Onda

Depois de passar a vida fotografando surfistas em ação, admirando-os em sua fluidez e harmonia, um dia, entre um caldo e outro, esperando o surfista que esperava a onda perfeita, subitamente reparou na beleza que era a respiração do mar, e como a onda era a expressão máxima disso – o empuxo de mais de ¾ da superfície da Terra… [Texto de Terêncio Porto]

Texto de Terêncio Porto


Depois de passar a vida fotografando surfistas em ação, admirando-os em sua fluidez e harmonia, um dia, entre um caldo e outro, esperando o surfista que esperava a onda perfeita, subitamente reparou na beleza que era a respiração do mar, e como a onda era a expressão máxima disso – o empuxo de mais de ¾ da superfície da Terra, possivelmente um volume maior ainda, proporcionalmente, não saberia dizer, mas num átimo pode imaginar -, a pele aquosa se repuxando num extremo infindável, aquele todo conectado com todo mundo ao mesmo tempo, uma centelha de alinhamento total, um ressurgir em forma de energia, em forma de onda, o flow perfeito e cabal, uma cadência natural, quase aleatória ou randômica, o caos, que muitas vezes simplesmente não acontecia, morrendo como prenúncio, o movimento perfeito das marés e correntes que se entrepermeavam e despistavam, tão intermináveis que eram. E de repente o surfista dropou, e ele pode ver como o rasgar da onda e todo aquele afã acrobático em vencê-la na velocidade era senão um inconveniente a tanta beleza, e a partir daquele momento começou, sempre e sem parar, a fotografar apenas as ondas, sozinhas em sua imensidão, congeladas.

Gustave Courbet (French, 1819-1877). A Onda (La Vague), ca. 1869. Óleo sobre tela, 25 3/4 x 34 15/16 in. (65.4 x 88.7 cm). Brooklyn Museum, Gift of Mrs. Horace Havemeyer, 41.1256

Texto escrito sob a influência de Uma aprendizagem ou O Livro dos prazeres, da Clarice Lispector, e do Canal Woohoo.


A ilha perdida e reencontrada

Adentrei o reino da literatura com Maria José Dupré segurando a minha mão. Não que tenha sido dela o primeiro livro que li ou algo assim. Certamente foi o que primeiro me deu certa sensação de maravilhamento que só vim a conhecer com os livros, e que até hoje me acompanha. Creio que muitos leitores como eu, os nascidos nos anos 1960, podem afirmar o mesmo, pois crescemos todos ao sabor dos livros da Coleção Vaga-lume, lançada pela editora Ática em 1973. [texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Adentrei o reino da literatura com Maria José Dupré segurando a minha mão. Não que tenha sido dela o primeiro livro que li ou algo assim. Certamente foi o que primeiro me deu certa sensação de maravilhamento que só vim a conhecer com os livros, e que até hoje me acompanha. Creio que muitos leitores como eu, os nascidos nos anos 1960, podem afirmar o mesmo, pois crescemos todos ao sabor dos livros da Coleção Vaga-lume, lançada pela editora Ática em 1973.

A Vaga-lume, com seu perfil infanto juvenil, merece um texto só pra ela. Poucas publicações no Brasil foram tão cativantes, tão encantadoras. É incrível que hoje a gente olhe para a seleção de títulos da coleção e sinta que nada envelheceu, que os livros vão ao encontro de algo que está presente em qualquer geração, ainda que escondido sobas camadas de toda tecnologia e aplicativos e telas brilhantes a circular por aí. O menino de asas, de Homero Homem, O gigante de botas, de Ofélia e Narbal Fontes ou O escaravelho do diabo, de Lúcia Machado de Almeida, livro que me assombrou, não pela palavra Diabo,mas por escaravelho, que me parecia algo muito mais terrível.

Em meio aos quase cem obras da coleção estavam os livros de Maria José Dupré, e entre eles um clássico chamado A ilha perdida.


Enquanto uns tinham Júlio (Assim se escrevia na época, agora é Jules) Verne, eu tinha A ilha perdida. Mais que um livro, um refúgio. Eu que era menino urbano, que quando viajava de férias era para outra cidade, sintonizava minha respiração com a ideia de estar numa fazenda, com os primos, a conversa jogada fora, as pequenas aventuras, a noite enorme se abatendo sobre a mata em redor.

A ilha perdida, publicado pela editora Brasiliense em 1944, conta a história dos meninos Eduardo e Henrique e sua aventura na fazenda dos tios, em Taubaté. Só isso, para mim, já era o portal de um mundo mágico. Eu morava no Recife e Taubaté me parecia distante demais, um lugar onde eu nunca iria porque o raio de alcance do meu mundo era curto, abrangia no máximo o Rio Grande do Norte. Então Taubaté em si era um mistério e saber que ficava no Brasil e que ali podia acontecer uma aventura… isso era incrível. A fazenda, afastada da cidade, naturalmente, era cortada pelo rio Paraíba.

Ao atravessar a fazenda ele fazia uma grande curva para a direita e desaparecia atrás da mata. Mas, subindo-se ao morro mais alto da fazenda, tornava-se a avistá-lo a uns dois quilômetros de distância e nesse lugar, bem no meio do rio, via-se uma ilha que na fazenda chamavam de «Ilha Perdida». Solitária e verdejante parecia mesmo perdida entre as águas volumosas.

Há muitas lendas sobre a misteriosa ilha,sobre que bichos poderia abrigar ou se seria habitada. Que pessoa ou entidade solitária poderia viver ali. Eduardo e Henrique sonhavam com a ilha, com os planos mirabolantes de chegar até ela e desvendar suas veredas. A história acaba por nos levar com os dois meninos até ilha e lá, por conta de uma súbita enchente, os dois ficam preso e nós, os leitores ansiosos, presos com eles. Mas não estou aqui para contar a história, para dar spoiler de como os meninos tiveram que se virar na ilha enquanto o rio caudaloso os impedia de retornar para casa, ou do que lá descobriram.

Lembro dos títulos de Júlio Verne…. Viagem ao centro da terra, A volta ao mundo em 80 dias, 20 mil léguas submarinas, Cinco semanas num balão. Tudo tão enorme, vasto, tudo expandindo os domínios do homem e suas máquinas e sua ciência. Maria José Dupré nos levava para fazenda, para junto dos animais, em aventuras que perto das que o mestre francês engendrava, e que ela certamente leu, pareciam pequenas, mínimas. Mas eram nossas. Um brilho no cume da montanha, a ilha vislumbrada na distância, depois da curva do rio…essas imagens se materializavam como se fosse nossa vizinhança, logo ali, depois da esquina da rua Pampulha com a rua Itamaracá,a Imbiribeira, onde eu cresci.

Como eu disse no começo desse texto Maria José Dupré me pegou pela mão e me ensinou o amor pela leitura, o encantamento. Tenho essa recordação que não sei se é fabricada ou apropriada das histórias que ouvi da minha mãe. Certa vez, no caminho de Recife para Natal, para onde viajávamos de ônibus com frequência, a chuva forte que caía fez com que um rio que havia no caminho extrapolasse as próprias margens, selvagem, invadindo as ruas da cidadezinha próxima e os canaviais que se estendiam ao longo da estrada. A ponte havia caído e tivemos que cruzar para o outro lado numa espécie de barco ou canoa, que balançava no rio veloz e barrento, enquanto uma corda esticada de uma margem a outra servia de guia e segurança para o barqueiro. Lá nos aguardava o ônibus para seguir com a viagem sob a chuva. Isso me parecia uma aventura digna dos livros de Maria José Dupré. Vivida, inventada ou emprestada, essa era uma história que me fazia vibrar. Acima de mim Júlio Verne voava com seus foguetes e balões, sob as águas escuras talvez o Náutilos se esgueirasse. Mas era Maria José Dupré que abria o caminho naquele rio e contava aquela história.

Hoje, adulto, ainda me alimento desse encanto. Nas minhas viagens de ônibus ou avião, sempre que vejo um rio, uma ilha, me lembro da ilha perdida e penso que estou retornando para ela.

Obrigado, Maria José Dupré.


É incrível que seus primeiros livros tenham sido assinados como Senhora Leandro Dupré. Isso mesmo, com o nome do marido! Era uma época de profunda dominação masculina em todas as áreas, inclusive as artísticas. Hoje não precisamos desse senhor. Maria José Dupré é lembrada mesmo pelo seu talento, pela sua capacidade incrível de contar histórias, de narrar. Por ter, com seus livros, aberto portas que não se fecharam mais.


O vento alinhavou as entrelinhas de Maria

João nunca saberia, pois Maria havia deixado aberta uma janela, justamente a da cozinha. A ventania, como um poeta em agonia, tratou de se livrar do bilhete. Acostumado a ler o jornal matinal, adestrado a dobrar e desalinhar com avidez a seção de esporte e o noticiário policial, ele nunca colocara os olhos sobre Maria. [Texto de Eduardo Frota]

Texto de Eduardo Frota


Maria deixou um bilhete em cima da mesa da cozinha.

A sala de jantar, vazia. O quarto do casal, bagunçado. O banheiro, repleto de roupa suja. O corredor, tortuoso e escurecido. O sinteco, gasto. A poeira, voadiça. A casa em silêncio, como quem medita e contempla a si mesmo em busca de entendimento para aplacar o prurido provocado pelas perguntas. De dentro pra fora, era como se um suspiro a inquerisse, noite e dia.

O que lá dizia?

Bilhetes eram melhores que as epístolas, julgava Maria. Para quem sempre economizou palavras, para quem sempre largou os livros logo nas primeiras páginas, para quem tinha aquele antigo e detestado caderno de caligrafia, o bilhete se transformou em uma saída para tornar suas reflexões concisas.

Logo acima do piso de ladrilhos com desenhos geométricos quase que esculpidos pelo tempo, a mesa posta para o desjejum de uma pessoa, apenas: um copo virado de cabeça para baixo, um guardanapo dobrado, dois talheres e uma garrafa térmica com café requentado porque não havia tempo. Não havia tempo a perder em meio à derrocada das horas. Uma cadeira permanecia de pé. A outra estava virada com os pés para cima, feito um inseto alvejado por pesticida lutando pela vida.

O que lá dizia?

Não era um bilhete suicida, porque não havia a palavra adeus mesmo que seu mundo fosse cruel e uma despedida antecipada, desafiando a lei natural dos viventes, fosse crível. O remédio controlado permanecia na escrivaninha do quarto com o número correto de drágeas que deveriam ser ingeridas até a necessidade de uma nova receita médica. Não era afeita ao álcool, nem ao fumo – talvez às seringas, apesar de nunca ter acreditado em heroínas.

Não era um bilhete de quem tivesse ido à padaria comprar queijo prato e presunto para o lanche, pois a geladeira estava abastecida o suficiente para refeições futuras. Bastava olhar as frutas para entender que um planejamento existia: fatias em porções harmônicas. As hortaliças jaziam higienizadas no fundo de uma gaveta. Potes, potinhos, diversos deles, pobres potes, organizados de uma maneira que não condizia com a Maria desalinhada do dia a dia – como dizia o síndico do prédio e a vizinha.

Não era um bilhete de amor o de Maria porque ela simplesmente não amava ninguém, nem mesmo sabia desenhar um coração gestáltico com as duas metades em harmonia. É que faltava coordenação motora fina na vida de Maria. Apaixonada era pelas novelas, pelas novenas, pelos mocinhos e pelas donzelas. Torcia por finais, ainda que não fossem tão felizes assim. E se via no espelho, se arrepiava por inteiro, notava estar tão distante. Deitada na cama, aceitando a derrota, sentia-se plena e segura. Amarrada aos fios em cujas pontas prendiam-se seus sonhos, rogava pelo efeito ligeiro do fármaco que a conduziria ao sono.

E se palavra alguma tivesse sido escrita?

Não era um bilhete de loteria, pois Maria, pobrezinha, não tinha por hábito apostar no futuro – o seu e o de quem ou o que a cercava. Lembra-se dos vícios? Jamais ela jogou ou julgou quem assim fez, mesmo imaginando que o passaporte para a felicidade passava pela obrigatoriedade em transpor os limites impostos pelas quatro paredes do que chamava de lar. Ganhar dinheiro de nada adiantaria: aumentaria a largura da alvenaria, mas trancafiada em território submisso permaneceria, ela, observando a pungente vida apenas por uma fresta da janela.

Não era um bilhete de trem o que havia deixado Maria. Por ali não havia trilho, não havia ferrovia. O silvo do maquinista vibrava ao longe e chegava fraco demais até ela, dissipando-se no horizonte. A fumaça esbranquiçada da fornalha se assimilava a nuvens vistas de muito longe. Logo, encontrava as ideias encurraladas, os ideais admoestados na terra batida. Não havia saída nem pra rua nem pra Maria. As esquinas do passeio público com linhas obtusas, mal esquadrinhadas, de calçamentos esburacados e devaneios empoçados. A água parada, criando mosquito, Maria prostrada, perdendo o juízo.

Mas então o que lá dizia?

João nunca saberia, pois Maria havia deixado aberta uma janela, justamente a da cozinha. A ventania, como um poeta em agonia, tratou de se livrar do bilhete. Acostumado a ler o jornal matinal, adestrado a dobrar e desalinhar com avidez a seção de esporte e o noticiário policial, ele nunca colocara os olhos sobre Maria. Sobre o bilhete, a oportunidade faltaria. A primeira observação de João foi perceber a ausência de margarina. Amargo, desejava três ou quatro tragos de cafeína. Assim começava mais um dia.

O que ela sempre dizia:

“Um dia, João. Um dia…”

“O que é, Maria?” –

era o que ele dizia.

Antes de fechar a porta da casa e ganhar o caminho da labuta, ele notou o furo na calça que acabara de vestir. Em dois atos, os neurônios crepitavam produzindo fagulhas: pensou em agulha, pensou em linha. Quem alinhavaria a avaria? Enquanto isso, o bilhete ainda voava para longe, despercebido. As palavras agarradas a ele e cerzidas indelevelmente por entre linhas invisíveis. A casa finalmente vazia. Pior do que não saber o que lá o bilhete dizia, João era incapaz de ler nas entrelinhas de Maria.

Foto de Eduardo Frota

Pietá e seu Santo Sossego

O trio supera o desempenho de “Leve o que quiser”, que já era bem acima da média. Juliana, com voz linda, firme e afinada, cada vez mais destaca-se como uma das melhores intérpretes da música brasileira contemporânea; já Frederico e Rafael constroem caminhos musicais precisos, que dão ao Pietá uma sonoridade ao mesmo tempo surpreendente e aconchegante. [Texto de Jorge LZ]

Texto de Jorge LZ / Programa na Ponta da Agulha


Quatro anos depois do festejado “Leve o que quiser”, Juliana Linhares, Frederico Demarca e Rafael Lorga estão de volta com o segundo disco do Pietá – “Santo sossego”.

Nesta nova empreitada, o trio substituiu a pegada acústica do primeiro trabalho por uma sonoridade mais elétrica e mais contundente, lançando mão das guitarras e dos sintetizadores, totalmente em sintonia com o momento pelo qual passa o país… e é lindo ver o Pietá se posicionar de forma direta contra a evangelização feita por falsos profetas, misoginia, preconceito de gênero e de raça, corrupção, ascensão do neofascismo… enfim, contra o projeto de destruição de direitos que foi instituído. Mas, citando Che Guevara: “hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”… a poesia está presente e brilha através da performance do trio e também do repertório muito bem construído através de composições de Frederico Demarca com Claos Mozi, Iara Ferreira, Marcelo Fedrá e Renato Frazão, e também em parceria com Juliana Linhares e Rafael Lorga, como nos casos de “Oração pra Luzia”, “Virará” e “Mar de Sonhos”, canções espetaculares.

O trio supera o desempenho de “Leve o que quiser”, que já era bem acima da média. Juliana, com voz linda, firme e afinada, cada vez mais destaca-se como uma das melhores intérpretes da música brasileira contemporânea; já Frederico e Rafael constroem caminhos musicais precisos, que dão ao Pietá uma sonoridade ao mesmo tempo surpreendente e aconchegante.

“Santo sossego” foi produzido por Jr. Tostoi, um dos melhores e mais criativos produtores brasileiros, e contou com o reforço de Elisio Freitas, nas guitarras e viola, e Ivo Senra, nos sintetizadores. Participam do disco alguns nomes importantes do cenário contemporâneo, como Ilessi, Josyara, Khrystal, Lívia Nestrovski e Caio Prado.

Sem dúvida, “Santo sossego” é um grande disco, todos os ingredientes estão lá para que a receita dê certo, mas ele é muito mais que uma bem sucedida aventura artística… é um clamor para que se tenha atenção ao entorno, é uma convocação para que sejamos empáticos, é um chamado para que fiquemos unidos e assim lutemos para que os dias sejam mais justos.



Na ponta da agulha é um site parceiro do Kuruma’tá! Jorge LZ produz e apresenta o programa na Ponta da Agulha, na Rádio Graviola. Confira: napontadaagulha.ml


Uma fotografia #01

Chegar até a beira do mar, com a atração dessa luz que parece ser de uma lua muito cheia, superexposta. Mas que também pode ser o sol nascendo. Uma fotografia é pouco para falar desse mar, mas é o que temos. Há pontos luminosos que parecem flocos de neve flagrados por um flash e que, provavelmente, são defeitos da ampliação ou do negativo. Algo a ver com fungos que nasceram e morreram ali mesmo, na superfície do papel. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro

Chegar até a beira do mar, com a atração dessa luz que parece ser de uma lua muito cheia, superexposta. Mas que também pode ser o sol nascendo. Uma fotografia é pouco para falar desse mar, mas é o que temos. Há pontos luminosos que parecem flocos de neve flagrados por um flash e que, provavelmente, são defeitos da ampliação ou do negativo. Algo a ver com fungos que nasceram e morreram ali mesmo, na superfície do papel.

Quem quer que tenha feito essa foto, pode ter caminhado até as águas e molhado os pés, observando a onda aproximar-se e quebrar em espuma, um pouco antes de alcançar a areia.

Câmera na mão, feliz com uma possível bela foto, retornou. Para onde? Ou para quando? Ouvi falar, e você pode ter ouvido também, sobre a lenda de certa viajante do tempo cujo passatempo era tirar fotos com as câmeras da época que ela estivesse visitando. Então, antes de partir para uma nova viagem, ela revelava as fotografias e as deixava ali mesmo, em lugar qualquer. As fotos se misturavam a outras fotos, à vida das pessoas e se perdiam, sumiam no mundo.

E aí é que começa a verdadeira diversão dessa curiosa viajante. Lá no seu futuro, ela tenta reencontrar cada fotografia do seu percurso, visitando feiras, mercados de pulga, lojas de antiguidades e outras situações que o acaso posso proporcionar. E a cada foto reencontrada, uma alegria indescritível um reencontro. O cheiro do mar, do sal… a água nos pés. O sabor da aventura e os olhos cheios de lágrimas.


Foto de autor desconhecido, adquirida numa barraca da feira de antiguidades da Praça XV, no Rio de Janeiro. No verso, uma anotação feita a mão aponta que tenha sido tirada na praia de Areia preta, em Natal, no Rio Grande do Norte.


Pegando pesado!

A primeira pergunta que surge quando a gente bota pra tocar Onde há fumaça há fogo, novíssimo EP do Faces do Subúrbio é a seguinte: Como é que a gente ficou tanto tempo sem o som poderoso dessa banda? São 13 anos entre o último disco desses mestres do som pesado do Recife, Perito em Rima (2005), e a porrada na porta que se anuncia com essas cinco faixas que chegam aos nossos ouvidos. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Capa do novíssimo disco Onde há fumaça há fogo, do Faces do Subúrbio

Normalmente eu deixaria um texto assim para o parceiro Jorge LZ, do Programa Na Ponta da Agulha, que tem aqui na Kuruma’tá seu espaço para falar, com muito mais propriedade que eu, sobre as novidades sonoras do país! Mas… aqui o assunto é pessoal e afetivo, cabendo a mim, com alegria, escrever essas linhas que se seguem.

Era dezembro de 2018 e eu estava em casa, de bobeira, a milhas e milhas da Imbiribeira, lá no Recife. Eis que o zap blipa e é o parceiro Oni Silva, conectando lá da Cidade Maurícia para propor o irrecusável: escrever o texto sobre o novo disco que o pioneiro Faces do Subúrbio, grupo do qual é guitarrista, estava para lançar, batizado de Onde há fumaça há fogo. Como disse, tarefa irrecusável. Oni é amigo de longa data, dos tempos do ginasial, palavra essa que se perderá na obsolescência. Começamos a curtir rock’n’roll juntos, trocando uns discos e ideias. Movidos pela sensação da descoberta da melhor música do mundo, das amizades e por saber que a escola era somente algo que a gente tinha que aturar, algo a que precisaríamos sobreviver, escapar.

O tempo nos dirigiu em caminhos distintos e enquanto eu seguia as guitarras como ouvinte fervoroso, Oni empunhou sua própria guitarra, participando do cenário musical que se desenhou na cidade com louvor, até chegar ao peso pesado do Faces do Subúrbio, para trincar as paredes das salas de jantar pernambucanas…

(É nelas, 
mas de costas para o rio, 
que “as grandes famílias espirituais” da cidade 
chocam os ovos gordos 
de sua prosa. 
Na paz redonda das cozinhas, 
ei-las a revolver viciosamente 
seus caldeirões 
de preguiça viscosa).


— Trecho de O Cão sem plumas, de João Cabral de Melo Neto

Somente pela alegria de citar o Faces do Subúrbio e João Cabral no mesmo texto! E pensar que a poesia de Zé Brown se conecta com a de João Cabral por meio da latência do Capibaribe, do humano às suas margens, marginais, excluídos. Seus nomes podem mesmo até rimar num rap, embalados na guitarra sólida do parceiro Oni.

Eu e Oni, habitantes da Imbiribeira, cruzamos nossos caminhos novamente e seguimos honrando a memória rock’n’roll da nossa amizade que começou lá no Colégio Santa Bárbara.

Segue abaixo o que escrevi para essa banda histórica, que segue ela mesma escrevendo uma das grandes páginas da música de Pernambuco e do Brasil.


A primeira pergunta que surge quando a gente bota pra tocar Onde há fumaça há fogo, novíssimo EP do Faces do Subúrbio, é a seguinte: Como é que a gente ficou tanto tempo sem o som poderoso dessa banda? São 13 anos entre o último disco desses mestres do som pesado do Recife, Perito em Rima (2005), e a porrada na porta que se anuncia com essas cinco faixas que chegam aos nossos ouvidos. Mas bom é saber que todo esse tempo serviu para forjar um grande retorno, na hora em que o Brasil precisa dos versos de um poeta como Zé Brown, que escreveu todas as letras, e da sonoridade monstruosa desse pessoal que sabe o que está fazendo. E o que eles fazem, e muito bem, não é só música mas um chamamento à realidade. Nos primeiros versos de Onde há fumaça há fogo, música que abre o EP, Zé Brown já manda: É impressionante a falta de percepção / Século 21 não aprender essa lição.

E o que vem depois disso é lição atrás de lição, de como se faz um disco, de como não se perde o contato com as dores, conflitos e ansiedades da sua gente, de como o subúrbio mostra sua face, mostra a sua voz. Ouvi e ouvi de novo cada música e como quem cresceu nas quebradas do Recife, reconheço essa voz. E se ligue que as quebradas Brasil adentro estão conectadas, interligadas e compartilham suas vozes. Então o Faces do Subúrbio chega falando com geral, com os muitos centros que cada periferia tem. Zé Brown e Samuel Negão nos vocais, as guitarras de Oni e o baixo de Felipe Perez, e ainda Perna na bateria e DJ Beto na pick ups. Esse é o Faces que retorna pegando a gente pela consciência!

O EP abre com a música Onde há fumaça há fogo, que é a abertura perfeita. Chega com força e instrumental de respeito, mostrando que o Faces não é fumaça. É fogo aceso das palavras, e já é aí que a gente se toca da falta que a banda fazia! Em seguida vem a loteria de Atirador. Afiada e certeira, mostra que roleta russa da violência quem atira pode ser sempre a próxima vítima. Traz no meio da corrente sonora uma releitura da música Atirador, de Lula Queiroga, que participa nos vocais.

Aqui no Brasil também morre quem atira
Cuidado pra você não ficar na mira

Mal político é a terceira faixa que manda a real do labirinto sórdido das políticas do país. É quando a gente sente a força do Faces e a capacidade desse pessoal se conectar com a realidade de quem tá na rua. A música conta ainda com a Canibal, do Devotos, nos vocais. É quase como se agente estivesse no bar, na fila do ônibus, discutindo os desmando, sendo bombardeado pelo zap. O Ataque é Sem dó e sem pena, como a própria música fala. É o Faces tomando seu lugar, assumindo sem medo sua devida posição no cenário. Salve, DJ! E o EP encerra com Pinota, trazendo Pedro Ferreira na percussão e Nando Cordel nos vocais. É importante se ligar no que está à sua volta! E o Faces do Subúrbio está ligado, antenado, envolvido até o pescoço com o som pesado, o subúrbio, a poesia das ruas e becos e calçadas. E não pense que acabou. Apenas começou!

Faces do Subúrbio está de volta!


Onde há fumaça há fogo está disponível nas plataformas de streaming!


Nós, enfermos

Anticonvulsivante, antitérmico, anti-histamínico, ansiolítico, analgésico, anti-inflamatório, novalgina, codeína, morfina, antidepressivo, prednisona, soro fisiológico, metadona, fungicida, supositório de glicerina. Quimioterápico, homeopatia, terapia. O que não pode ser prescrito, nem deve ser manipulado, o que é curativo? O corpo aguenta a dose, retesa. Compaixão. Overdose dela. [Texto de Eduardo Frota]


E lá vamos nós com mais uma novíssima colaboração para nossa Revista Kuruma’tá. Chegou a vez do amigo e jornalista Eduardo Frota, que traz esse seu primeiro texto, de muitos que virão, que nos guia por entre as paredes dos hospitais e dos silêncios e barulhos da cabeça, dos pensamentos.

Texto de Eduardo Frota


I
Corredor de hospital e entrada de UTI são locais nos quais as potências de vida e morte se chocam de forma devastadora. Como dois trens em direções opostas. Ao maquinista, o controle. Ao enfermo, o descontrole: o bipe das máquinas, o ruído do ar-condicionado, o ranger das portas diante do entra-e-sai de gente. Como na plataforma, há um púlpito no qual o acento agudo das vozes em discussões ignóbeis ganha reverberação. O que deveria ser um solilóquio é amplificado e faz vibrar o ar ao redor. Barulho dói, diz o cartaz. Barulho dói.

II
Agora mesmo, nos confins do universo, milhões de estrelas nascem e morrem, cumprindo uma dança que nos escapa o compasso. Agora mesmo, dentro de cada um de nós, há células que nascem e morrem, cumprindo uma dança que nos escapa o compasso. Agora mesmo, ensaiamos o que dizer, o que falar, o que sentir. Escapamo-nos de nós mesmos. Não há compasso que desenhe um círculo perfeito.

III
Falta é arbitrada, machuca, é passível de punição. Produz um tipo de buraco no qual a matéria não se faz presente. Então entendemos que existe a ausência, esta sim etérea, flutuante, intangível, capaz de pairar sobre paragens distantes com a mesma lividez de sempre. Longe de ser o antônimo de presença, ausência é a sua permanência intacta, retilínea e uniforme, sem buracos.

IV
Há um relógio na parede de cada quarto de hospital. O mecanismo que impulsiona os ponteiros produz um ruído indecoroso. Trata-se da nossa necessidade em escalonar compassos milimetricamente. O tempo é seccionado por nós mesmos, aqueles que ainda não descobriram como retardar a ação do tempo em nós mesmos. Os relógios nas paredes dos quartos de hospitais somos nós mesmos. É um escárnio sutil que avilta nossos fantasmas. E cantam: não temos mais o tempo que passou.

THE MEDICAL SERVICES ON THE HOME FRONT, 1914-1918 (Q 18932) An operating theatre at the Royal Naval Hospital, Chatham. Copyright: © IWM. Original Source: http://www.iwm.org.uk/collections/item/object/205253361

V
Anticonvulsivante, antitérmico, anti-histamínico, ansiolítico, analgésico, anti-inflamatório, novalgina, codeína, morfina, antidepressivo, prednisona, soro fisiológico, metadona, fungicida, supositório de glicerina. Quimioterápico, homeopatia, terapia. O que não pode ser prescrito, nem deve ser manipulado, o que é curativo? O corpo aguenta a dose, retesa. Compaixão. Overdose dela.

VI
Não há mais ruído possível, não há mais nada. Não há mais um rio possível de ser nomeado, porque já é outro a passar. Fecho os olhos e o que vejo é ensurdecedor. Fecho os olhos porque o coração sofre de uma arritmia severa. Há em mim um sopro, o ruído de um sopro, que só pode ser ouvido quando a água acumulada nos meus olhos vence a barragem e desce feito o rio. O nome, eu não sei. Não queria que se chamasse dor. Queria que se chamasse apenas saudade.

VII
A sala de espera é feito um purgatório particular das angústias de cada paciente e de cada acompanhante presente. Todos, utentes da vida. Há um acordo velado e tácito, que permite perfilar lado a lado, frente a frente, cada um de nós – com seus receios, suas angústias, suas buscas por esteios. A nossa sala de espera não tinha revistas de pontas amassadas com fotografias de sorrisos amarelados. Era mais como uma sala de estar. Uma sala de estar em nós mesmos. Nossa sala permanece lotada de convivas. Brindemos nossa sala, brindemos o nosso estar.

VIII
Há um estranho sentado à mesa da minha sala. Ele devora a comida enquanto fala, de boca cheia, sobre o passado. Ele se levanta após a sobremesa e, refastelado, com os dedos ainda melados, decora os corredores com doces memórias das quais não há passado. Vai embora à francesa, sem se despedir. Bate a porta com força e deixa a chave na portaria. Amanhã ele está de volta. Penso em trocar a fechadura. Desisto. É melhor tirar os espelhos das paredes da minha casa.

IX
A rotina é como o mar em dia de ventania, em noite de ressaca. O ponto distante no fim do horizonte é um barco à deriva. A maré que enche, a espuma que farfalha, a vala que mantém tudo no mesmo lugar. O amor é feito o pescador em tempos de labuta endurecida, a estibordo, emborcando, desafiando a turbidez das águas tempestuosas. O movimento das ondas, o sobe e desce. Uma hora a bombordo, outra hora a boreste. O farol, ainda que distante, a leste. Distante, mas certo como o instante em que, do alto, gritará o navegante: estamos todos salvos.

X
É como se tivessem cortado o telefone.
Silêncio.
Nem um chiado.
Boleto vencido.

É como se tivessem cortado o gás, a luz, a água, a internet.
Devia ter chiado, porra!
Boleto atrasado.

É como se tivessem me cortado.
Fala comigo!
Silêncio.
Vencido.


Eduardo Frota é jornalista, escritor, barista, cinéfilo e ex-bonito. Escreve de texto institucional a bilhetinho de amor. Escreveu um livro de parágrafos, publicado pela Editora Jaguatirica, entitulado “Aqui jazem romances“. Escreve sobre café para diversas publicações do setor. Escreve sobre jiu-jitsu para a Gracie Mag. Escreve sobre o que faria se ganhasse na Mega-Sena: compraria uma igreja evangélica e a transformaria em um cinema.


Iara Ira – Ancestralidade e contemporaneidade da força feminina

Partindo do cruzamento de linguagens artísticas, em especial a música e o teatro, Iara Ira configura-se em um espetáculo poderoso, que transborda poesia através das vozes de três grandes cantoras: Duda Brack, Julia Vargas e Juliana Linhares. Cada uma delas exerce um poder e cantar particulares e juntas cantam um Brasil múltiplo em uma atmosfera contundente e dominada pela força feminina. [Texto de Jorge LZ / Programa na Ponta da Agulha]

Texto de Jorge LZ / Programa na Ponta da Agulha


Foto: Francisco Costa / Divulgação

Partindo do cruzamento de linguagens artísticas, em especial a música e o teatro, Iara Ira configura-se em um espetáculo poderoso, que transborda poesia através das vozes de três grandes cantoras: Duda Brack, Julia Vargas e Juliana Linhares. Cada uma delas exerce um poder e cantar particulares e juntas cantam um Brasil múltiplo em uma atmosfera contundente e dominada pela força feminina.

A ideia inicial é do produtor Philippe Baptiste… à lenda de Iara, maravilhosa e tradicional figura do folclore brasileiro, é incorporado o elemento da Ira, tão presente no nosso contemporâneo. Philippe trouxe Caio Riscado para a direção artística e Thiago Amud para a direção musical.

O repertório é muito bem amarrado e cria uma unidade dramatúrgica, que nos dá a sensação das músicas terem sido feitas de encomenda para o espetáculo. Apenas uma delas, Iara Ira, de Frederico Demarca (da banda Pietá) e Renato Frazão (do Coletivo Chama), foi composta com esse intuito. O time de compositores é formado por nomes como Baden Powell, Paulo César Pinheiro, Carlos Careqa, Guinga,Thiago Amud e Ian Ramil, entre outros.

Se Caio dá o toque teatral para o espetáculo, Thiago Amud tem em suas mãos Elisio Freitas, Ivo Senra e Lourenço Vasconcellos, que interagem de forma esplêndida com Duda, Julia e Juliana.

Na próxima terça-feira, dia 28, teremos mais uma oportunidade de passarmos por essa experiência, no Rio de Janeiro. O espetáculo estará em cartaz no Teatro Ginástico.

Iara Ira é trabalho essencial, principalmente nesse Brasil atual, onde a diversidade, a cultura, o pensamento e a expressão artística são perseguidos.

Iara Ira é um verdadeiro grito pela liberdade de ser e estar.


FICHA TÉCNICA

Cantoras: Duda Brack, Júlia Vargas e Juliana Linhares
Banda: Elisio Freitas, Ivo Senra e Lourenço Dias de Vasconcellos

Direção Musical: Thiago Amud
Direção artística: Caio Riscado
Direção de arte e Cenário: Victor Hugo Mattos
Técnico de som: Arthur Ferreira e Dioclau Serrano
Mixagem de som: Guilherme Marques (Estúdio Frigideira)
Iluminação: Alessandro Boschini
Caracterização: Manuela Monteiro
Fotos: Francisco Costa
Programação Visual: Lucas Canavarro
Figurinos: FAVST e WASABI
Idealização e Direção de produção: Philippe Baptiste (Areia Produções Musicais)
Assistente de produção: Lia Sarno e Bel Flaksman

SERVIÇO
Data: 28/05
Horário: 19h (cheguem cedo!!)
Ingressos:
R$ 30 (inteira)
R$ 15 (para jovens até 21 anos, estudantes, maiores de 60 anos e com a doação de 1KG de alimento não perecível)
R$ 7,50 (associado Sesc)

Teatro Sesc Ginástico
Endereço: Av. Graça Aranha, 187, Centro / RJ
Tel: (21) 2279-4027


Na ponta da agulha é um site parceiro do Kuruma’tá! Jorge LZ produz e apresenta o programa na Ponta da Agulha, na Rádio Graviola. Confira: napontadaagulha.ml


Coincidência ou sincronicidade? Como encontrei Luiz Ruffato

Pois foi isso que aconteceu comigo. Uma coincidência significativa. Nunca tinha ouvido falar de Luiz Ruffato, até que meu marido, vendo uma entrevista dele na TV, resolveu comprar um de seus livros, Eles eram muitos cavalos. Quando acabou de ler, me recomendou: você deveria ler esse livro, lembra um pouco o estilo do Sandro (William Junqueira), principalmente a liberdade da forma, uma coisa muito singular, você tem que ler. [Texto de Adriana Nolasco]

Texto de Adriana Nolasco


Coincidências podem nada significar, mas são uma espécie de mágica. Talvez seja o caso de chamar de sincronicidade, conceito desenvolvido pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, fundador da psicologia analítica, utilizado para definir acontecimentos que se relacionam não por relação de causa e consequência, mas sim de significado. A sincronicidade é também referida por Jung como “coincidência significativa”.

Pois foi isso que aconteceu comigo. Uma coincidência significativa. Nunca tinha ouvido falar de Luiz Ruffato, até que meu marido, vendo uma entrevista dele na TV, resolveu comprar um de seus livros, Eles eram muitos cavalos. Quando acabou de ler, me recomendou: você deveria ler esse livro, lembra um pouco o estilo do Sandro (William Junqueira), principalmente a liberdade da forma, uma coisa muito singular, você tem que ler (essa última frase foi repetida muitas vezes). Passadas algumas semanas, depois de acabar a leitura de Ninguém precisa acreditar em mim, do Juan Pablo Villalobos, outro dos meus escritores contemporâneos preferidos, me vi naquele momento “o que ler agora?” e resolvi embarcar na sugestão, sem muito entusiasmo nem muita expectativa, mas curiosa com o porquê da insistência na sugestão. O que teria esse livro a ver comigo do ponto de vista de outra pessoa? E, pensando bem, começar as coisas sem expectativa pode ser bom, mantém o caminho aberto para o que der e vier. Descobri que Eles eram muito cavalos não tem nada de ordinário ou comum, muito pelo contrário, pertence à categoria dos extraordinários. E não é preciso esperar, essa sensação já chega desde a primeira página. Passado num único dia, em São Paulo, o livro dá voz a múltiplos personagens, que não se encontram, e suas respectivas histórias, uma cacofonia de vozes que procuram dar conta da brutalidade e da solidão do cotidiano numa cidade grande, que poderia ser qualquer uma, mas por acaso é São Paulo. Uma teia de dramas humanos narrados em formatos tão diversos que surpreendem, abarcando desde a narrativa clássica até um cardápio, um diálogo, a descrição dos livros de uma estante, uma carta, um horóscopo, o trecho de um anúncio de jornal, parágrafos que não se completam e outras maravilhas.

Mas a coincidência ou sincronicidade não acaba aí. Depois de terminar o livro e ficar absolutamente encantada (parece que fico encantada com facilidade, mas parece também que tenho dado sorte ultimamente) postei uma foto da capa, com os dizeres “livro incrível”, numa rede social. Poucos dias depois me chega uma mensagem de uma amiga, que faz doutorado numa universidade carioca, com o cartaz de um evento: um encontro com Luiz Ruffato no dia 9 de maio. A Universidade era a PUC RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), onde estudei Comunicação Social há muitos anos atrás. Fazia tempo que não voltava lá e até a véspera do evento fiquei presa na boa e velha balança libriana (meu ascendente) da indecisão: vou ou não vou? Ia ter que faltar um outro compromisso blá blá blá, mas a razão do meu coração votou a favor e me disse: Adriana, quando você vai ter outra oportunidade de ver esse cara falar? Faça alguma coisa diferente, mulher! E lá fui eu. Quinta-feira, 9 de maio, 9 da manhã, campus da universidade, sala K102, pros íntimos Edifício Kennedy 102, o famoso pilotis da PUC, e eu, espécie de ET, penetrei naquele velho novo mundo, cheio de gente da idade que um dia eu já tive quando estive ali. Foi uma viagem. Ou melhor, a viagem começou ali. Dei um rolé, subi pra sala 102, cheguei cedo, esperei no corredor e na hora que achei que já tinha gente o suficiente, entrei na sala. Ninguém me perguntou quem eu era nem o que eu tava fazendo ali. Ótimo, primeira barreira vencida, sou uma anônima feliz. Agora era Luiz Ruffato, que já estava ali faz tempo se misturando com os seres humanos comuns, na sua mais cativante mineirice. Pessoa deliciosamente simples, sem frescuras, sem afetações nem arrogâncias de grande escritor. Porque de fato ele é um grande escritor, estava me dando conta disso, mas continuava sendo uma pessoa como outra qualquer, além de simpático, acessível, sério, engraçado, brilhante e com cara de padre.

O bate-papo/palestra começa e, distraída que sou, descubro deslumbrada que aquela era a terceira edição do Cavalos Day, data comemorativa ao livro promovida pelo Departamento de Comunicação, todos os anos, no dia em que se passa o romance! Dia 9 de Maio! E eu não havia percebido. Atinei também que o livro que tinha acabado de ler, não era qualquer livro, e por isso a celebração do seu dia. Vencedor dos prêmios APCA e Machado de Assis (da Biblioteca Nacional), Eles eram muitos cavalos foi considerado pelo jornal O Globo, entre outros, como um dos dez melhores livros de ficção da década, e está publicado na França, Itália, Portugal, Alemanha, Colômbia, Argentina, Estados Unidos, Finlândia, Cuba e Macedônia. Ufa. Uma voz que fala com muitos.

Foto de Adriana Nolasco

Abro um parênteses aqui. Nesse exato momento, em que a vida das Universidades públicas brasileiras, e do ensino público em geral, está ameaçada, foi um bálsamo e um cutucão circular pelo campus da PUC, mesmo sabendo que é uma Universidade particular. O ar que se respira ali é diferente. Tem outra densidade e me fez lembrar da intensidade da experiência do acesso à educação universitária, mesmo sabendo que na época em que a frequentamos não temos muita noção disso. Estar ali foi fundamental pra reforçar a importância desse locais, principalmente das Universidades Públicas, que também frequentei nos meus cinco anos de curso de Medicina na UERJ. Às vezes é necessária uma experiência de aproximação pra que nos lembremos de determinados porquês. E nesse sentido é preciso lutar firmemente a favor da educação pública de qualidade nesse país. Ela é a nossa base. E o evento do qual estava participando me lembrou disso.

Voltando ao Ruffato, entre outras coisas, disse que escreve pra si mesmo e se as pessoas gostarem, melhor ainda, que não gosta de fotografia sua em livro, que conversa com seus personagens, que lhe ditam o que escrever em seguida, que sempre soube sobre o que escrever, sobre o trabalhador brasileiro, mas que não sabia como e que Eles eram muito cavalos é um experimento em torno disso. E mais importante que tudo: garantiu que chegou à conclusão de que a literatura salva sim, porque tinha feito isso por ele. Nascido em Cataguases, Minas Gerais, em 1961, nunca imaginou onde ia chegar. Foi pipoqueiro, caixa de botequim, operário têxtil, torneiro mecânico, jornalista, sócio de assessoria de imprensa, gerente de lanchonete, vendedor de livros autônomo e novamente jornalista antes de finalmente se dedicar à literatura. Formado em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (olha e educação pública aí), publicou vários livros entre os quais Estive em Lisboa e lembrei de você (série “Amores Expressos”), Eles eram muitos cavalos, Flores artificiais, De mim já nem se lembra, Inferno Provisório e a Cidade dorme, todos pela Companhia das Letras.

Para quem ficou curioso e quiser uma aproximação maior com o Luiz, que nem aquela que eu mencionei com as Universidades, vale assitir o discurso que ele fez na abertura da Feira do Livro de Frankfurt em 2013.

O vídeo em si virou uma peça aclamada e procurada pelo seu conteúdo brilhante, transparente e inspirador. Uma homenagem à literatura e um retrato de Brasil que permanece fresco e contundente. Impossível não se afetar.

No final, mais algumas surpresas. Luiz estava lançando, aqui no Rio de Janeiro, naquele dia, o tal do 9 de maio, seu mais recente livro O verão tardio! E ele estava disponível pra venda logo ali, na sala de aula! Não pensei duas vezes, levaria O verão tardio e Estive em Lisboa e lembrei de você (porque amo Lisboa) para casa. O livreiro me incentivou: vai lá pegar dedicatória, ele sempre dá. E, timidez à parte, lá fui eu. O resultado: abraço apertado e três livros autografados com dedicatórias impossíveis de ler. O mineirinho me avisou: teria que decifrar sozinha o que estava escrito ali. Não decifrei até agora.

Já no ônibus de volta, começo a ler Estive em Lisboa e lembrei de você e encontro mais uma “coincidência significativa”: o protagonista joga pelada num time de futebol chamado Primeiro de Abril, dia do meu aniversário. Obrigada Luiz Ruffato, te conhecer foi um presente.

[Assista aqui a palestra de Luiz Ruffato no Cavalos Day, no dia 09 de maio de 2018]


adriana nolasco escapou da medicina, com sofreguidão. tem uma produtora carambolas -, muito prima de coletivos poéticos de cunho anárquico. entre outros planos, faz filmes, cometendo em quase todas as funções, com especial apego à fornalha. além, cutuca as letras e seus avessos, muitas vezes com vertigem no céu da boca. adestra sombras em conluio com a sorte e garimpa flores com a mesma astúcia que encontra esbarrões. já lavou calçadas, especulou em bolsas obtusas, traficou marfim em continentes distantes. atualmente, pensa em não pensar, com muita dificuldade.

adriana publicou em 2018 o livro Até quase perto, pela editora Urutau.


Odisseias

Tia Nadir era uma tia da minha mãe, irmã da minha avó, a quem eu e meus irmãos havíamos acostumado a chamar também de tia. Minha recordação é de uma pessoa doce, carinhosa, a quem víamos bastante. Morando no Recife, longe de sua querida Natal, minha mãe tinha em tia Nadir a família mais próxima, mais imediata, e a visitávamos com agradável frequência, em sua casa na Vila Tamandaré. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro

Eu devia ter meus doze anos de idade. Vai saber! Talvez um pouco mais ou um pouco menos. Mas já gostava de ficção científica, seja por causa dos filmes e séries, talvez por pertencer à primeira geração nascida após o ser humano deixar sua primeira pegada na lua.

Tia Nadir, sua irmã e minha avó, Mariola, com Larissa, minha sobrinha no colo.

Tia Nadir era uma tia da minha mãe, irmã da minha avó, a quem eu e meus irmãos havíamos acostumado a chamar também de tia. Minha recordação é de uma pessoa doce, carinhosa, a quem víamos bastante. Morando no Recife, longe de sua querida Natal, minha mãe tinha em tia Nadir a família mais próxima, mais imediata, e a visitávamos com agradável frequência, em sua casa na Vila Tamandaré.

Apresentados esses dois fatos, vou juntá-los num episódio de infância que me marcou imensamente. Na verdade, mais que um episódio, uma frase. Estávamos na casa de tia Nadir, num dia de sol recifense, plantas pelo jardim e algumas flores. Havia o alarido dos adultos e suas conversas importantes, fofocas familiares, novidades e as miudezas do dia a dia alinhadas, afiadas e distribuídas de modo a fazer a conversa render toda uma tarde. Eu me reservava, sempre calado, ao meu canto de menino, desinteressado dos mais velhos, daquele mundo da família, seus problemas, alegrias e convenções.

Nas minhas mãos a raiz da minha distração absorta, um exemplar de 2001 – Uma odisseia no espaço, de Arthur C. Clarke. O livro desafiava os limites do meu entendimento das coisas, mas já naquele tempo eu tinha essa percepção, de que entender é um luxo ao qual, muitas vezes, não podemos nos dar. Ao aceitava, ao ler certos livros, um prazer que não vinha da compreensão, mas de outras áreas da vida. Talvez como o prazer de uma viagem, as impressões físicas, sensoriais do deslocamento de um carro, de um avião, de uma nave espacial.

Tia Nadir, no vai e vem de buscar água ou uma velha foto para alimentar alguma troca de recordações, passou por mim e viu que eu estava lendo. Focou no meu livro aberto e o tomou delicadamente das minhas mãos, virando algumas páginas e lendo o título silenciosamente. Depois de devolver-me o livro sentenciou:

— Eu também vivi uma odisseia!

A partir daí começou a narrar uma longa e aventurosa viagem de ônibus, nos tempos em que viagens de ônibus eram aventuras, odisseias. Quando atravessar os estados brasileiros era uma imensa noite estrada adentro, pequenos vilarejos, cidades esparsas, precariedades e o vento atravessando as janelas abertas dos ônibus, por dias. Não recordo os detalhes, nem mesmo o destino. São Paulo, talvez. Mas lembro a vívida sensação de acompanhá-la pelo Brasil naqueles minutos que ela dedicou a me contar sua história. Sua odisseia.

Agora mesmo, enquanto escrevo, me vem à mente a imagem do meu pai, num caminhão, cruzando fronteiras estaduais, o mesmo velho vento no rosto, nomeando e bebendo seu café em cidade inomináveis para mim, então uma criança com conhecimento limitado do tamanho do Brasil. Um inconcebível e velho Ulisses, nessa visão por certo romantizada de um pai tentando ganhar seu dinheiro e contar suas histórias. Que cantos de seria escutou enquanto as cargas brasileiras sacolejavam na carroceria de algum caminhão perdido no crepúsculo entre o Piauí e o Maranhão, rumo à cidade de Imperatriz, certamente.

Minha mãe aventureira também, com a avó, que arrastava as netas preferidas, de trem, no trilhos entre Natal e Recife. Suas memórias de quando choveu horrores e só via da janela do trem as pontas dos pés de cana nos canaviais que se perdiam até o horizonte. Mar de canas, mar de chuvas. O rio extrapolando o próprio leito e cobrindo os trilhos. À frente do trem, um rapaz com uma longa vara, tateando a escuridão das águas para checar se a viagem poderia continuar a cada metro viajado, enquanto a chuva caía.

Odisseias são essas jornadas de transformação interior e que testemunham o mundo em transformação. Tia Nadir, meu pai, minha mãe… o Brasil quase inteiro descortinado da janela de um ônibus, um caminhão, um trem. Da janela de um hotel em Tucuruí, de onde se vê a vida que se leva.

Cantem as sereias, quebrem sobre o convés as ondas do mar dos canaviais. Estamos amarrados ao mastro, para poder, ao fim, contar a história.