Independência Poética: Dejanira Rainha Santos Melo

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA

Poeta de hoje: Dejanira Rainha Santos Melo

Meu nome é Dejanira Rainha Santos Melo, sou mulher negra nascida em Periperi, bairro do Subúrbio de Salvador. Sou filha de um homem negro retinto que era carpinteiro, marceneiro e estofador: Aguinaldo Alves de Melo e de uma mulher considerada branca em Salvador, dona de casa: Celeste Rainha Santos Melo. Estudei em escola pública durante toda a minha vida e cursei a universidade pública. Formada em Letras Vernáculas e em Pedagogia na UFBA, entrei no serviço público na Rede Municipal de Ensino de Salvador em 2000. Mas exerço a profissão de professora das séries inicias do Fundamental I desde 1994. Sempre trabalhando no Subúrbio. Faço poemas desde muito jovem, mas nunca publiquei, tendo os meus cadernos e agendas cheios de poemas que faço nos momentos mais inusitados a partir de uma ideia, de uma angústia ou de um grande prazer que grita dentro de mim a qualquer momento do dia ou em qualquer lugar. Sempre apresentei meus poemas em saraus ou em festas de amigos e amigas, mas somente em 2021 tive a ideia de criar uma conta no Instagram para divulgar os meus poemas. Também recentemente resolvi procurar editoras para publicar livros físicos de poesia, principalmente o meu primeiro livro infantil de poesia a pedido das crianças a quem eu venho apresentando os meus poemas como uma das ações da Biblioteca Social Afro-indígena Meninas do Subúrbio da Qual sou guardiã juntamente com Luane Pereira. Escrevi o prefácio de dois livros de poesia: “O Amor Não Está “ de Jovina Souza e “Preto Ozado” de Lucas de Matos, umbos poetas negros. Participei de Flipelô em 2000 e da última Bienal do Livro em Salvador.

O que te inspirou a começar a escrever?

A leitura de poemas dos clássicos da literatura brasileira me inspirou a escrever. Os poema que lia na escola primária, como chamávamos na minha época e também no colégio. O texto poético sempre me atraiu e eu sempre demorei as poesias que eram trabalhadas na sala de aula. Ficava repetindo no espelho até não errar nenhum verso. A poesia foi um dos motivos de eu ter trocado a faculdade de Filosofia pela faculdade de Letras Vernáculas 1999.

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

Fico muito tranquila, porque eu sei que é algo que passa e logo logo a palavra vai saltar da minha cabeça, brincando, querendo ser outra coisa, ter outra forma, dizer o óbvio de uma maneira inusitada. Eu só espero pacientemente a palavra ser tudo que ela deseja é quer ser: arbitrária por excelência, ilusória e criadora da realidade que desejamos ou até mesmo da que não desejamos.

Seu maior sonho como escritor(a)?

Atualmente eu tenho desejado muito publicar um livro físico.

Assunto preferido de escrever?

Valorização da mulher negra e da criança negra.

Um elogio para sua própria escrita?

Cada vez mais fluida, mas sedutora e mais atraente.

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Estou em vias de publicar. Procurando editoras.

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

Justiça para o povo negro, desejo feminino lésbico e como trabalho com crianças faz 29 anos o universo infantil.

Qual dos seus poemas mais te define?

Redenção

Dei para acreditar
Que vou pro céu
Porque sou imperfeita
Porque amo o candomblé
Namorar com mulher
Tomar uma cerva
Em dia de canseira
Dizer palavrões
Quando caiu na feira
Imaginar o que existe
Debaixo da blusa da freira
Imagino a grande piada de Deus
Com o perfeito idiota
Que não viveu
Nem no pensamento
Nem no corpo tenso
Riu sozinha da imaginação
Fumando, sentada
Ouvindo um samba canção
Ascendendo numa nuvem
Tida de algodão
E de lá de baixo
Os que não treparam
Pensam na foda perdida
Na comida cuspida
No catarro sem cigarro
E querem outra vida
Para se redimir.

Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

A mais fácil é deixar a escrita fluir quando ela quer chegar. A mais difícil é tentar corrigir um poema depois que ele foi sentido e pensado do jeito que saiu da primeira vez. Eu fico achando que ele passa a ser uma outra coisa, um outro sentimento. Porque no geral eu escrevo coisas que sinto e penso a partir do instante. Eu fico sempre achando que se corrijo passa passa ser uma espécie de fraude d sentidos. E claro que isso é só uma viagem, mas eu viajo nisso.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

Atualmente eu tenho me encatado cada vez mais pelo Livro “O Amor Não Está “ de Jovina Souza. É um livro inspirador e tem muito a ver com tudo que eu tenho vivido na atualidade.


A orfandade das fotos

Crônica de Joaquim Cesário de Mello — Temo o triste destino das minhas fotos. Daquele menino de ondulados cabelos ainda louros salpicados de laquê, posando com um olhar distante como quem assustado olha além da infância. Só eu sei daquele menino e de suas confidências e de todos seus esconderijos e mistérios. Só eu sei e ninguém mais. O que será dele naquele retrato quando eu não mais viver? Morrerá o menino comigo, restando a foto que nenhuma pessoa mais olhará

Seja muito bem-vindo à Kuruma’tá, caríssimo conterrâneo do Recife! Dentre a bela seleção de poemas e crônicas que nos enviou, destacamos essa A orfandade das fotos, crônica com tema que muito nos interessa aqui na revista, a fotografia, e que é tratado com beleza nessas linhas.


Crônica de Joaquim Cesário de Mello

Qual a serventia de uma foto sem lembranças? De que valem aqueles rostos fotografados de um instante que não existe mais? Rostos desaparecidos da vida cujos olhares ressuscitavam o burburinho hoje silenciado pela distância da memória. De que servem estes rostos e estas fotos se elas não foram feitas para os mortos? Qual vivo se interessa pelos vestígios domésticos e corriqueiros do cotidiano murcho de uma geração remota? Porém elas ainda resistem empoeiradas em meio ao mofo dos fundos das gavetas. Quantas caixas de sapato não guardam resíduos de memória de um passado desvanecido de quem não existe mais? As caixas velhas de sapatos e o fundo das gavetas são o cemitério onde estão sepultados o que deixou de existir de quem deixou de existir. Triste é o destino das fotografias de um morto.

As fotos de um morto não me dizem nada. De nada sei o que sentia, pensava ou sonhava. Instantâneos de uma vida que não vivi, de juventudes e alegrias que não foram minhas, imagens indizíveis de migalhas de tempo em que eu não estava lá. Tudo é tão mudo e inerte nas fotos sem donos: fragmentos inanimados de uma vida invisível pelo esquecimento. São gravuras que só têm significado em função da vida daqueles que ali estão. As fotos sem o seu senhor são espectros que recusam deixar um mundo que não mais lhes pertence. Se essas fotos exalassem o aroma das flores teriam o odor dos cravos.

Fotos assim tão órfãs não trazem a dor da saudade ou a crueldade do rememorar da perda. São ocas e fúteis. Não se pode sentir a brisa dos ventos entre o assanhar dos cabelos nem o brilhar da paisagem nas retinas. De que lá sei eu daqueles abraços cujas mãos não se tocam mais, ou dos amores rompidos no chegar das horas posteriores? Ali devem ter desejos frustrados e anseios sumidos. Sorrisos que depois viraram lágrimas, e olhares que olham para quem não lhes olham mais.

Rostos opacos e obscuros. Semblantes gélidos e inanimados. Gestos petrificados. Flagrantes proscritos e extintos. Segredos desaparecidos para sempre, permanentemente. Por que, então, eles continuam ali a nos desafiar a eternidade com o registro desafiante de sua imutável finitude? Para que servem os retratos depois que vem a morte e o fim de tudo? Deveriam evaporar no exato segundo do falecer de seus senhorios. Não ficariam assim inúteis e não seriam apenas somente fotos.

Temo o triste destino das minhas fotos. Daquele menino de ondulados cabelos ainda louros salpicados de laquê, posando com um olhar distante como quem assustado olha além da infância. Só eu sei daquele menino e de suas confidências e de todos seus esconderijos e mistérios. Só eu sei e ninguém mais. O que será dele naquele retrato quando eu não mais viver? Morrerá o menino comigo, restando a foto que nenhuma pessoa mais olhará

Crédito da imagem: Autoria não identificada/Acervo Instituto Moreira Salles

Joaquim Cesário de Mello é psicólogo, psicoterapeuta e professor universitário, residente e domiciliado em Recife (PE). Em meados dos anos 1980 participou do Movimento de Escritores Independentes e foi colunista da Vida Crônica (1998 – 2002) do encarte JC Cultural do Jornal do Commercio (PE). Escritor e poeta, participou de várias antologias literárias, entre elas Nouveaux Brésils Fin de Sciècle (2000), Poesia Viva do Recife (CEPE, 1996) e Cronistas de Pernambuco (Carpe Diem, 2010), Poesia na Escola (Palavra e Arte, SP, 2021). Autor dos livros Dialética Terapeuta (Litoral/PE, 2003), A Alma Humana (Labrador/SP, 2018), A Psicologia nos Ditados Populares (Labrador/SP, 2020), A Vida Como Um Espanto (Labrador/SP. 2021) e No Cemitério das Nuvens (Folheando/2022).

No futuro, Crosby morre

Texto de Toinho Castro — Eu e Roberval costumávamos ouvir David Crosby , naqueles discos, Crosby, Stills & Nash e Déjà vú, esse com Neil Young. Era essa coisa meio hippie que a gente adorava. Lembro que assistimos, não sei se juntos ou separadamente, Woodstock no Teatro do Parque, numa sessão épica. Crosby morre e é disso que recordo.

Texto de Toinho Castro

Montagem de imagem do Google Street View com foto de Nasser

Eu e Roberval costumávamos ouvir David Crosby , naqueles discos, Crosby, Stills & Nash e Déjà vú, esse com Neil Young. Era essa coisa meio hippie que a gente adorava. Lembro que assistimos, não sei se juntos ou separadamente, Woodstock no Teatro do Parque, numa sessão épica. Crosby morre e é disso que recordo. Eu e Roberval ouvindo esses discos lá na Imbiribeira. Lembro do nosso amigo |Artur, que detestava toda “essa merda hippie”. A gente o amava, justamente por isso, porque ele não deixava por menos. Ouvíamos música no apartamento de Artur, o Sandinista, do Clash, que acabou nas minhas mãos, cheio de dedicatórias confusas… para acabar nas mãos de Pedro Siqueira, que não sabe da assombração que ronda o disco. Assombração de longas noites, de poesia e amizades e caminhos partidos, corações partidos. Agora mesmo Crosby toca aqui na vitrola, uma edição de Déjà vu, comprada por intermédio de outro amigo, o Leonardo Martins. Almost cut my hair, com todas aquelas guitarras e aqueles versos, meio bobos e belos…

When I finally get myself together
I’m going to get down in that sunny southern weather
And I’ll find a place inside to laugh
Separate the wheat from the chaff
I feel like I owe it To someone, yeah

Escuto e a Imbiribeira não volta. Não sei por onde anda artur, se vivo ou morto, pra me dizer pra parar de ouvir essa “merda hippie”. E o fato é que essas músicas me lembram Artur, o que é maravilhosamente irônico.

Da calçada na Monsenhor Tabosa, Toinho e Beval do passado me acenam, e estiram o dedo médio em minha direção, porque não precisam de mim como preciso deles. Porque logo mais chegarão Melque, Boca de Cabelo, Behind, Côio, Dipilique, que morreu, e Luisinho. Tipo, “foda-se, Toinho do futuro! No futuro Crosby morre!”.

PS. O amigo Fábio Fernandes sugeriu escrever um livro com o título No futuro, Crosby morre. Fica a dica pra vocês mesmo, Fábio, escreve esse livro!!

Independência Poética: Lorena Ribeiro

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA

Poeta de hoje: Lorena Ribeiro

Lorena Ribeiro é soteropolitana, graduada em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia e doutoranda em Língua e Cultura pela Universidade Federal da Bahia. Escritora, produz poesias, contos e literatura infantil. É idealizadora do projeto Passos entre Linhas (no Instagram e YouTube). Nele, tem como foco a divulgação de autores brasileiros (sobretudo da Bahia), principalmente autoras negras. É também idealizadora do projeto Lendo a Bahia (incluindo o clube de leitura de mesmo nome), coidealizadora do projeto de escrita criativa Entre Escritas e é uma das produtoras de conteúdo no Clã das Pretas. Em 2020, teve aprovado o projeto “Estações de Leitura: Acervo Móvel Literário de Escritoras Negras Baianas” pela Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc. Lorena tem publicado o livro infantil “O divertido glossário da Jana”, e faz parte de antologias de poesias e contos. É possível encontrar mais informações sobre a artista em: www.eulorenaribeiro.com

O que te inspirou a começar a escrever?

Eu comecei a escrever em diários, ainda na infância. Como eu sou uma pessoa que, desde sempre, guardo muito do que sinto pra mim, costumava expor no papel o que me angustiava e o que me chamava atenção. Do diário, passei a escrever em versos, conhecendo outros gêneros e estilos literários com as leituras, no passar dos anos.

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

Sento e choro. (risos – brincadeira)

Eu costumo não forçar a escrita. Fico observando pessoas e outras artes (filmes, séries, quadros), faço anotações que possam me inspirar futuramente e, quando estou com a cabeça mais centrada, volto a essas notas para tentar produzir algo. Eu não acredito que o exercício da escrita seja algo “de inspiração momentânea”; depende de exercício e constância, mas como eu não tenho ainda a literatura como profissão central, acabo priorizando outras demandas e deixando para escrever quando estou com foco.

Seu maior sonho como escritor(a)?

Creio ter sido realizado este ano: ter meu trabalho valorizado e ser convidada pra grande evento literário (como a Bienal do Livro Bahia). E eu espero que não pare por aqui. Vou criando novos sonhos para serem realizados. (risos)

Assunto preferido de escrever?

Racionalmente, não consigo pensar em um assunto específico, mas percebo em minhas poesias muito do cotidiano.

Um elogio para sua própria escrita?

Essa é difícil! Hum…
Acredito que minha poesia seja afetiva ♥

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Com poesia, tenho texto na “Estações de Leitura: Acervo Móvel Literário de Escritoras Negras Baianas – Antologia” (disponível gratuitamente, online) e na “Poetas Negras Brasileiras: uma antologia”. Livro solo, tenho publicado a obra infantil “O divertido glossário da Jana”.

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

O cotidiano em si, como um todo, é inspirador: cada detalhe, seja a disputa para encontrar um lugar pra sentar no metrô ou uma pessoa saltando de uma grande pedra, em direção ao mar, num dia de sol.

Qual dos seus poemas mais te define?

Citarei duas: “Desencontros” e “Esse cabelo”. Vocês podem ler aqui: https://www.ccrmetrobahia.com.br/media/2458/exposi%C3%A7%C3%A3o_prj_poesia-sobre-trilhos.pdf. Esse é um material que ficou exposto numa estação de metrô em Salvador, no início de 2020, na exposição Poesia sobre Trilhos.

Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

A parte mais fácil é talvez a primeira escrita, sem filtro, livre. Tem processos criativos que são mais gostosos que outros, mas sempre é difícil para mim mostrar meus textos para outras pessoas.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

Outra pergunta difícil: eu tenho muitas obras favoritas de muitas autoras queridas. Mas se é para escolher uma, indico “O caminho das estações”, de Jovina Souza.


O Rei no Café Palheta

Texto de Toinho Castro — Agora que Pelé se foi e já teve tudo quando era notícia, depoimento, frases soltas, entrevistas, artigos, curiosidades, eu posso escrever esse pequeno texto sobre meu encontro com o Rei do Futebol.

Texto de Toinho Castro


O Rei morreu, viva o rei.

Agora que Pelé se foi e já teve tudo quando era notícia, depoimento, frases soltas, entrevistas, artigos, curiosidades, eu posso escrever esse pequeno texto sobre meu encontro com o Rei do Futebol.

Devia ser os anos 70, pois recordo que eu era bem criança.

Estávamos eu e minha mãe, disso lembro bem, no Aeroporto dos Guararapes, no Recife. Era o passeio dos domingos, dos fins de semana. Ir para o aeroporto, ver os aviões, os peixes na praça Salgado Filho, projeto paisagístico, hoje sei, de Burle Marx, onde havia dois pirarucus enormes. Certa vez, um moço apreciando a majestade (reis também) dos animais, ali junto a nós, comentou com a minha mãe: Esse peixe é o Operário Cru. Isso virou uma piada interna na família, e até hoje não resisto a chamar qualquer pirarucu de operário cru.

Nesse dia estávamos eu e minha mãe, como eu disse, olhando a vitrine de uma lojinha que tinha aqueles carrinhos de ferro que eu amava, os Matchbox. Não eram baratos, mas volta e meia eu saía do aeroporto com um ou dois. O mesmo balcão emendava como balcão do tradicional Café Palheta, onde meu pai tomava café, onde certamente havia doces e refrigerante. O aeroporto era lindo e é triste pensar que aquilo foi destruído. Encantava-me a escadaria numa espécie de espiral, que levava ao segundo andar, onde havia um restaurante. Depois, com o esvaziamento econômico da cidade e do aeroporto, e das mudanças que estavam por vir, acabou por abrigar máquinas de fliperama. Cheguei a me divertir com elas.

Mas o assunto é o Rei Pelé, e nós, que éramos de sua corte. Da vitrine iluminada das miniaturas Matchbox, desviei o olhar e o vi. Eu vi o Rei, tomando seu café, ele também como numa vitrine iluminada, recostado ao balcão do Café Palheta. Eu era uma criança e não lembro o que pensei e minha mãe talvez conte uma história um pouco diferente. Em comum, temos na memória, certamente, os carrinhos Matchbox, o Café Palheta, o domingo no aeroporto. Pelé, possivelmente, teria sua própria versão desse encontro.

Minha mãe o abordou, comigo pela mão. Falaram, conversaram, talvez brevemente. Ela pegou o que tinha na carteira e o Rei acabou por assinar uma foto dos meus dois irmãos. Aquele assinatura que todos nós conhecemos.

Graça e Rossano, meu irmão, e o autógrafo do Rei Pelé

Depois disso dirigiu a mim sua atenção e sua gentileza. Ergueu-me, como à Taça Jules Rimet, e colocou-me no braço. Disse coisas que não lembro e me deu um beijo na bochecha. Devolveu-me ao chão, à realidade, com a mesma gentileza real. Talvez houvesse outros jogadores ali com ele, não recordo. Minha mãe, dona Lenira, saberá melhor que eu.

Minha primeira Copa do Mundo, pois participávamos das Copas tanto quando os jogadores, foi a de 1970, no México. Um episódio lendário da narrativa nacional, mas eu era somente uma criança de 3 pra 4 anos, em Fortaleza. Lembro do barulho dos fogos, da festa contínua. Não sei se havia TV ou se era tudo pelo rádio. Lembro de um acidente com uma vizinha amiga, envolvendo fogos. Lembro do sangue, da confusão, azulejos brancos, de um hospital ou de uma cozinha. Brasil tricampeão, algo que não tinha significado pra mim.

Anos depois, não sei quantos, Pelé no aeroporto, no Café Palheta, me colocando no braço. O que isso faz de mim? Uma personagem dessa história de gols, vitórias, contradições demasiado humanas, aviões decolando e aterrissando num sonho distante, em que pequenos carros Matchbox brilham numa vitrine, mais importantes que Pelé.

Tudo isso sumiu. Os carrinhos, o aeroporto, o balcão do Café Palheta. Pelé morreu. Restamos dali, eu e minha mãe, com lembranças diferentes. Versões com pequenos desvios, variáveis do que foi, do que pode ter sido, ou do que queríamos que fosse. Talvez, daquela tarde, o próprio Pelé recordasse apenas da xícara de café, da ansiedade do próximo voo ou do papo com o balconista sobre uma partida de futebol.

A foto dos meus irmãos, ornada pela sua caligrafia esferográfica, é a Pedra de Roseta de toda essa história, porque todo o registro daquilo que vivemos precisa ser encontrado por alguém no futuro, alguém que não sabe do que se trata.

PS. Sempre me frustrou que a foto não fosse minha. Por outro lado sempre me alegrou que meus irmãos participaram, de algum modo, desse encontro.


A promessa

Bem-vindo à Kuruma’tá, Fábio Gonçalves, com esse texto delicioso, que fala de fé, de resistência, ou será teimosia? Crônica da vida miúda que se agiganta quando olhada de perto. Vem de Minas, esse sopro.

Texto de Fábio Gonçalves


“A Adoração dos Magos”, de Domingos Sequeira (1828)

Era festa de Santos Reis no pequeno distrito de Água Boa, lugarzinho pitoresco e de clima fresco, fincado no topo de uma verde e calma colina donde se tem, até hoje, uma vista alegre.

A cidadezinha calma, serena e tranquila, atraía todos, de diversos cantos, para as costumeiras homenagens aos Três Reis Magos, padroeiros do lugar.

Feito uma moça bonita que se apronta inteira em dia de festa para ver moço bonito, preparou-se toda, com fitas e cores para receber gente de tudo quanto é canto, que cismou de encontrar aqui o Menino de Belém.”A Adoração dos Magos”, de Domingos Sequeira

Militante ainda jovem na Igreja, eu aguardava, no interior da nave, por um grupo de jovens que viria preparar, comigo, a liturgia de uma das costumeiras missas da tradicional festa. Sentado num dos últimos bancos, olhava, displicentemente, o movimento dos transeuntes lá embaixo, na praça. Meu olhar se perdia no ir e vir dos fiéis que se aglomeravam diante da capela.

De repente, adentra a igreja, um senhor magrinho, de ares rurais, testa franzida pela difícil lida na roça, entre apressado e preocupado e caminha pelo corredor central, aproximando-se do altar. Tira seu chapéu de massa, apoia-o sobre o peito, dobra os joelhos com dificuldade e faz uma piedosa reverência diante do altar principal.
Vendo-me ali, aproximou-se, timidamente e disse-me:

__ Óia, esse minino. Eu queria pagar uma promessa que fiz pra Santos Reis!

Era costume pagar promessas, depositando aos pés do santo milagreiro, algumas cédulas de dinheiro, como se o santo cobrasse pelo serviço, gesto que ainda hoje perdura, no intuito de agradecer alguma bênção.

— O senhor fique à vontade. — Orientei-lhe.

Ele procurou com os olhos as imagens dos Três Reis Magos. Percorreu com suas cansadas pupilas todos os altares, até parar sobre o nicho onde, certamente, estariam os Santos Reis. Não os encontrou.
Uma ruga de preocupação se desenhou na sua testa, marcada pela dureza da vida e pelos sacrifícios cotidianos.

Solícito e, percebendo a aflição daquela pobre alma, informei-lhe que as imagens dos Santos Reis não se encontravam mais no interior da igreja, pois foram roubadas a algum tempo por algum meliante que nada entende de promessas nem da boa fé dessa gente. A palidez daquele senhor me comoveu. Ele, por sua vez, indignado, indagou:

— Ora, como vou pagar minha promessa se os santos pra quem eu prometi não estão mais aí?

Expliquei-lhe, calmamente, que poderia deixar o dinheiro diante de qualquer altar, afinal, onde quer que ele depositasse a sua doação, ela serviria mesmo era para ajudar nas obras da Igreja.

Ele continuava irredutível e eu percebi o seu desapontamento. Era como se ele tivesse que pagar uma dívida à outra pessoa com quem não tinha feito nenhum trato. Sua consciência não estava tranquila.
Tentando resolver aquele impasse entre o fiel e o santo (que por sinal era um trio), e querendo promover a paz e a concórdia entre Deus e o homem, disse-lhe:

— Seu Sebastião, como o senhor deve ter percebido, as imagens dos Santos Reis, a quem o senhor prometeu retribuir alguma graça, não estão mais aí. Foram levadas sem permissão do padre, de Deus e muito menos delas. Isso, porém, não impede que o senhor pague a sua promessa. Pode fazê-lo diante da imagem do Sagrado Coração de Jesus. Afinal, Jesus é maior do que qualquer outro santo. É o chefe de todos. E é Ele o grande detentor de todas as graças.

Ele ouvia com atenção cada sílaba que eu pronunciava. Eu insistia para que ele se adaptasse à nova realidade para que tudo se resolvesse. Reforcei-lhe que Jesus estava aguardando.
Sem se convencer, ele retrucou:

— Eu não fiz promessa pra Nosso Senhor. Foi pra Santos Reis.

Um dos dons que Deus se esqueceu de me dar foi a paciência. Mas naquele dia, Deus apiedou-se de mim e abarrotou-me, da cabeça aos pés, de uma aura de calma e de harmonia tamanhas que nem se o teto desabasse inteiro sobre mim, tiraria da minha face, aquela feição de santinho de igreja barroca.

A testa daquele senhor franziu-se repetidas vezes. Ficou ali parado por alguns instantes, como se tentasse, por si só, resolver aquele terrível impasse.

Depois de alguns intermináveis minutos, ele se deu por vencido, mas não convencido. Percebi pelo semblante carregado o seu desapontamento.

Foi lá, e, meio contrariado, deixou sua prometida esmola aos pés desnudos da imagem do Sagrado Coração de Jesus.


FÁBIO GONÇALVES é mineiro do Distrito de Vista Alegre (Água Boa) no município de Claro dos Poções (MG). Professor dos anos Fundamental e Médio há mais de 30 anos, desenvolveu ao longo da vida e da carreira, um amor incondicional pela literatura, arte que defende enquanto escritor, poeta e professor de Língua Portuguesa da rede estadual de ensino.
É graduado em Letras pela PUC (Pontifícia Universidade Católica – MG), pós graduado em Supervisão e Orientação Educacional pela UNICID (Universidade Cidade de São Paulo) e Mestre em Letras, pela UNIMONTES (Universidade Estadual de Montes Claros – MG). É compositor, intérprete e vocalista de música sacra e popular, artista plástico, autor de textos teatrais para crianças e jovens, além de contador de histórias.
Trabalhou como marceneiro, fabricante de brinquedos, balconista de comércio e agente postal. Desde criança, desenvolveu o hábito da leitura, lendo clássicos infantis, poesia e prosa brasileira.
Em 2013 iniciou uma nova viagem ao mundo das letras, quando publicou o primeiro livro de poesias dedicado ao público infantil “E aí, Bicho?”, que lhe rendeu, além dos pequenos fãs, uma sala de leitura em Itaguaí, no Rio de Janeiro, chamada Sala de Leitura Professor Fábio Gonçalves. 
Publicou as obras: Cristais (Litteris Editora – 1999/RJ), Do Fundo do Poço (Kroart Editores – 2004/RJ), Anjo, Retratos de uma Paixão (Quártica – 2009/RJ) E aí, Bicho? (Litteris Editora – 2013/RJ), Lalá, a lagartinha mágica ( Litteris Editora – 2019/RJ). E em antologias: Antologia Poética Poesi Brasil (DGF Edições – 1999/BH), Antologia Poética Poesi Brasil (DGF Edições – 1999/BH) e Excelência Literária (Litteris Editora/RJ), Florilégio do Brasil (Editora Pindorama, 2021/SP) e Poesia Livre 2021 ( Vivara Editora Nacional/ PB), Antologia Sarau Live de Poetas 2022 ( Editora Delicatta /Belo Horizonte/MG).

Invidea

Texto de Ana Egito — O que o espelho não diz, fica grudado no aço, morto por dentro, envenenado e sarcástico, revela-se ao passar do tempo, bem depois de deposto o rei de seu posto, qual rainha mesmo que cautelosa, não entregou segredos, desgostos, em cartas perfumadas e loucas?

Texto de Ana Egito —

O que o espelho não diz, fica grudado no aço,  morto por dentro, envenenado e sarcástico,  revela-se ao passar do tempo, bem depois de deposto o rei de seu posto,  qual rainha mesmo que cautelosa, não entregou segredos, desgostos, em cartas perfumadas e loucas?

O belo, tão atraente, sucumbe até mesmo a vaidade, reluzente como sorriso de moça,  espanta a timidez dos quase inocentes, o que não se pode dizer dos incapazes e desafortunados da criatividade, essa sim, desarvora-se e renasce ainda mais intrigante, indecifrável, deixando os olhares distantes como um efeito estelar.

Magras, as palavras se desfazem em pensamentos curtos, enquanto as qualidades naturais de seres extraordinários,  fluem num córrego natural de dar tons à vida, em cores, muitas cores, as que acalmam, seduzem, hipnotizam, algumas poucas, escondem-se na pele do homem, do lobo.

Nunca santa, um tanto rebelde, curiosa e não sabedora de tantos dotes divinos, amadureci nos tapas de espelhos ao meu redor, na inveja dos fracos que sempre cercavam a varanda florida, o dom há de ser ofício, por isso resisto,  a maldade nunca foi plantada,  em meu pensamento não cabe o que não seja sorrisos, os meus, ficam comigo, mesmo sendo breve o milagre, o infinito me parece ajustável e definido como a chance sempre presente. Entre reis e rainhas, é minha a coroa, ora de flores, outras de espinhos, a gente aprende mesmo é vivendo, costurando retalhos, um dia, hei de escrever um livro.

Independência Poética: Mariana Madelinn

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA

Poeta de hoje: Mariana Madelinn

Poeta, escritora de ficção especulativa, baiana com orgulho e bacharel em Direito. Desde 2009 publica poesias na internet. A partir de 2018 começou a publicar de maneira independente na Amazon, tendo participações em antologias nas editoras Corvus, Maria Bonita e Cultura.

O que te inspirou a começar a escrever?

A minha escrita surge da necessidade de romper com o silenciamento tão comum à meninas negras. Começo a rascunhar minhas primeiras poesias aos 14 anos, quando encontro na escrita um lugar de acolhimento e pra me expressar livremente.

Sempre fui introvertida, então verbalizar sentimentos também era uma tarefa árdua. Mas na escrita havia conforto e ainda hoje é onde me entendo e me organizo melhor.

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

Gosto de consumir arte: ouvir músicas, ver filmes, assistir séries, visitar espaços culturais. Tudo isso me ajuda a ganhar fôlego pra produzir mais.

Também acredito que a vida é o maior combustível para a poesia. É preciso encará-la de peito e olhos bem abertos!

Seu maior sonho como escritor(a)?

Poder me dedicar inteiramente à minha arte. Seja produzindo, transformando a percepção dos leitores, ou ainda ajudando outras pessoas a se inserirem no mercado.

4 – Assunto preferido de escrever?

Gosto de visibilizar vivências. Seja debatendo os meus atravessamentos, seja abrindo discussões para outros que também estão à margem.

Um elogio para sua própria escrita?

Acho que sou honesta com o que produzo. Isso implica em descortinar também minhas vulnerabilidades, para além da minha força.

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Publico de maneira independente, na Amazon, desde 2018, então atualmente tenho 5 livros lá: A TRILHA: Recomeços (2018), As Inverdades Nunca Ditas (2019), A-mar: poemas e prosas sobre o sentir (2020), Pyra: ironias poéticas que queimam (2021), Você Pra Mim É Lucro (2022).

Também já participei de antologias com contos e poesias: Carcará: As Histórias Que Esqueceram de Contar (Editora Maria Bonita, 2020), Heroínas (Corvus, 2021), Poetas Negras Brasileiras (Editora de Cultura, selo ferina, 2021) e Farras Fantásticas (Corvus, 2021).

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

Minha escrita se orienta pelo debate acerca das minhas interseccionalidades. Gosto de propor novas possibilidades e abrir espaço para que pessoas com meus atravessamentos possam prosperar.

Tais reflexões são fruto da minha vivência e por isso, minhas inspirações estão no próprio cotidiano. Nas conversas com as pessoas na rua, no que vejo da janela do ônibus, nos obstáculos que encontro para acessar espaços etc.

Qual dos seus poemas mais te define?

Me considero uma pessoa em constante transformação e, portanto, não acredito em definições estáticas. Meus poemas tem retratos do que fui em um instante, do que busco, do que permanece…

Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

Escrever é orgânico, pra mim. É o meu lugar, como disse. Mas fazer-se palatável para os outros e decodificar essa linguagem para o público é sempre um desafio.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

Olhos D’água, de Conceição Evaristo é uma obra que segue me marcando. Pela poesia da autora, que considero muito elegante e pela inteligência nos assuntos abordados. São contos e crônicas sobre o cotidiano, com conflitos difíceis de digerir e ainda assim, uma belíssima leitura.


Um livro de Mariana Madelinn

Nome da obra?

Pyra: ironias poéticas que queimam.

Quando e em qual editora foi publicada?

Foi publicada de maneira independente, na Amazon, em Novembro de 2021 e em Novembro de 2022 ganhou uma publicação física pela Editora Pedregulho.

Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?

Esse livro fala sobre sentimentos difíceis de digerir. A pyra é a fogueira grega onde queimavam cadáveres, então no livro ela assume o símbolo de expurgo desses sentimentos. Ele tem uma voz mais irônica e sarcástica, além de debater assuntos incômodos.

As poesias são divididas em fases nessa obra? Se sim, o que te motivou a fazer isso?

Como é um livro temático e com uma estética muito própria, ele é dividido em 4 partes: Faísca, Brasa, Incêndios e Mortes Diárias.

Essas partes orientam os leitores acerca dos assuntos e intensidade dessa chama simbólica. É como eu também convido o leitor para imergir na experiência e proponho uma purificação, ao final da leitura.

O que te incentivou a escrever esse livro?

A poesia é uma constante na minha vida. Toda semana eu publico no meu IG @cantaravida e no Medium @mmadelinn, algumas dessas poesias.

O livro surge de uma curadoria feita no meu acervo e sempre para criar novos debates. Nesse caso: poesia aborda apenas o belo e romântico?

É possível destacar uma poesia que mais se assemelha a seu cotidiano?

Gosto de “Me Respeita”, porque é uma poesia que aborda a busca pela minha voz. A menina silenciada se enxergando e criando seu próprio espaço.

A sequência dos poemas conta alguma história?

Passeando pelos capítulos citados, o eulírico: se apresenta, mostra como interage com o seu entorno, o que lhe atormenta e então, reflete sobre o que permanece.

Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?

Tudo é político e o que produzo não foge disso. É uma mulher negra, bissexual e nordestina quem escreve. Isso se apresenta nas poesias, inevitavelmente. O lugar de onde falo é bem marcado e gosto que seja assim. Falo para as minhas e para criar conexão com elas.

Qual a relevância dos personagens implícitos/explícitos da obra?

A minha poesia tem um tom muito realista. Então não apresento personagens fictícios, nem faço menções diretas. Os pronomes são indefinidos, inclusive para que cada um interprete o sentido ao seu modo.

Qual a poesia mais marcante desse livro?

Não sei dizer se é a mais marcante, mas é a que durante as minhas apresentações em saraus causa mais efeito: Boa Noite, Cinderela.


Quatro mulheres e o cordel

O cordel, desde junho de 2020, observou uma mudança radical em seu território. Naquele mês, por conta de um malfadado incidente, caso que revelou para o Brasil todo o arsenal machista, misógino, patriarcal, nasceria o Movimento do Cordel Sem Machismo. Coletivos se articularam, cordelarias surgiram, as mulheres escreveram com sua dor a marca revolucionária da poesia. São Paulo conseguiu, com seus diversos coletivos, plantar a bandeira mais alta no sudeste. A seguir, quatro mulheres fazendo o cordel na pauliceia, sem desvarios.

Texto de Aderaldo Luciano

O cordel, desde junho de 2020, observou uma mudança radical em seu território. Naquele mês, por conta de um malfadado incidente, caso que revelou para o Brasil todo o arsenal machista, misógino, patriarcal, nasceria o Movimento do Cordel Sem Machismo. Coletivos se articularam, cordelarias surgiram, as mulheres escreveram com sua dor a marca revolucionária da poesia. São Paulo conseguiu, com seus diversos coletivos, plantar a bandeira mais alta no sudeste. A seguir, quatro mulheres fazendo o cordel na pauliceia, sem desvarios.

Maria Clara Psoa: Com a fauna em extinção, ariranha pede socorro.

Não é possível distinguir, ou sequestrar, a letra, a palavra política, do fazer poético quando se tem diante dos olhos, pertinho do ouvido, grudada ao corpo a obra ativista. Mas é possível identificar as fronteiras. Maria Clara Psoa ecoa o lar em que nasceu e se construiu pessoa e cidadã. Seus pais, Nando e Rosi, percorreram longas intempéries nos movimentos sindicais, nas bandeiras vermelhas da esquerda propositiva. Além do lastro político, herdou as sendas cordelísticas do pai. E, agora, segura os ventos dos folhetos.

Na Festa Literária Internacional de Paraty, na Casa do Cordel, lançou o poema Com a Fauna em Extinção, Ariranha Pede Socorro. Com ele, impresso em 18 páginas, se assenhora do ofício de cordelista. Preferindo as setilhas (ou septilhas, como deixa claro na ficha técnica), utiliza suas goivas e cinzéis para abrir delicadas glebas onde deita, com cuidado e zelo, rima, métrica, ritmo e matéria. Essa matéria, a tela escrita do cordel, é cavilosa, já anunciávamos. A cavilação cordelial requer mesmo o conhecimento e a compreensão de seus desígnios.

Maria Clara Psoa iniciou o percurso aos 15 anos. Acostumou-se a ouvir os versos dos mais velhos, a observar a arquitetura dos fundadores, a perceber os mundéus da profissão de poeta. Com os olhos mais abertos mirou num determinado ponto e sobreveio-lhe uma certeza: havia poucas mulheres no mundo do cordel. Ouviu o chamado e entregou-se aos coletivos, erguendo a voz feminista, reivindicando o quinhão subtraído desde muito tempo. Encontrou, nas Teodoras do Cordel, o megafone.

A produção desse folheto é, mais uma vez, a reunião do braço e do espírito das mulheres cordelísticas. Quando se fala em mulheres no cordel, saliente-se sua atuação como editoras (no caso a Cordelaria Castro, de Petrolina), xilogravadoras (aqui, Kelmara Castro), diagramação (com projeto de capa de Graciele Castro) e inscrição no coletivo das Teodoras, grupo de mulheres “artivistas” do cordel em São Paulo. Maria Clara Psoa está caminhando. Todo o caminho é de aprendizado e experimentação.

Maria Clara Psoa

Lu Vieira: Militante da arte

Aos poucos, com suas invenções, intervenções e escrita, Lu Vieira assumiu a vanguarda do cordel paulistano. Escreve, pinta, borda, brinca, canta e se diverte nas sextilhas do gênero poético. Vinda da região que o Brasil resolveu chamar de Nordeste, atropelando suas diferenças e particularidades, assuntou-se em uma especialização em Língua Portuguesa na PUC-SP, estudando as peculiaridades do texto cordelístico, formou coletivos, dialogou com poetas e editores, encontrou um caminho extenso em sua frente e nele fincou os pés, aproximou-lhe as mãos, concedeu-lhe a cabeça.

Fundadora do primeiro clube de leitura de cordel do mundo, ofereceu à Casa de Mario de Andrade a oportunidade de ser instituição pioneira nessa senda. Há aproximados dois anos desenvolve a estratégia de convidar autoras e autores para sessões de leitura e debate de suas obras. Na pandemia, abriu a porta digital para a participação de poetas e leitores de todo o Brasil. Ainda não satisfeita assumiu um lugar decisivo no coletivo Teodoras do Cordel, grupo de mulheres criadoras, criativas, agentes de leitura e de prática teatral, revolucionárias na estrada cordeliana.

Lu Vieira é uma máquina de invenções ético-estéticas. Com seu canal Ler Mulher, no Instagram, tem articulado o diálogo entre a literatura de traço feminino e feminista e leitoras e leitores dispostas e dispostos a fortalecer o movimento de poder das mulheres. Professora do município de São Paulo, não descuida dos espaços, dos territórios e das oportunidades e os preenche com projetos de leitura e escrita. Quando lançou Militante da Arte, poema em cordel, espécie de diário pandêmico, inscreveu-se definitivamente no livro colorido do cordel brasileiro.

Militante da Arte traz o quadro de desespero que os artistas enfrentaram durante a pandemia de Covid-19. Mas não só. É uma carta sensível produzida pela reflexão na reclusão. O emparedamento causou em Lucineide uma espécie de despertar silencioso e aflitivo. O refúgio, primeiro e acolhedor, foi o verso de sete sílabas do cordel. As estrofes do cordel, a construção do arranha-céu do cordel, o trabalhar diário de suas próprias fundações para permanecer firmada na ilha, Farol de Alexandria.

Lu Vieira

Dani Almeida: Maternagem

O cordel brasileiro foi fundado sobre o verso de 7 pés, conhecido como redondilha maior. Mas foi sua conjugação em estrofes de seis versos, com rimas soantes alternadas, que fundou-lhe a primeira sapata. O edifício cordelístico firmou-se em construção altaneira, espécie de fortaleza por onde o lirismo, a epopeia e o drama do povo articularam-se na guerrilha literária brasileira, fomentaram focos de revolta em vários estratos sociais, escreveram e publicaram milhares de páginas e estabeleceram-se como células fecundantes.

A instalação da Casa do Cordel na Flip de 2022, em Paraty, na Casa do Iphan, praça da matriz, dimensionou a intervenção poética e a potência criativa cordelísticas. Naquela programação lançaram-se para o mundo vários títulos, entre eles Maternagem em Sete Versos, de Dani Almeida, poeta pernambucana radicada em São Paulo. Não é um cordel em sua forma tradicional. Ao invés da sextilha, a autora abrigou-se na setilha, a estrofe de sete versos, para pensar a maternidade. E, na autonomia daquelas estrofes, criou algo coeso e poderoso.

Cada setilha apresenta ao leitor e à leitora reflexões sobre o caminhar da mulher-mãe. Seus conflitos e aproximações, as alegrias e os dissabores, a rede de sustentação afetiva e psicológica, o desafio da múltipla atenção, as noites de sono e o sono de dias, a presença dos familiares e do companheiro, a vida social e os muros sociais altos, pesados, apartadores com cacos de vidro no dorso e cerca eletrificada, o salário menor, o machismo e a misoginia, mazelas do dia-a-dia. Dani Almeida deu à luz no seio da pandemia, na hora profunda das mortes tantas.

Apresentando a diferença fulcral entre maternidade e maternagem, esse livro-jóia-arte reúne, em constelada távola, mulheres importantíssimas no estradar da autora. A capa arrebatadora de Danielle Longobardi, as ilustrações de Maria Rosa Caldas, a apresentação da ancestral Benedita De Lazari, prefácio de Lu Vieira e Edimaria, lâminas de luz das Teodoras, e a bênção de Dona Maria de Jesus Almeida, mãe da autora e guardiã da família. A última estrofe do livro, acróstico em MATERNAGEM, décima, oferece a condição de cordel promovido a Filosofia. Uma produção da MWG.

Dani Almeida

Graziela Barduco: O cu e o pau de selfie

As mulheres associadas em torno do Movimento Cordel Sem Machismo atravessaram a ponte pênsil, movediça e frágil para o protagonismo. Criaram coletivos, forjaram territórios, incendiaram cercas, derrubaram muros, chutaram a bunda de meia-dúzia de cabras mimizentos, se sentaram no trono e escreveram sua própria estrada. A demanda das poetas trouxe a instalação e instauração de cordelarias dirigidas por mulheres, casas publicadoras multiplicando o material gráfico feminista e feminino.

A Cordelaria Castro cavou sua sede em Petrolina, sertão pernambucano, margem esquerda do São Francisco, onde jorram vinho e mangas, letra e numeração, poesia e tempestade. Nessa semana, dia 19, dia das poetas do cordel, foi lançado em São Paulo o folheto O Cu e o Pau de Selfie, de Graziela Barduco, do forno daquela cordelaria. O título, como era esperado, chamou a atenção. Talvez não pelo binômio “Cu e Pau”, mas por ter saído da máquina intelectual feminina. Aos homens, tudo lhes foi pavimentado, sobretudo os caminhos do vocabulário alternativo popular fescenino.

Por trás desse título há uma crítica ferrenha e necessária ao mundo digital ensandecido, onde falsas celebridades buscam abrigo e os desinfluentes se arvoram à má influência. Graziela leu Umberto Eco: “as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis.” Citou Andy Warrol: “um dia, todos terão direito a seus 15 minutos de fama”. O encontro de um cu tímido e ensimesmado, abandonado por seu dono, maltratado, solitário, com um pau de selfie o transforma em celebridade instantânea. Em miúdos: o cordel de Graziela traduz de forma viva e lúdica a contemporaneidade delirante.

Algumas personas preferirão olhar para o título cabeludo, desculpem o trocadilho, do que constatar que Graziela Barduco domina a técnica, conhece os pormenores da arte cordelística, não se intimida diante da rima precisa e preciosa. A produção é de Graciele Castro, jacarandá nordestina. Capa em xilogravura digitalizada de Kelmara Castro, fortaleza piauiense. Apresentação de Varneci Nascimento, autarquia baiana. Como diz Cleusa Santo: a mulher, no cordel, não veio pra brincadeira. A autora faz parte dos coletivos Teodoras do Cordel e Mulherio das Letras.

Graziela Barduco

Brunno Vianna em prosa e verso

Recebemos hoje com alegria, na Kuruma’tá, o trabalho poético de Brunno Vianna. Historiador e escritor de versos, prosas e dramaturgias, Brunno acertou em cheio o inbox da Kuruma’tá com dois trabalhos muito bem-vindos, muito bonitos e significativos. Tê-los aqui é privilégio e certeza da força sem fim da poesia brasileira!


Recebemos hoje com alegria, na Kuruma’tá, o trabalho poético de Brunno Vianna. Historiador e escritor de versos, prosas e dramaturgias, Brunno acertou em cheio o inbox da Kuruma’tá com dois trabalhos muito bem-vindos, muito bonitos e significativos. Tê-los aqui é privilégio e certeza da força sem fim da poesia brasileira!


Esconderijo

O sol se esconde deles e eles, os meninos, se escondem do ventre. Venta entre eles. O esconderijo é de areia, terra e esperança. Tem poesia também, mas não é bonito o esconderijo. Hora de dormir. Um corpo aquece o outro enquanto as memórias tentam descansar. Uma memória aquece a outra e tenta esquecer. O dia seguinte será maior. Hora de acordar sem ter dormido. Hora de andar com os pés dormentes, com o corpo doente e sem direito a comprimido. Um destino diferente nos espera do outro lado da linha. Escrevo tentando alcançar o número máximo de caracteres. Caminho entre os frios das vírgulas. Coragem, menino, coragem! Grito incrédulo para, eles, para mim. Quem responde é um pássaro lá de fora. Há um pássaro, quem sabe, terra, quem sabe, gente. Deve haver. Eles, os meninos, caminham naquela direção. É lá mesmo! Veja como dá para sentir o cheiro de chuva, como venta mais forte. Será esse o Brasil que nos chama? Chego mais perto, no final da folha, no final da linha e vejo mais gente. Sim, uma fila de gente esperando o destino. A gente sente, a gente senta. Venta entre nós. Chegamos. Continuamos a esperar.

 


Elas

Elas moram no quilombo
Elas fazem tranças
Nos cabelos longos
Delas e das bonecas
Elas fazem tranças, elas fazem danças
Danças na Pedra do Sal
Fazem o Carnaval
Elas fazem a resistência
Fazem a existência de um país, que país
Elas alimentam, elas amamentam
Suas crianças e de outrem
Elas parem, elas partem
No navio deste Atlântico medo
Entoam, então, o cântico feito um amuleto
Contam de boca em boca a história do tempo.


Brunno Vianna é historiador e escritor de versos, prosas e dramaturgias. Venceu o Concurso Literário Machado de Assis, promovido pelo Jornal Extra do Rio de Janeiro, em 2008. Em 2016 venceu o Concurso de PoEsIa InStAnTâNea do Sarau do Bar e em 2022 conquistou o Prêmio Polo Cultural de Multiartes. Entre os textos que escreveu estão o conto Esconderijo e o poema Elas.