A crítica como dádiva para a profanação do papão da crítica

A crítica, por não ser polifónica, também porque o espectador comum ausenta-se frequentemente da função de dar voz à potência da criação, posicionando-se tantas vezes na mudez – posição confortável e desresponsabilizada ou temerosa, sintetizada num simplificado “gostei”, ou “não gostei” (lá está, o valor) – constitui-se assim como o papão em termos de autoridade pouco dialógica. Estremece [Texto de Ricardo Seiça Salgado – Festival Linha de Fuga]

Texto de Ricardo Seiça Salgado

Membro do grupo informal auto-organizado Crítica de Fuga, para o Festival e Laboratório Internacional de Artes Performativas – Linha de Fuga | 12 Set. a 4 Out. 2020, em Coimbra.


Fotografia de Augusto Fernandes

A crítica das artes performativas tornou-se num papão na cabeça do senso comum, pelo menos no seio das artes performativas: existe e não existe; quer-se-lhe mal mas anseia-se a sua presença; teme-se e deseja-se. A palavra parece contaminada, repleta de paradoxos e geradora de medo. Perdeu-se a crítica por razões económicas e, de certa forma, por razões políticas. Talvez tenha acontecido isto por se ter tornado rara e pela ênfase da sua dimensão valorativa, comprometendo uma ética da receção que é contextual e sociopoliticamente determinada (mesmo que na democracia ela se almejar consentida), tornando uma parcialidade empoderada e aparentemente empoderadora numa totalidade.

A crítica, por não ser polifónica, também porque o espectador comum ausenta-se frequentemente da função de dar voz à potência da criação, posicionando-se tantas vezes na mudez – posição confortável e desresponsabilizada ou temerosa, sintetizada num simplificado “gostei”, ou “não gostei” (lá está, o valor) – constitui-se assim como o papão em termos de autoridade pouco dialógica. Estremece. Nas placas tectónicas a crítica de fuga não pretenderá ser essa “crítica curatorial” do que deve ser e, por isso, profanamos a crítica para devolver ao comum a possibilidade da sua dessacralização.

O problema é sempre o posicionamento de Deus-coisificado no seio do papel que cada um tem nas artes (veja-se o recente posicionamento do “Deus-curador”, ou do “Deus-programador”, pouco abonatório para os projetos emergentes). A democracia chama-nos e por isso, por mim, inspirado no fluxo de Rancière, vimos aqui tomá-la como espaço predileto de quem joga o seu papel de espectador emancipado, na produção de um mundo plural pelo sensível – menos julgamento e mais o assumir da sua posição entrelaçada no círculo mágico que constitui a arte da performance, numa perspetiva de construir as grelhas de análise percetivas de um encontro artístico e sociopolítico, e assumir a forma como somos afetados e afetamos, ao nível do sensível e do pensamento, como um possível guia por vir.

Procurar, então, formas de relação emergentes que façam da realidade artística uma ficção persuasiva da existência em conjunto, um trabalho de tradução das traduções enquanto encontro que, no meu caso específico, gostaria que se conectasse com o pensamento crítico e experimental, cruzado com os saberes socio-humanísticos. Interessa, então, o como perceber determinada lente do mundo que clarifique ou ensaie novas relações com as coisas da vida individual e coletiva ou, por outras palavras, entrar num diálogo do mundo e das suas possíveis cosmovisões, que nos abram novas perspetivas de ser-estar através da arte.

A crítica é chique mas aparece cerceada nos efeitos do que a constitui como reação, talvez porque apenas ande à procura dos buracos (mais uma vez, o valor). E isso, em Portugal, só poderá ser sintoma do que poderei chamar por um défice de democraticidade crítica, mais pelas consequências institucionais do que é ter ou não ter uma crítica do que pela crítica per se (todos são, afinal, livres de escrever a sua posição). É que a crítica não deixa de ser uma voz que dá voz e isso, na sua dimensão valorativa pode alimentar a cultura como mercadoria das conveniências, poluindo o debate do lado criativo quando se posiciona enquanto trincheira.

A crítica solilóquio minou o diálogo enquanto espaço predileto da democracia, diria, pela sua propensão totalizadora e pouco aberta à experimentação (como se o mainstream contentasse a precariedade do ofício). O próprio espaço onde ela é publicada tornou-se mediador do empoderamento que vislumbra, por vezes cegamente, ou às apalpadelas no circuito do preconceito. Embarcamos, então, na tarefa profanadora sem, contudo, nos posicionarmos como críticos de profissão, ou como críticos do valor. Assim, reage-se ao tema do festival Linha de Fuga, propondo uma ação experimental, a crítica de fuga. Fuga será, portanto, sinónimo de entusiasmo para, no buraco, o fole poder tomar o ar – sabendo, porém que se a intenção é tapá-lo, como disse o poeta, outro buraco se vai abrir.

A economia e a política da crítica só poderá, então, ser o espaço da dádiva, da criação de um pensamento que produz um comum, à maneira também de Steiner (como lembrou Carina Correia nas conversas do grupo), em que a crítica deve brotar de uma dívida de amor, plasmando as portas da nossa perceção e pressionando a arquitetura das nossas crenças com seus poderes transformadores, como ele nos diz. Falar por si para a criação de um comum é, parece-me, o que queremos ensaiar. Neste grupo informal, vimos de diferentes contextos, alguns de nós nem nos conhecemos, e é essa informalidade que se tornará, talvez, o território da profanação em marcha, para uma democraticidade crítica no horizonte.

A crítica, afinal, é efetivamente essa procura do afeto profundo no seio do encontro. Pensar em conjunto será, então, a lição mais profícua do que é a democracia, uma criação de comuns que se consuma enquanto dádiva. E como sabemos, a dádiva é horizontal e não aceita favores nem obrigações. O ego é sempre empoderado pelo outro que nada pede em troca e, como tal, vibra com esse empoderamento sensível acolhido. Por isso, talvez nem a valoração (ideológica e estética) que subjaz ao conceito da crítica será pertinente para a posição que assumimos. A crítica de fuga procurará a expressão do encontro no tom da troca e, provavelmente, constitui-se mais como uma pedagogia radical desse encontro. A fuga deve sempre ser para a frente, nas curvas simbólicas da nossa diferença.

18-09-2020


Este texto integra a coletânea produzida pelo grupo Crítica de Fuga, que acompanha os trabalhos dos artistas e as atividades do Festival Internacional de Artes Performativas – Linha de Fuga.


Uma fotografia #3

Não sei quem são essas pessoas, nem onde ou quando essa foto foi tirada. E quem será a fotógrafa? Talvez fossem quatro amigas viajando e uma delas tirou a foto. E talvez exista por aí uma segunda foto em que ela aparece e cuja fotógrafa foi uma outra do grupo. Qual? qual dessas três saiu da cena e cedeu lugar à amiga, para assumir o posto por trás da câmera? Uma foto assim deixa margem para tantas especulações… Estarão vivas ainda? Lembram desse passeio? desse dia? Ou preferem esquecê-lo? [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Não sei quem são essas pessoas, nem onde ou quando essa foto foi tirada. E quem será a fotógrafa? Talvez fossem quatro amigas viajando e uma delas tirou a foto. E talvez exista por aí uma segunda foto em que ela aparece e cuja fotógrafa foi uma outra do grupo. Qual? qual dessas três saiu da cena e cedeu lugar à amiga, para assumir o posto por trás da câmera? Uma foto assim deixa margem para tantas especulações… Estarão vivas ainda? Lembram desse passeio? desse dia? Ou preferem esquecê-lo? Falavam o meu idioma ou essa foto percorreu países e fronteiras antes até chegar, décadas depois, à Praça 15 no Rio de Janeiro, e às minhas mãos num sábado de sol?

Foi frequentando a Praça 15 que eu soube dessa história. A história da fotógrafa viajante do tempo. Qual era o lance dela? Viajava para uma determinada época, comparava uma câmera, filme, ou se fazia de qualquer que fosse o método fotográfico da época. Simulava uma vida, pacientemente fazia amizades, participava de grupos, encontros e tirava fotos. Revelava as fotos e as deixava em algum lugar, às vezes ao acaso. Outras vezes pedia a alguém para guardar. Depois retornava à sua própria época e iniciava uma jornada investigativa para reencontrar as fotos e descobrir o que delas foi feito, se ainda existiam e o quão conservadas poderiam estar, ou se simplesmente haviam desaparecido no redemoinho do tempo. Todos temos uma perda de tempo que nos alimenta a alma. Essa era a dela.

Não é uma história que todos saibam. Circula entre poucas pessoas que frequentam a praça. Fiquei sabendo porque sou amigo do Mário, meu dealer de selos, e esse é o tipo de ideia que trocamos. Na verdade, qualquer pessoa que ande por ali comprando fotos é suspeita de ser a viajante. Ou o viajante, já que apostamos ser uma mulher apenas por suposição, porque não aguentamos mais narrar histórias com homens e suas máquinas. Dizem mesmo que ela não utiliza nenhuma máquina para viajar no tempo, porque o tempo não é uma estrada em que você precise de um carro. A única coisa necessária para viajar no tempo é você. O tempo é uma linguagem. Domine essa linguagem e você poderá conversar.

Será tudo isso verdade? Ou eu e Mário imaginamos essas fábulas para iluminar nossos sábados na feira? Ao mesmo tempo não deixo de pensar que toda vez que comprou uma foto velha estou sendo observado de longe por essa misteriosa e hipotética viajante. Será que um dia ela baterá à minha porta, para reivindicar a foto das suas três amigas? O registro desse encontro que pra ela pode ter sido ontem! Pois são assim as viagens no tempo; num dia você está 50 anos no passado e no dia seguinte está de volta, ao exato momento em que você partiu. De súbito me pergunto: será que ela está na foto? Será que agora mesmo, enquanto a seguro nas mãos, posso ver seu rosto e, eventualmente, reconhecê-la nas ruas do Rio, em Copa ou mesmo na praça? O mundo é esse lugar, cheio de “quem sabe?!” e “Tomara!”, como se essas duas expressões pudesse nos salvar do tédio de não poder viajar no tempo.

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Uma fotografia #1
Uma fotografia #2


Penélope 19 | Uma ópera doméstica de Armando Lôbo, com Gabriela Geluda

Ter, nesses dias, uma ópera para ouvir, ver e viver, é um alento. Quando Aramando me falou pela primeira vez do trabalho e me enviou um link para assistir, pensei em como era auspicioso uma ópera para falar sobre o que estamos passando com esse mundo revirado pela Covid. Não pelo clichê disseminado do que seja uma ópera, mas pelo que uma ópera sempre possa ter de inesperado e intenso. [Texto da Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Amanhã, dia 19 de setembro, às 19h (No canal da CO.MO – Companhia de Micro-Óperas), estreia nas plataformas digitais uma das grandes e gratas surpresas artísticas desse ano pandêmico de 2020. A mini-ópera Penelópe 19, escrita e dirigida pelo músico pernambucano Armando Lôbo e interpretada pela atriz e soprano Gabriela Geluda. O tema é a quarentena que se impôs sobre nós, o isolamento físico que desde março desse ano emaranha nossas vidas por conta da Covid-19. Mais que isso, o tema somos nós mesmos, nas nossas casas, redesenhando o que somos e buscamos, o eco da nossa voz reverberando nas paredes, nos objetos, numa reinterpretação do mundo a partir desse ponto em que habitamos, o lar. É como se cada um de nós estivesse na matéria condensada de um big-bang prestes a expandir, mas que se contém em si mesmo ao custo de poderosas tensões.

Ter, nesses dias, uma ópera para ouvir, ver e viver, é um alento. Quando Aramando me falou pela primeira vez do trabalho e me enviou um link para assistir, pensei em como era auspicioso uma ópera para falar sobre o que estamos passando com esse mundo revirado pela Covid. Não pelo clichê disseminado do que seja uma ópera, mas pelo que uma ópera sempre possa ter de inesperado e intenso.

Por ocasião desse lançamento, no último 15 de setembro tivemos um papo muito bom com Armando e Gabriela sobre os caminhos de Penélope 19, que teve também a presença do querido amigo e parceiro Jorge LZ, do Programa na Ponta da Agulha e que você pode assistir no vídeo abaixo!


Assista também aos dois trailers produzidos para a divulgação de Penélope 19


Com linguagem experimental e ao mesmo tempo comunicativa, Penélope 19 é uma das poucas óperas existentes em formato de curta-metragem, a primeira brasileira. Uma transposição alegórica do épico para um apartamento do Leblon, em tempos de quarentena. Todos os sons da composição foram coletados na residência de Gabriela Geluda. Os utensílios domésticos foram processados de forma a se constituírem em texturas. Um instrumento tradicional indiano (também pertencente à soprano/atriz) serve de apoio harmônico em alguns trechos da obra. O único som que não veio do universo doméstico de Geluda é o de uma viola dinâmica sertaneja, que pontua o excerto de Pur ti Miro, de Monteverdi, em versão re-elaborada por Armando Lôbo.

Gravada em um único dia, Penelópe 19 contou com uma equipe enxuta e empenhada em fazer valer o mote Um smartphone na mão e uma ópera na cabeça! E funcionou lindamente e nos traz nesse redemoinho que nos engoliu, esse maelstrom, uma luz acesa, um norte criativo que motiva a manter a cabeça fora d’água e respirar fundo.

Equipe de Penélope 19


Com Penélope 19 inaugura-se a CO.MO – Companhia de Micro-Óperas, e com isso a promessa de que mais óperas virão!

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Parahyba | Braços de rio, abraço do oceano — 40 anos de fotografia de Gustavo Moura

O Brasil é feito de seus rios, é o que podemos dizer. Eu mesmo nasci numa cidade cortada e marcada por um rio, o rio Capibaribe, que atravessa o Recife para desaguar no Atlântico. Não tão longe dali, nos estado irmão de Pernambuco, a Paraíba, o rio Paraíba encontra-se com o mesmo Atlântico enorme. ou Parahyba, na grafia assumida por Gustavo no título do seu trabalho, Paraíba se torna Parahyba, que significaria Rio que é braço de mar ((pará-hyba). [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


A pandemia comendo solta no mundo e eu aqui, há seis meses sem sair de casa mas de olho no portão, porque tá pra chegar essa encomenda linda que é o livro Parahyba| Braços de rio, abraço do oceano, do fotógrafo paraibano Gustavo Moura.

O Brasil é feito de seus rios, é o que podemos dizer. Eu mesmo nasci numa cidade cortada e marcada por um rio, o rio Capibaribe, que atravessa o Recife para desaguar no Atlântico. Não tão longe dali, nos estado irmão de Pernambuco, a Paraíba, o rio Paraíba encontra-se com o mesmo Atlântico enorme. ou Parahyba, na grafia assumida por Gustavo no título do seu trabalho, Paraíba se torna Parahyba, que significaria Rio que é braço de mar ((pará-hyba).

Celebrando 40 anos de fotografia, Gustavo Moura lança Parahyba| Braços de rio, abraço do oceano, dedicado ao percurso do rio e sua influência na vida de quem o acompanha pelo caminho, numa jornada que desce da serra do Jabitacá, no município de Monteiro (divisa com Sertânia, em Pernambuco, onde nasceu meu pai), onde o Paraíba nasce, até seu estuário em Cabedelo. O que vemos pelo caminho é uma série de fotografias desse Brasil profundo, que o olhar de Gustavo capta com carinho, com senso de história e pertencimento. Não, não vi o livro todo, vi algumas fotos, flashes que o artista compartilhou previamente, mas conhecendo o trabalho desse mestre que há 40 anos percorre o imaginário do nosso país com sua câmera, não espero menos que o assombro da terra e do povo revelados.

A trajetória de Gustavo Moura é sólida e enraizada na cultura brasileira, e cruzou com outras trajetórias potentes, como a do mestre Ariano Suassuna, a quem fotografou belamente, como belamente fotografou cada um que cruzou também esse mesmo caminho, com suas lentes generosas, narrando vidas, espaços, manifestações culturais e linguagens.


Com 168 páginas e apenas 150 exemplares editados, Parahyba| Braços de rio, abraço do oceano traz ainda a poesia do escritor Hildeberto Barbosa e texto do professor Diego Gomes de Lucena. Projeto editorial da Maracá Cidadania, o livro tornou-se possível graças a parceria com a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), e apoio do Núcleo de Arte Contemporânea (NAC) e da Editora UFPB.

Para adquirir seu exemplar entre em contato pelo telefone 83 99984-4794 ou pelo e-mail [email protected]. O livro tem o preço justo de R$ 120 + frete de envio.

Maldito seja Vênus

Os Marcianos estão chegando! Quase os vi baterem à minha porta de tão anunciados. Tudo sobre Marte, o planeta vermelho! Foram filmes, livros, teorias da conspiração, homens verdes para lá e para cá, canais, Ray Bradbury, uma saturação desse tal de Elon Musk, seriezinha na Netflix, para esses cientistas desprovidos e sentimento ou memória afetiva descobrirem vida em Vênus! Pelo amor de Deus, quanta decepção nesse mundo que se desmancha aos meus olhos. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Imagem do planeta Venus

Os Marcianos estão chegando! Quase os vi baterem à minha porta de tão anunciados. Tudo sobre Marte, o planeta vermelho! Foram filmes, livros, teorias da conspiração, homens verdes para lá e para cá, canais, Ray Bradbury, uma saturação desse tal de Elon Musk, seriezinha na Netflix, para esses cientistas desprovidos e sentimento ou memória afetiva descobrirem vida em Vênus! Pelo amor de Deus, quanta decepção nesse mundo que se desmancha aos meus olhos. Olhe bem pra mim… uma vida dedicada a Marte. Quando criança, lá na Imbiribeira, olhava para o céu, procurando entre as estrelas a minha pequena joia vermelha. Alguém me disse, ou li em algum lugar, que os planetas eram aquelas estrelas cujo brilho era fixo, não cintilava como as estrelas de verdade. Isso porque eles não emitiam luz, mas refletiam a luz do Sol, como a lua. O brilho das estrelas cintilava por causa da distância que precisava viajar para chegar até nós. Até hoje não sei se isso é verdade, porque eu prefiro que seja., então está entre as coisas que eu não pesquiso. Veja bem, que quando Vênus se insinuava no céu, a Estrelas D’álva, Vésper, todos paqueravam com ela. Todos a chamavam de estrela, como se isso fosse um valor agregado. E eu dizia: É um planeta… É somente Vênus, o planeta. Mas nada disso importava porque eu tinha o meu amor secreto. Marte!

Eu tinha esse amigo, Biano. Digo tinha porque nunca mais o vi, mas ainda o tenho. Biano era todo enxerido pro lado de Vênus. Amava… Ele me dizia Toinho, se tiver vida no sistema solar fora da Terra, é em Vênus. Escreve aí o que eu to te dizendo. Travamos inúteis e terríveis batalhas de argumentos e paixões. Marte era o deus da guerra e eu um soldado pronto a defendê-lo. Já Vênus, era o portador da paz. O oposto complementar. Coexistiam no céu das noites do Recife. Coexistiam em mim e Biano, com Terra entre eles, mediando suas passagens, suas órbitas e alinhamentos possíveis. Minhas únicas pazes com Vênus era a suite Os planetas, em que discorre musicalmente sobre nossos companheiros de sistema solar, excetuando Plutão, que ainda não havia sido descoberto, e a própria Terra. Marte, como eu bem achava adequado, abria triunfante a obra, bélico, marcial, estranho, sombrio. Vênus era o segundo movimento. Vênus, o portador da paz. E o fato é que ainda hoje éo meu movimento preferido da obra do compositor inglês. Escuto Marte apressado, ansioso, porque tenho que escutar. Porque teno esse compromisso com meu companheiro celeste. Mas escuto esperando Vênus, como nossos vizinhos corriam para rua, para ver Vésper nascer, naquela hora estranha, entre o dia e a noite, em que os morcegos revoavam sobre a rua Pampulha. Sempre preferi escutar a versão do músico e compositor japonês, pioneiro da música eletrônica, Isao Tomita. Dizem que a filha de Holst não ficou feliz com a versão de Tomita para a obra do seu pai. Mas felicidade é uma coisa que nem sempre a gente tem.

Mas quando Holst saía da vitrola, Marte reinava. Li tudo que você pode imaginar. Literatura, reportagens, artigos jornalísticos. Vi filmes e desenhos animados, estudei mapas e centenas de fotografias e desenhos do nosso vizinho na quarta órbita a partir do Sol. Fascinado que eu estava. Porque imaginava que a qualquer momento um sinal de vida surgiria. Acompanhei todos os movimentos dos olhos voltados para Marte, as sondas, os robôs a circular pelos seus ermos, na beirada de suas crateras, cobertos de uma fina poeira vermelha, perscrutando, e talvez se perguntando, no íntimo dos seus chips “Onde andará a vida nesse planeta?!”, enquanto apontava suas lentes para o cume distante do massivo Monte Olimpo. Tudo em vão… os rovers a vagar pelos mares, a escutar nada que não seja o próprio ruído, comunicando-se apenas com a Terra. Mesmo o lendário rosto marciano, esculpido na latitude 40°75′ norte e longitude 9°46′ oeste, revelou-se um engano da baixa resolução da Viking 1.

Enquanto isso Vênus dormia sob sua densa camada de nuvens, responsável pela alta capacidade de reflexão da luz solar, que resultava no objeto mais brilhante no nosso céu noturno, depois da Lua. Uma das sondas Venera, lançada pela União Soviética, foi o primeiro objeto a feito pelo homem a pousar em outro planeta e tirar uma foto. Nesse dia eu devia ter desconfiado que o futuro não estava em Marte, mas eu tinha apenas dez anos e Marte era o único brilho vermelho no céu. Fui levado pelo seu canto noturno. E nem Biano, com sua amizade, foi capaz de me arrebatar pra Vênus. Mesmo Holst não foi suficiente, apesar de neste instante eu escuto a versão de Tomita para Venus – The bringer of peace.

Hoje li que descobriram por lá um gás que está diretamente associado à vida. E isso é uma grande pista. Pode ser um grande engano também, mas na manhã de hoje todos já esperavam ansiosos pela Etrela D’álva no fim da tarde, já imaginando os seres flutuantes e silenciosos em sua atmosfera, com os corpos cobertos pela mesma luminosidade que enfeita os peixes nas profundezas do nossos oceanos. Seres pacíficos, como talvez tenha imaginado Holst. Seres que não precisaram construir cidades ou automóveis, que não ergueram estátuas e que são carregados aleatoriamente pelos poderosos ventos que varrem o planeta. E por causa disso, todos os encontros se dão ao acaso. Vênus é isso, um planeta de encontros ao acaso. Parece-me, pois, que já sou quase um convertido. Pela janela olho o céu nublado mais uma vez, sabendo que não verei Marte.

De repente sou assombrado pelo fato irreversível de que Vênus é o planeta regente do meu signo, Libra. Digo para mim mesmo que não acredito em signo, mas apenas para acreditar no que digo. Talvez eu tenha que ter trilhado esse longo caminho de negação até Vênus, até que ele me receba sob seu denso manto de nuvens de CO2 e ácido sulfúrico, onde alguma poesia deve haver.

Maldito seja Vênus!


Ainda que de olhos fechados você saberá onde eu estarei

Por mais que fechemos os olhos porque o corpo se entrega ao desafio cego da rotina, sabemos que as nossas mãos vão se em pleno voo, no ar, bem acima das cortinas, no vazio dos olhares desconfiados de um respeitável público ávido pelo mútuo fracasso. E daí se ninguém aplaudir? O espetáculo do destino está em despistar o errante mesmo diante de um erro de cálculo. [Texto de Eduardo Frota]

Texto de Eduardo Frota


Eu tive uma ideia: e se a gente retirasse a rede de proteção? Veja, passamos a vida inteira ensaiando esse número carregado de sutileza. Sim, somos trapezistas, aqueles que enxergam o mundo de ponta-cabeça. Há muito tempo nos tornamos especialistas em piruetas, dois mortais pra frente, acrobacias irreais, dois mortais pra trás. 

Por mais que fechemos os olhos porque o corpo se entrega ao desafio cego da rotina, sabemos que as nossas mãos vão se encontrar em pleno voo, no ar, bem acima das cortinas, no vazio dos olhares desconfiados de um respeitável público ávido pelo mútuo fracasso. E daí se ninguém aplaudir? O espetáculo do destino está em despistar o errante mesmo diante de um erro de cálculo.

Pior do que alçar voo velado pelo sagrado véu da vida é vestir essa roupa colada ao corpo todo o profano dia. Sinto-me sempre pressionado. Todos os músculos, todas as juntas, todos os ligamentos e sentimentos ridiculamente à mostra, comprimidos e imediatamente depois desnudados pelo contato colante do náilon. É como estar nu diante dos fatos. A verdade é que a gente salta para o desconhecido todas as vezes que sobe ao alto, a troco de muito pouco ou de quase nada, camarada!

Ah, isso é papo de trapezista – talvez diga o atirador de facas enquanto se maquia em frente ao espelho e espia o movimento do circo de soslaio. É porque ninguém atira lâminas afiadas em sua direção, é sempre o contrário. Pois então, meu nobre, só por hoje então, meu chefe, corta pra gente os cabos que amarram em quatro apoios a rede que nos protege dessa queda incerta e inerte.

Que o número principal tenha sempre com a vida, e não com a morte, este temível flerte.

Bravos: Tudo indica que estamos saindo para uma aventura!

Não entendo muito de quadrinhos. Não é minha praia, como se diz. Mas meu amigo Francisco sabe tudo. É bom escutá-lo falar sobre quadrinhos; os estilos, variações, possibilidades, os milhares de links e inspirações das histórias, dos autores, de todas essas páginas já produzidas. O mainstream, o alternativo, o sub, o experimental… Quadrinhos é um mundo. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Não entendo muito de quadrinhos. Não é minha praia, como se diz. Mas meu amigo Francisco sabe tudo. É bom escutá-lo falar sobre quadrinhos; os estilos, variações, possibilidades, os milhares de links e inspirações das histórias, dos autores, de todas essas páginas já produzidas. O mainstream, o alternativo, o sub, o experimental… Quadrinhos é um mundo. Francisco é uma janela para esse mundo, que eu não exploro muito porque não dá para dar conta de tudo que a gente pode amar. Música, cinema, livros, artes… e no meio disso tudo tentar encaixar novas descobertas. Mas volta e meia, da janela que Francisco é, eu dou uma espiada nesse outro mundo. E muito me animo, porque ele só dá dica certeira. E foi assim que li Bravos, que tem roteiro (como num filme) e arte do brasileiro Victor Moura.

Faço questão de escrever brasileiro ao mencionar Victor, porque a gente consome muita coisa de fora e tem maravilhas sendo feitas por aqui. e muitas vezes sendo esnobadas pela brasileirada que proclama adorar quadrinhos. Pois Bravos é quadrinho brasileiro e de primeira linha. Tem três episódios lançados e disponíveis na loja da Mamakoosa, responsável pela edição e que está fazendo um trabalho bonito em colocar quadrinho nacional na vitrine pra valer. O nome disso é coragem, o resto é bobagem. O que tá nascendo ali vai florescer bonito e convido vocês a participar, comprando as HQs e lendo e espalhando a boa nova.

Sobre Bravos, puro encanto. Num cenário que remete à Idade Média, feito de florestas, estalagens, lagos, castelos, Bravos nos convida à aventura. Então assim, não falo como nerd de quadrinhos mas como leitor, como gente que gosta de descobrir novas narrativas e que está começando a encontrar nas páginas das HQs o sabor de uma outra possibilidade poética. Bravos é de uma leveza poética que surpreende e que não deixa cair o fio da meada em bobagens e clichês. É uma narrativa enxuta, cheia de fina ironia e traz esse tema que, ou a gente enfrenta ou a gente se perde… a luta contra o que nos oprime, o que ameaça nossa floresta, o nosso encanto do mundo e mesmo, nosso lugar na comunidade. É poético, leve e ao mesmo tempo uma porrada bem dada, dessas pra nos acordar do torpor do cotidiano, das contas, do chefe demente, do governo que nos insulta.

Os protagonistas dessa fantasia enraizada de mundo real, são Lourenço e Albuquerque, um sapo e uma raposa, vagando rumo a uma missão impossível, iluminados pela presença de Rosa, uma misteriosa heroína que parece saber mais do que eles dos labirintos escuros do reino. E os três guiarão uns aos outros rumo à aventura por vir, que se desenha desde as primeiras páginas. E as páginas passam céleres, ágeis, num modelo super legal em que cada publicação é um capítulo! Bom demais de ler e deixar essa dica aqui é essencial, porque é um ponto de partida incrível pra você enveredar no trabalho dos artistas nacionais dos quadrinhos e na produção da Mamakoosa, que botou a mão na massa pra trazer energia das melhores nessa pandemia doida que nos engoliu.

Leia Bravos e conheça os outros títulos da Mamakoosa… os grincos já ganham grana demais.

Bora comprar quadrinho brasileiro!


Augusto dos Anjos – o poeta das redes sociais em 1900! Oi? Quando?

Um dos meus poetas preferidos é Augusto dos Anjos, que nasceu em 1884 no Engenho Pau d’Arco, atualmente no município de Sapé, Estado da Paraíba. Como muitos à sua época, teve sua primeira educação (o que hoje seria a educação básica) em casa, com o pai. Como era muito dedicado e como as letras sorriam para ele, acabou conseguindo vaga no Liceu Paraibano, onde viria a ser contratado como professor em 1908. Desde os sete anos de idade compunha, precoce e gênio que foi e ainda é. [Texto de Eduardo MAciel]

Texto de Eduardo Maciel


Olá, queridxs kurumateirxs!
Vim hoje trazer no dia da pátria um pouco da história de um seus maiores expoentes.

Um dos meus poetas preferidos é Augusto dos Anjos, que nasceu em 1884 no Engenho Pau d’Arco, atualmente no município de Sapé, Estado da Paraíba. Como muitos à sua época, teve sua primeira educação (o que hoje seria a educação básica) em casa, com o pai. Como era muito dedicado e como as letras sorriam para ele, acabou conseguindo vaga no Liceu Paraibano, onde viria a ser contratado como professor em 1908. Desde os sete anos de idade compunha, precoce e gênio que foi e ainda é.
Em 1903, ingressou no curso de Direito na Faculdade de Direito do Recife, formando-se em 1907. Em 1910 ele se casa com Ester Fialho.
Seu profundo e intenso apego pela leitura influenciaria muito a construção de sua obra, que abrangeu diversos estilos (incluindo-se aí sonetos) e que tiveram um viés de retratar o mundo de sua época, sob a sua ácida ótica.
Filosoficamente, acreditava ser impossível se conhecer a essência das coisas, apesar do seu claro entendimento sobre a evolução da natureza e da humanidade.

Um dos pontos principais para se compreender Augusto dos Anjos é o fato de ele acreditar – e refletir essa crença em sua obra, que a vida e a morte seriam simples fatos de natureza química e que a vontade pessoal deveria ser sobreposta por objetivos maiores. Cético, ele?
Não exatamente.

Augusto dos Anjos (e talvez esse seja um ponto de conversão com seu nome), tinha na Bíblia uma realidade espiritualista, tendo-a usado como contraposição aos preceitos iluministas na arte. Mas fez isso de sua própria maneira e ao seu estilo inconfundível, bastante agressivo no uso da letra. E o fez num momento de muita aceitação ao iluminismo. Talvez por isso muitos (eu incluso) o considerem pré-modernista e não propriamente um autor modernista, tal qual muitos o catalogam.

Sua escrita reflete a realidade que via ao seu redor, num contexto histórico, com a crise do modelo produtivo vigente à época, onde oligarcas viam ruir seu modo de produção pautado na escravidão de pessoas. Os ex-escravos, então vivendo livres e miseráveis, e seus senhores perdendo pujança a passos largos, certamente lhe serviram como inspiração. O mundo que ele representava era justamente esse, onde cada ser humano vivia sua própria tragédia, cujas culminâncias seriam o nascer e o morrer.

Para Augusto dos Anjos, apesar de toda sua consideração pela letra sagrada, a religião não era capaz de explicar o mundo e suas dinâmicas. Por isso, sua poesia foi feita usando-se de diversas ironias e sátiras contra o cristianismo e a religião de uma forma geral.

Mas não se enganem: o homem era repleto de antagonismos (e certamente isso é um dos fatores que o fazem ainda mais atraente quando se compara a pessoa com o seu eu-lírico), e em sua cidade natal, o escritor foi ligado à condução de reuniões mediúnicas e psicografia.

Dedicou-se também ao magistério após fixar residência no Rio de Janeiro, onde foi professor em vários estabelecimentos de ensino.
Se no Nordeste nasceu e no Rio se estabeleceu, veio a falecer em Minas Gerais, onde dirigia uma instituição de ensino, em 1914, aos parcos 30 anos de idade. Foi-se de pneumonia, o que era comum então.

Na casa em que morou durante seus últimos meses de vida funciona o Museu Espaço dos Anjos. Por outro lado, a antiga residência de Augusto dos Anjos em João Pessoa, é atualmente sede da Academia Paraibana de Letras.
Além de seu trabalho como professor e diretor de instituições ligadas à educação, publicava poemas em jornais da época (que funcionavam analogamente ao que hoje conhecemos como redes sociais), sendo o primeiro, intitulado “Saudade”, no ano inaugural do século XX.

Mas seria ele um poeta de periódicos “apenas”? Não chegou ele a publicar livros, que é o que a gente normalmente associa a escritores?
Em 1912, publicou seu ÚNICO livro de poemas, chamado “Eu”. Lindo, lindo livro!

E foi somente depois de morto que teve uma curadoria para compilar seus diversos poemas espalhados em um livro póstumo: “Eu e Outras Poesias”, incluindo poemas até então não publicados pelo autor.
Grande indivíduo, grande professor, grande poeta e grande fonte de inspiração. Esse é o Augusto dos Anjos que eu tanto admiro. Exemplo de coração rebelde pulsando suas críticas em versos.

E, pra fecharmos a quinzena com chave de ouro, meu soneto preferido escrito por ele:

“Apóstrofe à carne
Quando eu pego nas carnes do meu rosto.
Pressinto o fim da orgânica batalha:
– Olhos que o húmus necrófagoo estraçalha,
Diafragmas, decompondo-se, ao sol posto…

E o Homem – negro e heteróclito composto,
Onde a alva flama psíquica trabalha,
Desagrega-se e deixa na mortalha
O tacto, a vista, o ouvido, o olfato e o gosto!

Carne, feixe de mônadas bastardas,
Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas,
A dardejar relampejantes brilhos,

Dói-me ver, muito embora a alma te acenda,
Em tua podridão a herança horrenda,
Que eu tenho de deixar para os meus filhos!”

Inté, meus queridxs!


Amor, carinho, cuidado

Existe coisa melhor que satisfazer um desejo? Principalmente quando se trata do alimentar-se. E isso toma uma dimensão muito maior quando fazemos nossa própria comida. Nesse processo, vertemos amor, carinho e cuidado. A sensação de satisfação é dobrada. Isso é felicidade na certa. [Texto de Raíra Moraes]

Texto de Raíra Moraes


Existe coisa melhor que satisfazer um desejo? Principalmente quando se trata do alimentar-se. E isso toma uma dimensão muito maior quando fazemos nossa própria comida. Nesse processo, vertemos amor, carinho e cuidado. A sensação de satisfação é dobrada. Isso é felicidade na certa.

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A delícia que é curar em casa um queijo canastra envolve cuidado, carinho, e também disciplina e resignação para cuidar e, ao mesmo tempo, resistir a ele todos os dias. Sentir esse cheiro maravilhoso e único e prosseguir a cura sem tocar num pedacinho sequer não é para qualquer um.

A tortura e a espera valem muito a pena. Depois de dois a três meses lavando, secando e virando todos os dias, ele fica simplesmente espetacular. Para comer puro, ou acompanhado de um bom vinho ou café, nada melhor. Esse da foto estou há um pouco mais de um mês curando.

Assisti a um documentário sobre o canastra. Quanto amor e dedicação há por ele nos seus produtores! Desde a criação do gado, o que ele come, a forma de tratar o animal na hora de tirar o leite, até os detalhes no processo da feitura, cujos métodos, até hoje, são artesanais. E não é sem razão. Esse queijo tem um sabor e textura únicos e inigualáveis e, por todos esses motivos, é que o IPHAN o tombou como patrimônio cultural e imaterial brasileiro. Impossível não se apaixonar.


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Recebi um presente da amiga que planta cítricos Márcia Perígolo. Duas mãos de frutas: uma que conheci na plantação dela, há uns quatro anos. Provei dela e NUNCA mais esqueci o sabor, a cor e o aroma dessa fruta inacreditável: montenegrina! Chupei várias no pé! Ela tem outros nomes, mas, no momento, esqueci. Lembra uma mistura de laranja com tangerina.

A outra é o limão doce, que, até ontem, também desconhecia. Que sabor maravilhoso! Não tem a acidez do limão e é realmente doce. Até a casca de ambos é deliciosa, e as como puras, até porque a produção é sem agrotóxicos.

Que viagem é saboreá-los de todos as maneiras: chupar, fazer suco, geleia, misturar ambos, comer a casca, fazer delas essência para perfumar a casa, enfim! Ontem mesmo fiz uma geleia com a casca de duas montenegrinas. Misturei com suco de laranja comum, um limão capeta e um pouco de açúcar orgânico. Avimaria!!!

Dane-se a linha temporal!

Mas sabemos, eu e Braulio, que Aderaldo nunca é pego nos redemoinhos do acaso. Ele tem esse grande plano arquitetado, do qual nem desconfiamos o teor. Provoquei Braulio, perguntando-lhe se quando era rapazote, por essas esquinas de Campina, lendo as primeiras páginas de ficção científica, imaginara que alcançaria um mundo com portais dimensionais.

Texto de Toinho Castro


Para Braulio Tavares, no seu aniversário!

— Trupizupe! — Ouvi chamarem no meio da confusão! Olhei e era o Braulio, saltando pra fora do portal interdimensional que aparecera ali há pouco. Sabe como são essas coisas de portal interdimensional, né?! Você tá sossegado, bebendo sua cerveja num boteco em Campina e de repente um rasgo no tecido do tempo-espaço cospe do seu lado uma pessoa com cara de quem foi pega desprevenida, não porque tenha sido, afinal ninguém entra num portal sem querer. É porque essa é a cara padrão de todo mundo que se vê desmaterializado para ter os átomos rearrumados num outro lugar. Coincidência eu tá bebendo em Campina e o Braulio aparecer justamente na frente do boteco em que ocupo mesa como última trincheira civilizatória?! Na verdade não… Tá dando essa zica nos portais. Muita gente vindo bater aqui em Campina sem querer, porque deu esse revertério em certas vias de transição ou acesso ou outra coisa que eu não sei o que é. Posto que o problema é esse… você entra no portal pra… sei lá, visitar a mãe no Recife e vem bater em Campina Grande. Eu ter caído na frente de um bar e o Braulio, em seguida, também, isso sim é coincidência. Bom pra ele, que quando chegou eu já tava ajustado ao ambiente e com uma cerveja gelada na mesa. Estupidamente gelada, diga-se de passagem, pois não estamos todos de passagem?

Pedi mais um copo assim que ele me viu e cambaleou esbaforido até a mesa. Leva uns minutos até que a pessoa se recupere de uma viagem interdimensional. — Essa bar fecha que horas, moço?! — Pergunto, e abriu um sorriso com a resposta. 

— Tô fechando não! Com essa bronca dos portais tá chegando gente por aqui a toda hora! Essa primeira é por conta da casa, que esse poeta conheço bem.

Nada como estar à mesa com um filho ilustre de Campina Grande. Brindamos céleres ao defeito nos portais que nos arremessou ali na beira daquele bar que nunca fecha, como se não tivéssemos compromissos a cumprir. Pelo menos essa ocorrência era uma boa desculpa para adiar as pendências da rotina. — Aderaldo bem que podia entrar num portal defeituoso, né?! — Liguei para o impiedoso versejador mas ele não atendeu. Vai que entrou num portal com outro defeito! É o que não falta por aí… usar portais interdimensionais é a nova aventura do dia a dia. Ficamos bebendo e conversando então sobre as possibilidades do aleatório, calculando as chances de Aderaldo ciscar pra fora de um súbito portal, quem sabe já dentro do bar, para pedir sua indefectível “água com gás e limão, jovem”.

Mas sabemos, eu e Braulio, que Aderaldo nunca é pego nos redemoinhos do acaso. Ele tem esse grande plano arquitetado, do qual nem desconfiamos o teor. Provoquei Braulio, perguntando-lhe se quando era rapazote, por essas esquinas de Campina, lendo as primeiras páginas de ficção científica, imaginara que alcançaria um mundo com portais dimensionais.

Imaginei muita besteiras
Imaginei carros voando
Naves cruzando fronteiras
Alienígenas dizendo asneiras
Seres-bolhas flutuando
Realidades transversais
Em dimensões paralelas
Prodigiosos ritos e sinais
Mas nunca, jamais
Esses portais de meia-tigela!

Portais de meia-tigela é pegar pesado, afinal devíamos a eles, no mínimo, estar bebendo em Campina Grande, quando certamente estaríamos cumprindo tarefas de meio de semana na frente do computador. Pra mim, que mal conhecia Campina, estar ali era um espetáculo. Estivera por lá uma única vez e por pouco tempo, o suficiente para dali visitar Alagoa Grande e prestar honras ao nosso querido Jackson, cruzando aquele outro portal, esse real e pandeirístico, que marca a entrada daquela vila. Conversamos então sobre Jackson e sobre o velho Lua, sobre os caminhos do sertão e da asa branca voando de volta, sobre o raio laser e o gás chamado hidrogênio, que incendiou o  dirigível Hindenburg. Daí pro campo do Jiquiá foi um salto, e chegando a conversa ao Recife, falamos das pontes e dos malassombros e da Cruz do Patrão, de Calos Pena Filho e do Capibaribe, moroso, arrastando com ele manguezais, homens-caranguejos e antenas, sob os flamboyants a sangrar.

De repente, lá de dentro do bar, para muito além do balcão, escutamos uma voz familiar, fazendo as vezes de narrador de jogo de futebol, desse de rádio de pilha, fanhoso e como se narrasse o desembarque da Normandia, emulando a final do Campeonato Paraibano de 1966, quando o Treze sagrou-se campeão invicto, rendendo o Campinense no 1 a 0! Era Aderaldo que vinha lá de dentro do Bar, animado por nos encontrar.

— Uma água mineral com gás, jovem mancebo! — Fez uma pausa enigmática e completou: 
— Brauilo, Tunico… o acaso não existe.  Estamos aqui pra comemorar teus 70 anos, Braulio!
— Oxe! Ainda não!
— Ainda sim! Veja bem, jovem. Essa passagem não é só interdimensional, como também transtemporal! Assim sendo, saímos de onde saímos num dia e demos aqui em outro. Tudo isso dentro de um plano edificante que nos escapa à compreensão. Bora brindar?
— Lascou! — Murmurou um conformado Braulio Tavares, que bem sabe que não há argumento com Aderaldo, com as malemolências dimensionais e temporais. — Desce outra!

Pra conferir o feito, Braulio levantou-se e foi até à folhinha pendurada na parede para conferir a data. Voltou pálido em meio a confusão do boteco, enquanto o portal sacudia mais um incauto nas ruas de Campina.

— O que foi, cabra?
— Lá na folhinha… Setembro tá escrito assim: Septenbrum. — Fez um silêncio. — Alguém pisou numa borboleta!

Nisso o portal desabrochou mais um desorientado na calçada do bar gritando: — Dane-se a linha temporal!

Ouviu-se um som de trovão.