A dança do Verão

Crônica de Toinho Castro


Já não sou mais aquele sujeito que senta na mureta do Forte de Copacabana com inveja daquela gente do mar. Da última vez que lá estive, ainda nesse janeiro que finda, mirei uma moça com seu cachorrinho numa prancha de Stand Up Paddle. Me detive na alegria daquele cachorro que se jogava ao mar calmo e retornava à prancha sozinho. Sim, às vezes ele era meio inconveniente e a moça, sua parceira de alegria, tinha que resgatá-lo da água segurando pela alça de seu mínimo colete salva-vidas. Sem falar que, em tamanho diminuto, circulava pela prancha como se estivesse a passear num corredor, passando por baixo das pernas da moça, indo e voltando e saltando novamente, intempestivamente, bravamente, no mar.

Tava lá o cachorrinho no mar a se esbaldar, e eu ali na mureta, tomando café da manhã, invejando e pensando que um cachorrinho daquele tamanho, quase uma gota no oceano, se jogava destemidamente ao sabor do mar, enquanto eu relutava no meu medroso recanto do ser. Medo de subir na prancha, medo de cair, medo da onda que virá, e sim, ela virá, medo de nunca jamais me equilibrar sobre a planura, a planície daquele artefato, a prancha, tão bem explorado pelo cachorrinho aventuroso.

Olhe só. Raquel, minha companheira, com 14 anos de Cidade Maravilhosa, nunca havia tomado um bom banho de mar em Copacabana. A gente só ia em Ipanema, no Arpoador, um Leme ocasional… talvez devido a uma preguiçosa tradição que se formou nos meus 25 anos de Rio de Janeiro, por conta de pequenos acasos.

Mas no último fim de semana de feriado numa quinta, com a sexta imprensada ao nosso dispor, chegou a vez de Copacabana na vida de Raquel. Por conta daquele café da manhã no Forte, em que ela percebeu a calmaria daquele pedaço de mar, recostado ao Forte, acabamos fincando bandeira no Posto 6, ali juntinho da estátua de Dorival Caymmi, pela qual passei agradecendo as dádivas de Morena do Mar, Dora, rainha do frevo e do maracatu, O vento e outras tantas de generosa beleza. Agradeci e sentamos ali, naquela faixa estreita praia, naquele pouco espaço entre a cidade e o Atlântico.

O sal da água gelada do verão carioca nos renova sempre. É sempre essa vibração infantil ao pôr os pés no mar e mergulhar, com o alarido da criançada ao nosso redor. O vai e vem dos vendedores, as famílias reunidas sob a sombra auspiciosa da Deusa Barraca, o sabor da água de coco e esse céu sem nuvens, límpido, inacreditável, cortado eventualmente por aqueles enfadonhos teco-tecos de publicidade, carregando suas longas faixas amargas. Mas tudo bem, o mar é maior, o sal no corpo, nos cabelos, é maior. Danem-se os teco-tecos do mercado.

Dali mesmo, com minha cerveja na mão, eu mirava então o ir e vir das pranchas do tal do Stand Up Paddle, o movimento dos remos, de um lado pro outro, impulsionando o adentrar das águas de Iemanjá. Da minha parte, me foi ensinado que o mar não tem cabelos
que a gente possa agarrar
. Criado e crescido nas piscinas mornas do Recife, protegidas pela amurada dos arrecifes na maré baixa, o mar do Rio de Janeiro sempre foi de me deixar temeroso. Nunca deixei de curti-lo, de aproveitar suas ondas, seus dias de mansidão transparente. Mas tantas vezes cheguei na sua beira, molhei os pés e recuei, por conta de sua agitação, cá entre nós, exagerada e desnecessária. Frustração é a palavra pra chegar na praia no alto verão carioca e não poder entrar no mar. Ter que se contentar com o chuveirão… uma lição de humildade, do mar com nosotros!

Mas ali, na mansidão do Posto 6 de Copacabana, resolvi criar coragem e fui até a barraca das pranchas, a SupCopa 6. Fiz os acertos necessários e, depois de breves instruções, era eu que deslizava a prancha naquele mar, seguindo à distância, mas paralelo ao muro do Forte. Segui meu rumo com o coração a mil de emoções. Ainda sentando de pernas cruzadas sobre a prancha, já me sentia senhor de algo, senhor de algo em mim. Percebi rapidamente que não se tratava, em momento algum, de arrumar coragem, e sim disposição. Disposição de ser eu mesmo e me doar àquele território de natureza tão distinta daquele que habitamos e nos movemos, a terra firme. Tão distinto e ao mesmo tempo tão familiar e querido, impresso de tantas maneiras na memória afetiva, nas marcas da pele, no instintivo movimento de nele se jogar e saber o que fazer com esse corpo, ora desajeitado, ora desenvolto, em seu reinado de peixes, tartarugas, algas, corais, celenterados e toda sorte de criaturas que o povoam, desde a areia lavada pelas marolas às suas profundezas escuras e remotas.

Dois dias levei pra sair da casa de caramujo em que eu estava entocado sobre aquela prancha. Foi no terceiro dia que pensei: Se é pra ficar sentado nessa prancha, é melhor eu procurar um caiaque ou o que o valha! Foi aí que respirei, segurei o remo com as duas mãos, transversal ao plano da prancha, e me ergui. Me ergui, digo, que nem pássaro a voar, e num sentido novo de liberdade e alegria, dei minhas primeiras remadas de pé. Olhos no horizonte, no Pão de Açúcar lindo e reverente, céu pleno de azul. Sabe que dá uma emoção quando você entende, ou melhor, quando seu corpo, essa coisa que parece ser, mas não é separada de você, entende que não se pode ser rijo sobre o mar. É preciso flexibilidade, jogo de cintura, saber que espaço se ocupa nessa dança. Pois sim! Entendi que é uma dança em que minha parceira era a prancha. Essa compreensão foi súbita e reveladora. A prancha é meu par e é ela, na sua conversa com o mar, que dita o ritmo desse bailado. E é nela que me apoio com firmeza e ternura, os pés a ler seus movimentos, se ajustando em lampejos de energia que vão subindo para o resto do corpo, dando-lhe sentido e conforto. E uma confiança de que enquanto eu estiver nessa valsa, atento a minha parelha, atento aos sinais que ela e o mar te enviam o tempo todo, eu estarei bem. Eu não estarei só, mas integrado a uma natureza da qual a gente nunca deveria ter se deslocado.

Do alto da prancha olhei pro Rio de Janeiro, minha cidade. Que eu amo. Pela primeira vez, depois de 25 anos, desde que aqui cheguei pra morar, pude me dar a tranquilidade dessa visão. Copacabana se estendendo à minha vista… remei remei ao longo de seu litoral. Inevitavelmente pensei em quem a viu pela primeira vez, da amurada da embarcação, imaginando talvez o valor de toda aquela madeira a se perder de vista, subindo os morros, talvez absorto em algum sentimento que lhe era desconhecido, sentimento sentido ali, pela primeira vez. Encanto? Maravilhamento? O resto é história.

Ali estava, diante de mim, o purgatório da beleza e do caos. De longe os automóveis, como um rumor. O espanto de uma ou outra criança cortando o ar até ali, onde eu me encontrava, no meu pequeno milagre. Vi peixes céleres, e até uma tartaruga encantada que passou rente à prancha. Cumprimentei-a, porque fiquei assim meio bobo naquele salão em que eu e prancha dançávamos, cuidando um do outro e de si. Minha vontade era nunca mais sair dali. Mas na areia meu amor me aguardava. Devia tá de olho no mar, procurando pela minha figura. Ou nem… somente curtindo o coco gelado e as gentes bonitas a vagar pela areia, entrando e saindo da água nesse encontro gostoso com a ordem da natureza.

Subi naquela prancha fragmentado e retornei inteiro. Com uma consciência melhor de mim mesmo e do que sou capaz, com meu campo magnético, acredite se quiser, arrumado e ajustado ao da terra. Despedi-me naquele dia da minha parceira nessa dança de verão e cometi, não muito tempo depois, a indiscrição, com jeitinho de pequena traição, de retornar ao salão, iluminado pelo sol, sem ela, pra dar uns mergulhos e braçadas. Mas já sonhando e planejando a próxima festa, a próxima dança entre eu e ela.


Quero muito agradecer ao pessoal da SupCopa 6, que me estimulou nessa jornada que agora não tem fim. Grato pelas dicas e pela paciência com o marinheiro de primeira viagem. E também um super obrigado à turma da Barraca 187, do Jerônimo, que tá ali na gentileza e no apoio da água de coco, da cerveja gelada e da sombra boa nesse sol de verão.


Sobre Lucia

Texto de Eduardo Maciel


Olá, queridos kurumateiros!

Espero que estejam todos bem. Eu não estou. Enquanto escrevo, tento de alguma forma preencher esse vazio que tem me acompanhado nos últimos dias. Um vazio do tipo que dificilmente poderá ser preenchido, e já explico o motivo.

Recebi uma ligação inesperada dando conta de que a minha psicóloga foi encontrada morta em seu apartamento. Assim, de repente, de causas que desconheço. 

Durante a pandemia estávamos fazendo as sessões por vídeo. Mas meu tratamento com ela se iniciara no ano 2000, então foram 22 anos de tratamento, onde ela me acompanhou em minhas venturas e desventuras, fracassos e vitórias, meu amadurecimento em si. Passei metade da minha vida até aqui contando com ela.

Eu sei que a princípio vocês devem estar achando estranho, pois em teoria não deveria haver contato pessoal nessa relação entre psicólogo e paciente. E é verdade. Mas depois de 22 anos é impossível que não se crie algum tipo de laço para além do consultório. Especialmente com ela. Lucia. Lucia Ornelas, que Deus a tenha.

A mera ciência de sua existência por si só me fazia forte, porque foi junto com ela que enfrentei meus maiores desafios até hoje: minha orientação sexual diversa, doenças físicas, assédio moral, desemprego, falência financeira, abuso de substâncias e até mesmo o temor da morte. Ela foi sempre incansável, nunca me tomando o protagonismo, mas me fortalecendo para que eu mesmo desse os passos necessários em direção à cura e solução das minhas inúmeras questões interiores.

Mas, sem ela, eis que me deparo com esse vazio. Mas não confundam, pois pra mim é claro por demais. Não se trata do vazio por dependência de suas palavras ou presença física, mas do medo, de não mais poder contar com ela em qualquer evento extremo futuro.

Pude lhe fazer homenagens em vida: dediquei um soneto a ela em meu terceiro livro, a incluí nos agradecimentos do quarto livro, e a reconheço como minha maior incentivadora a me deixar levar pela arte como propósito de vida, principalmente no início dessa jornada.

O medo é uma doença. Se não tratada, te consome. E o único tratamento para o medo é enfrentá-lo. Sem armas, mas com a força do pensamento organizado. Por isso, escrevo para vocês sobre essa tragédia.

Preciso fazer com que essa minha história de terapia interrompida seja útil, como se fosse a grande lição que Lucia deixou para mim, e que agora preciso compartilhar com vocês.

Sejam cientes dos seus medos. Por mais aterrorizantes que sejam, os convidem para um café. Entendam suas formas de operar. Saibam em que partes de vocês eles se acoplam. Assim, e somente assim, vocês serão capazes de entendê-los e depois enfrentá-los, com chances de vitória. 

Esse texto serve para isso. E ao terminar de escrever, estarei aniquilando o vazio do qual falei no início.

Todos nascemos sozinhos, e morremos sozinhos, infelizmente. Nossa única real companhia é o que aprendemos. E a Lucia me ajudou a compreender tantas coisas que usarei todo esse ensinamento como argamassa para selar o vazio. O que morre é o corpo, e não o que o intelecto desse corpo produziu em vida.

Ah, que maravilhosa essa sensação. Já não tenho medo, ao menos não tanto. Já a gratidão, admiração e reconhecimento, esses levarei comigo até que meu corpo se torne inerte. E que Deus tenha piedade de mim assim como certamente teve com a Lucia.

Descanse em paz, loura. Você é luz. Sempre foi, e sempre será. Muito obrigado por tudo!

E quanto a vocês, kurumateiros, peço que reflitam. Porque tudo começa e termina em nossas mentes.

Fiquem bem, fiquem com saúde. 

Até breve!

+ Tays Melo na Kuruma’tá

Crônica e poemas de Tays Melo — Ah, a ingratidão! Suspiro ao pensar. Um suspiro exausto, com olhos baixos, semblante perdido, desidratado e melancólico.
Ah, a ingratidão… Esta coisa abstrata que embora esteja no outro é em nós que causa tanta dor.
Há corações que não batem, mas não matam seu dono. O deixam perambular, mortos-vivos, incapazes de perceber a diferença entre agravo e doação. Corações secos, continuam lá, abrigando coágulos gélidos.

Crônica e poemas de Tays Melo


Um brinde aos simplórios ludibriados!

Ah, a ingratidão! Suspiro ao pensar. Um suspiro exausto, com olhos baixos, semblante perdido, desidratado e melancólico.
Ah, a ingratidão… Esta coisa abstrata que embora esteja no outro é em nós que causa tanta dor.

Há corações que não batem, mas não matam seu dono. O deixam perambular, mortos-vivos, incapazes de perceber a diferença entre agravo e doação. Corações secos, continuam lá, abrigando coágulos gélidos. E o seu frio é soprado sobre as almas quentes para rasgar seus mantos calmosos, cobertores dos desabrigados, desprotegidos, atirados à poça de cuspe dos ingratos. Às vezes é difícil ser alma quente, cobertor dos desalmados.

Mas hoje, eu já não quero esclarecer nada a ninguém. Não quero falar com ninguém. Quero apenas descansar. Hoje eu só quero ficar quieta e quem sabe chorar. Choramingando uma lágrima por vez, escorrendo lenta e morna pela face como se, na verdade, não quisesse cair. Como se sentisse que quem a fez derramar, não merece que ela caia e cumpra o propósito da cura de uma doença que não está em mim.

Ah, a ingratidão… Como arranha! Como fere! Ainda que não tenha nascido em minha ação, de um olhar meu, de meu desamor, nasceu de desatenção minha. Talvez por isso me sugue, tente me esvaziar, quando me deixa triste, solitária e sem acreditar. Porque a ingratidão sempre vem de onde não se espera, no risco, na entrega, simplesmente por doação, por mera razão de com o outro se importar.

 


Um café, por favor.

Hoje provei desse café amargo.
Despejei naquela xícara verde-abacate
E o vi cair lentamente, melódico,
não expresso, expressivo, ardente.

O som debulhando borbulhoso
No centro da queda negra
Que formou o primeiro gole
armazenado ao fundo.
Sinuosa e emergente a fumaça
Trazendo o aroma da melancolia.

Não consegui adoçá-lo.
É cortante, imerso no amargor
Que precisa ser alcançado
Desse café mal coado
Que não desce nem cede
E que me favorece travando à garganta.

Desse café, desce café
Dá esperança ameaçada de morte
Companheiro noturno das agonias
Do operário que pesca e não dorme.

Café que acompanha a ilusão
Dos poetas e estudantes contumazes.
Esse café de 29, de sacas incendiadas,
Atiradas ao mar pela esganação do mercado
Oferecido aqueles com quem se quer fazer as pazes.

Esse café
Da alma marcada que sangra na sombra.
Degusto todo dia, alargando as sendas
Com linhas costuras, retalhos e emendas
No abismo talhado que me assombra.

Do aroma desce sabor, desce saber
É forte, é quente, dói e sacia.
Ferve, se eleva, se derrama
Espalha seu pó, faísca na chama,
Aquece o sol ainda que saído
De um pote de água fria.

 


A mesa do fascismo

De orgulho em estilhaços
Nos becos alguém grita, implora…
O estômago colado aos espinhaços
Da criança raquítica que chora.

Exala-se nas esquinas da estupidez
A cobiça do helminto esganado
Nos monturos chafurdados do burguês
Em eflúvio se arvora o escorralho.

De suas almas,
E do choro
Do desespero,
E do chorume
Avulta-se o espectro derradeiro
Fruta podre
E estrume.

Ruas frias, morros altos, becos úmidos
Cachorro, mulher, criança, homem
Arranham a panela com olhos túmidos
Em ânimos trapaceados pela fome.

 


Gatilho

É fácil quando se pesa
o que é mais importante
E não se menospreza
o peso de elefante
que esmaga a consciência
com castigos torturantes.

Nestas noites abrasivas
Largue-se peso inocular
na consciência puida
de quem não soube validar
a fortuna auferida
que todos sonham alcançar.

É gratificante ser
fiel a quem se deleitou
De suas alegrias e agruras
Engolindo sal do dissabor
Ao teu lado nas torturas
Tonturas das doçuras do amor.

Não se dá constrangimento
A quem já sabe usar o não
Ao que só causa sofrimento
Banhos frios de aflição
Mágoa e arrependimento
Não se lava com sabão.

Quem quer jogar ao nada
das ruelas espremidas
de uma vida tão suada
o amor de sua vida?

Volta para tua casa
Abraça os teus filhos
Beija a boca da pessoa
Que emenda os teus trilhos

Abraça forte como nunca
revela teus sonhos exauridos
Pois ainda dá tempo, meu caro
Não vá puxar este gatilho.

Tays Melo | Areia -PB

Meu primeiro grande amor

Texto de Toinho Castro


Meu primeiro grande amor foi a música eletrônica. Certa vez, aos 12 ou 13 anos, menos ou mais, não sei, acordei de uma soneca pós-almoço, na casa do meu primo, Carlos Henrique, em Natal, no Rio Grande do Norte, ao som de Autobahn, do Kraftwerk. Foi como se eu acordasse dentro de um sonho. Foi como se, ao acordar, algo também despertasse em mim, como se eu tivesse ido dormir uma pessoa e acordado outra. Acho que foi a primeira vez que eu senti o que senti, e acho que também a última. Nunca mais senti nada assim, ouvindo qualquer música, por mais que encantasse. E muita, muita coisa de grande beleza escutei depois disso. Músicas que até hoje carrego comigo. Mas o que aconteceu ali, com Autobhan, foi uma iluminação. Na medida em que um menino de 12 ou 13 anos pode ter uma iluminação.

Naquela época, naquela geografia terceiro mundista provinciana e periférica em que vivíamos, era difícil, pois, conseguir uma cópia em vinil do disco Autobahn, que até então não havia sido lançado no Brasil… Na verdade acabei de pesquisar e consta, na Discogs, a informação de uma edição brasileira, com aquele belíssimo selo Vertigo, de 1975. Olha só! Mas pra mim, moleque, morando na Imbiribeira, era como se não existisse. Era uma coisa de um outro planeta.

Mas… na loja A Modinha, lá no centro do Recife, rua Nova, talvez, tinha um exemplar, exposto na parede de discos atrás do balcão de atendimento, do Trans-Europe Express, do mesmo Kraftwerk. Lembro de voltar à loja com minha irmã (Na primeira vez que vi devo ter ido com minha mãe, num de seus passeios pelo centro), porque eu não tinha, então, idade para ir ao centro da cidade sozinho. Apontei para o disco e minha irmã pediu pra ouvir. Senti certo embaraço quando aquela música estranha soou muito alta na loja, e as pessoas ali olharam com aquela cara recifense de “mais o que diabos é isso?!”. Rapidamente confirmei que era aquilo mesmo que eu queria, aquela música esquisita, metálica, mínima, tão pouco melódica , como que saída de… de uma máquina. Eu havia me tornado oficialmente o esquisito da família, quando, pra mim, esquisito era não enxergar a beleza naquilo.

Escrevendo agora, lembro que, antes disso, comprei um compacto do Kraftwerk no supermercado MiniPreço, em Natal mesmo, com The Model de um lado e Spacelab do outro, ambas do disco The Man Machine, de 1978, que foi o segundo disco que comprei (com o dinheiro da minha mãe, claro!), provavelmente numa loja que tinha lá no bairro de Afogados, a Rubi Discos, que tinha um moço muito simpático. Com uma paciência grande com aquele menino que dava seus primeiros passos naquelas sonoridades, ou mesmo no mundo da música. Lembro que falávamos do Kraftwerk e outras coisas eletrônicas ou progressivas, e ele me falou do Giorgio Moroder, do LP From here to eternity, que estava lá, na parede de discos por trás do balcão, que toda loja de discos tinha então. Comprei o compacto do Moroder, com From here to eternity de um lado e Utopia – Me Giorgio, no lado B.

Mas eu ouvia mesmo era o Kraftwerk, e aos poucos ia adquirindo novos discos, como o Radio-Activity e o Computer World. Ouvir esses discos era como observar uma molécula de DNA. Era um código fonte. Paralelo a isso eu ia abrindo outra frentes, outra variáveis… a meditação eletrônica do também alemão Tangerine Dream, as elaborações eruditas do japonês Isao Tomita, o francês Jean Michel Jarre com seus primeiros três discos (Oxigene, Equinox e Magnetic fields) e, claro, Wendy Carlos e seu pioneirismo de Switched-On Bach

Muita gente torce o nariz, hoje, para um sujeito como o Jean-Michel Jarre ou mesmo Tomita, por serem comerciais, pastiche, sei lá. Vão dizer que eu deveria ter escutado algum artista obscuro que só lançou um disco e desapareceu na névoa dos anos 70. Mas não ligo, esses artistas me ensinaram muito como apreciar a música eletrônica e buscar por ela nos caminhos confusos do pop e também do erudito. Lembro das tarde que passei no sebo do Humberto, um ponto clássico da comunidade rock’n’roll recifense. Se você buscava um disco estranho, raro, difícil de encontrar, Humberto era o cara. Foi lá que dei com o Zeit, de 1972, álbum duplo monolítico do Tangerine Dream. Nesse dia eu tinha um dinheirinho e levei pra casa. Hoje adorna a casa do meu amigo Pedro, que herdou meus discos que deixei no Recife.

A música eletrônica invadiu a música pop, e hoje em tudo tem a natureza eletrônica, por baixo, no meio ou por cima. Antigamente era uma coisa de iniciados, que achavam saber de algo que pouca gente sabia. Hoje tá mundo, tanto melhor! Da Disco Music ao Pós-punk, passando pela multiplicação da tendências regionais, como o nosso tecnobrega, a música eletrônica evoluiu, se popularizou e dominou as pistas de dança mundo afora. Com Giorgio Moroder produzindo Donna Summer, o New Order emergindo das batidas sombrias do Joy Division, Brian Eno com sua Ambiente Music e tantas outras experiências, mais pops ou experimentais, a música eletrônica gerou sua própria árvore genealógica de bandas e músicos, populares ou eruditos, que cruzaram seus fazeres. E eu, um amante apaixonado, ouvi muito de tudo, num exercício cotidiano de descobertas.

Amo música, como um todo. Escuto muita coisa, muitos estilos, tendências, de gerações diferentes. Me dedica a conhecer coisas novas constantemente e vibro com as descobertas. Mas a música eletrônica sempre me será mais íntima, sempre mexe comigo de um jeito diferente, mais profundo. Porque evoca aquela tarde lá em Natal, em que escutei o Autobahn e meu jeito de olhar o mundo mudou de maneira irreversível. Essa pessoa que você conhece, existe porque uns alemães nascidos no pós-guerra escreveram uma música incrível de 22 minutos sobre uma viagem numa autoestrada, sonhando sonhos elétricos. Imaginando uma modernidade das máquinas e de um mundo fluido, viajante, sem fronteiras. Uma música que nos põe em constante movimento.

Wir fahren, fahren, fahren auf der Autobahn

Como eu amo essa música. Como jamais esquecerei esse encontro. Tem gente que passa a vida tentando reviver ou recuperar uma sensação, um sentimento de uma época ou de uma experiência. Eu revivo esse sentimento sempre que escuto Autobahn, e vivo nele minha própria história de viagem pelos tantos caminhos da música eletrônica que essa audição me proporciona. Minha luta cotidiana é de não perder esse encantamento, esse maravilhamento. De sempre me surpreender ao escutá-la, como se tivesse acabado de acordar.


A música romântica popular brasileira tem nome: Conde

Texto de Aderaldo Luciano


Foto originalmente publicada na Fanpage do Conde Só Brega!

Em 27 de dezembro de 2021, o cantor João Gomes, do meio da caatinga, com seus camaradas, tomando café em um copo, de chinelas havaianas, camiseta, sanfona, violão e sax, gravaria seu último vídeo do ano. Com sua voz orientada pela tradição da vaqueirama, retira do seio do povo os primeiros versos da canção Espelho do Poder, chamando atenção para as catástrofes do sul da Bahia, chuvas violentas, desabrigados e esquecidos pelo poder central brasileiro. “Eu queria ter o dom de poder cantar/ igual aos pássaros que Deus fez pra viver/ livres para voar nesse azul sem dimensão./ Queria ter poder pra poder fazer/ você às vezes dizer sim ao invés do não/ pra fome, pra saúde, pra miséria, educação…”

São versos fortes extraídos da canção romântica popular brasileira escrita por Ivanildo Marques da Silva, o Conde Só Brega. Recifense, nascido na Mustardinha, assinalado desde o berço pela tríade da música: a melodia certa, a harmonia exata, o ritmo do coração, Conde é o oceano para onde correm os rios e riachos da sensibilidade. Cresceu se alimentando dos clássicos nordestinos veiculados pelo rádio. É herdeiro de nossa música mais rica e florescente. É o senhor de nossos sonhos de amor, sem se distanciar dos problemas sociais, das dores físicas causadas pelo salário desigual. Conde habita com sua voz e performance nossas casas, nossos lares, nossas ruas, levada e trazida pelas ondas internáuticas.

A música chamada de brega pelas elites econômicas, que em determinado momento se fundem com nossas elites culturais, foi responsável por sustentar gravadoras, executivo e cantores distanciados do povo. Elino Julião, Núbia Lafayette, Carlos André, Agnaldo Timóteo, Evaldo Braga, Carlos Alexandre, Ângela Maria venderam discos e canções por si e por toda a Bossa Nova, pelo Tropicalismo e pelo rock. A canção brega é a canção brasileira. A canção romântica é a canção brasileira. E Conde, hoje e agora, traz a Luz e o Som para dentro dessa tradição. Conde levou a canção ao alfaiate e lhe fez uma roupa sob medida. Levou, cobriu de seda e a produziu com a riqueza cosmética que lhe trouxe a alma para a superfície de sua pele.

Ouvindo o DVD Livre Para Voar, no streaming de música ou no YouTube, somos capturados pela estética viva de um universo que não se perdeu e que Conde revigorou. Sua performance nos traz a época de ouro dos cantores de rádio, junta-se ao que de melhor se produziu em termos de romantismo e aproveita os novos caminhos sem se entregar ao modismo fácil, à batida repetitiva, à letra pobre. Voz firme e bem colocada, instrumental disciplinado, cozinha bem temperada, direção de arte afinada, roteiro elaborado e bem realizado: é o que nos oferece esse valoroso senhor de seu ofício. Aos 67 anos, momento em que muitos decaíram, Conde sobe vertiginoso ao topo da iluminação. Desbrava o céu azul sem dimensão.


3 poemas inéditos de Claudia Schroeder

Publicar 3 poemas inéditos de uma poeta como Claudia Schroeder é uma alegria e um privilégio. Seu livro, As partes nuas, mexeu com a gente, como só a poesia pode mexer, sacudir, despertar. Que coisa boa então receber no inbox a mensagem que nos trouxe esses poema que hoje publicamos. Seja sempre bem-vinda à Kuruma’tá, Claudia. Portas e corações abertos. — Poemas de Claudia Schroeder

Publicar 3 poemas inéditos de uma poeta como Claudia Schroeder é uma alegria e um privilégio. Seu livro, As partes nuas, mexeu com a gente, como só a poesia pode mexer, sacudir, despertar. Que coisa boa então receber no inbox a mensagem que nos trouxe esses poema que hoje publicamos. Seja sempre bem-vinda à Kuruma’tá, Claudia. Portas e corações abertos.

Poemas de Claudia Schroeder


estou marcando exames
saber se vou morrer com aviso
prévio

assim como quando ligo para você
convenço-o ao encontro às escondidas
a nossa pequena morte enxuta sabida
antes que o meu amor e o seu amor
voltem para casa
fazendo de vivos


a solidão tem muitos metros quadrados
é maior que a casa dos meus sonhos
ela faz muitas voltas no quarteirão
se eu fosse da NASA teria como saber as reais
dimensões

mas estou aqui num sofá de dois lugares
você está sentado à minha esquerda
a solidão cobre seu corpo com um lençol empoeirado
e branco


por que os mesmos nomes —

o nome de um homem que muito admiro
é o mesmo nome do homem que mais desprezo

o nome de minha mãe é o mesmo nome
da colega desgostosa

o nome da rua onde moro
tem o nome do médico que não salvou meu pai

a amiga que tanto gosto leva o nome
da dona de um puteiro

a filha do melhor amigo tem o nome
da ex-namorada que eu temia que voltasse
pra você

o meu nome e o meu nome
quantas mulheres frias e cruéis
e um tanto melhores do que eu


Também publicou, em 2021, plena pandemia, o livro As partes nuas, pela editora Francisco Alves, que a gente comentou aqui na Kuruma’tá!

Que esse livro, As parte nuas, tenha sido publicado agora, em meio à pandemia, à ruptura dos distanciamentos, das máscaras e da assepsia, é de enorme precisão. Uma leitura que cai certeira, a nos recuperar como gente. Dores, prazeres, amores, cheiros, a velhice, a pele, o sexo, as bocas, os medos. Lista infinda do que é uma criatura no mundo.

Claudia Schroeder nasceu em 1973, em Santo Ângelo, Rio Grande do Sul. É formada em Publicidade e Propaganda pela PUCRS e desde 2014 dirige sua agência de estratégia criativa.

Publicou o livro de poemas As partes nuas (Francisco Alves, 2021), Leia-me Toda (Dublinense, 2010), participou da coletânea A Poesia é para Comer (Babel, 2011) e lançou o livro infantil A menina que descobriu o Sol (Kazoca, 2018).

Claudia vive e trabalha em Porto Alegre.

Instagram da autora: @claudiaschroeder.poesia

A poesia de Nirlei Maria Oliveira na Kuruma’tá

Poeta e Bibliotecária com mestrado em Ciência da Informação, Nirlei Maria Oliveira nasceu em Formiga MG, e reside em Campinas, SP. Nirlei descobriu o caminho até a Kuruma’tá, para nossa gratidão e alegria, e nos oferece aqui 5 de seus poemas. Nirlei é Autora do livro de poemas Palav(Ar) (2021). Organizadora das coletâneas: Quarentena Poética (2020) e Cotidiano, Poesia, Resistência (2021).

Seja bem-vinda, Nirlei, ao recanto afetivo e guerreiro da Kuruma’tá!


Eu sou Alice de vez em quando

calma, Alice, sairemos deste looping
deste caos em tempo dos absurdos
destas manhãs que não amanhecem
e das noites solitárias e iguais

pois é Alice, o relógio parou
– “Ele mostra o dia do mês e não mostra a hora!”
estamos imersos em silêncio de angustiantes dias sem fim

corremos atrás do coelho há meses
estamos a desbravar novos rumos e trilhas
à espera morosa de sonhos e magias
por enquanto, Alice
apenas caminhar e caminhar
essa é a nossa jornada

somos reféns da Rainha e do Rei de Copas,
neste mundo paralelo de acasos e imprevistos

onde está a porta na árvore?
a passagem para o retorno ao normal?
estamos perto, Alice…falta pouco

por enquanto, estamos apenas aguardando
dias de festas com o chapeleiro maluco
afinal, “O segredo, querida Alice,
é rodear-se de pessoas que te façam sorrir o coração.
E então, só então que estarás no país das maravilhas.”

*frases com aspas foram extraídas do livro Alice no País das Maravilhas de Lewis Caroll.


Caminhos

desvios e margens
andar viajante
sujeito e objeto
refém
das sutis emoções

poeta
que bebe e cheira
nas bordas das palavras
ávido
em sua gula
embriaga-se com letras

para nos desvios
bordeja no desconhecido
vez ou outra
atravessa vãos e frestas
de espinhosos caminhos

viaja no tempo e espaço
busca a potência poética
a palavra que seduz
que embala
que contrapõe e resiste

grita nas vazias praças
persegue ressonâncias


Mundinho particular em dias estranhos

é pela manhã
que dou conta do meu mundo
nas regularidades dos afazeres

rotineiramente
cuido das plantinhas
leio partes de um livro
vejo jornais pela internet
assisto às séries boas e ruins
escrevo um poema ou menos que isso
penso no que fazer para o almoço
só penso – detesto cozinhar
assisto às aulas pela internet
videoconferências do trabalho
muitas conversas nas redes sociais
olho a rua através da janela
vejo pessoas com máscaras
tenho medo
volto a pensar em bordar


Estrelas no café da manhã e suco de laranja

peço pouco
apenas as estrelas que brilham no escuro da noite

no café da manhã:
suco de laranja e pão de ontem

desejo linhas de fuga
do agora

quero a(s)manhã(s)
com explosão de luz(es)
entrando nos seus olhos
e nos meus


dizeres de amor

o amor precisa de palavras
sem elas, não prospera
não cria o visgo das gameleiras
o grude, a cola dos afetos

palavras de amor
são cheias, redondas
repletas até a bordas
que transbordam
e caem pelos vão dos lábios
em calorosos beijos

palavras de amor são inscritas
descritas em suaves desenhos
na epiderme
benditas que sejam ditas
pelas bocas
e
línguas
com ávidas palavras de amor


Nirlei Maria Oliveira tem poemas publicados nas revistas: Travessias Literárias, Cult – Lugar de Fala, Literatura e Fechadura, A Palavra No Agora do Museu da Língua Portuguesa, Literatura Brasileira no XXI, Partilhas Poéticas do Museu Ema Klabin, Acrobata, Tamarina Literária, Aboio, Ser MulherArte, Ruído Manifesto, Sucuru, Errancia (Universidade Nacional Autônoma do México), Desvario, Entreverbo e Revista Toma Aí Um Poema!.

Tem poemas nas antologias: Enluaradas(2021), Mulheres Maravilhosas I e II (2021), Na força e no grito, na palavra persistimos!(2021 ), Casca, Azeda e Doce: 1 Coletânea da Revista Tamarina Literária (2021), Nascer pela Segunda Vez (2021), Mulherio das Letras para Elas ( 2021), Infâncias (2021), Comer é um Ato Político (2021), Poetizando em Pirituba (2021), Estrada para os domingos (2021).

Participou da EXPOSIÇÃO | Para fazer poesia hoje: a desdomesticação do olhar e Poesia de Rua. Participa dos coletivos: Mulherio das Letras, Mulheres Maravilhosas e Nua Palavra.

Tem poemas nos podcast: Quarentena Poética, Revista Errancia… la palabra inconclusa, da Universidade Nacional Autônoma do México, Tomaaium poema, Poesia para os ouvidos e Rádio Graviola.


Sobre Nara Leão

Texto  de Toinho Castro —


Não, não se trata de um artigo ou crítica sobre a novíssima minissérie sobre Nara Leão, O canto livre de Nara Leão, disponível na GloboPlay, a qual ainda estou a assistir. É mais um comentário que eu não queria deixar de fazer, estimulado pelos episódios dessa que foi, e é ainda, uma das grandes artistas brasileiras, não só pelo canto, mas pela grandeza de sua atuação no cenário cultural do nosso país. Atuação que deixou marcas poderosas, provocou transformações que reverberam com força ainda hoje.

Certa vez, num desses magazines, dei com um disco recém lançado de Paul McCartney. Era 2001, já um novo século, e encontrar um disco novo do ex-Beatle me deixou curioso. Nunca fui exatamente um fã, um beatlemaníaco, mas acompanhava mais ou menos a carreira dele (preferia então John Lennon!) e resolvi escutar aquele disco nos fones de ouvido da loja. Quando ele começou a cantar na primeira música, uma onde me percorreu. Aquela voz me comoveu.

De repente me dei conta de que eu havia crescido com aquela voz cantando perto de mim, em toda parte. Na minha casa, nas rádios, nos programas de TV. A voz de Macca era a afirmação de que eu pertencia a uma geração, que eu havia crescido, vivido e sonhado num mundo em que os Beatles existiam. Senti um pertencimento.

Ontem, assistindo ao primeiro episódio de O canto livre de Nara Leão, logo nos primeiros minutos, tem ela conversando com um Tom Jobim ao piano. Tom tece alguns comentários, os dois trocam impressões e o maestro começa então a cantar Wave, de sua autoria. Então Nara começa a acompanhá-lo e eu escuto sua voz cristalina, quase impossível. E senti esse pertencimento, essa identidade. Um súbito reencontro comigo mesmo, com minha história e da minha família e das pessoas que frequentavam nossa casa. A história do país em que nasci (Por onde ele anda?). Os amigos da minha irmã, que varavam noites de cerveja e conversa jogada fora, cantando aquelas músicas todas que iluminaram os terríveis anos setenta. Os LPs rodando na vitrola, eu, menino, cantando o disco de 1978 de Chico Buarque, pra minha mãe, no carro em que íamos buscar minha irmã na faculdade.

Conheci Nara em dois duetos, com Chico, em João e Maria, e com Fagner, em Penas do Tiê. Dois artistas a quem Nara abriu portas, e descobri-la por meio deles, não deixa de ser uma curiosidade e também certa justiça se fazendo muito poeticamente e reversamente. Não sei vocês, mas o que eu devo a Nara é enorme. Uma memória, um afeto… uma cristalização de quem produz arte como motor de mudanças na sociedade. O medo do palco, a timidez, nada disso a impediu de seguir em frente, de fazer diferente, de abrir caminhos para si e para os demais, e de nos acalentar e provocar com uma das mais ricas trajetórias de uma artista nesse país. Ou nesse mundo, que tá na hora de parar de circunscrever o talento dessa gente apenas ao nosso território.

Enfim, essa minissérie tá sendo uma oportunidade de reencontro com Nara e todo um universo em que ela atuava brilhantemente e moldou em grande parte o que somos; um universo de pessoas, canções, encontros, lutas. A vida de Nara é uma lição de grandeza e ternura muito bem-vinda nesses dias atribulados que atravessamos. Recuperar sua presença, sua voz tão rara, tão única, é um alento, um conforto e também um chamado a sermos nós mesmos e nos colocarmos com clareza nessa narrativa nublada que nos é imposta. Viva Nara!

Nara Leão entre Zé Keti (à esq.) e João do Vale em “Opinião“.

Gostaria de destacar na minissérie, a bonita abertura realizada por três amizades queridas: Christiano Calvet, Rodrigo Bleque e Valerycka Rizzo (+ Adriano Mota). Parabéns, gente querida!
Aproveito para parabenizar o diretor Renato Terra, Isabel Diegues e toda a equipe envolvida no projeto.


Crônicas do retorno: a poesia de Vanessa Vieira Gomes

Mais uma poeta chegando na Kuruma’tá. Nos alegra demais esses encontros, que vão surgindo espontaneamente, da vontade de quem reconhece na revista um espaço aberto, um território carinhoso com quem o adentra e faz daqui seu lugar.

Vanessa Vieira Gomes traz pra gente três belos poemas de seu livro Crônicas do retorno, que está em pré-venda no site da Editora Folheando.

E você que tá aí se encantando com a poesia de Vanessa, clique no link e reserva seu exemplar, né?! Vamos valorizar, comprar, compartilhar a nova poesia, que tá sendo escrita por esse brasil adentro, resistindo a tudo.

Dos autos

Existe algo interessante
Sobre declarações de amor
Elas são feitas ao tempo
Se trancam ao momento
Numa fragilidade íntima
Que só a ampulheta
Consegue simular
Como gotas de chuva
Se esvaindo pelo presente
Imortalizando o momento
Se emancipando da gente


Escrever

Escrever é dilúvio
Que desagua dos terrenos
Hostis das nossas mentes

Escrever é se reconhecer
No espelho da temporalidade
Do tique-taque que nos
Consome da rotina adulta

Escrever é corrida desenfreada,
Busca por vocábulos escondidos
Flagrantes de rascunhos,
Julgamento em preto e branco

E escrever é descanso
Dos agouros da vida terrena
É leveza que
Se preenche
Se exata por si

Escrever é respiro
Depois de um tiro
É suspiro, é acalento
Quente e enfeitiçado
É verbo e substantivo
É sensação e leveza

Escrever é tecer
Caminhos e pontes
Entre o real e imaginário
É convencer opositores
Amalgamar continentes
Escrever é traduzir línguas
Transmutar em sintonias

Escrever é dar corpo
A esse turbilhão incerto
É gestação de nove meses
É contração
É anseio em cada linha
Até ser contingente


Impermanência

Contraditórias és tu
Impermanência que
Por onde passa e toca
Nos obriga se contentar
Com a ironia da semântica dos prefixos

Cético que sou
Permaneço na vontade e no desconhecido
De estender no desejo por mais de sua polissemia

Contraditórias és tu (impermanência)
Exprime no âmago
Lições de uma vida
E nos debruça por mais joelho
Quando somos mais colo

Contraditória és tu (impermanência)
Por brincar de ser intransitiva
Desprezar complementos
Nessa sintaxe que nos convida
A conjugar transformação


Zeitgeist

Nossos avós falam das guerras,
Da fome, da pobreza;

Nossos pais falam das crises e dos pós-guerras,

Nós falamos dos egos.


Crônicas do retorno é resultado de idas e vindas da autora no âmbito da escrita. Em contato com a literatura desde os 14 anos (blogs sobre música na era otimista da internet) e em pausa desde os 24. Crônicas porque é vivência diária, tempo que marca, matéria-prima para escrever, para pensar, rebobinar, digerir e, por fim, colocar para o papel o que está guardado e pode se corporificar nos escritos. Retorno porque é a volta à escrita após sete anos.

Nascida no final da década de 1980 no Rio de Janeiro, Vanessa Vieira é bacharel em Comunicação com ênfase em Linguística e Estudos em Quadrinhos. Em um breve período, foi estagiária de fotografia e, em seguida, trabalhou no ramo editorial com obras de especialização em informática.


Tays Melo na Kuruma’tá!

Mais gente boa chegando nas páginas da Kuruma’tá! Agora é a vez de Tays Melo. A poeta, nasceu em Natal-RN, mas cresceu e criou-se em Areia, na Paraíba. Prepara seu primeiro livro Não Queria Bonecas; Gostava de Flores, para 2022, fruto da Lei Aldir Blanc.

Crônicas e poema de Tays Melo

Foto de GLandovsky | Wikimedia

Esta cidade é como uma jovem mãe pobre, que promete aos filhos que tudo vai dar certo e que, amanhã, as coisas vão melhorar

I

Eu moro em uma cidade chuvosa. Agora mesmo ouço trovões e cai um forte temporal. A terra fica bem molhada. Trilhas de areia se formam em córregos rasos na estrada.

Aqui tudo parece lindo, tudo parece poético, tudo parece tão vivo, tudo parece tão sensível. Os trovões, a paisagem cinza de tanta água de chuva, os morros escondidos no horizonte turvo da umidade, as folhas rasgadas pelos pingos fortes, a água de lama, as pétalas que se soltam por causa dos ventos e os guenzos encharcados, procurando alpendres para se amparar. O calçamento liso, envelhecido, a fantasmagoria triste das praças vazias e os fios de energia, com filas de gotas que despencam com o pouso dos pardais.

Sim, há pássaros que pousam nos fios elétricos sob chuva. É uma ousadia. E esse trovejar? Ah este trovejar… Parece gritos do meu coração em fúria ou a ópera numa encenação sobre saudade.

Hoje estou tão triste que sinto como se eu também fosse chover. Sinto como se fosse pousar sob a chuva em fios desencapados e sinto medo. Aqui, algumas vezes por ano, mesmo as paisagens tristes, parecem belas e mesmo as belezas parecem tristes.

Esta cidade é como uma jovem mãe pobre, que promete aos filhos que tudo vai dar certo e que, amanhã, as coisas vão melhorar. Enquanto debruçado sobre as janelas, o morador da periferia observa as lágrimas do céu descer as ruas enladeiradas, confundindo-as com as suas. E os poetas se afogam nas próprias palavras que não lhe querem sair. Como são lindos os sons estalados das goteiras de encontro ao chão. Será que dói?

II

Um dia eu briguei com os poetas. Eu os xinguei, os chamei de tolos, mas não por mera arrogância ou simples ignorância, e sim por negação. Como criança, quando tropeça e chuta a pedra que lhe machucou os dedinhos do pé, evitando entender que esteve desatenta e que as pedras não são culpadas por atravessarmos o seu caminho e que não sentirão dor e remorso por serem estáticas até pés distraídos lhes alcançarem, eu, furiosa, resmunguei.

É que eu, desnorteadamente, por longo tempo, tropeçava em poesias que me evocavam dores, fraquezas, carências. E entendia que poesia era como pedra na qual se tropeça quando não se observa direito o próprio caminhar e que fui eu quem escolhi o caminho das pedras. E aí, pensei: Não quero os poetas, não quero seus poemas, tampouco sua poesia cheia de pássaros livres e arredios, cheia de curvas revelando segredos e emoções alardeadas. E pensei mais: A poesia dói, a poesia corta e faz sangrar, faz minar sensações de incômodo e nos coloca de frente com faces sombrias que muitas vezes gostaríamos de manter no silêncio.

E a poesia também é lâmina. Retalha-nos e expõe nossos pedaços em praça pública, no teatro e na televisão. Faz de nossas dores um espetáculo onde o público abraça nossa loucura ou apenas rir de nós.

A poesia é navalha afiada, que sangra os poetas e lhes extraem o amargo e lhes expõe as veias lacinantes. É por isso que a poesia dói. E ela sabe doer. É uma dor que salva, um sintoma que singra sobre o sangue jorrado, em vermelho licor, traçando jornadas num corpo que renasce em ferida aberta. A poesia nos rasga, nos fenda, nos rompe, nos aparta para depois nos pangear.

Hoje, em meu sangrar, sinto que transformo coágulos em águas claras. Havia tantas coisas para serem ditas e não encontrei maneira de dizer, enquanto não fiz as pazes com a fera morando em mim. Não há como fugir do que bate com força às portas do peito. Não há como sentar à mesa e se fartar de alimentos estranhos. A gente apenas belisca para não morrer de fome. A poesia só fere enquanto é retida, afinal quem gosta de se manter na prisão? Hoje, a poesia me acorda, alimenta-me, namora-me, acaricia-me, faz-me voar e antes de dormir, eu sonho com o choque de espadas nas suas batalhas travadas contra os assombros das fortes ventanias.

Entre as melhores companhias ainda não há como se satisfazer negando a companhia de si. E como ter a presença de si negando o que se é? Eu pensei que não podia ser poeta. Sempre achei que não entendia nada de poesia, até que acordei numa noite fria de inverno, ouvindo a dobradiça da porta de meu quarto ranger. Uma sombra ligeira que se escondia em cada recanto apertado da casa, sussurrava que não se tratava de compreensão. O cosmo contido precisava ser sentido. Ainda que não fizesse o menor sentido, poesia não exige explicação. Se há uma fera rasgando o peito é preciso sentir e expulsar ao mundo o que se sente, porque o que pulsa dentro da gente não sossega até que saia e abrace as flores enquanto se banha ao sol.

Então, um dia, eu cheguei procurando quem me achara de outros carnavais. Carnavais que perdi, carnavais que me deixaram menina do cárcere das saias que usei.

Cheguei à livraria e estava aberta, porém quase vazia. Havia estantes desarrumadas, livros novos envelhecidos. O moço do balcão não sabia onde estavam os poetas. Eu, que tantos os rejeitei, botei-me a procura como alguém na busca das chaves da casa própria, perdida no dia da mudança. Eu, numa livraria, procurando poesia? Olhei torto na vitrine e vi no reflexo as outras de mim, que não paravam de rir nem cansam de suas ironias. Achei Pessoa, achei Clarice, achei Meireles, na pressa daquela agonia, mas trouxe Drummond, a antologia…

Poética.

Mulher

Mulher,
Você é muito forte.
Você é muito inteligente.
Você é muito capaz.
Mas, mulher, você é mulher
Demais.

Você deveria aprender a dirigir
deveria fazer outra graduação
deveria fazer pós-graduação
deveria conhecer outro país
deveria aprender inglês
e ter aulas de violão.
.
E acumular menos louça na pia
Varrer essa casa todo dia
E dar mais atenção a sua cria.
Deveria arranjar um namorado
Investir no seu lazer
E começar uma terapia.

Deveria ir ao médico
Sair com seus amigos
Malhar numa academia
Acompanhar os lançamentos
Exercer sua cidadania
Mantendo as contas todas em dia.

Precisa aprender a teclar
Responder aos contatos
Do perfil na rede social
Você precisa fazer o jantar
precisa ir ao mercado
E ser mais pontual

Pra não esquecer a reunião de trabalho
Nem a reunião de pais
Não esquecer de aguar o jardim
Nem de trocar o botijão de gás

Leve a criança à escola
E não esqueça de ir buscar
O dia tem vinte e quatro horas.
Um organograma vai te ajudar.

A culpa é sua
De não gerir seu tempo
De eu apresentar solução
E você não querer aplicar.

A culpa é sua
De não ter nascido duas
De ter braços pequenos
E o mundo não saber abraçar.

A culpa é sua por viver reclamando
Que tá cansada
Que tá doente
Que tá com sono
Que tá lascada
Que quer chorar.

A culpa é sua por viver
Querendo se esconder
Querendo partir
E não querendo sentir
Esta falta de ar.

A culpa é sua por decidir
Viver sem se explicar
Com vontade de fugir
E não mais suportar.

E por isto
Não faz sucesso
Não faz amigos
Não faz arte
Não faz amor
Não faz nada.

Não tem tempo
Não tem coragem
Não tem leveza
Não tem estrutura
Pra ditadura
Da ampla jornada