Amanhã, 22 de novembro, é aniversário da nossa querida demais cidade Niterói! São 446 anos sendo banhada pela Baía de Guanabara e pelo Oceano Atlântico, 446 de muita história, cultura, encontros e futuros. E dentro do ciclo de comemorações teremos, amanhã mesmo, esse espetáculo inédito, necessário, que é Violão Orixá, uma justa homenagem ao músico João de Aquino! [Dica da Kurtuma’tá]
João de Aquino – Foto: Cris Vicente Fotografia
Amanhã, 22 de novembro, é aniversário da nossa querida demais cidade Niterói! São 446 anos sendo banhada pela Baía de Guanabara e pelo Oceano Atlântico, 446 de muita história, cultura, encontros e futuros. E dentro do ciclo de comemorações teremos, amanhã mesmo, esse espetáculo inédito, necessário, que é Violão Orixá, uma justa homenagem ao músico João de Aquino!
Com participação confirmada de Monarco, Áurea Martins, Biro e Marcelle Motta e do percussionista Esguleba, a festa é, nas palavras de Gabriel de Aquino, filho de João e diretor musical do espetáculo,”uma celebração à vida e obra de um grande mestre que participou ativamente da história da música brasileira e tem um valor inestimável para a Cultura Nacional. Violão Orixá é uma celebração à natureza e suas particularidades, às forças que movem ventos, marés e principalmente à música!”.
Neto de maestro, primo de Baden Powell, o premiado João de Aquino tem um daqueles caminhos de brilhantismo na música brasileira, junto à outros mestres ele vem moldando a sonoridade do que há de melhor chegando no nossos ouvidos, coisas perenes, né?! Músico, arranjador, produtor… João é ponte entre conectando tradição e modernidade, conectando talentos e deixando sua assinatura no trabalho de muita gente boa!
Áurea Martins – Foto de Sergio Caddah
Monarco
Fica aqui essa dica imperdível da Kuruma’tá, que nos chegou via a querida Belmira Comunicação! Se organize aí na sua agenda e vá amanhã prestigiar o aniversário de Niterói e o nosso grande João de Aquino, com seu Violão Orixá, na novíssima Sala Nelson Pereira dos Santos, do Reserva Cultural!
VIOLÃO ORIXÁ – HOMENAGEM AO MESTRE JOÃO DE AQUINO
QUANDO: sexta-feira, 22 de novembro, às 20h ONDE: Sala Nelson Pereira dos Santos – Av. Visconde do Rio Branco, 880 , em São Domingos, Niterói QUANTO: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada) Confira o evento no Facebook!
Objetos transnetunianos podem ser vistos a corações nus
Quando acontecia o momento no qual as órbitas dos dois planetas se encontravam, vencendo a distância, o sistema todo entrava em festa. Ali, as características de cada um não eram mais diferenças, eram apenas arestas, que eram aparadas a cada translação. Tudo fazia sentido e, assim, ocorria naturalmente a lei da atração. Havia tanto movimento que a estrela, lá no meio, brilhava. Cada vez mais forte, feito ouro. Era possível ver no céu de um o brilho do outro. [Texto de Eduardo frota]
Eram dois planetas que orbitavam a mesma estrela, chamada MU-Zk – uma gigante amarela que, apesar de incandescente, era admiravelmente bela. E-41 e B-38 tinham as atmosferas bem parecidas, mas algumas características acentuadamente distintas.
A gravidade era uma delas. No planeta E-41 ela era tão imperceptível, que seus habitantes quase flutuavam, mais parecendo balões de hélio. Meio de transporte preferencial? Dirigível. Em B-38 não era que as pessoas não flutuassem, mas permaneciam mais tempo em contato com o solo. Meio de transporte? Helicóptero.
B-38 era um planeta em que fazia mais frio. Uma das indústrias que mais florescia por lá era a de edredons e cobertores, bem como a de chocolate quente e aquecedores. Em E-41 o calor era praticamente sentido a todo o instante, o que irritava, a longo prazo, todos os seus habitantes.
A gastronomia era o ponto alto de B-38. Os melhores restaurantes daquele sistema estelar, quiçá daquela galáxia (não podemos ter certeza porque não há estudos que apontem outros planetas habitáveis naquelas regiões longínquas), estavam lá. E-41 tinha mais livrarias, muitas delas, com estantes abarrotadas de livros de poesia.
Quando acontecia o momento no qual as órbitas dos dois planetas se encontravam, vencendo a distância, o sistema todo entrava em festa. Ali, as características de cada um não eram mais diferenças, eram apenas arestas, que eram aparadas a cada translação. Tudo fazia sentido e, assim, ocorria naturalmente a lei da atração. Havia tanto movimento que a estrela, lá no meio, brilhava. Cada vez mais forte, feito ouro. Era possível ver no céu de um o brilho do outro.
E quando se distanciavam novamente, os habitantes de B-38 deixavam marcas lindas e indeléveis nos habitantes de E-41 – e vice-versa.
Nos observatórios, calculavam os especialistas que era matematicamente provável a possibilidade dos núcleos dos dois planetas, numa dança cósmica que poderia ser vista com o auxílio de lunetas, se fundirem. Quanto tempo isso iria levar? Os astrônomos ainda não sabem dizer.
Foto: Maria Mitchell (second from left) and her students measure the Sun’s rotation from the movement of sunspots.Credit: ID 08.09.05, Archives & Special Coll., Vassar College Lib. Link > https://www.nature.com/articles/d41586-018-05458-6
“A música é meu Quilombo” | A vida raspando com Ludi Um
Ludi Um é aquela pessoa que muito admiro, tanto pelo seu trabalho artístico como também pela sua postura diante do mundo. Um sujeito aguerrido, com muita clareza em sua luta. Conheci Ludi na Universidade das Quebradas, uma iniciativa de rara beleza, capaz de agregar as mais sinceras vozes da periferia para mostrar que o centro está em toda parte, que talento, desejo e potência estão lá, na Maré, no Acari, no Dendê… e lá estava Ludi, nascido no Morro do Dendê, participando desse espaço de trocas com sagacidade. [Texto e entrevista Toinho Castro]
Ludi Um é aquela pessoa que muito admiro, tanto pelo seu trabalho artístico como também pela sua postura diante do mundo. Um sujeito aguerrido, com muita clareza em sua luta. Conheci Ludi na Universidade das Quebradas, uma iniciativa de rara beleza, capaz de agregar as mais sinceras vozes da periferia para mostrar que o centro está em toda parte, que talento, desejo e potência estão lá, na Maré, no Acari, no Dendê… e lá estava Ludi, nascido no Morro do Dendê, participando desse espaço de trocas com sagacidade.
Fomos aos poucos, sobretudo pela web, travando o que se chama de amizade e fiquei de olho nele, aguardando o lampejo de suas músicas. Recentemente vi que ele estava com um single apontando na esquina dos serviços de streaming e me liguei na expectativa. “Raspando” foi lançada na semana passada e veio carregada da poesia do amigo, que já me era familiar. Chegou tinindo, certeira em cada verso, traçando sem medo a vida desse cara de voz rouca e muita vontade política e poética.
Tive então a oportunidade de sentar com esse mestre lá na Casa Naara, no centro do Rio, espaço acolhedor e necessário numa cidade cada vez mais fechada e dividida e machucada. Conversamos e escutei mais do que falei, sobre os caminhos de Raspando e do disco que ela anuncia, um trabalho em processo de criação que logo mais despontará na atenção. A infância, a música, o aprendizado da poesia e da palavra e os muitos caminhos que desaguam nessa presença que Ludi, abraçado aos seus Orixás.
Agora vamos escutar essa conversa boa, devidamente gravada, enquanto esperamos ansiosos o disco Xangô|Oxum, que não tarda!
Não, o cenário não é desértico. É preciso procurar, ter curiosidade e parar de dizer que o mundo acabou, que a arte acabou, que o diálogo acabou. Trabalho de formiguinha, olhos e ouvidos abertos ao novo, que tá surgindo o tempo todo. Aí, quando a gente descobre uma voz, um olhar, certo gesto, que nos encanta, comove ou nos tira do sério, a gente precisa ter essa generosidade de compartilhar, de jogar uma luz boa em cima. Iluminar mesmo e trazer mais gente pra junto. [Dicade Toinho Castro]
Não, o cenário não é desértico. É preciso procurar, ter curiosidade e parar de dizer que o mundo acabou, que a arte acabou, que o diálogo acabou. Trabalho de formiguinha, olhos e ouvidos abertos ao novo, que tá surgindo o tempo todo. Aí, quando a gente descobre uma voz, um olhar, certo gesto, que nos encanta, comove ou nos tira do sério, a gente precisa ter essa generosidade de compartilhar, de jogar uma luz boa em cima. Iluminar mesmo e trazer mais gente pra junto.
Há tempos que me encantei com a escritora e ilustradora Aline Valek. Esse encantamento nasceu com um livro que ela escreveu e que descobri ao acaso das marés. Dei com esse título enquanto vasculhava a web em busca de novas leituras: As águas-vivas não sabem de si. Que bonito, né? Havia ali um chamamento… que sabia eu de mim? Prendi a respiração e mergulhei na história de Corina, mergulhadora profissional que participa do projeto de um laboratório submarino, nas profundidades de um mundo silencioso e escuro. Escrevi sobre o livro, aqui mesmo, na Kuruma’tá, tempos atrás: Nossa noção de tempo, espaço e do que é vida, do que é estar vivo, são desafiadas numa narrativa fluida e bem construída. Ir fundo para Corina não é simplesmente uma profissão mas uma maneira de enfrentar a si mesma, suas limitações e ansiedades. E Corina se move ainda atrelada a uma trama sobre a busca da vida, da inteligência… na verdade de uma outra inteligência na vertigem dos abismos marinhos. Haverá caminho? Haverá volta? Ficou com curiosidade? Essa é a ideia! Não perca tempo e mergulhe também nesse livro lindo.
Mas o que eu quero mesmo falar sobre outra descoberta os fazeres da Aline Valek: O Podcast Bobagens Imperdíveis, que ela está produzindo e apresentando, desde maio desse ano. Os episódios, que vão ao ar a cada 15 dias, são histórias curtas sobre assuntos interessantes, como diz a própria Aline. Trata-se de explorar o mundo; falar de ciência, arte, comunicação; conversar com pessoas inspiradoras; mergulhar no ser humano. Que convite fantástico! Eu aceito e convido você também.
O podcast conta, até agora, com 16 episódios, que versam sobre os mais diversos temas, como música, literatura, fotografia, culinária… com convidados que alimentam conversas muito boas, com uma leveza instigante e inteligência. Pô, é dar play e não desgrudar. E se encantar.
Fica aqui essa dica Kuruma’tá, fazendo conexão, via Aline Valek, comm muitos assuntos, muitos temos que nos enriquecem e fazem a gente pensar, coisa cada vez mais necessária nos dias atuais. Uma dica que nos diz que temos gente boa, temos boas vozes e espaço iluminados pela vontade de fazer, de reunir e de espalhar o que tem de melhor na nossa cultura, das nossas narrativas e encontros.
PS. Para a minha surpresa um dos episódios, Bobagens Imperdíveis #12: De Palmas para a Rússia, tem a participação de uma amigo muito querido, o caríssismo Chrysippo Aguiar, falando sobre sua experiência de estudar medicina na Rússia!
Quando penso no Recife
Esse poema, com alguma modificação, foi publicado no Lendário Livro, coletânea de poesia reunindo trabalhos meus e dessa turma de poetas: Aderaldo Luciano, Braulio Tavares, Nonato Gurgel, Numa Ciro e Otto Ferreira. É um poema que nasceu da minha agonia com a verticalização acirrada do Recife, do seu céu sangrado de arranha-céus. Mas onde resiste o Recife? resistirá? O que resta, que réstia da cidade onde cresci? Não é possível deter as transformações do mundo, mas não deveriam ser essas transformações uma força destrutiva. Recolho em versos minha indignação e espero que reverbere, para que reste um Recife digno do Capibaribe. [Poema de Toinho Castro]
Esse poema, com alguma modificação, foi publicado no Lendário Livro (Maio de 2017 – Editora Rubra), coletânea de poesia reunindo trabalhos meus e dessa turma de poetas: Aderaldo Luciano, Braulio Tavares, Nonato Gurgel, Numa Ciro e Otto Ferreira. É um poema que nasceu da minha agonia com a verticalização acirrada do Recife, do seu céu sangrado de arranha-céus.
Mas onde resiste o Recife? resistirá? O que resta, que réstia da cidade onde cresci? Bem sabemos que não é possível deter as transformações do mundo, mas não deveriam ser essas transformações uma força destrutiva. Recolho em versos minha indignação e espero que minha voz reverbere, para que reste um Recife digno do Capibaribe e seus cais.
Penso no Recife e já não há Recife. Mil anos se foram, mil anos derrubados; chão de assoalho, cobogó quebrado.
Recife de ninguém, quarenta andares de ninguém.
Pra quê tanto?
Recife se foi, sem horizonte; restou nem ponte. Só prédios pontiagudos, desalmados e edifícios.
Rio sem margem, tudo à margem e no centro o concreto, revestido disso e daquilo. Reboco e mal acabamento. E garagens, para os carros para os homens, de carro.
Mas em becos se esconde, Recife se esconde, de fininho, disfarçado, pés molhados, do rio.
Que rio?
Que se foi o rio, já foi. Tudo aterro, tudo enterro, cidade cheia, de lápides enormes, imensas, frágeis lápides de cidade morta, soterrada, enterrada, sepultada, sem memória, sem lembrança.
Somente rua, nem mesmo rua. Aurora sem aurora, cais sem cais e nunca, nunca mais.
Baú do Braulio: Kurt Vonnegut Jr.
Vonnegut tinha uma relação conflituosa com a literatura de ficção científica, cujos temas ele utilizava, mas a cuja comunidade afirmava não pertencer, talvez com medo de ser discriminado. Para uma crítica literária pretensiosa e desinformada, como é grande parte da norte-americana, o simples fato de alguém escrever dentro de determinado gênero cancela por antecipação qualquer possibilidade de boa literatura. [Texto de Braulio Tavares]
Em 11 de novembro de 1922, ano do centenário da independência do Brasil, ano da Semana de Arte Moderna, nascia o escritor americano Kurt Vonnegut Jr., autor de livros super importantes da ficção científica e da literatura contemporânea americana. Se vivo, Kurt faria hoje 97 anos. Logo mais é seu centenário e a gente vai comemorar até lá lendo mais dos seus livros.
Por ocasião da data mergulhamos no Baú do Braulio, o Mundo Fantasmo, e resgatamos esse texto que ele escreveu quando Kurt morreu, em abril de 2007.
O Baú do Braulio é uma seleção, ou como se diz hoje, uma curadoria de artigos que o poeta Braulio Tavares vem publicando ao longo dos anos no seu blog, o Mundo Fantasmo.
Li não sei onde que idade madura é quando começam a morrer os nossos ídolos, e velhice é quando começam a morrer nossos colegas de faculdade.
Ao que parece ainda estou no primeiro estágio. Morreu aos 84 anos Kurt Vonnegut Jr., escritor para quem o fato de estar vivo era uma mera casualidade, e que sempre encarou com desconfiança o planeta Terra, a humanidade que o habita e ele próprio.
Vonnegut tinha uma relação conflituosa com a literatura de ficção científica, cujos temas ele utilizava, mas a cuja comunidade afirmava não pertencer, talvez com medo de ser discriminado. Para uma crítica literária pretensiosa e desinformada, como é grande parte da norte-americana, o simples fato de alguém escrever dentro de determinado gênero cancela por antecipação qualquer possibilidade de boa literatura.
O grande clássico de ficção científica de Vonnegut, na opinião da crítica, é As Sereias de Titan. Pelo meu gosto pessoal, seu melhor livro é Matadouro 5, em que ele mistura o bombardeio americano a Dresden, na II Guerra Mundial (ao qual ele escapou, pois na época estava prisioneiro dos alemães nessa cidade), com as aventuras de Billy Pilgrim, um rapaz que é abduzido por extraterrestres e passa a viajar aleatoriamente no Tempo, fazendo um ping-pong caótico entre Passado, Presente e Futuro.
Vonnegut era sardônico, amargo, irascível, e, como muitos indivíduos portadores destes traços, dado a rasgos melodramáticos e sentimentais. Parecia-se muito (e não só fisicamente) com Mark Twain.
Seus livros de maior sucesso são muitos: Almoço dos Campeões, Pastelão, ou Solitário Nunca Mais, Galápagos, Hocus Pocus e vários outros. Tinha um estilo telegráfico, de frases curtas, bordões repetidos, personagens que se comportavam às vezes como personagens de histórias em quadrinhos. Algo no seu sarcasmo lembrava os filmes de Robert Altman e as HQs de Robert Crumb.
Vonnegut criticava com acidez a cultura-de-massas, como no conto “Harrison Bergeron”, em que um personagem é levemente mais inteligente que a média da população, e o Governo implanta um rádio-transmissor em seu cérebro, o qual emite um sinal ensurdecedor de 20 em 20 segundos, para impedir que ele use sua inteligência e obtenha vantagens. O sujeito está conversando e quando está prestes a ter uma idéia, o transmissor soa: “Seus pensamentos fugiram em pânico, como ladrões ouvindo um alarme”.
Vonnegut dizia que um leitor diante de uma página impressa é como um violinista diante de uma partitura: metade da obra está ali diante dele, e a outra metade cabe a ele executar no seu instrumento, que no caso do leitor é sua própria mente.
Vonnegut nunca desistiu. “O planeta está tentando se livrar de nós,” dizia ele. “Depois de duas Guerras Mundiais, e do Holocausto, e da Guerra dos Bálcãs, ele chegou à conclusão de que somos uns animais inviáveis”. Daí viriam os terremotos, tsunamis, e até mesmo a Aids. “É o sistema imunológico da Terra que está nos perseguindo”.
Escrito em 24 de abril de 2007 e publicado em Mundo Fantasmo em 28 de setembro de 2009
Escrita dos Fatos
No Manifesto da Poesia Pau Brasil, Oswald de Andrade diz que a ‘poesia existe nos fatos’. ‘Os fatos explicarão melhor os sentimentos; os fatos são tudo’, escreve Machado de Assis no livro Papéis Avulsos. Quem também demonstra um imensurável apreço pelos fatos, é o biógrafo Peter Gay, autor de Freud: uma vida para o nosso tempo: ‘a teoria está muito bem, mas isso não impede que os fatos existam. … a obediência… do cientista aos fatos não é a adversária, mas a fonte e a servidora da teoria’. [Texto de Nonato Gurgel]
No livro Rua de Mão Única, Walter Benjamin diz algo que considero um dos meus primeiros alumbramentos em torno da escritura dos fatos: ‘A construção da vida, no momento, está muito mais no poder de fatos que de convicções’. Quanto mais vivo, mais reverencio os fatos. Quanto mais vivo, mais preguiça tenho das falas e discursos convictos, articulados, mas com pouca ou nenhuma conexão efetiva com a concretude dos atos, dos fatos, sejam esses fatos referenciais ou estéticos ou subjetivos.
No Manifesto da Poesia Pau Brasil, Oswald de Andrade diz que a ‘poesia existe nos fatos’. ‘Os fatos explicarão melhor os sentimentos; os fatos são tudo’, escreve Machado de Assis no livro Papéis Avulsos. Quem também demonstra um imensurável apreço pelos fatos, é o biógrafo Peter Gay, autor de Freud: uma vida para o nosso tempo: ‘a teoria está muito bem, mas isso não impede que os fatos existam. … a obediência… do cientista aos fatos não é a adversária, mas a fonte e a servidora da teoria’.
Benjamin, Oswald, Machado, Freud. Lembro desses autores diante dos fatos – os dados divulgados pelo IBGE: 13,5 milhões de brasileiros abaixo da linha da pobreza, além dos quase 13 milhões de desempregados. Os 13,5 milhões de miseráveis formam um contingente superior à população de países como Bolívia, Grécia e Portugal. Impressiona a nossa letargia frente a números que remetem a fatos incontestáveis: desde que aconteceu o golpe, 1 milhão de brasileiros, por ano, desceu abaixo da linha de pobreza entre 2015 e 2018. Nesse mesmo contexto, um banqueiro do Itaú disse que nunca viu isso acontecer antes, ‘nunca lucramos tanto’.
Essa gana neoliberal lembra um samba antigo que tento parodiar: tá legal, eu aceito o argumento, mas não altere os fatos tanto assim. São quase 27 milhões de desempregados aflitos e de miseráveis. Todo mundo sabe que aflição e miséria juntas geram violências. Chega de milícias digitais. Aos fatos, Brasil, por que a foto do Bozo está no perfil do Whats App do acusado de matar Marielle? Quem matou Marielle?
#LulaLivre
+ poesia de outono azul a sul
A poesia vai e volta, ressurge do lago inesperada. Vem na onda que quebra ali na areia, logo à nossa frente. Publicada aqui, pela primeira vez, no último agosto, retorna à Revista Kuruma’tá a poesia viva de Calí Boreaz. Dizer que Calí tem voz própria, sensibilidade… é nada dizer. Não quero cair das armadilhas dos adjetivos e elogios sem rumo. Deixo então aqui a sua poesia, que diz mais e melhor. São poemas do livro outono de azul a sul, um livro de beleza rara, ao qual eu também retorno sempre.
A poesia vai e volta, ressurge do lago inesperada. Vem na onda que quebra ali na areia, logo à nossa frente. Publicada aqui, pela primeira vez, no último agosto, retorna à Revista Kuruma’tá a poesia viva de Calí Boreaz. Dizer que Calí tem voz própria, sensibilidade… é nada dizer. Não quero cair das armadilhas dos adjetivos e elogios sem rumo. Deixo então aqui a sua poesia, que diz mais e melhor. São poemas do livro outono de azul a sul, um livro de beleza rara, ao qual eu também retorno sempre.
…um roteiro poético de 8 anos de exílio — desejado — no Brasil, tendo como protagonistas o ser deslocado, e por isso mais atento, e mais disponível para o espanto, o artista traindo o burocrata, o amante que não consegue habitar o amor. é, essencialmente, sobre clandestinidade, sobre estar num lugar de erro — geográfico ou taquicárdico.
fortaleza
ver-te é o poema — a ver se te vê por tempo que chegue para te ver por trás dos olhos quando ver-te for invisível ver-te ouvir-te tocar-te imensa-me há vento em amar-te e isso dispersa-me sangue para um lado átomos para outro sou o desencontro do meu corpo clamando que o reúnas em maior beleza obra de arte amar-te na infinita-metragem dos turning points que afortalezam o saber-me tua ainda que no buraquinho discreto que faço na noite mas é nesse buraquinho que se acoita o ato-lua de me debruçar sobre o mundo e sobre o tempo — e me rir deles porque te conheci
fóton
isso era no tempo em que a luz de maio entrava pontualmente às quatro da tarde naquela avenida da Urca com aquela soberba dourada bêbeda de américa e se refratava nos recortes insuspeitos dos troncos dos coqueiros do alcatrão malemolente para finalmente se alojar em algum indício corpóreo de uma microexplosão e durava quatro minutos precisamente — a luz dos maios rotos e logo mais à frente o verde dos morros a respirar nuvens
isso era no tempo em que maio explodia e éramos jovens de nós — e logo esplendia pelos ralos tudo que escrevíamos com luz
pelos vidros
seguro o pequeno espelho e o lápis de olho. como os girassóis em sua amarelitude nos fazem cócegas líricas sem suspeitarmos que tanto viço pode ser não um desbunde de lourice — mas o grito de desespero pelo alimento-sol que rude lhes escapa num horizonte prateado como as cerejeiras em flor da minha terra podem estar nos entregando não poemas de primavera — mas os pomos extremos de uma agonia de uma maldição de imobilidade como a ilusão do canto dos pássaros que em verdade podem estar murmurando de fome de vertigem de vento enquanto em enlevo os escutamos assim eu traço beleza em meus olhos que não te podem ver mais
efeito kahlo kuleshov
estou imóvel suspeito que me tornei um quadro com debrum de areia pequenas conchas e pontas de cigarro à minha beira está o mar em março ele desatentamente cospe nos meus pés. e através de mim desamarro o vendaval morse / não escutes. ainda estou imóvel sobre mim-onde há uma constelação de abutres como uma indecisão boiando aos fundos de mim-quando há a ficção citadina inacessível entre o tempo da água e o destempero do asfalto a destempo tento — ainda — criar poesia / ay llorona / olhos negros / e crio silêncios. basaltos. silêncios a fazerem sala às tuas perguntas no horário nobre do despresente faço um esforço — me recorto dou um passo na via láctea meus pés imprimindo a marca de água e enquanto me arranco à imobilidade / as tuas perguntas / a cidade se petrifica basaltos. silêncios. solidões acústicas presas na véspera — ou num dia advindo a gastarem-se companhia no horário nobre da vida
que é a fina presença da morte agarro com força a escuridão e dou mais um passo o garoto de short azul na areia sentado ficou ali com o olhar perdido no desenho de um nome a cadeirante com o paninho de chão ao ar erguido ficou ali com a mão esperando os 4 reais o velho de 88 anos cansado demais ficou ali com a expressão do primeiro estremecimento do infarto passo por todos passando neutra por mim mesma vou direto à tua porta enquanto junto pedaços
em morse amar-se em março um amor se maio ainda for tempo
estou batendo. batendo: atendo?
hora de vagar
substrato da poesia uns restos de tarde ainda boiando sobre o precipício ansioso das horas a desoras um exílio costeiro na costura de um sonho sob o ato da poesia
(…)
dez horas um vago lume se acende e eu vagamente subo e trato da poesia
a(l)titude
o vento que se ouve dentro: invento
Mergulhe mais no universo de Calí Boreaz nos links:
Um dia, no entanto, outro visitante apareceu. Inesperado, lá estava ele sentado no parapeito. Vestia calça de linho crua, camisa branca com as mangas impecavelmente dobradas e sapatos lustrosamente brancos. Em uma das mãos, segurava um cigarro aceso que parecia nunca ser consumido pelo tempo, nem apagado pelo vento. Ele não dizia nada. Apenas olhava para ela com um semblante sereno, tranquilo, como se estivesse contentado em não receber atenção de ninguém. [Texto de Eduardo Frota]
A janela do apartamento era ampla, com as cortinas sempre abertas, deixando a luz do dia banhar a pequena sala e tocar o piano silencioso que ficava em um dos cantos do cômodo. Houve um tempo em que todas as manhãs, do alto do sexto andar, ela se debruçava no parapeito e observava o movimento lá embaixo. Depois, abria o piano e tocava a valsa que compôs aos 15 anos de idade para o namorado, que mais tarde viraria seu cônjuge, que muito mais tarde faria o passamento deixando-a saudosa.
O processo de senilidade se instaurou de forma abrupta. Não chegava mais à janela, nem tocava no instrumento, agora já enclausurado pelo tempo. A janela, esta era aberta todos os dias pela acompanhante para que a luz continuasse banhando o recinto e para que o vento fizesse suas visitas diárias.
Um dia, no entanto, outro visitante apareceu. Inesperado, lá estava ele sentado no parapeito. Vestia calça de linho crua, camisa branca com as mangas impecavelmente dobradas e sapatos lustrosamente brancos. Em uma das mãos, segurava um cigarro aceso que parecia nunca ser consumido pelo tempo, nem apagado pelo vento. Ele não dizia nada. Apenas olhava para ela com um semblante sereno, tranquilo, como se estivesse contentado em não receber atenção de ninguém.
Ela pediu para que a acompanhante oferecesse café e bolo.
— Para quem? — Para aquele senhor de branco ali na janela.
No mesmo dia, as filhas foram informadas do acontecido. Explicaram a ela que não havia ninguém ali e que isso nem ao menos seria possível. Como o senhor de sapatos brancos teria subido os seis andares da fachada do prédio? Ela foi levada ao médico, que receitou alguns remédios. Contrariada, engoliu cápsulas coloridas, torcendo, no fundo, para que o visitante de branco voltasse no dia seguinte.
Na manhã que se seguiu, ele apareceu novamente, mas desta vez na janela do banheiro, minúscula, enquanto ela tomava banho. Ruborizada, pediu que ele virasse o rosto, ao que foi prontamente atendida. Sentia certa intimidade e por isso não o enxotou dali. Enquanto era secada pela cuidadora, pediu que fossem providenciados café e bolo
— Para quem? — Para aquele senhor de branco ali na janela.
As filhas começaram a ficar preocupadas com a recorrência do que acreditavam ser uma piora dos sintomas. O médico prescreveu outro medicamento. Ela engoliu mais cápsulas coloridas, mais contrariada do que nunca. Queria vê-lo novamente no dia seguinte e oferecer pelo menos café e bolo. Foi dormir ressabiada.
Quando acordou, ele estava na janela do quarto, de cigarro em punho, asseado e bem vestido. Ela chamou a cuidadora e pediu para que a mesma passasse um café, sem dizer que o visitante ali se encontrava. Para acompanhar, gostaria de um bolo. Assim foi atendida prontamente. Sozinha, colocou a bandeja ao lado dele, que sorriu. No entanto, antes mesmo que ele pudesse tocar no que lhe era oferecido, a cuidadora retirou a bandeja da janela e a colocou na mesa de jantar. Ela retrucou que isso era falta de educação com o visitante, que o café e o bolo não eram para ela.
— Para quem? — Para aquele senhor de branco ali na janela.
Durante algum tempo, talvez por conta do novo receituário médico, ela não mais o viu em nenhuma das janelas do apartamento. Na incapacidade de servi-lo como uma boa anfitriã, lembrou-se de ter guardado o antigo cinzeiro que seu finado e amado esposo usava todos os dias. Colocou-o delicadamente sobre o peitoril da janela da sala e se afastou, sem dizer uma palavra.
Em uma manhã de sol, na qual a luz banhava o piano no canto do cômodo, resolveu tocar aquela antiga valsa. Ao terminar a última nota, foi à janela debruçar-se para observar o movimento lá embaixo, algo que não fazia há tempos. A vida lá fora continuava, ocupada, a rua estava viva, movimentada. Olhou para o cinzeiro e percebeu que ali havia cinzas.
Sentou-se à mesa da sala de jantar e chamou a cuidadora. Pediu um café fresco e um pedaço de bolo. Comeu e bebeu, refestelada, em silêncio, enquanto as filhas eram informadas que, ao que parecia, ela havia decidido começar a fumar escondida aos 90 anos de idade.
Foto: Rita Hayworth em Gilda / Crédito: Alamy
Levando comigo a última estrela tropical – poemas de João Augusto
Ao longo de A última estrela tropical vamos reencontrando poetas, porque a poesia de João é um diálogo permanente com um panteão particular da poesia… Florbela Espanca, Orides Fontele, Maiakóvski, jorge de Lima! Não guiando sua mão mas possivelmente observando o evoluir de cada página, de cada poema-sonho. Assentindo o lirismo e uma linha de melancolia que a cada poema parece trespassar. Poemas-arquipélagos, feitos de versos que são como ilhas, algumas com escarpas vertiginosas. [Texto de Toinho Castro, sobre livro de João Augusto]
Sentado aqui, no meu canto de mudo em Vila Isabel, lendo esse livro lindo chamado A última estrela tropica – Volume 1: diálogos e sonho. Um livro de nome igualmente belo, desse poeta chamado João Augusto. Sendo sincero eu não sabia de João Augusto. Adoro como as coisas chegam até a Kuruma’tá. Nesse caso foi pelo messenger; uma voz amiga que soprou esse livro no meu ouvido, atiçou minha curiosidade e me abriu a porta para essa poesia que acabou, como toda boa poesia, por me surpreender.
Começa que o livro, o objeto livro, é uma beleza. Que edição bonita, bem cuidada, dessas que dá gosto ter nas mãos. Aí citações/epígrafes de Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto nos apontam o rumo dos sonhos que estamos a descerrar. É como um chamamento… Quando três poetas assim te chama, você vai.
E logo ali, uma página depois, chega João com seu verso que abre o livro: Não sei soletrar a palavra mundo/ Sem abrir nela uma rosa, uma infância. Eu também não sei, João! Será isso coisa de poeta? Uma conexão, uma lâmpada que se acende dentro da gente e nos guia através de um livro que nos cativa?
Ao longo de A última estrela tropical vamos reencontrando poetas, porque a poesia de João é um diálogo permanente com um panteão particular da poesia… Florbela Espanca, Orides Fontela, Maiakóvski, jorge de Lima! Não guiando sua mão mas possivelmente observando o evoluir de cada página, de cada poema-sonho. Assentindo o lirismo e uma linha de melancolia que a cada poema parece trespassar. Poemas-arquipélagos, feitos de versos que são como ilhas, algumas com escarpas vertiginosas.
Não vou aqui, pois como leitor não tenho esse desejo, destrinchar e explicar esses poemas que João põe no papel. Quando leio poesia me sinto não crítico, mas poeta também. Ao menos quando leio boa poesia. Peguei, pois, o livro e o carrego comigo, para os lugares onde vou, porque o livro de João me leva também a lugares. Leio:
A minha poesia nasce do que me emudece. E na mudez incontida, encontro o silêncio que me leva a outro sentido qualquer. Todo verso é uma forma de manipular distâncias. Estar perto do fim é estar longe de si. O homem será sempre o eterno começo.
Bebedouro, 1167 de janeiro de 2011
Poemas marcados com um GPS e datados me fazem viajar, no espaço e no tempo. Imagino Bebedouro, a cidade onde, no primeiro dia de 2011, um poema foi escrito e chegou até a minha atenção, quase nove anos depois. E assim a poesia percorre caminhos entre que a escreve e quem a lê. A última estrela tropical tem 50 poemas traçando esses caminhos, caminhos da alma, nesse livro que abre portas e janelas, como o vento.
Poesia, esse encontro. Fecho o livro sabendo que ele é circular e que outros poemas virão se inserir nesse círculo. Ponho o livro na bolsa e o retomo no ônibus indo para o centro da cidade. Converso com meu amigo Francisco Olivar, livreiro por 40 anos, com esse livro de poesia na cabeça e nas mãos. A cidade passa ao meu redor… São mais felizes os que enxergam na ausência, escreve o poeta. Levo esse verso comigo.