Em março de 2013, a Academia Brasileira de Letras recebia a exposição de xilogravuras de Ciro Fernandes. Manancial artístico inigualável. Ciro, em atuação constante, alcançou um patamar superior na xilogravura brasileira. Telas complexas e tão detalhadas que chegam a confundir o olhar do expectador. Ciro não fere a madeira, oferece a ela a oportunidade de tirar a roupa e se revelar sedutora. Ciro risca a pele da madeira sem tatuá-la, com a delicadeza do gênio abre-lhe coração. Ciro é zeloso: acaricia a madeira como Jacó acariciou a pele branda de Rachel. [Texto de Aderaldo Luciano]
Em março
de 2013, a Academia Brasileira de Letras recebia a exposição de
xilogravuras de Ciro Fernandes. Manancial artístico inigualável.
Ciro, em atuação constante, alcançou um patamar superior na
xilogravura brasileira. Telas complexas e tão detalhadas que chegam
a confundir o olhar do expectador. Ciro não fere a madeira, oferece
a ela a oportunidade de tirar a roupa e se revelar sedutora. Ciro
risca a pele da madeira sem tatuá-la, com a delicadeza do gênio
abre-lhe coração. Ciro é zeloso: acaricia a madeira como Jacó
acariciou a pele branda de Rachel. Ciro Fernandes é de Uiraúna, na
Paraíba do Norte, vive no Rio e eterniza-se na arte. A Academia
Brasileira de Letras com aquele evento alcançava a redenção. Andei
por cada obra com o olho milimétrico, chegando n’O Tocador de
Pífano fiquei detido, transitando o tempo.
Banda de pífanos de Caruaru
Minhas mais remotas lembranças de uma banda de pífanos levam-me às margens do Rio São Francisco, em Propriá, no Sergipe. Ali onde o calor entra pela boca do rio e desce sobre os viventes, devagar e sempre. O São Francisco foi o primeiro rio que vi de verdade. Nessa primeira vez, passei sobre ele por volta das 4 da manhã. Viajava num velho ônibus da São Geraldo que vinha de Natal, no Rio Grande do Norte, passava em Campina Grande, descia por Caruaru, se mandava para dentro das Alagoas, parava em São Miguel dos Campos seguia para Aracaju. Antes de Aracaju, deixou-me na entrada de Propriá. Não havia ninguém me esperando. Com minha mochila, caminhei a pé por mais ou menos dois quilômetros até à Rua Japaratuba, à procura da casa onde viveria por dois anos. Em lá chegando, sentei praça sob o comando de Salatiel Franciscano do Amaral.
Pois bem, desse tempo passado no Sergipe conheci todo o sertão e as cidades para baixo de Propriá. Em Brejo Grande fui batizdo nas curvas do rio. Na antiga Neópolis, atravessei para Penedo, numa balsa barulhenta com medo de ser arrastado pelas águas.Eu tinha 17 anos e vi e escutei pela primeira vez uma banda de pífano, banda cabaçal, zabumba, como queiram. A Briga do Cachorro Com a Onça e O Besouro Mangagá foram minha primeira aula. E ainda não ouvira falar da Banda de Pífanos de Caruaru. Aquilo arrebatou-me de tal forma que fiquei desarrazoado. O casamento dos pífanos, um na melodia, outro numa espécie de contracanto, a zabumba marcando num compasso diferente de tudo que eu ouvira, uma caixa malassombrada marcando um xaxeado e um par de pratos como um enxame de chuveirinhos juninos.
Nunca mais parei de ouvir esses sona. Depois encontrei com João do Pife, em Caruaru e, com seus discos debaixo do braço, fui fazer uma comparação dele com Zé da Flauta, nos discos de Alceu Valença. O pife é o sopro da vida, é o bicho escondido rosnando enfezado. Tenho certeza que Deus era um tocador de pife e foi soprando nele, num pife feito de taboca, que deu vida ao Homem com seu sopro fiel. Foi mesmo. E vou mais além em meu sonho de jeca: a trilha sonora do Universo, independente de Stephen Hawking, é a Briga do Cachorro Com A Onça!
Os pífanos iniciais
A tradição do pife brasileiro ainda necessita de boas apreciações. Sendo um instrumento primitivamente da mata, feito a partir da taboca ou do bambu, muitas vezes do próprio talo da folha da abóbora ou do mamoeiro, o pife detém a magia elemental. Tirar o som de um instrumento, ao mesmo tempo rústico e sofisticado musicalmente, com uma escala complicada, não é nada fácil. O pife, como todo o instrumental, é caprichoso, requer tanta dedicação, tanto estudo e tanto apuro que muitos de nós que tentamos tocá-lo ficamos pelo caminho.
Minha
arqueologia pessoal, como disse, encontra o pífano na infância
quando a tribo de índios de João Pé-de-bolo saía no carnaval
areense tocando, fatalmente, a marcha dos índios cariris. Aquele som
parecia feito de bolinhas sonoras galopando, invisíveis, até nossos
ouvidos. Brotaram-me a admiração e o afeto. Mas, também como falei
acima, João do Pife apareceu-me um dia traduzindo uma imensa mesa de
possibilidades. Das músicas folclóricas ao mais sofisticado jazz, o
velho pife dava conta, dependendo do bico e das acrobacias digitais
do tocador.
Independente de toda uma casta pifeira nacional, minhas raízes trazem-me sempre os quatro cavaleiros pelos quais afeiçoei-me na vida: João, Biu, Zé e Edmilsom do Pife. Para mim é o quarteto fundamental porque os primeiros que escutei detidamente tentando entender as frases, as síncopes, os dobrados, os trinados, as longas viagens e precisas estalagens. A partir daí, imaginei certa vez a imagem de Deus criando o homem e, olhando o barro inerte, entrando na mata, retirando um pedaço de taboca, lhe furando o corpo. Assoprou-lhe, dançando os dedos, e derramou a Vida do seu próprio Sopro dentro de nós.
https://www.youtube.com/watch?v=rE6q207tLCQ
https://www.youtube.com/watch?v=ap1jlgVAEf0
https://www.youtube.com/watch?v=FAl0aAGaP_o
https://www.youtube.com/watch?v=TqYtxt1UHv8
Experiência Copacabana #1
Hoje acordei cedo para ver se a prefeitura limpou essa porcaria dessa Copacabana direito. E até que tava descente. Tendo em vista o hecatombe de humanos que vieram assistir os fogos. Ainda tinha bastante gente dormindo bebadas pelas ruas. Eu tenho um pouco de inveja de quem consegue beber assim. Beber até cair. Não tenho essa manha. Por falar nisso. Sabe quando você tá num bar as oito da manhã virado no rolet, tomando a décima quinta saideira e daí passa alguém com fone de ouvido indo correr. Hoje era eu esse cara! Eu alterno, eu alterno. [Texto de Francisco Paschoal]
E a Revista Kuruma’tá faz questão de começar o ano no primeiro dia, porque não temos tempo a perder! E nesse primeiro dia a gente traz, orgulhosamente, um episódio do Experiência Copacabana, a página de crônicas sobre o bairro que inquieta, traduz, engana, mistifica, exalta e explode o Rio de Janeiro!
Hoje acordei cedo para ver se a prefeitura limpou essa porcaria dessa Copacabana direito. E até que tava descente. Tendo em vista o hecatombe de humanos que vieram assistir os fogos. Ainda tinha bastante gente dormindo bêbadas pelas ruas. Eu tenho um pouco de inveja de quem consegue beber assim. Beber até cair. Não tenho essa manha. Por falar nisso. Sabe quando você tá num bar as oito da manhã virado no rolê, tomando a décima quinta saideira e daí passa alguém com fone de ouvido indo correr. Hoje era eu esse cara! Eu alterno, eu alterno. Ai passando em um boteco desses que só vão fechar no apocalipse mesmo, eu encontrei alguns amigos tomando a décima quinta saideira, aí tive que tomar umazinha com eles. Expliquei que esse ano tava focado no trabalho, economizando dinheiro e saúde e não havia feito nada no Ano Novo. Ai um deles mandou assim.
— Saca o Tim Maia? — Sim! — Então, ele só aguentou até o que ele aguentou pq ele ficou uma época naquela seita maluca e deu uma desintoxicada. Tá ligado?
A história mitíca do albúm Racional do Tim é invocada em mesa de doidão sempre. Pesquise no google sobre esse albúm e escute Tim Maia Racional! É um bom programa.
— Eu odeio festa de ano novo, mas eu fico ansiosa se eu deixo passar em branco. Aí acabo fazendo alguma coisa e aí não consigo mais parar até.. sei lá, dia 05. – Todos riem da piada de Bia, e de mais outra piada com branco e Ano Novo que ela fez e que eu não vou contar aqui que pode ter criança lendo. Bia é daquelas pessoas que eu conheço da noite e tenho no face mas não sigo. Figurinista ou cenógrafa. Se não me engano.
Thiago está atento ao celular. Ele é uma das figuras da mesa que eu conheço melhor. Ele é um geniozinho dos apps e programador. Trabalha para caramba, ganha bem, mas segundo ele seu trabalho é opressor e ele precisa de uma farmacologia complexa para se manter atuante na sociedade. Ele desenvolveu um app foda e que só um seleto grupo usa e esse app encontra o chilli out mais próximo.
— Sem você ter que passar o carão de ter que postar se alguém sabe se tá rolando algum eventinho as 8 da manhã. – Thiago vai explicar mais uma vez como o app dele funciona. Como ele busca o chilli out perfeito, os tipos de chilli out, se é com música ou sem, se o gráfico manipulação química ainda tá ascendente ou se a galera está já tá gastando, se tem gente solteira e até mesmo dicas de primeiro socorros. Em um certo o app apitou chamando atenção de todos na mesa.
Essa é minha deixa para ir embora. Thiago e Bia insistem para que eu vá. Dizem que é um chilli out épico em apartamento enorme da Republica do Peru, de um cara que acabou de perder o pai e herdou uma grana e o apt, que o cara tá desnorteado e quer ir até dia de reis festejando. Agradeço o convite mas termino minha long neck desejando Feliz Ano Novo para todos e finalizo dizendo para a galera beber bastante água. Indo para casa olho para os milhares e milhares de apartamentos em Copa e o que não deve de tá rolando nesse dia primeiro. Quantos surubas de arromba ainda estão em em andamento nessa primeira manhã. Aquela palhaçada de ir ver os fogos e voltar para casa é nada perto do que rola mesmo sem que ninguém veja.
O moço que passou da direita para esquerda – atrás de mim – passa agora da esquerda para a direita e tira a segunda foto. Outras cores. Outras sensações. Influenciada, eu também tiro outra. Vício do compartilhar mais uma vez. Eu quero e não quero voltar pra casa. Talvez eu deite aqui na balaustrada mesmo. Talvez eu entre pela porta da sala. Talvez eu entre com fones de ouvidos desligados. Mas isso só eu vou saber. Eu só queria silêncio. Comportamentos quase que obrigatórios. [Texto de CARU]
Datas obrigatórias. Falsa realização de descanso. Cheiro de dendê. Uma certa paz. Tenho fome de coisas gostosas. A Bahia me dá. Fora. Vento. Sol. Mar. Eu saio a pé pra ver o pôr do rei. Pessoas param para tirar foto da paisagem que vive no meu olhar. E mesmo que more, eu também tiro uma foto no celular. Compartilhamento de sensações. Um casal desce na areia da praia do Rio Vermelho, que é azul. Tocam seu violão em miniatura. Uma criança pula as ondas ao lado de sua mãe. Estavam a espera do alimento que vem do mar. Dezoito horas. A hora que – depois de singrar pela Baía – o peixe chega. Chega quando o sol se vai. Eu permaneço. O moço que passou da direita para esquerda – atrás de mim – passa agora da esquerda para a direita e tira a segunda foto. Outras cores. Outras sensações. Influenciada, eu também tiro outra. Vício do compartilhar mais uma vez. Eu quero e não quero voltar pra casa. Talvez eu deite aqui na balaustrada mesmo. Talvez eu entre pela porta da sala. Talvez eu entre com fones de ouvidos desligados. Mas isso só eu vou saber. Eu só queria silêncio. Comportamentos quase que obrigatórios. Não é de todo mal, não é mesmo. Mas só chegam mais. Mais. Mais e mais. E quanto mais chega, mais chegam, mais eu me escondo. Antes não era assim. Eu fingia. Deixava passar. Hoje sinto o muro ao meu redor. Eu mesma fui construindo minuciosamente. Sou boa com construções. Firmes. Porém, (ainda) dá pra ver por cima. Às vezes só não precisava ser obrigação. Só quando for pro meu santo. Defumador. Cheiro de água de flor de laranjeira e água marinha. Dendê no almoço e depois das festas. Oraieieo, eu peço calma e serenidade. Okê arô, fecho os olhos e saio arrumando tudo. Determinações de fim de ano. Odoyá. Jogando coisas fora. Organizando o caos visível. Coisas novas. Venham. Ano que vem será diferente.
Foto: CARU
50 discos de 2019 para estarem na ponta da agulha
Preparei uma lista com 50 discos de 2019 para estarem na ponta da agulha. Como todas as listas, esta certamente comete injustiças, já que se limita a um determinado número, no caso, apenas 50. Pensando nesse ano, ela poderia ter 150 ou até mais títulos, o que não faltou foi disco bom sendo lançado… seria possível elaborar listas por estados, por cor da capa, por tema ou por qualquer outro parâmetro… enfim, pensei naqueles que mais me chamaram a atenção e que servem como um entre os vários recortes possíveis do que está acontecendo hoje na música brasileira. [Texto de Jorge LZ / Porgrama na Ponta da Agulha]
A Revista Kuruma’tá nasceu em fevereiro desse ano confuso, sob a luz de Iemanjá. Nasceu como se deve nascer, pequena e curiosa. Num dia não existia e noutro, de repente, havia muito a ser feito. Dentre as coisas a serem feitas, urgia uma boa conversa com Jorge LZ, pesquisador musical, curador do Festival Levada, idealizador, produtor e apresentador de programas como Radar e o querido Programa na Ponta da Agulha, para convidá-lo para colaborar com a Kuruma’tá. Já em março sentamos, eu e Jorge, la na Galeteria Cruzeiro, na saída Rio Branco do metrô da Carioca e colocamos em prática a amizade e a parceria. Desde então a gente tá junto, nessa riqueza que é a troca de ideias. Jorge sempre na gentileza da colaboração, abrindo mais e mais espaços para a nossa revista crescer e aparecer!
Valeu, Jorge, esse 2019 teria sido menor sem sua presença
2019 foi um ano horroroso sob vários aspectos, mas como nada é unânime, a cultura segue existindo e resistindo contra a calhordice do projeto de destruição que caiu em nossas cabeças. A MÚSICA, como de costume, sapateou na cara dos malfeitores e mostrou que o jogo está longe de acabar e a virada não será surpresa.
Mais uma vez a produção musical foi avassaladora de bons títulos. De todos os canto do Brasil saíram discos incríveis. Artistas diversos, como é nossa cultura e também a nossa música, capricharam em seus trabalhos… alguns consagrados, alguns iniciando sua carreiras… tivemos de tudo um muito! De Dona Onete a Saskia ou de Jards Macalé a Sessa, o som rolou de forma linda e mais uma vez as mulheres se destacaram e ocuparam o lugar que lhes é de direito.
Preparei uma lista com 50 discos de 2019 para estarem na ponta da agulha. Como todas as listas, esta certamente comete injustiças, já que se limita a um determinado número, no caso, apenas 50. Pensando nesse ano, ela poderia ter 150 ou até mais títulos, o que não faltou foi disco bom sendo lançado… seria possível elaborar listas por estados, por cor da capa, por tema ou por qualquer outro parâmetro… enfim, pensei naqueles que mais me chamaram a atenção e que servem como um entre os vários recortes possíveis do que está acontecendo hoje na música brasileira. Ainda que eu retirasse esses 50 e os substituísse por outros 50, o recorte seria diferente, mas a qualidade seguiria impávida…
A lista, faço questão de frisar, não é dos “melhores”, mas sim de “destaques”, ela não está em ordem de preferência, mas em ordem alfabética pelo nome do artista.
Bons sons…
Confira agora os links para você conhecer cada disco!
Em 2019 completaram-se 40 anos de A Peleja Do Diabo Com O Dono Do Céu, o disco de Zé Ramalho responsável por mudar os caminhos de muita gente. Embora o sucesso viesse total em 1980, foi em 1979 quando tudo foi construído. Dentro do caldeirão musical desse disco, encontraremos elementos nordestinos cuja ancestralidade fala fundo dentro de nós. É um disco tangente ao Tropicalismo, fugitivo ao Rock, arredio ao Regionalismo e ao psicodelismo, mas ao mesmo tempo dialogante com todos eles. [Texto de Aderaldo Luciano]
Em 2019 completaram-se
40 anos de A Peleja Do Diabo Com O Dono Do Céu, o disco de Zé
Ramalho responsável por mudar os caminhos de muita gente. Embora o
sucesso viesse total em 1980, foi em 1979 quando tudo foi construído.
Dentro do caldeirão musical desse disco, encontraremos elementos
nordestinos cuja ancestralidade fala fundo dentro de nós. É um
disco tangente ao Tropicalismo, fugitivo ao Rock, arredio ao
Regionalismo e ao psicodelismo, mas ao mesmo tempo dialogante com
todos eles. Se Paêbiru fora a transposição dos mistérios da Pedra
do Ingá, junto com Lula Cortes, para as frases musicais, algumas
improvisadas nos estúdios da Rozenblitz, no Recife; e Avohai
tornara-se a realização do primeiro sucesso nacional; a Peleja
trouxe elementos sociais bem significativos e consolidou a presença
de Zé Ramalho no cenário da música brasileira.
O disco inicia com a
célebre frase “Ói, com tanto dinheiro girando no mundo quem tem
pede muito, quem não tem pede mais.” E segue seu caminho de
constatações e denúncias explícitas, embora recobertas pela
ludicidade das construções poéticas, livremente inspiradas na
poética dos cantadores e poetas do cordel. O próprio título já
remete a um veio do cordel brasileiro: as pelejas entre dois bons
repentistas. O ritmo do baião contempla o casamento instrumental de
sanfona, zabumba, sopros, com uma marcação poderosa do bacalhau de
Borel. Para quem passar da faixa um,receberá a seguir o aboio do
vaqueiro mais competente em Admirável Gado Novo: “Ê, ô, ô, vida
de gado. Povo marcado, ê, povo feliz.” Quem de vocês que fazem
parte dessa massa não já cantou esse refrão?
Como o próprio Zé
Ramalho tem confessado, há uma forte influência de Geraldo Vandré
em sua formação. A homenagem e a citação ao criador de Pra Não
Dizer Que Não Falei Das Flores vem na terceira faixa do disco, Falas
do Povo: “Falo da vida do povo, nada de velho ou de novo.” Letra
estritamente social, mas como já disse, vestida em forte clima
poético, distanciando-se do que poderia ser panfletário. O violino
de Jorge Mautner se faz presente. Depois de três músicas marcadas
pelo traço reflexivo, vem Beira-Mar, inaugurando o ciclo que se
prolongará por mais duas gravações em discos posteriores:
Beira-Mar (Capítulo 2) e Beira-Mar (Capítulo final). As letras
desses “beira-mar” já estavam prontas desde 1977 na forma de um
folheto de cordel chamado Apocalypse, cuja primeira parte aparecerá
em Canção Agalopada, no disco Terceira Lâmina.
O Lado 1, sim, era
assim naquele tempo de Lps de vinil, finalizava com Garoto De Aluguel
(Taxi Boy): “Baby, dê-me seu dinheiro que eu quero viver”. O
arranjo bem amarrado nas cordas fechava com chave de ouro a primeira
parte do trabalho. Acredito que, como eu, muitos não conseguiram
parar de escutar esse álbum. Não queríamos perder tempo e
virávamos na pressa esperando as surpresas do Lado 2. E vinha
surpresa mesmo pois Pelo Vinho e Pelo Pão mudava o clima,
introduzindo um fado com direito a cavaquinho, violão de sete cordas
e clarinete, como em um regional e participação especial de
Amelinha. Mas o Mote Das Amplidões, a segunda do Lado 2, retomava o
clima nordestino, com décimas setissilábicas terminadas no mote
Viajo Nas Amplidões.
Jardim Das Acácias é uma citação a João Pessoa, capital da Paraíba. Nessa gravação identifica-se mais uma quebra pois aparecem uma guitarra elétrica, tocada por Pepeu Gomes, uma bateria e um órgão. É uma advertência e uma orientação para o Terceira Lâmina que se afastará do acústico. Segue-se Agônico, faixa instrumental, presença constante nos discos posteriores, na qual Zé toca todos os instrumentos. No CD Eu Sou Todos Nós (1998), o instrumental ganhará uma letra e voltará com o título Agônico – O Canto. O LP se fecha em Frevo Mulher com arranjo de sopros, um frevo de rua que se será o grande sucesso atemporal na voz de Amelinha. Nesses 40 anos vimos esse trabalho transformar-se na própria vida de Zé Ramalho e em extensão de nossas próprias vidas.
Sofrimento infinito tardio
Os dois últimos livros que li foram GRAÇA INFINITA e O VERÃO TARDIO. Este ensaio contém spoilers, e espero que não interesse somente a quem leu esses dois livros porque é um recorte específico demais, que limitaria seu público a uma dúzia de pessoas ou sei lá. Em princípio, não há nenhuma relação direta entre as duas obras a não ser o fato de que as li na sequência. [Texto de terêncio Porto]
Os dois últimos livros que li foram GRAÇA INFINITA e O VERÃO TARDIO. Este ensaio contém spoilers, e espero que não interesse somente a quem leu esses dois livros porque é um recorte específico demais, que limitaria seu público a uma dúzia de pessoas ou sei lá. Em princípio, não há nenhuma relação direta entre as duas obras a não ser o fato de que as li na sequência. O primeiro, um raro tijolo de quase 1200 páginas (letras e entrelinhas pequenas) escrita pelo já falecido gringo David Foster Wallace, que levei quase onze meses pra ler, de fato uns 5 visto que tive uma mega interrupção no meio que me impediu de ler qualquer outra coisa que não fosse o que eu estava trabalhando. O segundo, pouco menos de 250 páginas do brasileiro Luiz Rufatto, uma roadtrip pro buraco, mas cheia de ternura. Entre eles, um detalhe crucial inevitavelmente amarra os dois livros, pra lá de possíveis coincidências: a presença de alguns suicídios. No caso da obra estrangeira, a coincidência extrapolou inclusive o limite das páginas, da trama e das personagens pra atingir o próprio autor. Mais de uma década após a publicação da obra, é bom que se diga.
Pois
bem, noves fora esses detalhes, algo que me impressionou
profundamente nas obras, e de maneira bem diferente, foi a abordagem
de certos limites do sofrimento psíquico presentes em ambas. O
sofrimento poderia permear tudo e ainda assim não abordar suicídios;
o tanto de sofrimento psíquico abarcado em cada uma das obras (e
sentido pelo leitor, até certo ponto, variando de pessoa pra pessoa,
naturalmente, cada um sente e reage de maneira exclusiva / singular)
não necessariamente implicaria no fato de alguma personagem tirar a
própria vida. De fato, em nada implicaria. Aliás, é bom que se
diga, o que se fazem presente são muito mais os fantasmas de um
suicídio e o rastro de sequelas deixado por ele do que um gesto
desses propriamente dito, tanto em GRAÇA INFINITA quanto em O VERÃO
TARDIO.
No
tijolaço gringo, que ao longo de suas infinitas páginas conta
muitas histórias – multiplot soa quase eufemístico pro que o DFW
fez, tão ampla é a trama e tão pouco que eventualmente os
diferentes plots se tangenciam, às vezes quase sem fricção alguma,
às vezes tão tardiamente que os balões tensionais já praticamente
se esvaziaram, jazendo meio murchos no chão do salão em fim de
festa –, a suposta história central (a ideia de centralidade fica
comprometida pelo tamanho de todo o resto, e pra mim não é nem de
perto a melhor história, pra mim o outro núcleo dá de dez, a Casa
de Recupeção, que por sua vez desdobra numa miríade de outras
histórias a partir do dia a dia de seus residentes) gira em torno da
família Incandeza, cujo patriarca suicidou-se. James, espécie de
Professor Xavier que fundou uma academia de tênis infanto-juvenil
pra crianças mutantes (o suposto palco principal do livro / festival
de plots) pra depois abandonar tudo e virar um cineasta marginal mega
cultuado em sua excentricidade sem fim, encarnado em flashbacks
num combo de esquisitice e genialidade quase difícil de imaginar,
tão variado e esquisito mesmo, irônico e inusitado em todos os seus
aspectos, físicos inclusives. Suicidou-se com o auxílio duma
customização realizada por ele no melhor estilo Professor Pardal,
enfiando a cabeça num microondas que pôde funcionar com a porta
aberta e assim fazer com o crânio do sujeito o que ocorre quando
você coloca um ovo cru nesse tipo de eletrodoméstico. Não faça
isso, por favor, procure um vídeo no youtube que é melhor. E,
naturalmente, esse fato fica gravitando nas páginas que tratam da
família (num chute, 35% do livro), imersa na tal academia de tênis
cuja rotina beira, de certa forma, uma rotina de um campo de
concentração “feliz”. Tipo, difícil de imaginar.
Bom,
mas o foco aqui é o sofrimento psiquíco de uma maneira geral, e
certos limites dele tocados nas diferentes histórias, e não o fato
de termos suicídios encrustrados nas tramas. No entanto, no que se
refere ao equilíbrio das partes, mesmo comparando um prato de saída
já desequilibrado do ponto de vista quantitativo – 1200 páginas
versus 250 –, em O VERÃO TARDIO a obra inteira também é permeada
pelo suicídio da irmã do narrador, arrastando esse peso, esse
visgo, com maior ou menor pegada, no desenrolar dos acontecimentos.
Sempre ali, o fantasma assombrando a trama, como no outro caso,
esparramado ao longo do arco, ressoando perpetuamente. Porém, ao
contrário do outro, o do patriarca dos Incandeza (incandescentes?),
que cometera o derradeiro gesto do auto assassinato de forma
deliberada e engenhosa, premeditado e perpetrado por um “homem
feito”, com família, esposa e três filhos, que mudou de carreira
com sucesso 3 vezes ao longo da vida ou coisa assim, na obra
brasileira o que ocorre é a brutalidade deveras maior, a meu ver, de
a vida ser tomada por uma menina de quinze anos, que naturalmente não
sabe muito bem quem é e fez muitas poucas escolhas na vida. Bom,
aqui já esbarramos num limite do sofrimento, essa premissa do
protagonista, mais que qualquer outro membro da família, vestir o
fardo da culpa pelo ocorrido à irmã. Barra demais. E o detalhe
(omitido porque seria um spoiler ingrato pra quem tem tanto carinho
pela obra) que o implica, persegue e esmigalha só é esclarecido
mais ou menos na segunda metade do livro, mas isso meio que ilumina /
explica sua incapacidade de superar o ocorrido depois de uns 40 anos,
ou seja, de nunca superar de fato.
Porém,
agora sim, deixando de lado a reverberação suicidal – que não se
limita ao aqui relatado, pasme –, a construção dos diferentes
romances se diferencia em muito no tom e na estrutura, além do
tamanho, pra desta forma chegar em certos cumes do sofrimento
psíquico, ou ao menos aludir a eles, humildemente. Em GRAÇA
INFINITA, a narrativa, predominantemente em terceira pessoa (mas não
somente, tendo algumas partes em primeira pessoa, que, no entanto,
num chute, devem se limitar a 5% do livro), vai pulando de núcleos,
separados em grandes blocos (tudo é meio agigantado, personagens,
descrições, notas de roda pé, nada não é turbinado, pensando
essa expressão manifesta dentro da cultura americana, rica e com
acesso quase ilimitado a tudo etc; anabolizada também cairia bem
aqui, com excesso em quase tudo, uma cultura superavitária por
excelência). E desses megablocos, salvo por exemplo a irônica
proximidade geográfica dos dois principais endereços da história,
muitas vezes quase não dá pra avistar as outras pontas da trama, os
outros blocões. Porque gigantes demais, e porque demoram demais pra
se encontrar, e porque eventualmente só se esbarram, de levinho,
quase sem fricção, quase sem se reparar, como dito. Quando se
esbarram mais profundamente, perto do inavistável fim, parece que
perderam pressão porque a expectativa já passou um pouco do ponto,
o balão murchou etc. Porém, isso não é demérito, é estilo,
estilo de um cara que talvez tivesse fôlego demais, talvez fosse um
americano bom demais, o melhor, talvez, enquanto fruto de uma
virtuosa sociedade tipo SUPER doente, onde se inventou o mass
shooting, campeã em obesidade
mórbida, bem como em obesidade midiática e de entretenimento, e que
serve de modelo pro mundo todo, não à toa, aparentemente SUPER
doente ele também, esse nosso mundo, do qual o Brasil é uma fração
apenas, sem nenhum protagonismo, mas SUPER dodói nós também, não
custa lembrar. Ao nosso jeito.
Por
sua vez, em O VERÃO TARDIO a trama é conduzida exclusivamente em
primeira pessoa, com uma narrativa tão pessoal que é quase
claustrofóbica, e que somente se interpola entre o presente da
viagem de reencontro da personagem com sua terra natal, Cataguases, e
o passado da sua infância, vivida naquelas mesmas paragens por onde
se arrasta, aparvalhado pelo calor, por desconfortos físicos, pelos
vertiginosos reencontros, do começo ao fim aturdido. E Rufatto faz
as mudanças de “pista” sem usar seta, embaralhando lindamente as
duas frequências, escrevendo tão bem que se dá ao luxo de
invariavelmente mudar de sintonia em meio a um parágrafo, ir e
voltar, às vezes é só no meio da frase que se nota que o tempo foi
cambiado do passado pro presente, do presente pro passado, pois tudo
está atrelado à ótica da cabeça do narrador, e mesmo com a troca
de pistas não há solavancos, mesmo quando só notamos a mudança no
meio de uma frase, ainda assim é macio, e eu acho isso chique pra
caralho, como ele fez isso, pardon
my french.
Bom,
não tinha também deixado claro, mas os dois autores em questão,
cujas obras infelizmente conheço ainda pouco, eu tiro meu chapéu
pros dois, fico pelado pros dois, acho que são realmente dois
mestres, que fazem / fizeram o que há de melhor, estando no
mesmíssimo nível (meus critérios não devem valer de porra
nenhuma, tranquilo) da Ferrante, Bolaño, Miller, Lúcia Berlin,
Roth, Coetzee, Mutarelli, “aqueles” contos do Rubem Fonseca etc
(tem mais uma porrada de outros, certamente, mas name
dropping é meio merda), as
coisas que mais me assombraram a vida.
Beleza
então. Os cumes do sofrimento, né? Bora.
GRAÇA
INFINITA: assim, de bate pronto, só de memória, sem consultar nem
ter sublinhado o livro (tenho pavor), ficaram queimadas nas retinas
algumas passagens: como o grande herói (na minha visão, meu
paladar) Don Gately, quando ainda era arrombador de domicílios,
deixou amarrado uma vítima, e como esta sufocou lentamente nas horas
que se sucederam, porque amordaçada e com nariz entupido, e como
levou bastante tempo até que morresse (e o DFW toma horas mesmo,
tranquilo, explicando o lento sufocamento dum jeito imaginativo que
só vendo / lendo); a menina adotada testemunha silenciosamente, ao
longo dos anos de sua adolescência, o pai adotivo abusar da irmã
mais nova, filha legítima, que tem paralisia cerebral, não sem
antes vesti-la (a irmã mais nova) com uma máscara com a cara de uma
atriz famosa, até uma noite em que depois do abuso o pai esquece a
máscara e ela mesmo tem de tirar, pra que a mãe não desconfie, e
então toma coragem e foge, indo virar puta num bordel dos mais
xexelentos da América, aos 17; uma cracuda engravida e fica chupando
o chachimbo seis, setes meses até parir um bebê prematuro e
natimorto, e entrar em choque e continuar chupando o cachimbo
carregando a tiracolo o cadaverzinho mal cheiroso até que todos os
cracudos do bairro passam a evitá-la, coisa assim. Pincei só 3
exemplos, mas eles se multiplicam ad
infinitum ao longo das páginas,
em superações constantes, o sarrafo sempre subindo (lembra até
BREAKING BAD em suas primeiras temporadas, cada qual reservando uma
cena ainda mais violenta do que o ápice da temporada anterior),
grandes catedrais do sofrimento e suas diferentes torres, usando esse
poder anabolizado que a prosa do DFW tem, foda. E sempre mistura
sofrimento psíquico com físico, como deu pra sacar nos 3 exemplos,
de um jeito um tanto extremado, a terceira pessoa onisciente
inserindo o leitor dentro dele, do sofrimento.
E
em O VERÃO TARDIO, pois bem, não vou enumerar alguns cumes
propriamente ditos porque a distinção das abordagens do sofrimento
começa por aí. O GRAÇA INFINITA é mais objetificador, enquanto o
outro é mais subjetificador, transmitindo o sofrimento muitas vezes
em detalhes infinitesimais. Quem viu o Rufatto discursando em
Frankfurt (youtube), representando o Brasil na mais importante feira
de livros do mundo, pôde ver um cara corajoso pra cacete, e de uma
singeleza e uma delicadeza ímpares. Coisa linda. E a obra em questão
exala isso, só que o leitor fica com a cara enfiada no sofrimento do
narrador e protagonista, e segue quase suando com ele, e num P.O.V.
encontra as suas irmãs vivas, sobrinhos, cunhados, conhecidos de
infância, cenários evocativos, até mesmo um antigo professor,
depois o jazigo da família, pai, mãe e irmã juntos, por fim o
irmão ricaço, e ao longo disso você, o leitor, segue comprando
sabonete, reclamando amiúde do café, suando como um porco, mudando
de endereço e pegando ônibus, conferindo o troco, tenso com a
escassez do dinheiro, trafegando pela miséria e degradação
reinantes na região, mas sobretudo descortinando toda infância e os
laços afetivos de Oséias, laços esses truncados e machucados e
aparentemente condenativos desde o princípio. Marcados pelo suicídio
da irmã. Só perto do fim é que emergem mais claramente memórias
boas, e o passado começa a fazer algum sentido. Antes, parece que a
vida é toda ela ruínas, como os cenários e as pessoas
circundantes.
Ao
longo da viagem, um tanto dolorosa, obviamente, vamos esbarrando nos
tais limites do sofrimento psíquico, e vamos superando-os de alguma
forma porque a vida segue. Porque tem sempre o dia seguinte, até o
fim, ao longo daquela semana, narrada dia a dia. No entanto, a
despeito do dia seguinte chegar, você mastiga antes o presente
amargo do dia que passa arrastado e sem rumo, e a partir da
subjetividade de Oséias e seus chaveamentos entre viver o presente e
lembrar / reviver o passado, chega-se a alguns limites que são barra
pra segurar, ainda mais se você, leitor, estiver meio sambado na
vida, e no momento em que vivemos parece que todos estamos. Só que
isso enaltece e valoriza a nossa luta, resistência. E nos fortalece,
por fim. Se não nos matar, enfim. Quem viver, verá.
Rufatto consegue chegar, com sua delicadeza e singeleza, a picos de sofrimento psíquico que o DFW parece ter de construir Titanics pra te levar a chegar perto. Talvez seja mesmo fruto de onde vieram, que define muito quem são. Um precisa fazer mil flexões de braço pra se sentir forte, e assim o faz, e é; o outro, não quer se sentir forte porque já o é, pelo que é. Os dois me parecem certos.
Dias e mais dias com poemas nórdicos todo dia!
Dia desses eu estava pensando sobre poesia, mais precisamente sobre a poesia nórdica, sobre o quanto eu desconheço a poesia nórdica. Percebi em mim essa lacuna, dentre outras. Pensei em pesquisar, buscar algumas fontes, descobrir se alguém andava traduzindo os versos do Norte. E eis que esbarro, na timeline da artista visual, poeta e professora Laura Erber, no Facebook, a dica dessa página chamada Um poema nórdica ao dia, que publica, como o nome promete, um poema de poetas nórdicos por dia. Gente, nem acreditei!
Dia desses eu estava pensando sobre poesia, mais precisamente sobre a poesia nórdica, sobre o quanto eu desconheço a poesia nórdica. Percebi em mim essa lacuna, dentre outras. Pensei em pesquisar, buscar algumas fontes, descobrir se alguém andava traduzindo os versos do Norte. E eis que esbarro, na timeline da artista visual, poeta e professora Laura Erber, no Facebook, a dica dessa página chamada Um poema nórdica ao dia, que publica, como o nome promete, um poema de poetas nórdicos por dia. Gente, nem acreditei!
Na mesma hora entrei em contato com os responsáveis por esse belo trabalho, o tradutor Luciano Dutra e a tradutora, poeta e pesquisadora Francesca Cricelli, pois isso é pra ser divulgado, espalhado por aí feito semente, e a Revista Kuruma’tá tá aqui pra isso mesmo!
Agradeço muito à generosidade dos dois em escrever o texto que se segue e apresentar na nossa revista uma seleção tão precisa e comovente de poemas. Bora ler poesia!
Toinho Castro (Editor)
Apresentação e seleção de poemas de Francesca Cricelli e Luciano Dutra | Um poema nórdica ao dia
A página “Um poema nórdico ao dia” foi idealizada e conta com a curadoria de Luciano Dutra, tradutor literário gaúcho radicado em Reykjavík, capital da Islândia.
O
que começou como um projeto pessoal espontâneo do tradutor e, como
tal, totalmente despretensioso, é hoje uma das maiores referências,
na rede, de poesia contemporânea nórdica traduzida para a língua
portuguesa. A página hoje em dia conta com a colaboração fixa e
esporádica de alguns colegas tradutores, dos mais experientes aos
iniciantes. Entre os tradutores colaboradores fixos há Fernanda
Sarmatz Åkesson, que mora há uns vinte anos em Estocolmo e é a
mais prolífica tradutora do sueco para o português na atualidade —
já traduziu dezenas de obras de literatura infantojuvenil, novelas
policiais e obras de não-ficção, abarcando autores como Karin
Boye, Astrid Lindgren, David Lagercrantz e Håkan Nesser, mas que
estreou como tradutora de poesia na nossa página; e Leonardo Pinto
Silva, que traduziu do norueguês, entre outros, o primeiro volume de
Minha vida
(Min kamp)
de Karl Ove Knausgård, O
mundo de Sofia (Sofies
verden) de Jostein Gaarder,
além de uma caixa reunindo quatros das peças mais importantes de
Henrik Ibsen (Espectros,
Um inimigo do povo,
Hedda Gabler
e Solness, o construtor).
Recentemente, recém chegada a Reykjavík, agregou-se a colaboração
da tradutora, poeta e pesquisadora Francesca Cricelli, doutora em
Literaturas Estrangeiras e Tradução pela USP, que já verteu ao
português autores como Giuseppe Ungaretti, Igiaba Scego, Elena
Ferrante e muitos outros, e começa agora a traduzir poemas do
islandês também como processo de estudo e método de aquisição de
linguagem. Também já colaboraram com traduções a poeta,
professora, artista plástica e pesquisadora Laura Erber, que
atualmente reside em Copenhague, e Karl Erik Schøllhammer,
professor, pesquisador e tradutor, além de Helen Beltrame-Linné,
jornalista, advogada e cineasta residente em Estocolmo.
A cada dia da semana é apresentado um poema de uma língua nórdica e sua tradução. Alteram-se textos escritos por mulheres e por homens. A seleção é ampla e heterodoxa, lançando ao mundo lusófono poetas mais conhecidos e renomados, mas também jovens descobertas da poesia nórdica. Segunda-feira é o dia do feroês: apresentamos aqui o poeta Carl Jóhan Jensen, cujo livro Nona manhã foi traduzido e publicado no Brasil pela Editora Moinhos e pela Sagarana forlag (2017) e a jovem poeta Anna Malan Jógvansdóttir. Já terça-feira é o dia do sueco finlandês: destacamos aqui a poeta Edith Södegran, que também será publicada no Brasil com tradução de Luciano Dutra, e o poeta Bo Carpelan. Quarta-feira é o dia do dinamarquês: ressaltamos aqui a poeta Inger Christensen e o poeta Halfdan Rasmussen. Quinta-feira é o dia dedicado ao bokmål, uma das variantes do norueguês: desse idioma, trazemos aqui Stein Mehren e Tone Hødnebø. Sexta-feira é o dia do sueco: desse idioma, realçamos aqui poemas de Tomas Tranströmer e Athena Farrokhzad. Sábado é o dia do islandês: seguimos aqui com a poeta Soffía Bjarnadóttir e o poeta Jónas Reynir Gunnarsson. Por fim, domingo é o dia do nynorsk, a outra variante do norueguês: desse idioma, propomos nesse espaço os versos de Olav H. Hauge e Maja Anette Flønes Monsens. Boa leitura!
[segunda-feira, feroês]
SEI
Sei que o meu amor não é uma luz capaz de clarear a sombria falta de sentido do mundo Sei que o meu amor às vezes pesa — e oprime pois carrega o vazio pela vida afora — Mas também sei que o meu amor é batida do coração golpeando no meu peito e sei que se o meu amor ao menos foi capaz de pôr um sorriso nos teus lábios então ele não é em vão
(traduzido do feroês por Luciano Dutra para o livro “Nona manhã – herbário poético” de Carl Jóhan Jensen, publicado recentemente em Belo Horizonte pela editora Moinhos, em coedição com Sagarana forlag de Reykjavík)
[EG VEIT]
Eg veit at ást mín ikki er ljós ið kann fjala heimsins myrka meiningarloysi Eg veit at ást mín tíðum er tung — knúvgandi tí ið tómleikan ber gjøgnum lívið — Men eg veit at ást mín er hjartaslátturin dukandi móti bringu míni og eg veit at um bert ást mín bar eitt bros at varrum tínum var hon ikki til fánýtis
me enterro terra abaixo aperto as pernas contra o corpo sou uma semente jazo aqui choro até transformar minha cova em barro rego a mim mesma até brotar eu organismo apodrecendo autofertilizante cresço e me transformo em rubra flor carnívora como cada um que se acerca chupo e engulo até a medula melhor comer do que ser comida
(traduzido do feroês por Luciano Dutra)
eg gravi meg niður í moldina trýsti beininni tætt móti kroppinum eg eri eitt fræ liggi her gráti mína grøv til runu vatni meg sjálva inntil eg spíri eg rotnandi gøgn sjávtaðandi vaksi til reyða kjøtetandi blómu eti hvørt mannfólk sum nærkast sleiki og slupri mergin í meg heldur eta enn verða etin
(Anna Malan Jógvansdóttir)
[terça-feira, sueco finlandês]
TRIUNFO DE EXISTIR
De que tenho medo? Eu, que tenho parte com o infinito. Eu, que tenho parte com a força ingente da totalidade, mundo só entre milhões de mundos, como estrela de primeira grandeza que afinal se apaga. O triunfo de viver, o triunfo de respirar, o triunfo de existir! O triunfo de sentir o tempo gélido escorrendo nas artérias, escutar a enxurrada silenciosa do tempo e pisar na montanha sob o sol. Caminho no sol, piso no sol, não sei de mais nada além do sol. Tempo — transformador, tempo — destruidor, tempo — encantador, vens trazendo novas tramas, mil artimanhas, para me propor outra existência como sementinha, cobra enrodilhada, atol em pleno oceano? Tempo — tu, assassino — afasta-te de mim! O sol enche o meu peito de um doce mel até transbordar e me diz: “Um dia todas as estrelas hão de se apagar, mesmo assim elas brilham sem medo o tempo todo”.
(traduzido do sueco finlandês por Luciano Dutra)
[TRIUMF ATT FINNAS TILL]
Vad fruktar jag? Jag är en del utav oändligheten. Jag är en del av alltets stora kraft, en ensam värld inom miljoner världar, en första gradens stjärna lik som slocknar sist. Triumf att leva, triumf att andas, triumf att finnas till! Triumf att känna tiden iskall rinna genom sina ådror och höra nattens tysta flod och stå på berget under solen. Jag går på sol, jag står på sol, jag vet av ingenting annat än sol. Tid — förvandlerska, tid — förstörerska, tid — förtrollerska, kommer du med nya ränker, tusen lister för att bjuda mig en tillvaro som ett litet frö, som en ringlad orm, som en klippa mitt i havet? Tid — du mörderska — vik ifrån mig! Solen fyller upp mitt bröst med ljuvlig honung upp till randen och hon säger: en gång slockna alla stjärnor, men de lysa alltid utan skräck
++++++++++
Pedra sobre pedra viga sobre viga entre pedra madeira e ar erva viçosa crescendo uma árvore numa fenda na fachada de um prédio grotescamente contra toda a expectativa erva e erva-daninha em calado conluio cheiro de couro ao vento flores como que pisoteadas e reerguidas sob automóveis pés ou brotando da rocha num caos tenaz e minuciosamente mapeado
(traduzido do sueco finlandês por Luciano Dutra)
Sten på sten bjälklag på bjälklag mellan sten trä och luft gräs tåligt växande fram ett träd ur en spricka i en husfasad groteskt mot allt hopp gräs och ogräs i tyst samförstånd doften av läder i vinden blommor som hade de slagits och återuppstått under vagnar fötter eller slagit ut ur berg i ett segt noggrant kartlagt kaos
(Bo Carpelan)
[quarta-feira, dinamarquês]
MÊS DA FEBRE
Quem já viu setembro o mês da febre, em brasa, sabe que uma primavera está viva embaixo de cada folha morta, sabe que antes que a vida caia, suporta os encargos da queda. O tempo foi afetado pela febre. Mas no espaço do nosso tormento inflamado, em brasa, o sono nos doou o sacramento. A tempestade de febre se curvou, devastou e reuniu. De pé, rodeados pelo fogo, procurando a graça da vida um silêncio atingiu os fios quebradiços nervosos do coração. Sobre a nossa curva de febre ouvimos o canto dos pardais. As sombras não nos encontraram. O sono tornou-se sonho e pensamento. Enquanto a noite ainda nos ligava ouvimos bater o coração. Algo se aproximou. E névoas distantes se tornaram sol e estrela. A luz apareceu e tocou suavemente os metais mudos, pediu-lhes para inserir sons num salmo abafado, pediu-lhes para badalar sobre tudo o que dorme fora do tempo. Em chamas emergimos do reino febril das sombras. Emergido e ressuscitado, não podíamos ceder. Com calma, quem luta encontrará o setembro de sua vida.
Den som har set september, febermåneden, gløde ved at et forår lever under hvert blad som døde, ved at før livet styrter bærer det høstens byrder. Tiden blev ramt af feber. Men i vor kvals betændte glødende rum har søvnen skænket os sakramente. Feberens storm har bøjet, hærget og sammenføjet. Stod vi, af ild omkranset, søgende livets nåde, ramte en stilhed hjertets bristende nervetråde. Over vor feberkurve hørte vi sang af spurve. Skyggerne fandt os ikke. Søvnen blev drøm og tanke. Endnu mens natten bandt os hørte vi hjertet banke. Noget kom nær. Og fjerne tåger blev sol og stjerne. Lyset blev til og rørte blidt ved de stumme malme, bad dem at lægge toner ind i en dæmpet salme, bad dem at kime over alt hvad der tidløst sover. Flammende steg vi gennem feberens skyggerige. Løftet og genopstandne kunne vi ikke vige. Roligt skal den som kæmper møde sit livs september.
(Halfdan Rasmussen)
++++++++++
A minha casa é um bosque de bétulas na tempestade mantém a terra firme a minha casa é o vidro da janela sob a saraivada de granizo mantém a parede firme a minha casa é uma dor na pelve mantém o corpo firme Frágil é a minha casa segura firme no ar rarefeito do amor
(traduzido do dinamarquês por Luciano Dutra)
Mit hus er et birkekrat i stormen det holder jorden fast mit hus er en rude under haglbygen den holder muren fast mit hus er en smerte i underlivet den holder kroppen fast Svagt er mit hus klynger sig til kærlighedens tynde luft
(Inger Christensen)
[quinta-feira bokmål, uma das variantes do norueguês]
SUSTENHO TUA CABEÇA
Sustenho tua cabeça em minhas mãos, como susténs meu coração em teu desvelo assim como tudo sustém e é sustido por algo além de si mesmo Assim como o oceano soergue uma pedra até suas areias, assim como a árvore sustém os frutos maduros do outono, assim como o planeta soergue-se em sua órbita Assim como somos ambos sustidos por algo e soerguidos teu enigma sustém um enigma em sua mão
(traduzido do norueguês-bokmål por Luciano Dutra)
[JEG HOLDER DIT HODE]
Jeg holder ditt hode i mine hender, som du holder mitt hjerte i din ømhet slik allting holder og blir holdt av noe annet enn seg selv Slik havet løfter en sten til sine strender, slik treet holder høstens modne frukter, slik kloden løftes gjennom kloders rom Slik holdes vi begge av noe og løftes dit gåte holder gåte i sin hånd
(Stein Mehren)
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OH, AMADO, FICA NO MEU CORAÇÃO
Oh, amado, fica no meu coração, o peso dos amantes, o peso da solidão me afoga. Ouço minha própria voz e é como se ouvisse outro alguém dizer tudo que só eu sabia daquele a quem amei. Poderia cair morta e então começar a falar como se houvesse uma maldição que me tornasse meu próprio inimigo, aquele a quem amei. Ouço minha própria voz, oh, fica no meu coração, amado e sem essa candura estarás preso ao abismo dos infernos, tu, o único a quem amei.
(traduzido do norueguês/bokmål por Leonardo Pinto Silva)
[Å ELSKEDE, BLI I HJERTET MITT]
Å elskede, bli i hjertet mitt, vekten av elskere, vekten av ensomhet drukner meg. Jeg hører mine egne ord det er som å høre en annen snakke om alt bare jeg visste om, om den ene som jeg elsket. Jeg kunne falle død om
og så begynne å snakke som om det skulle eksistere en forbannelse som gjør meg til min egen fiende, den ene som jeg elsket. Jeg hører mine egne ord, å, bli i hjertet mitt, elskede og uten denne åpenhjertigheten sitter du fast i helvetes avgrunner, du, den eneste som jeg elsket.
(Tone Hødnebø)
[sexta-feira, sueco]
AS PEDRAS
As pedras que jogamos, ouvi-as caindo claras como vidro, ao longo dos anos. No vale, os desatinos do instante voam ruidosamente entre as copas das árvores, emudecem no ar mais tênue que o agora, deslizam como andorinhas entre os topos das cordilheiras até chegarem aos platôs mais elevados ao lado da fronteira por toda a existência. Lá, todos os nossos atos despencam claros como vidro no fundo de nada além de nós mesmos.
(traduzido do sueco por Luciano Dutra)
STENARNA
Stenarna som vi kastat hör jag falla, glasklara genom åren. I dalen flyger ögonblickets förvirrade
handlingar skränande från trädtopp till trädtopp, tystnar i tunnare luft än nuets, glider som svalor från bergstopp till bergstopp tills de nått de yttersta platåerna utmed gränsen för varat. Där faller alla våra gärningar glaskara mot ingen botten utom oss själva.
(Tomas Tranströmer)
++++++++++
CRIANÇA-ÂNCORA (I)
É o dia do sangue É a noite da terra Solta agora a borda do barco, meu tesouro Uma criança nasceu nesse dia Uma criança será ancorada Uma criança dará à mãe direito à terra Uma criança irá preparar o caminho Que criança não é uma criança-âncora Que mãe não se agarra ao solo É a noite do sangue É o dia da terra É um porto inseguro apesar de o colo materno ensinar a criança a ciciar o nome do mar
Det är blodets dag Det är jordens natt Släpp nu relingen, lilla skatt Ett barn är fött på denna dag Ett barn ska förankra Ett barn ska ge sin mor rätt till jord Ett barn ska väg bereda Vilket barn är inte ett ankarbarn Vilken mor griper inte efter bottnar Det är nattens blod Det är dagens jord Det är en otrygg hamn Trots att moderns famn lärt barnet viska havets namn
Estão tocando bandolim no banheiro e eu sento-me na cadeira de balanço e finjo contar dinheiro enquanto a máquina de lavar termina o ciclo com as meias dos soldados bípedes que passam após a última guerra meus seios começam a cair como se fosse a coisa mais natural e corto os meus cílios as unhas do pé e um dos mamilos. Com a pistola no esterno peço silêncio à mesa de jantar. Fique em casa
(traduzido do islandês por Francesca Cricelli)
Það er verið að spila á mandólín á baðherberginu og ég sest í ruggustólinn og þykist telja peninga á meðan þvottavélin klárar sokka tvífættra hermanna sem litu við efitr síðasta stríð brjóstin á mér eru farin að síga eins og ekkert sé eðlilegra og ég klippi af mér augnhárin táneglurnar og aðra geirvörtuna. Með byssuna við bringubein bið ég um þögn við matarborðið. Vertu heima
Quando neva a cidade torna-se uma pintura que descasca da tela o espaço vazio se expande a distância entre nossas casas desaparece no vazio branco como a mente de uma velha que começa a esquecer
Þegar snjóar verður borgin málverk sem flagnar af striganum auða rýmið stækkar fjarlægðin á milli húsanna okkar er að hverfa í hvíta auðn eins og hugur gamallar konu sem farin er að gleyma
(Jónas Reynir Gunnarsson)
[domingo, nynorsk outra variante do norueguês]
DE “A BOCETA E O MAR”
Eu sou o sebo pelos teus braços sovacos e mamilos você vai trabalhar com sebo de boceta no focinho * sair dedando bocetas por aí não é o mesmo que trepar * Pouso os lábios nas suas costas nós nunca dissemos que é assim o mar tem na boca tantos cadáveres * No mar de braços e pernas abro a boca e grito não vamos nos atar um ao outro a franja das ondas nos alcança você deixa de escutar
(traduzido do norueguês/nynorsk por Leonardo Pinto Silva)
[FRA „FITTA OG HAVET“]
Eg er smør i armane dine utover armhulane og brystvorta du går på jobb med fittesmør i trynet * Å ronke i fitta på folk er ikkje det samme som å pule * Eg kviler leppene mot ryggen din vi har aldri sagt det er sant havet har mange lik i munnen * I havet av armar og bein åpner eg munnen og roper vi skal ikkje bindes saman bølgekanten når oss du slutter å høre
(Maja Anette Flønes Monsens)
++++++++++
UM POEMA A CADA DIA
Quero escrever um poema a cada dia, a cada dia. Deve ser fácil. Browning conseguiu-o por um bom tempo, apesar de rimar e marcar o ritmo com sua sobrancelha arqueada. Então, um poema a cada dia. Algo que nos mova, algo que aconteça, algo que a gente note. — Me levanto. Raia o dia. Sigo bem. E vejo o dom-fafe revoar da cerejeira depois de roubar seus casulos.
(traduzido do norueguês-nynorsk por Luciano Dutra)
[EIT DIKT KVAR DAG]
Eg vil skriva eit dikt kvar dag, kvar dag. Det må vera liketil. Browning greidde det lenge, endå han rima og slo takti med buskute augnebryn. Altso, eit dikt kvar dag. Eitkvart sviv ein, eitkvart hender, eitkvart legg ein merke til. — Eg stend upp. Det ljosnar. Har gode forset. Og ser dompapen lettar or kirsebærtreet der han stel knupp.
Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa: A Arte da Guerra (para Marçal Aquino)
É assim: enfie a faca sempre abaixo do peito, três ou quatro dedos abaixo do centro. É nesse ponto que fica o diafragma. É o ponto mais macio dessa área, porque não tem osso. Enfiar um objeto perfurocortante no peito de alguém é algo que só pode fazer quem tem muita força no braço, senão corre o risco da faca ficar presa no esterno, e pra tirar não é fácil. [Texto de Fábio Fernandes]
É
assim: enfie a faca sempre abaixo do peito, três ou quatro dedos
abaixo do centro. É nesse ponto que fica o diafragma. É o ponto
mais macio dessa área, porque não tem osso. Enfiar um objeto
perfurocortante no peito de alguém é algo que só pode fazer quem
tem muita força no braço, senão corre o risco da faca ficar presa
no esterno, e pra tirar não é fácil. Mesma coisa nas laterais.
Acontece muito com baionetas. Se você enfia a baioneta no flanco de
um sujeito, tem que ser abaixo das costelas, na região dos rins.
Caso contrário, a ponta fica presa na carcaça do morto e você tem
duas opções: ou deixa a arma onde está e corre o risco de uma
corte marcial por deserção ou comportamento covarde em batalha –
faziam isso muito na França, na época da Primeira Guerra – ou se
arrisca a retirar à força e morrer tentando, porque logo vem um
compatriota do cadáver e enfia a baioneta nas suas costelas. E aí
começa tudo de novo.
Entendeu?
Enfie a faca sempre, mas sempre abaixo do peito. O sujeito vai
sofrer, e não vai morrer na hora. Mas sem ar ele não tem força, e
vai ficar incapacitado. Aí é só terminar o serviço com calma. E
limpeza, que é fundamental.
Entendeu tudo mesmo? Então pode ir. E não me volte aqui sem a cabeça daquele filho da puta.
Nós vivemos essas coisas (ou O Recife partido em 4 bandas)
Por todo o séc. XIX, a cidade do Recife foi se constituindo no grande portal da cultura brasileira. A literatura e a filosofia deitaram-se em suas ruas a partir de sua Faculdade de Direito. Nos becos e vielas estavam se fortalecendo os movimentos culturais do povo: um esteio de maracatu, outro de frevo surgindo devagar, o mela-mela e tudo que confluiria para uma produção artística imponente na primeira metade do séc. XX. Já a partir da década de 60 desse mesmo século, o XX, forjaram-se alguns movimentos musicais determinantes. [Texto de Aderaldo Luciano]
Por todo o séc. XIX, a cidade do Recife foi se constituindo no grande portal da cultura brasileira. A literatura e a filosofia deitaram-se em suas ruas a partir de sua Faculdade de Direito. Nos becos e vielas estavam se fortalecendo os movimentos culturais do povo: um esteio de maracatu, outro de frevo surgindo devagar, o mela-mela e tudo que confluiria para uma produção artística imponente na primeira metade do séc. XX. Já a partir da década de 60 desse mesmo século, o XX, forjaram-se alguns movimentos musicais determinantes.
A Paraíba recebia esses manifestos sonoros e os deglutia pensando também em fortalecer sua própria vida. De alguma forma chegaram até nós, habitantes das soleiras interioranas, os discos produzidos no cenário sócio-temporal recifense. A formação de grupos musicais assentados na tradição, aplicando elementos da modernidade em seus arranjos, subvertendo esteticamente as melodias e harmonias, escrevendo frases tangentes, mas nunca centrífugas, esses elementos nos ofertaram cachoeiras de prazeres acústicos.
Foi assim que Quinteto Violado nos ofereceu um disco temático de intervenção social e política tão forte que nos encantou em todos os aspectos. Missa do Vaqueiro, cumprindo a tradição litúrgica da Eucaristia católico-sertaneja, pautada pela necessidade cabocla, denunciava todos os desmantelos políticos infectantes do solo e da alma do Jesus dos Sertões. Preparado a partir da missa real, tomou nosso imaginário e fortaleceu-nos na tomada de consciência quanto à civilização do couro e sua importância.
Na mesma pisada a Banda de Pau e Corda, com o disco Frevo, nos oferecia a rua primordial recifense, aquela adornada com o frevo vindo de Olinda amolando as Pás, afinando as Vassouras, gritando que o Recife acordou e observando que, nos cabelos de Rosinha (o próprio Recife) a rosa nunca amarelou. Os arranjos deixaram de lado o furor dos clarins, trombones, trompetes e clarinetas e abraçaram os bordões, as primas, as sextas e as nonas dos instrumentos de bojo de madeira. Foi eletrizante, incluindo uma formação sonora diferente, como um regional.
Se o Quinteto trouxera o gado e seus tangedores e a Pau e Corda, a rua e seus habitués, o Quinteto Armorial vestiria sua armadura e nos apresentaria, a seguir, o Imaginário Armorial, codificado por um Ariano mais radical tangendo quase para o sectário. A proposta, conduzida com a observação rigorosa dos ditames do mestre e mentor, consumara-se no disco inviolável Do Romance ao Galope Nordestino. Com aquele som peninsular, dialogando com o mourisco, o andaluz e a alma sertaneja, o pacote musical nos trazia uma canção chamada Toré, uma arquitetura africana e indígena, com um pife intrometendo-se todo o tempo entre as violas, os violinos e a percussão.
Mas, talvez vocês convirão comigo que, em todo o percurso cultural de uma cidade, as inovações, as ousadias, requerem sempre a mão viva do talento, a técnica: o engenho e a arte. Entre eles, num repente sagrado e necessário, surgiu um som tão diferente e, ao mesmo tempo tão aparentado, que nos causou espanto e arrepio: era o voo da Ave Sangria dizendo logo na abertura que, lá fora, “é esse cansaço!”. A capa com uma figura mítica mulher e ave, meio a meio, num cenário também sertanejo, vestindo uma túnica e vendo-se por ela o corte vaginal. Eram balada e rock e letras psicodélicas. Bem diferente dos três anteriores, a Ave Sangria nos sangrava com outra proposta. O decorrer da década de 70 consolidaria esse estilo em outros artistas. Nós vivemos essas coisas. E sobrevivemos. Ainda!
Arte e Saúde: um solo comum
Este artigo pretende refletir sobre alguns aspectos da existência humana e da medicina que vão além dos muros do reducionismo biomédico e das paredes de um centro cirúrgico. Rever a história dos conceitos de saúde e de doença e buscar interfaces que se articulem com o universo das artes e de suas expressões. Mas não pretende exaurir o tema e nem tampouco chegar a certezas que dificultem o livre pensar. É somente um agregado de pensamentos, organizados como um ensaio teórico, com o objetivo de dar lógica a vínculos – talvez pouco evidentes – entre essas importantes dimensões da vida humana. [Artigo de Eduardo Macedo]
Gente, hoje recebemos na Revista Kuruma’tá o amigo Eduardo Macedo, médico clínico geral e acupunturista, mestre e doutor em epidemiologia, que nos traz um artigo que escreveu sobre as relações entre arte e saúde, um olhar sobre “a história dos conceitos de saúde e de doença e buscar interfaces que se articulem com o universo das artes e de suas expressões”.
Esse é um texto muito importante para a Kuruma’tá porque abre um território novo nas nossas publicações e mostra que a discussão sobre arte, cultura, saúde, qualidade de vida e sociedade é pra valer. É um texto carregado de sensibilidade, que nos traz vozes potentes e nos conecta a um debate necessário. Doença e saúde estão a serviço do que? Como podemos repensá-los na nossas vida e da nossas comunidade? E a arte, qual o seu papel quando se trata de compreender nosso lugar no mundo?
Bem-vindo, Eduardo!
Toinho Castro Editor
Artigo de Eduardo Macedo
“O Homem é o salto da natureza para a cultura” (Hélio Pellegrino)
Este artigo pretende refletir sobre alguns aspectos da existência humana e da medicina que vão além dos muros do reducionismo biomédico e das paredes de um centro cirúrgico. Rever a história dos conceitos de saúde e de doença e buscar interfaces que se articulem com o universo das artes e de suas expressões. Mas não pretende exaurir o tema e nem tampouco chegar a certezas que dificultem o livre pensar. É somente um agregado de pensamentos, organizados como um ensaio teórico, com o objetivo de dar lógica a vínculos – talvez pouco evidentes – entre essas importantes dimensões da vida humana.
Temos observado que um crescente número de centros médicos de excelência como a Cleveland Clinic, a Universidade da Califórnia e o Memorial Sloam Kettering Cancer Center tem aberto espaço para que a arte chegue até doentes e familiares, aparentemente com o intuito de fazê-los perceber – e melhor lidar – com emoções que, de outra forma, permaneceriam ocultas1. O impacto dessas intervenções tem sido positivo e com algum efeito terapêutico, na medida em que criam canais de expressão que permitem não só a revelação de medos, angústias, preocupações e esperanças como também a significação de fatos e sentimentos. Algumas pesquisas têm ido ao encontro dessas percepções. Metanálise2 sobre o efeito da participação em oficinas de criatividade de pacientes com câncer, publicada em 2013, evidenciou diminuição de ansiedade, da depressão, da dor e melhora da qualidade de vida. Nesse mesmo sentido observou-se diminuição da necessidade de analgésicos opióides em pacientes transplantados inseridos em atividades musicais3.
O potencial do uso das artes na medicina já havia sido observado anteriormente em trabalhos como os da psiquiatra brasileira Nise da Silveira. Atendendo, estudando e pesquisando as psicoses e os psicóticos ela observou que nessas condições mórbidas ocorria uma inundação do campo da consciência por conteúdos oriundos das camadas mais profundas do inconsciente, que são precisamente os materiais básicos dos mitos. Nise disse que “…toda expressão de emoção, sempre que uma imagem arquetípica toma forma, isso me interessa, como abordagem do mundo interno do indivíduo”4.
A psiquiatra gostava de um comentário do escritor mineiro João Guimarães Rosa – também médico – que observou que cada pessoa tem lá o seu rascunho individual para se completar. Acreditava que da mesma forma como cada ser humano tem sua impressão digital específica e única, também existe a tendência a se tornar também um indivíduo único5. No corpo teórico da psicologia Junguiana esse processo foi chamado de individuação. Como o ser humano tem a capacidade de tomar consciência das coisas que acontecem dentro dele, isso inclui a possibilidade de se conscientizar de suas próprias contradições. A individuação aproxima esses opostos. E, na medida em que consciente e inconsciente – individual e coletivo – se encontram e se conhecem, os conteúdos da psique se ordenam. O sujeito individuado está, então, de acordo consigo próprio: assim como sente, pensa e age.
Imagem do arquivo pessoal de Nise da Silveira – Foto: SAMII ( Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconscient ) / Arquivo Nise da Silveira – Divulgação
Nise acreditava no estímulo à criatividade como caminho para a cura. A função do seu trabalho não era primordialmente artística, mas expressiva – das emoções e do conteúdo interno. Certa vez, em carta à médica brasileira, Carl Gustav Jung disse que “o indivíduo dissociado faz, por vezes, imagens extremamente organizadas. É um processo de defesa, de autocura, de reorganização…”. Nise respondeu comentando que a doença não despedaçava completamente o indivíduo. Ele poderia se juntar de novo. Às vezes conseguia, às vezes não.
Em outra ocasião, se dirigindo a médicos chefes de manicômios, em documento publicado originalmente no livro “Escritos de Antonin Artaud” (1983), ela afirmou que não admitia que se freasse o livre desenvolvimento de um delírio, tão legítimo e lógico como qualquer outra sequência de idéias e atos humanos. E ainda que todos os atos individuais são anti-sociais e que os loucos são as vítimas individuais por excelência da ditadura social. Se referindo novamente a Artaud, mas agora em texto publicado no livro “Artaud, a nostalgia do mais” (1989), tentou interpretar sua frase “o ser tem estados inumeráveis e cada vez mais perigosos”. Parecia a ela que o dizer se referia a “certos acontecimentos terríveis que podem ocorrer na profundeza da psique, avassalando o ser inteiro. Descarrilhamentos e metamorfoses do corpo; perda dos limites da própria personalidade; estreitamentos angustiantes ou ampliações espantosas do espaço; caos, vazio…”. E complementava com a observação de que é muito mais fácil essas vivências serem expressadas pelas imagens do que pelas palavras, visto que a linguagem verbal é instrumento do pensamento lógico, das elaborações do raciocínio e que aquele conteúdo “perigoso” passava a léguas da esfera racional.
Para além da arte terapia no ambiente hospitalar e do uso das artes plásticas no tratamento de indivíduos psicóticos, é possível também enxergarmos a importância que a arte pode ter na criação de um ambiente favorável à saúde individual e coletiva. Nesse sentido é preciso que antes possamos rever de forma suscinta o entendimento histórico do conceito de saúde.
Etimologicamente a palavra saúde deriva do termo salus, proveniente do latim, e que se refere ao atributo principal dos inteiros, intactos, íntegros. Já o termo sanus, também originado no latim, significa puro, imaculado, perfeito ou também certo, correto, verdadeiro6. Os hipocráticos consideravam o homem um sistema organizado e definiam a doença como a desorganização desse estado, uma perturbação do equilíbrio entre corpo e natureza. René Lériche, médico francês (1879-1955), concebeu que saúde seria uma espécie de negativo da doença. Assim, saudável seria o indivíduo assintomático, aqueles cujos órgãos e sistemas orgânicos encontravam-se em silêncio.
Obviamente, circunscrever saúde à ausência da doença é um entendimento angustiantemente restrito. Na tentativa de melhorar essa definição a Organização Mundial da Saúde – em 1946, quando de sua criação – afirmou que saúde é um estado de completo e permanente bem-estar físico, mental e social e não apenas ausência de doença ou enfermidade. Foi, sem dúvida, uma evolução, dado que incorporou a dimensão mental e social à idéia de saúde. Mas qual pessoa vive em estado completo e permanente de bem-estar? Então somos todos doentes?
Canguilhem7 nos lembra que não há saúde perfeita ou bem estar absoluto, e que recuperar-se da doença é uma das possibilidades da saúde. Segundo ele, o que caracteriza os organismos é a sua prodigalidade, um certo excesso de cada um dos nossos órgãos, que nos permite garantir uma certa margem de segurança acima do desempenho normal: pulmão demais, rins demais, pâncreas demais…O homem se sente portador de uma certa abundância de meios, dos quais é normal abusar. O autor diz que não são as médias estatísticas nem a fuga dos intervalos assim chamados normais que nos indicam o momento em que se inicia uma doença, mas sim as dificuldades que o organismo encontra para dar respostas às demandas que o meio lhe impõe. E que esse sofrimento e sentimento de impotência individual muitas vezes escapa às médias estatísticas. Acreditava que é o sofrimento, e não as medições ou os desvios-padrão, que estabelece o estado de doença.
Dejours8 observou ainda que “o estado de bem estar parece supor uma existência sem angústias, desconsiderando que os erros, os fracassos, as insuficiências e as infidelidades fazem parte da nossa história e que, em alguns casos, o mal estar poderia resultar mais estimulante do que a absoluta carência de desafios. A partir do momento em que o nosso mundo é um mundo de acidentes possíveis, a saúde não poderia ser pensada como ausência de erros, mas sim como a capacidade de enfrenta-los. A experiência da vida inclui a experiência da doença. É preciso pensar, então, em um conceito de saúde capaz de contemplar e integrar nossa capacidade de administrar de forma autônoma esta margem de risco, de tensão, de infidelidade, e porque não dizer de mal-estar com que inevitavelmente devemos conviver”.
Nietzche (La Gaya Ciência, 1984) aumenta a temperatura dessa discussão ao refletir sobre intenções muitas vezes contidas nos cuidados à saúde: “aqueles que pretendem socorrer aos outros não pensam que os desenganos podem ser uma necessidade pessoal e que você, ou eu, podemos necessitar tanto do terror, das privações, da pobreza, das aventuras, dos perigos como dos bens contrários. Os infortúnios, assim como as doenças, fazem parte da nossa existência e não podem ser pensados em termos de crimes e castigos”.
Segundo Dina Czeresnia9 a saúde e o adoecer são formas pelas quais a vida se manifesta. Correspondem a experiências singulares e subjetivas, impossíveis de serem reconhecidas e significadas integralmente pela palavra. Existe uma lacuna entre o que é vivido e experimentado pelas pessoas e a elaboração conceitual e linguística dessa experiência. Saudável seria então “cair doente, recuperar-se e, tendo feito da doença uma experiência vital, trazer elementos que nos confiram maior positividade”.
Assim, na medida em que a compreensão dos significados das dimensões saúde e doença evoluiu, surgiu a necessidade de novos indicadores que incorporassem aquelas idéias. Na esteira dos indicadores de mortalidade (Ex: mortalidade infantil) e de morbidade (Ex: incidência do câncer) surgiram então indicadores híbridos. Em 1992 uma equipe da Escola de Saúde Pública de Harvard desenvolveu uma metodologia, a pedido do Banco Mundial, para calcular a “carga global de doenças” (World Development Report 1993: investing in health). O novo indicador foi chamado DALY(Disability Adjusted Life Years) e definido como uma medida do tempo vivido com incapacidade e do tempo perdido devido à mortalidade prematura (Murray & Lopez, 1996). Foi inspirado no conceito de QALY (Quality Adjusted Life Years), que considera a qualidade de vida decorrente do nível de saúde. Desempenho funcional e qualidade de vida passaram a ser incorporados no entendimento do que é saúde. Mesmo sabendo que o projeto se propunha a quantificar carga de doenças – e não de saúde – e que saúde continuava sendo entendida como um negativo da doença, o aparecimento dessa geração de indicadores trouxe avanços. Pela primeira vez foi possível imaginar doentes com saúde. Ou seja, permitiu imaginar indivíduos portadores de doença, mas com desempenho funcional e qualidade de vida ótimos. Se voltarmos ao conceito de qualidade de vida como “a percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto da cultura e sistema de valores nos quais vive, e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações”, percebemos que ela está referenciada nos objetivos e expectativas da pessoa em questão. Não faz sentido pensar em desempenho funcional de outra forma. Qual o desempenho funcional ótimo? Correr uma maratona? Não, é também aquele que permite que a pessoa leve seus projetos de vida a cabo, e que se valha do seu vigor, da sua força motriz – sua saúde – para atingir seus objetivos, expectativas, e assim desfrutar de uma vida com qualidade.
Dando sequência a este exercício, imaginemos agora uma pessoa diabética sem qualquer restrição funcional, que em determinado momento do dia se senta no banco de um parque, afere sua glicemia capilar, aplica a sua insulina subcutânea e retoma o que antes fazia. Podemos expandir a visualização e imaginar uma pessoa que usa uma bolsa de colostomia andando de bicicleta, um hemiparético no cinema, um surdo na praia, um cego num concerto de música, alguém com alopecia devida a quimioterápicos para tratamento de um câncer almoçando em um restaurante. No entanto, quanto mais plural for a sociedade na qual esses indivíduos estiverem inseridos, mais natural será a sua presença naqueles ambientes e mais fácil será a sua inclusão social. Imaginem ambientes com gente alta e gente baixa, com ruivos, negros e orientais, com gente de cabelo curto e longo, crespo, liso, anelado, vestidas de formas diversas, falando assuntos diversos, se comportando de forma diversa. E depois o contrário: uma sociedade toda padronizada. É aqui que começa, mais uma vez, a colaboração da arte para a criação de um ambiente favorável à saúde, individual e coletiva.
A novela “O recado do Morro”, de João Guimarães Rosa, do livro “Corpo de Baile”gira em torno de uma expedição em que cinco homens – o guia Pedro Orósio, o pesquisador estrangeiro Seo Alquiste, Frei Sinfrão, o fazendeiro Seo Jujuca do Açude e Ivo Crônico – percorrem o sertão mineiro. Quando caminhavam ao redor do Morro da Garça, região central do estado, encontram o ermitão Gorgulho, que conta sobre um recado que o morro teria lhe passado. A partir daí a viagem do grupo recomeça e, paralela a esta, haverá o percurso do recado, até o momento em que elas se cruzam e se esclarecem. A viagem do recado passará por Catraz, irmão de Gorgulho, que relata para o menino Joãozezim, que dá continuidade à mensagem contando-a para o menino de recados chamado Guegué. Durante a jornada Pedro Orósio e Guegué encontram um homem conhecido por Santos-Óleos, que proclama o fim do mundo. Guegué acaba por passar ao homem a história do recado que o morro dera. Dias depois, aconteceria uma festa nos sítios. Na véspera a vila é surpreendida pela invasão de Santos-Óleos para proclamação do fim do mundo, calcado no recado que o louco recebera. Na festa de domingo Laudelim apresenta uma composição sua, justamente o recado do morro, agora transformado em canção. Ao mesmo tempo, Ivo e mais seis homens estão prontos para pôr em prática o plano de assassinar Pedro Orósio. Pedro, contudo, toma a canção como um presságio e, enfim, compreende o recado, desarticulando a maquinação dos traidores10.
Guimarães Rosa durante a viagem pelo sertão de Minas Gerais, em 1952 – Reprodução
Desse modo o recado passa por loucos, uma criança e um cantador. Laudelim – o artista do grupo – é que vai transformar o recado em canção e só assim fornecer-lhe um significado. É ele quem dá unidade à história, dar forma aos símbolos, integrando os elementos dispersos. O conteúdo desconexo do recado é recebido e sistematizado. E aí Pedro Orósio alcança o recado, embora durante todo o trajeto, a mensagem esteja a persegui-lo. A respeito do conto, Edoardo Bizzarri, tradutor da obra para o italiano, observa que “O recado do Morro” é a estória de uma canção a formar-se11.
Assim nos deparamos, mais uma vez, com a constatação de que, na humanidade, é a arte que permite a percepção de seus subterrâneos. Que ganhará sentido, significado e forma a partir do talento de cada artista. É importante notarmos, como já havia sido observado anteriormente pela Dra. Nise da Silveira, a singularidade de cada obra artística, visto que a capacidade de percepção, o conteúdo acessado e o molde recebido – para se tornar uma obra de arte – são estritamente únicos. O artista é o indivíduo que confere à sociedade a sua pluralidade, heterogeneidade e diversidade. O que seria de nós sem xotes, xaxados, sambas, choros, bossas, reggaes, valsas e que tais? Sem Giacometti, Rodin, O’Keeffe, Frida, Carybé, Portinari ou Guignard? Nesse sentido o poeta americano Ezra Pound declarou, em 1934, que “os artistas são a antena da raça”.
Por fim o que também se apresenta, na medida em que o pensamento percorre pelas veredas acima é que vida, doença e morte são objetos comuns sobre os quais se debruçam médicos e artistas. No livro “A montanha mágica” Thomas Mann disseca a relação do homem com a doença – tuberculose – e a possibilidade da morte, e contrapõe o vermelho do sangue escarrado com o branco da neve de Davos. Leon Tolstoi mergulha no mundo de um doente terminal em “A morte de Ivan Illich”. Em “Tratado sobre a cegueira” José Saramago imagina um apocalipse a partir de uma epidemia de cegueira de alguma forma contagiosa. E Machado de Assis – o bruxo do Cosme Velho – escreve sobre paradoxos da saúde mental e a dificuldade em identificar o que é um comportamento “normal” em “O alienista”.
O sociólogo Herbert Daniel também escreveu sobre a doença terminal, mas num misto de experiência própria e poesia: “Se sou terminal é como um rodoviário, cheio de chegadas e partidas para as mais formidáveis e apaixonadas formas dos viventes. Não tenho sobrevida. Tenho uma vida de sobra, a única da qual poderei deixar o rastro de uma paixão que sempre moveu em mim alguma coisa imóvel que se enraizou no fundo de um lugar que eu costumava chamar de peito, mas que sei que fica além de qualquer coração”.
O pernambucano Manuel Bandeira morreu em 1968, aos 82 anos. Viveu parte do seu tempo com privações impostas por uma tuberculose pulmonar. No poema “Pasárgada” ele imagina uma existência que não teve, de farturas, amores e poderes. Sua inquietação quanto às privações e seus ímpetos de liberdade se manifestaram também em outros textos, como quando diz “estou farto do lirismo comedido, desse lirismo bem comportado…”. Mas é quando escreve “Consoada”, imaginando a chegada da morte, que o poeta mistura, definitivamente, arte, vida e morte. Vejamos então: “Quando a indesejada das gentes chegar, não sei se dura ou caroável, talvez eu tenha medo. Talvez sorria, ou diga: alô, iniludível! O meu dia foi bom, pode a noite descer – a noite com seus sortilégios. Encontrará lavrado o campo, a casa limpa, a mesa posta. Cada coisa em seu lugar.”
Manuela Bandeira
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