Independência Poética: Samara Belchior

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA

Poeta de hoje: Samara Belchior

Samara Belchior (1987) mora na Zona Leste de São Paulo, onde leciona na rede municipal de ensino. Foi aluna do CLIPE poesia (2021) e do Poesia Expandida (2022) na Casa das Rosas. Cursou licenciatura em história, licenciatura e bacharelado em filosofia. É autora de “bruxismo e outras automutilações” (Editora Urutau, 2022). Tem textos publicados em algumas revistas digitais e impressas. Se interessa por bruxaria, anatomia e coisas invisíveis. Tem dois gatos.

O que te inspirou a começar a escrever?

Não tenho um momento específico que marque o início da minha escrita. Desde que aprendi a escrever as primeiras palavras, fez muito sentido me relacionar com elas para expressar minha existência no mundo. Antes mesmo de aprender a escrever, as palavras faziam muito sentido sendo cantadas, a grafia das letras também.

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

Depende. Se estou envolvida com alguma pesquisa acadêmica, tento respeitar o movimento atual, do tipo de escrita atual com o qual estou lidando. É que percebo que às vezes não estou escrevendo poesia por estar entregue a outros tipos de processo de escrita. Para lidar com o bloqueio, em geral, ler poesia e prosa, ou seja, buscar inspiração, é uma saída. A troca com amigas escritoras próximas, o diálogo sobre o bloqueio é uma outra saída. Por fim, participar de oficinas, mini cursos ou recorrer a exercícios anteriores já utilizados, são possíveis outras saídas.

Seu maior sonho como escritor(a)?

Poder viver de arte.

Assunto preferido de escrever?

Há alguns temas comuns em minha escrita: corpo, processos fisiológicos e natureza. Não sei se tenho um assunto de preferência, de fato. Como minha formação percorreu história e filosofia, tenho a tendência de me deixar espantar pela vida, em geral.

Um elogio para sua própria escrita?

É estranha.

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Sim: “bruxismo e outras automutilações” pela Editora Urutau. Em breve vai rolar o lançamento de uma plaquete, pela Editora Primata, intitulada “ Para não ser de plástico quero ser bruxa”.

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

Processos fisiológicos corpóreos me impelem a escrever. Escrever é catártico para mim, me orienta na caótica existência no mundo, portanto meu corpo é o primeiro lugar em que a escrita aparece, antes de se transformar em palavra. Não é que seja só sobre a minha relação com meu corpo, mas com a forma como o entorno me chega, me afeta. Posso sentir um espasmo ao observar uma situação social na rua, uma fisgada na barriga numa conversa, um arrepio na nuca com uma música. O poema é um pré espaço vazio para elaborar o corpo e sua relação com o mundo. Escrevo a partir das angústias de ser um corpo no mundo.

Qual dos seus poemas mais te define?

Essa é uma pergunta muito complexa que não sei se vou responder corretamente mas, devo dizer, o poema que mais me define não é bem o que mais gosto e também: é circunstancial, talvez ele deixe de me definir.

autotrópode

as ecdises acontecem em silêncio
bicho com cobertura ao carboidrato não chora choro desidrata

(já se dizia, ser de açúcar faz precisar de capa)

de muda em muda se descobre conflito no próprio leito doendo no sono
esconde o que não sabe articular

Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

A parte mais fácil é a catarse, especialmente quando chega um poema, um verso, uma palavra perseguidora e companheira, fica contornando os órgãos, borrifando sentido na vida. A parte mais difícil é deter-se racionalmente, com base em técnicas e recursos, na edição, na lapidação, mas essa parte também é boa, gera uma sensação de produção artesanal. A parte mais difícil ainda é entregar o escrito pro mundo. A parte mais difícil das partes mais difíceis é a ansiedade da recepção: como chegou no outro? E talvez não dê pra saber.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

Não tem uma só e, surpreendente ou não, a prosa influencia bastante minha criação poética, assim como a filosofia e alguma literatura sobre história da medicina, biologia e morte. Na prosa Clarice Lispector me pega de jeito com “O livro dos prazeres”. Simone de Beauvoir me acompanha com sua filosofia existencialista de “O segundo sexo”. Adoro a produção de Caitlin Doughty sobre as práticas da indústria funerária. Na poesia é muito difícil estabelecer uma obra favorita, já que nos últimos dois anos me deparei muito de perto com autoras nacionais contemporâneas tão maravilhosas no CLIPE poesia da Casa das Rosas em São Paulo. Stella do Patrocínio e Alejandra Pizarnik são muito preciosas na poesia para mim.


Um livro de Samara Belchior

Nome da obra?

bruxismo e outras automutilações

Quando e em qual editora foi publicada?

2022. Editora Urutau.

Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?

Corpo, processos fisiológicos, inconsciente.

As poesias são divididas em fases nessa obra? Se sim, o que te motivou a fazer isso?

São três sessões no livro: “matéria macia feita de pele deitada”, “ampliar os cortes para saber de que tecido é feito o eu” e “estruturas porosas”. Dividi nessas três sessões poemas que falam: primeiro sobre as angústias do corpo individual, segundo sobre esse corpo que dói em relação ao mundo e à vida em sociedade e terceiro aos respiros possíveis numa existência que carece de criação de sentido constantemente, apesar da consciência da finitude do corpo e do eu.

O que te incentivou a escrever esse livro?

Desde criança sonhei com um livro de poemas publicado. Ainda tenho comigo meu primeiro caderno de poemas, de antes dos dez anos de idade. Em 2021 e 2022 participei do CLIPE poesia. Trata-se do Curso Livre de Preparação de Escritores da Casa das Rosas, em SP. Ali pude dividir minha escrita com outras poetas e outros poetas contemporâneos e estar sob a supervisão de professoras e professores que me incentivaram a desenvolver o projeto com o qual ingressei no curso.

É possível destacar uma poesia que mais se assemelha a seu cotidiano?

Se a gente entender cotidiano como passagem do tempo, acho que há um poema sim, rs.

amonite

olhar os dentes
no espelho perceber as coisas envelhecendo dentro
são ossos comidos na maresia tempo e maresia comendo o corpo alimento às bolhas
então as rótulas desgastadas na idade das mulheres de balzac sentem ondas soprarem ossos ao encontro do areal
justa e precisa a maresia engole, lento e preciso o movimento ao termo.

A sequência dos poemas conta alguma história?

Não.

Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?

Acredito que não ocorra de forma explícita, mas o posicionamento político é perceptível sim.

Qual a poesia mais marcante desse livro?

Não sei se posso responder isso, acho que depende muito mais da recepção do que da autora. Alguns se sentirão mais marcados por um ou outro poema, alguns não se sentirão marcados por nenhum. Depende da experiência das leitoras e leitores com os poemas.


Existirmos

Crônica de Toinho Castro


Para Caetano Veloso

De certa feita, estavam as amizades reunidas em um bar, à título de beber à vida e debater inutilidades. Passava das 10 da noite, a tal de 22h, quando alguém puxou o assunto ‘Deus”. E aí é lógico. Se Deus existe ou não existe. E isso é uma tremenda chateação em que as pessoas envolvidas, eventualmente, acabam se chateando. Porque tem sempre quem quer provar que Deus não existe e tem sempre alguém que acredita em Deus e compra o embate, parcelado. E argumentos banais voam de um lado para o outro da mesa, e nem sabemos se Deus tá assistindo de algum lugar. E isso é outra questão… se Deus existe, onde está Deus. Onde ele mora?! De onde ele dá os comandos e as linhas de código desse tumulto que é a existência humana?

Alguém mandou pra alguém em meio à balbúrdia regada a chopes que não paravam de chegar: Você já viu Deus?! Ao que o outro respondeu: Nunca vi! Mas você nunca viu a minha mãe e ela existe!

Normalmente qualquer argumento com mãe faz as pessoas mudarem de assunto. Menos se o assunto for Deus. O debate, se é que se pode dar a isso o nome de debate, prosseguia cada vez mais obscuro e emaranhado. Teve uma hora que não resisti: Minha gente… eu não sei nem se vocês existem. Ademais, pra discutir se Deus existe ou não, se faz necessária uma discussão prévia. Mas o que diabos é a existência?! Sem responder a essa demanda, não podemos discutir o que existe ou não existe.

Fez-se nervosismo na assembleia bêbada. De repente um louco pôs em cheque o direito de geral discutir se Deus existia ou não. Porque, afinal, ninguém sabia o que é a existência. Ou melhor, o que é existir. Era como ser de uma profissão que ninguém sabe onde se exerce, nem as habilidades requeridas ou mesmo o resultado do empenho. E eis que ali estávamos, sem saber sequer o que éramos, atrás de definir Deus. Perda de tempo que chama, né?! Talvez não.

Sou, pois, a favor dos altos debates. Sobretudo na mesa do bar. Mas também gosto de ser do contra. Gosto de discordar, como quem abana as brasas para avivar o fogo.

O que é existir, minha gente? — Perguntei. Eu existo? Uma vassoura existe? Deus existe como uma vassoura existe? Como uma lâmpada existe? Como uma cadeira num quarto fechado e sem testemunhas existe? Espere! Uma cadeira trancada num quarto vazio, onde ninguém pode vê-la, existe?! Quando eu era criança tive um amigo invisível. Que fique claro… invisível para os outros. Eu o via muito bem. Quando minha mãe perguntava onde ele estava eu dizia: Entrou no espelho.

Nada é garantia de que algo exista enquanto não sabemos responder a essa pergunta básica: Existirmos, a que será que se destina? ((Verso que abre a canção Cajuína, de Caetano Veloso, no álbum Cinema transcendental, de 1979))

De repente eram tantas dúvidas, tanta inconsistência, tanto devaneio, que a mesa aquietou-se. Então, um dos que estavam mais inflamados, deu um gole cinematográfico no chope, desceu a tulipa ruidosamente sobre a mesa e proclamou: Bem, pelo menos uma coisa é certa. Todo mundo um dia morre.

— Bem, eu não tenho tanta certeza disso… — Fala que provocou uma irritação geral.

Mas que diabos é “todo mundo”? Que entidade mágica é essa? Como é que a gente sabe que TODO MUNDO morre?! Eu sei, eu sei… tem aí um tempo médio de vida para o ser humano. Mas esse tempo varia, de acordo com as condições, com o país, com o grau de miséria e injustiça a que uma pessoa pode ser submetida. Depende do acaso, dos deslizamentos nos morros cariocas, do tifo, das sequelas da escravidão e também do ouro acumulado. Do sódio acumulado no organismo, dos embutidos. Mas e se no meio dessa confusão de gentes e estatísticas, alguém simplesmente não morreu?

Acho, inclusive, que li em Jorge Luis Borges que a morte é uma realidade estatística. Basta uma pessoa, em toda história humana, não ter morrido pra que a gente não possa mais dizer que todo mundo morre. Mas ninguém viu nem soube desse imortal, dirão os céticos à mesa. Pois bem, se fosse eu esse imortal, bem que ficaria caladinho, na encolha. Tal qual um Highlander, com um esquema muito bom pra enganar as pessoas e a receita federal. Tem aquele outro filme, O homem da terra, em que um professor revela às suas amizades, perplexas, que estava vivo há cerca de 14 mil anos. O filme é uma discussão sobre essa possibilidade. Sim, uma possibilidade. Dentre tantas.

Com a morte cessa a existência, dizem. Ou passa-se a existir numa outra condição. Talvez existir seja, proclamei à mesa exausta, a única condição.

Brindamos à existência. Brindamos a Deus, afinal. Ou adeus, como poetizou Miró. Não o pintor catalão, mas o pernambucano da Muribeca. Existindo ou não, seja lá o que for a existência, o Deus bíblico ou íntimo, feroz ou terno, homem de barbas brancas ou mulher radiosa, nos proporcionou uma conversa acalorada que avançou pela madrugada. Não fosse no Lamas, estaríamos já pelas ruas, inquirindo as árvores sobre a existência divina, ou mesmo a nossa. Sequer sabemos se as árvores sabem que existimos.

Mas a hora de cerrar as portas uma hora chega, mesmo pro Lamas. E o debate que se seguiu, ainda mais acalorado, foi sobre a divisão da conta. Valha-me Deus! Já do lado de fora, às despedidas, vimos as portas do Lamas descerem até o chão, e nos perguntamos se tudo o que estava ali dentro, que até uns minutos atrás compartilhávamos, ainda existia. Malditos bêbados. Já pra casa!

Enquanto nos afastávamos, cada um na direção do seu destino, como se algo tivesse rompido bruscamente a força gravitacional que nos matinha unidos, um de nós gritou, como quem quer ter a última palavra: Ninguém nunca viu um átomo!

A declaração foi recebida com uma sonora vaia e de alguma janela alguém fechou a noite com chave de ouro: Cala a boca, palhaço!

Quem quer que fosse, certamente existia. E deixou isso muito claro.

Caetano Veloso, 1972 – Imagem do Fundo Correio da Manhã (Arquivo Nacional)

Por onde anda a cena poética contemporânea de Alagoinhas?

Texto de LUCAS CARNEIRO — No curso dos últimos anos, algumas reflexões permearam com total intensidade pelo meu subconsciente, em especial aquelas que giravam em torno da cena poética do município onde resido desde a infância. Assim, levando em consideração o papel fundamental que a literatura desempenha em nossas vidas, ampliando o senso crítico, a sensibilidade e a humanização, indago: Por onde anda a cena poética contemporânea de Alagoinhas? Qual o panorama atual da poesia alagoinhense?

Texto de Lucas Carneiro

Nascido em Salvador – BA, possui 21 anos e atualmente reside na cidade de Alagoinhas – BA. É graduando do curso de Letras, Língua Inglesa e Literatura pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Desenvolve pesquisas sobre poesia moderna em expressão anglófona, com foco no processo de antropomorfização através da força da palavra poética.


I

No curso dos últimos anos, algumas reflexões permearam com total intensidade pelo meu subconsciente, em especial aquelas que giravam em torno da cena poética do município onde resido desde a infância. Assim, levando em consideração o papel fundamental que a literatura desempenha em nossas vidas, ampliando o senso crítico, a sensibilidade e a humanização, indago: Por onde anda a cena poética contemporânea de Alagoinhas? Qual o panorama atual da poesia alagoinhense?

Em meio a sociedade contemporânea gerida pela força da globalização e suas nuances objetivistas, é perceptível a presença de um completo distanciamento entre a atividade poética e a sociedade, ocupando, por assim dizer, um espaço marginalizado. Daí, como bem afiança Bosi: “vêm as saídas difíceis: o símbolo fechado, o canto oposto à língua da tribo, antes brado ou sussurro que discurso pleno, a palavra-esgar, a autodesarticulação, o silêncio” (BOSI, 1977, 143)1; situações duramente enfrentadas pelo poético como tentativa de se inscrever ante ao mundo moderno obnubilado pelo fluxo da reificação.

Esse topos do divórcio, como bem acentua Siscar (2010, p. 41) em seu ensaio sobre o discurso da crise na poesia moderna1, foi observado por Camões na estrofe 145 da sua magnus opus Os Lusíadas (1572), ao afirmar, em tom cético e descontente, que a lira se encontra completamente descompassada; e o poeta, por sua vez, exaurido, com a voz afônica de cantar a gente surda e endurecida. Nessa mesma perspectiva, o sujeito lírico do poema O poeta pras cadeiras (1970) de Zuca Sardan2 afiança que o bardo cumprimenta o seu público, entretanto, as cadeiras não podem sequer oferecer-lhe uma salva de palmas, pois estas se encontram completamente desocupadas e, mesmo possuindo braços e pernas, não há mãos a medir.

Tais situações constatadas por ambos os poetas se inscrevem com total força na contemporaneidade. Uma época desoladora marcada pela crisis, pela perda de prestígio e desvalorização dos discursos artísticos e ficcionais, cuja poesia, como uma maneira de cravar sua resistência frente ao presente cada vez mais indisponível, necessita se desdobrar a cada instante. Assim, de modo a superar alguns dos impasses gerados pela modernidade no que concerne o fazer poético, apontamos para uma necessidade de promover uma maior difusão, na esfera social, da cena poética contemporânea – visando não só expandir como também reconhecer alguns nomes dessa nova geração de bardos que através da potencialidade advinda das suas obras movimentam e contribuem para um maior enriquecimento do cenário literário/ cultural local.

Uma atividade que infelizmente ainda se apresenta timidamente no território municipal de Alagoinhas, pois a maior parte das atividades e projetos referentes à mobilização e divulgação da cena literária local tem sido realizada por parte de uma única instituição. Trata-se da Casa do Poeta de Alagoinhas (CASPAL)3, que com o apoio advindo dos seus membros e de alguns representantes do poder legislativo vem fomentando o lançamento de antologias, a idealização de concursos literários, e promoção de encontros e palestras visando uma maior difusão dessa nova legião de escritores do município baiano.

II

No dia 11 de agosto de 2022, a Casa do Poeta de Alagoinhas lançou a sua mais nova antologia intitulada Jovens Florescendo na Literatura (2022); livro que reúne cerca de 30 poemas e contos produzidos por jovens entre 10 e 18 anos. A idealização da obra surgiu após o I Concurso Literário Infanto-Juvenil promovido pela mesma instituição entre os meses de março e junho, que contou com o incentivo das redes públicas e particulares de ensino de Alagoinhas e região, e apoio de alguns escritores como por exemplo o satirense Luiz Eudes.

Neste sentido, em meio ao presente, onde as discussões referentes ao estado da literatura e dos discursos artísticos se apresentam cada vez mais frequentes, a propagação de tais eventos no meio social surge como uma maneira não só de estimular a produção literária e a prática assídua da escrita, mas também demostrar que a poesia, ou melhor, o discurso artístico em geral resiste; e sua resistência possibilita com que a cena literária contemporânea se apresente cada vez mais viva e diversificada. Diversidade esta que se torna perceptível quando levamos em consideração o poema intitulado Palavras não ditas (2022), escrito por Jorge Vieira de Carvalho, estudante de 17 anos da rede pública de ensino.

Palavras não ditas:

O silêncio às vezes fala mais alto que qualquer palavra
Presa dentro de mim e perdida aos olhos do erro
Entre dias vazios que me fazem refletir
Aquilo que um dia sonhei para mim.

Sou aquele que pensa e repensa.
Deixado ao vento e enganado pelos desejos da vida
Entre labirintos escuros sendo aquilo que um dia pensei que fosse
Entre palavras não ditas!
Sou aquele que renasce das cinzas.4

A obra que integra a coleção Jovens Florescendo na Literatura (2022), está estruturada em duas estrofes. A primeira caracterizada pela presença de quatro versos, e, a segunda, por cinco versos. Notemos que sua forma de composição é bastante simples, com esquema métrico organizado majoritariamente em versos brancos. Entretanto, é perceptível a presença de algumas rimas nos versos finais da segunda estrofe – entre as palavras ditas e cinzas – que concedem um ritmo e sonoridade ao poema.

Para tanto, adquirindo um tom confessional, a persona poética introduz a sua tessitura realizando algumas reflexões frente ao silêncio. Assim, descreve a sensação de quietude como um sentimento forte e um tanto quanto perturbador. A potencialidade dessa vivência íntima se torna percebível através da extrema capacidade do silêncio proferir, em tons altos, palavras que soam mais agudas que qualquer outra presa no seu interior, perdida aos olhos do erro.

Posteriormente, notemos que o eu lírico descreve os dias de monotonia como aqueles pelo qual as ponderações acerca dos seus anseios internos se intensificam. Sob esta perspectiva, é notório que há, ao longo dos versos da primeira estrofe, a presença de uma certa sensação de angústia intercalada a um contínuo estado de ansiedade; dois aspectos que saltam a vista e se concretizam mediante aos intensos pensamentos que permeiam incansavelmente pelo subconsciente da voz poética frente ao porvir.

Durante a segunda estrofe, o eu lírico afirma ser um sujeito coerente, que mantém sempre uma postura reflexiva a respeito de si e das coisas que estão ao seu redor. Deste modo, afirma que em meio a todas as inquietações íntimas, aos acontecimentos tormentosos, as situações pelo qual foi deixado de lado, aos enganos frente aos desejos da vida; entre os labirintos escuros e palavras (antes) não ditas, o mesmo, tal como a fênix que carrega em seu seio mitológico o arquétipo da imortalidade, ressurge das cinzas – expressão que surge como maneira de traduzir todo caos interior vivenciado pela persona.

Assim, tal como o renascimento do sujeito lírico de Palavras não ditas (2022), por via do tormento e da aflição, a poesia contemporânea, também incorporando o lado místico da fênix, ressurge com total ímpeto e vigor por intermédio das suas cinzas, ou, mais especificamente, do seu estado atual de crisis. Um aspecto que aponta para força da expressão lírica de Jorge Vieira, como também reforça a potencialidade da cena poética atual alagoinhense.

III

Para além do lançamento da obra Jovens Florescendo na Literatura (2022), é importante destacar o papel fundamental desempenhado pela CASPAL e seus membros no lançamento da antologia poética Bardos Baianos: Litoral Norte e Agreste Baiano (2022).

Em uma época desoladora marcada pelo fascismo e autoritarismo, onde a poesia moderna foi “compelida à estranheza e ao silêncio. Pior, foi condenada a tirar só de si a substância vital” (BOSI, 1997, p. 143), a obra reflete um trabalho magistral, desempenhado com extrema qualidade e dedicação. Trata-se de uma das maiores antologias poéticas realizadas em solos baianos nos últimos anos, tendo como principal objetivo fomentar o fazer poético na região – perpassando por diferentes cidades de modo a valorizar cada vez mais essa nova geração de bardos, além de ampliar os diálogos entre os demais escritores que, através da qualidade advinda das suas obras, contribuem para um ainda maior engrandecimento da literatura baiana.

O projeto idealizado por Ivan de Almeida, coordenado e articulado no território do litoral norte e agreste baiano por Luana Cardoso e Vanessa Paz, contou com a participação de 50 poetas, sendo 38 naturais da cidade de Alagoinhas. Um número que aponta para a extrema vitalidade da atividade poética no município1, com pessoas empenhadas na produção de poemas que transitam entre os mais diversos estilos; ecoando suas vozes através das múltiplas temáticas contemporâneas que possibilitam o sujeito a refletir cada vez mais sobre si, o mundo e as coisas que se encontram ao seu redor – como é o caso do poema Habitar (2022) de Madrilena Berger:

Habitar

Habitar
O mar, sol, areia, sereia.
Cavalo alado marinho cor do ninho.
Baleia maior mama sem dor.
respirar por espiráculo.
Constante choque no tocar,
Peixe elétrico neutralizar no fundo do mar.
Asa aberta metro tentáculos.
Água viva cnidoblastos,
Lança vítima alimentar.
Busca constante sobreviver,
Não encontra ar puro,
Procura água límpida, encontra lodosa, fétida.
Economia faz destruição do próprio ninho,
Chamada terra, seres em extinção, ó homem cão! [^5}

Notemos que a poeta situa sua tessitura numa questão bastante atual, cujas discussões ao longo dos anos têm sido fortemente intensificadas frente ao contínuo processo de degradação ambiental. Realizando uma espécie de eco crítica – aspecto que marca presença também na lírica de outras poetas como Adélia Prado – a voz poética, ao longo da sua obra, aponta para os reflexos da ganância exacerbada do sujeito humano e suas trágicas consequências a mãe natureza. Com relação a sua forma de composição, é perceptível que o poema está organizado em uma única estrofe que se caracteriza pela presença de quinze versos. O esquema métrico está estruturado majoritariamente em versos brancos; entretanto, se faz visível, ao longo do corpo textual poético, a presença de algumas rimas internas que concedem uma sonoridade ao poema.

Deste modo, o eu lírico introduz o seu poema com a presença de um verbo que segue o mesmo título do poema: habitar. Habitar surge como um desejo profundo da persona em residir nas belezas que compõe a mãe natureza: o sol, o mar, a areia. Notemos, ainda levando em consideração o seu querer, que a voz lírica evoca alguns seres mitológicos, como por exemplo a sereia e o cavalo arado marinho – o último, visto como uma espécie de fusão entre Pegasus e Hippocampus.

Adiante, oferece algumas imagens de animais marinhos, como por exemplo a Baleia maior, vista nesse contexto como uma referência direta a baleia azul – mamífero marinho que se encontra ameaçado de extinção devido as caças comerciais. O peixe elétrico que produz descargas elétricas como uma maneira de neutralizar seus predadores e, acima de tudo, escapar de qualquer tipo de ameaça. Como também a água viva, que com seus cnidoblastos (pequenas células que se encontram presentes nos tentáculos como uma forma de autodefesa) lança vítima alimentar.

Nos versos seguintes, os reflexos do comportamento humano frente a mãe natureza se intensificam. Em vista de tais tensões, a voz lírica afirma que os animais que compõe o nosso vasto ecossistema lutam constantemente para sobreviver. E, frente ao contínuo desmatamento, exploração e poluição, aspectos responsáveis pelos impactos destrutivos ao meio ambiente, os seres vivos não encontram ar puro para manter sua vitalidade. Assim, os animais marinhos buscam constantemente águas límpidas para sobrevivência, diversidade e reprodução, entretanto, devido a cruel força das ações humanas sob o meio a natureza, encontram apenas lodosas e fétidas.

Por fim, a persona poética finaliza sua tessitura afirmando que a economia faz destruição do próprio ninho chamado terra. Nesses versos, se faz visível a presença de uma crítica direta ao capitalismo e suas nuances objetivistas, responsáveis por acelerar cada vez mais o processo de reificação – fazendo com que o ser humano desenvolva comportamentos opostos à sua condição humana, adotando uma postura objetivista e empedernida com si e as coisas que estão ao seu redor. Para tanto, o poema Habitar de Madrilena Berger, intervindo de modo direto na realidade social no qual estamos inseridos, se dispõe a nos alertar, por via da força catalisadora dos seus versos, a respeito do comportamento cruel e desumano que desempenhamos constantemente para com a mãe natureza, que oferece elementos essenciais para sobrevivência humana.

IV

Em tons de considerações parciais, este ensaio orbitou em discutir a respeito da cena poética contemporânea alagoinhense, tendo como objeto de análise dois poemas que integram duas antologias lançadas recentemente em solo baiano. Deste modo, se torna perceptível a presença de uma certa vitalidade e diversidade da atividade poética produzida no território. Entretanto, constata-se também uma dificuldade por parte das autoridades6 em proporcionar uma maior divulgação da cena poética/literária local, bem como oferecer um apoio aos autores que movimentam o panorama cultural do município através das suas produções.

Isto posto, num país nebuloso rasgado pela opressão, desigualdade e autoritarismo, a poesia se faz extremamente necessária para resistirmos ante aos tormentos da realidade e suas amarras dispostas no cotidiano. Ao considerar tais fatores, entendemos, tal como acentua o poeta e ensaísta Antônio Brasileiro (2012, p. 145)7, que não é dever da poesia promover a salvação: “A poesia, é claro, não salva coisa alguma. Nem está aí para isto.” Mas sim conceder, por intermédio da força catalisadora da palavra poética e sua capacidade reveladora, um sentido direto à vida ao possibilitar intensas aproximações humanizantes – intervindo de modo crítico na realidade e práticas sociais cotidianas.

 


1. BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Editora Cultrix, 1997

2. SARDAN, Zuca; DE HOLLANDA, Heloísa Buarque. O poeta pras cadeiras. In: 26 poetas hoje. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2021.))

3. A Casa do Poeta de Alagoinhas (CASPAL)

4. CARVALHO, Jorge Fernando Vieira. Palavras não ditas. In: Jovens Florescendo na Literatura: I Concurso Literário Infanto Juvenil. Alagoinhas: CASPAL, 2022.

5. BERGER, Madrilena. Habitar. In: Bardos Baianos: Litoral Norte e Agreste Baiano. Salvador: Editora Cogito, 2022.

6. No ano de 2022, a câmara municipal de Alagoinhas através das vereadoras Jaldice Nunes e Juci Cardoso, concederam aos escritores locais a medalha Maria Feijó em reconhecimento as grandes contribuições advindas das suas obras para um maior enriquecimento do cenário cultural e literário local.

7. BORGES, Antônio Brasileiro. Da Inutilidade da Poesia. Salvador: Editora EDUFBA, 2012.


Independência Poética: Thainá Carvalho

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA

Poeta de hoje: Thainá Carvalho

Thainá Carvalho é escritora e colagista sergipana. É criadora da Revista Desvario, uma publicação digital sem fins lucrativos voltada à difusão da literatura contemporânea criada por mulheres. Lançou, pela Editora Penalux, os livros de poesias As coisas andam meio desalmadas (2020) e O Amor em breve anatomia das horas (2021). Organizou, com Amanda Reis, a antologia de poetas sergipanas Passos da pedra ao mar. Já publicou em revistas e portais como toró editorial, Jornal Rascunho, Portal Não Me Kahlo, Ruído Manifesto e A estranhamente.

O que te inspirou a começar a escrever?

Escrevo desde adolescente. A escrita pra mim sempre foi um encontro comigo mesmo e com o que sou capaz de fazer, especialmente em um momento completo como esse de transição para a vida adulta. Durante algum tempo, entre meus 18 e 24 anos parei de escrever por completo pois achava que jamais seria tão genial como escritores renomados e, naquela época, enxergava a escrita como essa espécie de dom que você tem ou não tem. Retornei a esse processo de escrita ali pelos 25 anos, inspirada por mulheres escritoras contemporâneas. Acompanhar o trabalho dessas mulheres me fez enxergar a escrita como algo possível e real, acessível a todas as pessoas enquanto fruto de estudo e prática.

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

Insisto na escrita pois acredito que qualquer resultado vem por meio da prática. Embora diversos fatores possam contribuir para um “bloqueio”, como cansaço, preocupação, insegurança etc., acredito que se permitir escrever apenas quando “bate a inspiração” limita o próprio processo criativo a um fator externo que estaria fora do nosso controle. Temos que dominar nossa escrita, entendê-la, estar com ela quanto estamos bem ou não. A palavra pode ser nossa melhor companhia.

Seu maior sonho como escritor(a)?

Conexão. Acredito que já realizei esse sonho por meio dos meus leitores. A cada retorno que recebo de alguém que se identificou com minhas palavras, sinto que minha escrita cumpriu sua função de ser abrigo para alguém.

Assunto preferido de escrever?

Confesso que não tenho um assunto preferido. Gosto de variar temas e, com isso, diversificar métodos da escrita poética.

Um elogio para sua própria escrita?

Mergulho

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Meu primeiro livro de prosa poética, Síndromes, foi publicado de forma independente e digital e pode ser obtido gratuitamente aqui. Posteriormente, publiquei dois livros físicos de poesia pela Editora Penalux: As coisas andam meio desalmadas (2020) e O Amor em breve anatomia das horas (2021). Publiquei também uma zine digital gratuita, Na tua boca estrangeira, que pode ser baixada aqui. E organizei, em 2021, a antologia de poetas sergipanas contemporâneas Passos da pedra ao mar.

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

De tudo um pouco. Gosto muito de observar os pequenos momentos, tanto meus quanto de outras pessoas, pois acho que cabe muito sentimento naquilo que é simples.

Qual dos seus poemas mais te define?

Acho que cada poema me define um pouco. Fui muito impactada por uma fala de Audre Lorde, que está no livro Irmã Outsider, onde ela explica a poesia como uma forma de dar nome àquilo que nem sequer sabíamos que tínhamos dentro de nós. Esse processo acontece muito comigo, de me reconhecer no resultado de um poema.

Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

Para mim, essas partes são complementares. A parte mais difícil é a reescrita dos poemas. Revisitar e refazer versos para escrever um poema melhor. A parte mais fácil é o início de tudo, sentir a primeira palavra, a primeira forma, a primeira escrita do poema.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

Não consigo definir uma obra específica, mas os livros da escritora mineira Mell Renault sempre me encantam.


Um livro de Thainá Carvalho

Nome da obra?

O Amor em breve anatomia das horas

Quando e em qual editora foi publicada?

Publicado em 2021, pela Editora Penalux

Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?

A obra conta a história de amor de uma vida em um período de um dia. Nesse contexto, os poemas falam sobre o amor no cotidiano de um casal, ao longo de sua vida.

As poesias são divididas em fases nessa obra? Se sim, o que te motivou a fazer isso?

O Amor em breve anatomia das horas se divide em cinco partes: noite, madrugada, manhã, meio-dia e fim de tarde. São cinquenta poesias que se espalham ao longo dos períodos de um dia para contar essa história de amor de uma vida inteira. Essa divisão foi pensada para mostrar como o amor relativiza o tempo. Quando amamos, o tempo parece passar rápido demais ou cada momento pequeno se demora com a gente para sempre. Quis usar a poesia e forma de organização dos poemas para dissecar esses sentimentos, essas sensações paradoxais que se complementam.

O que te incentivou a escrever esse livro?

Ainda não tinha me dedicado de forma mais intensa à escrita de poemas de amor, de forma que quis mergulhar nessa temática e achei que a melhor forma de fazer isso seria me dedicar a um projeto de livro.

É possível destacar uma poesia que mais se assemelha a seu cotidiano?

O poema História de uma casa, pois acabo me mudando com certa frequência. Transcrevo abaixo:

História de uma casa

É preciso abrir as janelas
molhar de luz
as pálpebras 
e as esperas.

É preciso abrir os espaços
esvaziar os quartos
e as cantigas das estantes
– vida que flui
rio enchente vazante.

É preciso abrir céu nas paredes
e toque nos corpos d’água
para alimentar um interior de concreto
– a arquitetura empoeirada do ser.

É preciso abrir as tempestades 
nas gavetas e nos armários
deixar que chova
inundação de si
em todas as quinas
cheiro de si
em todos os canos

deixar um sentir qualquer na casa dos outros.

A sequência dos poemas conta alguma história?

Sim. Como expliquei anteriormente, acerca das divisões do livro, elas trabalham o tempo de um relacionamento amoroso do início ao fim da vida do casal.

Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?

Temas políticos específicos não foram abordados, mas penso na história do livro como uma demonstração de resistência no amor. Resistir no amor é uma escolha política.

Qual a relevância dos personagens implícitos/explícitos da obra?

São duas personagens de fácil identificação para quem já se viu em uma situação de paixão e amor. Acredito que elas permitem uma conexão intensa com o leitor.

Qual a poesia mais marcante desse livro?

Acredito que seja a poesia que dá nome ao livro, que transcrevo abaixo:

Distância

Tenho que lhe contar
dos minutos lagarteando ao sol,
eram pequenos e breves
e verdes
brilho mágico de amansar incertezas
na calma do ficar
só ficar
e perceber a expansão do mundo
no abraço de dois seres
no sorriso fruto escorrendo pela boca
para se plantar no chão, nas pedras
onde quedam os segundos
tomando luz.
Tenho que lhe contar
do que vejo, sendo tudo seus olhos
pois longe é muito longe sem você
e arremedo seu pensar e seu dizer:
– esse tempo se iluminando assim
é coisa da sua cabeça
que adoro.
E você ri daí mesmo, eu sei
preenchendo a superfície que se estende entre nós,
seu colo quente tocando miudezas no meu cabelo
enquanto observamos o dia e o amor
em passagem anatômica das horas.


UMA CARTA ABERTA

de Kleber Mendonça Filho —


Para a Sra. Governadora Raquel Lyra
Sra. Renata Duarte Borba, Presidenta da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco – Fundarpe.
Sr. Silvério Pessoa, Secretário de Cultura.
Amigas, amigos e colegas do audiovisual,
Conselhos do Audiovisual e de Cultura
Vereadores, Deputados que lutam pela Cultura. Bom poder compartilhar isso com todas vocês.


Uso esse espaço para externar algumas preocupações com o Cinema São Luiz. A nossa grande sala na Rua da Aurora fechou para uma reforma em julho do ano passado, ainda no governo do Sr. Paulo Câmara, e já estamos chegando em abril na vossa administração sem que existam informações concretas sobre a reabertura do São Luiz.

Quando o São Luiz reabre?

Nos últimos dias, circula a informação confirmada de que uma parte importante da valiosa equipe que cuida do Cinema São Luiz foi demitida. Essa equipe é composta por João Bosco, Miguel Tavares, Arthur Abdon, Arthur Frederick (Tuca), Gustavo Coimbra, Eliane Muniz, Bruno Alves, Joyce Suelen, Wilma Carvalho, Maria das Graças, Ione Jesuina, Inaldo Inácio, Alexandre Amorim, Luiz Gustavo Fernandes, Adriano Mota e Edmilson Severino de Barros.

Foram quatro demitidos da equipe principal. Três colaboradores dos serviços gerais foram supostamente transferidos para a Casa da Cultura, e há ainda a possibilidade de um corte de 50% nos vigilantes.

Em janeiro, já nesta gestão, o programador Luiz Joaquim, profissional de competência reconhecida nacionalmente, foi exonerado.

Luiz Joaquim substituiu Geraldo Pinho, que fez um trabalho histórico no São Luiz ao longo da última década. Geraldo esteve à frente dessa equipe que está agora sendo desmontada.

Geraldo Pinho faleceu em dezembro de 2021, uma perda trágica para o audiovisual pernambucano. Era um formador de público, assim como Luiz Joaquim, também um formador de público. Formar, seja numa escola, numa orquestra ou num cinema, passa por generosidade e senso de cidadania.

O aparente desmonte dessa grande equipe do São Luiz é perturbador. Quando em 2006 o SL deixou de ser uma sala comercial do Grupo Severiano Ribeiro – que inaugurou o cinema em 1952 – e foi adquirido pelo Governo Eduardo Campos no final da década de 2000, os desafios eram grandes. Como manter uma sala de mil lugares no centro do Recife, na era do shopping center e do multiplex?

A resposta foi construída aos poucos, e sem jamais seguir uma lógica de mercado, pois não seria nunca o caso. O São Luiz é um outro tipo de espaço, é um investimento do estado num nascedouro de idéias, um espaço de convívio que inspira o respeito à história da cidade e do Cinema. É um prédio histórico.

Esse cinema virou palco e tela para o cenário audiovisual pernambucano e a sala sozinha vendeu perto de 100 mil ingressos em dez anos somente para filmes produzidos em Pernambuco, filmes em lançamentos comerciais. Até antes da pandemia, o São Luiz era um caso já sendo estudado e observado, um micro clima isolado com uma programação aberta para o mundo, para a Cultura do Brasil e para o Cinema feito em Pernambuco.

Importante destacar que os equipamentos de projeção e som do São Luiz, com projeção 4K anos antes de o termo virar padrão técnico reconhecido, é melhor do que a maior parte das salas comerciais que cobram ingressos quatro ou cinco vezes mais caros nos shoppings.

Nos segundos semestres dos últimos 12 anos, uma sequência de festivais e mostras de audiovisual, realizados por produtoras e produtores pernambucanos, em grande parte incentivados pelo Funcultura, trazem grandes públicos para ver centenas de filmes. Com diversidade e um olhar democrático para a sociedade.

Cada festival tem a sua própria rede de trabalhadoras e trabalhadores da cultura, cada um tem seu público, e há um público que parece frequentar todos os eventos, interagindo com cineastas de todo o Brasil e do exterior que vêm ao Recife para estar no São Luiz.

Quais os ganhos de sociabilidade e cidadania para uma cidade como o Recife ao vermos mil pessoas saírem do São Luiz para a Rua da Aurora numa das suas sessões, com outros mil espectadores esperando a próxima sessão? E no centro da cidade, uma área que ainda aguarda o respeito que merece para além das estruturas temporárias do carnaval.

Observo ainda que, num carnaval tão maciçamente filmado e fotografado, a fachada do edifício Duarte Coelho acima do São Luiz – totalmente degradada – expõe o nível de abandono que não mostra preocupação nem com a cosmética de um centro de cidade que recebe visitas do país inteiro.

Essa equipe que está sendo desmontada é milagrosa porque desde que o São Luiz passou a ser uma sala pública via Governo de Pernambuco, falta um pensamento consistente de sustentação desse cinema como projeto de Cultura e espaço de investimento, algo que precisa ser resolvido o quanto antes. Isso significa que as deficiências e obstáculos do dia a dia do cinema caem nos ombros dessa equipe que ama o São Luiz e que, de fato, opera milagres.

Às vezes eu acho que o São Luiz, e o trabalho ali feito, impressionam tanto que muitos parecem achar que esse cinema é mágico, que vive de oxigênio e anda sozinho. O São Luiz é como uma pessoa idosa, que exige cuidados especiais, que precisa de dinheiro para sobreviver, que precisa de respeito e de amor. A equipe é toda formada por excelentes cuidadores que amam aquele lugar. Demitir a equipe é como uma punição para uma boa ação.

O que significam as demissões desta semana? Arthur Frederick (Tuca, trabalhador da bilheteria) gravou mensagem de video sobre o seu trabalho no São Luiz durante 12 anos, postado no YouTube. Suas palavras traduzem sentimentos complexos.

Como cidadão, eu imagino os desafios que existem num novo governo. E sei que há um pensamento corrente de que a Cultura fica em segundo plano quando comparada à Economia, à Saúde, à Segurança e à Educação. Isso me parece uma compreensão equivocada. Em Pernambuco, a Cultura é um tesouro de valor inestimável para o estado. A Cultura molda a imagem desse estado e manifesta-se em todas essas áreas ditas prioritárias. A Cultura é Economia, Saúde, Segurança e Educação.

A escrita desta carta tem o objetivo de lhes perguntar o que exatamente está acontecendo com o Cinema São Luiz?

Quais os planos?
Qual a data de reabertura?
Quais a ideias para a Cultura em Pernambuco nessa nova gestão?

Como se dará um diálogo com os que fazem o audiovisual em Pernambuco, reconhecido dentro do próprio São Luiz, no Brasil e internacionalmente? No último mês de setembro, o São Luiz completou 70 anos, e de portas fechadas.

Agradeço a atenção e lhes escrevo como Cidadão e Artista pernambucano, Roteirista, Cineasta e Formador de Público programando filmes.

Kleber Mendonça Filho

Cinema São Luiz, Psicose de Hitchcock. Foto Tiago Calazans.
Cinema São Luiz, Psicose de Hitchcock. Foto Tiago Calazans.

A Dança do Amor 

Texto de Ana Egito —

Foto de Ana Egito

O quarto esconde muitas histórias desses corpos que não se desgrudam mais, e na ausência deles, denuncia o cheiro que exala entre cada canto que desenha contornos e nuances que se movem na sintonia do vento adentrando a janela, as portas, os espaços onde cabe tudo que inspira e não sai. 

Fosse a morte visitante inesperada, não se atreveria a resgatar corpos inseparáveis, seria ela abatida pelo prazer de se sentir leve e solta demais, a liberdade é transparência de todas as cores que reluzentes, encantam até os olhares mais frios, inveja de quem vê e não tem, inebria o bem de amar, castiga o fogo de acender e não se apagar, fonte de prazer, cobre-me por todos os desejos do bem de se dar e receber o gozo do prazer.  

Pra sempre é tempo longe, demais se desfaz por ser advérbio de intensidade, agora, advérbio de forma recente, convém com todas as formas, tempo, mágica surpresa, escalada crescente que engana o presente e se impõe, vitória, conquista, realização, é quando a alma se desprendendo do corpo enquanto a carne amolece, desenha a felicidade eternizada nos momentos mais impuros, egoístas e sábios, é assim que entendemos o antagonismo dessa tal sociedade privada de ser… 


Haicais de Diego Petrarca

Haicais são sempre bem-vindos aqui na Kuruma’tá. A concisa forma poética japonesa, que teve como mestre Matsuó Bashô, tem encantado e desafiado poetas e amantes da poesia ao longo dos séculos. Diego Petrarca aceitou o desafio, para a nossa sorte, e adicionou sua palavra a esse legado.

Seja bem-vindo, Diego!!


Foto de Kate Graur

Janela aberta
fio de vento
arrepio de lábio


Folhas na calçada
a tarde acaba
atrás das casas


Noite choverando
asfalto molhado
a rã salta alto


Rosto no espelho
espelha o mesmo rosto
no lago sereno


Folhas agitadas
begônias surpresas
no fim de tarde


Diego Petrarca nasceu em Porto Alegre em 20 de março de 1980. Mestre em Teoria Literária – Escrita Criativa. Publicou, entre outros, os
livros Tudo Figura, (2014), – selecionado pelo Plano de Edições do Instituto Estadual do Livro (indicado ao prêmio AGES poesia 2015) e
Carnaval Subjetivo (Bestiário – 2018), Melhor é ser um peixe (Plaquete – Bestiário). Tem poemas publicados em mallarmargens, Literatura & Fechadura, Acrobata e Redesina.

Arte e Território: Moradores da Comunidade do Vintém recebem residência artística

Projeto Práticas Desviantes, em parceria com o Museu Murillo La Greca, oferece imersão cultural gratuita para moradores da Comunidade do Vintém no Recife

Como forma de criar e valorizar diálogos sobre a memória e a preservação da história sociocultural da comunidade do Vintém, situada no bairro do Parnamirim – Zona Norte do Recife, a quarta edição da residência artística Práticas Desviantes, financiada pelo Fundo de Incentivo à Cultura (Funcultura PE), irá promover durante os meses de março e abril oficinas, ateliês abertos e diversas outras atividades. O projeto, que conta com a coordenação e a curadoria da artista visual pernambucana Ariana Nuala, foi criado em março de 2018 com o propósito de entender a paisagem e o território a partir da relação entre o Museu Murillo La Greca e a comunidade do Vintém, articulando discussões e propostas visuais relacionadas ao espaço urbano.

Ariana Nuala – Foto de Rebeca Carapiá

Dois artistas foram selecionados para compor a residência artística: Lia Letícia, artista visual que investiga o urbano nas linguagens do vídeo, do corpo e da instalação, produzindo videoarte e filmes experimentais, e Rafael FX, profissional da dança que pesquisa sobre os corpos/corpas submetidos/submetidas ao fenômeno da violência no contexto das cidades e metrópoles. Os artistas serão orientados por Iagor Peres, artista que busca desenvolver práticas híbridas para compor seus processos, criando esculturas, telas, videoinstalações, performances e textos.

A residência Práticas Desviantes, intitulada nesta terceira edição como “Alavanca”, propõe desenvolver mais profundamente essas relações entre artistas, museu, moradores do Vintém e público interessado. A escolha dos artistas para ativarem esse espaço de troca e construção com a comunidade foi baseada na própria poética desenvolvida por Lia Letícia e Rafael FX, que constroem, a partir do território e do corpo, métodos, formas e medidas que dialogam diretamente com um projeto decolonial de arte-educação. A Vila do Vintém é um território de cultura ribeirinha que resiste em meio à especulação imobiliária que cresce e contorna a cidade do Recife. A comunidade resistiu territorialmente ao lado do Museu Murillo La Greca, e mantém relações de pertencimento acerca do equipamento cultural público e das propostas artísticas nele existente.

“Com o projeto Práticas Desviantes, os artistas e a comunidade do Vintém terão a oportunidade de repensar o espaço urbano e suas relações afetivas-sócio-econômicas, ajudando a desconstruir a ideia de que apenas classes sociais mais favorecidas economicamente podem consumir o que os espaços culturais oferecem”, destaca Ariana Nuala, curadora do projeto.

Os ateliês abertos da residência irão intensificar a aproximação do Museu Murillo La Greca (MMLG) com o Vintém, em sua potência artístico educativa como equipamento cultural público voltado para as artes visuais. De 10 a 24 de março o artista Rafael FX montará seu ateliê aberto na comunidade, com foco no grafite e nas danças urbanas, visando desenvolver provocações históricas e conhecimento corpóreo de motricidade e ação no espaço. Entre 15 e 30 de março, Lia Letícia ocupará também o espaço com o projeto de residência “Doce”, que trata de relações pessoais nascidas a partir da necessidade ancestral de união/partilha/comunhão em comunidades, conhecendo quem são as doceiras e confeiteiras da comunidade, suas estórias e seus processos.

A iniciativa contará também com oficinas que serão desenvolvidas pelos artistas residentes para a comunidade. Durante os dias 11 e 12 de março, Rafael FX irá oferecer duas oficinas sobre vivências em Grafite e vivências em Danças Urbanas, com foco na história e no corpo. E nos dias 18 e 19 de fevereiro, Lia Letícia irá desenvolver um processo de produção de doces e bolos com pessoas da comunidade.
As ações de compartilhamento e imersão serão realizadas dentro do Museu Murillo La Greca e na quadra esportiva da comunidade, estendendo as noções sobre espaço cultural e levando a discussão sobre arte contemporânea e o fazer artístico para além do espaço físicos institucionais. O objetivo é promover a troca de experiências e a construção de novos saberes, levando para dentro do museu as criações feitas a partir dos encontros com a comunidade.

O resultado da residência artística possibilitará trabalhar as dimensões do que seria um território interno/externo para produções visuais, que servem como dispositivos efetivos para comunicar problemas complexos e potencializar modos de investigar a realidade. A culminância do projeto será apresentada publicamente no dia 13 de abril na comunidade do Vintém, cujo os detalhes serão divulgados em breve no perfil oficial do projeto no Instagram @praticasdesviantes.


Serviço:

O que: Residência Artística Práticas Desviantes
Onde: Comunidade do Vintém – Parnamirim – Zona Norte do Recife Quando: De 10 a 30 de março
Quanto: gratuito
Mais informações: No Instagram @praticasdesviantes


A poesia Liana Timm

E o inbox da Kuruma’tá não para de surpreender. A cada dia chegam mais mensagens com poemas, crônicas, fotografias, artes plásticas, músicas… E hoje, aqui na Kuruma’tá, é dia de Liana Timm, artista multimídia, arquiteta, poeta e designer. Vive em Porto Alegre, num atelier em permanente ebulição. Liana compartilhou com a gente uma série de poemas e trabalhos plásticos, misturando pintura e técnicas digitais, da série EXTRAVAGANTE!

Que beleza recebê-la em nossas páginas, Liana. Seja muito bem-vinda!


SEGUNDA-FEIRA

Não escrevo diários nem tenho coleções
e as agendas me servem
como um exercício de geografia

Minha vontade é forte
animada e permanente
como a imaginação
Não promete nada,
nem na segunda nem em dia algum

Aliás os dias da semana não importam
Terça pode ser domingo e domingo…
um nome de planta
ou animal de estimação

Não planejo o tempo
e ser bem-comportada fere minha natureza Pisar em falso
uma descoberta que me dá um medo bom

Se lá adiante
percebo o equivoco de uma escolha
entendo isso como…

provação?

 


A VIDA NO ENTRE

A angústia nos acompanha
desde o paraíso
aqui fora colecionamos perigos

as limitações resumem as crises
arriscando garantir cobertas por seguros
o caos da ansiedade que costura
loucura e labuta

a vida é trabalho constante
o vento o contador do tempo

em sussurro permanente
espanta da água parada
redemoinhos

insetos que mordiscam
suor e esforços
mostram eufóricos os dedos
de quem deixa no ar
um jeito entrelaçado
de sombras e descaminhos

 


PASSADIÇO

falar de contrajeito o que precisa?
escrevo
para alguém e nunca para nada

para quem desconhecido
me acompanha
no barulho de vários erres
nos abafados emes
nos estalos de muitos pes

isolada e flutuante
labuto no que se guarda
depois de pronto

depois de revisado e revirado
e bem marcado

as lentes fracas
de perto congelam a alegria
revivem da infância vários infernos
de antemão

na abstração cega do tempo
aquele acabrunhamento
joga de repente
a gente no chão

 


QUARTA-FEIRA

tão peculiar essa cidade de arranha-céus
povoada de porcelanas taças de cristal
cinquenta setenta anos
de um colecionismo solitário

a diarista hoje se esqueceu
e não trouxe o que despista
o fracasso da infelicidade
e esta mágica saudade
dá a ilusão de quem pede
estar contigo
para toda eternidade

sob um céu
que amarela à tardinha
respiro das paredes
a permissão de mais um dia te querendo
como a mim desejando água de fonte
clara transparente
reflexo do milagre da sede
e horizontes

amanhã mais atenta
contarei nos dedos
as horas da tua espera.

 


SÁBADO

o infinito não é uma ideia
é silêncio sem passarinhos
murmúrio de águas
sombras luzes

é vulcão de fugaz erupção
são veias e nós de desejo

enquanto me visto
penso o poema e vou à feira
verduras frescas compro
de tempos em tempos
e no meio do verso mordo a língua
e paro com o canto da boca
na fruta mais doce
no buquê de roseiras
que de fresco
aponta o jardim de primaveras

mas é inverno!

decidida apanho a braçada de flores
e volto ao finito da minha vida


série EXTRAVAGANTE
Dilemas e escolhas
autor: LIANA TIMM
pintura e técnicas digitais
80x112cm
2022
série EXTRAVAGANTE
O alvo principal
autor: LIANA TIMM
pintura e técnicas digitais
80x112cm
2022
série EXTRAVAGANTE
Tudo vem do coração I
autor: LIANA TIMM
pintura e técnicas digitais
80x112cm
2022
série EXTRAVAGANTE
Entre as épocas
autor: LIANA TIMM
pintura e técnicas digitais
80x112cm
2021
série EXTRAVAGANTE
Para além do olhar
autor: LIANA TIMM
pintura e técnicas digitais
80x112cm
2022

LIANA TIMM | Artista multimídia, arquiteta, poeta e designer. Vive em Porto Alegre/RS com atelier em permanente ebulição. Sua produção mescla manualidade e tecnologia, conceito e materialidade, história e contemporaneidade. Transita pelas artes visuais, pela literatura, pelas artes cênicas e pela música. Professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1976/96). Especialista em Arquitetura habitacional e Mestre em Educação pela UFRGS. Realizou 76 exposições individuais, sendo as mais importantes: Pinacoteca do Estado de São Paulo/SP/Brasil, Memorial da América Latina /SP/SP/Brasil, Centro Cultural Correios e Telégrafos/Rio de Janeiro/RJ/ Brasil, Museu Brasileiro da Escultura/São Paulo/SP/Brasil, Fundação Cultural do Distrito Federal/Brasília/DF, Museu da Gravura cidade de Curitiba/PR/Brasil, Museu de Arte do Rio Grande do Sul/Porto Alegre/RS/Brasil. 35 shows musicais na cidade de Porto Alegre e interior do Rio Grande do Sul/Brasil, em Montevideo/Uruguai, em Miami/EUA e em Toulx Sainte Croix/França. Publicou 67 livros, destes 18 são individuais de poesia, sendo que o último reúne sua produção poética de 35 anos. Recebeu 17 prêmios nas diversas áreas de atuação. Desenvolve suas produções culturais e projetos editoriais através da TERRITÓRIO DAS ARTES.

Há mais coisas entre o cangaço e a mulher do que possa imaginar um vão brincante de carnaval

Texto de Aurora Miranda Leão


A Marquês de Sapucaí, palco do principal desfile de carnaval do país – Foto de GRES Acadêmicos de Santa Cruz

Soa como pancada no estômago constatar, ainda nos dias de hoje, um silêncio negligente e até certa louvação à cultura do estupro. Isso me vem a propósito da concomitância entre minhas leituras atuais e o desfile de carnaval do grupo especial na Marquês de Sapucaí. Assim, em que pesem todas as qualidades estéticas e musicais do desfile da Imperatriz Leopoldinense, não é possível compactuar com o mote do enredo sem colocar algumas questões para reflexão.

As ações humanas não podem ser vistas ou entendidas apartadas de seus contextos, desmembradas de suas implicações políticas, desatreladas de suas ligações com o passado e o futuro. Também eles nos constituem: o presente não existe sem um e outro. Logo, causa calafrios ver, ler ou ouvir alguém defender Lampião e seu bando porque imediatamente transporto-me aos dolorosos anos de sofrimento e angústia, dor e pânico vividos por tantas centenas de sertanejos enquanto durou o cangaço. O martírio foi imenso, sobretudo para as mulheres.

Diversos jornais da época, até mesmo o New York Times, registram a euforia gerada quando o bando foi extinto, em 1938. Evidentemente, não concordamos com a forma virulenta como os cangaceiros foram mortos. A violência é por si só uma coisa deletéria, sob qualquer aspecto. Violência não se acaba com mais violência, ódio não se combate provocando mais ódio, não há vingança que compense a dor da perda de alguém querido, mas daí a jogar confetes para o Rei do Cangaço e elogiar seu legado, vai uma distância colossal, para a qual não tenho fôlego, aptidão nem caráter.

É certo que a cultura sertaneja – através do cordel, das músicas, das xilogravuras e de tantas outras visualidades -, deu ao cangaço uma versão esteticamente rica e poderosa – sou das que amam Xilo e Literatura de Cordel -, mas entre o cangaço apropriado pela manifestação artística e o que de fato aconteceu nos sertões do Nordeste sob o jugo de Lampião, há distinções notórias.

Em tempos de revisitar o passado, em salutar e oportuna laboração sobre construções narrativas que contam o pretérito mas mitificam a essência do mal, é mister rever o que a imprensa e a história registram sobre esse período tão tenebroso da vida brasileira. Passa da hora, inclusive, de recontar a fantasiosa versão que transforma assassino em mito e violência em masculinidade. Sendo o carnaval “Uma ferramenta muito poderosa para trazer consciência, e não alienação”, como afirma Rogério Oliveira1, que comanda a produtora Pipoca, promotora de alguns dos principais blocos de São Paulo, Rio, Olinda e Belo Horizonte, teria sido muito impactante ver uma escola homenagear o Nordeste evidenciando a violência de gênero2, ainda tão forte na maior região do país.

Chegamos em 2018 a bordo de ideias nefastas, conflagradas pela ignorância de muitos e perpetradas com o objetivo de confundir fatos históricos e tumultuar o entendimento de noções como direitos humanos, respeito à coletividade e às instituições democráticas. Não foi sem muito assombro que vimos pessoas, das mais variadas idades e classes sociais, negando a ditadura, subestimando o holocausto, chamando truculência de mi-mi-mi, negando a ferocidade, contemporizando ataques sórdidos à imprensa e tantas outras categorias profissionais, abastecendo de forma ignóbil uma imensa teia de fabricantes do autoritarismo e paladinos de formas nefastas de injustiças e iniquidades.

Atravessamos quatro tormentosos anos assim – tendo que conviver com aberrações que julgávamos não ter mais campo para florescer -, nos quais tiveram espaço e apoio uma série de violências cotidianas, seja contra cientistas, educadores, profissionais da saúde, médicos, jornalistas, mulheres, negros, indígenas, parlamentares, artistas, e nem mesmo ministros da Corte Suprema foram poupados. O retrocesso político ganhou corpo como nunca antes visto na história do país desde a redemocratização e o temor de dias piores pautou nossa agenda diária. A Democracia vivenciou dias de ataques torpes às instituições que a alicerçam. Felizmente, sobreviveu e mostrou força.

Por essas e outras, presente e passado vivem entrelaçados. Há capítulos deploráveis somando períodos de massacre (como o narrado por Euclides da Cunha em “Os sertões”, sua obra-prima, de 1902); morticínios; violências (como no cangaço), esmagamento e opressão às mulheres, crianças, indígenas, velhos, pobres, quilombolas e comunidade LGBTQIAPN+, logo, o pretérito não está guardado em depósito a sete chaves: convive conosco todo dia, mobiliza, interfere, acende luzes, aponta caminhos e se intromete diariamente na vida de todos nós.

Até quando esses vestígios perniciosos continuarão sendo negligenciados? Até quando há de persistir a inconcebível glorificação dos violadores da lei, e criminosos seguirão sendo alvo de homenagem, como se não houvesse um histórico tenebroso até hoje influindo no contexto social? Essa é a pergunta que se destaca em meio a manifestações que consentem e humanizam o inaceitável, como se deu com o desfile carnavalesco vitorioso na Sapucaí neste 2023.

O que fere a dignidade humana, o que consagra ao opressor aura de rei ou salvador, será sempre prejudicial ao coletivo, em qualquer tempo, em todo lugar. E não há contemporizar com isso.
As cangaceiras viviam como prisioneiras de seus algozes, os próprios maridos, a quem eram entregues ainda garotas, a brincar com suas bonecas de pano, como Durvinha, Nenê e Dadá, estuprada aos 12 anos, cuja pavorosa história é contada em detalhes pela jornalista e pesquisadora Adriana Negreiros em seu livro Maria Bonita – sexo, violência e mulheres no cangaço (Editora Objetiva, 2018). Todas só podiam fazer o que “seus donos” permitiam, e havia ainda as nefastas “geras” (estupros coletivos).

Maria Gomes de Oliveira ou Maria de Déa, a sertaneja mais famosa do cangaço, encabeça uma enorme lista de mulheres do sertão, oprimidas, silenciadas, desrespeitadas, humilhadas, maltratadas, subjugadas, traídas. Vivendo um casamento infeliz, a jovem apaixonou-se por Lampião desde que começou a ouvir falar de suas façanhas como homem destemido. Acabou largando o marido e foi viver com ele no meio do cangaço, passando então a ser chamada de Maria do Capitão. Só depois de morta, ficou conhecida e ganhou a fama como Maria Bonita. Não há registros de que tenha sido estuprada, mas ela deve ser a única exceção: todas as demais integrantes do bando lampiônico, viviam oprimidas, maltratadas, subjugadas e eram estupradas constantemente: “Todas as cangaceiras eram obrigadas a entregar seus bebês ainda recém-nascidos. Geralmente, eles eram dados a fazendeiros, juízes ou padres”. Nem dessa vilania, Maria de Déa escapou, conforme conta Adriana Negreiros em seu livro já citado: também ela teve de entregar a única filha a um casal desconhecido.

Tudo isso me acorre a propósito do enredo da escola de samba Imperatriz Leopoldinense, a campeã do desfile das escolas do grupo especial do Rio de Janeiro neste 2023. Com o tema “”O aperreio do cabra que o Excomungado tratou com má-querença e o Santíssimo não deu guarida”, a escola de Ramos bebeu na fonte de dois famosos cordéis: “A chegada de Lampião no inferno” e “O grande debate que teve Lampião com São Pedro”, ambos de José Pacheco. Sim, para o cinema, a teledramaturgia, a pintura e o cordel, o cangaço rende boas produções, quem há de negar? O trem descarrilha é quando a visão alcança o que está por trás dessa discursividade.

Porque quanto mais se enaltece Lampião, sua trajetória e o famigerado cangaço, mais se conta a história por um viés deturpado, mais se abafam as vozes dissonantes, mais se perpetua o silêncio “concedido” às mulheres, as maiores vítimas das barbaridades (embora não as únicas) consumadas pelo movimento que causou pânico e espalhou atrocidades no interior nordestino, baseado na cólera contra os adversários, na matança aos opositores e no estupro como prática corriqueira. Ademais, a propalada e distorcida versão que consagra a Lampião a alcunha de herói, fornece alimento para a perversa cultura do estupro, cujas estatísticas registram números cada vez mais amiúde.

Referendar Lampião como figura aguerrida, valente, benfeitor, defensor dos mais carentes e paladino do povo sertanejo, é desqualificar toda a luta do movimento feminista, ainda mais na atualidade em que as mulheres conquistam topos relevantes -, com muito suor, luta e batalhas diárias -, e seguem atinadas, aptas a prosseguir somando conquistas e abrindo sendas para atuarem onde e como quiserem. Portanto, a defesa consistente, persistente e empoderadora desse discurso de reverência a um homem cujo heroísmo significa opressão contra as mulheres e vilania de toda sorte contra os que dele discordassem, é fortíssimo incentivo para o sustentáculo da nefasta cultura do estupro, com a qual não podemos ser coniventes.

Com que sentido se reproduz, numa festa popular de alcance mundial como o carnaval carioca – no qual a alegria, a liberdade, a criatividade artística, a musicalidade, a artesania, a potência criativa do artista brasileiro e a transgressão são princípios básicos –, justamente o discurso de defesa de um movimento que mascara a violência de gênero e ratifica o desrespeito aos direitos humanos mais elementares?

Muito bem fez a comissão julgadora do Troféu Estandarte de Ouro do jornal O Globo ao premiar como melhor escola a Beija-Flor, que desfilou contando outras histórias da Independência do Brasil, felizmente já bastante divulgada como um movimento de múltiplos protagonismos.

A quem interessa reproduzir esse manancial de estupidez e mantê-lo ativo no imaginário popular, ou a que interesses atende uma concepção cultural que sublinha, glorifica e enaltece a figura de um sanguinário contumaz, nutrindo uma espécie de saudosismo de uma época na qual as mulheres viviam confinadas ao espaço doméstico?
Ainda não tenha sido essa a intenção dos criadores do enredo – por sinal, belíssimo e musicalmente inovador ao misturar xote e xaxado com o samba, mostrando o quanto é plural e rica a cultura nordestina -, cabe a nós, pesquisadoras feministas, alcançar além do brilho das fantasias e da beleza do desfile, para tentar desvelar a intenção submersa na mensagem do samba-enredo.

O carnaval é sim um dos momentos mais propícios para ratificar construções ultrapassadas, desconstruir padrões, questionar valores, provocar debates, estimular revisões da história e interpelar disposições políticas que favorecem o imenso arcabouço patriarcal e colonialista pouco caso faz da violência de gênero, mácula na composição da vida nacional. Faz-se necessário aclarar o legado torpe de truculência deixado pelo cangaço e contar, com as tintas necessárias e os devidos pingos nos is, a verdadeira história de Maria de Déa, Nenê, Idalina, Dadá e tantas outras vítimas do cangaço.

Como bem diz Caetano, “É preciso estar atento e forte”: não podemos nem temos direito de propugnar concordância com a cultura do estupro, e isso terá repercussão sempre que não silenciarmos ante vilanias e atrocidades machistas e racistas, de onde quer que venham. Daí porque esperamos este texto funcione como alerta na ponderação historiográfica, pois há desconexões lesivas com a verdade documentada. Pensar em como desfazer concepções arraigadas que tanto mal produziram e contribuir para a construção de conhecimento que traduza humanidade e respeito à coletividade. Repensar, recontar, repassar e legar discernimento à posteridade.


1. Ver matéria “Seu Carnaval é político?”. Disponível em https://gamarevista.uol.com.br/semana/qual-e-a-sua-fantasia/carnaval-e-politica/. Acesso em 27 fev 2023.

2. Ver matéria “No Brasil, 699 mulheres foram vítimas de feminicídio no 1º semestre do ano”. Disponível em
https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2022/12/feminicidio-fez-699-vitimas-no-brasil-no-primeiro-semestre-deste-ano.ghtml. Acesso em 27 fev 2023.

Aurora Miranda Leão é Jornalista, atriz e documentarista, é mestra em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), onde faz doutorado pesquisando teledramaturgia, sertão e identidades de gênero. Bolsista CAPES, edita o #blogauroradecinema e é autora dos e-books Telenovela: a ficção popular do Brasi;, O cinema que mora na minha saudade; Na Televisão Na Palavra No Átimo No Chão; e Teledramaturgia: Meu pedacinho de chão e uma metodologia de análise.