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Kuruma'tá | contra o desencanto

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Kuruma'tá | contra o desencanto

Tag: Eduardo Frota

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Venha dilacerar os sonhos que me cortam ao meio

Revista Kuruma'tá, 7 de janeiro de 202111 de janeiro de 2021

Você pode atirar todas essas lâminas em minha direção. Porém, se os seus olhos precisam estar vendados, por favor, deixe-me manter a boca bem aberta – ela pediu, a ajudante do atirador de facas.

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Porque todos os malditos algoritmos levam à mesma descoberta

Revista Kuruma'tá, 16 de dezembro de 202031 de dezembro de 2020

Mãe, eu descobri algo e agora sinto que preciso contar a você: eu estou triste. Como o dia em que me deixaram na escola, viraram as costas e foram embora. [Texto de Eduardo Frota]

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Não me solta se eu voltar pra casa com as mãos sujas de pólvora

Revista Kuruma'tá, 25 de novembro de 202029 de novembro de 2020

Eu me perdi aos quatro anos de idade em meio à multidão na areia, naquela manhã escaldante de sábado, segurando um picolé de chocolate na mão direita. Enquanto ele derretia e percorria dedos, palma e pulso, doce e gelado, algumas lágrimas, salgadas e mornas, desciam as bochechas feito alpinistas desistindo da montanha. [Texto de Eduardo Frota]

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O número mais perigoso do mundo é retorcer um coração

Revista Kuruma'tá, 16 de outubro de 202018 de outubro de 2020

Meu avô era o Homem Mais Forte do Mundo. Quem me contou foi a minha avó, que o conheceu ainda na tenra idade, quando ele fugiu com a cidade deixando pra trás toda a família circense. Dizia ela que os bíceps, tríceps e quadríceps dele já não davam mais conta do exaustivo e intenso intento diário de carregar tudo nas costas. E eram assim, por detrás da coxia, tremendo de frio com os músculos à mostra, que meu avô invocava o choro mais forte do mundo. [Texto de Eduardo Frota]

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Ainda que de olhos fechados você saberá onde eu estarei

Revista Kuruma'tá, 11 de setembro de 202012 de setembro de 2020

Por mais que fechemos os olhos porque o corpo se entrega ao desafio cego da rotina, sabemos que as nossas mãos vão se em pleno voo, no ar, bem acima das cortinas, no vazio dos olhares desconfiados de um respeitável público ávido pelo mútuo fracasso. E daí se ninguém aplaudir? O espetáculo do destino está em despistar o errante mesmo diante de um erro de cálculo. [Texto de Eduardo Frota]

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Sobre fazer casas de papel com mãos trêmulas

Revista Kuruma'tá, 11 de agosto de 202012 de agosto de 2020

Uma cidade qualquer, não importa. É mister saber que são três da madrugada e que, no canto do bar, encostada na parede mofada, há uma máquina daquelas de tocar músicas. Vai lá, pega uma moeda nos fundilhos dessa calça desalinhada e desbotada e escolhe uma. Deixa por minha conta a próxima rodada. [Texto de Eduardo Frota}

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De nada vale a um daltônico o quarto escuro

Revista Kuruma'tá, 20 de julho de 20204 de agosto de 2020

Porque o céu é azul. Não, isto não é uma pergunta. Porque você fica rubro quando deixa-se acometer pela ira. Os arcos das íris, no entanto, permanecem coloridos. Mas ele não pode ver as cores. Monocromático, multidolorido. Daltônico, o semáforo é sempre de um amarelado perigo. Por isso permanece no quarto escuro. Trancado pelo lado de dentro e pelado, com os olhos esbugalhados, de fora. Há somente tons de breu. [Texto de Eduardo Frota]

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Se não for a bomba, então será o dia seguinte

Revista Kuruma'tá, 3 de julho de 202028 de julho de 2020

Quando olharam para o céu e perceberam que aquele ponto escuro cortando o ar era uma bomba, houve pouco tempo para procurar abrigo. Havia sinais de que tudo corria, de que tudo perseguia o fluxo. Não levou uma hora, mas também não levou um minuto. Os segundos que se seguiram após o lançamento foram inclementemente mudos. Era possível ouvir as engrenagens dos relógios de pulso. O curso do tempo, a pausa para o autoindulto, um súbito arrebatamento, transes em súcubus. [Texto de Eduardo Frota]

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Sonhei com um mar que não era azul

Revista Kuruma'tá, 22 de maio de 202028 de julho de 2020

Eu tive um sonho noite passada. Era uma praia de águas esverdeadas. Quase deserta, como se fosse baixa temporada. Permanecia imóvel na faixa de areia, debaixo de um sol inclemente, observando as ondas se avolumando para além da arrebentação. Lá no fundo, havia uma pessoa. Não, não era possível ver o seu rosto. Mas eu sabia quem ela era, certamente. [Texto de Eduardo Frota]

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Para os que ainda estão em casa

Revista Kuruma'tá, 28 de abril de 20204 de maio de 2020

Da varanda, os versos ainda andam à espreita. Eis o que o escritor, à espera, observou sentado em seu trono – uma cadeira barata com armação de alumínio estrategicamente posicionada para que a correnteza não tornasse turva a vista que se desnudava diante de seus olhos. [Texto de Eduardo Frota]

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A Kuruma'tá é uma publicação da Místico Solimões
e da Rede Afetiva de Culturas

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