Por Toinho Castro

O Globo de hoje estampa na manchete: Derrota de ‘O agente secreto’ no Oscar deixa gosto amargo. Como de hábito, começo o dia discordando do Globo. Não tem derrota e nem tem gosto amargo. Tem sabor de festa, isso sim. Dali, daquele teatro cintilante, ninguém sai perdedor. É tudo vitória. Que elegância do Paul Thomas Anderson, que levou o boneco dourado pra casa, melhor filme, ao citar a cerimônia de 1976, em que “competiam” Um Estranho no Ninho, Tubarão, Nashville, Um Dia de Cão e Barry Lyndon. O que ele quis falar foi sobre as escolhas impossíveis e também da qualidade inerente a tudo que está ali representado, naqueles filmes. Sejam quais forem. De onde forem.
Com sua participação no Oscar, O agente secreto amealhou ainda mais prestígio internacional, jogou, como Ainda estou aqui, luzes e interesses na filmografia brasileira. Levou para o mundo rostos, vozes e modos de ser até então invisíveis numa tela de cinema. Abriu portas e janelas, pelas quais muitos poderão passar, e reafirmou que realizar com qualidade técnica impecável há muito deixou de ser um privilégio do eixo Rio-São Paulo. Foi até lá, no quintal alheio, e brilhou. Foi lá na festa deles ser feliz.
Lembro-me que na Universidade Pública, onde a gente se encontrou, eu, Kleber e um grupo querido de amizades, nosso pensamento era Vamos fazer um filme! E foi o que fizemos. Começou ali. Gravamos em VHS, editamos em videocassetes, recorremos aos equipamentos da Universidade, das produtoras amigas que abriam portas. Tivemos e realizamos um monte de ideias, boas e ruins. Rimos, nos divertimos, debatemos calorosamente e fizemos filmes. E isso não aconteceu só com a gente… aconteceu no Acre, no Pará, na Bahia, em tantos e diversos lugares. Está acontecendo agora, em algum recanto desse país. Sem recurso, inventando e ousando, o cinema de amanhã está nascendo todo dia no Brasil. Cada vez mais onde menos se espera, que é do onde sai o que mais surpreende. No futuro, ninguém se surpreenderá mais ou estranhará os filmes de qualquer lugar.
Recentemente publiquei uma crônica, no Correio Braziliense, em que disse que não sabíamos como o Oscar terminaria, mas sabíamos como começaria; com festa! E terminou com festa também. Tivemos um tapete vermelho na frente de um cinema de rua, com telão junto de um rio no centro da cidade e uma multidão vibrando. Quando teve isso? O povo brasileiro produziu esse “filme”. Cinema é, definitivamente, uma arte coletiva. E um filme somente o sonho e realização de um diretor e sua equipe. Quem faz um filme é o país. Por isso é tão triste quando um país se volta contra seus cineastas. O agente secreto, seu sucesso, sua trajetória premiada, o reconhecimento desses artistas, é a realização de um Brasil que quer fazer cinema, que quer ganhar prêmio e que dá aula de paixão, bom humor e inventividade.
E tudo isso não tem nada a ver com gostar ou não de O Agente secreto; tem a ver com gostar de cinema e ficar feliz com o país investindo nessa arte, com ares de indústria, gerando emprego, receita, representatividade e encantamento.

