Independência Poética: Dayane Tosta

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA

Poeta de hoje: Dayane Tosta

Mulher negra que cresceu e se criou na periferia de Salvador, entre o Subúrbio e Pirajá. Mãe de Valentina e Lis, esposa de Igor. Professora da educação infantil pela Secretaria Municipal de Educação. Pedagoga e mestra em ensino na educação Básica pela UFG. Autora de Nua e outros poemas (2019). Fez parte da Antologia de poetas baianas Corpo que queima (2019). Dedicada a projetos de incentivo à leitura e escrita.

O que te inspirou a começar a escrever?

Como quase tudo na vida, a escrita foi aparecendo na minha trajetória de forma espontânea, eu sempre fui apaixonada pelas palavras e isso fez com que eu me expressasse por meio do texto escrito em momentos diversos. Sempre que eu sentia qualquer emoção eu tinha vontade de escrever uma poesia e quando fui ver eu tinha uma coleção grande de poemas escritos e guardados na gaveta. Numa noite de insônia eu decidi que não seria má ideia publicar um livro, isso aconteceu no final de 2018 e desde então eu não parei de escrever e participar de publicações e saraus.

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

Eu leio. A leitura seja em prosa ou em poesia me inspira de uma forma singular. Mas além disso eu ouço músicas e busco meios de me manter conectada com o mundo das artes.

Seu maior sonho como escritor(a)?

Alcançar um público maior com a escrita e que de alguma maneira meus textos toquem as pessoas de um jeito único.

Assunto preferido de escrever?

Relações afetivas e maternidade.

Um elogio para sua própria escrita?

É uma escrita honesta e clara.

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Nua e outros poema, 2019, Ed. Vecchio.
Desaguar, publicação independente, 2021.

E participei de antologias:
Corpo que queima, 2019.
Petas negras brasileiras, 2022.
Poesia de botequim, 2022.

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

Às vezes eu tenho inspiração quando estou ouvindo uma música, lavando os pratos ou dirigindo. Minhas inspirações surgem por algum sentimento que quero expressar, foi assim com o poema “Ciúme” do livro Desaguar. Mas às vezes alguma palavra me chama a atenção, eu fico hipnotizada e preciso escrever algo com essa palavra específica, foi assim com o meu poema “Escombros”, também de Desaguar.

Ciúme

Quando o ciúme nos visitar 
Deixemos ele entrar por alguns segundos 
Escutemos seus gritos 
Permitamos o seu desabafo 

Depois abrandemos o fogo 
Desse miserável afeto 
Com as águas de nossos desejos entrelaçados 

Morre o ciúme 
Tal como o orgasmo morre no corpo 
Permanecemos cúmplices 
De tudo aquilo que nos une 

Escombros

Gostava de confiar nos escombros 
Aqueles deixados por todos os amores malogrados
Construí meu edifício inteiro sobre os restos daquele afeto 
Em cima da bagunça que fizeram de mim 
Reinventei o todo do meu ser 
Padeço daquele fardo que é amar primeiro 
Mas do veneno que mata eu provei a cura
A dose certa de delicadeza que me fez grande 
De dentro pra fora é que se encontra completude 


Qual dos seus poemas mais te define?

Do encanto da vida

Encantados são os dias
De quem a vida simplifica
De quem enxerga a poesia
De quem não se deixa
Sucumbir ao medo

Se corro riscos ao viver
Me arrisco a dizer
Que o mais belo de todos
É colecionar cicatrizes
Histórias de amor e dor

Na trama de cada afeto
Uma riqueza de sensações
Na escuta do corpo alheio
Deixo meu corpo falar também
E todo toque é precioso

Se teu riso renova minha fé
Não deixe o siso tomar conta
Pois ser e simplesmente ser
É o segredo de toda beleza
Delicadeza de cada estação

Saber voar depois da queda
Levantar apesar do medo
Acreditar que o sonho é possível
Coisas divinas e encantadas
Que aprendi ao caminhar

Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

A parte mais fácil da escrita é deixar fruir o espontâneo, a leveza da arte em estado puro e simples, a parte mais difícil é ter que lidar com as regras, técnicas, métricas e todas as tentativas de categorizar e domar a arte da palavra. Outra parte difícil é lidar com a venda de livros, escolha de editora e todas essas demandas comerciais.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

Poesia completa de Maya Angelou.

 


Um livro de Dayane Tosta

Nome da obra?

Desaguar

2 – Quando e em qual editora foi publicada?

Foi publicado de maneira independente em 2021.

3 – Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?

Superação, amor próprio e maternidade.

4 – As poesias são divididas em fases nessa obra? Se sim, o que te motivou a fazer isso?

Dividi os poemas em 3 partes: carne, osso e alma. São as três partes do ser mulher designados a partir do desejo, força e liberdade, respectivamente. Minha inspiração surgiu do ser feminino que é múltiplo e pode se revelar de variadas maneiras. O objetivo maior dos poemas é prestigiar a superação feminina pela via do amor próprio.

5 – O que te incentivou a escrever esse livro?

Desaguar surgiu do desejo de deixar fluir o rio da poesia e com isso alcançar pessoas que compartilham dos mesmos sentimentos expressos no livro.

6 – É possível destacar uma poesia que mais se assemelha a seu cotidiano?

O poema Quietude é como se fosse uma prece, um desejo, algo que gostaria de viver todos os dias:

Quietude

Silêncio
Calem-se todos 
Preciso ouvir meu mundo interior 

Calei as expectativas alheias 
Me muni da potência da minha voz 
Entrei em campo de batalha contra o teu preconceito 
Fiz o meu próprio abrigo 
Limpei as minhas feridas 
Me perdoei 
É de dentro que se encontra amor – o próprio

7 – A sequência dos poemas conta alguma história?

Conta a história de uma mulher que depois de muitas desventuras amorosas descobre sua força e liberdade a partir dessa descoberta consegue se portar no mundo de maneira amorosa e autoconsciente.

8 – Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?

O feminismo e antirracismo perpassam de maneira sutil a obra.

9 – Qual a relevância dos personagens implícitos/explícitos da obra?

O texto apesar de desvelar a alma feminina trata de temas que tocam a natureza humana de modo geral, portanto, qualquer pessoa que tenha sentimentos vai se sentir tocada pela humanidade dos poemas e essa é a maior relevância da obra.

10: Qual a poesia mais marcante desse livro?

Tem vários poemas que me marcam, inclusive o que dá nome ao livro “desaguar”. Mas “Submersível” é um poema sobre maternidade que sempre fica martelando na minha cabeça. Deixo aqui os dois poemas como mais marcantes.

Submersível

É cruel e belo ser mãe solo
É ambíguo 
Infinito de peso e leveza 
Submersível – pode boiar mas sempre afunda 
Contudo não se morre afogado
Ser mãe é ter tecnologia de submarino embora sem dinheiro pra fechar a conta 
Mãe é projeto de formar pessoas 
É ignorar-se em função de outrem
É a insuportável certeza de que vou suportar 
Até o fim das forças é impossível 
É a magia de encontrar mãos amigas 
É belo ser mãe 
É suportar sozinha a crueldade dessa beleza 

Desaguar

Hoje eu transbordo
Seu padrão não me contém
Sua fórmula não me define
Seu olhar já não me diz nada

Eu sou como um rio que flui
Desconhecendo empecilhos
Desviando das pedras
Seguindo o fluxo da própria natureza

Quero desaguar em outros mares
Sentir o gosto de outras bocas
Conhecer outros mundos
Permitir o toque de outras mãos

Eu me fiz livre
Depois de ultrapassar
Os limites do seu ego
E vencer o peso do seu julgamento


Poema de Fábio Aiolfi

Fábio Aiolfi, é capixaba da cidade de Aracruz. Trabalha como ator, escritor e contador de histórias. Publicou 12 livros, entre romance, teatro e poesia – que corresponde boa parcela de suas obras.


Animália

Sou um animal acuado,
vítima de armadilha,
preso na rede
com garganta cortada.

Sou um animal enjaulado,
fisgado pelo anzol,
com um tiro na cabeça
alvo fácil empalhado.

Sou animal que puxa carroça,
com tetas inflamadas,
vítima de testes nos laboratórios

e depenado no carnaval.
Sou invertebrado,
mamífero, ave, peixe,
réptil e anfíbio.

Sou um animal
do reino animália.

Publicado em:
2022- Animália (Fanzine)

Fábio Aiolfi, é capixaba da cidade de Aracruz. Trabalha como ator, escritor e contador de histórias. Publicou 12 livros, entre romance, teatro e poesia – que corresponde boa parcela de suas obras. No teatro, atuou em mais de 20 espetáculos, apresentando em algumas capitais brasileiras. Recebeu uma dezena de prêmios, medalhas e homenagens por seus trabalhos artísticos.

Do Instagram de Fábio Aiolfi

Claudia Castelo Branco, Sivuca e junho!

Texto de Toinho Castro

Nessa última sexta-feira, dia 16 de junho, semana de Santo Antonio, em pleno ciclo junino, a pianista, compositora, arranjadora e cantora Claudia Castelo Branco nos presenteou com uma bela interpretação de Feira de Mangaio, do mestre Sivuca! Composição de Sivuca com letra de Glorinha Gadelha, Feira de Mangaio foi gravada por diversos artistas, como Nhozinho, Agepê, Mariana Aydar e o próprio Sivuca, mas foi na voz de Clara Nunes que se eternizou e entranhou o imaginário cultural brasileiro.

Sendo assim, desse jeito, não é uma tarefa simples enfrentá-la e trazê-la à tona numa nova versão. Mas Claudia Castelo Branco fez isso com maestria e delicadeza, assumindo com seu piano a voz da sanfona e nos surpreendendo lindamente. Surpreendendo assim, né?! Porque sabemos da força dela, de sua capacidade criativa. Então não é surpresa que seu talento ilumine um peça tão importante da música brasileira. A gente escuta Feira de Mangaio com ela e lá está a reverência, o entendimento, e por isso o respeito. Não fosse pouco, a música conta ainda com a marcação de Marco Suzano.

Então ouvir esse single, mais que surpreender-se, é encantar-se. E que vontade de dançar que dá. E que vontade de tá na Paraíba, escutando essa música que é uma declaração da universalidade da obra de Sivuca.

Parabéns, Claudia!

— Texto de Toinho Castro

Quando a sanfona sai, podemos encarar como um problema ou simplesmente como uma oportunidade de criar novos diálogos. Eu preferi pensar sempre a partir do que eu sou – enquanto pianista, cantora, compositora – e de como eu processo as músicas de Sivuca. Experimentar ver de que forma minha voz e piano absorvem e reproduzem aquele universo. Assim, eu mesma me surpreendo. Gosto desse caminho


E como coisas assim só podem melhorar, amanhã, dia 20 de junho, já quase São João, a Claudia vai se apresentar no Sesc Tijuca, na Barão de Mesquita, no projeto “Viva Sivuca – Homenagem ao Poeta do Som”, a partir das 19h. A turnê, aprovada no Edital Sesc Pulsar, está circulando por oito unidades do Sesc RJ.

Acompanhada por Elísio Freitas (baixo e guitarra) e Bernardo Aguiar (percussão), Claudia revê a obra de Sivuca sem utilizar a sanfona, mostrando que a música desse grande compositor atravessa todos os limites e alcança os mais diversos tipos de sonoridades e linguagens.

“A intenção deste show é de trazer a obra de Sivuca para dentro do piano, justamente por ser um diálogo entre o meu universo e o dele. Onde há o ponto de contato entre a obra e o intérprete? Essa foi a pergunta que me fiz quando decidi abordar as músicas sem que houvesse a necessidade de representar Sivuca por meio da sanfona. Quando ela sai dos arranjos, a gente subverte a lógica de representar um repertório a partir do que esperamos dele e abrimos a escuta para diversas outras possibilidades”

SERVIÇO

“Viva Sivuca – Homenagem ao Poeta do Som”

Dia: 20 de junho (terça-feira)
Horário: 19h
Local: Sesc Tijuca
Endereço: rua Barão de Mesquita 539
Preços: R$ 10 (inteira) / R$ 5 (meia entrada em casos previstos por lei), R$ 2 (credencial plena) / Entrada gratuita (PCG).
Classificação: livre
Ingressos na bilheteria das 8h às 19h


Escute também
a interpretação de Claudia
para Cabelo de Milho


Tentei chegar aqui com estas mãos | Poemas de Luciana Moraes

O livro poderia ser lido como uma teia de poemas em interlocução, ora ou outra, tendo elementos linguísticos do português brasileiro unidos a termos do tupi, maxacali, yoruba, inglês e espanhol . São linguagens que se procriam em diferentes versões de si mesmas, ora dialogando entre si, a partir do encaixe temático, ora pairando em lacunas especialmente deixadas no percurso.


Ideia de apresentação – por Luciana Moraes

Entre uma realidade que existe e outras que não existem, mas que desejam vir à tona, somos convidados a imergir, navegar, explorar essa amálgama poética, num fluxo contínuo, entremeado de imagens e sons. Aqui surge uma escrita que não se resume à dor de um momento, à vinda ou ao lapso de alegria.

O livro poderia ser lido como uma teia de poemas em interlocução, ora ou outra, tendo elementos linguísticos do português brasileiro unidos a termos do tupi, maxacali, yoruba, inglês e espanhol . São linguagens que se procriam em diferentes versões de si mesmas, ora dialogando entre si, a partir do encaixe temático, ora pairando em lacunas especialmente deixadas no percurso.

O leitor poderá perceber que, a partir de cada um dos poemas (como unidades independentes, mas também intercambiáveis) é possível recomeçar uma nova trajetória de reinterpretação do estar no mundo. O desejo permanece inscrevendo o corpo como um poema infinito no coração de outra história; o poema-corpo guarda e desvela seu estado presente no espaço, no passar de páginas; seu corpo-palavra ressignificado através de outros formatos e de novas palavras ocasionalmente criadas.

Na primeira seção, vemos poemas em diálogo ecfrástico com obras diversas, o que nos mostra que a experiência interartística nos oferece muitas possibilidades de acessos, saídas, uma diversidade de enquadramentos do olhar; geração de sentidos dessa escrita dialógica. Ainda nesta seção, há uma subseção, realizada a partir da leitura crítica de Água Viva, de Clarice Lispector e seu desdobramento em diálogos ecfrásticos.

Já na segunda seção, existe outra proposta, pois os poemas procuram realçar mais o questionamento da vida diante de situações do cotidiano, “tocadas à espreita”. Desta vez, sem diálogo direto com obras artísticas, há ainda a intensa exploração dos recursos melo, fano e logopeicos. A experiência de leitura talvez possa inserir, quem a percorre atentamente, num universo de múltipla sensibilidade, até mesmo o verbo beirando o “deslimite” das expressões de um corpo sem órgãos artaudiano.

A pedra no meio caminho de Drummond, assim como a experiência de sufocamento de Kafka parecem ser resgatadas em determinados momentos, porém no sentido de querermos avançar com um outro corpo, desentranhado da pedra e das paredes, “o corpo no corpo recriando milhares”. Com autonomia em movimento, um feminino que visa estar fora do refúgio, para além de um estado asséptico.

Nessa escrita, em saltos semânticos, como uma espécie de “eterno retorno nietzschiano”, após um denso processo de 3 anos de pandemia, temos a denúncia de emoções em série – entre o passado, o presente e o futuro, de modo anacrônico, em embaralhamento – quase que ininterruptamente, buscando o centro, o eixo vital na matéria.

O “alvo grito de rapina” entrecortado nas brechas do papel talvez venha nos alertar como somos humanos e quão pouco nos realizamos nesta era viral do antropoceno, chegando ao ponto de precisarmos, de fato, ver o animismo tomar conta de nós. Nesse cenário de “eu-nosso-desmedido”, geramos novas significações às palavras, já tão surradas, em meio à vida ordinária.

O instante é extraordinário, incomensurável; mas o tempo passou e passa.

O abismo é aqui tocado, em cada instante, para alçarmos outros voos – melhores.

Quem sabe?!

Livro

Tentei chegar aqui com estas mãos é um livro de poesia cujo nome já contém uma dubiedade proposital. Tentativa de chegar com “estas mãos” apresenta uma questão demonstrativa, um desvio do óbvio. Nele, toco em temáticas paradoxais do ser humano, como o luto e a luta, a insatisfação e o desejo, por meio de diferentes tons, ritmos e (des)enquadramentos semióticos. A escrita segue em diálogo com os anos que temos vivido, porém, sob olhares diversos, como uma amálgama de sensações do corpo feminino que pulsa entre euforia, dor, lapsos e rememoração do tempo. Tive a intenção de explorar (no melhor sentido da palavra) o instante presente, desejando extrapolar a visão comum e descobrir outros sentidos para as palavras e para o caminho diário. Desse modo, escrever pode ser atuar com gestos dialógicos em várias esferas das artes (pelo saber e não saber), com intuito de sentir um tempo vívido: o “alvo grito de rapina”. E assim, principalmente por meio da poesia ecfrástica contemporânea, desenvolvo experiências estéticas com 31 obras de artes visuais, de variadas épocas. Há duas seções: “Diálogos Ecfrásticos”, com obras de Frida Kahlo, Clarice Lispector, entre outros artistas; e “Cotidiano Tocado à Espreita”.


SELEÇÃO DE POEMAS

Seção: diálogo ecfrástico

O poema a seguir dialoga com a obra O Veado Ferido (1946), Frida Kahlo

< Compenetrado olhar do Abismo> 

A meta do veado alvejado
é ser mutação e desova
desencarne das flechas
numa ação Cor de Ouro

Não há beleza nem altura maior
do que suas Quatro pernas abertas
empostadas no caminho
galopando o idílico desconhecido
Ressurgindo…

Ele comporta o peso (é)
depois mais nada:
leve e sereno pu(lu)lar de páginas

Como se a chuva
__________________ se expandindo
e toda gota lavando
a dureza da fibra na Cabeça

A ferida na vida
Pausa de quem recebeu Nove
flechas rasteiras cravadas
na carcaça mais fina

gritante e certa
     que pudemos

V E  R

 


O poema a seguir dialoga com a obra Abstract Spiral Galaxies (2008), Kazuya Akimoto

Sobre atravessar o horizonte partido

Há fome desde a Antera,
onde se poliniza galáxias
Há flor de ideias na tinta espacial
chegando ao exoesqueleto e
em nosso túnel compacto roçando
claras espirais

Se palavra é gasta, sombra túmida de si
malícias negam desfibrilação de estrelas
demônio-um representante
saturação de cores invertidas num dragão marítimo
branco, pouco comum ao olho nu

Nossos pássaros inquilinos
frementes, em desvio
colisão da vida que pulsa
em nós, sem pergunta

Se o peixe feroz, informe e ilegível à claridade
Leviatã New-artífice do exício
do enredo sem rumo
cria o mundo anônimo
noite em todo o corpo, debalde,
carregando as rédeas do tempo nas compotas
de falácias

As sépalas em preto em branco contraem o passado
e assumem a sustentação de toda a flor até o estigma central
parem borboletas luzentes
mitológico sabor do vento
yvytu em zênite
tu e tal e tal e tu
formam-se tessituras de vida

Entre uma cabeça de serpente e outra
não ponderando termos
carregando em sua joia ruína
sua mortal comprovação

 


O poema a seguir dialoga com a obra Senecio (homem velho) (1922), Paul Klee

Ultra-passagens

0. 
Vida, está aqui o recomeço,
espaço onde refaço o texto
anterior, desfeito em partes 

1.
Um anjo em brasa, à espreita, 
neste céu aberto da varanda

2.
Hoje, sexta, tão passada:
ontem ainda era segunda
toda a vista limpa, sem óculos 
tocando aquele céu aberto, soletrando-o 
à víbora do quebra-cabeça 
lecionando à pedra sobre estar no ar
mãos-pele-sopro-visão

3.
tudo foi breve e o Agora vibra

4.
Escrevo contigo e sozinha
: com o tom drummondiAno e
um desentranhado tema da nossa espécie :
gravado no corpo com olhares
Fractais

5.
tergiversadas cores dessa sutura, unindo todas
as faces : uma paisagem híbrida, risos e choros
nas nuvens, neste umtempomuito, uma ferida doidamente
tão batida e tocada,
mas tão perplexa,
tão retrasada.

6.
Se confiaria no verbo
fazer?

 


O poema a seguir dialoga com a obra Tentativa de ser alegre (1975), Clarice Lispector — técnica mista sobre tela

Novidade do sonho

A boca prova a placenta
Arte das fêmeas
que par(t)em

São os fatos da vida
em aberto
redigindo o espaço do sinuoso nada

Ela sente o Deus na ostra
e respira, ainda que falte
Saliva

Leia o meu intento de sorrir
Latejante o furor do toque
Indescritível
Com as mãos desejadas

Tulipa desconhecida
matéria cúmplice e enamorada

eu vivo para ascender aos poucos
rumo ao momento elementar

Quem sabe responder à minha saudade
do sonho…

 


Seção: cotidiano tocado à espreita

Interlúdio seminal

Entre a fase do pólipo e da medusa      
inaugurada na gestação do corpo:
escrito-fraga perfilhando água-viva

Nascedouro de transfigurações onde
Turritopsis nutricula anoitece
~tremeluz o evolado nome~ em
tentáculos, vagas e sombras~

Renasce daquilo que subjaz quando
se é destroçada a partícula informe
o substrato infinitesimal da loucura

Vem da sede de aguçar a plânula
e ancorar no território do Silente

Poesia: gozo primevo d’Organismo
Célula-tronco : mãe-ocaso-abrigo
transe nutante~ em marulho de gerações

Luz imantada ao corpo:
pura impossibilidade rIlhada
~anímico gesto reVerso à degradação

Ao partir da impermanência, um~
desenlace e excede o Abismo.


Compre Tentei chegar aqui com estas mãos no site da Isto Edições

Que tal Augusto Martins?!

Texto de Toinho Castro —

Gente, que tal um samba na voz de Augusto Martins?! Pois fique sabendo que Augusto vem por aí com novo disco, com esse ótimo nome de Minhas digitais! E o primeiro single desse trabalho é, pois, um samba! E olha que é um samba de Chico Buarque, com participação do do lendário, mas ativo e vibrante, MPB4! É muita preciosidade num samba só, né?! “Que tal um samba?” chega ainda com arranjos de Rodrigo Campello e produção de… Moacyr Luz!

ESCUTE “QUE TAL UM SAMBA?’, COM AUGUSTO MAURO.

A ideia de gravar “Que tal um samba?” lhe surgiu depois de sair de um show do Chico Buarque! Gente, eu queria sair dos shows de Chico Buarque com ideias assim, geniais! Que bom que teve esse show. Que bom que Augusto foi assistir, que hoje temos essa preciosidade.

E logo mais teremos um disco inteiro das boas ideias do Augusto, com uma pegada mais pop e regravações de gente boa como Lulu Santos e Kleiton & Kledir! Excelente.

Então se liga, que o lançamento de Minhas digitais vem com tudo e você, amante que é da música brasileira, correto?!, não pode perder.


Independência Poética: Paula Maria

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA

Poeta de hoje: Paula Maria

De Vila Velha/ES, é escritora, psicóloga, artista e pesquisadora autônoma. Gosta de escutar, falar e aprender coisas novas. Escreve cartas, zines e cartões postais, os quais envia pelos correios através do projeto @teescrevocartas. Finalista do Prêmio Off Flip de Literatura 2022, na categoria Poesia. Em 2022, publica Primeiros Pedaços, seu primeiro livro pela Editora Pedregulho.

O que te inspirou a começar a escrever?

Aprender a escrever, do verbo me alfabetizar. Sempre me encantei com a possibilidade da escrita, tudo nela me encanta. Pelo hábito ter se consolidado, pude ir aprendendo em diferentes fases como adaptá-lo às minhas necessidades – que em sua maioria, eram sobre me expressar. Atualmente, o que me inspira é o cotidiano e principalmente poder andar por aí de novo – depois desses anos horríveis que passamos.

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

Ando pelo mundo prestando atenção, como na música. As coisas, as pessoas, os pequenos acontecimentos estão por aí, em busca dum lugar pra repousarem – acredito que a poesia seja esse lugar. Não costumo ter bloqueios criativos, acredito que se acontecem, é porque estou cansada ou estressada.

Seu maior sonho como escritor(a)?

Ser lida, com ou sem prêmios, mas que minhas palavras possam chegar até as pessoas e dali, não serem mais minhas.

Assunto preferido de escrever?

Sobre o amor e minhas experiências com ele, talvez um clichê, mas não me importo.

Um elogio para sua própria escrita?

Gosto da minha insistência e da busca por uma forma.

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Já publiquei solo duas vezes, um ebook na Amazon, de contos curtos e meu livro de poesias, Primeiros Pedaços, pela Editora Pedregulho. Planos sempre tenho muitos, sou uma pessoa de ideias e vontades…

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

Atualmente tem sido o caminho até a faculdade.

Qual dos seus poemas mais te define?

“três pontos”, que foi finalista do Prêmio OffFlip.

Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

A mais fácil é que não preciso de muita coisa além de papel e caneta (ou o celular). A mais difícil é criar algo totalmente fictício, coisa que ainda não consegui, mas que pretendo algum dia realizar. Quero muito escrever um romance ficcional, só não sei quando.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

Do desejo, Hilda Hilst.

 


Um livro de Paula Maria

Nome da obra?

Primeiros Pedaços.

Quando e em qual editora foi publicada?

Outono de 2022, Editora Pedregulho.

Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?

Processos de autoconhecimento, amores, perdas.

As poesias são divididas em fases nessa obra? Se sim, o que te motivou a fazer isso?

Não as divido, não encontrei necessidade.

O que te incentivou a escrever esse livro?

A imensa vontade de editar um conteúdo que tivesse um corpo de livro. Sou feliz em ter conseguido.

É possível destacar uma poesia que mais se assemelha a seu cotidiano?

Hoje tenho me identificado bastante com “efêmera”.

A sequência dos poemas conta alguma história?

Não.

Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?

Com certeza.

Qual a relevância dos personagens implícitos/explícitos da obra?

Tudo ali faz parte da minha história, nesse livro não há ficção.

Qual a poesia mais marcante desse livro?

Dois são particularmente expositivos, “religiosa” e “portão de embarque”.


Agenda Rival: DEIXA CLAREAR, Musical sobre Clara Nunes


Atendendo aos pedidos do público após uma apresentação com lotação esgotada, o espetáculo “Deixa Clarear – Musical sobre Clara Nunes”, protagonizado pela atriz Clara Santhana, volta ao Teatro Rival para apresentação no dia 03 de junho, sábado, às 19h30.

Sucesso de público com mais de 500 mil espectadores em seus dez anos de existência, o repertório do espetáculo “Deixa Clarear” resgata clássicos de grandes compositores imortalizados na voz de Clara Nunes, como “O canto das três raças” (Paulo Cesar Pinheiro/ Mauro Duarte), “Na linha do mar” (Paulinho da Viola), “Morena de Angola” (Chico Buarque), “Um ser de luz” (João Nogueira/Paulo Cesar Pinheiro e Mauro Duarte) e “O mar serenou” (Candeia).

Com texto de Márcia Zanelatto e direção de Isaac Bernat, o musical protagonizado pela atriz Clara Santhana, também leva ao palco um quarteto de violões, cavaquinho, percussão, flauta e sax.

Sob a direção musical de Alfredo Del Penho, o espetáculo mistura música e poesia na construção de um olhar sobre a inesquecível cantora e sua carreira, buscando incentivar a juventude a valorizar a música brasileira e suas raízes genuínas.

Vale a pena viver e reviver a música de Clara Nunes, uma das maiores cantoras e intérpretes da MPB de todos os tempos.

Apaixonada pela Escola de Samba, Portela – que comemora 100 anos em 2023, Clara Nunes foi considerada a nona maior voz da música popular brasileira, pela Revista Rolling Stone Brasil, em lista elaborada no ano de 2012. Ela é a quarta mulher da lista, ficando atrás somente de Elis Regina (2º lugar), Maria Bethânia (5º lugar) e Gal Costa (7º lugar).

Clara também era compositora e uma grande pesquisadora de ritmos nativos e da cultura afro-brasileira, não limitando-se apenas à música, mas aos costumes, tradições, credos, vestimentas e danças.

Em tempos em que a mulher atual busca cada vez mais posicionamento no mercado, Clara Nunes teve feitos grandiosos nos anos 1970. Foi a primeira mulher brasileira a vender mais de 100 mil discos, marca antes somente atingida por homens, quebrando um tabu da época. O recorde aconteceu com o álbum Alvorecer (1974) alavancado pela música “Conto de Areia” (Romildo Bastos e Toninho Nascimento). A marca “comum” era vender 100 mil cópias, Claro Nunes vendeu mais de 300 mil. Sempre à frente do seu tempo, Clara Nunes levantou debates sobre o preconceito étnico-racial e a intolerância religiosa. Todas as suas obras traziam temas afro-brasileiros, desempenhando importante papel na popularização e desmistificação das religiões de matrizes africanas.

Em 1975, Clara Nunes lançou o disco de maior sucesso de sua carreira, Claridade, que traz a canção icônica em sua voz, O Mar Serenou (Candeia), Juízo Final (Nelson Cavaquinho e Élcio Soares) e A Deusa dos Orixás (Romildo Bastos e Toninho Nascimento). Nos anos seguintes, vieram sucessos consecutivos, como Canto das Três Raças (Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte), Feira de Mangaio (Sivuca e Glória Gadelha) e Morena de Angola (Chico Buarque).

A cantora morreu de choque anafilático, seguido de parada cardíaca, aos 40 anos de idade após uma cirurgia de varizes, quando apresentou reação alérgica.

Ao todo, durante sua carreira, vendeu 4.440 milhões de discos. A discografia de Clara Nunes consiste em 16 álbuns de estúdio, 92 compactos simples e uma coletânea.

Os ingressos para o show “Deixa Clarear – Musical sobre Clara Nunes” já estão à venda pelo site da Sympla, com valor entre R$ 50 e R$ 120

 


SERVIÇO

DEIXA CLAREAR – MUSICAL SOBRE CLARA NUNES
Data: 03.06.2023 – Sábado
Horário: 19h30 (Abertura da casa às 18h30)
Local: Teatro Rival

Endereço: Rua Álvaro Alvim , 33 – Subsolo – Cinelândia/Rio de Janeiro (Clique aqui para localizar no mapa)
Telefone: (21) 2240-4469


Se liga na Karou!

Entrevistada por Lorena Lacerda!

Lorena Lacerda, nossa colaboradora e aparceira de primeira linha, dá uma escapada da coluna Independência Poética pra trazer pra gente esse bate-papo com a baiana Karou, escritora, leitora crítica, preparadora de textos e ensino escrita criativa.

Bora ler!

O que te inspirou a começar a escrever?

Minha história com a escrita ironicamente começa de um jeito bem clichê: na infância. Desde que fui alfabetizada, escrevo livros e acredito que essa vocação veio juntamente com o incentivo à leitura, coisa que minha mãe sempre fez. E eu sempre escrevi sobre tudo o que mexe comigo, que me faz sentir e refletir: amores, tragédias, questões sociais, quem somos, de onde viemos, para onde vamos… A inspiração sempre esteve em todo lugar.

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

Costumo dizer que dentro da escrita criativa não existe bloqueio. Isso acontece porque tudo pode inspirar se a gente olhar da maneira correta. Além disso, com um pouco de planejamento e organização, aquela ideia guardada no fundo da gaveta pode se tornar um livro incrível. Como mentora de escrita, sempre ensino minhas alunas a importância de buscar novas referências para manter a mente ativa, criando e pensando, e, assim que a ideia surge, a gente já corre para planejar o livro inteirinho.

Seu maior sonho como escritor(a)?

Acredito que todo escritor sonhe em ver um livro sendo adaptado para as telonas e como alguém que ama muito cinema, eu adoraria ter essa experiência. Porém, não apenas ter o meu livro adaptado, mas sim estar na sala de roteiro, opinando, criando junto, acredito que esse processo criativo deve ser intenso e maravilhoso.

Assunto preferido de escrever?

Desde que desenvolvi a minha consciência racial/social, é urgente a minha necessidade de falar mais sobre esses temas, mas sempre da maneira mais curiosa possível. No meu primeiro livro, falei sobre a orfandade, principalmente sobre como ela aflige meninos negros, e a consequência disso ao longo da vida. Em outra história, dessa vez um conto, discuti a solidão do homem negro e gordo, mas claro, num Brasil distópico, pra a gente não perder o inusitado da escrita.

Um elogio para sua própria escrita?

Eu amo os meus personagens, talvez mais do que eu deveria. Acredito que minha bagagem no curso de psicologia não concluído me fez ver os personagens para além de uma representação, consigo criar pessoas com as quais nos identificamos, pessoas reais, que são sim heróis, mas não são perfeitos. Até hoje, amo psicologia e estudo sempre que posso, porque agrega muito na minha escrita.

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Sim! Tenho publicado o livro Entre Caixas, que conta a história de 4 órfãos criados numa fazenda por uma senhora um pouco macabra. O conto de natal Looping, que está dentro da antologia preta de natal 6 Desejos de Natal, organizada pela Roberta Gurriti e publicada pela Se Liga Editorial!. E, por último, mas não menos importante, o conto Onde As Estrelas não Brilham, que conta a história de João, um programador que precisa salvar um Brasil que o rejeita. Esse conto se passa no ano de 3.500. Espero que ainda esse mais, mais livros sejam publicados.

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

Os temas que mais me abalam são os meus favoritos de escrever. Comecei escrevendo Crime e até hoje me arrisco. Quando percebo em que pé estamos como sociedade, me sinto na obrigação de escrever algo que mostre a potência e a grandiosidade dos meus. E não me refiro apenas a mulheres negras, sou atravessada o tempo inteiro por minhas interseccionalidades e por temas que também tocam as pessoas que convivo e amo.

Qual dos seus poemas mais te define?

O livro que mais me define, sem dúvidas, é Entre Caixas. Por mais bizarro que isso possa parecer (e quem leu ele sabe a que estou me referindo) ele foi um livro que escrevi muito nova, sem pensar tanto no julgamento alheio, sem ter essa quantidade de seguidores, quando poucos da minha família sabiam que eu escrevia. Hoje, são tantos olhares sobre mim que me pego podando o que estou fazendo por medo de ser incompreendida ou até mesmo “cancelada”. Não que eu escreva algo “cancelável”, mas como uma mulher negra que possui certa visibilidade, procuro não dar margem para más interpretações.

Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

A mais fácil com certeza é a de criar. Pensar na história, desenvolver os personagens, pesquisar aparências, qual história vão contar. Eu amo planejar um livro. A mais difícil, com certeza, é escrever. Todo mundo tem manias e eu tenho várias, principalmente na hora da escrita. Preciso de silêncio absoluto e um final de semana inteiro sentada à mesa para escrever uma história de uma vez só, coisa que hoje é bastante difícil de conseguir. Por isso, escrevo aos poucos, um pouco a cada dia e por mais que seja ótimo para manter o hábito da escrita e se manter conectada com a história, não é a minha maneira favorita que fazer isso.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

Essa é a pergunta mais difícil de responder. Já tive tantos livros como favoritos, tudo depende bastante da fase em que eu estou. Hoje, vou dizer que é O Beijo do Rio, do Stefano Volp, por ser um livro de mistério (gênero que amo) no qual me identifiquei bastante com o protagonista. A história é super fluida, deixa a gente curioso e o melhor, é de um autor super querido.

 


Um livro da Karou!

Nome da obra?

Onde As Estrelas Não Brilham

Quando e em qual editora foi publicada?

Publiquei de maneira independente.

Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?

Todos possuem um recorte racial muito forte. Nessa história, por exemplo, existem apenas pessoas negras. Para compreender o texto, é claro, é preciso ler o conto. Quando estava planejando o universo da história pensei: o que aconteceria se o racismo não existisse? E a partir daí passei a desenvolver todo o resto

O que te incentivou a escrever esse livro?

Vi uma thread no Twitter de um rapaz falando sobre como é difícil para um homem negro e gordo no Brasil encontrar e manter relacionamentos românticos e fiquei super mexida com o assunto. Em poucos dias pensei na história e escrevi.

Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?

Definitivamente sim. Tudo está nas entrelinhas.

Qual a relevância dos personagens implícitos/explícitos da obra?

Nessa história, temos João, o protagonista, um programador que foi abandonado pela mulher que amava, Carla, e não se sente mais capaz de ser ou fazer nada. Também temos Rita, uma programadora inteligentíssima, forte e muito amorosa, que trabalha muito para conseguir o seu lugar às estrelas e não deixa que ninguém tome o seu lugar. A interação entre esses dois é belíssima e muito potente. Juntos eles mostram que ser quem é não te impede de absolutamente nada, você pode sim salvar o mundo, você pode sim encontrar o amor. É inspirador, modéstia à parte.

Qual a poesia mais marcante desse livro?

Tem uma frase que os personagens repetem na história que diz muito sobre mim também. Tem uma importância que já conhecemos e fez muito sentido dentro do contexto da história. Eles sempre olham um para o outro e dizem: “Eu sou porque nós somos”.

Instagram da Karou!


Da série Admiráveis encontros

por Marco Simas — Ao longo dos tempos, em situações completamente prosaicas, sem nenhuma preparação ou arrumação, mantive inopinados encontros com pessoas que considero estelares. Algumas que sempre admirei.

por Marco Simas

Ao longo dos tempos, em situações completamente prosaicas, sem nenhuma preparação ou arrumação, mantive inopinados encontros com pessoas que considero estelares. Algumas que sempre admirei.

Para começar abrindo a série, conto um que chamarei de:

é ELE sim.

Estamos falando de 1979, ano oficial da anistia aos presos políticos brasileiros, quando os exilados passaram a ter o direito de voltar para casa. Ano em que as coisas começavam a parecer normais; o medo cedeu, lentamente, lugar ao sentimento de plenitude cidadã, se é que isso existe, mas?

Bom, foi assim:

Em um dia comum, meio da semana, nada de excepcional. Eu morava em um pequeno apartamento na Rua Barão de Ipanema em Copacabana, primeiro apartamento de um mineiro no Rio de Janeiro. Solteiro, claro. Vivia cercado de fotos e livros, movido à música e a miojo, argh! Coma miojo durante um ano e depois me diga se não é argh!

Meu vizinho de porta era um cara absolutamente legal, simpático, boa gente, na época caricaturista da coluna do Swam, no jornal O Globo. Assinava Jimmy Scott. Se não me falha a memória o nome verdadeiro é Arturo. Demorei muito tempo a me entrosar com ele, pois não entendia nada do que falava. Era chileno dos bons, que se exilou por aqui depois da queda do Allende em 1973. Quando consegui sacar que não precisava entender tudo que ele dizia, que bastava ficar atento a intenção da frase e a preposição que usava para respirar ou pensar, algo como êtê, relaxei e ficamos amigos. Uma das boas coisas que Jimmy me ensinou foi beber “pisco”1.

Fiquei amigo da família e gostava de ver a filha do casal, Lorena, simpaticamente séria, se esforçando no portunhol.

Um dia me casei e Jimmy fez o convite, uma charge em que eu aparecia como Tarzan, carregando minha Jane no colo. Muito engraçado. Em agradecimento dei a ele toda a coleção, preciosa, de revistinhas de sacanagem do Zéfiro, que juntei a vida toda. Não eram poucas.

Pois bem, vamos ao que interessa: naquele dia comum, voltei da praia no meio da tarde, era estudante, e estava preparando um belo miojo com frango de padaria, quando a campainha foi tocada. Gritei para a porta um já vou. Pequenos apartamentos têm essa vantagem. Me dei conta que estava apenas de sunga, mas já aprendera que em Copacabana isso era uma roupa como outra qualquer, e ainda pensei: deve ser o porteiro ou o Jimmy, tudo bem. De sunga e com o pano de prato jogado no ombro, abri a porta.

Ali parado, me olhando com olhinhos muito vivos, envergando um surrado terno com gravata, estava ninguém menos do que Carlos Drummond de Andrade. Por um instante, que depois me pareceu rápido demais, ficamos admirados com o que víamos.

— Pois não, consegui dizer idiotamente.
— Boa tarde, disse o poeta com sua voz característica de mineiro distante, é aqui que mora o senhor Jimmy Scott? E sorriu com meia boca.
— Não, infelizmente não. Consegui dizer recuperando minha presença de espírito.
— Ah, que pena. O porteiro me disse que podia subir, o interfone está quebrado…
— Não, quer dizer, sim é aqui. Ele franziu a testa, provavelmente já imaginando que encontrara um maluco. Quer dizer, ele mora aí, disse apontando a porta atrás dele. É meu vizinho, acrescentei com orgulho.

Imediatamente toquei a campainha, ao alcance da mão. Ficamos aguardando. O poeta virou-se de frente para a porta vizinha, e eu pude contemplar, por um tempo razoável, o seu perfil esquerdo, sem nada conseguir pensar, a não ser: esse é o verdadeiro perfil de um poeta. A porta foi aberta e apareceu Jimmy com seu sorriso, dizendo êtê…

E eles entraram. Meu amigo chileno riu para mim e deu passagem ao grande Drummond, que antes de desaparecer casa adentro, se voltou e me disse um obrigado repleto de poesia, momento único da minha vida. Sorri e fechei os olhos para aprisionar aquele instante.

Pra matar a curiosidade e mostrar a generosidade do Poeta, conto que lá foi ele agradecer pessoalmente ao artista, uma caricatura publicada na coluna do jornal.

Soube depois que adorou o “pisco”.


1A BEBIDA DOS ANDES
O grande consumo do Pisco, um destilado de vinho, concentra-se principalmente no Peru, no Chile e na Bolívia. Originou-se exatamente ali, na região andina. Infelizmente, talvez até em razão da disputa de sua paternidade, ele é pouco divulgado no exterior. Enquanto a maioria das bebidas tem uma única procedência reconhecida, a invenção do Pisco, ocorrida no século XVI, é disputada inclusive judicialmente por peruanos e chilenos. Ambos a consideram sua. O mais aceito, porém, é que tenha nascido no Peru. O nome da bebida já era conhecido no país, antes de sua criação. Na linguagem quéchua, falada pelos incas no Peru pré-colonial, pisccu era um pássaro que habitava a região. Ali também se instalou uma tribo que produzia vasilhas de barro chamadas piskos, nas quais se elaborava um fermentado primitivo. Quando os espanhóis trouxeram as vinhas, a palavra pisco passou a identificar o novo produto.

Foto de Dtarazona

O Pisco é um brandy, como o cognac. No Peru, é feito principalmente com uvas da variedade nacional Quebranta, pouco aromática, mas de sabor intenso. Dizem ser mutação genética de uma das uvas trazidas pelos espanhóis. São prensadas no dia da colheita. O vinho fermenta ao ar livre na época do verão. Logo após a vinificação, é destilado em alambiques de cobre até atingir a graduação alcoólica desejada, normalmente ao redor de 43 graus. Não se permite a redução com água. Outras uvas também são aprovadas. Nos estilos mais aromáticos, emprega-se bastante a Moscatel de Alexandria. Tal como nos vinhos, o Pisco pode ser varietal ou blend de diversas uvas, chamados respectivamente de Puro ou Acholado. Já o chileno, elaborado em região demarcada no Vale do Elqui, utiliza principalmente cepas da família Muscat no vinho-base e também é destilado em alambiques de cobre. Mas, ao contrário do peruano, pode receber a adição de água para reduzir o teor alcoólico resultante da destilação. Com isso, existem tipos com baixa graduação alcoólica.

Qualquer que seja a origem, o Pisco é límpido como água, exceto se for envelhecido em carvalho, quando ganha cor. No nariz, apresenta-se suave com notas de especiarias. O corpo é médio. O sabor frutado tem ainda toques florais. O final se revela quente e prolongado. Pode ser bebido puro ou como ingrediente de vários coquetéis, a começar pelo antológico Pisco Sour.

Eis a receita: 

numa coqueteleira, adicione 3 partes de Pisco, 1 e 1/2 parte de suco de limão, 1 a 2 colheres de sopa de açúcar e um pouco de clara de ovo pasteurizada para dar cremosidade; bata bem, com algumas pedras de gelo, coe e sirva em copo de coquetel ou flûte. Fica delicioso.


Sobre Marco Simas

Minha paixão é contar histórias. Assim, comecei minha trajetória profissional como realizador de filmes e vídeos. Graduado em Publicidade, bem no início, trabalhei em produtoras, com peças institucionais e de propaganda. Tive algumas experiências em televisão, como diretor de programas educativos. Mas, logo fui seduzido pela possibilidade de contar histórias curtas, no cinema, aliando ficção, engajamento político, memórias e questões sociais. Porém, a escrita foi o que mais me trouxe prazer, muito estimulado pelo gosto da leitura adquirido na infância. Desde 2007 venho pesquisando, escrevendo e publicando, graças ao interesse de leitores e editoras. Assim, realizo os filmes no “papel”.

Independência Poética: Carla Guerson

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA

Poeta de hoje: Carla Guerson

Carla Guerson é capixaba, escritora, feminista, mãe, incomodada. Escreve em verso e prosa. É autora dos livros O som do tapa (contos, Ed. Patuá, 2021) e Fogo de Palha (poesia, Ed. Pedregulho, 2022).

O que te inspirou a começar a escrever?

A vida. Parafraseando Ferreira Gullar, quando eu percebi que “a vida não basta”. A expressão artística que eu sei “falar” é a escrita, portanto ela surgiu, para mim, da necessidade de me expressar artisticamente.

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

Eu não escrevo. É uma resposta horrível, me desculpe, mas é a verdade. Eu não me forço a escrever. O que me ajuda bastante é sempre ter à mão formas de registrar ideias e pensamentos: caderninhos, blocos, aplicativos no celular. Assim, quando a ideia vem (e ela vem, geralmente, em momentos inusitados) eu anoto. Uma palavra, uma frase. E aí, quando preciso, recorro a estas anotações antigas para tentar lembra o que me ocorreu. Quase nunca lembro, mas às vezes as anotações ajudam a ter outras ideias.

Seu maior sonho como escritor(a)?

Meu maior sonho é ser lida. É um sonho já realizado, mas que estou sempre tentando ampliar o alcance. Quero repetir esse sonho muitas e muitas vezes, quero vive-lo à exaustão.

Assunto preferido de escrever?

Gosto de escrever a partir dos meus incômodos.

Um elogio para sua própria escrita?

Acredito que eu seja corajosa. E que minha escrita é fluida, envolvente.

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Tenho dois livros publicados: um de contos (O som do tapa, editora Patuá) e um de poesia (Fogo de Palha, editora Pedregulho). E tenho planos de publicar, em breve, um romance.

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

O que mais me desperta é a narrativa. Tenho vontade de escrever quando leio alguma história boa, quando ouço um caso engraçado ou triste, quando alguém me conta uma fofoca cabeluda, me confidencia um segredo de família, quando vejo um bom filme, uma boa série. Minhas histórias nascem de outras histórias.

Qual dos seus poemas mais te define?

Bom, eu tenho um poema que se chama Mini Bio. Eu o escrevi justamente tentando dizer algo sobre mim.

Definição (ou mini Bio)

Antes de escritora,
Leitora
Livros e palavras

Antes de mãe,
Filha
Peitos e medos

Antes de mulher,
Pulso
Sangue e navalha

Antes de tudo,
Escrevo
E depois também.


Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

A mais fácil e a mais difícil: assumir o desejo. Bancar o desejo de ser escritora, continuar bancando. A constância.

É fácil porque eu não consigo imaginar o retroceder, então é só ir. E é difícil porque eu não consigo imaginar o retroceder, então, só me resta ir.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

Essa é uma pergunta muito difícil, pois eu sou geminiana e leitora há muitos anos, difícil escolher um só.

Mas vou citar uma autora que acho ser minha preferida: Elena Ferrante.

 


Um livro de Carla Guerson

Nome da obra?

Fogo de Palha.

Quando e em qual editora foi publicada?

Foi publicada no final de 2022, pela editora Pedregulho.

Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?

Sim. É um livro escrito a partir da experiência de ser mulher na nossa sociedade.

As poesias são divididas em fases nessa obra? Se sim, o que te motivou a fazer isso?

Sim. São três eixos, com três subtítulos: “Por se sentir inadequada” (parte 1); “Na hora de fazer não doeu” (parte 2) e “Cansei de performar” (parte 3).

Essa divisão surgiu de forma muito natural para mim, pois, a princípio, eram três livros independentes, que eu escrevia ao mesmo tempo. Com o tempo, fui percebendo muitas intersecções entre os assuntos, pois os três temas eram parte do tema central que é a minha experiência de ser mulher, de habitar o meu corpo. Por isso, resolvi reuni-los, mantendo os títulos como subtítulos.

O que te incentivou a escrever esse livro?

Fogo de Palha era um livro que eu tinha já escrito grande parte, mas me faltava a coragem de terminar. Resolvi publicar o de contos antes, por achar que ele estava mais completo, mais pronto. Mais tarde resolvi inscrever o livro de poesia no edital de cultura do meu estado e ele foi aprovado, o que certamente me deu a força e o impulso necessário para terminar de escrever e publicá-lo.


É possível destacar uma poesia que mais se assemelha a seu cotidiano?

Acho que “causa e consequência” é a que mais fala do cotidiano. É um poema-brincadeira, uma provocação.

Causa e consequência

se tô com sono
então eu durmo
se tô com fome
então eu como
se tô com tédio
então eu não faço nada
que tédio é coisa pra se cultivar

às vezes com tédio eu como
ou durmo
mas aí tá fora do texto
só não pode ficar fora do
contexto

se eu tô com medo
então eu choro
se eu tô com raiva
então eu grito
se eu tô vendo você me perturbar
às vezes não faço nada
que é pra lembrar que eu estou

viva

às vezes eu também choro e grito
sem ter razão
é só uma forma de distração

se eu tô viva
então escrevo
às vezes se eu tô morta, também
esse não tem nenhum
porém


A sequência dos poemas conta alguma história?

Fogo de palha é um livro testamento. É como se eu deixasse ali registrado o que eu sou, fui, serei, o que eu deixo, o que quero deixar. Acredito que a experiência de leitura se aproxime mais de uma espiral do que de uma linha reta e por isso não exatamente conte uma história, mas sim trace um perfil.

Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?

Sou uma mulher feminista, de esquerda. Certamente isso está explicitado na obra, pois entendo que seja dissociável do que sou e do que produzo.

Qual a relevância dos personagens implícitos/explícitos da obra?

O eu lírico certamente é uma mulher ou algumas mulheres que contam sobre coisas que nem sempre são ditas.

Qual a poesia mais marcante desse livro?

O que as pessoas mais comentam é o “Amputada”, que fala sobre maternidade de um jeito não muito bonito, embora bastante sincero.

Segue um trecho:

Amputada

ela entra aqui e me interrompe
ela chegou na minha vida
sem ser autorizada
ela saiu de mim
e me deixou
amputada

ela não era pra ser

ela me incomoda
me mostra o que eu não sou
ela me faz me sentir culpada
ela não faz nada
eu sinto tudo

eu sinto muito

ela me pede atenção
e eu quero paz
ela me pede um abraço
e eu quero tapa
ela me pede comida
e eu quero beber
ela só me pede
o que eu não tenho pra dar

eu não quero perder mais de mim
eu quero ser inteira de novo

eu não quero viver sem ela
eu quero que ela viva
sem mim