mão pode acender a vida. Devemos carregar a esperança nos ombros, mesmo com a realidade desse tempo e desse povo nos empurrando pelo penhasco.
O último voo
Foi principalmente após o rompimento com Clarissa que Rômulo, retornando à casa da mãe — azul e de janelas amarelas, na esquina da rua dos Araçás, número 126 —, deprimiu-se de vez. Tentou cinema, puteiros, boates, comprimidos, tai-chi, trilhas no meio do mato, uísques, academias, livros de autoajuda, encontros em grupo. Nada serviu. Afinal, nem mesmo o psiquiatra encontrava alternativas ou mentiras. [Texto de Huggo Iora]
Temos hoje uma nova voz na Revista Kuruma’tá, que nos chegou pelos caminhos virtuais, pelas conexões randômicas que vão se formando e se consolidando. É sempre bom quando chega alguém novo por aqui, como uma chuva boa que cai, o frescor que vem pela janela aberta! Seja bem-vindo, Huggo!
Foi principalmente após o rompimento com Clarissa que Rômulo, retornando à casa da mãe — azul e de janelas amarelas, na esquina da rua dos Araçás, número 126 —, deprimiu-se de vez. Tentou cinema, puteiros, boates, comprimidos, tai-chi, trilhas no meio do mato, uísques, academias, livros de autoajuda, encontros em grupo. Nada serviu. Afinal, nem mesmo o psiquiatra encontrava alternativas ou mentiras.
Então, num entardecer calado, de raios solares despencando oblíquos do céu, uma pomba pousou na janela da cozinha enquanto Rômulo enchia um copo d’água. Ali, com aquele olhar puro do animal, os dois travaram um vínculo. O homem, num gesto instintivo, decidiu alimentar a pomba com farelos de pão que jaziam sobre a mesa. Estendeu sua mão côncava até o rosto da ave que suavemente beliscou os petiscos. Ela carregava um sinal púrpuro no meio da testa acinzentada. Rômulo riu, e sentiu uma alegria invadir algumas células do seu corpo. Fazia tempo que não sabia o que era isso.
Rômulo manteve seus principais compromissos. Dava banho na mãe cedo, todas as manhãs, e aulas de geografia ao ensino médio do colégio público Fernando Pinheiro Vespúcio. Entretanto, o restante dos seus dias era preenchido pela devota atenção às pombas. Alimentando-as diariamente, em menos de dois meses, mais de cem pombas vieram morar sobre o telhado da casa da mãe de Rômulo; tornando-se conhecida entre a vizinhança por: casa-poleiro.
Ele perdia horas admirando maravilhado o comportamento simples das aves, as relações que travavam entre si, a maneira como alongavam a musculatura do pescoço, a leveza sublime dos voos alegres. Particularmente, Rômulo se deliciava ao assistir às revoadas em bando que as pombas davam nos crepúsculos da manhã e tarde. Comparava o evento a um balé grandioso; emocionava-se quando comentava aos amigos remanescentes.
Remanescentes porque depois de transformar o jardim de sua mãe num pombal, grande parte do seu círculo de amigos, colegas, conhecidos, desfez-se. Falavam agora de Rômulo — e de seus novos hábitos, costumes exóticos — sob uma capa de julgamentos e análises. Suspeitavam de a loucura, causada sobretudo pelo impacto emocional do término de seu relacionamento com Clarissa, ter consumido a maior parte de sua inteligência. Ninguém mais curtia ficar perto dele. Possuíam asco sobretudo dos piolhos e das doenças contagiosas.
Certa vez, voltando cedo do trabalho – pois havia marcado uma consulta para sua mãe que vinha urinando um líquido espesso e marrom há semanas -, Rômulo viu Lauro, vizinho de longa data, espalhando bolinhas de veneno pelas calçadas, misturando-as com uma ração de pássaros. Foi na direção do pilantra, que tampouco tentou disfarçar o que estava fazendo. Os dois trocaram ofensas e depois quase caíram na porrada — não fosse Edna, a costureira manca e fofoqueira da rua, a escandalizar berrando por socorro.
Mesmo no enterro da mãe, Rômulo não conseguia tirar da cabeça os pensamentos das pombas que o esperavam. Recebia as condolências dos presentes com um aceno de cabeça automático, seguido de um fechar de olhos trêmulo e saturado. Sabia que não teria mais de dedicar boa parte de sua vida aos cuidados da mãe. E isso, sombriamente, alentava-o. Sobraria momentos bastantes para desfrutar da companhia dos pássaros e de suas purezas. Aguardou o anoitecer e, após a despedida de todos, retornou à casa; às pombas.
Quando Rômulo, ainda na semana de luto, descobriu que Sabrina, professora de história e única amiga de trabalho sua, fora demitida da escola por causas injustas — segundo seus princípios e morais —, o homem indignou-se severamente e numa atitude animal foi ao diretor pedir as contas. Não aguentava mais o comportamento humano; a hipocrisia das relações; as estruturas sociais; a manipulação do povo; a luta de classes; a concentração de poderes e direitos; os discursos imersos em ideologias. Exausto estava de tudo que enxergava ultimamente comum nos humanos. Desejava apenas enclausurar-se no calor da casa, do ninho, junto às aves e seus doces arrulhos, sonoros e úmidos como o despertar do sereno noturno.
Corridos três meses que Rômulo não saía do seu “habitat”, senão para fazer compras, começou a sentir dores agudas, pontadas que pareciam lhe perfurar a pele e os músculos das costas, logo abaixo das escápulas. Imaginou serem os rins. Atingiu quarenta graus de febre. Ardeu na cama. Molhou lençóis e edredons. Gemeu na solidão. Depois suspeitou ter contraído algum fungo das fezes das pombas, devido à semelhança dos sintomas. Afastou-se assim delas. Ainda que ateu, recorreu num desespero impotente a Deus, para que este o salvasse de tal quadro. Orou tudo que conseguiu lembrar da época de eucaristia. Chamou o nome da mãe. Inutilmente.
Na hora derradeira, quando a vista se anuviou de sombras, Rômulo viu uma pomba destrancar a janela do seu quarto e abri-la, permitindo que uma claridade morna invadisse a escuridão do cômodo. De postura imponente, o pássaro pousou no peitoril e encarou o homem — macambúzio e magro e totalmente entregue em seu leito. Arregalando os olhos num esforço tremendo, mirando o sinal roxo na testa da ave, Rômulo se ligou que era a mesma pomba do primeiro encontro naquele fascinante fim-de-tarde na cozinha, quando enchia seu copo com água e o pôr-do-sol dourava a poeira que caía da cortina. O homem esgarçou a boca num sorriso agradecido e demorado, sem desviar os olhos do ser alado, parado na janela.
De repente, por detrás da ave, uma manta se formou com a vinda das demais pombas. Elas mantiveram-se voando numa certa altura, conservando um bater de asas que gerava um som etéreo, terapêutico. As maçãs-do-rosto de Rômulo enrubesceram e suas sobrancelhas tomaram vida. Das costas, rompeu-se um empenado par de asas. O corpo minguou enquanto o peito inflou as fibras. Canelas deram lugar a patas. Leve, o indivíduo empertigou-se sobre a roupa de cama rapidamente, coçando suas penas com o bico. Balançou o pescoço. Não possuía mais os braços, nem compromissos, nem planos, nem preocupações ou questionamentos. Sentiu-se pleno, sem a sensação de desencaixe que o consumia quando homem.
A pomba do sinal púrpuro subitamente abandonou o peitoril, juntando-se às outras. Rômulo, sem perder tempo, atravessou o quadrado da janela com natural destreza e seguiu em direção ao bando. Sob os raios certeiros do sol, distantes montanhas desnudavam pétalas e sombreavam suas silhuetas finais, um pouco antes de adormecerem com a descida da noite, e as pombas executavam seu magnífico espetáculo no céu. Rômulo, integrando agora o balé, dançava e voava, como uma estrela inefável dos palcos.
Um noite no ferro-velho de Bodoni
Sentamos eu e Ray, lado a lado, na beira do rio. Logo atrás de nós jazia um foguete abandonado, no ferro-velho do nosso amigo em comum, o sonhador Fiorello Bodoni. Da última vez que o vimos já estava doente… lá longe os foguetes, rumo a Saturno ou Vênus, riscavam o céu desde o horizonte num arco. Eu e Ray sorríamos feito crianças que, afinal, éramos. Brindamos com nossos copos cheios de licor de dente-de-leão aos foguetes, ao espaço e aos sonhadores, como Bodoni. [Texto de Toinho Castro]
Nesse pandêmico e quarentênico ano de 2020 o planeta Marte está em pauta. Graças às aspirações megalomaníacas de um certo Elon Musk que, a jogar foguetes para o alto, pretende enviar até lá uma missão tripulada, quiçá colonizadora. Quem que já esteve em Marte, como eu,bem sabe que essa tarefa não é para bilionários mas para poetas. Quem me passou esse ensinamento e me levou pelas dunas vermelhas do quarto planeta a partir do sol foi ninguém menos que Ray Bradbury.
Sentamos eu e Ray, lado a lado, na beira do rio. Logo atrás de nós jazia um foguete abandonado, no ferro-velho do nosso amigo em comum, o sonhador Fiorello Bodoni. Da última vez que o vimos já estava doente… lá longe os foguetes, rumo a Saturno ou Vênus, riscavam o céu desde o horizonte num arco. Eu e Ray sorríamos feito crianças que, afinal, éramos. Brindamos com nossos copos cheios de licor de dente-de-leão aos foguetes, ao espaço e aos sonhadores, como Bodoni. O rio estava sereno e as coisas não haviam mudando muito naquele arrabalde. Parecia que o progresso inteiro havia avançado noutra direção, desviando daquele trecho do rio, do ferro-velho, daquelas ruas escuras, de casas com janelas amareladas pela luz das antigas lâmpadas.
— Isso aqui é um ermo, Ray. — Eu falei. — Você não viu isso aqui ainda antes do ermo. Quando Bodoni montou o ferro-velho nada havia por aqui. A outra margem do rio ainda não havia sido aterrada. Bem ali, disse-me apontando com o dedo trêmulo, havia uma vacaria e para aquelas bandas, tudo que havia era um bar suspeito chamado A Cabana das Ostras. Fui lá uma vez com Bodoni e o velho Bramante. Pra nunca mais.
Caímos na risada, eu conhecia a fama da Cabana das Ostras, que já não existia há anos. Tudo ali era uma inexistência. Tudo havia ficado pra trás. Mesmo Bodoni havia ido embora depois que seus filhos cresceram e seguiram seus próprios rumos, um deles em direção às estrelas. Bodoni não chegou a ver esse sonho se tornar um outro sonho, a que chamamos de realidade. Nesse instante um outro foguete se ergueu na plataforma, como uma espécie de sinal, uma lembrança do que somos feitos. De que somos essa fuga contínua para fora, mar afora, céus afora. Olhei para Ray e sabia que ele pensava em Bodoni e no foguete adormecido no ferro-velho que, como tudo ali, tinha uma vida latente. Ele tirou do bolso da jaqueta uma pequena caixa de madeira e ficou com ela nas mãos por um tempo, a revolvê-la entre os dedos. Na superfície lisa da madeira reparei que havia pequenas estrelas incrustadas, feitas de algum metal que talvez fosse bronze ou latão, ou alguma liga que não é desse mundo. Algo caído do céu.
Depois de me olhar no olhos em silêncio, co a caixa numa das mãos e a outra segurando o copo de licor, que bebericava de vez em quando, ele abriu um leve sorriso, iluminado por todas as luzes distantes que nos rodeavam. Por fim deu uma pequena sacudida na caixa e escutei que algo sacolejava ali dentro. Ao abri-la revelou seu secreto conteúdo: uma chave. Ray vinha carregando isso com ele há anos, desde a ultima vez que vira Bodoni, no hospital.
— É a chave do ferro-velho. Bodoni me deu para guardar, no hospital.
Eu sabia o que ele tinha em mente, desde o momento em que ele me ligou, propondo irmos beber na beira do rio, junto ao ferro-velho, em honra ao querido Bodoni, que se vivo fosse, estaria fazendo aniversário naquele dia.
Ray virou a chave na fechadura e abrimos o grande portão do ferro-velho. Ele caminhou até o pequeno escritório de madeira, ali nos fundos e fez com que algumas lâmpadas vagas acendessem e iluminassem, diante de nós. o foguete. Nossos olhos estavam cheios de lágrimas… de saudade, espanto, felicidade e melancolia. Forçamos a portinhola do foguete, entramos naquela engenhoca saída da cabeça de Bodoni e era como se entrássemos nos seus sonhos. Ray estava com o dedo no botão de ignição e não fazíamos ideia do que ia acontecer, uma grande explosão ou um grande silêncio. Se ali não fosse o ermo que era, se houvesse por ali um menino ou um gato sorrateiro, testemunharia o ferro-velho ganhar vida e o foguete sacudir seus metais em meio a ruídos e faíscas, e escutaria o gargalhar de dois velhos amigos, dois velhos companheiros, meio bêbados de licor de dente-de-leão, seguindo rumo ao espaço, a Alpha Centauri ou Sagitário A*, para nunca mais voltar.
Para Ray Bradbury, no seu centenário. Inspirado pelo conto O foguete, publicado em 1950
Ray Bradbury. Foto: Reprodução.
A letra A de Vinícius Terra | “Máscaras de azulejo escondem o desejo”
Eu não conhecia o Vinícius Terra, nem seu trabalho, e esse é o grande encantamento da arte… a descoberta. Estou sempre atento, de ouvidos e olhos abertos, para não ficar nadando no mesmo mar. E adentrar o mar que esse artista me abre hoje nesse dia frio e chuvoso, de um mundo em indefinida quarentena, é um alento de vozes e imagens. Um alento de palavras nesse país movido pela língua portuguesa… que eu já ia dizer que Vinícius usa como instrumento, mas não é isso, não é instrumento. É essência, coisa entranhada na alma e nas demandas da vida. [Texto de Toinho Castro]
Devo dizer que num vão de ignorância eu não conhecia o Vinícius Terra, nem seu trabalho, e esse é o grande encantamento da arte… a descoberta. Estou sempre atento, de ouvidos e olhos abertos, para não ficar nadando no mesmo mar. E adentrar o mar que esse artista me abre hoje nesse dia frio e chuvoso, de um mundo em indefinida quarentena, é um alento de vozes e imagens. Um alento de palavras nesse país movido pela língua portuguesa… que eu já ia dizer que Vinícius usa como instrumento, mas não é isso, não é instrumento. É essência, coisa entranhada na alma e nas demandas da vida.
Lançada no álbum Eles não sabem a minha língua, Máscaras de azulejo é, composição do Vinícius em parceria com o beatmaker 2F U-Flow. Trançada delicadamente numa ponte harmônica com a dupla portuguesa Lavoisiernum belíssimo videoclipe, Máscaras de azulejo nos chega agora num videoclipe inspiradíssimo, dirigido e produzido de Victor Fiúza (diretor do clipe “Ok Ok Ok”, de Gilberto Gil e de documentários como “Racionais MC’s: Uma História Musical” e “Quatro Dias Com Eduardo”). Em preto & branco de renovar o fôlego, a costura fina de imagens produzidas por diversos artistas mundo afora, num jeito de superar as limitações do mundo em pandemia, amplia a dimensão da canção, recarrega de energia sua narrativa. O silêncio imposto ao feminino nessas travessias atlânticas de que se fez nossa história de nação.
Sou a letra A – última: Flor-do-Lácio, primeira a ver seus passos; Passeio, olhar no passo, teu seio alimento, embaraço; A bruxa na Inquisição, transportada à escravidão; A mucama a olhar pro chão, cruz, caravela, distorção. História mal contada, a roupa mal passada; Garganta amordaçada, carne estrangulada; Retalhada, calada, abafada, abusada, judiada, malvada, desejada, mal amada, mas… Eu sou aquela… Eu sou a fera… A trela, a outra, a cela; Índia, serra… Ásia, ilha, África, bela… Península, planície, praia, favela. Ela: Guarani, Tupy, Kaiowá à espera de quem nunca virá, nunca dirá, nunca amará, Areia, terra, água, mar, ar… Em falta, na boca de quem prova Falta trova, rainha? Eis aqui tua prova…
Escuto e vejo, presencio a força desse trabalho dilacerado e dilacerante. Que grande oportunidade me é dada de estar no lugar e no tempo de músicas assim, sem medo, sem meias palavras, sem atalhos. Impossível não ser tocado e chamado à reflexão, de ter que olhar para si mesmo e rever, continuamente, o próprio papel nessa história. Como desfazer esses nós da alma? E esse silêncio transbordante de palavras, represadas, nos movimentos violentos da colonização, da escravidão, dos porões, dos quartinhos de fundo, do fundo, do murmúrio.
Florbela Espanca, Cora Coralina, Carolina de Jesus, Noêmia de Sousa Alda Lara, Cecília Meireles, Filomena Embaló, Vimala Devi, Manoela Margarido… Sou sim: em si, em mim, em ti! Sou todas as mulheres que li, ouvi, senti! Sou cria das entranhas, filhas, irmãs Rara rima, bandeira, poesia, novas manhãs!
Máscaras de azulejo. Escuto e vejo emocionado. De novo e de novo, em looping, para fixar esses versos e essas imagens. Para não esquecer.
E agora é hora, para mim, de mergulhar no trabalho de Vinícius Terra com gosto, com a sensação incrível de ter descoberto algo poderoso.
Agostos de Haroldo de Campos
Nas décadas de 1980 e 1990, lá no Recife, vivi de ler Haroldo de Campos, e seu irmão, Augusto. Contaram-me sobre o fim do verso, que eu tanto amava, sobre a temperatura informacional do texto, uma frase da Teoria da Poesia Concreta, que eu achava ser, justamente, um verso lindo. Eu tinha esse livro, da editora Brasiliense, que eu lia tentando compreender aquele novo mundo que se abria pra mim, tão longe de São Paulo, em tantos sentidos, que eu estava. [Texto de Toinho Castro]
Em 16 de agosto de 1929 nascia o poeta, tradutor e ensaísta Haroldo de Campos, em São Paulo. Na mesma São Paulo ele veio a falecer, poucos dias depois do seu aniversário, em 19 de agosto de 2003, aos 73 anos.
Nas décadas de 1980 e 1990, lá no Recife, vivi de ler Haroldo de Campos, e seu irmão, Augusto. Contaram-me sobre o fim do verso, que eu tanto amava, sobre a temperatura informacional do texto, uma frase da Teoria da Poesia Concreta, que eu achava ser, justamente, um verso lindo. Eu tinha esse livro, da editora Brasiliense, que eu lia tentando compreender aquele novo mundo que se abria pra mim, tão longe de São Paulo, em tantos sentidos, que eu estava. Tão longe e tão perto, como se diz. Sentia-me no bairro de Perdizes ao folhear as páginas dos irmãos Campos e seu fiel parceiro, Décio Pignatari.
Eu não compreendia tudo e nem concordava com tudo. Eu não queria a morte do verso (nem eles!), mas aquilo me colocava em movimento. Aquelas páginas já haviam sido lidas, relidas, discutidas, repensadas e eu, sem dúvida, chegava bem atrasado ao debate. Mas o debate era fresco e urgente na minha cabeça. Essa é a importância dos livros… enquanto eu os lia vivia sua história e enfrentava os dilemas, contradições, com minhas ideias e discutia com meus amigos, atrasados como eu naquela festa. Para mim a poesia concreta sempre será nova e desafiante. Sempre que a acesso me ponho a pensar. Devo muito disso a Haroldo de Campos.
Pude encontrá-lo certa vez, na minha primeira visita ao Rio de Janeiro, junho de 1993 (Conto essa história aqui). Era o lançamento de Bereshith: a cena da origem, sua tradução para um trecho do Livro do Gênesis e um trecho do Livro de Jó. Aventurei-me de ônibus na noite da cidade, sem conhece-lá, até a Gávea, na livraria Marcabru. Levei comigo o meu exemplar de Qohelet/O-Que-Sabe, sua tradução para o livro de Eclesiástes que eu havia comprado há pouco na Dazibao, livraria que deixou histórias e saudades. Para Antonio, este Poema Sapiencial bíblico, que nos diz tanto ainda hoje. Foi isso que ele me escreveu na folha de rosto do livro. Depois pude escutá-lo, emocionado, recitar os versos (sim, o verso não havia morrido) do Livro de Jó, de quando Deus responde a Jó.
Com Haroldo de Campos eu li Maiakóvski e a poesia russa, li Ezra Pound, Konstantinos Kaváfis, Sousândrade, Joyce… É uma contribuição inestimável de uma pessoa para outra. E isso é somente a ponta do iceberg, porque todas essas leituras se ramificam em mil outras leituras, numa coisa que puxa outra; pois a única vida possível é puxando o fio da meada.
Tenho alguns dos seus livros, outros se perderam no caminho, mas mãos dos amigos que pegaram emprestados e nunca devolveram. Espero que tenham lhes feito o bem que me fizeram e aberto as mesmas e também outras portas. Tive um exemplar de A educação dos cinco sentidos, editado em 1985, creio. É um livro pelo qual tenho especial apreço e ao qual sempre retorno. Foi um dos que sumiram no sorvedouro de livros que são as amizades. Comprei, já no Rio de Janeiro, uma outra edição, da Iluminuras, que vem com um CD com poemas, em que recupero aquela voz que escutei há 27 anos numa pequena e querida livraria na Gávea. No livro tem o poema Ode explícita em defesa da poesia no dia de São Lukács, em que diz da poesia:
porque não tens mensagem e teu conteúdo é tua forma e porque és feita de palavras e não sabes contar nenhuma estória e por isso és poesia como cage dizia
Sempre que vou a São Paulo penso em Haroldo de Campos, na aventura luminosa da poesia concreta. É quase sempre como se estivesse em meio aos seus poemas, ao seu Galáxias, texto infinito que li no Xadrez de Estrelas e do qual Caetano Veloso inventou sua Circuladô de fulô, emanando as forças do povo, o inventa línguas. Haroldo era essa confluência de caminhos, encruzilhada que distribuía jornadas. Tenho dele a minha jornada que nunca acaba, infinita como Galáxias, a emendar uma narrativa na outra. Compondo leituras e histórias e buscando o sempre o novo, não somente pelo novo simplesmente, mas pela tradição que ele carrega.
Obrigado, Haroldo.
Carimã e açaí, ecos da criação
Há exatos 15 dias, escrevi aqui sobre um mingau de carimã que bebi em Salvador há dez anos e do qual jamais esqueci. A vontade bateu e resolvi fazer o mingau desde a produção da farinha de carimã. Pus a macaxeira de molho e assim ficou por 10 dias, sem trocar a água. Poderia ter deixado por oito.
Tirei da água, esmigalhei com as mãos, separei os fiapos grandes e lavei bastante a massa puba. Pus dentro de um pano e espremi para tirar o excesso de água. Essa massa, chamada puba, é utilizada para fazer várias coisas, mas minha finalidade era a farinha. [Texto e fotos de Raíra Moraes]
Há cerca de 15 dias, escrevi aqui sobre um mingau de carimã que bebi em Salvador há dez anos e do qual jamais esqueci. A vontade bateu e resolvi fazer o mingau desde a produção da farinha de carimã. Pus a macaxeira de molho e assim ficou por 10 dias, sem trocar a água. Poderia ter deixado por oito.
Tirei da água, esmigalhei com as mãos, separei os fiapos grandes e lavei bastante a massa puba. Pus dentro de um pano e espremi para tirar o excesso de água. Essa massa, chamada puba, é utilizada para fazer várias coisas, mas minha finalidade era a farinha. Então dispus em uma bandeja de alumínio, em cima de um pano, e pus no sol para secar.
Ali ficou dois dias porque não bate sol de forma uniforme na parte externa. De vez em quando eu subia para olhar, tirar da sombra e remanejar a bandeja para onde estivesse o sol. Devidamente seca, peneirei e bati no liquidificador o que ficou na peneira, por sugestão da minha mãe. Finalmente a farinha pronta, ontem fiz o mingau!
Ele pode ser feito com leite de coco ou de vaca. Optei pelo coco. Fiz o leite, com coco fresco e, maravilhada, vi aproximar-se a hora de experimentar de novo aquele mingau que ficou na minha memória “palativa”! Gente, que delícia! Fiquei tão feliz de conseguir fazer e de ter ficado tão gostoso!
Quem me passou a receita original do mingau foi meu querido Alicio Charoth, um grande pesquisador e conhecedor da cozinha baiana e também das PANCs. O carimã é uma farinha muito saudável, sem glúten, rica em ferro, proteínas, fibras e carboidratos. E saber que a que tenho aqui foi feita com minhas mãos, meu carinho, e sem absolutamente nada artificial, torna tudo muito gratificante e maravilhoso.
Açaí
Depois de muito refletir sobre uma das minhas recentes inquietações, a que fala sobre, se tudo acabar, eu teria feito tudo que tive vontade, tratei hoje de tirar um dos derradeiros, e preciosíssimos, sacos de açaí do congelador! Estou segurando os dois últimos a sete chaves, pois, se acabar, avimaria!
É um prazer inenarrável para nós, nortistas, beber esse ouro negro, ainda mais para quem está fora do seu habitat há anos… Esclarecendo que açaí não é essa gororoba fajuta que bebem os demais mortais que não estejam no Norte do país. Revira-me o estômago aquelas tigelas cheias de granola, guaraná, leite condensado, banana, amendoim, e sei lá mais o quê!
Entendam: o açaí é sagrado para nós, e ele é bebido puro, apenas com farinha de tapioca ou de mandioca, e, no máximo, açúcar. Eu, marajoara, e apreciadora raiz, bebo só com farinha de mandioca. Tomo açaí desde os oito meses de idade. Minha mãe conta que, lá em São Sebastião da Boa Vista, município do Marajó onde nasci, nossa vizinha batia açaí e todos os dias ela separava para mim, que era gordinha e louca por açaí, uma generosa tigela “do grosso”!
Minha irmã mais velha, Luciene, era quem ficava incumbida de dar para mim. Obviamente ela bebia mais do que eu! Imagina se ela perderia a oportunidade de tomar o açaí “do grosso”! (Esclarecendo: temos três categorias de açaí: fino, médio e grosso). Quanto mais encorpado, mais caro. As famílias mais pobres geralmente bebem o popular, o fino. E a vizinha separava o “do grosso” para mim! Ela me amava!
Hoje, minha preferência é pelo “médio bem grosso”. Os bons batedores de açaí sabem fazer isso maravilhosamente. O açaí grosso raiz é tão encorpado que são verdadeiros pedaços de polpa. Esse não me apetece muito. Mas, o “médio bem grosso” é aquele na medida de tudo.
Estamos na época de açaí! Minha mãe mandou um áudio lamentando e dizendo o quanto ela está sentindo por nós, os filhos que moram fora, não estarmos lá para aproveitar. Tudo é melhor: a qualidade, a quantidade e o preço. Pensem numa coisa linda, cheirosa, saborosa: é o açaí nesta época! E eu aqui descongelando na maior tristeza, e desespero, de acabar…