Correndo com o bando selvagem de Catharina Azevedo
Nascido em tempos de pandemia, o livro de estreia de Catharina Azevedo, “deixe o bando correr selvagem”, tem como proposta registrar a tentativa de apreender a descoberta do mundo, do corpo e da cidade de Salvador (BA). Publicada pela Mormaço Editorial (2022, 80 pág.), a obra conta com o posfácio assinado pela compositora, cantora, poeta e também soteropolitana Hosanna Almeida.
E é com esse belíssimo livro que Catharina Azevedo nos chega, aqui no inbox feliz da Kuruma’tá, desde Salvado, de onde escreve seus versos e desafia a tessitura do mundo com palavras!
Seja bem-vinda, Catharina, nova habitante do território poético da nossa Kuruma’tá!
A expansão, essa vontade da descoberta do mundo, é o tema central do livro. Esse desejo pelo ‘sim’. Mas existem também alguns ecos da infância, que eu acho um período fantástico, em que tudo se pode, e você tem essa tapeçaria rica em imagens e associações. Para mim, o livro se desenrola entre o ‘eu’, a ‘casa’ (ou o umbigo) e o ‘mundo’.
— Catharina Azevedo
(sem título)
Talvez a verdadeira redenção sejam esses dedos que se estendem do outro lado da ponte de uma página em branco.
Uma tela. Buscamos com candura e um quê de uma aceitação agridoce nos tocar.
Esse toque, tão ínfimo e breve, que nada pede ou explica, sabe desfazer-se no branco vão dos segundos.
Esse ínfimo toque: talvez o verdadeiro roteiro da peregrinação incessante.
Nele, uma revelação surgida no escuro útero do mundo.
Desço a Carlos Gomes
Os pés que construíram essa cidade são os mesmos que agora vejo de rotos traços, suor e calor misturados nas pedras. Eu desço a Carlos Gomes.
É preciso amar também as pedras, antes ou depois dos homens.
Pensos nos jasmins de Borges: os bagos de uva devem estourar na língua, escorrer na língua, abraçarem-se na língua e eu desço a Carlos Gomes.
Fazer arte é bobagem, digo mas, todo o resto, também bobagem.
A pele que se enruga ao vento, os livros que carrego, tudo a salvo e são.
Os 42 degraus da Lapa, (ausência de pressa) escrever rápido Não querer pensar.
Parece querer dizer algo, essa multidão dentro de mim.
Op. 69, nº1
Como Leonora Carrington, extraio minhas cores dos pulsos.
Índigo, viscoso, retrato de lua e prata. Sou uma coruja alquimista.
Em alguma curva do tempo, eu me deito, escondida
Trapezistas, amores perdidos — meu mundo é repleto E rico como aquarela que se dissolve.
Bailarinas, julietas, olhares trocam carícias
Digo sim ao eterno, deus não me intimida.
(sem título)
Passar como água sobre as pedras, seu barulho e seu cristal: há muito renuncio ao fogo.
Há em mim qualquer coisa (um véu de prata iridescente) de nada, seguindo
ao encontro de qualquer terra que se arrepie ao contato. Algo de puro, frio e azul.
Se eu sequer tivesse nome — queria não tê-lo. O que colore o mar é só o céu que se espelha.
Catharina Azevedo nasceu em Salvador, em 1997, e é a segunda das três filhas de sua mãe. Cursa atualmente o Bacharelado Interdisciplinar em Artes, na Universidade Federal da Bahia. Gosta de ler e de escrever desde sempre, isto é, desde que começou a entender o que eram as letras e como elas permitiam a contação de histórias. “deixe o bando correr selvagem” (Mormaço Editorial, 2022) é seu primeiro livro de poemas.
A poesia de Gabriel Cortilho
Mais poesia chegando na Kuruma’tá, no inbox mágico da Kuruma’tá. Hoje é o professor e escritor Gabriel Cortilho que nos brinda com esses quatro poemas incríveis, que aqui estou a ler e reler
Ao mesmo tempo, há beleza nessas cidades cinzas: corpos se encontram, buscam superar os erros; apesar dos pesares, do Capital, das classes, a desigual distribuição da riqueza, espasmos de alegria e amor se aglutinam, & fazem-nos esquecer a tragédia o mundo.
Seja bem-vindo, Gabriel, aos domínios poéticos da Kuruma’tá. Seja sempre muito bem-vindo às nossas portas abertas!
Fiquemos agora com o que interessa, a poesia de Gabriel Cortilho.
ANGÚSTIA
Passados os anos, que transcorrem ou assombram
aprende-se, por conta própria, porque nascem as olheiras nos olhos das meninas
porque uma pessoa começa a conversar com psiquiatras que petrificam suas emoções
tomará esta pílula, criatura do desvio; alma sobrecarregada, eis tua olheira.
apreende-se o mundo nomeiam-se as coisas deixa-se a inquietação
diagnósticos cravados na pele qual bois que fogem do pasto
Quando a morte procura a vida,
recolho-me nas ruínas da poesia abraço Ana Cristina César
— a angústia é fala entupida
BENEDITA
Benedita colhia morangos silvestres contava do filme de 1957, da árvore genealógica ressuscitava os mortos, a família, como se não fôssemos ser um deles algum dia: causa perdida também os netos as mães os cães tornaram-se órfãos, com suas avós mortas qual os morangos silvestres perto da fúria terrena das formigas; vivas – no sopro etéreo da memória
EXISTÊNCIA
Eu te digo o que a liberdade significa para mim: não ter medo.
Nina Simone
Haveria outra oportunidade solar, Existência de construir o sorriso nas ruínas da tristeza? Não às mãos trêmulas do poema, mas todas, às incontáveis mãos sem teto, sem um afeto.
Nem o Sol ou o espírito, mas o unir das mãos, esquecer os nefelibatas, construir-se na ação. Dias em que o Sol me faz renascer tranquila ou fico entorpecido nas sombras do passado. Horas, as lembranças, as pílulas, acumulam marcham os homens-relógio rumo ao Nada.
Ao mesmo tempo, há beleza nessas cidades cinzas: corpos se encontram, buscam superar os erros; apesar dos pesares, do Capital, das classes, a desigual distribuição da riqueza, espasmos de alegria e amor se aglutinam, & fazem-nos esquecer a tragédia o mundo.
À distância ou perto, partilham o sensível, criam vários sentidos à ausência de sentido: almas lascivas na pedra que flutua no espaço; Talvez isso, ou somos bolhas, num tabuleiro de forças econômicas, políticas & ocultas, indiferentes à agonia de Gaia e dos homens.
ZEITGEIST
Foi o sopro do vento na janela o passado a sombra o futuro fecho os olhos um turbilhão os insetos inundam a cabeça que um dia foi uma semente barulho lento mas tenebroso entra aos poucos num corpo poroso desfigura lembranças imprime na memória falsas aquarelas antigas sensações; escuto: não há mais passado o futuro? não há mais futuro: apenas o instante construído pouco a pouco & se não saio de dentro de mim sucumbo no fluxo do tempo: prenúncio dos pássaros que sobrevoam o relógio a hora da exumação
Gabriel Cortilho é professor e escritor, formado em História e mestre em Educação. Autor de doze livretos autorais de poesia, dentre eles A Transa dos Besouros Verdes (2016), Golondrina Subterrânea (2018) e Memórias no Cárcere do Ser (2022). Possui como referência as poesias de Wislawa Szymborska e Fernando Pessoa. E tudo o que contorce ou acalma o espírito.
Independência Poética: Lucas de Matos
Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA
Poeta de hoje: Lucas de Matos
Comunicador e poeta soteropolitano, Lucas de Matos atua na área da poesia escrita e falada desde 2014 por meio da produção de saraus. Seu mais recente projeto, o Sarau Pôr do Sol & Poesia, já passou por Salvador, Boipeba, Praia do Forte, Maragogipinho e Aratuípe. Participou de Festas Literárias na Bahia e, virtualmente, em Colômbia e Moçambique. É autor de ‘Preto Ozado’, livro de poesias lançado pelo Selo Principis da Editora Ciranda Cultural (2022), e recitou nas três edições do premiado programa Conversa Preta da TV Bahia, Rede Globo. Produz vídeo-poesia e realiza atividades arte-educacionais em escolas e comunidades.
Lucas de Matos – Foto Grisel Sarich, 2022
O que te inspirou a começar a escrever?
Estímulo de professores nas atividades escolares. Lembro de uma professora no ensino médio que dizia que eu era seu escritor predileto, e isso me marcou muito na caminhada. Mas vim aflorar quando ingressei na Universidade do Estado da Bahia e conheci o movimento Sarau Arte Livre.
O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?
Não gosto de forçar e nem maldizer a palavra. Tento ao máximo trazê-la à vida e, quando percebo que não vai surgir nada, abro mão e procuro inspiração em artistas que admiro, na natureza e em situações cotidianas. E, como que feito mágica, a inspiração vem, mas no seu tempo escolhido ao invés do meu. Se não anoto logo, esqueço.
Seu maior sonho como escritor(a)?
Ser um best-seller, e ver que os meus escritos chegam a diferentes camadas sociais. Gostaria também de inspirar outras pessoas a escreverem, ou agirem de alguma forma, depois da leitura do meu livro. São sonhos múltiplos!
Assunto preferido de escrever?
Amor romântico. Apesar de não ser a tônica do meu livro de estreia. Contudo, com certeza, ainda lançarei livros sobre essa temática. Gosto de falar sobre esse amor com outros pontos de vista, tentando não pecar na pieguice.
Um elogio para sua própria escrita?
Múltipla.
Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?
Sim. ‘Preto Ozado’, lançando na Bienal do Livro Bahia de 2022, pelo Selo Principis da Editora Ciranda Cultural.
Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?
As manifestações culturais do meu povo, sobretudo o povo preto e baiano, a observação da passagem do tempo, casos que escuto que na rua, frases que surgem numa conversa. As lutas sociais também são fonte para minha escrita.
Qual dos seus poemas mais te define?
Preto Ozado. Tem gente que até me chama assim ao invés de me chamar pelo nome. E eu adoro!
Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?
A mais fácil é quando a escrita já vem pronta. Por exemplo, num poema, quando o primeiro verso surge anunciando todos os outros. É quase como que psicografar, é mágico. O mais difícil é o anseio de dizer algo e não saber como dizer. Fica uma angústia até encontrar o caminho para desaguar.
Qual sua obra favorita de outro autor(a)?
Inúmeras. Mas vou destacar agora ‘Niketche’ de Paulina Chiziane, escritora moçambicana.
Um livro de Lucas de Matos
Nome da obra?
Preto Ozado.
Quando e em qual editora foi publicada?
Lançada em 12 de novembro de 2022, na Bienal do Livro Bahia, pelo Selo Principis da Editora Ciranda Cultural.
Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?
Nesse livro existem poesias de temas variados, tendo a negritude como fio condutor.
As poesias são divididas em fases nessa obra? Se sim, o que te motivou a fazer isso?
Sim. Há três partes chamadas ‘De Onde Vim’, ‘Onde Estou’ e ‘Para Onde Vou’. São como cicerones, norteamentos, sempre em referência à elementos que me precedem, seja a família, a natureza ou a luta dos ancestrais. Estruturas que me dão régua e compasso para perceber quem eu sou e qual o meu papel, e assim seguir adiante.
O que te incentivou a escrever esse livro?
Já tinha escrito muitas das poesias que o compõe. O convite da Editora me deu grande alegria para poder lapidá-lo e fazer essa estreia no mercado editorial.
É possível destacar uma poesia que mais se assemelha a seu cotidiano?
Muitas. Mas destaco ‘Felicidade Insistente’, que conta sobre a perseverança em continuar mesmo em face das agruras da vida. Uma pessoa preta viver de forma plena, digna e exuberante, é considerado uma ousadia, uma afronta. Querem enredar-nos na dor, no escaninho do racismo. Sermos felizes é destituir essa ideia. A vida tem várias faces, e precisamos usufruir da face alegre.
A sequência dos poemas conta alguma história?
Sim e não. Os poemas têm sentido pleno separadamente, e uma das experiências mais interessantes é ver os meus leitores abrirem em uma página aleatória e se identificar com o que está escrito. Mas juntos, narram um pensamento coeso pela valorização das raízes, a coletividade na jornada, e o enfretamento ao pensamento colonial.
Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?
Sem dúvida. O título e a capa, da ilustradora Silvana de Menezes, já demarcam isso. Nós descontruímos a ideia de que o homem vitruviano de Da Vinci, considerado tendo proporções perfeitas e divinas, seja apenas o homem branco. Eu me coloco à frente dele para demarcar que o homem preto e a mulher preta também podem assumir o ideal de perfeição da humanidade. Na Bienal, uma leitora fez outra interpretação, que achei muito justa: a minha pose remete ao machado de Xangô. E há uma poesia sobre esse tema no livro. Axé!
Qual a relevância dos personagens implícitos/explícitos da obra?
Sou eu, meus parentes, amigos, ancestrais. A relevância são as mãos que pavimentaram o caminho para que eu pudesse/possa escrever e publicar. Sou fruto do legado de todas essas pessoas. Se sou quem eu sou, é porque elas também são parte da minha forma.
Qual a poesia mais marcante desse livro?
‘Continuação’. Fala da importância de continuar o sonho da criação da família preta, na utopia de uma sociedade onde o racismo tenha os seus dias contados. É uma poesia para os meus filhos que ainda virão!
Três poemas de Lucas de Matos
PRETO OZADO
Deve doer, né? Querer me ver trancado no porão da história enquanto eu continuo a ascender Querer me ter capacho, na escória Agora que eu tenho acesso à escola e escolho enegrecer
Te irrita enxergar, mas estou lá Tete-a-tete com seu filho na Universidade e tem hora que até o ajudo a estudar Vai ter que aceitar: Você quase coroa sua tentativa de apagamento Mas não contava com o aquilombamento – Mandinga para viver, salvaguardar a memória
E hoje museus versam essa trajetória de força que ressoa Tapa os ouvidos, veda os olhos, se te atordoa Deve doer, e se dói, deixo que doa
Não vai passar batido do meu close e nem jogar quebranto no meu corre Eu corro há séculos e ainda continuo a driblar as curvas da morte Não me venha dizer que o sangue derramado foi sorte
Cantei sobre o breu, mas hoje quero cantar sobre o brilho Quero subir de tal forma que os meus subam junto comigo Te segura! Eu vou atravessar o portal Sou cria de Vilma Reis: “Cabeça erguida, bico na diagonal”
E já que nesse país pra não ser preso tenho que andar identificado, Toma aí meu RG: Preto Ozado Diga meu nome e sobrenome, e mesmo que doa, diga alto!
FELICIDADE INSISTENTE
Mesmo que o mundo me apresente a guerra o sangue a falta de comida o desânimo a desesperança a fuga sedutora e convidativa a prisão a estatística o elevador de serviço o analfabetismo o negacionismo o precário ônibus nosso de cada dia o medo de vida na cidade a ansiedade o sobressalto o assalto e a carestia a carência do afeto o ataque à cultura a preguiça do pensamento a efemeridade de tudo a obsolescência e o sedentarismo o apagamento do passado e futuro o ponto de vista unilateral o desprezo (in)constitucional a mesmice a indulgência a insistência em padronizar o noticiário de catástrofe a tragédia ambiental a vontade de cair a falta de ar
Eu me lembro de rir, de respirar E me movo pro mundo continuar
CONTINUAÇÃO
Eu não termino aqui, em mim
Permaneço no sonho da família preta que um dia terei Nos filhos que educarei
Enquanto eles não chegam, pavimento a estrada com ações, letras e palavras para que o sofrer seja ameno e viceje uma existência corajosa destemida, alada
Quero lágrimas de vitória e felicidade em seus rostos de ébano O contraste de dentes brancos do riso expandido na cara preta Puxando a mim, puxando à mãe
Quero contação de histórias para dormir e para saber viver Lembrando a importância de quem veio para que eles saibam quem são
Quero ensinar o valor do pão e da partilha A necessidade da prática e da utopia O caminhar resignado e orgulhoso todo dia
Quero uma polícia pacífica e antirracista que os proteja a violência ao invés de enxergá-los alvos por não terem a pele alva
Quero falar-lhes de potências do corpo e da alma Em nossa mesa farta na fartura da cumplicidade que deve existir numa família
Ah, meus filhos e filhas… Espero e almejo-os, penso em vocês por demais
Quero continuar Quero a negritude do amanhã Quer ser pai!
Coração Alado – Encontros do acaso ou sonhos lúcidos?!
A vida é cheia de pequenos diálogos de encantamento. Palavras inesperadas, trocadas em encontros fortuitos, randômicos, que parecem cenas em câmera lenta em meio ao corre-corre da vida. São conversas curtas, em geral entre pessoas que nunca se viram, não se conhecem, e se encontram por acaso para, em seguida, serem tragados pelo rodopio do mundo e nunca mais se encontrarem. São como sonhos lúcidos. Fica sempre a dúvida se aquilo aconteceu mesmo ou é uma invenção, uma fabulação das nossas mentes em busca de histórias pra contar.
Era uma vez, lá no Recife, anos 1980, peguei o CDU (Cidade Universitária) x Boa Viagem, num fim de tarde, para voltar pra casa, na Imbiribeira. No próximo ponto entrou uma garota bem bonita e sentou ao meu lado, num banco ali na parte traseira do ônibus. Naquela época a catraca/roleta/borboleta (depende dos regionalismos!) ficava numa posição que permitia você sentar na parte de trás do ônibus e só passar por ela (e pagar) quando quisesse. Isso acabou porque não era pouca gente que descia pela porta traseira sem pagar na primeira oportunidade! Mas enfim, eu carregava nas mãos uma edição de Cândia Erêndira, do Gabriel Garcia Márquez.
A garota havia acabado de se acomodar ao me lado e mirou o livro nas minhas mãos e comentou: Adoro, Garcia Márquez. Eu também adorava, claro, disse-lhe. E assim começamos uma breve conversa agradável, que foi interrompida bruscamente quando o ônibus entrou numa rua e ela, olhando ao redor, pelas janelas, perguntou: Que ônibus é esse?! Quando eu disse que era o CDU x Boa Viagem, o ônibus parou imediatamente no ponto seguinte e, antes de saltar pela porta de trás, me falou apressada: Peguei o ônibus errado. Nunca mais nos vimos. Ela certamente não recorda, creio, esse encontro. Do rapaz abobalhado sua presença e um livro de Garcia Márquez nas mãos.
Sumiu no Maelström do mundo. Vive uma vida outra, e talvez leia ainda Garcia Márquez. Vai saber. Nunca mais nos vimos.
Teve também esse encontro sem palavras, já no Rio de Janeiro. Numa tarde chuvosa, numa rua de Ipanema, vinha eu sem guarda-chuva e ensopado, com os óculos cheios de gostas e meio embaçados. E lá estava, caminhando na mesma calçada, em minha direção, de sobretudo e uma um elegante guarda-chuva, ninguém menos que Norma Bengell. Ali, o cinema brasileiro passando por mim. Não dissemos nada, sequer um boa tarde. Mas ela olhou pra mim e sorriu. E eu sorri de volta. E seguimos por uma Ipanema coberta de chuva e frio. Pra mim, é como cena de um filme. Um curtíssima metragem que fiz com Norma Bengell. E só eu e ela assistimos.
Eu e uns amigos tínhamos um jogo bobo, mas que nos aquecia… quem encontrasse alguém significativo pra gente, do mundos das artes, ganhava uns pontos, dependendo de quem fosse. Norma Bengell era tipo 10 pontos com estrelinha!
De outra feita estava eu no querido Teatro Rival, que a gente ama (Teria sido um show do Otto?!), e deu-se essa outra cena de cinema. não um filme qualquer, mas de cinema brasileiro, tipo assim Cidade Oculta, do Chico Botelho. Uma dessas coisas que somente mesmo o acaso, esse contador de histórias, pode nos proporcionar. Encostei pois, ali no balcão de bebidas do Rival, assim recordo, e nos alto-falantes do bar tocava, anacronicamente, Noturno, de Fagner, também conhecida popularmente como Coração Alado, por conta do refrão. Música que grudou nas rádios e nos nossos ouvidos quando foi música de abertura da novela Coração Alado, na Globo, em 1980.
Enquanto esperava meu chope (ou terá sido uma cerveja?!), uma moça postou-se ali ao meu lado e, virando pra mim, comentou: Minha mãe adora essa música. Olhei pra ela e era a Fernanda Torres, que esperava também sua bebida, qualquer que fosse. Comentei meio tímido, por conta daquela aparição que se dava junto a mim: Ah, a minha mãe também adora!
— Por que toda mãe adora Fagner?! — Perguntou ela, não pra mim, mas meio a esmo. E só me restou um Pois é!. Rimos enquanto nos afastávamos do bar e um do outro; ela com seu chope e eu com a imagem de Fernanda Montenegro ouvindo Fagner emocionada, numa tarde carioca qualquer, como a minha mãe, lá no Nordeste.
Fernandinha certamente não recorda dessa cena. Imaginada, talvez?! Ainda hoje acho que aconteceu e espero que relatá-la aqui não seja algum tipo de indiscrição. Dona Fernanda (a mãe!) esse vídeo aqui é pra senhora e pra minha mãe. Espero que ainda goste de Fagner.
E enquanto escrevo essa linhas tortas, que são as boas boas de escrever, recordo outro breve episódio, de encontro assim como o de Norma Bengell. Lá na rua do mesmo Rival, passando apressado entre as mesinhas de um bar, vejo ali sentada ninguém menos que Angela Leal, que no meio do bate-papo animado com as amizades à mesa, encontrou um lapso de segundo para sorrir pra mim e o mundo girou em frente ao Rival, teatro que ela dirigiu.
Como esses, muitos outros aconteceram comigo, e acontecem com muitas pessoas a cada dia que se passa. Gente mundo afora esbarrando em diminutos maravilhamentos poéticos. Encantamentos de gentes por aí. São os hai-kais dos encontros. O que resta deles, a memória que vai refabulando e se desmanchando. Virando sopro e sonho.
A poesia de Bianca Rufino
Bianca Rufino, ou Bianca Sabiá, nasceu libriana, na Serra da Borborema, num 7 de outubro, como este humilde editor que vos escreve, só que anos depois! Só isso já abre uma simpatia enorme em mim. E a leitura de sua poesia só reforça isso que já é admiração. Que mais poetas como a Bia cheguem céleres na Kuruma’tá, casa de poesia, casa de poetas e sensibilidades.
Bia, seja bem-vinda! Nossas estão portas sempre abertas! Bora ler essa artista?!
correnteza
era ela mas por trás tinha outras elas a avó a mãe dela por cima da marca A matriarca ela era a reticência da existência daquela Era ela que ia passar a chama pra próxima vela.
aprendendo do zero
o amor me ensina todo dia a ser miúda como a formiga e a ser gigante como o horizonte
o amor me aprende a escovar os dentes das cáries a chorar no peito vulnerável
o amor me liberta todo dia uma nova cara se mostra
o amor não é à prova de balas o amor é o desarmamento.
Zíngara
você olha e me vê na largura do rio [me derraamaanndoo… quando voltar …volte pelo outro lado] estarei circulando entre ar bustos entre âm bares entre es camas nada me decreta não me contrabando não pertenço: deito sobre o universo a palavra não vai me engolir resisto! lutarei com meus dentes de cão mastigarei linhas e vomitarei o sumo e o bag(aço) aviso: não me tire por essas letras que me vestiram sou transeunte trabalho em t r â n s i to.
receita
quando o canto do pássaro te atravess ar se faça de madeira (oca) deixe ele maturar no seu íntimo barril como cachaça. canto bom é canto curtido.
sobre ter muito bicho por dentro
eu gosto do modo exagerado e desajeitado de seu vôo minha vista se confunde na perfeição e se magnifica na falha é o excesso de bicho que tenho em mim.
não sou dessa laia!
as coisas desta sociedade banal eu não entendo me chamem burra jumenta anta só não me identifiquem como dos seus, é ofensa! não quero pactos com essa tralha acinzentada essa fumaça não é incenso e não limpa: entope sou feita de grãos de terra adubos e galhos essas coisas que ladram se exibem e se contentam com concretos não criam asas, criam objetos à sua semelhança não quero laços com essa civil ordem que despreza espírito não demarca terras indígenas mas cria sua marca não engole criança mas come seus sonhos para tornar a ser gente não me chamem dos seus! não sou dessa laia! a coisa da poesia
as palavras são sopros de orações são mantras disfarçados eu não uso qualquer palavra por aí
tenho minha irresponsabilidade sobre elas falar pra uma planta o nome científico dela é como te chamar de homosapien chamar a parede de parede tira a graça dela de poder ser um varal de sonhos
a riqueza da poeta é o silêncio nele, tudo acontece: o som vai engolindo o traço o traço vai virando letra a letra virando barro de moldar e por aí se cria
depois do silêncio dessa ruminação vem o estalo: a letra te foge à mente agora ela é livre como o rugido de um leão
eis a coisa da poesia: palavra tem que sair de dentro como rugido de leão.
Bianca Rufino ou Sabiá, nasceu em 7 de outubro de 1992, sua semente brotou na serra da Borborema, em Campina Grande, mas sua muda foi cuidada em João Pessoa, Parahyba. Poeta, escritora, compositora, cantora, performista, andarilha, cartomante e brincante: transita entre linguagens da arte, com essência na palavra. É autora do livro de poesia Zíngara (2021) pela Editora Triluna, De quando o rio lavou as histórias (2021) livro de contos que foi vencedor do Prêmio Políbio Alves, criou 18 fanzines e trabalhos nas artes visuais. Desenvolve vídeo-poemas e performances, três delas selecionadas por editais do país: ‘Cotidiano In.verso’, ‘Gurugi’ e ‘O dia em que tirei minha alma pra dançar’. Realiza itinerâncias poéticas e produz um projeto de circulação chamado ‘De carona na poesia’, passando por cidades diversas com apresentações, rádio difusora e oficinas de escrita. Tem o espetáculo ‘Voltando para casa’ com repertório autoral de música e poesia.
Independência Poética: Carla Brito
Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA
Poeta de hoje: CARLA BRITO
Carla Brito é poeta e escritora de Salvador, graduada no Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades (UFBA) e cursa o último semestre de Psicologia (UFBA). Premiada pela Lei Aldir Blanc e autora dos livros “Taunina: entre escrevivências e poesias” (2021) e “sinto” (2022).
Carla Brito
O que te inspirou a começar a escrever?
Eu escrevo há muitos anos, não sei exatamente quando comecei, mas me recordo que a adolescência foi um período em que escrevia sobre meus sentimentos e vivências. Talvez por volta dos 14 anos eu tenha começado a escrever mais intensamente sem ser para atividades da escola. Eu tenho diferentes inspirações a depender do que eu for escrever. Não há uma única fonte de inspiração, ela varia com o conteúdo que estou escrevendo.
O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?
Hoje eu não acredito mais em bloqueio criativo. Penso que como somos seres cíclicos, há momentos em que estamos mais proativos para algo e em outros mais reservados. O mesmo acontece com a arte. Eu como escritora e universitária estou sempre escrevendo, textos que nunca vou compartilhar ou textos que serão para meu Instagram @soucarlabrito ou para avaliação da faculdade. Mas eu sempre estou escrevendo. Há momentos em que essa escrita se torna menos intensa e respeito, mas não vejo mais como um bloqueio, porque minha escrita não tem estado mais retida. A escrita é prática, é movimento, não se bloqueia o vento, ele muda de direção e intensidade.
Seu maior sonho como escritor(a)?
Deitar a cabeça no travesseiro de noite com a mente tranquila e o coração leve e pensar: “tá dando certo, garota!”.
Assunto preferido de escrever?
Eu escrevo sobre muitas temáticas, o que me toca, eu escrevo. Mas acredito que escrever sobre ser mulher negra e afetividade é um dos assuntos que mais me ocorre e mais que eu gosto de escrever.
Um elogio para sua própria escrita?
Navalha na carne viva. Escrevo pra doer, mas também pra curar.
Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?
Tenho 2 livros publicados: “Taunina: entre escrevivências e poesias” (2021) e “sinto” (2022).
Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?
A natureza e as pessoas.
Qual dos seus poemas mais te define?
“Tornar-se negra”, ele toca em pontos de diferentes fases da minha vida envolvendo a minha relação com a negritude.
Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?
Mais fácil é o ato de escrever, nunca tive grandes dificuldades, as letras sempre fluíram muito bem comigo. No entanto, quando são para colocá-las no mundo e compartilhar com outras pessoas, torna-se mais difícil. Hoje em dia, eu já melhorei muito nesse aspecto, mas sempre tento ter responsabilidade e cuidado com o que eu posto. Não ter controle sobre o que o outro interpreta, me amedronta um pouco.
Qual sua obra favorita de outro autor(a)?
“Olhos D’água” (2014), de Conceição Evaristo.
Um livro de Carla Brito
Nome da obra?
“sinto” (2022).
Quando e em qual editora foi publicada?
“sinto” é uma obra independente. Sua primeira versão é digital, publicada pela Amazon, em abril. Depois de frequentar espaços presenciais e sentir falta de apresentar meu livro fisicamente, decidi fazê-lo de forma artesanal. Então, em junho, foi quando a versão física de “sinto” chegou nas primeiras mãos.
Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?
Sim, sobre afetividade e relacionamento amoroso.
As poesias são divididas em fases nessa obra? Se sim, o que te motivou a fazer isso?
Não são divididas, elas fluem no decorrer das páginas conforme meu próprio processo no contexto narrado.
O que te incentivou a escrever esse livro?
O principal incentivo foi um relacionamento amoroso. Depois de conversas com amigos, notei que muitos passavam ou tinham passado por algo semelhante, então percebi que era uma ótima oportunidade para escrever um novo livro, aplicando também os conhecimentos técnicos que havia aprendido recentemente.
É possível destacar uma poesia que mais se assemelha a seu cotidiano?
Acredito que o poema “sinto dezenove vezes”, pois nele eu vou construindo aspectos do ambiente externo ao meu. Sou muito de observar as coisas corriqueiras da vida, como o céu, pra poder escrever.
A sequência dos poemas conta alguma história?
Sim, os poemas começam com o sentir voltado para o outro e termina com o sentir para mim mesma.
Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?
Não diretamente, mas o fato de trazer um relacionamento afrocentrado já é político.
Qual a relevância dos personagens implícitos/explícitos da obra?
A relevância é que são personagens vivos e reais, pessoas que falham, sentem e se recuperam.
Qual a poesia mais marcante desse livro?
Pelas devolutivas dos leitores, varia entre alguns poemas. Eu, particularmente, não consigo dizer qual o poema mais marcante.
Independência Poética: Anderson Shon
Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA
Hoje, com atraso e com amor, a gente publica, orgulhosamente, a primeira da série de entrevistas da parceira, amiga, colaboradora, Lorena Lacerda, de Salvador! A Lorena publicou com a gente e veio com essa proposta linda, e a gente topou imediatamente!
Que sejam muitas as entrevistas e que Lorena e seus convidados e convidadas brilhem. Viva a poesia! Viva a criatividade que a gente carrega na alma! Viva a resistência e insistência do fazer poético!
Poeta de hoje: ANDERONS SHON
Anderson Shon é escritor, poeta, educador e super-herói nas horas vagas. Autor dos livros Um Poeta Crônico, Outro Poeta Crônico e A Despedida do Super Futuro. Além de participar das coletâneas de contos Artistas Liberais e Tudo É Verdade, Menos Aquela Parte. Tem uma coluna no site Jovem Nerd, onde fala sobre cultura pop relacionando com questões afrocentradas. Já passeou pelo mundo do podcast, através do “O Que Você Está Lendo?”, programa de entrevista que caminhava pelas referências literárias dos entrevistados e entrevistadas. Shon teve o conto O Dia do Yuri adaptado para o audiovisual pela CloudFilmes, o mesmo pode ser encontrado no youtube. O conto que é de 2015 e ganhou uma continuação em 2020; O Dia do Yuri 2. Anderson Shon é f…
LEIA A ENTREVISTA
O que te inspirou a começar a escrever?
Eu sempre tive uma relação muito próxima com a música, tive uma banda de rock e era um dos compositores. A ideia de passar mensagens, brincar com metáforas, escrever algo que impressionasse quem fosse ler – no caso da música, quem fosse ouvir – me inspirava muito. Acho que minha maior inspiração sempre foi fazer com que minha voz fosse ouvida pelo mundo.
O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?
Eu tinha bloqueio no início, hoje isso não acontece mais, por que eu tenho trabalhado por demanda. Lógico, isso pode voltar a acontecer a qualquer momento, mas eu não tenho me permitido parar, então estou num ritmo bacana e isso faz com que os bloqueios nem pensem em vir.
Seu maior sonho como escritor(a)?
Viver da escrita. Ela é só parte da minha renda, eu quero que seja minha renda integral.
Assunto preferido de escrever?
Ótima pergunta, não tenho uma resposta pra isso. Como poeta crônico, gosto de escrever sobre… ahhhh… tenho sim, o cotidiano, a simplicidade do cotidiano me seduz.
Um elogio para sua própria escrita?
Sensível.
Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?
Tenho o Um Poeta Crônico de 2013 e o Outro Poeta Crônico de 2019. Além de um ebook em 2020 chamado A Despedida do Super Futuro. Já participei de duas coletâneas de contos; Artistas Liberais e Tudo É Verdade, Menos Aquela Parte. E tive um conto meu, O Dia do Yuri, adaptado pro audiovisual.
Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?
Tudo… como falei anteriormente, a simplicidade do cotidiano é muito inspiradora. A vida é feita, em sua maior parte, de momentos comuns, são eles que fazem meus olhos brilharem.
Qual dos seus poemas mais te define?
Eu gosto dos poemas narrativos e dos que tem a veia crônica mais presente.
Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?
Difícil é sempre se reinventar, eu tenho muito problema em ficar sentado em cima do que acham que eu faço melhor, então estou sempre procurando novas formas de escrever. Eu acho que não tem nada fácil, tem muita coisa prazerosa, mas eu não consigo apontar algo como fácil na escrita.
Qual sua obra favorita de outro autor(a)?
Frankenstein da Merry Sheley.
Um livro de Anderson Sohn
Nome da obra?
Outro Poeta Crônico
Quando e em qual editora foi publicada?
Independente
Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?
O cotidiano, por isso eu chamo de poesias crônicas.
As poesias são divididas em fases nessa obra? Se sim, o que te motivou a fazer isso?
Então, eu gosto com que o leitor entenda essa formatação, o livro é feito de uma forma para que cada um sinta-se livre para entender e dividir possíveis temáticas.
O que te incentivou a escrever esse livro?
O fato de minha obra ser maior do que eu. Ela chega em lugares onde eu não chego. Minha escrita sou eu, mesmo quando eu não estou.
É possível destacar uma poesia que mais se assemelha a seu cotidiano?
Eu diria que “nós merecemos muito mais” é assim, mas só pelo fato deu não entender mais o que ela quer dizer. Assim como a vida, né? Às vezes, parece que estamos no comando, mas só às vezes.
A sequência dos poemas conta alguma história?
Se o leitor quiser, sim.
Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?
Tudo é política e tudo é cultura. Eu sou uma pessoa progressista, não tem por que minha escrita ser diferente.
Qual a relevância dos personagens implícitos/explícitos da obra?
Ser os olhos do leitor dentro da poesia.
Qual a poesia mais marcante desse livro?
Leia e me diga kkkkkkkk
A Poesia de Nakamela na Kuruma’tá
Que alegria essa irmã angolana cruzando o Atlântico, para alcançar aqui a Kuruma’tá, em terras brasileiras, com sua poesia. Maria Chimbili, ou Nakamela, em sua identidade poética, é uma poeta/ escritora, nascida na cidade de Huambo, e que reside atualmente na África do Sul. Nossa revista chegou ao seu conhecimento e ela se aventurou, enviou sua mensagem e nós a recebemos comovidos. Que essa seja apenas a primeira ponte com o continente africano e sua diversidade.
Bem-vinda à Kuruma’tá, Nakamela!
(I)ACEITA.AÇÃO
Entre idas e vindas subidas e descidas enquanto a vida acontecia encontrei à mim e me vi Voltei a apaixonar-me por respirar e dessa pele que me acolhe aprendi a cuidar Com tudo o que envolve ser eu das falhas aos ganhos entre altos e baixos eu me escolhi.
(II) Doação ( almas que dão )
Não é errada a forma como me doô O problema surge quando tento reconstruir pontes que por mim não tenham sido queimadas O problema está em fechar os olhos quando o mundo iluminado expõe as mil cores carregadas por cada uma dessas almas Quando abro os braços e convido outro coração a sincronizar com o meu que segue fraco machucado desde a última lesão O problema é ter medo da solidão ao ponto de alavancar trocas com almas que tiram mais do que dão.
(III) Frequências
Quanta graça se aqueles que preenchem o coração preenchessem Os lugares à mesa Quanta graça se as frequências Continuassem ligadas E a morte Não Interrompesse Nossas conversas Quanta graça.
(IV) O que eu desejo
É ser querida pelas pessoas que eu quero Quero ser acolhida Quero ser bem-vinda Ter a sensação de estar dentro Mesmo estando de saída Quero ser procurada Requerida Quero que o esforço de criar amor Seja mútuo e co-criado Quero que seja nosso, nosso E que sejamos uns dos outros Quero sentir no outro O calor que emana de mim Criar um mar quente Com lágrimas derramadas De olhos que choram de felicidade Quero ser mimada, abraçada, beijada. Quero ser amada, de verdade.
(V) Ser kota cansa
Não é sobre querer, é sobre ser Sobre a consciência transparente Do nosso papel nesse roteiro. É pesado, exige coragem Coragem, sê leve contigo Aprende a falar de amor em voz alta Serkotacansa Es muito jovem para ir depressa E velho demais para perder tempo O tempo passa, o people baza Nos tornamos kotas e os kotas também Confrontados com dores invisíveis E decisões difíceis Dor no coração é quase normal Tal como as marcas deixadas pelas lágrimas em nossos rostos Serkotacansa Somos acordados pela ansiedade Quando a depressão nos põe na cama Mil caminhos, mil realidades, mil sonhos Não temos para onde fugir O último a sair apaga a luz Com o coração pesado medo do passado É um futuro incerto Problemas têm o peso da idade E o tamanho da cidade A verdade é agoniante Não era esse o nosso sonho Não foi esse o nosso desejo Lutamos as nossas batalhas Lutamos batalhas alheias Arenas externas e conflitos internos “ Possas, tipo que vou pro inferno “ Serkotacansa É sobre o brada que faz o que pode mas nesse caminho ele só f*de Mas como é que olha para os olhos da mãe Que chegou à casa a sangrar depois de um dia De luta com aqueles que lhe tiram o pão Para poderem ter pão Ser kota cansa É sobre o medo de ter filhos Medo de não ter filhos Medo de errar a trilha Medo Ser kota é fingir ter uma força Que não se tem Ser kota é enganar o coração E a mente enganar o mundo e as vezes enganar a nossa gente É fingir que está tudo bem Porque é nisso que precisamos de acreditar Até que fique tudo bem Aqui dentro pelo menos Porque chove lá fora E o sol se apagou Deixa a lágrima cair Respira e avança Eu sei… ser kota cansa.
GLOSSÁRIO Kota – adulto Brada – irmão
A poeta e escritora angolana Maria Chimbili, conhecida como Nakamela, nasceu no Huambo em 1994. Formada em ciências sociais, a escritora analisa a “cura” como mudança social, pois acredita que o autoconhecimento seja uma das formas de alcançá-la, impulsionando o desenvolvimento pessoal e profissional de cada cidadão.
“Gosto de acreditar que a minha escrita funciona como uma maquina do tempo que leva as pessoas para o passado e para o futuro, aquecendo sentimentos que se encontravam frios e acendendo luzes em quartos esquecidos. Desejo escrever livros que sirvam como arma contra sentimentos que matam.”
A poética Trilogia da palavra, de Mucane Silva
Bem-vindo demais à Kuruma’tá, M. Kenne! Compartilhamos sua paixão desesperada pela poesia e pelo vai-vem da palavra! Sua poesia é mais uma colaboração valiosa que nos chega pelo indox mágico da kuruma’tá! Vem lá das terras da Paraíba, de João Pessoa, onde fica o Cabo Branco, desafiando o Atlântico e as distâncias!
Desesperadamente apaixonado por poesia
Bem-vindo demais à Kuruma’tá, Mucane Silva! Compartilhamos sua paixão desesperada pela poesia e pelo vai-vem da palavra! Sua poesia é mais uma colaboração valiosa que nos chega pelo inbox mágico da kuruma’tá! Vem lá das terras da Paraíba, de João Pessoa, onde fica o Cabo Branco, desafiando o Atlântico e as distâncias!
Maquinári[d]o
Pensa Pensa Pensa
Escreve Escreve Escreve
Gritavam incansáveis. mas a mão não obedece
Pensa Pensa Pensa
Escreve Escreve Escreve
Mas, não sabem eles que a escrita é manufaturada Fratura-se a alma do texto em alinhamentos regrados
A escrita é desengonçada ziguezagueia entre o que é e até onde vai a mão cambaleante
Pensa Pensa Pensa E as máquinas encaixam os ossos nos papéis mortos
Perde-se a criação. A vida e as vísceras do que se escreve Escreve Escreve escreve
Escreve-se o quê, afinal?
Calo
o som distoa a glote se aninha em fuga e a voz já não sai [como antes]
Nós empurrados goela abaixo me dão indigestão
reviram-se, cá dentro enlaçados não encontram saída um após o outro Nós
a garganta reduz-se ao mais estridente silêncio que a rompe
Pendendo da boca
A palavra guarda os mais astutos subterfúgios Quieta à espreita. Desliza em dança na boca Hip no ti za Seduz pronta pra dar o Bote
Professor e poeta, M. Kenne é graduado em Letras – Francês e especialista em Língua Francesa e suas Literaturas pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Tem na palavra o ofício e o reduto, acumulador de histórias, desesperadamente apaixonado por poesia e pelo vai-vem das palavras… que nunca se acabam. Nasceu em outubro de 1997 na cidade de João Pessoa (PB), onde reside e compôs sua primeira coletânea de poemas, “Verter-se em Caos” (2022), pela Editora Triluna.
Acompanho-te há tanto tempo, nem percebeste a sombra que desenhava teu corpo, foram palavras e palavras no silêncio dos meus pensamentos.
Iluminaste as folhas que desenhei com teu olhar, nas palavras que saltavam do meu mais tenro desejo.
Cultivei o que me fez viver por longo tempo, o amor silencioso e solitário, nos mornos dias, a lembrança do teu sorriso largo aqueceu minha carne que fraca, não sucumbiria a desejos tórridos, pois que a paixão não se eterniza na febre do querer, por minhas mãos, pude sentir o carinho generoso e fiel a tamanho encanto. Quando levei comigo os nossos encontros literários, tuas palavras a me embriagar, libertaram o que pensava ser profano, tal medo de liberdade excessiva me feria como desgraça? que nada, o medo do incompreensível prende a língua e os pensamentos, deixando morto o corpo que arde e queima.
Tão perto não te quero, intento assim, platônico, intocável, insaciável, para te ter nas minhas horas somente, as tuas a meu lado, serão alegremente comuns aos desejados dias certos em nosso comum calendário, compromisso com livros, sorrisos, palavras e abraços.