Os gatos e os artistas

Depois de passar a ter gatos, tenho percebido que muitos de meus amigxs envolvidxs com a arte: todos tem gatos, pretendem ter ou já tiveram. E eu comecei a reparar nos felinos, e vi neles uma série de pontos de congruência com o íntimo do artista. Percepção feita, e comecei a pesquisa, né? Pensem uma pessoa apegada às próprias ideias… [Texto de Eduardo Maciel]

Texto de Eduardo Maciel


Olá, minhas queridas e queridos kurumateiros!

Depois de passar a ter gatos, tenho percebido que muitos de meus amigxs envolvidxs com a arte: todos tem gatos, pretendem ter ou já tiveram. E eu comecei a reparar nos felinos, e vi neles uma série de pontos de congruência com o íntimo do artista.

Percepção feita, e comecei a pesquisa, né? Pensem uma pessoa apegada às próprias ideias… Então….

Apurei por exemplo que “Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (ABINPET), existem mais de 23 milhões de gatos no Brasil. O número cresceu mais de 20% nos últimos 6 anos segundo o IBGE 2017. O crescimento corresponde à 8% de aumento por ano, enquanto que os cachorros ficam à 4% ao ano.”(Fonte: www.folhavitória.com.br)

Dado antigo, eu sei, mas não encontrei nenhuma apuração mais recente. (Se alguém conseguir por favor deixa aí o link pra mim nos comentários)

Ok. Então de fato existe uma tendência em curso onde as pessoas no geral estão preferindo gatos a cachorros. 

Mas e com relação aos artistas? Num outro artigo, apurei que “Pessoas que gostam de gatos ou de cachorros têm personalidades diferentes. É o que sugere um novo estudo, feito por pesquisadores da Universidade Carroll, nos Estados Unidos. Os autores mostraram que os amantes de cães tendem a ser mais ativos e sociáveis, e também a seguir mais regras, enquanto os apaixonados por felinos seriam mais introvertidos, sensíveis e mente aberta.” (Fonte: www.veja.abril.com.br).

Fazendo o paralelo, acho que, assim como os felinos, artistas tendam a ser introvertidos em sua produção, além de sensíveis e de mente aberta. Eureka! Provado fica que a relação entre gatos e artistas tende a ser uma relação bem bacana e completa!

Okay, para que não digam que não posso provar, cata essa: “Na literatura os gatos sempre tiveram o lugar de figuras ilustres e veneradas pelos autores. O poeta Charles Baudelaire adorava gatos e a eles dedicou famosos poemas e muitas horas de contemplação, sendo criticado por lhes dar mais atenção do que à sua família. Edgar Allan Poe escreveu “O gato preto”, considerado um dos contos mais admirados na literatura universal, em que mostra a dualidade no homem, afetividade e perversidade.” (Fonte: www.biblioteca.pucrs.br)

Com isso, dou o braço a Bodelaire. Sem descuidar da família, né?

Precisa de mais alguma coisa? Sim! Conta essa pros teus amigos artistas que tem gatos em casa! Nunca te pedi nada, vai….


Sobre fazer casas de papel com mãos trêmulas

Uma cidade qualquer, não importa. É mister saber que são três da madrugada e que, no canto do bar, encostada na parede mofada, há uma máquina daquelas de tocar músicas. Vai lá, pega uma moeda nos fundilhos dessa calça desalinhada e desbotada e escolhe uma. Deixa por minha conta a próxima rodada. [Texto de Eduardo Frota}

Texto de Eduardo Frota


Uma cidade qualquer, não importa. É mister saber que são três da madrugada e que, no canto do bar, encostada na parede mofada, há uma máquina daquelas de tocar músicas. Vai lá, pega uma moeda nos fundilhos dessa calça desalinhada e desbotada e escolhe uma. Deixa por minha conta a próxima rodada.

É a hora do lobo – esse negócio meio assustador de estar desperto no horário em que sua velha mãe gostaria que você estivesse dormindo. É o limite entre a lucidez e a incerteza. Quando o tempo-besta se desamarra da gente feito uma linha frouxa na barra da sua melhor camisa de festa. Mente sã, corpo são. As mentiras que o seu corpo tenta esconder da sua mente são vis. É tudo em vão. 

Então estamos combinados. Vamos ouvir as nossas canções prediletas até ficarmos pobres de dinheiro e mendigos de espírito, bêbados de sono, irretocavelmente despenteados e com a boca cheia de fel e sal. A letra fala sobre um palhaço que anda em pernas-de-pau, mas que não consegue mais trabalho no circo porque seus membros todos tremem quando lembra que seus últimos números não provocaram sequer um sorriso.

O seu nariz tá ficando vermelho por quê? Ah, sim. Deve ser alergia.

O palhaço agora lamenta não conseguir fazer outra dobradura que não seja a de uma casa. O palhaço da música. Cachorro, pássaro, tulipa, pipa, carro, cavalo, desaprendeu tudo. Só lembra como dobrar uma casa no campo onde ele pode guardar seus discos, seus livros, seus camaradas de palhaçada e suas piadas sem graça. Numa cidade qualquer, não importa. É mister saber apenas que há um coreto bem no meio da praça.

Os seus olhos estão ficando vermelhos por quê? As, sim. Deve ser afasia.

Acontece que estão acabando as músicas e as moedas. Sempre acontece. E o que a gente faz com a dignidade que ainda nos resta? Ah, mas que merda! Agora é hora do solo de violão e a essa altura o palhaço já decidiu que vai virar domador de leão nessa vida. É uma função bem menos arriscada. Pior seria vender algodão-doce colorido na entrada. Puta que pariu, imagina?

Seu nariz e seus olhos estão ficando arregalados por quê? Ah, sim. Deve ser a hora em que vão jogar sabão nos nossos pés e virar as cadeiras vazias de ponta-cabeça apoiadas em cima das mesas. Não, não quero rachar um táxi porque acordei fora de hora, meio lobo, só vou me desdormir mais tarde. Vou seguir a pé por aquela rua vazia ali que mais parece reflexo de espelho de banheiro.

Um olho vermelho no picadeiro e o outro parado palhaço na Lua cheia.


Aponte para aquela janela: A arte e a poesia de Diego Garcez

Conheci Diego Garcez anos atrás, no Recife. Trabalhamos juntos num projeto, envolvendo TI, dados, formulários e afins. Feito isto, passou-se o tempo. A gente se desconectou e não soube dele por alguns anos. Tempo que passa pra todo mundo enquanto tece reencontros. Acabou que reencontrei Diego recentemente, pelas vias do Facebook, aquela troca de surpresas. Surpresa maior a minha, pois reencontrei uma outra pessoa da que eu conhecia. Isso deve ser alguma espécie de oxímoro… deve haver uma figura de linguagem para isso, reencontrar uma pessoa que é nova pra você! Reencontrei um Diego artista, poeta, longe do Recife, de âncora lançada em Lisboa. [Desenhos e poemas de Diego Garcez]

Conheci Diego Garcez anos atrás, no Recife. Trabalhamos juntos num projeto, envolvendo TI, dados, formulários e afins. Feito isto, passou-se o tempo. A gente se desconectou e não soube dele por alguns anos. Tempo que passa pra todo mundo enquanto tece reencontros. Acabou que reencontrei Diego recentemente, pelas vias do Facebook, aquela troca de surpresas. Surpresa maior a minha, pois reencontrei uma outra pessoa da que eu conhecia. Isso deve ser alguma espécie de oxímoro… deve haver uma figura de linguagem para isso, reencontrar uma pessoa que é nova pra você! Reencontrei um Diego artista, poeta, longe do Recife, de âncora lançada em Lisboa.

Seus desenhos me encheram os olhos, cadenciados em versos. Que beleza! Na mesma hora pensei na Kuruma’tá, que cairiam muito bem mas páginas da Kuruma’tá. E aqui estão seus trabalhos, e até um flagrante do seu atelier, onde nascem essa imagens instigantes, que nos demandam pensamentos, que nos agarram pela retina. Algo de selvagem, algo de contido, algo de poético.

Que bom no meio de uma pandemia, de uma quarentena sem fim, surgir assim uma beleza que nos encanta e comove. Que beleza, Diego! Que reencontro bom. Seja bem-vindo à Revista Kuruma’tá! Sinta-se em casa.

Espero poder dia desses, sentar contigo num café em Lisboa e conversar sobre poesia e arte e sobre os dias.

— Toinho Castro [Editor]

PS. Essa conexão da Kuruma’tá com Portugal tá ficando séria!

Desenhos e poemas de Diego Garcez


canetas diversas sobre papel canson 180g A3

you love the ocean
because you are
this

sometimes
violent
sometimes
violet


canetas diversas sobre papel A3

Qual lado? Da Ponte 25 de Abril

Quando volto
E passo
Por baixo

Converso
Com o diabo

Explico
A ele
Que não adianta
Marcar hora
Com o outro
Lado

O esboço do nosso corcovado

Porque com o trânsito
Lá de cima
Ele estará
Sempre

Atrasado


Canetas e lápis diversos em papel Canson A3 180g

Os Fios Que Juntam
Afastam

Casal de namorados
Que ainda não se viram
Tropeçarão
Como fios desencapados
Numa festa
Daqui a sete anos
Beberão o fim dos goles
Tomarão
Um comprimido barato
E quando loucos
Descobrirão que há sete anos
Moraram lado a lado
Vão achar que era a bala
Mas foi placebo
feito
Com o papel
Desse desenho

Nanquim e Canetas Coloridas em papel A3 180g

a janela
olhou-me
e disse
pode apagar a luz?


canetas diversas sobre papel canson 180g A3

Há sempre
essa coisa da morte

essa coisa de ir-se

E se metade ficar
metade já foi?

Há sempre a parte morta
Que vive

Escorada
Na parte viva
Que

Não sabe o que fazer
Porque ainda não
Aprendeu
A morrer

Então vive a escorar-se
Nessa coisa de ir-se


Canetas diversas sobre papel Canson 180g A3, ao som de Androginismo, Almério

Se
Todo mundo
Fosse filho de
Filho de

Ninguém seria filho da
Filho da

Sonhei contigo, Almério
Comíamo-nos
Deglutinávamo-nos
Em pedaços grandes
De osso e prato

Após
Esse amor

Era tango
Bailávamos

Carnavalize
Almério

Frescalize-se

Viadize-se

Para nos Carnavalizarmos
Frescalizarmo-nos
E viadalizarmo-nos

Sem isso, o mundo fica uma merda
Preto de um lado, branco do outro
Uma merda!


Vendem-se Calçados Para Enfrentar a Vida

No começo
Fizeram-me de monstro

Pintaram-me
De ausência

Retiraram
meu nome

Jogaram-me
No lago de peixes
devoradores de sobressaliências

Saí
Tranquilo

Andava ainda mais
Erguido

Logo
Tiraram os moldes
Pediram amostras

E fizeram
De mim
Modelo

Para suas botas


Cuspi
pra dentro
O Abaporu
De fora

E comi
pra fora
O Abaporu
De dentro

Fiquei assim

Naquim sobre papel Canson 180g A3

Hoje não teria
Nada
Não fosse
Uma ida
Na esquina

E esse gato

A arranhar
Meu juízo
Azucrinar
Meu instinto
Ferrar
Minha libido

Vai-te embora
Misera

Foi-se
Agora é teu

Vira-te-vira


La ursa não quer dinheiro
Porque La ursa é pirangueiro
(salvou foi muito)

La ursa sente falta
É do que faz falta

Por exemplo
Enxergar
Quem está vendo

Por dentro
De si mesmo


Esse é meu atelier, chama-se faço a mínima ideia. Não, esse não é o nome, poderia, mas não é. Ando com muita dificuldade para nomes. São irmãos de definições e ainda não as tenho como artista, espero nunca tê-las como pessoa. Mas já tenho atelier, chamo de “tamanho”? Porque daqui vai ser difícil trabalhar com coisas maiores e as mais sujas.

Não importa, vou preparar melhor com o tempo, tenho ansiedade, mas não pressa. São coisas distintas. Se estiver em Lisboa, venha me visitar. Quem sabe lhe desenho aqui, tens tempo? Podemos tomar um vinho e falar de literatura, ando a escrever um livro. Tudo parte daqui.
Se estiver longe, visite-me diariamente. Todas as obras estarão à venda, exceto as que tem preço.

Importante avisar: a principal obra será sempre a janela. Chamo de “studio aponteparajanela” ?


Dentro da estrela azulada — Parabéns, Caetano

Hoje é aniversário de Caetano Veloso. Tá tendo live dele, na internet, e eu to ouvindo aqui ele cantar O homem velho, com uma voz delicada, velha, linda. Não conheço Caetano, não convivi com ele, não tenho foto com ele. Sou o que se chama de fã. Uma palavra meio rejeitada e confusa, mas reivindico pra mim essa palavra desgastada e cafona. E fazendo isso ouso aqui desejar a Caetano parabéns, feliz aniversário, saúde, felicidade e essas coisas boas que a gente que pra quem é do nosso afeto. [Texto de Toinho Castro]

Hoje é aniversário de Caetano Veloso. Tá tendo live dele, na internet, e eu tô ouvindo aqui ele cantar O homem velho, com uma voz delicada, velha, linda. Não conheço Caetano, não convivi com ele, não tenho foto com ele. Sou o que se chama de fã. Uma palavra meio rejeitada e confusa, mas reivindico pra mim essa palavra desgastada e cafona. E fazendo isso ouso aqui desejar a Caetano parabéns, feliz aniversário, saúde, felicidade e essas coisas boas que a gente que pra quem é do nosso afeto. A voz de Caetano é, pra mim, a voz de um pertencimento. Quando ele canta eu estou cantando, quando ele canta eu sou baiano de Salvador, de Santo Amaro da Purificação, daqueles sertões fronteiriços com Pernambuco, com o rio São Francisco dividindo o mundo.

Não me canso de Caetano, desde que o escutava no meu quarto miúdo, na Imbiribeira, longe de tudo. Escutava aquele disco lindo, Muito – Dentro da Estrela Azulada, com ele na capa, com a cabeça deita no colo da mãe. Quem faz uma capa de disco assim? Caetano fez. Dona Canô acariciando os cabelos do filho, uma imagem de mãe e de terra, como a Terra da canção que abre o disco, uma das canções mais importantes que já escutei. E nossa, eu escutava Cá Já, e escutava de novo e de novo, muitas vezes. São João, Xangô menino, que coisa bela de se escutar.

Caetano me deu esse cruzamento dos caminhos da fé, me deu essa crença sem vergonha, um chamamento diverso de povos. Adoro escutar essa palavra, Xangô. Ele canta e está dito, e Xangô ecoa onde estou. E eu que venho do Nordeste, do dentro junino, cada vez que escuto essa música é uma celebração da saudade. Viva o milho verde! Esse disco dá é vontade de chorar, escutando sobre o errante navegante, quem jamais te esqueceria. Não conheço Caetano mas ele é um grande amigo e esse disco é a prova disso. Esse e Cinema transcendental.

Toda vez que escuto Trilhos urbanos parece que é a primeira vez que escuto, é a mesma surpresa, a mesma frescura que sai dali, daquela melodia, daquele poema que se dá em música. Era tanta descoberta nessa disco… Quando achei ali no fim do lado A, inesperada, Elegia, feita de um poema de John Donne, que eu já amava, por causa de Augusto de Campos. Augusto, o Augusto, ali num disco, vertendo John Donne para o português e Caetano desfiando do poeta inglês Minha América, minha terra a vista! Discos de aprendizado. E digo, são muitos discos, muitas músicas alinhadas planetariamente com a gente, desde que o samba é samba.

É uma trilha sonora que atravessa desertos, BRs Brasil adentro, florestas, manguezais recifenses. Quando Caetano canta o tempo para, o tempo passa, o tempo se desmancha nas mãos da gente, areia de ampulheta. O melhor o tempo esconde, longe muito longe, mas bem dentro, aqui. A tradução dos anos, como isso mexe comigo, como isso norteia pensamentos meus nessa cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Escuto Caetano e penso na minha mãe, dona Lenira, lá em Natal, nascida em 1936, e que saiu pelo mundo com seu Antonio, meu pai. E enquanto esses pensamentos me acometem, Caetano canta na sua live, com seus filhos adultos.

Quando eu estava lá na Imbiribeira, ouvindo Muito pela primeira vez, não havia internet, não havia live… ou melhor, o mundo era uma grande live; e hoje, com tantas lives, o mundo parece playback. Mas quando parece a velha fita a rodar de novo, Caetano canta sua sua live, com sua voz de um senhor de 78 anos, e é essa voz que rejuvenesce suas canções. É com essa voz que ele diz que o mundo ainda é novo. É com essa voz que a gente se reencontra com aquele rapaz na capa de Cinema Transcendental, cabeludo, sentado na praia, olhando o mar. Uma vez estive em Salvador, e sentei sozinho na praia, assim mesmo, olhando o mar. Me senti Caetano Veloso. Que coisa boa.


Lançamentos preciosos pra escutar, curtir e compartilhar!

Viva e cheia de energia como poucos nessa pandemia, a música brasileira não para. Não para de surpreender, de alegrar e iluminar nossas vidas em meio a essa confusão em que nos metemos, ou nos meteram, ou ainda um tanto dos dois! Hoje, numa sexta-feira, aniversário de Caetano Veloso e já encostando no Dia dos Pais, fica a dica dessa pérolas preciosas lançadas ao vento, pra gente botar pra tocar e aumentar o volume, pro som das caixas se sobrepor à distopia que quer acinzentar o horizonte.

Amor eterno de Marcelo Correia e Bad in Bahia de Octavio Cardozzo, com participação de Luiza Brina, chegando nas plataformas digitais!

Viva e cheia de energia como poucos nessa pandemia, a música brasileira não para. Não para de surpreender, de alegrar e iluminar nossas vidas em meio a essa confusão em que nos metemos, ou nos meteram, ou ainda um tanto dos dois! Hoje, numa sexta-feira, aniversário de Caetano Veloso e já encostando no Dia dos Pais, fica a dica dessa pérolas preciosas lançadas ao vento, pra gente botar pra tocar e aumentar o volume, pro som das caixas se sobrepor à distopia que quer acinzentar o horizonte.


Amor eterno

Marcelo Correia e sua filha, Liz – Foto de Priscila Rabello

Marcelo Correia é músico e é pai, e desse encontro de destinos a gente recebe essa canção linda, de afeto, composta e gravada em meio à pandemia e quarentena. Amor eterno, essa novíssima é sobre estar perto estar junto, viver esse diálogo contínuo de pai e filha, ou filho, todo mundo aprendendo a criar saídas quando tudo parece estar fechado. E as saídas estão, claro, no encontro, no brincar, no reconhecer uns aos outros como seres lúdicos.

Na sua própria infância Marcelo já vivia música, e depois já adulto, depois de dez anos trabalhando na tal da indústria farmacêutica, resolveu viver de música, que no fundo é viver da infância que a gente carrega. O nascimento da filha deu rumo, deu norte e um tema. “De repente, passei a escrever músicas sobre a paternidade e a nova rotina de dono de casa”. Que bom que isso se deu assim e a gente tem hoje suas canções pra escutar e refletir sobre essa relação que todos nós vivemos, seja por um lado ou outro.

Lençol e cadeiras são cabana para se montar
Se não há parque, o sofá é nosso pula-pula
Se não há praia, monto a banheira, a gente imita o mar
Na brincadeira a gente vai para qualquer lugar

Amor eterno já está disponível nas plataformas de streaming e já pode tocar na sua casa e clarear a quarentena, mesmo que você não tenha filhos, porque é mesmo uma canção do amor.


Bad in Bahia

Duas criaturas de Minas Gerais chegando juntas nesse 7 de agosto com uma parceria linda. Bad in Bahia é a música nova de Octavio Cardozzo, com a Luiza Brina, segunda de uma tríade de singles que prenunciam o disco Tá todo mundo mal, seu terceiro álbum! E gente, essa música tem uma história linda pra ser contada. De novo, história de encontros. Dois anos atrás, Octavio viu Luiza performar com Julia Branco uma canção dos Paralamas do Sucesso, Mensagem de amor, no show Soltar os cavalos, da Julia. Aquele arranjo da Luiza pro sucesso dos Paralamas deixou Octavio ligado e naquele mesmo dia ele compôs Bad in Bahia, com direito a citação de Back to Bahia de Luiza, que por sua vez conversa com Gil e Caetano e Bethânia! Olha só quantas conexões, quantos curto-circuitos acontecendo pra uma música assim vir à tona. Só pode ser mesmo bonita e bem-vinda.

É uma honra ter influenciado o Octavio de alguma forma a fazer essa música. — Luiza Brina

E é claro que Octavio trouxe Luiza pra música. Ela gravou remotamente sua participação e nisso as pontas da história se juntam, caminhos que se encontram misturando tanta coisa boa numa música linda. E enquanto Tá todo mundo mal não chega, a gente curte Bad in Bahia, com direito a esse videoclipe produzido por Peleja Lab!

Bad in Bahia também está disponível também nas plataformas de streaming!

E se alguém te disser que a música brasileira não é mais a mesma, que tá morta ou qualquer heresia parecida, você manda essas canções pra pessoa, pra ela despertar pra esse mundo novo que surge todo dia pro cancioneiro nacional! Né?!

Dicas preciosas direto da Belmira Comunicação, que já é parceira das ideias!


Tenho quase

Quase é um advérbio. É uma palavra invariável que funciona como um modificador de um verbo. Ela tem me modificado. Afinal, tenho quase 30. Tenho quase coisas. Quase eu consegui. Quase acabou. Quase eu recebi. Quase eu fui contratada. Foi por pouco. Foi quase. Quase. Quaaase, rapaz [Texto de Caru]

Texto de CARU


ETIM lat. quasi ‘do mesmo modo que; como; pouco mais ou menos; como se, aparentemente’ .

Quase é um advérbio. É uma palavra invariável que funciona como um modificador de um verbo. Ela tem me modificado. Afinal, tenho quase 30. Tenho quase coisas. Quase eu consegui. Quase acabou. Quase eu recebi. Quase eu fui contratada. Foi por pouco. Foi quase. Quase. Quaaase, rapaz.

Modificador de realidade. Realidade parada. Uma realidade parada que você sente não parar. Mesmo que precise. Você vive sem tempo num momento em que tempo é, em tese, o que você mais tem. Quase entreguei. Atrasei. Desculpa! Amanhã eu entrego. 

Eu quase fiquei essa quarentena sem escrever. Quase. Pois aqui estou. Quase finalizei um curso. Quase que não finalizei outros (mas fiz). A preguiça era grande. Ainda bem que noutro dia eu meditei. Voltei a meditar. Porque se não…Quase ia tudo por água abaixo. Nesse tempo tenho aprendido muito. Acredito que você também. Eu espero. O aprendizado desses últimos dias tem sido: não me julgar. Porque pra mim, muita coisa, tem sido quase. Outras não, por supuesto. Tenho praticado bastante meu espanhol. Os cursos que finalizei foram ótimos. Mas enquanto escrevo agora, penso: quem precisa ler isso? Tem sentido? Acrescentará algo no dia de alguém? Autossabotagem do inferno. Pelamordedeus. Compus músicas novas. Quer ouvir? Pode ser que pra mim seja um outro quase. Um pouco mais ou menos. Mas se modificar uma só pessoa, em alguns segundos, já valeu. Um verbo modificado. IR. SER. DANÇAR. SORRIR. CHORAR. LIGAR. VOAR. VOLTAR. Como se diz?

Cara, tem sido difícil. E agradeço quem me segura pra não cair. Quem segura minha mão. Ou minhas costas. Ou sobe o ombrinho quando ele dá aquela caída. Meu sogro, nesse instante, me receitaria seis gotinhas de clonazepam. Eu espero seis horas ou seis dias e passa. É preciso viver uns dias de quase. Assim, dou valor ao dia que se completa. Ao dia de conquistas inteiras. Repleto de alegria. Só assim, conhecendo um, sei que é no outro que quero estar. Conjugue agora comigo o verbo modificado conseguir:

Eu c_____
Tu c_____
Ele c_____
Nós c____
Vós c____
Eles c____

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Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa: Gravidade zero

Você quase esqueceu. Cadê neurônio depois de tanto álcool na cabeça? A única lembrança que ainda lhe resta daquela noite foi o salto: apostou – dizem que foi a dinheiro, mas isso você faz questão de não lembrar – com os amigos na festa para ver quanto tempo cada um levaria para tocar o chão, pulando do alto da janela do segundo andar da casa. [Texto de Fábio Fernandes]

Texto de Fábio Fernandes


O primeiro porre a gente não esquece.

Você quase esqueceu. Cadê neurônio depois de tanto álcool na cabeça? A única lembrança que ainda lhe resta daquela noite foi o salto: apostou – dizem que foi a dinheiro, mas isso você faz questão de não lembrar – com os amigos na festa para ver quanto tempo cada um levaria para tocar o chão, pulando do alto da janela do segundo andar da casa.

Você também não lembra que foi o único, que todo mundo riu da sua cara, que você estava tão bêbado que não sabia. Você tinha dezesseis anos e achava que sabia de tudo. Achava inclusive que conseguiria retardar o salto em pleno ar e descer suavemente, como uma pluma, um saco de plástico.

Você ainda não havia estudado fenomenologia da percepção e outros babados, a noção de tempo interno do observador, etcétera, etcétera. Foi por isso que o salto durou para sempre, sua besta.

Mais tarde, você seria levado ao hospital com fratura múltipla no braço esquerdo e na clavícula, mas o médico, que se chamava Newton (isso você não vai esquecer tão cedo) examinaria as chapas de raios-x e diria simplesmente: não houve gravidade. Você acha que ele estava tirando um sarro da sua cara.


Sobre a depressão

Verdade: quando escrevo, me sinto em transe, me sinto repleto, me sinto útil e me sinto atendendo ao meu chamado nessa vida.
Pena saber que nem todo mundo se abre pra encontrar coisas que apenas existem no plano dos sonhos, e aproveito que estou compartilhando com vocês essa reflexão para convida-los a fazê-lo. Deixem seus interiores lhes mandarem mensagens! [Texto de Eduardo Maciel]

Texto de Eduardo Maciel


Olá, queridxs kurumateirxs!

Hoje venho compartilhar com vocês um pouco de como o Sol começou a brilhar para mim, após um período bem triste de depressão…
Mas antes de falar da minha experiência, queria frisar que depressão não é um mito, não é frescura, não se trata de capricho ou falta de força de vontade. Depressão é doença, e como todas as doenças, carece de tratamento médico especializado. Quem já teve sabe!
Há algum tempo, já em um lugar de superação e distanciamento dessa terrível doença, comecei a pensar nas causas que me levaram a ficar deprimido, e dessa análise surgiram temas.
Vários temas chegaram, cada um a seu momento, e nesse meu artigo, quero contar pra vocês sobre as reflexões que fiz nas searas da literatura, da educação e da arte.
Em outubro de 2018 eu estava preparando o lançamento do meu primeiro livro.
Já tinha feito o meu encontro com os sonetos e já tinha um objetivo para canalizar nisso minha energia criativa. Delícia de encontro, aliás. Para ser sincero, um encontro definitivo e que seria o abre-alas para tantos outros encontros: me encontrei com a clareza sobre quem são os meus amigos de verdade, com a abertura emocional para fazer novos.
Me encontrei com um emprego que amo (não se vive de arte no Brasil, e eu sou muito ciente da realidade, por mais que não consiga deixar de flertar sempre com a fantasia).
Me encontrei afetivamente e com isso abracei outros tipos de afeto: crianças sempre me movem, e nesse caso específico me mostraram a importância da educação familiar, e como é gratificante me sentir parte de algo assim.
Me deparei com mais dois lançamentos de livro, com prêmios, reconhecimento vindo do meu público (ao qual humildemente sirvo), venda de minha obra, críticas a ela: em maioria boas, graças ao Universo e aos deuses que protegem as mãos de quem empunha uma caneta ou digita o resultado da conexão segura em banda larga entre a mente e o coração.
Dei de cara com desafios de continuidade, antologias, da difícil tarefa de ser jurado de um concurso literário pela primeira vez. Acreditem: se trata de uma responsabilidade imensa.
E me deparo agora com o grande significado que tudo isso revela para mim, porque quando escrevo (seja em prosa ou em verso) experimento um prazer indescritível.
Verdade: quando escrevo, me sinto em transe, me sinto repleto, me sinto útil e me sinto atendendo ao meu chamado nessa vida.
Pena saber que nem todo mundo se abre pra encontrar coisas que apenas existem no plano dos sonhos, e aproveito que estou compartilhando com vocês essa reflexão para convida-los a fazê-lo. Deixem seus interiores lhes mandarem mensagens!
O resultado do balanço no meu caso é com certeza positivo, talvez o mais positivo de toda a minha vida, e quero agradecer a todos vocês que estão lendo essas palavras, por tornarem a minha experiência própria uma ferramenta útil para qualquer pessoa.
Deixem o Sol interior brilhar!
Inté!


Astronautas

A imagem não é muito boa, há sempre algum ruído e a gente sente o esforço dos dados, dos pixels, para migrar entre nós, carregando as imagens de uns para os outros. O som é sempre um pouco metálico, estranho, sempre um pouco fanhoso, porque nossos microfones e altofalantes, ou fones de ouvido, não são mesmo grande coisa. Então enquanto eu converso com alguém, tento filtrar aquele som pela memória, a fim de recuperar a voz da pessoa. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


A imagem não é muito boa, há sempre algum ruído e a gente sente o esforço dos dados, dos pixels, para migrar entre nós, carregando as imagens de uns para os outros. O som é sempre um pouco metálico, estranho, sempre um pouco fanhoso, porque nossos microfones e altofalantes, ou fones de ouvido, não são mesmo grande coisa. Então enquanto eu converso com alguém, tento filtrar aquele som pela memória, a fim de recuperar a voz da pessoa. A fim, na verdade, de não perdê-la, como aos poucos vamos esquecendo a voz dos mortos. Então, cada palavra dita é ouvida com atenção, é polida, burilada, até que, por fim, a pessoa esteja ali, naquela voz. Sempre haverá uma dúvida… a memória sempre tem algo de armadilha. Mas é o que temos… tudo pede essa contraprova. Por fim, há o delay. Há sempre um delay. Você sabia que a luz do sol leva 8 minutos para cumprir seu caminho até a terra? Se o sol apagasse sua fornalha neste exato instante, levaríamos oito longos minutos para descobrir. Com algum aviso de antecedência, poderíamos aproveitar esses oito minutos da melhor forma, estirados na grama dos parques, até o mundo acabar. Pelo menos os que estivessem no lado iluminado do planeta.

Com o som não é diferente. Na mesa do bar, com as amizades, toda a conversa parece acontecer imediatamente, em tempo real, mas a verdade é que as palavras viajam pelo ar, graças ao ar, e levam um tempo, ainda que mínimo, imperceptível, para chegar a quem está ao seu lado ou do outro lado da mesa. Na transmissão de vídeo, a qual estamos resignados, a pessoa chega até você com um atraso evidente. Muitas vezes a voz se desencontra do movimento dos lábios, perdendo a sincronia, nas duas direções da conversa. Às vezes isso causa pequenas confusões, sobreposições de falas e risos. E, eventualemnte, algo se perde.

Sinto como se estivéssemos, cada um de nós, vivendo em estações espaciais, orbitando a terra, quilômetros acima da superfície. Em tudo que fazemos há certa falta de gravidade. Olhamos pela janela e vemos um mundo silencioso a girar em torno do próprio eixo, no seu ciclo infindável em torno do sol, esse mesmo sol que leva oito minutos para nos alcançar. Entre nós e o mundo, entre cada uma dessas estações espaciais, também a girar em torno de um eixo, temos essa espécie de vácuo, que se estende longamente, alcançando mesmo a vida interior de cada astronauta, que parecemos ser, em seu isolamento, em seu núcleo familiar, por trás de cada janela que dá para esse planeta ao qual ansiamos retornar. Ao qual acabaremos por retornar, posto que a cada volta parece que estamos mais próximos, perdendo pouco a pouco a altitude. E enquanto isso sinais de vídeo, de áudio, bits, pixels, vão sendo arremessados de uma estação a outra e a outra e a outra. Conversas cruzadas, telegráficas, cansadas, intensas, sobre o mundo lá fora, sobre as pessoas que queremos ser quando enfim… quando enfim o que? Quando o mundo for novo outra vez? Quando o medo cessar? Quando eu ou você pisarmos na rua, como um Neil Armstrong tardio, redescobrindo o que sempre esteve ali? As árvores, as pontes, as longas avenidas, o rio Capibaribe, a padaria na esquina.

Até lá, nossos aparelhos monitoram as condições do ar, das superfícies, das ruas; e volta e meia alguém arrisca uma caminhada lá fora. Máscara no rosto e andar hesitante, quase arrastando atrás de si um fio de ariadne para não se perder, para poder voltar antes que caia a noite, a tempo de uma última videochamada que ilumine o quarto escuro. Já notou isso? Quando um rosto aparece na tela do celular, uma luminosidade nos acerta; uma claridade. O tom da luminosidade sobe. É um alento. As telas são nossa fonte da luz que cada um carrega em si. Cada ponto de luz, em cada casa… uma pessoa.

E falamos de cá e de lá, disso e daquilo, puxamos assunto como quem puxa o ar para respirar. Como se a conexão pudesse cair se ficássemos em silêncio; como se o que nos ligasse fossem as palavras. Eu e você, num bar, estaríamos possivelmente calados, bebendo nosso chope ou nosso vinho, na delicadeza de nada ter que falar. Satisfeitos em estar ali, lado a lado, brindando, talvez, ao silêncio. Esse silêncio impossível nas teleconferências que seguem preenhendo a falta do contato físico, em que precisamos preencher cada instante com algo a dizer. Cada vez mais, enquanto fundamos no vazio do cosmo, nos tornamos voz. Nos tornamos o inatingível, algo imaginário, uma possibilidade, uma potência. Enquanto respondermos às chamadas, tudo bem…

Olho pela escotilha da minha estação espacial, do meu laboratório cuja experiência sou eu, e anseio o mundo. O celular na mesa, calado, denuncia meu maior medo, o “silêncio no rádio”; todas as estações fora do ar, solitárias em suas órbitas. Um zunido, um ruído de fundo, daquela explosão em que tudo se originou, para terminarmos assim, isolados uns dos outros, construindo pontes imaginárias que podem ruir como qualquer ponte.

Espero que não. Espero reabrir a escotilha num dia de verão.


Os sabores da cultura popular

Chega-nos nesse sábado inverno, com fiapos de sol, ecos da culinária brasileira, pela voz afetiva da paraense de Marajó, criada em Belém, Raíra Moraes. Apaixonada por música e cultura popular, Raíra faz pesquisa nessa área há uns dez anos, sempre atrelando música, culinária local e manifestações de raiz. Só muito amor pela gastronomia, por enxergá-la como cultura e veículo das tradições e história do povo, das gentes desse país enorme e profundamente culinário. Onde se vai encontram-se sabores, combinações inesperadas de ingredientes e descobertas. Com esse olhar e, claro, paladar, Raíra compartilha com a gente suas impressões e experiências. [Texto de Raíra Moraes]

Chega-nos nesse sábado inverno, com fiapos de sol, ecos da culinária brasileira, pela voz afetiva da paraense de Marajó, criada em Belém, Raíra Moraes. Apaixonada por música e cultura popular, Raíra faz pesquisa nessa área há uns dez anos, sempre atrelando música, culinária local e manifestações de raiz. Só muito amor pela gastronomia, por enxergá-la como cultura e veículo das tradições e história do povo, das gentes desse país enorme e profundamente culinário. Onde se vai encontram-se sabores, combinações inesperadas de ingredientes e descobertas. Com esse olhar e, claro, paladar, Raíra compartilha com a gente suas impressões e experiências. Bem-vinda, Raíra, à mesa da Kuruma’tá!

Texto e fotos de Raíra Moraes


Mingau de curimã

Há uns dez anos, na penúltima vez que estive em Salvador, passando por uma passarela, vi uma senhora toda de branco, uma carinha com um sorriso lindo, sentada com algumas panelas ao seu redor e uns paninhos alvíssimos cobrindo-as. Resolvi me aproximar e experimentar o que tivesse de diferente ali. E eis que ela me ofereceu o mingau de carimã!

Eu amo mingau! E, esse, assim como o de tapioca, o de arroz com castanha-do-Pará, o de buriti e o de banana verde, que tomo em Belém, me pegou de cheio! Nunca tinha ouvido falar desse “tal” carimã… Mas, foi amor de primeira! A textura macia, tenra, suave e, ao mesmo tempo, forte, e saborosa foram tomando conta das minhas papilas gustativas.

Pronto, viciei! Todos os dias, precisando, ou não, eu subia aquela passarela, movida pelo desejo de tomar o mingau, exatamente igual àqueles desenhos animados onde os personagens saem voando, levados pelo cheiro de comidas deliciosas. Depois disso, retornei em Salvador uma única vez, mas, nunca mais encontrei esse mingau…

E, estes dias, ele tem estado na minha memória “palativa”. Égua da vontade! Resolvi, então, eu mesma fazer! Iniciei minha pesquisa para produzir todo o processo, desde a puba, matéria-prima do mingau. Hoje comecei a tratar a macaxeira. Ela ficará mergulhada nessa água, com a panela tampada, por uns dez dias, que é quando estará pronta para a feitura da puba. Vai dar um trabalho, mas a saudade do mingau é maior! Às vezes, precisamos mais de coragem que de disposição!

Meu ovo caipira de cada dia

Não é linda essa imagem? E o sabor mais ainda! Há quatro anos consumindo diariamente dois ovos caipiras quentes, não consigo mais imaginar meu desjejum sem eles. Para onde quer que eu viaje, saio carregando comigo algumas dúzias. Seja em avião, ônibus, carro, barco, e sem quebrar nenhum! Os amigos rolam de rir ao me verem chegar com uma montanha de ovos. Mas, ovo caipira de verdade não se encontra em todo lugar e, mesmo quando encontra, o acesso não é tão simples. Um dos alimentos mais completos que existem, riquíssimo em vitaminas. Bora comer ovo!

Camarão e resto’s

E hoje fiz uma receita do maravilhoso chef paraense, e um dos maiores do Brasil, Paulo Martins! Ele foi o primeiro a experimentar, criar e utilizar as riquezas dos sabores amazônicos na gastronomia, e foi responsável pela divulgação dessa culinária pelo mundo, e não o Alex Atala, como erroneamente muitas pessoas acham. Aliás, o Atala aprendeu tudo de gastronomia amazônica com o Paulo! “Camarão a resto’s” é uma receita de camarão com molho de bacuri. Bacuri é uma fruta super cheirosa, e deliciosa, que temos no Pará, cujo sabor adocicado, e levemente ácido, combina perfeitamente nessa receita. Gente, divino.