Para o mundo não acabar

Da janela mesmo liguei pra um amigo pra conversar sobre o velho John, porque esse meu amigo também ama os seus filmes. Eu e ele frequentemente nos vemos em filmes de John Carpenter, sabe?! A gente tá num lugar e passa um sujeito siderado e a gente troca uns olhares e sabemos o que estamos pensando… “Parece um filme do John Carpenter. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Foto de Nathan Hartley Maas

Da janela olhei para a cidade vazia. Não que eu pudesse ver a cidade, a cidade inteira. você sabe, é modo de dizer. Vi o que me cabe da cidade, o que é bem pouco. Minha rua, Umas árvores, automóveis… esticando a vista via-se o morro e seu intrincado de casas. Um grande silêncio cobria tudo como se fosse uma névoa, apesar do intenso sol das duas tarde. Era uma névoa invisível mas ela estava lá. Parecia um filme do John Carpenter. Você já viu um filme do John Carpenter? Ele está entre os meus professores de amor pelo cinema. É o cara que com um único filme demonstrou que fomos colonizados por extraterrestres bizarros. Chama-se Eles Vivem. E eles vivem mesmo, sabe? Estão aí, entre nós. Sei que parece loucura e por isso John Carpenter é genial. Ele faz um filme sobre uma loucura mas é real. Tudo em John Carpenter é real. É o que eu posso dizer dos filmes dele. esses eram os meus pensamentos na janela, vendo o que me restava da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Da janela mesmo liguei pra um amigo pra conversar sobre o velho John, porque esse meu amigo também ama os seus filmes. Eu e ele frequentemente nos vemos em filmes de John Carpenter, sabe?! A gente tá num lugar e passa um sujeito siderado e a gente troca uns olhares e sabemos o que estamos pensando… “Parece um filme do John Carpenter. Bom, o cara fez mais de 20 filmes, então as chances de você se ver num filme dele não são poucas. Eu sei, eu sei… extraterrestres, vampiros, névoas assassinas, crianças esquisitas. Mas você acha o que? Que o mundo é habitado por seres humanos? Que marte é um deserto? John Carpenter sacou tudo e com isso criou uma das obras cinematográficas mais fodas que exite. Liguei pro meu amigo e falamos sobre isso, sobre o quanto esses filmes vão sobreviver a tudo e dar lições sobre como era o mundo no século 20.

É que eu não quero contar como é Eles vivem, quero que você tenha curiosidade e vá assistir. Baixa um piratão… porque é muito ruim de tá passando na TV hoje. Ou amanhã. Ou depois. Essa galera morre de medo do John Carpenter. Porque seus filmes revelam a natureza dessas pessoas que estão no comando das TVs, das grandes corporações, dos governos. Cara, outro dia fui ver aquele filme louco, Bacurau. Filmaço, filmaço… E aí tem uma cena em que tá rolando uma capoeira, com aquelas músicas de berimbau e aí esse som emenda numa música do John Carpenter, porque o cara também é músico! É uma cena alucinante… é como se o filme de repente aumentasse de volume, não só de som mas de corpo, como se tivessem adicionado fermento. É mágico. Os caras também curtem John Carpenter. Estão sabendo do que é necessário saber. Assiste Bacurau aí, porque é claro que é uma homenagem ao velho John.

Eu nem ia escrever tanto sobre ele. Era mais sobre ter que ficar ilhado em casa, assistindo ao mundo silencioso. Queria sair pra tomar uma cerveja e falar de John e dos seus filmes em que estamos metidos até o pescoço. Mas não podemos. Cada um trancado na sua casa, nessa cidade de milhões de casas trancadas, tudo porque tem algo à espreita e precisamos nos cuidar, para o mundo não acabar. Mas então… lembrei do John Carpenter, lembrei de Eles vivem e tudo se tornou irresistível. Coloquei meus óculos escuros (veja o filme e você vai saber a razão…) e perscrutei a névoa invisível, que com certeza cobria a cidade, em vão. Lá longe vi uma publicidade que cobria toda a lateral de um prédio. Era de uma das milhares de empresas loucas que na verdade são a Unilever. Sim, eles vivem. Obrigado, John Carpenter. Nunca esquecerei o que você me ensinou.


Em tempos de Coronavírus…

Não me surpreende, portanto, que a leitura tenha se transformado em recurso terapêutico ao longo dos tempos. No primeiro manicômio dos Estados Unidos, o Pennsylvania Hospital (fundado em 1751 por Benjamin Franklin), na Filadélfia, os pacientes não apenas liam como escreviam e publicavam seus textos num jornal muito sugestivamente chamado The Illuminator (“O Iluminador”, em inglês). [Texto de Eduardo Maciel]

Texto de Eduardo Maciel


Mesmo não sendo o meu momento quinzenal aqui com vocês, kurumateiros queridos, resolvi escrever sobre o tanto que a poesia (e os sonetos) podem fazer bem à saúde tanto para enfermos quanto para a prevenção de doenças em pessoas sãs, e como a leitura de versos alimenta nossas almas deixando para o leitor uma sensação de bem-estar que perdura, e que por fim proporciona maior qualidade de vida.

Principalmente durante esse frenesi do coronavírus.

De fato, como já bem pontuou o médico sanitarista e escritor Moacyr Scliar, “não é de se admirar que a leitura tenha se tornado um recurso terapêutico ao longo dos tempos”.

E com Moacyr fazem coro o meio científico, pesquisas relacionadas a tratamentos de saúde não convencionais, estatísticas e relatos pessoais de pacientes de várias matizes de enfermidades. A literatura, sobretudo a poética, performa mesmo um papel de apoio à cura de doenças.

O dramaturgo e poeta modernista americano William Carlos Williams (1883/1963) já atestara que: “É difícil / Extrair novidades de poemas / No entanto, pessoas morrem miseravelmente / pela falta daquilo que ali se encontra”

Desses versos se depura uma observação empírica do autor: a de que os tratamentos convencionais da medicina tem seu potencial de cura aumentado caso associados à leitura poética.

E nesse contexto se destacam os sonetos, que, pelo seu tamanho reduzido e sua rima cadenciada, acabam sendo de mais fácil absorção pelos enfermos, que sem se deixarem sucumbir a um eventual tédio, logo chegam à conclusão lírica intrínseca aos sonetos.

Mas o que será que de fato existe, nos sonetos, nos poemas e na literatura em geral que possa ajudar a manter as pessoas vivas e auxiliar os tratamentos para a cura de doenças?

Bem, as próprias palavras em si já são um primeiro elemento para a resposta: desde os longínquos tempos da Grécia Antiga já se considerava o poder medicinal das palavras para mentes sofredoras. E isso não é apenas uma figura de linguagem não, leitores queridos. Há documentos relatando que, no século 1 d.C., o médico romano Soranus prescrevia poemas e peças teatrais para seus pacientes em tratamento. Ao ouvir ou ler os poemas, os pacientes se sentem emocionalmente amparados, e isso tem uma influência direta em todos os prognósticos médicos para as doenças em geral e sua evolução física nos pacientes.

Não me surpreende, portanto, que a leitura tenha se transformado em recurso terapêutico ao longo dos tempos. No primeiro manicômio dos Estados Unidos, o Pennsylvania Hospital (fundado em 1751 por Benjamin Franklin), na Filadélfia, os pacientes não apenas liam como escreviam e publicavam seus textos num jornal muito sugestivamente chamado The Illuminator (“O Iluminador”, em inglês). Nos anos 60 e 70 do século 20, o termo “biblioterapia” passou a designar essas atividades. Logo surgiu a “poematerapia”, desenvolvida em instituições como o Instituto de Terapia Poética de Los Angeles, no estado americano da Califórnia. Aliás, nos Estados Unidos existe até uma Associação Nacional pela Terapia Poética.

Ademais, a literatura poética pode colaborar para a própria formação médica. Muitas escolas de medicina pelo mundo, inclusive no Brasil, estão incluindo no currículo a disciplina Medicina e Literatura. Através de textos como “A Morte de Ivan Illich”, do escritor russo Léon Tolstoi (em que o personagem sofre de câncer), “A Montanha Mágica”, do alemão Thomas Mann (que fala sobre a tuberculose) e “O Alienista”, do grande mestre brasileiro Machado de Assis (uma sátira às instituições mentais do século 19), os alunos tomam conhecimento da dimensão humana da doença. E assim, mesmo que muitas vezes indiretamente, a literatura passa a ajudar pacientes de todas as idades.

E os benefícios da soneto-terapia não param por aí. Lembram que mencionei a questão da qualidade de vida no início do texto? Pois bem: foi feito um estudo na Universidade de Liverpool, na Inglaterra, elaborado por Philip Davis, de onde se depreende:

“[…] ler poesia é mais útil e eficaz em tratamentos do que livros de auto-ajuda […]” (p. 36).

As formas e métricas dos sonetos, as rimas cadenciais e a sonoridade de seus versos fazem com que o cérebro se alivie, alimentando a alma.

Nesse sentido, cabe citar:

“A poesia incendeia a alma com chama ardente, quente, porém deliciosa. É capaz de transformar coração contrito em pura euforia, de fato, a poesia é remédio até para curar paixão não correspondida, quiçá tristeza descontínua, contínua, com ou sem motivo. Sou a prova viva de que essa belezura, criada pelo Divino, transmuta e muda a gente por inteiro. Quando iniciei meus devaneios pela Literatura, encontrei-me no mundo e a dor profunda do meu peito foi-se embora e seu rastro, por mim, fora transformado em linhas cursivas, claramente, em poesia de aurora. Portanto, percebo que muitos autores contemporâneos, assim como eu, escrevem como fuga de si mesmos, e acabam se encontrando nas letras, rimas e enredos, além de ter e ver a escrita como espelho da alma. Logo, a poesia atual é sem fronteiras e sem rasuras, há lugar e espaço para todos, excepcionalmente para o leitor e o seu deleite”.

Priscila Goes é graduada em Letras – Língua Portuguesa e respectivas Literaturas, pela Universidade Católica do Salvador.

Ou seja: ora para efeitos curativos em tratamentos médicos, ora para conforto e saúde emocional, ou mesmo durante tempos de quarentena preventiva, os poemas e os sonetos se erguem como alternativa para incremento de qualidade de vida, o que afeta diretamente e positivamente a própria longevidade do ser humano. Primeiro, porque a poesia comunica com a alma. Depois, porque ela não precisa ser entendida. Poesia é para ser sentida, degustada como um bom vinho, como os perfumes que nos levam aos céus. Não é preciso ser químico para saber dos elementos que compõem as estruturas do aroma. Basta apreciar.

Apreciem, portanto, a leitura poética. Apreciem e apliquem como remédio. Na dosagem máxima. Em overdose. E sem medo. Não mata.


Faça uma trilha com as minhas rimas

É bom ter alternativas, assim como andar é bom, mas nesse caminho pode-se correr de vez em quando. Não para se chegar mais rápido ao destino – até porque, este, sabe-se lá a distância em que se encontra. Basta olhar a bússola, consultar o mapa, fazer as contas. Ou, simplesmente, seguir o ritmo. Correr é bom quando se quer sentir a brisa no rosto, tem a ver com liberdade. [Texto de Eduardo Frota]

Texto de Eduardo Frota

Foto de Michal Zacharzewski

Há um caminho arborizado a ser seguido. Rima com abrigo. Isso quer dizer que há sombra para proteger os nossos passos. Vem. Mesmo quando chove, tem. As copas das árvores funcionam como um guarda-chuva. Guarda-se nesse caminho as impressões do sol e da lua. Nesse caminho é possível ouvir o canto dos pássaros, observar os canteiros que se colocam à frente dos olhos, transpô-los é fácil – às vezes. Às vezes. Quando são intransponíveis, pegamos uma rota alternativa. É bom ter alternativas, assim como andar é bom, mas nesse caminho pode-se correr de vez em quando. Não para se chegar mais rápido ao destino – até porque, este, sabe-se lá a distância em que se encontra. Basta olhar a bússola, consultar o mapa, fazer as contas. Ou, simplesmente, seguir o ritmo. Correr é bom quando se quer sentir a brisa no rosto, tem a ver com liberdade. Esse caminho tem bifurcações, é fácil se perder nele, mas também é fácil voltar a ele, mesmo que não haja placas indicando as direções. Nesse caminho podemos andar descalços, porque as pedras são pequenas e massageiam a sola dos nossos pés cansados. Carros não podem transitar por ele, porque é uma caminhada que deve ser feita com calma, lembrando que nem tudo é perene. Nesse caminho você não precisa caminhar a sós. É bom que os melhores pensamentos lhe sirvam de companhia, de vez em quando é bom ter uma mão como guia. Tem a ver com vontade de andar ao lado enquanto a paisagem se desnuda, fluida. Podemos andar nus, se quisermos. Nus das suas e das minhas verdades. Por dentro e por fora. Desnudados de tudo, até que que a noite caia, até que seja novamente dia. Você sabe: o seu nome rima com poesia.


Recife

Hoje a cidade do Recife faz aniversário. Em dias assim, eu que estou longe, acabo assaltado por lembranças. Elas me chegam embaralhadas, truncadas. Lembranças sempre noturnas. As noites do recife, quando eu a atravessava pra lá e pra cá, com amigos, às vezes sozinho, sacolejando no ônibus, Jordão Baixo ou Encruzilhada / Boa Viagem. Em busca de uma cerveja gelada, de amigos pra conversar. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Hoje, 12 de março, a cidade do Recife faz aniversário. Em dias assim, eu que estou longe, acabo assaltado por lembranças. Elas me chegam embaralhadas, truncadas. Lembranças sempre noturnas. As noites do recife, quando eu a atravessava pra lá e pra cá, com amigos, às vezes sozinho, sacolejando no ônibus, Jordão Baixo ou Encruzilhada / Boa Viagem. Em busca de uma cerveja gelada, de amigos pra conversar. A desolação da Avenida Sul, arruinada, como um filme pós-apocalíptico… certa praça que eu adorava, por trás do Museu do Estado, cheia de eucaliptos. Memória da memória… começo já a lembrar das lembranças, como se alguém, em mim, me contasse. Certa noite, num bar com uma amiga, olhamos para a rua de frente pra nós e vimos, num sobrado velho, como pareciam todos os sobrados, uma placa: Clube dos Mágicos. Rimos e nos espantamos… era tarde da noite e ficamos imaginando o que poderia estar acontecendo ali dentro, a portas trancas, janelas cerradas. A reunião dos mágicos sombrios da cidade, aquela cidade assombrada em que éramos fantasmas.

Teve essa lua cheia, nascendo no horizonte escuro do mar, do Atlântico, que parecia uma explosão nuclear, como uma bolha alaranjada E eu quis que fosse uma explosão nuclear que rompesse o tédio daqueles dias, mas era a lua. Voltei pra casa, na Imbiribeira, sempre de ônibus, sempre de noite. Sim, lembranças sempre noturnas, com o cheiro do jasmim que minha mãe plantou, que cresceu e floriu tantas vezes. Já naquela época eu li um texto de Jorge Luis Borges em que ele falava dessa eternidade noturna.

Nenhuma casa se aventurava à rua; a figueira escurecia a esquina; os portõezinhos – mais altos que as alongadas linhas das paredes – pareciam trabalhados com a mesma substância infinita da noite.
(Jorge Luis Borges, em Nova refutação do tempo; traduzido por Sérgio Molina)

Talvez seja isso. Talvez eu tenha eternizado Recife uma longa noite, em que tudo aconteceu… o Clube dos Mágicos, o rio moroso, arratando-se sob as pontes, o pontilhão da Rede ferroviária cruzando por sobre a Avenida Sul, o terreno na esquina da minha rua onde por tantos anos houve somente mato. E eu, criança, fantasiava um reino secreto, escondido naquele terreno, um reino vagaluminoso e inalcançável, que me era como uma intuição. No seu centro remoto jazia o que teria restado do vasto manguezal que fora um dia tudo aquilo, todas aquelas ruas.

Como sempre trata-se do que não mais existe. Alcançar esse centro não me é dado. Por isso não penso no Recife como um lugar em que eu possa ir. A cidade que visito ocasionalmente, e que também se chama recife, pertence a outras pessoas, que a recordarão um dia, onde quer que estejam, como se lhes pertencesse. Reservo-me o folhear de minhas páginas noturnas. E quando desço do avião, no Aeroporto dos Guararapes, eu as fecho, essas páginas, para que não se confundam com o que verei, para queeu não me confunda e pense que voltei.

recife me espera
em algum lugar do mapa
a cerca de duas horas
de onde agora me encontro
em altitude de cruzeiro
acalantado
pelo rugido
das turbinas

da janela posso ver um rio
que não é o capibaribe
— lá longe ainda —
mas que tem aquela
cor de enchente
que reconheço
enchente que ansiei em 1975
e que nunca chegou
na imbiribeira

na velocidade do jato
ficou pra trás o rio sem nome
barrento
ficaram pra trás na memória
a imbiribeira
e a cheia de 75
num lugar onde mal podem
ser alcançadas

à frente desse voo
resta um recife irreconhecível
idioma que não compreendo
intraduzível
outra cidade
sobre a cidade em que vivi
como aquelas cidades
construídas sobre uma colina
outra colina
mil colinas

minha rua ter sido asfaltada
já diz muito
esperamos tanto aquele asfalto
uma vida inteira com a rua de terra
cheia de buracos
e enlameada quando vinha a chuva
pro asfalto chegar tarde demais

pensando hoje na minha rua
é como se tivessem explodido uma bomba
que matou alguns
e espalhou
os outros moradores
pelo mundo
nas mais inesperadas direções

e depois asfaltaram tudo
para que não houvesse provas
para que não houvesse
evidências
para que ninguém
achasse o caminho de volta

Poema de Toinho Castro publicado em Lendário Livro – Editora Rubra, 2018


De ouvido nas perifas

Nas trilhas das identidades, no território das margens (2019) é o título do livro organizado pelo professor, poeta e compositor Idemburgo Frazão, em parceria com a professora Patrícia Rangel. O livro é fruto da produção cultural desenvolvida pela dupla de pesquisadores do grupo Margens da Literatura, UNIGRANRIO, Duque de Caxias-RJ. [Texto de Nonato Gurgel]

Texto de Nonato Gurgel


Nas trilhas das identidades, no território das margens (2019) é o título do livro organizado pelo professor, poeta e compositor Idemburgo Frazão, em parceria com a professora Patrícia Rangel. O livro é fruto da produção cultural desenvolvida pela dupla de pesquisadores do grupo Margens da Literatura, UNIGRANRIO, Duque de Caxias-RJ.

Além deste livro de ensaios que tematizam questões periféricas na contemporaneidade, Frazão é coautor de Clementina Cadê Você (Funarte/LBA), e acaba de lançar Lima Barreto: diálogos marginais e identidades periféricas (2019). O volume reúne 5 ensaios que privilegiam gêneros ‘menores’ como a crônica, a carta, o diário e, além de Lima, o autor dialoga com escritores ausentes do cânone literário como João Antônio e Carolina Maria de Jesus.

Esse dialogismo leva em conta alguns temas como o racismo, a memória, loucura, pobreza e exclusão social. Discute também o lugar de voz, um conceito polêmico que incomoda principalmente quem tem, ou sempre teve garantido esse espaço que é também o lugar da crítica. Esse lugar é caro ao cronista Lima Barreto, como lemos no final do ensaio ‘O cronista e a língua literária: um estudo das crônicas de Lima Barreto sobre o carnaval’:

A partir da interpretação que aqui se faz da crônica ‘Sobre o carnaval’, pode-se afirmar que Lima Barreto… via no carnaval e em eventos de grandes concentrações de pessoas em torno da alegria e do riso, uma possibilidade de inverter, de modificar seu enfadado estado de espírito, dotando-o de maior viço. Mas como o autor não investe nessa possibilidade de ‘conversão’ à alegria, o carnaval se apresenta enquanto uma espécie de ‘epifania abortada’ pela supremacia crítica do autor.’

Na ficção, Frazão estreou com os poemas dO Livro das Figuras (2010). Segundo Lia Calabre, o texto foi escrito com base no ‘diálogo com jovens’ e nos ‘exercícios de intertextualidade’, resultando num ‘jogo entre o óbvio e o improvável’. Esse ‘diálogo’ e os ‘exercícios’ são audíveis nesse poema curto, com ecos da modernidade oswaldiana:

Metamorfose

Sorriu

Os autores modernos são os mais relidos nesta poética, como sugere esse poema de versos curtos, cuja rapidez remete às poéticas alternativas e marginais dos anos 70/80:

Margem Rosa

A terceira margem do rio
Deságua no sertão
Do pensamento

Além de Guimarães Rosa, ecos de outros modernos, como Drummond e Gullar, são audíveis neste livro que estetiza os afetos e as miudezas do cotidiano, com ênfase na metalinguagem e na performance dos bichos. Essa ênfase nos animais tematiza o segundo livro de poemas, Graças de Deus: um gato (2014) que termina assim:

Manha de pai
Força de mãe
Deus proteja

Menino
Gato (?)


Sonete-se!

Finalmente chegou o momento de pagar aquela dívida antiga, lembram? De eu contar pra vocês um pouco mais a respeito do meu projeto envolvendo esse intrigante e apaixonante tipo poético chamado soneto? [Texto de Eduardo Maciel]

Texto de Eduardo Maciel


Olá, queridos kurumateirxs!

Finalmente chegou o momento de pagar aquela dívida antiga, lembram? De eu contar pra vocês um pouco mais a respeito do meu projeto envolvendo esse intrigante e apaixonante tipo poético chamado soneto?

Então: vou contar tudinho (o que já aconteceu, o que está acontecendo e o que vem por aí). 

Mas antes, preciso dizer que tenho me sentido muito abençoado por estar conseguindo levar esse projeto adiante num momento em que se peleja tanto para emplacar algo que possa ter um quê de originalidade, liberdade e relevância na cultura brasileira.

Muito abençoado mesmo. E agradecido por ver minha obra ser tão bem recebida por onde a levo, ou por onde ela se faz entrar.

Agora sim: MUITO PRAZER EM CONHECER VOCÊ!

O PROJETO

Resgate de sonetos no cenário da literatura brasileira em todas as suas vinte formas de composição, com o lançamento previsto de sete livros (ou temporadas de uma série literária com cinquenta episódios cada), cujas artes de capa se inter-relacionam (ao final formam as cores do arco-íris) e os títulos são sempre neologismos envolvendo o radical da palavra SONETO, sendo que em todos eles os poemas conversam com outras linguagens da arte. O projeto contempla ações de ativação que coloquem protagonismo na outra arte que acompanha os sonetos. No caso de SonetIMAGEM, foi uma exposição de fotografia realizada na Casa de Cultura Villa Olivia. 

Para o terceiro, o SonetILUSTRA, a ser lançado no fim de abril, também está prevista uma exposição com intervenções culturais ao vivo e sempre tendo como base esse papo interessantíssimo entre sonetos e desenhos.

OS LIVROS

  • SonetATO – lançado em 2018.
  • SonetIMAGEM – lançado em 2019.
  • SonetILUSTRA – a ser lançado em abril de 2020.
  • SonetONS – sonetos musicados com cifras para violão e QR code no livro para acesso às 50 músicas e show itinerante.
  • SonetEATRO – sonetos conversando com artes cênicas. Haverá uma peça itinerante mediante inscrição em editais, na qual a fala dos personagens são os versos dos sonetos. Único que precisa ser lido em sequência, e onde todos os 50 sonetos serão do tipo italiano.
  • SonetERROR sonetos focados no gênero de suspense/thriller ou terror, até hoje apenas explorado em prosa e não em verso. A ideia é torná-lo público em feiras do gênero, como ativação.
  • SonetEMPERO – sonetos articulados com a temática da alimentação saudável, culinária entendida como arte e como promoção da saúde e do prazer na alimentação, para encerramento do projeto.

Livro 3 já no forno e mais dois em produção paralela. Talvez essa seja a causa de algumas olheiras ocasionais. Adoráveis olheiras essas.

Até breve! Beijos, abraços e carícias da moda!


Com o Pará nas guitarras: Um bate-papo com Lucas Estrela

Lucas é esse jovem guitarrista do Pará, que tem dois discos maravilhosos nas plataformas de streaming, que são Sal ou Moscou e Farol. Descobri o som de Lucas por acaso, numa dessas sacadas luminosas que, às vezes, os algoritmos nos oferecem. Dei play e tô dando play até hoje no som desse cara. E melhor ainda… Lucas foi a porta da música paraense e suas guitarradas e sua diversidade de sons e de vozes. Um universo novo e multifacetado que estou adentrando e aprendendo e amando. [Texto e entrevista de Toinho Castro]

Texto e entrevista de Toinho Castro


Gente, o Lucas Estrela é um jovem músico paraense que está com um trabalho afiadíssimo, representando uma nova geração da música do Pará que, como sempre, vem surpreendendo. Com dois discos na bagagem e muitos shows e parcerias, Lucas entrou no toca-discos da Revista Kuruma’tá e não saiu mais. Preparando um novo disco, Lele deu uma pausa leve no seu retiro criativo e conversou com Toinho Castro, via Zap, para a Kuruma’tá.



Lucas Estrela no Festival Levada – Foto de Toinho Castro

Eu ia começar esse texto dizendo que uma das grandes surpresa dessa última edição do Festival Levada, em setembro do ano passado, foi o show do músico paraense Lucas Estrela. Mas isso não é verdade, porque não era surpresa alguma a apresentação sensacional do Lucas, com uma banda enxuta de dois habitantes e suas guitarras e circuitos eletrônicos mandando ver no espaço LabSonica do Lab Oi Futuro, no Catete! Foi uma noite de alegria e muita dança, em que ninguém ficou parado. Vamos agradecer por essa noite ao Levada e à curadoria certeira de Jorge LZ, que sacou a dimensão aquele som poderia ter no estúdio do oi Futuro. Bom demais… a partir, a sintonia que eu tinha com esse trabalho só cresceu e tiro mais os olhos e ouvidos da timeline do Lucas no Instagram!

Lucas é esse jovem guitarrista do Pará, que tem dois discos maravilhosos nas plataformas de streaming, que são Sal ou Moscou e Farol. Descobri o som de Lucas por acaso, numa dessas sacadas luminosas que, às vezes, os algoritmos nos oferecem. Dei play e tô dando play até hoje no som desse cara. E melhor ainda… foi a porta da música paraense e suas guitarradas e sua diversidade de sons e de vozes. Um universo novo e multifacetado que estou adentrando e aprendendo e amando.

Depois do Levada em outubro, ele participou do show Pará Pop, no Palco Sunset do Rock’in’Rio com Dona Onete, Pio Lobato, Fafá de Belém, Gaby Amarantos e Jaloo! Grande momento da música brasileira no maior festival de música do mundo. Um momento em que a identidade musical paraense disse, com força e talento, a que veio. E isso é muito lucas Estrela, um músico que acredita no encontro e na parceria, em compartilhar aprendizados e caminhos.

Quando comprei o compacto de 7″ do Lucas, vinil lindo com duas faixas, Farol e A sereia (Com participação do Lucas Santtana), acabei travando ali uma conversa via direct, no Instagram e iniciamos uma amizade que levou ao bate-papo, agora via zap, em áudio, que tive com ele ontem; porque a gente tem que usar essas tecnologias pra fazer as conexões possíveis e necessárias! E que conversa boa!

Agora vá lá e dê seu play no trabalho do Lucas e da turma do Pará nas plataformas de streaming, fique ligado nos shows que estão sempre acontecendo por aí. da parte da Kuruma’tá, vamos sempre divulgar a música paraense, com muito gosto.


Lucas Estrela no Festival Levada – Foto de Toinho Castro

Entrevista disponível também no Mixcloud:


Para ler: Viagem ao centro da Terra, de Júlio Verne

Hoje trazemos uma colaboração do amigo Joelson Pranto, comentando esse clássico absoluto de Júlio Verne, Viagem ao centro da Terra. Alguns dirão que não há novidade alguma nesse livro… E certamente é um livro sobre o qual muito já se disse e a edição comentada nem é mesmo uma novidade também. Ainda assim é sempre bom lembrar de livros assim. Até porque é uma obra que está naquela classe de livros que são tão enraizados na cultura que muita gente acha que leu sem ter lido. Aproveite que essa edição ainda pode ser encontrada nas livrarias. Se já leu, leia novamente. Leia com seus filhos. [Texto de Joelson Pranto]

Hoje trazemos uma colaboração do amigo Joelson Pranto, comentando esse clássico absoluto de Júlio Verne, Viagem ao centro da Terra. Alguns dirão que não há novidade alguma nesse livro… E certamente é um livro sobre o qual muito já se disse e a edição comentada nem é mesmo uma novidade também. Ainda assim é sempre bom lembrar de livros assim. Até porque é uma obra que está naquela classe de livros que são tão enraizados na cultura que muita gente acha que leu sem ter lido. Aproveite que essa edição ainda pode ser encontrada nas livrarias. Se já leu, leia novamente. Leia com seus filhos.

Joelson, apesar do sobrenome, é um cara feliz.

Texto de Joelson Pranto


A história de Viagem ao centro da Terra, segundo romance de Júlio Verne, todos conhecem… Em 1863 o professor e cientista alemão Otto Lidenbrock encontra um manuscrito de Arne Saknussemm, um alquimista islandês do século XVI, que uma vez decifrado aponta o caminho rumo ao centro da Terra, cuja entrada estaria na boca do vulcão Sneffels, na Islândia. O impetuoso e destemido professor arrasta a si e seu sobrinho Axel , narrador da aventura, da Alemanha até a terra gelada de Saknussemm. Lá, guiados por Hans, um guia local, eles adentram as entranhas do planeta e começam uma aventura de tirar o fôlego! Na verdade, Júlio Verne se certifica de criar uma história emocionante desde as primeiras páginas, em que um acontecimento grandioso, de ordem histórica, vai desabando sobre seus personagens e os empurrando sempre adiante, sempre de súbito, movidos pelo professor Lidenbrock, com sua irritação, sua urgência em realizar o nunca feito, ou melhor, alcançado por um único e lendário homem, Saknussemm.

Mas que move o professor Lidenbrock não é a aventura, mas a ciência. A cada passo da jornada a ciência do século 19, ansiando pelo século 20, nos desafia e provoca. Não há espaço para malabarismos místicos ou metafísicos. Lidenbrock navega num mundo onde reinam as evidências. Tudo tem uma explicação. E se essa explicação se mostrar insuficiente, outra tomará o seu lugar. Entre as provisões que carregam não faltam instrumentos de medição que possam asseverar os dados, confirmar ou refutar hipóteses.

Eu lendo a ótima edição da coleção Clássicos da Zahar, um belo exemplar de capa dura, recheado com as ilustrações que Édouard Riou criou para a edição de 1867 e com muitas notas de rodapé, que explicam, contextualizam e atualizam informações; um conteúdo precioso para a leitura contemporânea da obra.

Monte Sneffels – Foto de Anjali Kiggal / CC BY-SA ()

Tem uma cena do livro em que o Lidenbrock e Axel estão em Copenhague, a caminho do destino enorme, e o professor leva o sobrinho para visitar uma pequena igreja e o faz subir ao alto do campanário, por uma vertiginosa escarada em espiral. Para descer às profundezas Axel deverá primeiro subir às alturas, porque em ambas reside a vertigem, do mundo, da vida. A torre se erguia na noite, acima da cidade, e as nuvens deslizavam logo acima de suas cabeças. É um momento lindo do livro. Logo estarão no topo do Sneffels, outro jogo lindo de ideias.. Subir ao alto de um vulcão para poder descer ao mais fundo, rumo ao núcleo. Verne poderia tê-los feito descer por tantas cavernas, mas os enviou para a violência adormecida de um vulcão, numa ilha fria e distante, tal era o seu senso de aventura e de diversidade científica para explorar. Que livro maravilhoso. Não é à toa que foi editado, em 1864, como parte da série Les voyages extraordinaires, que reunia 54 novelas de Verne, entre elas Cinco semanas num balão e Vinte mil léguas submarinas.

É um livro mágico. Abrir suas páginas é abrir a porta de um mundo labiríntico. Os subterrâneos do professor Lidenbrock parecem nos ensinar que a Terra é como a Tardis, a nave do Doctor Who: Maior por dentro que por fora. Quando pensamos que eles estarão sufocados, entranhados, esmagados sob o peso dos continentes e mares, descobrimos vastas paisagens e camadas e mais camadas de passados possíveis, como se rumássemos, ao mesmo tempo, ao infinitesimal. O mundo dentro do mundo dentro do mundo. Essa é a beleza de Viagem ao centro da Terra… Mesmo que nossa jornada seja para dentro, o que nos espera é sempre o infinito.


Em tempos de negação da ciência livros como esse são um lenitivo, mesmo com os anacronismo, que são devidamente tratados pelas notas que acompanham a narrativa. por isso ler Júlio Verne é tão legal e importante, junto com outros livros atuais que trazem a ciência em primeiro plano. Vamos falar de ciência, gente!

No mais, as edições atuais do escritor francês utilizam a grafia Jules Vernes, mas eu mantenho o meu Júlio Verne, que trago desde a infância, quando li pela primeira vez essas páginas de paixão e aventura.

Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa: O Viajante do Tempo

Quando criança, ouvia os discos de 78 rotações do pai e sonhava com um tempo que não conhecera, mas que sem dúvida era melhor do que aquela infância insossa no quintal de terra batida cheio de árvores frutíferas e mil brincadeiras. Para o Viajante, tempo bom era o de seus pais. [Texto de Fábio Fernandes]

Texto de Fábio Fernandes


Foto original: Pxhere.com

O Viajante do Tempo vivia no passado. Nunca conhecera momento melhor do que aquele que já se fora e não voltaria mais.

Quando criança, ouvia os discos de 78 rotações do pai e sonhava com um tempo que não conhecera, mas que sem dúvida era melhor do que aquela infância insossa no quintal de terra batida cheio de árvores frutíferas e mil brincadeiras. Para o Viajante, tempo bom era o de seus pais.

Na adolescência, gostava de levar a namorada (que conhecera na infância) para ver o mar, e cantarolar tangos e boleros em seu ouvido. Os boleros naquele tempo eram razoavelmente novos.

Casou-se com ela, teve um casal de filhos. Abriu um brechó. Tinha um carro velho, caindo aos pedaços. Era incapaz de lidar com novidades.

Até que veio a má notícia. Sua mulher tinha câncer.

Ela não durou muito. E o Viajante ficou só, com os filhos, os discos, as lembranças.

Preferiu os discos e as lembranças.

O Viajante nunca mais voltou ao presente.


O Bruxo não para

A fortuna crítica de Machado de Assis é extensa e não para de crescer. Hoje mesmo, nas redes sociais, o prof. e poeta Antonio Carlos Secchin cita o 1o vol (1908-1939) da fortuna do Bruxo do Cosme Velho, e apresenta um 2o vol a partir de 1939. Composta de romance, conto, ensaio, teatro, crítica, crônica, jornalismo e poesia, a bibliografia do Bruxo dialoga com as chamadas altas literaturas, com o cânone literário ocidental. [Texto de Nonato Gurgel]

Texto de Nonato Gurgel


A fortuna crítica de Machado de Assis é extensa e não para de crescer. Hoje mesmo, nas redes sociais, o prof. e poeta Antonio Carlos Secchin cita o 1o vol (1908-1939) da fortuna do Bruxo do Cosme Velho, e apresenta um 2o vol a partir de 1939. Composta de romance, conto, ensaio, teatro, crítica, crônica, jornalismo e poesia, a bibliografia do Bruxo dialoga com as chamadas altas literaturas, com o cânone literário ocidental.

Nesse diálogo com a tradição, Machado aciona intertextos entre a literatura, culturas e outras áreas do saber como a história, a mitologia e a filosofia, sem perder de vista ‘sua excelência’, os fatos, principalmente os fatos sócio-políticos. Munido de múltiplos procedimentos estéticos e culturais como a intertextualidade, a metalinguagem, o corte, o diálogo com o leitor, a paródia e a ironia, Machado antecipa, de certa forma, a linhagem moderna de nossa literatura.

Dentre esses procedimentos modernos, a professora Sônia Grund elege os intertextos como tema do seu livro Intertextualidades em Memórias Póstumas de Brás Cubas: as múltiplas vozes em Machado de Assis. A leitura desse livro se transforma numa espécie de visita a uma minibiblioteca universal, formada pelos autores ingleses, espanhóis, latinos, gregos, italianos, portugueses, franceses e árabes que ecoam nas páginas do Bruxo.

É prazerosa essa viagem polifônica repleta de citações, alusões, epígrafes, traduções e paródias. Ao ler com acuidade esses ‘elementos formadores’ da intertextualidade, Sonia ratifica o lugar central de Machado no nosso cânone. Em tempos nos quais o preconceito e o racismo afloram, é bom lembrar que embora seja composto, em sua grande maioria, por homens brancos, o nosso cânone tem, no seu centro, um autor negro, ‘filho de uma escrava num país onde a escravidão só foi abolida quando ele tinha quase cinquenta anos’.