O juazeiro e o tamarineiro

Texto de Toinho Castro —


Ontem, eu e Raquel, minha companheira das trilhas desse mundo, realizamos o que, durante a longa quarentena da pandemia, batizamos de Mini São João. Acontece que, cumprindo a missão de não se expor ao vírus e nem ajudá-lo a circular, nos detemos em casa por um longo período, que acabou por abarcar dois ciclos juninos. Se não existissem tantos prédios, da minha janela, junto à qual escrevo esse texto, eu veria a igreja de Santo Antônio, aqui em Vila Isabel, no alto de sua colina, como se nem houvesse mundo em volta. Por dois anos, pois, deixei de subir sua escadaria de cento e oitenta e tantos degraus, para assistir à missa e curtir a festa de 13 de junho, olhando, com um pote de caldo verde na mão, o bairro espalhado abaixo de nós, com suas janelas acesas como pequenas fogueiras, pequenos oratórios.

Longe da igreja, dos terreiros iluminados, restou-nos, ainda bem, reinventar a festa em nossa casa mesmo. E é assim que funciona: Vamos pra cozinha, acendemos o fogão e assamos milho, salsichão, fazemos um caldo quente, forte, de preferência com linguiça ou paio, ou os dois, e pimenta. Pode ser de batata, inhame ou macaxeira. Pode ter couve, pode ter brócolis. Fazemos um vinagrete e uma farofa pra acompanhar o salsichão e passamos a noite bebendo vinho tinto e escutando Luiz Gonzaga. Foi tal o sucesso da empreitada que extrapolou o período junino. A esse expediente recorremos sempre que julgamos necessário, seja qual for a época do ano. É uma gaveta que abrimos e dela sai o São João, as ruas se preparando para as quadrilhas, o ronco do fole, as estrelinhas e busca-pés, toda a história de um povo a nos embalar. Uma gaveta que abrimos quando urge a saudade da terra ou quando se faz necessário abrir no fim do dia uma felicidade.

Estávamos ontem a comer salsichão e escutar Luiz Gonzaga, quando emergiu da caixinha bluetooth a melancolia de Juazeiro.

https://youtu.be/WmrHPjBiTnI

Juazeiro, Juazeiro
Me arresponda, por favor
Juazeiro, velho amigo
Onde anda o meu amor
Ai, Juazeiro
Ela nunca mais voltou
Diz, Juazeiro
Onde anda meu amor

Juazeiro, não te alembra
Quando o nosso amor nasceu
Toda tarde à tua sombra
Conversava ela e eu
Ai, Juazeiro
Como dói a minha dor
Diz, Juazeiro
Onde anda o meu amor

Juazeiro, seje franco
Ela tem um novo amor
Se não tem, porque tu choras
Solidário à minha dor
Ai, Juazeiro
Não me deixa assim roer
Ai, Juazeiro
Tô cansado de sofrer

Juazeiro, meu destino
Tá ligado junto ao teu
No teu tronco tem dois nomes
Ela mesmo é que escreveu
Ai, Juazeiro
Eu num guento mais roer
Ai, Juazeiro
Eu prefiro inté morrer
Ai, Juazeiro

Na música acompanhamos a conversa molente de Gonzaga com o pé de juá, sobre esse amor perdido, essa moça da qual já não se sabe mais. “Toda tarde à tua sombra / Conversava ela e eu“. O Juazeiro, velho amigo, testemunha do namoro sertanejo, certamente pudico, não tem respostas. Seu tronco, riscado com os nomes dos amantes, sustenta a copa verde e vasta, sustenta mesmo a própria sombra, e os que nele se recostam, para cochilar, para pensar nesse mundão, para amar escondidos. Gira ao redor do Juazeiro o remoinho das acontecências. Partem os amores, voam os anos e os seres. A única consistência é o Juazeiro. Só a quem se pode recorrer nesse mundo de transformações. Disse eu, acima, que não tem respostas, o Juazeiro, para a angústia do namorado abandonado. Sua resposta é sua sombra, acolhedora.

Pusemo-nos a pensar sobre esse anseio nordestino pela sombra. E sobre o papel central da árvore nos ciclos tantos que nos regem. Amor e perda. Vida e morte. Há muitos sentidos em descansar à sombra de uma árvore. Muitos augúrios também. E foi com essa palavra, augúrios, que lembrei de outra árvore. Outra poesia. Debaixo do tamarindo, do poeta paraibano Augusto dos Anjos, constante do seu único livro publicado em vida, Eu.


No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilíssimos trabalhos!

Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da Flora Brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!

Quando pararem todos os relógios
De minha vida e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,

Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade
A minha sombra há de ficar aqui!

No poema, Augusto chora a morte do pai junto ao tamarineiro, uma árvore familiar (Guardando a paleontologia dos Carvalhos) , ancestral. Assistiu ir e vir de gerações. A ascensão e a desagregação dos engenhos, das casas grandes. Naquela mesma sombra teria sentado o pai do poeta. E agora, da mesma sombra, ele recolhe poemas e chora o pai em biliões de lágrimas. Quando você chega sob a copa de uma árvore, sua sombra se mistura a dela, e Augusto arrastou sua sombra fúnebre até ali, numa simbiose que a morte há de asseverar.

Duas árvores, duas sombras, duas perdas. O amor e a morte, não como espelhos, mas como amálgama. Essa palavra, ouvi hoje uma canção de Zé Ramalho… És a amálgama da minha couraça. De repente me veio esse pensamento que em Zé Ramalho se amalgamam Augusto dos Anjos e Luiz Gonzaga, sob a lamparina alucinada de Zé Limeira. Coisas pra se conversar, não é mesmo?!

Para encerrar esses assuntos, recordo outra canção que escutamos ontem, no nosso Mini São João. A nostalgia da infância de Estampas Eucalol, na voz de Xangai, naquele belíssimo disco, Cantoria 2 (Com Elomar, Geraldo Azevedo e Vital Farias), evoca outra árvore, mais uma sombra, nos versos: Viajava o mundo inteiro / Nas estampas Eucalol / A sombra de um abacateiro / Ícaro fugia do sol. Talvez o mesmo abacateiro de Gilberto Gil, nessa rede de conexões afetivas que a gente vai percebendo de uma música pra outra, de um poema pra outro, enquanto celebramos um São João fora de época, ou fora do tempo, no recanto da nossa cozinha.


AoVivo Kuruma’tá com Jorge du Peixe | O Baião Granfino de Luiz Gonzaga

O disco Baião Granfino, de Jorge du Peixe, com suas interpretações preciosas de Luiz Gonzaga, foi o tema desse bate-papo maravilhoso do cantor e compositor pernambucano com nossos editores Toinho Castro e Aderaldo Luciano, no You Tube da Revista Kuruma’tá.

Se você perdeu o ao vivo, assista aqui e agora a gravação!

O disco Baião Granfino, de Jorge du Peixe, com suas interpretações preciosas de Luiz Gonzaga, foi o tema desse bate-papo maravilhoso do cantor e compositor pernambucano com nossos editores Toinho Castro e Aderaldo Luciano, no You Tube da Revista Kuruma’tá.

Se você perdeu o ao vivo, assista aqui e agora a gravação!

Em releituras belas e disciplinadas, sem macular as melodias, sem invencionices modernosas, Baião Granfino, de Jorge du Peixe, prolonga a alma gonzagueana, avança sobre os nossos dias com seu timbre rouco, mas afinado, seu selo grave, em momento tão agudo de nossas crises existenciais. Jorge segura o baião como um filho frágil, acabado de vir ao mundo. E o baião o sustenta com sua vitalidade. Quanta beleza em suas veredas sonoras, quanta sutileza no seu cantar que, a alguns deve ter assustado, mas que a mim, apaixonou-me. Não feriu a majestade, vestiu-se e caminhou com ela. Trouxe o Assum Preto e sua sina complexa, difícil, dolente, talvez anunciando a sua mesma dor, abrindo um álbum cheio de lirismo e paz, dentro na luta.

Aderaldo Luciano
em Jorge du Peixe canta Luiz Gonzaga
Revista Kuruma´tá, 20 de setembro de 2021


Lançamento do Disco “Baião Granfino” para o Música #EmCasaComSesc

Escute o Baião Granfino nas plataformas de streaming!


Um assalto aos centros da terra: 3 Tonelada$

Texto de Aderaldo Luciano


3 Tonelada$ foi a melhor série documental brasileira que vi na Netflix. Isso não significa que menospreze outras. Sou um fanático por séries de crimes policiais e de investigações reais. Mas essa me fez observar e constatar quando se tem um trabalho produzido com esmero, com compromisso, poderia até usar a palavra amor, sabendo que estou a resvalar num conceito movente. O trabalho nessa empreitada serial foi assim, segundo minha percepção.

Um roteiro bem amarrado, bem conduzido, sem furos, sem lacunas, pensado e experimentado. Imagens, sequências, reconstituições, ângulos, tratamento de imagens de mídia, encadeamento de falas, idas e vindas no tempo das ações, efeitos, grafismo, letreiragem tudo concorreu para a excelência do trabalho e trabalho duro. Não sei como isso foi recebido pela equipe da Netflix, todavia percebo a força desse empreendimento.

Se a qualidade técnica é inquestionável, recitando-se por padrões internacionais, a poderosa peça de pesquisa da equipe é digna de todos os prêmios nacionais e internacionais. Primeiro porque não é uma série sobre uma pessoa. É sobre um marco social. É sobre o tecido trágico nacional, sobre o universo desconhecido do crime e sua impenetrável tela, sobre uma teia iniciada há muito tempo, unificando todo o país.

À complexa operação de assalto ao Banco Central brasileiro, já contada em filme com ares de ficção, nos é revelada a concomitante investigação policial e sua consequente resposta jurídica. Nos é apresentado um espelho, ou seja, para a operação do roubo houve sua similar operação de desvendamento. À quantidade de pessoas envolvidas para o crime, a mesma quantidade para apuração e prisão de todos os envolvidos.

Esse é o fato real extraído da série. O que não sabíamos, e viemos a saber pelo profundo trabalho de pesquisa da equipe de produção, foi a sua ligação com outros eventos mostrados pela mídia como meras ações de bandidos. Compreender que as ações do PCC que pararam a metrópole paulistana na segunda metade dos anos 2000 teve como fundamento e inspiração a morte de um dos financiadores do grande assalto é mais que um trabalho audiovisual: é uma tese de doutoramento.

Revelar a desgraça pessoal, a maldição do dinheiro vivo, é um outro ingrediente de valor insubestimável. 3 Tonelada$ não glamouriza a competência dos assaltantes, não os torna em heróis, embora reconheça sua engenhosidade e ousadia. No mesmo estradar, não glamouriza o trabalho investigativo, apenas aponta o método, a ação, a mesma competência, o mister do seu trabalho árduo. Entre esses dois lados, há o lado da imprensa, ora cumprindo o dever de comunicar, ora cumprindo a missão de investigar, ora sensacionalizando os acontecimentos.

3 Tonelada$ nos abre a janela nordestina do fazer cinematográfico com competência e amplidão. Ao ver a série percebemos o quanto de tradição audiovisual está presente em seus detalhes. Minha experiência foi como ver uma reunião de documentaristas que fizeram nossas gerações amarem o cinema documental. Ali estão, desde o Ciclo do Cinema Documentário Paraibano e o Cinema Novo, até os respiros de Bye, Bye Brasil e a Escola do Cinema Pernambucano. 3 Tonelada$ é mais que uma série: é uma celebração.


A névoa do cotidiano

A Kuruma’tá é casa da poesia. Versos nos chegam constantemente no inbox e isso, como já escrevemos antes, é de uma grande alegria. Dá noção de que a revista chega nas pessoas, chega em cada poeta que nos procura, que nos escreve. É chegada aa vez de Marcos Mamuth, poeta desde sempre, com três de seus poemas para iluminar nossas páginas.

Seja bem-vindo, Marcos, com a qualidade inspiradora do seu trabalho poético!

Poemas de Marcos Mamuth


Ruptura (l)

Eu,
ao menos,
me lembro de ti,
e não permiti
que a névoa do cotidiano
escondesse de vez
nosso carinho profano,
nossas risadas breves.

Leves
eram os teus passos sobre mim,
e me fustigavas a pele do rosto,
assim,
de um jeito tão oposto
ao que aprendi sobre o amor…
Havia graça
doçura,
dor.

Havia noites
em que eu vagava insone,
sem biografia,
sem nome,
procurando essa tua alma embrenhada
em caminhos perigosos

Havia dias tristes e chuvosos
em que eu morava no ventre
da agonia.

Hoje, é só o teu vulto quem me olha,
e com desdém.
Eu o encaro
também.
Pergunto a ele onde está o resto de ti
que perdi.

Não há resposta.
Os dados rolam na estranha mesa revestida de cetim.
A aposta foi feita,
Perdemos.

Fim?
Sim.


Ruptura (ll)

Olho em direção à tua janela,
e te presumo desatenta,
diáfana e cruel
atrás dela.
Tão inalcansável
e malditamente bela.

Tão impassível,
impalpável,
volátil
e impossível.

Aprecio agora nossa obra final,
feita com sobras do que fomos.
Ah, quanto imploramos
para que não partíssemos.

Essa insólita escultura de gelo criada com memórias,
olhares encantados,
carinho e beijos esquecidos
agora será derretida pelo calor inclemente do verão.
Logo não haverá mais nada,
nem o menor traço
do que foi nossa cruzada.

Fim?
Sim.


Elegia Aos Deuses Gentis

Se soubesses
em quantas noites
se esgueirou cruel a madrugada,
em quantas camadas
de delírio e memória
desenhei nossa história…

Quanto desejo e temor
em amor transmutado
ou coisa parecida,
minha querida…

O que teríamos sonhado,
o que teríamos sido
nessa coisa-vida
que julgávamos esquecida,
só um louco saberia.

Então,
eu não te pediria
mais do que um dia
seguido de outro dia.
E um beijo
contornando a rota incerta
dos teus quadris.

Os deuses,
por enquanto,
por encanto,
por um triz,
cismaram de ser gentis.
Como a gente,
inocentemente,
sempre quis.

Marcos Mamuth

Marcos Mamuth é também (des)conhecido como  Marcos Alberto Taddeo Cipullo. Nasceu em São Paulo, no bairro da Mooca, em 1965. 
Guitarrista e compositor desde 1979.
Psicólogo desde 1988.
Escritor desde 1986.
Professor universitário desde 1993; a partir de 2008, na  Universidade Federal de São Paulo (Campus Baixada Santista).

Poeta desde sempre.


“são sementes que enraízam na gente” — A poesia de Ana Amorim Fontana

O inbox é o centro nervoso da Kuruma’tá, é o ponto convergente da alegria. Sempre que o inbox dá um plim, corro pra ver quem tá chegando com poemas, crônicas, contos ou outras interações sempre bem-vindas.

E foi no inbox que chegaram os poemas de Ana Amorim Fontana, paulista, 15 anos de idade, e poeta. Poesia começa cedo na gente. Quase em todo mundo. Tem gente que esquece; normal Tem gente que pega a pena e não larga mais. A Ana encheu a gente aqui de alegria súbita, não só por ter procurado a Kuruma’tá, mas pela qualidade e força do seu trabalho.

E é com essa alegria, respeito enorme por uma jovem poeta tão vigorosa, que publicamos cinco de seus poemas, acompanhados de uma de suas belas ilustrações, pois ela é também versada no talento das artes visuais.

Arte de Ana Amorim Fontana

Pessoas vazias

aqueles que não se entregam
não mostram seu ser
não pensam em valores
só vivem
essas pessoas não se dão a chance
de se abrir
de ver a si mesmo
de crescer
e florescer
porque a vida é essa fiel desafiante do ser
e basta somente a ele
saber o que os outros veem
ai que mora o perigo
essa escolha
gera medo
gera tamanha insegurança
ao invés de germinar
aos poucos
se perdem
morrem sem perceber
e vazias
são essas pessoas
que padecem
sem ver
sem saber
que nada tem a oferecer


Coisas enraizadas e seus antônimos

a vida pode ser dividida em duas
das coisas passageiras
outra das enraizadas
a primeira é quando pessoas entram e saem
entram rápido
saem aos poucos
mas saem
são as ondas do mar
o sol que se põe
a vida de um lírio
a felicidade
ah essa passa voando
como o pousar de um pássaro
uma hora se está feliz
na outra não
isso tudo é coisa passageira
o que é enraizado mesmo
que vem de dentro
do buraco mais pequeno do ser
é o amor
a tristeza
a raiva
são sementes que enraízam na gente
toda gente tem o lado escuro e sombrio dentro de si
assim como eu tenho enraizado
dentro de mim
a vontade insaciável de falar
de me expressar
de por pra fora
não guardo nada dentro
isso tudo é enraizado no eu


Caracol na mão

é bicho devagar
ao colocar os olhos
se deve ter calma
entender que se tem processos
levando em conta a não importância do ritmo alheio
quando ameaçado
é rápido
porque ferir tem esse ritmo
curar demanda tempo
já machucar
arrancar, não


Solidão

não tenho a solidão
nem o silêncio como amigos
pelo contrário
ambos reforçam a minha situação
de estar sozinha
depois de ter perdido meu alicerce
minha segurança
meu pai
minha vó
não é um momento de paz e reflexão
como muitos romantizam
ao invés disso
é quando os medos e angústias acordam
e tomam posse do meu eu


O tecido frágil e fino que é a vida

Rilke me inspirou em vários de seus poemas e citações
quando fala sobre o destino e suas tramas
são tramas finas e tão frágeis
que podem rasgar a qualquer momento
podem ser rasgadas naturalmente
pela morte
por términos e desencontros
decepções
tudo isso se rasga em um processo lento e entrelinhas
não é explícito
nem visível
acontece onde só a alma habita
o fio da trama da vida
fio esse que pode ser remendado
mas assim como um vaso quebrado
quando quebrado em pedaços nunca volta a ser o mesmo
a trama da vida também não
uma vez perdida, ou rasgada
não se há reparo
que faça voltar a ser o que era antes
a vida é assim
ao longo dela vamos sendo remendados
para poder continuar
mas nunca como nascemos


Ana Amorim Fontana por Ana Amorim Fontana
Tenho 15 anos, nascida e criada em São Paulo, uso a arte como forma de ressignificar tudo o que sinto de mais pesado e sombrio, e me identifico bastante com o trecho do poema “Motivo”, de Cecilia Meirelles,” não sou triste, nem alegre, sou poeta”

A Voz

Texto de Eduardo Maciel —


Olá, kurumateires, tutupom?

Então, primeiramente preciso dizer que esse texto não é distópico ou apocalíptico. É um texto de constatação e esperança.

Quando eu era adolescente (anos luz no pretérito menos que perfeito), costumava dizer que era desses que achava que o mundo estaria acabando. Nessa altura, pensava na decadência do humano no ser, só pra usar o binômio. As pessoas cada vez mais encrudescidas, por si mesmas e pela cauda do cometa tecnologia. E isso me entristecia, porque percebi uma alteração da frequência do afeto, que nos alimenta por dentro. E por falar nisso, comecei também a perceber as tantas pessoas não alimentadas, por falta de comida no prato mesmo ante a desídia do poder estabelecido.

E eu tinha esperança de poder contribuir para um futuro melhor. Tenho tentado.

Mas sobre tudo o que eu enxergava lá atras, continuo a ver a situação bem ruim, agravada agora pela aparente cegueira coletiva quanto à voz da Natureza, ou a voz do Universo, como prefiro definir.

A gente tem a ideia do Universo, geralmente, de forma bem distante e etérea, mas existem leis infalíveis que o regem. E o Universo se comunica conosco. 

Eventos climáticos extremos não são mais uma exceção. Viraram regra. Isso, minha gente, é o Universo gritando pra nós que chegou a hora de ele começar a revidar. Não por vingança ou subjetividade, mas como consequência de uma série de regras lógicas, amparadas pela Ciência, acompanhadas pelas omissões e desídia das pessoas: aquelas, encrudescidas, lembram? Dentre elas se ergue o poder.

E como tudo na vida, cada coisa tem o seu tempo, cada movimento tem seu ciclo, e já podemos imaginar o que nos vai acontecer daqui a bem pouco: vôos não serão mais uma opção, as águas vão subir, o calor será inimaginável, genomas inteiros serão perdidos e, quem sobreviver, em sua maioria vai estar existindo nas ruas no modo sobrevivência. E os demais, vão se recolher em seus arranha-céus, permanentemente encrudescidos e cada vez mais surfando a onda da tecnologia que lhes garante isolamento, enquanto observam (muitas vezes ingenuamente apenas entristecidas) enquanto vemos em todo canto o fim do mundo sendo transmitido via streaming pra dentro da bolha dos arranha-céus. Não acredito que as pessoas sejam ingênuas assim, a ponto de não perceberem ou não darem aos fatos a devida significância e o devido significado. Fico pasmo, de verdade. E nessa renovação madura da premissa adolescente de que o mundo está mesmo acabando, percebo-me a precisar me contradizer. De propósito!

Esse texto não é um texto de constatação e esperança. Infelizmente, é um texto distópico e apocalíptico. Até quando? Essa é a reflexão que lhes convido a fazer.

Fiquem bem, fiquem com saúde. Até mais!


Baú do Braulio: Em defesa da poesia menor

Texto de Braulio Tavares


A grande maioria das pessoas que escrevem poesia não está se preocupando muito com a criação de grandes obras de arte.

As pessoas escrevem poesia para desabafar. Para tentar interpretar os próprios sentimentos. Para captar o sentido de algo que acontece nas suas vidas. Para experimentar novas formas de dizer. Pelo prazer de criar diferentes estruturas verbais. Para dizer coisas que serão necessariamente lidas com atenção por outras pessoas de seu círculo social.

Somente um número reduzido de pessoas-que-escrevem-poesia pensam em seguir uma carreira poética formal: publicar livros, ganhar prêmios, dar entrevistas, fazer parte de academias, etc.

A poesia lírica (porque é a ela que me refiro, por ser muito mais cultivada entre nós do que a épica ou dramática) é uma atividade paraliterária, entre nós. Faz parte da Cultura Informal, e só uma pequena parte dela passa a fazer parte da Cultura Formal: livros publicados por editoras profissionais, poemas estudados em escolas, matérias na imprensa, participação em eventos (palestras, oficinas, feiras do livro, etc.).

Vivemos numa sociedade tão obcecada pelos conceitos de “sucesso”, “profissionalismo”, “mercado”, “fama”, “reconhecimento público”, que temos dificuldade em ver na poesia o que ela sempre foi em todos os tempos: um meio de expressão essencialmente pessoal, individual, destinado a círculos concêntricos de expansão, que muitas vezes não atingem mais do que algumas centenas de pessoas.

É para isso que a poesia existe, e não para as listas de best-sellers, a consagração das teses acadêmicas ou a honraria dos prêmios literários.

Rainer Maria Rilke, em suas Cartas a um Jovem Poeta (1929) deu alguns dos conselhos mais elementares e mais importantes que se pode dar a quem escreve poesia. Toda vez que alguém me pede conselhos, indico esse livro. Não porque exprima exatamente o que eu próprio penso, mas porque pode servir a quem quer levar a poesia a sério. Um desses conselhos era algo como: só escreva se sentir uma necessidade íntima muito forte, se não puder deixar de escrever. 

Não estou falando em publicar livros, nem em ganhar dinheiro, nem em sair no jornal. Estou falando em ter uma forma criativa de expressão pessoal. Uns têm na música, outros têm no esporte, outros têm no romance, outros têm no desenho ou na pintura…

Isso abre caminho também para o que a gente considera “a Poesia Menor”. É a poesia feita por poetas modestos, que jamais ganharão prêmios ou aparecerão em antologias, e que às vezes serão lidos com desdém pelos críticos mais exigentes.

Não há vergonha nenhuma em seu um Poeta Menor num país onde os Poetas Maiores são pessoas como Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar…

O próprio Manuel Bandeira, considerado Poeta Maior por tantos (por mim, inclusive), dizia, num acesso de melancolia: “Sou Poeta Menor, perdoai!…”

Comentando as sucessivas e incontroláveis safras de poetas menores que brotam (felizmente) em nosso país, dizia Wilson Martins (História da Inteligência Brasileira, vol. VII, p. 422):

Entre os demais, nem todos haviam lido as Cartas a um Jovem Poeta, e aqueles que o fizeram parecem havê-las rapidamente esquecido: contudo, correspondendo à necessidade vital de escrever, no plano restrito de cada um (claramente inexistente na origem de numerosos volumes de poesia), há uma circunstância de ordem coletiva, geralmente e erroneamente menosprezada: esses poetas que escrevem sem necessidade criam o ambiente que determina a necessidade de escrever para os verdadeiros poetas e a necessidade de ler para os leitores de poesia.  (…)

Existe sem dúvida, nisso que chamamos de ambiente literário, aquele velho princípio de que a quantidade gera qualidade. Não gera espontaneamente, claro: mas uma certa quantidade de pessoas lendo e escrevendo poesia conduz sem dúvida a uma troca de idéias mais intensa, um compartilhamento de leituras, de opiniões, aquelas conversas intermináveis onde se forma a intuição poética: “isso é bom, isso é ruim, isso está mal/bem escrito, isto é melhor do que aquilo, olha isto aqui como é diferente de tudo…”.

[A] história literária não seria diferente se muitos livros de poesia tampouco houvessem aparecido. A vida literária, entretanto, seria diversa, talvez menos rica e, com certeza, menos exigente, porque são as obras inferiores que nos permitem reconhecer as outras e aspirar por elas.

Ler os grandes poetas ajuda a elevar o nível de pensamento, de sensibilidade e de execução de todo mundo, inclusive dos poetas menores.

E ao mesmo tempo não existe livro de poeta menor que não contenha um grande poema. Não existe poema fraco que não contenha pelo menos um verso memorável. Não existe obra cuja leitura seja totalmente desperdiçada.

Wilson Martins vai ainda mais adiante, e lembra que os próprios conceitos de Poesia Maior e Poesia Menor são fluidos e jamais definitivos:

[A] dialética da criação é mais complexa e, certamente, mais contraditória do que pensaríamos à primeira vista, se é certo, por outro lado, que os julgamentos de valor também têm muito de histórico e conjuntural, o que significa terem muito de conjetural.

O fato é que Olavo Bilac desdenhou com sarcasmo dos poemas de Augusto dos Anjos; que modernistas como Drummond ou os Andrade foram sistematicamente ridicularizados por anos a fio; que ninguém hoje em dia (a não ser eu) lê Olavo Bilac a sério; que ainda há quem pense que escrever sonetos é indício de debilidade mental; e quem pense que o soneto é o único tipo elevado de poesia. Há quem ache a poesia concreta uma palhaçada, e há quem ache que palhaçada é todo o restante.

Não importa. Quem faz poesia como um meio de expressão pessoal lê muito, pensa muito, conversa muito, escreve muito e publica pouco.

 

Escrito e publicado em Mundo Fantasmo em 23 de agosto de 2019.


PERFORMANCE POÉTICA PARA OUVIDOS MAMULENGO

Poema de Numa Ciro Para FLAVIOLA e Tio-Zé-Victor

Poema de Numa Ciro


Para

FLAVIOLA
e Tio-Zé-Victor

O DIA QUE EU VI
QUANDO LAMPIÃO LEVOU O CEGO VIVALDO
P’RA VER O MAR
ou
EU NÃO VEJO MUITO BEM

Somente o cinema mudo sabe dizer o que é isso
Isso é coisa de Eros

INTRODUÇÃO AO DIA

1.
Eu jamais esquecerei aquele dia ensolarado.
O verão fora do tempo, que ano desachuvado!
Corria o mês de São João, São Pedro trancafiado
Bebendo a água do céu e o chão na terra abrasado.

2.
Acordei naquele dia, ainda estava sonhando.
Levantei tangendo raven e o never me puxando.
Vesti a saia de pálpebras, os olhos abrindo e fechando.
Para onde irei nessa luta entre o logo e o não-sei-quando?

3.
Logo, o logos me expulsou para os lados da saída.
Sem destino, de memória, ouvindo a ópera Aída,
Segui a passos velozes pisando a dúvida vencida.
Das asas do vento arador, caí nos braços da vida.

4.
Oito léguas mais tarde, uma voz me alcançou.
Uma voz inesperada. Ora, ninguém me avisou.
Tatuei meus pés na estrada. Ora vejam quem chegou!
Nenhum passo para frente, ora, para trás é que eu não vou.

5.
Em segundos minha sorte foi laçada pelas musas.
Ou eu canto o mote certo, ou me assombram as medusas.
Então chamo em meu socorro as fusas e as semifusas,
Metáforas e metonímias. De medo troquei dez blusas.

6.
Quem diria que eu teria aquela surpresa danada?
Do meio do mato escondido salta a surpresa na estrada.
Adivinhou quem pensou que eu quedei atordoada.
Imaginou mas errou quem pensou numa emboscada.

7.
Via tudo acontecendo na minha frente e atrás.
À minha volta rodavam cenas de nunca e jamais.
Vi gente que não me via no mesmo instante e, aliás,
Desentendi quem vivia, se era eu ou os demais.

8.
Escorreguei na surpresa e caí na sedução.
Me deitei nos trilhos do sonho e esperei a salvação:
O apito do destino ou um aviso da razão.
Quem vai me dizer agora? O que diz meu coração?

9.
Meu coração tem razão quando diz que desconhece
As razões do coração de quem depressa me esquece.
Eu esqueço num segundo o Bê, o Cê, e o Esse,
O A, o Zé, e o X do nome de quem não merece.
10.
Não merece o quê, my dear? Vou naquele requebrado
Voltar pra beira da estrada. Lá vou eu de pé trocado.
As musas me largam sozinha nas horas do descantado
E as medusas aparecem, não carecem de chamado.

11.
Como eu estava dizendo quando dei curva no tino,
No instante em que troquei dez vezes de figurino,
Seguirei a estrada afora de xique-xique: eu me defino.
Até parece esfreguei um lampião aladino.

12.
Eu disse o quê? Lampião? Bonita! vou me acender.
Esse nome alumiou as coisas que eu vou dizer.
Lampião foi a surpresa que saltou e me fez ver
Naquela estrada deserta a visão de quem não vê.

13.
A visão além do alcance somente ao cego há de vir.
A luz dos olhos acende o prazer de se iludir.
A mentira e a verdade se casaram pra fingir
E seus filhinhos herdaram as feições do confundir.

14.
Foi justamente esse tema que afundou meus pés no chão:
Nem pra frente nem pra trás, batestaca o coração.
É de casa ou é de fora, essa estranha aparição?
Fecho os olhos e escuto mão amolando facão.
15.
Aperto os olhos mais fundo e levo as mãos ao pescoço.
– Vão sangrar minha esperança de ficar velha, seu moço?
– Se não era uma emboscada, fica fria, que alvoroço!
Era apenas a lambida do pensamento no osso. Ouço.

16.
Aos poucos fui desmanchando a pose aterrorizada.
Alternei os pés no chão e caí na gargalhada.
Os palhaços me cercaram e eu virei mulher barbada.
O mágico tirou a barba sem nenhuma navalhada.

17.
Quem disse que em tela dos outros não se mete la couleur?
O mágico, ateu do ditado, ante mim virou danceur.
Daí eu já era outra, um pouquinho mais meilleur.
A domadora das feras com chicote et sans rancoeur.

18.
A mascar chiclete bem alto, tirando a calcinha da bunda,
Fingindo ser dona das feras e do Olimpo oriunda…
… Cansei da jaula e montei na minha própria carcunda
E num segundo pousei na superfície profunda.

19.
O picadeiro na Strada era caminho e lugar.
Andarilhos, residentes, gente e bicho a conversar.
Onça pintando perigos, gavião riscando o ar,
Preguiça engolindo saliva com preguiça de buscar.

20.
Era tanta coisa que eu via que nem dava pra saber
Se era real ou encantada a beleza do prazer.
Eu era tudo o que eu tinha e tinha tudo pra ser
O que o desejo quisesse que nem soubesse dizer.

21.
Subi de novo nas asas de um pensamento infiel.
De volta ao futuro dos vivos: um presente tão cruel.
Passei o passado a limpo, mas só matei cascavel.
Dei várias voltas ao mundo em cada lua de mel.

22.
Casei tantas vezes quanto as artistas de cinema.
Casavam e se arrependiam: cada galã!!! que dilema,
Escolher apenas um, jogando os outros no Senna,
Ops! Na cena! Quem iria recusar rimas raras num poema?

23
Não importava quem fosse o belo protagonista:
O mais famoso, o mais rico, o herói, o grande artista;
Sempre havia um com estudo, o mais tesudo, o equilibrista.
Entre o homem e a mulher, uma criança se avista.

24.
Um anão apareceu trazendo Macunaíma;
Gigantes-pernas-de-pau andando pra baixo e pra cima.
A ninfa Eco gritava somente as letras da rima:
Das frases que não falava, escoava a sua estima.
25.
Nunca estive nesse conto… mas passava aqui todo dia.
Estranho a estranheza do espanto: é tristeza ou alegria?
Uma saudade aparece Nua! Tesuda! Vadia!
Saudade das que maltrata e mata nas covaRRRdia.

26.
Estou dormindo sonhando? Ou sonhando acordada?
Essa multidão de artistas fazendo palco de estrada…
Somente pra me alertar com essa pergunta malvada:
Por onde a arte caminha? É pela beiiiira do nada?

27.
Quem me olhasse não veria esse íntimo alvoroço,
Andando sem data certa, sem endereço no bolso.
Ai quem me dera papai pra me pendurar no pescoço.
Ai quem me dera mamãe me desse do peito o almoço.
28.
Estou sozinha de novo oh sol inclemente do céu.
Quero fazer malabares nesse tal de mundaréu.
E as surfistinhas da noite? a andar de déu em déu?
Cadê a doida? Quem dava pra louca?
E eu sempre rrrrr-eu!

29.
De repente eu escuto esse raríssimo diálogo:
– Boa tarde, Cego Vivaldo, és de fato meu análogo.
– Boa tarde Lampião, te procurei ali no catálogo.
Esse encontro já estava escrito lá no decálogo.

30.
Esquentei dos pés à cabeça e fiquei toda arrepiada.
Se foi delírio esse encontro yo lo transmito medicada.
Se foi real, cai no mesmo, a fantasia é sagrada.
Irei contar por aí, mesmo sem prova nem nada.

31.
Solo sé que me volvi em direção à conversa,
Para ver com os próprios olhos que novidade era essa.
Disse assim assim com meu rirri*: – olha pra isso sem pressa.
Desliza bem nos detalhes, o inusitado atravessa.

32.
O detalhe foi the best que podia acontecer.
Eu via os dois e eles dois não demonstravam me ver.
Assim eu fui testemunha do mais louco entardecer.
Debaixo de um pé de estrelas armei rede pá escrever.

33.
Não pense qu’stou tão cansada a ponto de me omitir.
Saí de casa tão cedo e como foi duro partir.
Mas quando disse: – Já vou! Vim logo p’ra não desistir.
Agora cheguei nesse ponto: vou me enredar pá transmitir.

34.
Quero seguir em silêncio, passo a passo, essa história,
Para botar sic ao lado de cada interlocutória
E para isso é preciso que não me falhe a memória.
Se eu conseguir, eu prometo pagar promessa na Glória.

P.S. OH! Glóóóóória$$$$$!

SECONDESTATION

isso é
de segunda mão
quero dizer
Brechou
ou então…
… de olho na coisa fora do costume…

METODOLOGIA DA TARDE

1.
Como seguir em silêncio, se a história é barulhenta?
Muito barulho por tanto vou contar até quarenta.
Não quero Babar ali, já me fartei de água benta.
Corri pra roubar o verso que alegra e amamenta.

2.
O desejo abre as asas aos anjos das internetes.
São asas velozes do tempo, avohai marionetes!
Quem corre mais do que eu, pilotando patinetes?
Um pé lá e outro cá, num pescar d’olhos esqueces.

3.
Esqueces que te beijei? Que eu conheço teus segredos?
Esqueço a panela no fogo imaginando folguedos.
Moi crê nos improvisos e sente tremores sem medos:
Criança se vê na vitrine do mais cobiçado brinquedo.

4.
Sigo e persigo os mistérios, porqu’ eu sei que nada tem
Nem aqui nem acolá, nem nos olhos de alguém.
O beijo inventou a boca e o cafuné, foi meu bem.
Eu me mato todo dia, mas não morro por ninguém.

5.
Eu sou cega de nascença sem ser cega de verdade.
Cê entendeu o que eu disse? Nunca nego minha idade.
Eu só minto pra mim mesma, ess’ é minha vaidade!
Orgulhosa que nem faço concessão à novidade.

6.
Nada de novo, anjo bom, foi assim, coisa e tal.
Tal como era uma vez, outra vez desigual.
Se o pecado existe, e a escolha, a preguiça é capital.
Lembro de tudo que eu quero, só esqueço o principal.

7.
De repente, sem querer, vi dois pares de alpercatas.
Parecidas, paradinhas, frente a frente colocadas.
Andei com a luz do cinema… do chão às nuvens aladas.
O corte no olho do sonho acordou as mascaradas.
P.S. Flechei o foco e parei no perfil dos camaradas.

8.
Pareciam dois bonecos de cera de pano ou de pau
Parados no meio da cena antes do ponto final.
A imagem congelada e lá  ao fundo o milharal
Agitado pelo vento survivant et virtual.

9.
Vou mexer neles, nos bonecos, e fazer a cena voltar
Ao tempo em que o mudo cinema falava que ia falar.
Falaram aos quatro ventos que o mundo iria acabar!
Acabou-se hen, Borito**? Era o medo de avançar.

10.
Avançamos tanto que a cena ficou incompreensível.
Mas voltarei ao instante em que tudo era possível:
Lampião a passear descontraído, intangível,
Sem rifle, sem lenço e chapéu, sem nada de compatível.

11.
Por isso desconfiei… se estava mesmo acertando
A identidade do cara, sem cara de banda e de bando.
Mas apostei no disfarce, continuo procurando.
Se acho a máscara não tiro o rosto, nem confessando.

12.
Mana, Hermano, podem crer: o erro é um modo de ver.
Estou plugada e escuto rádio, virei nativa, fui de TV.
Abro a porta, abro os braços: Est-ce-que és tu ou você?
Lisboa paraibana, fiminino arômado prazer…

13.
A noite que tudo esconde é propícia aos canibais.
Ao dormir, sonho com anjos, não me vejo entre os mortais.
Beijo com avidez os lábios da minha paz.
Quando acordo, eu não acordo, eu atiço os animais.

14.
Eu dou asa à cobra, não sou deus.
Porém jamais! usaria as de cetim.
Viveria das sobras do apogeu
De quando eu era anjo-da-guarda para mim.

15.
Les choses, das ding, cabra safado.
Olhos de gata, gatas no telhado.
Cachorro solto meu dono está do lado.
Baby pássara fugiu com seu veado.

16.
Pelos muros do silêncio, uma boca se esfregava.
Mas um deus intrometido, por descuido suspirava
E o perfume do seu hálito fez dormir quem se agitava
E o perfume do seu hálito fez falar quem se calava.

17.
Daí… disse o que bem quis e os que jamais foram falados.
Jamais nunca se diz nunca e jamais separados. 
“Or now or never”, he say, “maintenant ou jamais”,
tá ligado?

Quem não tiver medo da morte se
atire
                                                              dos
                                                                       7
                                                                                                         P
                                                                       e
                                                                           c
                                                                               a
                                                                                   d
                                                                                       o
                                                                                           s

18
Assim, pois, falou o truta***, mano a mano, desarmado.
Direto Plateia Via personagem-ressuscitado.
No lusco-fusco da dúvida, depressa foi para o lado
Que dava pras vistas do lago, o daquele espelho falado.
P.S. Falaram que viram Narciso, Si olhando-se pelado.

19.
Esse mundo é nadador e essa vida nada assim.
Dizem mato com os olhos e as paredes ouvem sim.
Não pretendo confundir o começo com o fim.
O fim começa onde acaba e recomeça tudim.

20.
Eu não consigo domar nenhuma concentração.
Jurei escutar conversa dos vultos vulgos do sertão:
Um d’eles desviveu como? E o outro? Não digo não.
Mas agora estão aqui diante da minha ilusão.

21.
Eu m’iludo trezumana, de coração na malícia.
Dou sol à pele que atrai os escravos da carícia.
Ganhei meus dotes de bruxa nos caminhos da Galícia,
Y ahora ya no sé transformar fúrio em notícia.

22.
Já passa das dezenove, só vejo as galáxias do céu.
O sol nem disse até logo, saiu à francesa, nem Kréu.
Foi visitar o oriente, é dele esse t’all mundaréu.
Enquanto eu     pedia na terra      ele ganhou foi o céu.

23.
Mas o céu é de Acauã. Pisquei os olhos? Foi logo embora.
Bateu asas e voam saias daquelas moças de outrora.
Avoa cantando o seu nome e a fauna toda decora.
Acauã! Diz que voltarás! Nunca mais é sua demora…
24.
Lampião esclarecia o que vim fazer aqui.
Vivaldo percebia e, pelos olhos de Zumbi,
Eles eram poliglotas! Simultânea, traduzi
Grego, Araimaco, Latim, Tupi, Yourubá, Guarani.
P.S. Pra Purtuguês de Portugal e Brasilêro Nordesty.

25.
A conversa se arrastava e depois criava tensão.
Nenhum dos dois pretendia esconder a condição
Que fazia deles dois precisarem de oração.
Nas frases jogavam dois tudo pelo sim e pelo não.

26.
Depois de muuuiiiiiiiita conversa, colhi o fruto maduro.
A partir desse momento, nenhum galho é seguro.
Se da morte a vida escapa, ness’ idade eu me aventuro.
“Al di lá delle stelle…”, ouvi cantar o pré-futuro.
P.S. Vivaldo e Lampião brincavam com um anuro.

27.
Um convidava o outro, eles queriam partir
Desde então nem sei p’ra donde, não fui capaz de ouvir.
Vou segui-los passo a passo, só não posso aplaudir
Em cena aberta o perigo é o ator se distrair…
28.
E perder a inocência que permite ele brincar
de ser um e depois outro e quantos puder carregar
Pelas sombras de las noches!.. ou sob um sol de xaxar.
O desastre é confundir onde fica o tal lugar.

29
Yo me voy sin saber? Para onde irei? hei! vocês dois!!!! Esperem por mim, por Tupã! alcançá-los… hei… depois
Daquela curva onde a estrada se contorceu, mas não foi,
Não foi de dor, foi de risada, ria a estrada, pois, pois…
P.S. Cada vez que acompanhava as brincadeiras do boi.

30.
Fazendo xixi acocorada, avistei o cruzeiro do sul.
Eles foram por ali > D’eles, nem vejo o azul.
Esperei tanto eles dois… vou rezar pra Capitu,
Que adulterou sem saber, se soubesse dava o cu.

31.
Dar qualquer coisa é difícil? Peça ao rico para dar.
Tem camelo e orifício, agulha deixa passar?
Pegue um punhado de pedras sem nem sair do lugar.
Nem que o tesouro for o teu, pirata vai te pegar.

32
Amarcord… pipoca ou cigarro? Eis a questão DaDa.
Quem tem bunda… se vire com a lua. – Vai pisá?
Perguntou São Jorge. – Ou vai montá?
Perguntou seu cavalo querendo cavalgá.

33.
Só tu vendo como eu ri dos escrachos d’ Irakitã!
Sério. Imaginava boleros dançados por um titã.
Quero ver é de perto um disco voador de manhã.
Na hora do sol poente prefiro a percussão de Lan Lanh.

34.
Sedento do dito tem rio que só dá pa precipício.
O passarinho passou levando a semente do indício.
A pregação é diferente do sermão e do comício.
Aos ouvidos tudo igual na largura e no suplício.
P.S.  Une fois qui est donnée «c’est si bon » ao vício…
Dividir o bagulho é tipo tudo-bem-pra-começo-de-ofício.

35.
Essssssscorreguei pur’alísss com lábios-de-entra-e-sai.
Ouvi batidas nas portas que abri pr’os carai****!
“Estrada não tem porta”, riscou com a adaga, um samurai.
Lampião! Cadê o cego? Vivaldo! Arrivolta!  CARAI!!!!!!

Terceira Estação

Sobe e desce e sobe e desce e sobe e desce e sobe e desce e sobe e desce e sob

porém…

Só mente
Eu
diz o não nome!

Isso é tudo

ou

tudo isso passa

Teoria da noite

1.
Era mesmo qu’estar a ver o cinema chapliniando,
Musicado por Wisnik e o futebol argumentando.
A pintura surrealista acertava mesmo errando.
Tarsila, star na vista! e as cores orientando.

2.
Sorrindo subi o morro a procurar puro sambista.
Chorando vi quando Nasce o samba do Morre na pista.
Na subida vend’os olhos e na descida pago a vista,
Só me interessa cantar com voz de timbre hedonista.

3.
Sei bordar, pregar botão e conversar mundo afora.
A pedidos eu abri as janelas pra Aurora.
Senhora me dê seu macho, só quero por uma hora.
Devolvo homem e desarmado e com as costelas de fora.

4.
Bora contar cada uma e mostrar quantas terão.
Na nossa conta não falta costela no tronco de Adão.
Se apanhei pra nunca mais! dizer qualquer palavrão,
Quando disse: Paralelepípedo, esperei um caminhão…

5.
… Em vez disso eu ganhei a fantasia e o destaque.
Brinquei na rua e cantei, toquei surdo e atabaque.
Pulei pro bloco seguinte, levando meu badulaque.
Beijei palhaço, colombina e tudo que fosse de araque.

6.
Misturei joia e miçanga e escorreguei na fusão.
Só não caí para trás porque já estava no chão.
Porque já estava no chão, rolei na relva e então
Rodava Eros comigo… a gargalhar meu coração.

7.
Lá do chão eu avistava belo-céu-azul-de-anil.
Fiquei assim o mês inteiro, desde o primeiro de abril.
Tive tanta paciência, que até Jó armou fuzil.
Perguntaru se’eu era baiana. Respondi: mais de dez mil.

8.
Porém depois foi me dannndo… um troço de tédio
tão tão danado,
Que deu amargo na boca do ouvido sintonizado.
Disse assim, assim de mim tipo meu eu cansado:
– Não estás vendo esse anil? há muito já está desbotado.”

9.
Nem dez botas de mil gatos, nem 1000 pulos de delfins;
Nem correndo do tarado, nem procissão de Merlins;
Nem avião ou navio, nem asas de Querubins
Vão me fazer alcançar aqueles dois nos confins.

10.
Cada um risca o seu norte, teme o seu-fraco-seu-forte,
E come na mão do consorte quando tem fome de morte.
Bebo eu na minha cuia, tenho amor e tenho sorte.
Dinheiro aparece assim, oh, é só puxar pelo po(r)te.

11.
Se aqueles dois estiverem passeando por aír
Conversando distraídos como estou sonhando aquir
Logo logo eu pego eles dois bebendo e fazendo el xixir
Posso até balançar a vista só pra ver pingo cair
r
r
r
r
r

12.
Aqueles erres finais nos versos lá de cima
São firulas da garganta limando a matéria prima.
Gargareje aqueles erres ao estilo pantomima
E piche o nu nas vidraças sprayando a cor da rima.

13.
Nem o sábio rima à toa com rimas que dizem não.
É preciso muita bossa pra rimar barquinho e chão.
Cada vez que acendo vela aparece Lampião.
Maria Bonita me disse: – Lampião tem coração.

14.
Lampião acendeu praça pro cego Vivaldo ler mão.
O eco visível no cego espalha o dom da razão.
O cego Vivaldo conecta os sinais da vibração:
E fica logo sabendo se naquela mão tem cifrão.

15.
Nisso passou a vizinha num rebolado rodriguiano.
Seis vezes pagando na valsa o reveillon daquele ano.
Estava tão bonitinha… a ordinária em seu plano
Que esbarrou com os dois olhos nesse cego froidiano.

P.S. Só deu N’UMA, num d’Eu n’OUTRA!

16.
Foi nela mesma, em Dorotéia, que a nudez foi consagrada.
A vida como ela é só precisa ser bancada.
Amar e ser feliz, ao mesmo tempo? arre danada!
Princesa que já foi plebeia sabe de um tudo e do nada.

17.
Sabe tudo… esse Anjo Negro: um tanto assim de segredo.
Joga no só e dá brinquedo: sabe onde está o sossego.
Vive de sonho e aconchego. De tudo!!! cria um enredo.
Não sua, nem treme: de medo.

P.S. Caiu do céu muito cedo!

18.
Essa mulher sem pecados tem namorada e namorado.
Sua mãe é falecida, dela só guarda um retrato.
No seu álbum de família mamy sorri com recato:
A mão da mãe no decote de um pulsar inconformato.

19.
O pai da moça comprara um Vestido de Noiva pra’i ela.
A moça de véu e grinalda atravessou a passarela,
No Aterro do Flamengo, só para ver a primavera.
Mas, no meio do trajeto, espiou pela janela…

P.S. …E viu o beijo no asfalto: era mudança de era.

20.
Onde eu deixei o cego? Onde estás oh Lampião?
O mar é perto daqui? Ou mais longe que o Japão?
Deixei Vivaldo sumir pensando naquela paixão.
Perdi Virgulino de vista vendo as aves d’ arribação.

21.
Olha só! quem vejo ali: en-cos-ta-dos-na-pa-re-de???
Parece que são os dois tentando matar a sede.
Vou me hospedar naquele hotel e cair naquela reeeeeede:
Aquele terraço vê tudo, até onde um cara foi meide.

22.
Não posso me distrair mais uma vez, vejam só:
Se eu perco de vista eles dois, mais uma vez, tenham dó!
Dó ré mi uni duni tê Aposto que vão pro forró.
No pé da serra tem coquista, tem zabumba e tem xodó.

PS
E tem mais:

23.
Vivaldo cega mais nítido quando afina sua rabeca.
Um Lampião distraído deixou cair a boneca:
“O rabequeiro foi p’a escola?”. Vê que pergunta indiscreta.
Deu calado como resposta. Tinha uma senha secreta:

P.S. O cego arregalou a pergunta pra rabeca.

24.
A rabeca respondeu com o toque do arco nas cordas.
O cego aceso de arte, subiu ao palco nas costas
Dos fãs e tietes aos gritos e pegou a dar mil voltas
Nas escalas musicais. A voz e a rabeca soltas…

25
De tudo quanto era modo o cego falava de amor:
O amor do cego era cego como é cego todo amor;
Cada amor se reconhece e se admira no amor…
… Estar de amor é só deixar o tempo amar o amor.

27.
O cego cantando dizia, o cego parece que via.
Quanto mais ele rimava mais plateia aparecia
De todo lado que tinha vinha gente e a gente ria.
O cego enxergava tudo o que a plateia carecia.

28.
Lampião, perfumado, não saía do seu lado,
Cochichava ao cantador o sentimento encantado
Que animava a multidão ao ouvir seu rabecado.
Vivaldo quis saber quantos eram no gramado.

29.
É muito difícil contar um a um na multidão.
Mas ideia é que não falta e pra mostrar tem Lampião.
Maria Bonita me disse: – Virgolino tem razão.
Pra quê vigiar número em desarmada multidão?

30.
Pensei, com as ideias da arte, em cair de mão em mão…
… Até caí na conversa da cobra que enganou Adão.
Eu disse a Maria Bonita: Bonito fez Lampião.
Derrubou a espingarda quando te viu no portão.

31.
Quem vai acreditar agora se eu disser que Lampião
Acendia o feminino masculino do sertão?
Os lenços de seda… e os anéis de prata… espia o ouro do cordão!
O danado customizou o chapéu d’ Napoleão.

32.
Assim foi naquela noite. Era um novo desafio:
Um Lampião desarmado acendia seu pavio
Enquanto Vivaldo cantava sob o seu próprio assobio
E nas cordas da rabeca, olha o arco em rodopio.

33.
O solo do cego er’ um bordado. E ousaria:
Seu desafio enfrentava a forma da arte em cantoria.
O poeta era o crítico da sua própria autoria.
De repente…
… Pra ser feliz sem sofrer: qualquer um se mataria.

P.S.
E eu, no meio da multidão, fazendo etnografia.

EPÍLOGO

O jogo das luzes

ou

a peleja das lâmpadas com as estrelas.

Aconteceu naquela noite

01.
De repente, fui convidada a subir no palco do cego.
Vivaldo, o cantador? Enxerga até formiga no prego.
Como então adivinhou minha presença? Eu não nego:
Aquela noite inesquecível foi demais para o meu ergo.

02.
Um furi-furi na multidão… vou fugir par’uma ocara.
Vou pegar o trem das onze na estação Jabaquara.
Neste instante mim viu eu pintada que nem uma arara.
Entrei na cena e cantei: tenho seiva Nhambiquara.

03.
Comecei a dizer versos para me apresentar.
Cantando disse meu nome e o que gosto de cantar;
Quem sou, de onde vim e quem desejo encantar.
Agradeci o convite e botei o cego no altar.

04.

Assim, no primeiro pé de verso, já driblei competição,
Como está enraizada na peleja até então.
O desafio que eu proponho não é “Eu ou tu no chão”.
É não matar e nem morrer somente pra ter razão.

P.S. Uma onda de sussurros crescia da multidão…

05.
Ora! ninguém acreditava que pudesse acontecer
Uma peleja engraçada sem as armas do poder.
Ora, ora, vamos ver a graça que isso vai ter:
Nenhum dos dois vai ganhar, nenhum dos dois vai perder.

P.S. Arte não é esporte. Tem outro jeito de ser.

06.
Semente de arte não vinga em solo competitivo.
Não dá folha, não dá fruto, nem sombra pra lenitivo.
Quem é da arte sente a dor do soco lá no umbigo
Quando o EGO se engrandece com a desgraça do “inimigo”.

P.S. Saber rimar não coincide ‘comigo versus contigo’.

07.
À multidão sugeri, com calma, sem alarido:
Levante a mão quem não quer ser no amor correspondido.
Todo mundo olhou pro céu e, pra si mesmo, escondido.
Depois, virou-se pro lado… e se entregou iludido.

P.S. A esperança nunca deixa seu seguidor sem sentido.

08.

Um mar de gente… e as ondas sussurrantes saíam do coração:
Da mina-que-dizia-Slam no trem e na estação;
Do motoboy que brincava de capacete na mão;
Do soldado emocionado perdendo de vista o ladrão.

BO. Vi até desassassino desamolando facão.

09.

As ondas quebravam no palco e escorriam sem Tabu:
Na viúva que vestia sus recuerdos do baú;
Nas feministas sonhadoras apaixonadas por Pagu;
Na prostituta elegante montada na Grife DASPU.

10.
A cantoria saudava a negra no ministério
Pra desvendar o racismo e acabar com esse mistério
De um país tão cordial só ter branco no ministério.
Somente o preto no branco para escrever BRASIL(s)ério!

PS. Zumbi Abdias Pixinguinha têm medida e têm critério.

BO. O rap mostra onde está quem é quem no cemitério.

10.
Já tem muita ideia contrária em desafio constante.
Não carece de disputa onde se lê Safo e Dante.
A teoria de Darwin não pega em bicho falante,
Nem mulher é retirante de uma custela homilhante.

11.
Vi Mandela com Gandi, bem ali! Oh! na Praça da Concórdia.
Vi Francisco com Jesus tramando misericórdia,
Vi Lennon benzendo hipongos com sete raminhos de córdia,
Vi Tereza de Calcutá ensinando evitar discórdia.

12.
O cego Vivaldo sorria e cutucava Lampião.
Lampião compreendia e falava: “É nós”. Então
Eu vi assim de bem pertinho Jovelina e Jamelão,
Duck, Sarah, Elza e Ella a fazer improvisação.

13.
Madona – mia!!! – uma gata… que geme feito ema:
No Juremá, na França de Flaubert ou debaixo da Jurema.
Lady Gaga, no barco de Leide Lara, nas águas de Saquarema,
Infernizou tanto os paparazzi que eles voltaram pra Ipanema.

14.
Era mais de meia-noite e ninguém arredava Dali.
Nem um casal com sete filhos oriundos do Piauí.
Uma velha enfeitada: brincos, anéis, colares de rubi;
Uma turma de ninfetas descendentes dos Guarani.

15.
Enfermeiros, arquitetos, médicas e dentistas;
Jogadores de futebol, psicanalistas e tenistas;
Cozinheiros e copeiras, feirantes e eletricistas;
Políticos e garis, advogadas e floristas.

16.
Quem seria aquele moço na cadeira de rodas cantando?
Tanta gente de muleta, de bengala e se alegrando.
Crianças correndo a brincar e adolescentes ficando.
Só não vi naquela noite um só vivente chorando.

17.
Impossível descrever os excêntricos ali:
Tinha alguém fantasiado de pirata Bacardi;
Um Homem Aranha subindo no tronco da Mucuri;
Chacrinha compareceu com apito e abacaxi.

18.
O evento parecia um baile de carnaval:
Papangus eletrizados, um rei momo glacial;
Harry Potter, Peter Pan e uma bruxa genial;
Lady Godiva no Pégaso e Frinéia no original.

19.
Os ambulantes venderam, tranquilos, sem gritarias,
todo o estoque que tinham de suas mercadorias:
Bebidas pra refrescar, ou provocar euforias;
Leite, chá, café ou mate pra acompanhar as iguarias.

20.
– Pipoca, cachorro quente, rabanada e alfenim.
– Picolé, algodão doce, maçã do amor e quindim.
– Sorvete, ponche, refresco, suco de fruta, dindim.
Tinha uísque licor e fódica, tudo tim tim por tim tim.

21.
Foi esse o rolé que eu dei de olho no coração…
… E o coração na boca… só namorando canção.
Não escapamos do bis: a vida é repetição.
Mas… cada bizzzzz é diferente, repara na emoção!

22.
Os aplausos foram loucos, calorosos e até
Só não aplaudiram de pé, porque já estavam de pé.
Falei pé? Quedei numas meninas a brincar de Finca-pé,
Obstinadas num jogo de expressões com o nome ‘pé’.

23.
Ganhava o jogo quem saltasse com o pé direito na tábua
E, num pé só, chutasse o vento e emparelhasse com o pé d’ água.
Nenhuma maneca daquelas julgou que a tarefa era árdua,
Mesmo sabendo que ainda teriam de cantar sua mágua.

24.
Pois então, ainda não disse, a tarefa consistia
Em pescar, na pose do Saci, com presteza e valentia
Palavras e expressões que tinham ‘pé’ na grafia.
Fiquei pasma admirando aquela estranha pescaria.

25.
A primeira jogou o anzol sem o sinal da largada.
Mas não houve anulação, este item não constava
Na regra do jogo inventado. Atenção na sua jogada:
“Se dá pé, ninguém se afoga”, pescou um dito, a danada.

26.
Quando vimos, a segunda já havia disparado:
– Pé de cabra, pé de vento, pé de mesa, pé de mato;
Pé na porta, pé na bunda, pé na tábua, pé de pato.
Me dá o pé meu louro que eu te dou o meu sapato.

27.
– Não vou perder o pé (Disse a baixinha).
A nerd tomou os pés pelas mãos e, tadinha,
Jurou de pés juntos que não tira o pé da linha.
A vaidosa confessou não ter olhos pra pés-de-galinha.

28.
Olhando de onde eu olhava meu ponto de vista era belo:
Um jardim de pés de moças com talos de pernas al cielo,
Ímpares, os membros sustentavam a ilusão de um castelo
De cartas, de areia, de vento, de sonhos, de luas de mielo.

29.
Pé-de-chinelo, pé de guerra, pé quebrado.
Enfiar o pé na jaca, em pé de igualdade, pé trocado.
Botar o pé no mundo c’os pés nas costas, pés d’ pecado.
Tem pé quente? Fica no pé de quem por tuas mãos foi coroado.

30.
Pé ante pé, enfiei o pé, apertei o passo.
A multidão vai dispersa e eu seguirei seu compasso.
Sairei à francesa como manda o figuraço.
Para rimar eu fuço tudo quando o sinônimo é escasso.

31.
Nisso que eu ia passando, eu ouvi esse cochicho:
– Sofre que só pé de cego, quem acredita em fuxico.
– Ela já estava com os dois pés na cova por capricho!.
Conversa de duas beatas com os pés fincados no lixo.

32.
Uns cariocas passaram dizendo que tinham prova.
Por isso a boca no trombone quando souberam da nova:
Disseram que viram João Gilberto, dando na ópera uma sova,
Tocando e cantando sem fossa. Tão falando em bossa nova.

P.S. Línguas ferinas sopravam línguas de fogo e de cobra.

34.
Cadê aqueles dois? Nem fui vê-los no camarim.
Era tanta gente vip de pulseirinha e trancelim.
Cansada, fui rangar no hangar do Zepelim
Voltarei voando pra casa cantando feito um vim-vim.

35.
Em vez disso fui m’imbora béradêra pela estrada.
Vou escrever tudo isso assim que chegar em casa.
Mas agora ainda tenho que andar mui disfarçada
Na minha própria esperança, através da madrugada.

APÍLAGO

Isso é

Lagos de mel

ou

mel nos lábios do fim

and

a coda não é o end

Ecos na madrugada

I
Irei contar o que eu vi vestida com a saia de pálpebras:
O mundo se abrindo e fechando, nem precisava de mágica;
O povo do mundo chegando, com coisas da terra e da fábrica.
Para tudo decifrar, foi preciso estudar álgebra.

II
Lampião levou o Cego Vivaldo p’ra ver o mar.
Eu não vejo muito bem, mas enxergo o que não há.
Eu vi com aqueles olhos que a terra nos dá de olhar.
Vi o que ninguém viu e nunca jamais advirá.

III
Eu vi os dois bem ali nas belas dunas de areias.
Lampião, para o cego rir, se montava nas baleias.
Vivaldo chamou Flaviola e tocaram às pareias.
Caymmi chamou Jussara e foi música nas veias.

P.S. Para combinar com a saia de pálpebras…
… vesti a blusa das sereias.

IV
Eu vi: Um mar de gente em silêncio…
E na rabeca, Vivaldo a navegar…
Eu vi: Lampião deu ao Cego a luz das velas do mar.
Eu vi: O Cego mostrar a paz que Lampião deu de sonhar.

V
O mar batia nas pedras e em mim batiam as horas.
Lampião fugiu pra casar e Vivaldo foi embora
P’ras bandas de só-sei-quando onde quem canta não chora.
Ora, ora, bora, bora. Olha a Hora!!!!

VI
Eu jamais esquecerei aquele dia ensolarado.
O verão queimando as horas: nem futuro nem passado.
O presente era o mar, onde o tempo mergulhado
Brincava de se mostrar, entre as ondas, disfarçado.

VII
Para quem quisesse olhar, o tempo lhe mostraria
O fim dos tempos e o começo, no presente que morria
A cada segundo que passa, da meia noite ao meio dia.
Para quem ignorava, o tempo nem se mexia.

VIII
Posso não ver muito bem, mas enxergo o que eu quero:
Os sonhos do meu amor, a alma de um bolero,
A bossa na minha dor. Sem o rock desespero.
Só não vejo como alcançar o tempo que nunca espero.

P.S.

ACAUÃ
nuncamais nuncamais nuncamais nuncamais nuncamais nuncamais nuncamais nuncamais nuncamais
nuncanuncamais
NINGUÉM
nadamais nadamais nadamais nadamais nadamais nadamais
ACAUÃNUNCAmaisNUNCAnuncaMAIS

Notas

* Borito: Bonito
** Rirri: Fecho-éclair ou zíper
*** Truta: Gíria do rap
****Carai: Gíria do rap


Poemas de Jefferson Dias na Kuruma’tá


Jefferson Dias vive e trabalha em Ribeirão Preto, SP. É autor dos livros de poemas Último festim (Multifoco, 2013), Silenciosa maneira (Medita, 2015, mediante ProAC) e Qualquer lugar (Editora Primata, 2020), e da plaquete Políptico apocalíptico (Editora Primata, 2021). Tem poemas, contos, traduções e resenhas publicados em periódicos e portais de literatura Ruído Manifesto, Ponto Virgulina, TriploV, Opiniães, Torquato, Mallarmargens, Aboio, Frentes Versos, entre outros.

Jefferson chega muito bem-vindo na Kuruma’tá.
Bora ler e prestigiar seu trabalho!

Seus textos estão reproduzidos em imagem para respeitar a distribuição gráfica dos versos.





Poesia para a pandemia

Texto de Toinho Castro


É da natureza do poema pertencer
a todos os tempos, ser atemporal.
Paulo Sabino

A poesia é um dos fazeres humanos mais essenciais, mais ancestrais. Não tenho esse estudo todo, mas arrisco afirmar que é anterior não só à própria escrita, como a muitas outras manifestações do espírito. Ela tá alinhada nessa espécie de código genético, pulsando dentro da gente que nem sangue, coisa que a gente só percebe quando aflora, quando chama. E digo que recorremos à poesia constantemente, que na nossa linguagem cotidiana, de conversas e encontros, aparecem mais que frequentemente pequenos versos soltos, às vezes rimados, às vezes livres… porque tem coisa a ser dita que só se encontra o dizer na poesia.

E dito isto, louvo a iniciativa do poeta e produtor cultural Paulo Sabino, de organizar e botar no mundo uma coletânea de poemas para nos guiar esse período amargo de pandemia que, anda, atravessamos. É nesse entendimento, da poesia como lenitivo, como janela a permitir a entrada da claridade, que o livro Poesia para a pandemia (Selo Bem-te-li – Editora Autografia, 2021) se movimenta e transborda vontade de viver. E não, não se trata da panaceia motivacional, muito pelo contrário. Trata-se do poema como afirmação da força vital, que é terna, é afetiva, mas também com suas arestas e assimetrias.

Poesia para pandemia nasceu nas teias enredadas das redes sociais. Paulo viu sua agenda de trabalhos desabar de uma hora pra outra com o lockdown a disseminação descontrolada da Covid, mas não ficou parado. Criou o projeto 40tena em versos e pôs-se a ler poemas online. A fonte era sua invejável biblioteca pessoal de poesia, de onde, dia após dia, tirou textos e energia para se segurar nesse mundo que de repente ficou virado, de pernas pro ar. Formando um acervo de cerca de 160 leituras, Paulo não resistiu à ideia de que aquilo pudesse ser um livro. Generosidade é a palavra.

Outra palavra, chave nisso tudo, é curadoria. Poesia para pandemia é resultado de uma curadoria de rara sensibilidade. Com olhar a tento Paulo Sabino nos guia nessa cornucópia que despeja diariamente esse tal de conteúdo, em que se fica cada vez mais difícil discernir o que merece ou não nossa preciosa atenção. Embalado num projeto gráfico bonito demais, que faz jus a uma diversidade impressionante, o livro é um imenso (em vários sentidos) diálogo com (e também entre) as mais distintas e ricas vozes poéticas da literatura brasileira. São quase 600 páginas dedicas à poesia, ao fazer poético. Dedicadas à fruição desse sentido do poético, que funciona na gente como uma subtarefa, como se fosse essa rede permanentemente embaixo da gente, enquanto caminhamos na corda bamba de tudo.

Acredito na poesia como essencial. Acredito que ler poesia resgata em nós o poeta, nos torna poetas. Então esse livro que Paulo Sabino organizou e nos ofereceu, é uma oportunidade a que devemos nos agarrar, não como náufragos, mas como surfistas. Vamos subir nessa prancha e deslizar, ao longo da vida. E olhe, você pode até devorar suas páginas numa empreitada só, mas digo desde já que é um livro clássico de cabeceira, de leitura saborosa, recorrente, distraída. Desses que levamos na mochila, numa viagem.

No prefácio de um dos seus belos livros de poesia, Jorge Luis Borges comenta que seu editor disse-lhe que, se ele escrevesse trinta poemas num ano, daria para publicar um livro; ele então afirma sem piscar: Não é possível que não ocorram, em um ano, trinta oportunidades de poesia. Poesia para Pandemia são muitas, muitas mesmo, oportunidades de poesia. Senão de escrever, mas de ler. E isso já nos faz, como afirmei antes, poetas.

Obrigado, Paulo. E que inveja da sua biblioteca!