Na banca do Olivar

Saindo da estação Carioca do metrô do Rio de Janeiro, pela saída Rio Branco, a gente se depara com a cena cotidiana do mercado informal. Vendedores de produtos eletrônicos de origem e marcas duvidosas, raquetes para matar mosquitos, e toda sorte de coisas que mudam de uma temporada para outra; guarda-chuvas nos dias de chuva, leques no pico do verão. Mas entre as quinquilharias e o vai-e-vem dos apressados com seus seus compromissos a cumprir, temos algumas ilhas luminosas. São os vendedores de livros e discos que abrem seu espaço num dos centros nervosos da muvuca carioca. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro



Saindo da estação Carioca do metrô do Rio de Janeiro, pela saída Rio Branco, a gente se depara com a cena cotidiana do mercado informal. Vendedores de produtos eletrônicos de origem e marcas duvidosas, raquetes para matar mosquitos, e toda sorte de coisas que mudam de uma temporada para outra; guarda-chuvas nos dias de chuva, leques no pico do verão. Mas entre as quinquilharias e o vai-e-vem dos apressados com seus compromissos a cumprir, temos algumas ilhas luminosas. São os vendedores de livros e discos que abrem seu espaço num dos centros nervosos da muvuca carioca.

De todos que ali seguem na determinação que é vender livros no Brasil, do jeito que for, a gente destaca Francisco Olivar. O cearense de Camocim traz na história de 40 anos trabalhando com livros e leitores. Livrarias, bancas de revista, feira pelo país e, por fim, o ponto estratégico na Carioca.Olivar e os demais livreiros que compartilham a saída do metrô são sobreviventes de dias melhores, em que havia mais de 20 pontos de venda de livro pelo centro do Rio de Janeiro. Hoje se equilibram no fio da navalha de governos que esnobam e sabotam o livro e a leitura, sempre correndo o risco de perder mais esse espaço.


Você chega na Banca do Olivar e o que pode parecer um caos de livros é, na verdade, uma mina de surpresas preciosas. Recebendo em média 500 pessoas por dia, é difícil manter os livros organizados. O que a gente vê, quando senta pra papear na Galeteria Cruzeiro, em frente à banca, é gente chegando e saindo com livros nas mãos. São romances, manuais de tempos perdidos, quadrinhos, poesia, revistas. Tudo a 2 reais. Isso mesmo! Chamo isso de resistência cultural.

Mas para além dos livros, o que vale mesmo é um bom papo com Francisco Olivar, que detém um conhecimento enorme e generoso da literatura brasileira, suas personagens e histórias. Olivar não é um vendedor de livros, ele é um livreiro, e como tal é um curador. Uma pessoa pra você colar, conversar sobre literatura e escutar o que ele tem pra contar. Nesses 40 anos Olivar acumulou e elaborou experiência, inventividade e conhecimento em favor da leitura.

Outro dia estava por lá e acompanhei uma garota comprando um exemplar de Iracema, de José de Alencar, um senhor já idoso arrematando uns belos volumes de uma coleção das obras de Jorge Amado, um vívido debate sobre poesia popular, o poeta Severino Honorato entoando seus aboios.

Quando a gente pensa em livro e Rio de Janeiro logo nos vem a mente a Biblioteca Nacional, o Gabinete Português de Leitura. Permita que venha também a imagem da movimentada saída do metrô da Carioca, a Banca do Olivar e o pessoal que com ele ali batalha nas margens do ecossistema do livro. Olivar promove ali na sua banca um ponto de cultura. De culturas, melhor dizendo. Em torno desse núcleo luminoso se discute, troca-se ideias, dicas de leitura; ali chega gente de todo o Rio de Janeiro e mesmo do Brasil, sem distinção de gênero, cor, situação econômica ou social. Políticos, moradores de rua, professores, artistas. Todos marcam presença. Convido você a participar também!

Estive com Francisco Olivar por esses dias e gravei para o ÁudioKuruma’tá uma breve entrevista. Breve porque Olivar tem que voltar pra junto dos seus clientes, conversar com eles, dar dicas. Vamos ouvir?


Uma das preciosidades que garimpei na Banca do Olivar!

Só não pode esquecer

Quando falei pro Toinho (Castro) que tinha tido uma ideia pra escrever esse texto ele me disse: “só não pode esquecer”. Um belo e auspicioso começo. Porque tem coisa que a gente realmente não pode esquecer. Livros, por exemplo. Quem nunca teve aquela sensação de “que livro é esse? Obras que te marcam como uma cicatriz, que te desviam ou colocam no caminho, que alteram alguma trajetória, que são verdadeiras descobertas, te instigando, te aquietando, te agitando, te desafiando. [Texto de Adriana Nolasco]

Kuruma’tá recebe em sua lagoa de águas fundas o talento de mais uma parceira. A poeta carioca Adriana Nolasco vem até aqui falar de livros, trazendo até nós a relevância do trabalho de… Ops! Leia o texto e descubra. Bem-vinda, Adriana!


O que fazer com a obra de um autor que você descobre que ama? Ler. Como achar a obra de um autor que você pode amar? Lendo.

Quando falei pro Toinho (Castro) que tinha tido uma ideia pra escrever esse texto ele me disse: “só não pode esquecer”. Um belo e auspicioso começo. Porque tem coisa que a gente realmente não pode esquecer. Livros, por exemplo. Quem nunca teve aquela sensação de “que livro é esse? Obras que te marcam como uma cicatriz, que te desviam ou colocam no caminho, que alteram alguma trajetória, que são verdadeiras descobertas, te instigando, te aquietando, te agitando, te desafiando. Acontecimentos únicos e raros, mas que ao acontecer te dão a certeza de que algo aconteceu, mesmo que não se saiba onde.

É preciso, no entanto, percorrer. Porque o único jeito de achar é procurando.

Confesso que a idade tem me ajudado nisso: quanto mais velha fico, melhor leitora me torno, mais amor aos livros tenho, mais caminhos percorro, mais largas ficam minhas passadas. Afinal, alguma coisa tem que melhorar com o passar dos anos. Comecei tudo tarde, a ler de verdade inclusive. Essa fase esquisita chamada adulta me trouxe esse bônus. Na infância e na adolescência fui apenas uma leitora média, com outros tantos interesses me batendo à porta. Criança, lia o que a escola mandava, os livros que ganhava, a revista Pais e Filhos e depois as Mad do meu pai. Na adolescência desenvolvi um gosto especial por romances históricos ou livros que envolvessem história, principalmente medieval, egípcia e coisas do gênero. Mas foi na adultecência que ganhei a amplitude da variedade e, por pura sorte do destino, no geral, só me caíram coisas boas nas mãos. Por isso, a dificuldade de eleger, porque são muitos e todos muito bons.

Não guardo uma lista dos meus livros preferidos de cor, precisando mesmo me esforçar pra enumerá-los. O que tenho é um método próprio, absolutamente caótico e desprovido de regras. Uma “leitora por contágio acidental”, podemos dizer, estimulada por uma sugestão aqui, um comentário acolá, uma indicação, um faro, um sentimento. Ou seja, o que me faz lembrar é justamente aquilo que não me deixa esquecer.

E é nesse ponto que voltamos àquilo que não podemos esquecer: os tesouros, os achados, as leituras fora da curva, as que te tiram do chão, te atingem como um raio, te fazem encontrar um lugar, mesmo que momentâneo, te dão vontade de viver e, no meu caso, também de escrever.

Usando o prodígio da memória, me arrisco a enumerar alguns autores que me causaram esse espanto, sabendo, no entanto, que nunca vou conseguir ser justa o suficiente porque tem sempre o risco de esquecer alguém. Mas aqui não é lugar pra justiça, aqui é lugar é pra afetos, então cito Lucia Berlin, Ana Cristina César, David Foster Wallace, Lawrence Ferlingheti, Paulo Leminski, Frank O’Hara, Roberto Bolaño Juan Pablo Villa-Lobos, Bukowski, Manoel de Barros, Clarice Lispector, Jim Dodge, Henry Miller e muitos outros etc. Balaio doido.

Mas há sempre espaço pra gratas surpresas – até porque sem isso a vida perde a graça -, o que levou ao meu mais recente apaixonamento, um autor contemporâneo, que me desviou o eixo, invertendo os polos magnéticos. Um novo encontro. Verdadeiramente especial. Porque fazia tempo que um livro não “batia” dessa forma. Foi assim: em abril de 2018 fui a Lisboa comemorar meu aniversário e recebi a encomenda de dois livros de dois autores portugueses, que não se achavam em terras brasileiras. Com o primeiro não tive sucesso, por isso nem lhe lembro o nome. Já o segundo, encontrado após alguma procura, foi Quando as girafas baixam o pescoço , de Sandro William Junqueira . De cara curti o título, mas não me aventurei em seus interiores. Estando lá durante dez dias, em dado momento não teve jeito: comecei a folheá-lo. E o fato é que não consegui mais parar de ler. Espanto e estupefação imediatos. Tinha achado uma coisa especial, uma pepita de ouro, alguém que falava uma língua desconhecida que há muito eu queria conhecer, mesmo sem o saber.

O resultado foi que o livro voltou pro Brasil, foi lido mais uma vez e levou 6 meses pra chegar nas mãos do amigo que o tinha encomendado. Não conseguia me separar dele. A partir daí e diferente de todos os outros encantamentos literários pregressos, senti a necessidade de ler todos os romances publicados pelo autor: além do meu preferido “Quando as girafas baixam o pescoço” (Editora Caminho/2017), “No céu não há limões” (Editora Caminho/2014), “Um piano para cavalos altos” (Leya Brasil/2014), “O caderno do algoz” (Editora Caminho/2012) e, adicionado à lista, o único não romance, o récem publicado infantojuvenil “As palavras que fugiram do dicionário” (Editora Caminho, acaba de ganhar o prêmio Autores SPA 2019 da Sociedade Portuguesa de Autores para Melhor Livro Infanto-Juvenil), tão poético quanto a suposta classificação etária. Uma fome de autor, isso é o que o Sandro me deu. Porque só Sandro escreve como o Sandro. 

Nessa busca consegui ser presenteada com dois títulos pelo próprio amigo que tinha encomendado o primeiro livro, e por conseguinte me apresentado o autor, e os outros mandei buscar na “terrinha”, inclusive um novo exemplar das “Girafas”, pra que fosse só meu e pudesse carregar comigo a meu bel prazer, como um pedaço de mim. A nota é que continuo o lendo, junto com outras leituras, mas sempre voltando àquela fonte, uma forma de sorver mais profundamente aquele olhar sobre a vida com o qual tanto me identifiquei.

A vontade é pedir: não pare de escrever. E não penso que ele vá parar. Da nova safra de contemporâneos que vieram pra ficar, Sandro ainda é novo, nasceu em 1974 em Umtali, na antiga Rodésia (uma país que sequer existiu, nada mais poético) e hoje vive em Portugal. É escritor, encenador, professor de expressão dramática e autor de vários projetos de promoção de livros e da leitura.

Das coisas que me encantaram: os títulos, o conteúdo, mais do que cabe em si, e o estilo. A prosa poética, única, a mais bem encaixada que já li, prosaica. As construções livres, ousadas e simplesmente encantadoras que deslocam determinadas palavras, agregando uma nova vida, um novo ângulo de sentir. As partes que compõe um todo, mas podem ser lidas de forma independente. A voz, singular, em afinação com um coração que bate o ritmo da vida, compassando as imagens poéticas com os dilemas humanos, demasiadamente humanos de todos nós. Tudo isso temperado pelo português de Portugal, o mesmo idioma que o nosso, porém revelador em seu jeito de expressar, trazendo construções, ritmo, imagens e música que só se fala e escreve por lá, e que influi sutilmente na percepção de mundo.

É difícil por em palavras esse tipo de magia, mas é possivel tentar, segredo- coisa que só quem tramou a trama traz em seus órgãos internos. Um tecido vivo que não é possível imitar.

Sou uma escritora tímida, que custa a enxergar valor no que faço, mas Sandro me deu isso, a vontade de soltar uma voz própria, empapada de meu próprio suor, cheiro, textura, coragem.

Por fim, não poderia deixar de mencionar uma particularidade marcante: a relação do autor/obra com a música, um quase segredo, um pequeno detalhe, uma nova camada sinestésica que chega como um bônus, uma surpresa a mais após todas as surpresas. Cada romance, em pedaços diferentes, remete concretamente a uma ou mais canções, seja em citações, em nomes de capítulos ou em indicações precisas. Músicas como Too Many Birds, do album Sometimes I Wish I Were an Eagle, de Bill Callahan, As Gymnopédies, de Erik Satie, e outras que não vou mencionar porque fazem parte da descoberta, pra que se somem ao texto.

Sobre essa singularidade Sandro falou numa entrevista: “William Faulkner disse que os escritores queriam era ser compositores, mas como não tinham talento… A música é a maior de todas as artes e aquela que nos aproxima mais da eternidade. Todos os meus livros têm uma música no fim.
Tenho paixão pelo piano e pelos pianistas. Sempre que vejo um pianista a tocar emociono-me. Eu gostava muito de ser pianista, mas não tenho talento. Tento fazer com as palavras o que os músicos fazem com as notas. Tento atingir a universalidade e emocionar as pessoas. Muito facilmente a música consegue pôr-te a chorar, a rir, a mexer o corpo, a viajar no tempo. É mais difícil que um livro consiga fazer chorar um leitor.”

Pois que Sandro escreve como música e pode tranquilamente te(me) fazer chorar.

E como nada é por acaso, enquanto escrevia esse texto, abri aleatoriamente as páginas de Quando as girafas baixam o pescoço e revelou-se para mim justamente um capítulo chamado Ler, que reproduzo aqui como uma última provocação:

Ler

Ema está de costas voltadas, de avental posto, junto do lava-loiça.
Ao jantar apenas o som dos garfos e facas tinha interrompido o silêncio.
Ele, o Homem Que Gosta de Livros, sentado à mesa, vigia-lhe: a nuca, a barriga das pernas, o movimento dos braços. Esconde, debaixo da camisa abotoada até o colarinho, um livro. Uma frase:

“Viver é viver como viveríamos se vivêssemos.”

Essa frase não lhe larga o peito. Ele gostaria de desabotoar a camisa, abrir o livro. Ler o coração em voz alta. Se ao menos Ema o compreendesse. Se ao menos Ema o ouvisse.
Ele queria ler-lhe, para assim poder tocá-la. Há outras formas de tocar em alguém?

Sandro ainda não tem sua obra completa publicada no Brasil, exceção para “Um piano para cavalos altos” e foi graças a um golpe de sorte que pude conhecê-lo, o que me faz pensar em quantas maravilhas não deixamos de ter ao nosso alcance. Coisas do nosso mercado editorial, mas isso é outro papo. Livro é semente que se deve espalhar. 


Texto e todas as fotos de Adriana Nolasco

adriana nolasco escapou da medicina, com sofreguidão. tem uma produtora carambolas -, muito prima de coletivos poéticos de cunho anárquico. entre outros planos, faz filmes, cometendo em quase todas as funções, com especial apego à fornalha. além, cutuca as letras e seus avessos, muitas vezes com vertigem no céu da boca. adestra sombras em conluio com a sorte e garimpa flores com a mesma astúcia que encontra esbarrões. já lavou calçadas, especulou em bolsas obtusas, traficou marfim em continentes distantes. atualmente, pensa em não pensar, com muita dificuldade.

adriana publicou em 2018 o livro Até quase perto, pela editora Urutau.


FC no tempo e no espaço

Hoje sou um leitor animado da FC produzida na terrinha e acompanho de perto a produção de uma variedade de escritores que fazem desse gênero um espaço de relevância na literatura brasileira. Ficção científica é coisa séria e a prova disso é a diversidade de vozes, subgêneros e expressões. É significativa, impactante e fala, ainda, sobre nós. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Creio que comecei a ler ficção científica lá pelo fim dos anos 1970, começo dos anos 1980. devia ter de doze pra catorze anos, por aí. Recordo com clareza de um livro que me marcou muito, chamado Essas estrelas são nossas, o escritor escandinavo Poul Anderson. O livro tinha uma capa fascinante e caiu como uma luva numa mentalidade que eu já estava formando, voltada para rudimentos de astronomia e fantasias espaciais. Devo dizer que o filme Contatos imediatos do terceiro grau, de Steven Spielberg, teve um papel fundador nesse sentimento.

Eu morava num bairro periférico de uma cidade periférica. Descortinar galáxias, universos inteiros, aos abrir a página de um livro era um lenitivo. A ficção científica, ao mesmo tempo que era uma espécie de Nárnia muito particular, me trazia uma dimensão do mundo real. Eu compreendia, de alguma maneira, que a ficção científica falava de nós.

Devo muito a uma editora chamada Hemus (Haverá ainda?), que existia na época e que me deu Arthur C. Clarke, Isaac Asimov, Frederik Pohl e outros. E Ray Bradbury… sim, Ray Bradbury. Até hoje um dos meus autores prediletos, responsável por textos que até hoje eu leio regularmente. Bradbury era uma espaço de humanidade em meio à exuberância galáctica que eu consumia. Era um norte que me ajudava a a ordenar toda aquela informação de tantos livros, que eu não podia compartilhar com meus pais ou irmãos. Ou pelo menos achava que não podia.

Mas em meio a tudo isso havia uma lacuna que eu não sabia haver. A ficção científica brasileira. Eu havia lido um livrinho interessante, O que é ficção científica, escrito por certo Braulio Tavares, volume 169 da coleção Primeiros Passos, da editora Brailiense. Tal livrinho me abriu portas e apresentou títulos como O homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick. Um livro mesmo de ficção científica, no entanto, demorou pra entrar na minha vida. Foi uma coisa tardia.


Hoje sou um animado leitor da FC produzida na terrinha e acompanho de perto a produção de uma variedade de escritores que fazem desse gênero um espaço de relevância na literatura brasileira. Ficção científica é coisa séria e a prova disso é a diversidade de vozes, subgêneros e expressões. É significativa, impactante e fala, ainda, sobre nós.

Por conta disso tudo, e numa espécie de acerto, trago aqui no Kuruma’tá, esse espaço selvagem, a dica de três lançamentos brasileiros e um livro que não é lançamento mas que me encantou demais. Que eu li com gosto.

Que fique claro que essas dicas são um recorte dentro de um universo riquíssimo, de muitos autores espalhados pelo país produzindo FC de primeira linha.

Fanfic, de Braulio Tavares.

Pois é. O tal escritor paraibano, que lá atrás me deu dicas e me ajudou a entender melhor a FC no seu livrinho da Primeiros Passos, é um dos grandes nomes do país no gênero. Braulio Tavares é aquele cara prolífico, que já escreveu e traduziu legião de textos. Mexe-se com desenvoltura entre suportes e gêneros literários. Sua generosidade como escritor permite um permanente diálogo com tradições, com erudição e um senso Pop certeiros. Impossível falar de FC brasileira e não chegar ao nome de Braulio Tavares, responsável pelo clássico A espinha dorsal da memória, de 1996.

Seu novo livro, Fanfic, lançado pela Editora Patuá na sua coleção Futuro Infinito, reúne textos seus de diversos matizes, diversos tons. Em todos eles há esse entrelaçamento com tudo que Braulio leu, porque, antes de tudo, ele é um leitor. E também fã, no sentido, mais uma vez, Pop da palavra (e tem outro?!). Borges, num dos seus versos, diz:

Que outros se jactem das páginas que escreveram
a mim me orgulha o que li

Ler Braulio Tavares, em seus muitos livros, é ser tocado por esse amor a leitura. Em Fanfic dá-se o mesmo. E sempre nos surpreende.

Back in the URSS, de Fábio Fernandes

Acho que em todo autor de FC tem esse amor pela leitura e pela referência ao caminho trilhado. isso surge das maneiras mais imprevistas. esse amor está lá, no grande Fábio Fernandes, outro nome e tanto dessa seara. Escritor e tradutor de mão cheia (verteu para o português, entre outros, o potente Neuromancer, de William Gibson). Seu trabalho autoral também tá aí para demonstrar como a FC produzida em Terra Brasilis é diversa e inventiva.

Seu novíssimo Back in the URSS, na coleção Futuro infinito da Patuá, é bom demais. Ousado, vibrante e vertiginoso. John Lennon, Bioy Casares, alienígenas na terra, a semana de Arte Moderna… facetas desse estranho cristal furta cor que Fábio escreveu, desafiando as ordens do tempo e do espaço. Bagunçando ou rearrumando as coisas? 

Estão lá a literatura e a leitura desenhando mundos pela mão de um escritor hábil e destemido. Tá valendo demais.

A mão que pune – 1890, de Octávio Aragão

Gente, Octávio Aragão inventou a Intempol, a polícia do tempo malandra e antropofágica que compõe uma das experiências mais interessantes da FC. Só por isso já é verbete. Octávio escreve com humor, ironia e muita bagagem na cabeça, de muita leita. Pessoal, ler é tudo! Como Braulio e Fábio, é um escritor premiado, tradutor também, e muito versátil. Versatilidade combinada com uma incrível capacidade de manter elos narrativos entre tudo que escreve. É botar o olho um livro de OA e saber que é dele mesmo!

A mão que pune – 1980,  é seu lançamento mais recente e faz eco a muito do que ele já andou escrevendo. Livro com jeitão clássico e atmosfera steampunk. E quando falo em atmosfera não estou falando de clima mas daquilo que a gente respira. O livro de Octávio é tradição, no melhor dos sentidos, com uma leitura inteligente, sagaz mesmo das referências várias que tecem essa trama bem elaborada e cativante.

Octávio Aragão dá aquela sensação de Hitchcock. A gente sempre acha que ele se esgueira nos seus livros e está ali, no canto do balcão do bar sem que ninguém saiba. 


As águas-vivas não sabem de si, de Aline Valek

Além da questão da nacionalidade foi fácil perceber que havia outras questões importantes quanto aos meus hábitos de leitura, que era baseada em autores homens e brancos. E isso exigiu mais uma correção profunda de rumo.

A escritora Aline Valek disse o seguinte numa entrevista:

Talvez as mulheres que escrevam ficção científica não sejam poucas, apenas não tenham visibilidade.​

Pois bem, as escritoras de FC estão aí, são muitas, e se elas estão na luta por uma justa visibilidade, cabe a gente como eu rasgar a carteirinha desse clube do machinhos e comprar os livros dessas mulheres. Simples assim, comprar, comentar, emprestar, recomendar. E é nesse espírito que recomendo aqui um livro justamente da Aline Valek, As águas-vivas não sabem de si, lançado em 2016 pelo selo Fantástica da editora Rocco.

Sempre me fascinaram as águas-vivas, talvez mesmo pelo que sugere o nome, pequenos pedaços do mar que criaram vida, movidos por uma vaga consciência. Quando eu era criança meus programas de TV favoritos eram Viagem ao fundo do mar e Laboratório submarino – 2020. O fundo do mar era meu outro espaço sideral, minha outra zona de silêncio… uma vida inteira querendo viver, platonicamente, em plataforma em meio ao mar e estações espaciais.

O livro de Aline devolveu-me a esse mundo. Com Corina, uma mergulhadora profissional que participa do projeto de um laboratório submarino, adentramos esse mundo silencioso e escuro. Nossas noção de tempo, espaço e do que é vida, do que é estar vivo, são desafiadas numa narrativa fluida e bem construída. Ir fundo para Corina não é simplesmente uma profissão mas uma maneira de enfrentar a si mesma, suas limitações e ansiedades. E Corina se move ainda atrelada a uma trama sobre a busca da vida, da inteligência… na verdade de uma outra inteligência na vertigem dos abismos marinhos. Haverá caminho? Haverá volta?


A Besta fera de Jards Macalé

“Besta Fera” já é um dos grandes discos de 2019 e Jards Macalé segue como um artista fundamental, que depois de mais de meio século de carreira, continua sendo único, instigante, provocador e necessário. [Texto de Jorge LZ – Na Ponta da Agulha]

Esta é a primeiríssima colaboração do querido DJ Jorge LZ, piloto do site Na Ponta da Agulha e um dos caras que mais sacam de música brasileira! E já começa com a porrada do necessário, cada vez mais, Jards Macalé! Bem-vindo, Jorge!

Texto de Jorge LZ | Programa na ponta da agulha


“Besta Fera” é o novo disco de inéditas de Jards Macalé… a espera foi longa… 21 anos… coincidentemente, 21 anos é o mesmo tempo que ficamos sob um regime ditatorial, que cobriu de trevas o Brasil… as coincidências não param por aí…

O primeiro single do disco, “Trevas”, de Macalé a partir do poema “Canto I”, de Ezra Pound, em tradução de Augusto Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari, já escancarava o que teríamos pela frente… a música traz uma ambientação sombria e sufocante, que serve de suporte para a voz de Macalé entoar “… chegamos ao limite da água mais funda, levanta o olhar pro céu…”, até chegar ao final, sumindo afogada…

Cada uma das faixas de “Besta Fera” funciona perfeitamente sozinha, mas é no conjunto delas que se dá a potência da obra… seja pelas canções ou pela execução das mesmas, o disco é tenso e se movimenta no tempo e no espaço… é como se fosse uma pintura de um quadro que representa o país caótico em que vivemos, feita a partir do seu passado e principalmente do seu presente, deixando uma sensação angustiante do que teremos no futuro… isso reforça a atemporalidade do trabalho de Macalé. Se levarmos em conta que a faixa título foi composta no final dos anos 60, ela é, de certa maneira, premonitória do que estamos vivendo hoje no Brasil e no mundo… o que acaba nos levando a refletir sobre uma frase de outra faixa do disco composta por Macalé, “Tempo e contratempo”, que diz: “o tempo não existe, essa é que é a graça”… ou seja, Jards Macalé é filosofia em estado bruto!

Nas composições do disco, Macalé combina adaptações de textos de Gregório de Mattos e de Ezra Pound com o parceiro de sempre, Capinam, e com novas parcerias com Tim Bernardes, Kiko Dinucci, Thomas Harres, Romulo Fróes, Rodrigo Campos, Clima e Ava Rocha.

“Besta Fera” tem direção artística de Romulo Fróes e foi produzido por Kiko Dinucci e Thomas Harres. O trio soube dar vazão à toda criatividade de Macalé e o ajudou a construir tudo o que se esperava dele e um pouco mais, pois o “surpreendente” é um elemento que sempre surge em seus trabalhos.

O time escalado para acompanhar Macalé foi composto por Kiko Dinucci, Pedro Dantas, Thomas Harres, Guilherme Held, Rodrigo Campos, Thiago França, Amilcar Rodrigues, Allan Abbadia, Filipe Nader, Luê, Thai Halfed, Alejandra Luciani e Ariane Molina, além das participações especiais de Romulo Fróes, Tim Bernardes, Juçara Marçal e Clara, Irene e Laurinha, da Velha Guarda Musical da Nenê de Vila Matilde.

“Besta Fera” já é um dos grandes discos de 2019 e Jards Macalé segue como um artista fundamental, que depois de mais de meio século de carreira, continua sendo único, instigante, provocador e necessário. Mais que isso, um artista generoso, que troca com todas as gerações e que mostra que o tempo não existe, é apenas uma convenção… o ontem, o hoje e o amanhã estão completamente misturados em sua obra; o país pode estar um horror, mas temos artistas como Jards Macalé, que nos fazem perceber o quanto vale a pena estar aqui!


Atualiação 07/03/2019
Com vocês as fotos de Jorge LZ do show de Jards Macalé para lançamento de Besta Fera, realizado na noite de ontem, dia 6 de março, no Circo Voador!


Na ponta da agulha é um site parceiro do Kuruma’tá! Jorge LZ produz e apresenta o programa na Ponta da Agulha, na Rádio Graviola. Confira: napontadaagulha.ml

Estelita Resiste

Para quem desconhece o Estelita era um complexo de galpões e tanques de armazenamento, associado a linha ferroviária que por ali passava. Trens carregados de açúcar, para exportação talvez. Muito do que recordo é imaginação. Às margens desse espaço, que hoje vem abaixo, não sem resistência de quem pensa e ama a cidade, está a av. Eng. José Estelita, uma linha reta que liga o cabanga, sobretudo para quem desce da ponte sobre a bacia do Pina, vindo da zona sul, até o centro da cidade, subindo o viaduto da Cinco Pontas. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Hoje estão demolindo os velhos Galpões do Cais José Estelita, no Recife. Tive uma vida inteira passando por aqueles galpões, que ficavam num dos meus caminhos para o centro da cidade, para o Cais de Santa Rita. Naquele tempo já parecia abandonado, como boa parte do Recife sempre me pareceu uma cidade velha, corroída; algo que lhe dava um certo charme. Éramos meio poetas, meio tristes do mundo, e esse abandono combinava com os versos que escrevíamos ou sonhávamos.

Para quem desconhece o Estelita era um complexo de galpões e tanques de armazenamento, associado a linha ferroviária que por ali passava. Trens carregados de açúcar, para exportação talvez. Muito do que recordo é imaginação. Às margens desse espaço, que hoje vem abaixo, não sem resistência de quem pensa e ama a cidade, está a av. Eng. José Estelita, uma linha reta que liga o cabanga, sobretudo para quem desce da ponte sobre a bacia do Pina, vindo da zona sul, até o centro da cidade, subindo o viaduto da Cinco Pontas. Caminho que percorri muitas vezes.

Nunca pensei que um dia aquelas estruturas perenes, lutando contra o tempo e contra os homens, pudessem desaparecer. Pareciam as ruínas de templos, de civilizações perdidas. E talvez o fossem mesmo. Quando começaram pelo mundo movimentos de revitalização de espaços como o Estelita achei que os Galpões ganhariam vida, seriam ocupados por aquilo que sempre queremos tantos… Arte, liberdade, espaços livros e dedicados ao humano, ao lúdico, ao vibrante. Mas não. A especulação imobiliária demente lançou garras sobre o Estelita como espaço em branco, sem história ou memória. Sem afeto. Uma ocupação financeira, um corte social que estabelece um dentro e um fora, quem participa e quem pode apenas assistir. A encenação triste da ganância.

Já vejo as pessoas no ônibus, indo trabalhar duro por aí, passando pelos prédios de viro inacessíveis para eles. Achando até alguma beleza naquilo tudo, talvez até um certo orgulho de sua cidade ter um conjunto de prédios como aquele, tão altos, tão de vidro, com tantas luzes quando temos tão poucas nas comunidades escuras que se entranham na cidade, tentando existir. Por que abrir espaços para o povo se você pode fechá-los? Lá do alto, os que lá viverem, verão a cidade como se ela não existisse, a Bacia do Pina estendida até o mar, Brasília teimosa (Formosa) logo adiante como o próximo bastião a tombar.


Certa vez, de madrugada, passei de carro pelos galpões do Estelita e pensei como eram nobres fantasmas, como se só eu pudesse vê-los. Havia um ruído que, certamente, era dentro de mim. O ruído da memória, que é o ruído de um trem carregado de açúcar, passando entre os carros o Cais de Santa Rita. O ruído do meu pai comentando algo sobre os galpões enquanto passávamos certo dia por ali, algo que não recordo. O Estelita me lembra muito meu pai porque ele trabalho com transportes, cargas… ele tinha algo a ver com esses deslocamentos, esses espaços de transição, de passagem.

Olhei meu fantasma do Estelita naquela noite e pensei que, como ele, eu também não existia. Espectros noturno alimentando recordações mútuas. Sei que escrevo como se fosse fato consumado o fim do Estelita como o conheci porque de súbito fui atingido pela mão que o ameaça. Mas sei agora mesmo tem gente da melhor espécie numa dura luta pelo destino desse espaço. Solidarizo-me com essa gente, para que esse vão de trilhos enferrujados e galpões vazios seja incorporada à cidade com a vida que lhe cabe, vida vibrante e sem medo. Que de lá possamos ver a Bacia do Pina como nossa e sentir o vento mareado no rosto. E há de bater ali um coração, quem sabe na pulsação ritmada dos trens carregados da história violenta de Pernambuco; talvez, por fim, os redimindo.

Foto: Felipe Schuler

Para se inteirar da situação do Cais José Estila recomendo acessar a página Marco Zero.

Marco Zero Conteúdo é um coletivo de jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público. Produzidas e editadas por jornalistas que procuram ver o mundo com um olhar diferenciado, nossas reportagens podem ser livremente reproduzidas por qualquer veículo sob a licença creative commons.


Texto de Toinho Castro

Com um beijo de Judite

Havia no Recife, naquele tempo, e ainda há, na verdade, um lugar ali mesmo no centro da cidade, no bairro de Santo Antônio, chamado Praça do Sebo. Um grande e agradável espaço mais ou menos circular que abriga ainda diversos sebos de livro, e que frequentei com assiduidade até deixar a cidade, em 1997. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Hoje o caríssimo Braulio Tavares publicou na sua rede social um trecho do ensaio de Batendo pernas nas ruas: Uma aventura em Londres, ensaio da escritora inglesa Virginia Woolf, publicado no livro O valor do riso e outros ensaios, da finada e nunca esquecida Cosac Naify. O trecho selecionado por Braulio, de uma outra tradução (talvez dele mesmo), era esse:

São livros selvagens, os de segunda mão, livros sem teto; chegaram juntos em grandes bandos de plumagem variegada e têm um encanto que faz falta aos volumes domesticados da biblioteca. Além do mais, nessa miscelânea que temos por companhia, podem os esbarrar por acaso num estranho completo que talvez ainda se torne, com sorte, nosso melhor amigo no mundo.

Ao ler essas linhas de um texto publicado pela primeira vez em 1927, veio-me a mente toda uma cultura do livro usado que envolveu minha vida, desde que me tornei uma pessoa inteira, com idade para perambular pelo centro da cidade em busca de livros baratos para ler.

Havia no Recife, naquele tempo, e ainda há, na verdade, um lugar ali mesmo no centro da cidade, no bairro de Santo Antônio, chamado Praça do Sebo. Um grande e agradável espaço mais ou menos circular que abriga ainda diversos sebos de livro, e que frequentei com assiduidade até deixar a cidade, em 1997. Comprei alguns livros importantes ali para a minha formação enquanto leitor. Muitas vezes vadeei de um sebo para o outro, olhando as lombadas e folheando a esmo, sem meso intenção de comprar.

A Praça do Sebo, quando a visitei há pouco, em agosto de 2018 [
Foto de Toinho Castro]

Tudo isso faz-me recordar de uma das coisas que mais me fascinavam, e ainda fascinam, em qualquer livro usado que tive nas mãos: as dedicatórias.

[Foto de Toinho Castro]

E o que é uma dedicatória? Bem, imagino que existam respostas bem melhores que a minha. A dedicatória é uma escritura afetiva, que atesta a transferência de um bem, esse estranho bem chamado livro, de uma pessoa para outra. Muitas vezes detalhando até as razões e a dimensão desse gesto. Outras vezes de maneira sucinta ou mesmo cifrada. Um contrato que somente as duas pessoas envolvidas podem compreender e justificar os termos.

Não há livro usado, esses selvagem, que eu pegue para não procurar por uma dedicatória em algum lugar propício. Seja na folha de rosto, no verso da capa ou mesmo num pedaço de papel solto em meio às páginas, escolhido assim por um capricho qualquer. Bem sei que nem só de livros viviam as dedicatórias, mas creio que seja uma arte em desuso. Talvez justamente nos livros encontre ainda um nicho de resistência. Como retorno do hábito de comprar vinis pude encontrar em alguns LPs antigos, e usados, naturalmente, dedicatórias marcando datas, amores, carinhos, entregas. Como nesse primeiro e belo disco de Geraldo Azevedo, de 1976, que comprei por aí.

[Foto de Toinho Castro]

Era o ano da graça de 1990, 14 anos após o lançamento do disco. Certamente num arroubo de nostalgia, Tuca dedicou seu amor Lelena, numa véspera de 7 de setembro que sabe-se lá o que significava para os dois. Sabe-se lá quantas vezes Lelena escutou Caravana pensando em Tuca antes de livrar-se do disco. Ou morrer, ou partir… ou o que? Hoje, ouvindo Caravana, penso no amor de Tuca e Lenena, inutilmente. A escritura lavrada desses dois amantes me tem por testemunha. Dou fé.

Ou ainda essa descoberta que devo a outro amigo, o livreiro Francisco Olivar, que me ofertou essa joia. Uma edição de uma palestra do poeta pernambucano Mauro Mota, sobre o São João no Nordeste. Para nosso maravilhamento, a brochura traz uma dedicatória do poeta ao tio Mandú e os primos. Que singeleza. O ano é de 1953 e o poeta estava no Rio de Janeiro. No ano anterior ele havia publicado seu livro de poemas Elegias, que comprei e que traz também uma dedicatória do poeta, ao seu amigo Raimundo. Parece-me que Mauro Mota era generoso com suas dedicatórias.

[Foto de Toinho Castro]

Será a dedicatória uma arte morta? Será que temos que empreender sua arqueologia e datar com carbono seus exemplares cada vez mais raros? Será que ao pegar um livro dedicado, daqui a alguns anos, ainda saberemos o que significa? Ou será como esses objetos misteriosos cuja função perdeu-se nas sombras do tempo? Cortázar comenta sobre isso no seu Jogo da Amarelinha

Penso nos gestos esquecidos, nos muitos salamaleques e palavras dos nossos avós, pouco a pouco perdidos, não herdados, caídos um atrás do outro da árvore do tempo. Esta noite encontrei uma vela sobre a mesa e, para brincar, acendi-a e andei com ela pelo corredor. O ar causado pelo movimento ia apagá-la e, então, vi levantar-se sozinha a minha mão esquerda, abrigando e protegendo a chama como uma cortina viva que afastava o ar. Enquanto o fogo se endireitava, outra vez alerta, pensei que esse gesto fora o gesto de todos nós (pensei nós e pensei bem, ou senti bem) durante milhares de anos, durante a Idade do Fogo, até que a trocaram pela luz elétrica. Imaginei outros gestos, o gesto das mulheres levantando a ponta da saia, o gesto dos homens procurando o punho da espada. Como as palavras perdidas da infância, escutadas pela última vez na boca dos velhos que iam morrendo. Em minha casa já ninguém diz “a cômoda de cânfora”, já ninguém fala das “trebes” – as trébedes. Como as músicas do momento, as valsas dos anos vinte, as polcas que enterneciam nossos avós.
Penso nesses objetos, nessas caixas, nesses utensílios que aparecem às vezes em galpões, em cozinhas ou esconderijos, e cujo uso já ninguém é capaz de explicar. Vaidade de crer que compreendemos as obras do tempo: o tempo enterra seus mortos e guarda as chaves. Somente nos sonhos, na poesia, no jogo – acender uma vela, andar com ela pelo corredor -, aproximamo-nos às vezes do que fomos antes de ser isto que ninguém sabe se somos.

Posso imaginar uma versão alternativa de Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, em que as pessoas preservam, ao invés das histórias dos livros, suas dedicatórias. Suas sombras em volta da fogueira, narrando essas mínimas histórias de amor ou até cinismo, por gerações.

Certa feita alguém da família recebeu um presente de uma amiga ou parente. Finda a festa, essa minha foi abri-lo e descobriu que esse presente, na verdade, havia recebido de outra pessoa e agora estava sendo passado adiante sem maiores pudores. No verso do presente foi descoberta a seguinte dedicatória:

Para Fulana, com um beijo de Judite

Meus primos certamente contarão melhor essa história, sem incorreções. Mas para todos os efeitos posso dizer que, na minha família, Beijo de Judite virou senha para repassar um presente para outra pessoa.

— Ah, não sei o que dar para Beltrano.
— Ora, dá um Beijo de Judite!


No texto A peleja de Zé Limeira e Orlando Tejo, publicado aqui Kuruma’tá, fazemos menção a uma poética e um tanto misteriosa dedicatória que abre um exemplar de Zé Limeira, o poeta do absurdo, de Orlando Tejo. Uma daquelas dedicatórias que parece enredo de filme ou cordel.

Quem ou o que será o “Vento Leste”?


E encerrando, fica a dica da Amiga-Kuruma’tá Anne Rocha! O projeto Eu te dedico, site que traz uma compilação de livros com dedicatórias, com as histórias possíveis que carregam, o charme das caligrafias e as esperanças e promessas.
Visite: http://eutededico.com.br

“Um livro com dedicatória é um livro com duas histórias, uma que começa no primeiro capítulo e uma que começou antes de se passarem as páginas.”


A lenda inventada de Kuruma’tá

Kuruma’tá era peixe mas também era constelação. As tribos que habitavam o mundo celebravam a terra, as águas e o céu. Cultuavam Kuruma’tá, que ao longo do tempo cíclico que os anciões então contavam, arrastava pela cortina do céu seu cortejo de estrelas. Kuruma’tá enviava as chuvas que enchiam as lagoas e transbordavam os riachos em rios caudalosos. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


O mundo nem era assim como é hoje. O mundo era diferente. As gentes eram diferente e diferentes eram as línguas. O céu era muito diferente. O céu foi mudando aos poucos. E o céu começou a mudar no dia em que tudo começou a mudar. Kuruma’tá era peixe mas não vivia nos rios, nem nas lagoas. Kuruma’tá vivia no céu. Há muito subiu para o céu. Durante o dia o sol ofuscava a vista de quem olhava pro alto, mas de noite via-se o céu estrelado daquele tempo. Muito tempo atrás.

Kuruma’tá era peixe mas também era constelação. As tribos que habitavam o mundo celebravam a terra, as águas e o céu. Cultuavam Kuruma’tá, que ao longo do tempo cíclico que os anciões então contavam, arrastava pela cortina do céu seu cortejo de estrelas. Kuruma’tá enviava as chuvas que enchiam as lagoas e transbordavam os riachos em rios caudalosos. Os membros das tribos nadavam, pescavam e atravessavam com suas canoas as águas que Kuruma’tá, do céu, alimentava. Havia harmonia entre as demandas da terra e os poderes do céu.

Até que…

Um ancião sábio, poderoso e, como hoje se sabe, ambicioso, achou por bem desafiar os segredos do mundo e empreender o caminho até o céu e, de lá, reinar sobre a terra. “Se Kuruma’tá achou o caminho até o céu eu também vou encontrar”. Dizia certa lenda que Kuruma’tá vivia revolvendo o lodo no fundo da lagoa na beira da qual a tribo cresceu. Dali alimenta-se e ali sonhava quando adormecia. Um dia Kuruma’tá avançou profundo na camada de lodo. Cada vez mais fundo Kuruma’tá avançava, em busca de alimento e alento. E quanto mais fundo ele ia, menos luz do sol ali havia. Kuruma’tá foi mergulhando mais e mais nessa escuridão.

Aí começou a ver pequenos pontos de luzes que pareciam insistir em brilhar no silencioso escuro que tudo havia se tornado, De repente as pequenas luzes brilhantes encheram a noite de Kuruma’tá. Kuruma’tá havia encontrado a passagem para o céu e contemplou a imensidão das estrelas. Como esse caminho era um caminho sem volta e um peixe não poderia viver no céu, Kuruma’tá foi transformado em constelação e uma proibição foi lançada pelos que governavam o céu: Ninguém, jamais, deveria nadar tão fundo quanto Kuruma’tá. Ou o mundo seria castigado.

Numa dessas noites sem estrelas, confiando que ninguém o veria, o ancião adentrou a lagoa e nadou e mergulhou e forçou passagem pelas águas frias, sob os olhares dos peixes, tartarugas e outros animais ainda sem nome que ali viviam. Forçou seus braços e suas pernas rumo à camada de lodo que o aguardava lá no fundo. Rumo à passagem que ela guardava. E quanto mais fundo ele ia, mais o mundo vibrava numa frequência que somente as constelações e os poderes do céu podiam sentir. Era como um sinal. Um alerta. O céu estava sendo invadido.

Então Kuruma’tá-constelação brilhou no céu mais intensamente que jamais brilhara. Comandou então que as águas se avolumassem, se somassem umas as outras, por todos os caminhos que conhecessem. Kuruma’tá alimentou ainda mais rios, mares, lagoas e choveu copiosamente sobre a terra. E assim as águas subiram, subiram, cobriram terras, plantações, a copa das árvores e alcançaram o céu. E como sempre acontece, o mundo teve que se renovar. Nem tudo escapou do torvelinho que se deu. Mas as vidas sempre encontram maneiras de perdurar.

E as águas tanto subiram de seu leito original que alcançaram Kuruma’tá. Mal foi tocado pelas marés, Kuruma’tá tornou-se peixe outra vez, pois estrelas não podem viver nas lagoas. Como peixe ele nadou para o fundo, o fundo mais profundo de toda água que cobria o mundo.

Antes que o anião pudesse alcançar a brecha entre terra e céu, Kuruma’tá o alcançou e o encantou com feitiços que aprendera no céu. Contou-lhe as histórias do mundos, os caminhos que levaram até ali. E mesmo, vendo as pequenas luzes das primeiras estrelas brilhando lá no além do lodo, o Ancião desistiu do seu intento e despiu-se da soberba. As águas baixaram, os rios se acalmaram e o mundo das pessoas e das feras estava pronto a girar outra vez. E uma outra tribo veio a habitar a beira da velha lagoa.

Dizem que no fundo mais profundo Kuruma’tá e o ancião guardam em silêncio a passagem entre a terra e o céu. Dizem que no céu falta uma constelação e os que nascem sob esse signo são dados à poesia e ao canto. Ciclicamente, como tudo no mundo, de onde quer que estejam, viajam até a lagoa e se postam ao seu redor, a inventar palavras e entoar loas a Kuruma’tá.

Ainda hoje assim se dá. E nem sabemos…

Texto de Toinho Castro


Londres chamando para cirandar

Quando olhei para os meus discos e vi esses dois LPs em destaque na estante, Vamos cirandar, reunindo cirandas pernambucanas e o London Calling, álbum seminal do Clash, tive que sorrir, confrontando o adolescente tímido e enclausurado no Rock é rock mesmo. Precisei de muitos anos para chegar até o que essa foto representa e entender o quanto esses dois discos estão, na verdade, conectados. Ambos são insurreições. Sons periféricos. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Eu era um adolescente que gostava de rock, minha turma gostava de rock; e eu gostava de rock por conta da minha turma. Simples assim. Era o que a gente ouvia quando estávamos juntos, na casa de um de nós, com os discos que levávamos para lá e para cá, debaixo do braço; era o que eu ouvia quando não estávamos todos juntos. E quando falo de rock, falo do que a gente tinha pra ouvir, naquele tempo, naquela cidade. Ou seja, o rock dos anos 60 e 70. Led Zeppelin, Deep Purple, Pink Floyd e afins. Beatles, claro. Ouvíamos o rock disponível nas lojas de então. Depois conheci outras lojas, mais sofisticadas, cuja oferta de discos incluía coisas importadas, difíceis de aparecer (e de comprar!) no Recife. Havia ainda o sebo do Humberto… mas isso foi uma coisa só surgiu para mim mais tarde, eu já estava no segundo grau na escola. Eu costumava ir com amigos e lá encontrava outros amigos; lá eu fazia amigos. Todos do rock. Muitas vezes nem tínhamos dinheiro pro vinil mais barato, mas era bom ir lá assim mesmo. Era a atmosfera que nos alimentava.

De qualquer forma, it was all about rock’n’roll. Éramos, sem saber, meio nerds. Adolescentes solitários, sem ter pra onde ir a não ser mergulhar nos próprios discos. Quando chegou a Disco Music, abominamos a Disco Music. Éramos adoradores dos sons de guitarra, baixo e bateria. E dos teclados progressivos de bandas cabeludas. Até que o punk apareceu, com sua ferocidade suja, no altar solene das nossas humildes vitrolas brasileiras. Mas isso é outra história, até porque, gostar do punk me conduziu pela senda que me distanciava da seita musical que até então havia me acolhido e à minha solidão. E acho que essa turma do rock’n’roll de raisz nunca me perdoou por eu ter desviado do caminho. E meu caminho passava então, inexoravelmente, pelo Clash, Buzzcocks, Joy Division, New Order,
Happy Monday , a música eletrônica dançante, chegando até o Chemical Brothers, a música da África, por várias vias,, Fela Kuti, Afrika Bambaataa emulando a geada sonora Kraftwerk, o som espacial de Cabo Verde, Senegal… África por toda parte. E o Brasil, recheado dos ritmos do continente ancestral, de tambores negros mesclando-se com cantos indígenas, para nos alcançar a alma num botequim ou numa praia do Nordeste.

Escrevo tudo isso para falar dessa foto aí acima, que ilustra esse texto. Eu estava aqui, anos depois (muitos anos depois), no meu Rio de Janeiro, fazendo alguma coisa na sala quando olhei para os meus discos e vi esses dois LPs em destaque na estante. Vamos cirandar, reunindo cirandas pernambucanas e o London Calling, álbum seminal do Clash. Tive que sorrir, confrontando o adolescente tímido e enclausurado no Rock é rock mesmo. Tive que sorrir porque esses dois discos, juntos ali, eram um retato do quanto a gente pode mudar e, mudando, agregar um novo vocabulário. Esse disco de ciranda seria impensável quando nos trancávamos no quarto do meu amigo Alexandre, lá na Imbiribeira, uns quatro ou cinco garotos, para escutar The dark side of the moon.

Precisei de muitos anos para chegar até o que essa foto representa e entender o quanto esses dois discos estão, na verdade, conectados. Ambos são insurreições. Sons periféricos. A crueza das cirandas do Mestre Baracho, das Mestras Lia de Itamaracá e Dona Duda, que parecem saídas de dentro da terra, dos pés de quem dança. Hipnóticas, ritualísticas… Mântricas mesmo. O chamado para a dança que não é diferente das batidas de London Calling e sua Londres clamando pelos excluídos, chamando para a roda.

London calling to the underworld
Come out of the cupboard, you boys and girls

São discos coerentes um com o outro. Escutá-los é abrir uma tampa de bueiro enorme para uma cultura que rola subterrânea, contra as expectativas dos mercados, das tendências. Ainda que o Clash tenha se tornado uma banda mundialmente conhecida, um produto industrial em muitos sentidos. Nada disso importa. A música e seu poder incrível de resgatar a noite interior e a tribo reunida, o anseio comunitário de dar as mãos e dançar ao ritmo, o ritmo, até o amanhecer. Dopado da música, do tambor.

Aqueles homens e mulheres, lá em Pernambuco… há um fio que passa por eles, atravessa as matas amazônicas, atravessa oceanos, passa pelo Clash, conecta-se à África e coloca em sintonia fina pessoas que não sabem umas das outras.

Isso tudo é uma viagem da minha cabeça, eu sei. Esses elos imaginários ligam-se em mim. Quando eu só escutava rock eu não tinha ideia do quão negro ele era. Sabia de forma automática, não processava aquele saber porque era um moleque precisando aprender. Mas rompi essa pequena bolha e vi que a bolha não era o rock, que estava ligado a tudo. A bolha éramos nós. Garotos, meninos, inventando uma pureza para nos salvarmos de nós mesmos. Assim o London Calling e o Vamos cirandar, juntos, na minha coleção de discos, me dá vontade de chorar. Porque esses dois discos falam de quem eu sou, de quem me tornei, e me falam dos que vieram antes de mim. E do que virá depois.

Texto de Toinho Castro


Uma pausa para Augusto dos Anjos

E o que queria o poeta? Apenas que o presidente lhe concedesse uma licença com vencimentos, uma pequena garantia, para que lhe fosse possível aquela viagem ao Rio, onde pudesse apresentar seus poemas, encontrar os nomes da literatura de então, conseguir entrar para a história da formação da literatura brasileira…. [Texto de Aderaldo Luciano.]

Texto de Aderaldo Luciano


Já era a terceira ou quarta vez que Augusto dos Anjos falava sobre o mesmo assunto com o Presidente João Machado. Augusto se sentia preso, ilhado na Paraíba, enquanto a vida literária se desdobrava ávida na capital do país, o Rio de Janeiro. Todos os amigos haviam partido, inclusive Órris Soares, a quem tanto se apegara. Tentava jogar a última carta no diálogo com o Presidente. Esperava lograr êxito e partir tranquilo, com um pouco de dinheiro e a esperança de encontrar Santos Neto, seu amigo e incentivador.

Por conta de arranjos políticos, sua família se determinara a apoiar o nome de João Machado para presidente do estado da Paraíba, indicado que foi pelo chefe maior, o major Álvaro Machado, do Brejo de Areia, oligarca e mandatário. Como se diz hoje em dia: o Chefão. Aliás, sobre ele podemos dizer duas coisas: ao mesmo tempo em que criou A União, o jornal mais longevo do estado, fez vistas grossas quando a polícia incendiou e empastelou as oficinas e escritórios dos jornais O Combate (dos irmãos Oscar e Órris Soares) e O Comércio, alguns anos antes, em 1904, quando era ele o presidente. Mas voltemos ao caso de Augusto.

Muito bem, o poeta raquítico saúda o presidente e, pisando em ovos, começa novamente aquela conversa. Estava ele como professor substituto no Liceu Paraibano, tinha como aluno um dos filhos do presidente, a família fechara questão em torno do nome do mandatário, o próprio presidente o havia convidado para abrir as celebrações da data da Abolição, no Theatro Santa Rosa. Era flagrante o clima de intimidade entre eles. Saliente-se que o poeta desposara Ester Fialho, filha de Agnelo Cândido Lins Fialho, também do Brejo de Areia. Augusto pensara que estava tudo em casa.

E o que queria o poeta? Apenas que o presidente lhe concedesse uma licença com vencimentos, uma pequena garantia, para que lhe fosse possível aquela viagem ao Rio, onde pudesse apresentar seus poemas, encontrar os nomes da literatura de então, conseguir entrar para a história da formação da literatura brasileira e, quem sabe, ser nomeado para a melhor escola do país: o Colégio Pedro II. Não era um sonho impossível e acreditava mesmo que tudo pudesse transcorrer como no sonho, como no desejo.

O que ouviu de João Machado foi um peremptório “NÃO!” E mais: um “RETIRE-SE!”. Segundo a cunhada, Irene Fialho, fora: “Ora, Dos Anjos, não me amole mais!”. O suficiente para a ficha cair por dentro do cofre da compreensão e as tripas requererem uma urgente tomada de decisão. E foi assim que o Poeta Superior da Paraíba chegou em casa mais pálido do que já era, trêmulo e desiludido, e disse para a esposa: “Vamos para o Rio. Nunca mais porei o pé na Paraíba!” Dito e feito.

Já no Rio, vivendo as agruras de sua decisão, morava em pensões e se revirava para dar aulas particulares aqui e ali, como diz Agripino Grieco: “revejo aquela singular figura, qual a vi em 1912, nas vizinhanças da Muda da Tijuca, onde o pobre Augusto ia, premido pela necessidade, dar lições a uma família abastada do bairro.” Augusto escreve para a mãe, relembrando o rompante de João Machado: ”O procedimento do João Machado foi aqui muito censurado, sendo louvado com os panegíricos mais veementes meu ato de reação contra a diatribe do Joque.”

Joque era o apelido de guerra do presidente. Mas a cartinha de Augusto não fica só nessa oração. Diz mais: “Todos os políticos dessa terra me tem prometido emprego. Não sei se o fazem por delicadeza convencional do momento, ou se movidos pelo intuito sincero de me prestarem reais benefícios.” Ingênuo poeta. Inocente Augusto. Não entendia ainda que esse mundo da política provinciana é um eterno rio de malquerenças. Nenhum deles, jamais, lhe conseguiria qualquer ocupação, qualquer emprego, qualquer trabalho.

A cartinha cita o nome dos políticos de então: “Tais indivíduo se chamam: Valfredo Leal, Simeão Leal, Seráfico da Nóbrega, Castro Pinto e outros da mesma espécie.” Acredito que os nomes de Valfredo Leal e Simeão Leal sejam nossos conhecidos. Mas, enfim, que é do poeta? Sofre, desterrado, entre seus conterrâneos. Sem dinheiro e vivendo dificultosamente, vê sua esposa perder o primeiro filho e sente seus problemas de saúde se agravarem. José Oiticica descreve o seu estado como o de “penúria”. O irmão Odilon salva-lhe a posteridade arcando com as despesas do “EU”. E os seus, aqueles que tanto lhe prometeram? Desapareceram.

O resto da história todos vocês já conhecem. João Machado, Álvaro Machado, Valfredo Leal, Simeão Leal, Seráfico Nóbrega não passam de uma nota de pé de página da história e, para alguns nascidos nas terras do Brejo de Areia, na Paraíba do Norte, “nomes ilustres”. Pois bem, o Poeta Maldito, o sofredor, não pôde ver o que aconteceu depois: sua poética revirando as tripas do mundo da crítica nacional, seus versos declamados na boca do povo, seu nome salvaguardando toda a posteridade, inclusive os poetas desinteressantíssimos de hoje e de amanhã.


Lembrete: para a escrita desse texto foi tomado como base o livro Augusto dos Anjos – Obra Completa, da editora Nova Aguillar, de 1995, com organização e fixação do texto e notas por Alexei Bueno. Inclusive a fotografia dos poemas e da iconografia.

Texto de Aderaldo Luciano


Sou papa-jerimum!

Cortei o jerimum comprado na feira, já cortado em e sem casca, em pedaços menores. Sem necessidade porque o cozimento é rápido. Talvez para usar as mãos, para exercer algo que é ancestral e fala comigo desde longe, que é cortar os alimentos para prepará-los. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Cortei o jerimum comprado na feira, já cortado em bandas e sem casca, em pedaços menores, meio que sem necessidade já que o cozimento é rápido, mesmo se os pedaços são grandes. Talvez o fiz para usar as mãos, para exercer algo que é ancestral e fala comigo desde longe, que é cortar os alimentos para prepará-los. Mas foi na hora que peguei o processador, no qual jogaria os pedaços cozidos para fazer um creme ou purê, que o vento mudou na minha cabeça.

De repente veio a mim a roça de jerimum que nunca vi, a cadeia de mãos, como as minhas mãos, só que rude e hábeis, que talharam a terra e a semearam, atravessando chuvas e secas. As casas de taipa, o esforço enorme de gerações pelas ramas espalhadas sobre o solo, brotando frutos igualmente enormes, de carne laranja. E eu ali, com uma máquina do futuro, cheia de lâminas, a desfazer o jerimum de mil passados em purê. Era como um oxímoro, palavra que aprendi tardiamente e que gosto de usar; uma figura de linguagem que consiste em relacionar numa mesma expressão ou locução palavras que exprimem conceitos contrários.

A questão, sabe, é que nasci em Natal. Aos pouco versados em geografia, trata-se da capital do estado do Rio Grande do Norte. Muito cedo eu soube que era um papa-jerimum. Crescido no Recife, aviso tratar-se da capital de meu Pernambuco, não esqueci essa marca de nascença, esse signo de um pertencimento. Lembro cristalinamente da nossa mãe, minha e dos meus irmãos, informando-me sobre um passado que era um destino: Você nasceu em Natal. Você é papa-jerimum!

Papa-jerimum e Potiguar, que por sua vez significa comedor de camarão. Isso nos dá uma combinação que é um tipo de arte, como tantas que não não vistas como tal. O jerimum recheado com camarão. Iguaria que une o mar à terra, os reinos animal e vegetal numa simbiose única. Um sabor que é motor de muitas narrativas. Recordo que no bairro de Ouro preto, em Olinda, havia uma casa de família que preparava esse prato. Era necessário que se telefonasse combinando a data e informando quantas pessoas iriam. Não era um restaurante, mas pessoas como a gente, que abriam suas portas e recebiam estranhos, todos unidos pelo elo sagrado do jerimum com o camarão.

A verdade é que não sei exatamente de onde vem essa expressão papa-jerimum. Diz-se que vem de uma história de tal governador que pagou os funcionários do estado com jerimuns. Pouco interessante dito assim. Interessante mesmo são os jerimuns, que no Sudeste chamam de abóbora. Abóbora, fruto da aboboreira. Jerimum, fruto da fala, dos jeitos do Nordeste. Fruto do barro das casas espalhadas em roçados que se sobrepuseram a outros roçados postos sobre roçados.

Eu que sou urbano, de duas capitais, conheci o jerimum nos supermercados, sob a luz fria fluorescente. Mas parece-me que dentro de cada um deles há uma luminosidade amarela, quente, que emana e transporta quem a percebe para os campos onde crescem, das mãos de quem planta. É preciso, cada vez que se cozinha um jerimum, prestar algum tributo a essa história, sobretudo quando se é, como eu, papa-jerimum.


Pesquisando um pouco enquanto escrevia esse texto descobri um poema, escrito por Henrique Douglas de Oliveira. Ele tinha 12 anos quando escreveu esse poema e é potiguar como eu. Como eu, é papa-jerimum. Henrique Douglas é do pequeno município de José da Penha (alguém recorda Severino de Maria, dos versos de João Cabral de Melo Neto no seu poema Morte e vida Severina?), no interior do Rio Grande do Norte, perto de Mossoró e Pau dos Ferros. Com seu poema Henrique ganhou a medalha de ouro na Olimpíada de Língua Portuguesa daquele ano de 2012. Trecho do poema foi ainda utilizado numa questão do ENEM. Esse sucesso de 6 anos atrás e tão distante do Rio de Janeiro onde me encontro escrevendo, deixou-me orgulhoso do meu conterrâneo.

Tomo a liberdade de reproduzir aqui seu trabalho, que faça do sertão, da visita da chuva, do gibão e do gerimum… sim, com G mesmo. Leia o poema e descubra a razão.


Ôde casa?!

Ê, Ê, Ê… Morena
Ô, Ô, Ô… Machada
Ê, Ê, Ê… Grauno
Ô, Ô, Ô… Pelada.

O vaqueiro solta a voz
No oco do mundo,
Com seu aboio dolente
Em poucos segundos,
Encanta gente e gado
“Eita” aboio profundo!

Chapéu de couro e gibão
Luvas e peitoral,
Perneiras e sandálias
Tudo artesanal,
Ofício de meu pai
Vaqueiro magistral.

O sertanejo anseia
Uma visita em nossa terra,
Faz as honras da casa
E ansioso espera,
São José intercede
E o povo por ela reza.

Quando a visita chega
Molha o tapete vermelho,
Desbota todo ele
O caminho é só lameiro,
Pra nós é festa
É festa “pros violeiro”.

Eles cantam e encantam
Aqui no nosso recanto,
Em noite de cantoria
Improvisam com seu canto,
É coisa da nossa gente
Aqui do nosso canto.

Sítio Gerimum
Este é o meu lugar,
Pedaço de chão resistente
Como o povo que aqui está,
Que vive sempre firme
Firme no seu caminhar.

Meu Gerimum é com “G”
Você pode ter estranhado,
Gerimum em abundância
Aqui era plantado,
E com a letra “G”
Meu lugar foi registrado.

Este ano a visita
Raramente nos visitou,
Sua ausência causou tristeza
E nosso sertão chorou,
Nem as lágrimas derramadas
O chão seco molhou.

O tempo parece mudado
Mudou o verde do capim,
A brisa está mais quente
Não faz um carinho assim,
Até os passarinhos
Voaram pra longe de mim.

Espero que os bons ventos
Fluam na nossa cidade,
Visitem José da Penha
Sem nos deixar saudade,
Tragam-nos boa nova
Espalhando prosperidade.

Enquanto espero a visita
Você pode entrar,
Também é meu convidado
Pode se aproximar,
Nossa essência permanece
Sinta… Está no ar!

Henrique Douglas de Oliveira


Para encerrar, uma música de João Silva, parceiro de Luiz Gonzaga em músicas como Nem se despediu de mim e Pagode russo. A voz é de Marinês. De quem mais poderia ser? É tempo, é história e saudade.

Obrigado, Jerimum, por ter me dado assunto numa manhã abafada no Rio de Janeiro.

Texto de Toinho Castro