Se liga na Karou!

Entrevistada por Lorena Lacerda!

Lorena Lacerda, nossa colaboradora e aparceira de primeira linha, dá uma escapada da coluna Independência Poética pra trazer pra gente esse bate-papo com a baiana Karou, escritora, leitora crítica, preparadora de textos e ensino escrita criativa.

Bora ler!

O que te inspirou a começar a escrever?

Minha história com a escrita ironicamente começa de um jeito bem clichê: na infância. Desde que fui alfabetizada, escrevo livros e acredito que essa vocação veio juntamente com o incentivo à leitura, coisa que minha mãe sempre fez. E eu sempre escrevi sobre tudo o que mexe comigo, que me faz sentir e refletir: amores, tragédias, questões sociais, quem somos, de onde viemos, para onde vamos… A inspiração sempre esteve em todo lugar.

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

Costumo dizer que dentro da escrita criativa não existe bloqueio. Isso acontece porque tudo pode inspirar se a gente olhar da maneira correta. Além disso, com um pouco de planejamento e organização, aquela ideia guardada no fundo da gaveta pode se tornar um livro incrível. Como mentora de escrita, sempre ensino minhas alunas a importância de buscar novas referências para manter a mente ativa, criando e pensando, e, assim que a ideia surge, a gente já corre para planejar o livro inteirinho.

Seu maior sonho como escritor(a)?

Acredito que todo escritor sonhe em ver um livro sendo adaptado para as telonas e como alguém que ama muito cinema, eu adoraria ter essa experiência. Porém, não apenas ter o meu livro adaptado, mas sim estar na sala de roteiro, opinando, criando junto, acredito que esse processo criativo deve ser intenso e maravilhoso.

Assunto preferido de escrever?

Desde que desenvolvi a minha consciência racial/social, é urgente a minha necessidade de falar mais sobre esses temas, mas sempre da maneira mais curiosa possível. No meu primeiro livro, falei sobre a orfandade, principalmente sobre como ela aflige meninos negros, e a consequência disso ao longo da vida. Em outra história, dessa vez um conto, discuti a solidão do homem negro e gordo, mas claro, num Brasil distópico, pra a gente não perder o inusitado da escrita.

Um elogio para sua própria escrita?

Eu amo os meus personagens, talvez mais do que eu deveria. Acredito que minha bagagem no curso de psicologia não concluído me fez ver os personagens para além de uma representação, consigo criar pessoas com as quais nos identificamos, pessoas reais, que são sim heróis, mas não são perfeitos. Até hoje, amo psicologia e estudo sempre que posso, porque agrega muito na minha escrita.

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Sim! Tenho publicado o livro Entre Caixas, que conta a história de 4 órfãos criados numa fazenda por uma senhora um pouco macabra. O conto de natal Looping, que está dentro da antologia preta de natal 6 Desejos de Natal, organizada pela Roberta Gurriti e publicada pela Se Liga Editorial!. E, por último, mas não menos importante, o conto Onde As Estrelas não Brilham, que conta a história de João, um programador que precisa salvar um Brasil que o rejeita. Esse conto se passa no ano de 3.500. Espero que ainda esse mais, mais livros sejam publicados.

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

Os temas que mais me abalam são os meus favoritos de escrever. Comecei escrevendo Crime e até hoje me arrisco. Quando percebo em que pé estamos como sociedade, me sinto na obrigação de escrever algo que mostre a potência e a grandiosidade dos meus. E não me refiro apenas a mulheres negras, sou atravessada o tempo inteiro por minhas interseccionalidades e por temas que também tocam as pessoas que convivo e amo.

Qual dos seus poemas mais te define?

O livro que mais me define, sem dúvidas, é Entre Caixas. Por mais bizarro que isso possa parecer (e quem leu ele sabe a que estou me referindo) ele foi um livro que escrevi muito nova, sem pensar tanto no julgamento alheio, sem ter essa quantidade de seguidores, quando poucos da minha família sabiam que eu escrevia. Hoje, são tantos olhares sobre mim que me pego podando o que estou fazendo por medo de ser incompreendida ou até mesmo “cancelada”. Não que eu escreva algo “cancelável”, mas como uma mulher negra que possui certa visibilidade, procuro não dar margem para más interpretações.

Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

A mais fácil com certeza é a de criar. Pensar na história, desenvolver os personagens, pesquisar aparências, qual história vão contar. Eu amo planejar um livro. A mais difícil, com certeza, é escrever. Todo mundo tem manias e eu tenho várias, principalmente na hora da escrita. Preciso de silêncio absoluto e um final de semana inteiro sentada à mesa para escrever uma história de uma vez só, coisa que hoje é bastante difícil de conseguir. Por isso, escrevo aos poucos, um pouco a cada dia e por mais que seja ótimo para manter o hábito da escrita e se manter conectada com a história, não é a minha maneira favorita que fazer isso.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

Essa é a pergunta mais difícil de responder. Já tive tantos livros como favoritos, tudo depende bastante da fase em que eu estou. Hoje, vou dizer que é O Beijo do Rio, do Stefano Volp, por ser um livro de mistério (gênero que amo) no qual me identifiquei bastante com o protagonista. A história é super fluida, deixa a gente curioso e o melhor, é de um autor super querido.

 


Um livro da Karou!

Nome da obra?

Onde As Estrelas Não Brilham

Quando e em qual editora foi publicada?

Publiquei de maneira independente.

Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?

Todos possuem um recorte racial muito forte. Nessa história, por exemplo, existem apenas pessoas negras. Para compreender o texto, é claro, é preciso ler o conto. Quando estava planejando o universo da história pensei: o que aconteceria se o racismo não existisse? E a partir daí passei a desenvolver todo o resto

O que te incentivou a escrever esse livro?

Vi uma thread no Twitter de um rapaz falando sobre como é difícil para um homem negro e gordo no Brasil encontrar e manter relacionamentos românticos e fiquei super mexida com o assunto. Em poucos dias pensei na história e escrevi.

Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?

Definitivamente sim. Tudo está nas entrelinhas.

Qual a relevância dos personagens implícitos/explícitos da obra?

Nessa história, temos João, o protagonista, um programador que foi abandonado pela mulher que amava, Carla, e não se sente mais capaz de ser ou fazer nada. Também temos Rita, uma programadora inteligentíssima, forte e muito amorosa, que trabalha muito para conseguir o seu lugar às estrelas e não deixa que ninguém tome o seu lugar. A interação entre esses dois é belíssima e muito potente. Juntos eles mostram que ser quem é não te impede de absolutamente nada, você pode sim salvar o mundo, você pode sim encontrar o amor. É inspirador, modéstia à parte.

Qual a poesia mais marcante desse livro?

Tem uma frase que os personagens repetem na história que diz muito sobre mim também. Tem uma importância que já conhecemos e fez muito sentido dentro do contexto da história. Eles sempre olham um para o outro e dizem: “Eu sou porque nós somos”.

Instagram da Karou!


Da série Admiráveis encontros

por Marco Simas — Ao longo dos tempos, em situações completamente prosaicas, sem nenhuma preparação ou arrumação, mantive inopinados encontros com pessoas que considero estelares. Algumas que sempre admirei.

por Marco Simas

Ao longo dos tempos, em situações completamente prosaicas, sem nenhuma preparação ou arrumação, mantive inopinados encontros com pessoas que considero estelares. Algumas que sempre admirei.

Para começar abrindo a série, conto um que chamarei de:

é ELE sim.

Estamos falando de 1979, ano oficial da anistia aos presos políticos brasileiros, quando os exilados passaram a ter o direito de voltar para casa. Ano em que as coisas começavam a parecer normais; o medo cedeu, lentamente, lugar ao sentimento de plenitude cidadã, se é que isso existe, mas?

Bom, foi assim:

Em um dia comum, meio da semana, nada de excepcional. Eu morava em um pequeno apartamento na Rua Barão de Ipanema em Copacabana, primeiro apartamento de um mineiro no Rio de Janeiro. Solteiro, claro. Vivia cercado de fotos e livros, movido à música e a miojo, argh! Coma miojo durante um ano e depois me diga se não é argh!

Meu vizinho de porta era um cara absolutamente legal, simpático, boa gente, na época caricaturista da coluna do Swam, no jornal O Globo. Assinava Jimmy Scott. Se não me falha a memória o nome verdadeiro é Arturo. Demorei muito tempo a me entrosar com ele, pois não entendia nada do que falava. Era chileno dos bons, que se exilou por aqui depois da queda do Allende em 1973. Quando consegui sacar que não precisava entender tudo que ele dizia, que bastava ficar atento a intenção da frase e a preposição que usava para respirar ou pensar, algo como êtê, relaxei e ficamos amigos. Uma das boas coisas que Jimmy me ensinou foi beber “pisco”1.

Fiquei amigo da família e gostava de ver a filha do casal, Lorena, simpaticamente séria, se esforçando no portunhol.

Um dia me casei e Jimmy fez o convite, uma charge em que eu aparecia como Tarzan, carregando minha Jane no colo. Muito engraçado. Em agradecimento dei a ele toda a coleção, preciosa, de revistinhas de sacanagem do Zéfiro, que juntei a vida toda. Não eram poucas.

Pois bem, vamos ao que interessa: naquele dia comum, voltei da praia no meio da tarde, era estudante, e estava preparando um belo miojo com frango de padaria, quando a campainha foi tocada. Gritei para a porta um já vou. Pequenos apartamentos têm essa vantagem. Me dei conta que estava apenas de sunga, mas já aprendera que em Copacabana isso era uma roupa como outra qualquer, e ainda pensei: deve ser o porteiro ou o Jimmy, tudo bem. De sunga e com o pano de prato jogado no ombro, abri a porta.

Ali parado, me olhando com olhinhos muito vivos, envergando um surrado terno com gravata, estava ninguém menos do que Carlos Drummond de Andrade. Por um instante, que depois me pareceu rápido demais, ficamos admirados com o que víamos.

— Pois não, consegui dizer idiotamente.
— Boa tarde, disse o poeta com sua voz característica de mineiro distante, é aqui que mora o senhor Jimmy Scott? E sorriu com meia boca.
— Não, infelizmente não. Consegui dizer recuperando minha presença de espírito.
— Ah, que pena. O porteiro me disse que podia subir, o interfone está quebrado…
— Não, quer dizer, sim é aqui. Ele franziu a testa, provavelmente já imaginando que encontrara um maluco. Quer dizer, ele mora aí, disse apontando a porta atrás dele. É meu vizinho, acrescentei com orgulho.

Imediatamente toquei a campainha, ao alcance da mão. Ficamos aguardando. O poeta virou-se de frente para a porta vizinha, e eu pude contemplar, por um tempo razoável, o seu perfil esquerdo, sem nada conseguir pensar, a não ser: esse é o verdadeiro perfil de um poeta. A porta foi aberta e apareceu Jimmy com seu sorriso, dizendo êtê…

E eles entraram. Meu amigo chileno riu para mim e deu passagem ao grande Drummond, que antes de desaparecer casa adentro, se voltou e me disse um obrigado repleto de poesia, momento único da minha vida. Sorri e fechei os olhos para aprisionar aquele instante.

Pra matar a curiosidade e mostrar a generosidade do Poeta, conto que lá foi ele agradecer pessoalmente ao artista, uma caricatura publicada na coluna do jornal.

Soube depois que adorou o “pisco”.


1A BEBIDA DOS ANDES
O grande consumo do Pisco, um destilado de vinho, concentra-se principalmente no Peru, no Chile e na Bolívia. Originou-se exatamente ali, na região andina. Infelizmente, talvez até em razão da disputa de sua paternidade, ele é pouco divulgado no exterior. Enquanto a maioria das bebidas tem uma única procedência reconhecida, a invenção do Pisco, ocorrida no século XVI, é disputada inclusive judicialmente por peruanos e chilenos. Ambos a consideram sua. O mais aceito, porém, é que tenha nascido no Peru. O nome da bebida já era conhecido no país, antes de sua criação. Na linguagem quéchua, falada pelos incas no Peru pré-colonial, pisccu era um pássaro que habitava a região. Ali também se instalou uma tribo que produzia vasilhas de barro chamadas piskos, nas quais se elaborava um fermentado primitivo. Quando os espanhóis trouxeram as vinhas, a palavra pisco passou a identificar o novo produto.

Foto de Dtarazona

O Pisco é um brandy, como o cognac. No Peru, é feito principalmente com uvas da variedade nacional Quebranta, pouco aromática, mas de sabor intenso. Dizem ser mutação genética de uma das uvas trazidas pelos espanhóis. São prensadas no dia da colheita. O vinho fermenta ao ar livre na época do verão. Logo após a vinificação, é destilado em alambiques de cobre até atingir a graduação alcoólica desejada, normalmente ao redor de 43 graus. Não se permite a redução com água. Outras uvas também são aprovadas. Nos estilos mais aromáticos, emprega-se bastante a Moscatel de Alexandria. Tal como nos vinhos, o Pisco pode ser varietal ou blend de diversas uvas, chamados respectivamente de Puro ou Acholado. Já o chileno, elaborado em região demarcada no Vale do Elqui, utiliza principalmente cepas da família Muscat no vinho-base e também é destilado em alambiques de cobre. Mas, ao contrário do peruano, pode receber a adição de água para reduzir o teor alcoólico resultante da destilação. Com isso, existem tipos com baixa graduação alcoólica.

Qualquer que seja a origem, o Pisco é límpido como água, exceto se for envelhecido em carvalho, quando ganha cor. No nariz, apresenta-se suave com notas de especiarias. O corpo é médio. O sabor frutado tem ainda toques florais. O final se revela quente e prolongado. Pode ser bebido puro ou como ingrediente de vários coquetéis, a começar pelo antológico Pisco Sour.

Eis a receita: 

numa coqueteleira, adicione 3 partes de Pisco, 1 e 1/2 parte de suco de limão, 1 a 2 colheres de sopa de açúcar e um pouco de clara de ovo pasteurizada para dar cremosidade; bata bem, com algumas pedras de gelo, coe e sirva em copo de coquetel ou flûte. Fica delicioso.


Sobre Marco Simas

Minha paixão é contar histórias. Assim, comecei minha trajetória profissional como realizador de filmes e vídeos. Graduado em Publicidade, bem no início, trabalhei em produtoras, com peças institucionais e de propaganda. Tive algumas experiências em televisão, como diretor de programas educativos. Mas, logo fui seduzido pela possibilidade de contar histórias curtas, no cinema, aliando ficção, engajamento político, memórias e questões sociais. Porém, a escrita foi o que mais me trouxe prazer, muito estimulado pelo gosto da leitura adquirido na infância. Desde 2007 venho pesquisando, escrevendo e publicando, graças ao interesse de leitores e editoras. Assim, realizo os filmes no “papel”.

Independência Poética: Carla Guerson

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA

Poeta de hoje: Carla Guerson

Carla Guerson é capixaba, escritora, feminista, mãe, incomodada. Escreve em verso e prosa. É autora dos livros O som do tapa (contos, Ed. Patuá, 2021) e Fogo de Palha (poesia, Ed. Pedregulho, 2022).

O que te inspirou a começar a escrever?

A vida. Parafraseando Ferreira Gullar, quando eu percebi que “a vida não basta”. A expressão artística que eu sei “falar” é a escrita, portanto ela surgiu, para mim, da necessidade de me expressar artisticamente.

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

Eu não escrevo. É uma resposta horrível, me desculpe, mas é a verdade. Eu não me forço a escrever. O que me ajuda bastante é sempre ter à mão formas de registrar ideias e pensamentos: caderninhos, blocos, aplicativos no celular. Assim, quando a ideia vem (e ela vem, geralmente, em momentos inusitados) eu anoto. Uma palavra, uma frase. E aí, quando preciso, recorro a estas anotações antigas para tentar lembra o que me ocorreu. Quase nunca lembro, mas às vezes as anotações ajudam a ter outras ideias.

Seu maior sonho como escritor(a)?

Meu maior sonho é ser lida. É um sonho já realizado, mas que estou sempre tentando ampliar o alcance. Quero repetir esse sonho muitas e muitas vezes, quero vive-lo à exaustão.

Assunto preferido de escrever?

Gosto de escrever a partir dos meus incômodos.

Um elogio para sua própria escrita?

Acredito que eu seja corajosa. E que minha escrita é fluida, envolvente.

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Tenho dois livros publicados: um de contos (O som do tapa, editora Patuá) e um de poesia (Fogo de Palha, editora Pedregulho). E tenho planos de publicar, em breve, um romance.

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

O que mais me desperta é a narrativa. Tenho vontade de escrever quando leio alguma história boa, quando ouço um caso engraçado ou triste, quando alguém me conta uma fofoca cabeluda, me confidencia um segredo de família, quando vejo um bom filme, uma boa série. Minhas histórias nascem de outras histórias.

Qual dos seus poemas mais te define?

Bom, eu tenho um poema que se chama Mini Bio. Eu o escrevi justamente tentando dizer algo sobre mim.

Definição (ou mini Bio)

Antes de escritora,
Leitora
Livros e palavras

Antes de mãe,
Filha
Peitos e medos

Antes de mulher,
Pulso
Sangue e navalha

Antes de tudo,
Escrevo
E depois também.


Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

A mais fácil e a mais difícil: assumir o desejo. Bancar o desejo de ser escritora, continuar bancando. A constância.

É fácil porque eu não consigo imaginar o retroceder, então é só ir. E é difícil porque eu não consigo imaginar o retroceder, então, só me resta ir.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

Essa é uma pergunta muito difícil, pois eu sou geminiana e leitora há muitos anos, difícil escolher um só.

Mas vou citar uma autora que acho ser minha preferida: Elena Ferrante.

 


Um livro de Carla Guerson

Nome da obra?

Fogo de Palha.

Quando e em qual editora foi publicada?

Foi publicada no final de 2022, pela editora Pedregulho.

Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?

Sim. É um livro escrito a partir da experiência de ser mulher na nossa sociedade.

As poesias são divididas em fases nessa obra? Se sim, o que te motivou a fazer isso?

Sim. São três eixos, com três subtítulos: “Por se sentir inadequada” (parte 1); “Na hora de fazer não doeu” (parte 2) e “Cansei de performar” (parte 3).

Essa divisão surgiu de forma muito natural para mim, pois, a princípio, eram três livros independentes, que eu escrevia ao mesmo tempo. Com o tempo, fui percebendo muitas intersecções entre os assuntos, pois os três temas eram parte do tema central que é a minha experiência de ser mulher, de habitar o meu corpo. Por isso, resolvi reuni-los, mantendo os títulos como subtítulos.

O que te incentivou a escrever esse livro?

Fogo de Palha era um livro que eu tinha já escrito grande parte, mas me faltava a coragem de terminar. Resolvi publicar o de contos antes, por achar que ele estava mais completo, mais pronto. Mais tarde resolvi inscrever o livro de poesia no edital de cultura do meu estado e ele foi aprovado, o que certamente me deu a força e o impulso necessário para terminar de escrever e publicá-lo.


É possível destacar uma poesia que mais se assemelha a seu cotidiano?

Acho que “causa e consequência” é a que mais fala do cotidiano. É um poema-brincadeira, uma provocação.

Causa e consequência

se tô com sono
então eu durmo
se tô com fome
então eu como
se tô com tédio
então eu não faço nada
que tédio é coisa pra se cultivar

às vezes com tédio eu como
ou durmo
mas aí tá fora do texto
só não pode ficar fora do
contexto

se eu tô com medo
então eu choro
se eu tô com raiva
então eu grito
se eu tô vendo você me perturbar
às vezes não faço nada
que é pra lembrar que eu estou

viva

às vezes eu também choro e grito
sem ter razão
é só uma forma de distração

se eu tô viva
então escrevo
às vezes se eu tô morta, também
esse não tem nenhum
porém


A sequência dos poemas conta alguma história?

Fogo de palha é um livro testamento. É como se eu deixasse ali registrado o que eu sou, fui, serei, o que eu deixo, o que quero deixar. Acredito que a experiência de leitura se aproxime mais de uma espiral do que de uma linha reta e por isso não exatamente conte uma história, mas sim trace um perfil.

Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?

Sou uma mulher feminista, de esquerda. Certamente isso está explicitado na obra, pois entendo que seja dissociável do que sou e do que produzo.

Qual a relevância dos personagens implícitos/explícitos da obra?

O eu lírico certamente é uma mulher ou algumas mulheres que contam sobre coisas que nem sempre são ditas.

Qual a poesia mais marcante desse livro?

O que as pessoas mais comentam é o “Amputada”, que fala sobre maternidade de um jeito não muito bonito, embora bastante sincero.

Segue um trecho:

Amputada

ela entra aqui e me interrompe
ela chegou na minha vida
sem ser autorizada
ela saiu de mim
e me deixou
amputada

ela não era pra ser

ela me incomoda
me mostra o que eu não sou
ela me faz me sentir culpada
ela não faz nada
eu sinto tudo

eu sinto muito

ela me pede atenção
e eu quero paz
ela me pede um abraço
e eu quero tapa
ela me pede comida
e eu quero beber
ela só me pede
o que eu não tenho pra dar

eu não quero perder mais de mim
eu quero ser inteira de novo

eu não quero viver sem ela
eu quero que ela viva
sem mim


Teatro Rival de cortinas abertas!

Neste instante, enquanto conversamos, o Teatro Rival está sem patrocínio para continuar suas atividades. A Refit Refinaria encerrou com a parceria com essa pedra preciosa da cultura carioca, e brasileira. Prestes a completar 90 anos de uma história bonita demais, o Rival precisa que a gente se organize em torno dele. A Angela e a Leandra Leal, que levam o Rival nos dentes e na alma, são duas guerreiras, mas apoio é mais que comentários positivos nas redes. É preciso uma mobilização, um círculo de proteção em torno do Rival. E isso a gente consegue frequentando os shows, divulgando a programação e defendendo o Rival

Não sei o risco disso acontecer, mas o Rival não pode fechar por falta de dinheiro em pleno governo Lula, na gestão de Margareth Menezes na Cultura.

Então, o que temos vindo por aí pra prestigiar no Rival?!

SÉTIMA TEMPORADA CHEGA À SEMIFINAL

As batalhas do concurso DragStar foram acirradíssimas, e somente 12 queens chegaram à semifinal, que vai se realizar no dia 10 de maio, no Teatro Rival Refit. O público decidiu as ganhadoras dos duelos, e as juradas salvaram suas preferidas. E agora? O que será que as candidatas estão preparando para a nova fase?

Assista o vídeo da final do concurso DragStar no ano passado no Rival, em matéria da TV Folha do Centro.

Final do concurso DRAG STAR 2022 no Teatro Rival Refit , na Cinelândia – 11/05/2022 — o DragStar, que já é tradição na programação do Teatro Rival Refit, é um concurso para drags de todos os estilos e tempo de carreira, inspirado no formato dos reality shows The Voice e XFactor.

Serviço:
Data: 10 de maio
Horário: 19h30
Ingressos aqui


No dia 11 de maio, a cantora Kay Lyra homenageia o pai, Carlos Lyra, que comemora seus 90 anos de vida, e aproveita para também marcar os 65 anos da bossa nova no show “Kay Lira canta Carlos Lyra” no Teatro Rival. No repertório, estarão clássicos como “Você e eu”, “Minha namorada”, “O negócio é amar”, “Sabe você”, “Marcha da Quarta-Feira de Cinzas”, “Influência do jazz”, todas composições de Carlos Lyra, e também “O barquinho”, “Águas de março”, “Chega de saudade”,  entre outras referências à bossa nova. O show conta com a participação especial de Mauricio Maestro (voz, violão e direção musical) e dos músicos Alberto Chimelli (piano e teclados) e Erivelton Silva (bateria).

Serviço:
Data: 11 de maio
Horário: 19h30
Ingressos aqui


Vai ter homenagem à Jovem Guarda no Teatro Rival, no dia 13 de maio, com Os Correas. Qualquer semelhança não é mera coincidência. Os primos Bruno Galvão, Beto Filho e Diego Saldanha juntaram-se para formar o grupo, mostrando que a máxima “filho de peixe, peixinho é” está a todo vapor. O trio faz parte da nova geração da família Correa, formada pelos irmãos que integram os grupos Golden Boys e Trio Esperança, que fizeram (e ainda fazem) história na música popular brasileira. Bruno é filho do Mario Corrêa (da formação original do Trio Esperança e que atualmente integra os Golden Boys), Beto herdou o talento do seu pai (o saudoso Roberto Corrêa, dos Golden Boys) e Diego do Renato Corrêa (Golden Boys).

Serviço:
Data: 13 de maio
Horário: 19h30
Ingressos aqui


Foto de Toinho Castro

HISTÓRIA DO RIVAL

Inaugurado em 1934, período áureo da Cinelândia, o Teatro Rival abriu suas portas com a peça “Amor”, de Oduvaldo Vianna. Esse sentimento de amor à arte e à cultura brasileira norteia nossos ideais e trajetória até hoje.

Somos um espaço democrático e berço da diversidade cultural no país. Tornamo-nos uma das marcas mais tradicionais do Rio de Janeiro por sempre empunhar a bandeira do amor e por lutar pela resistência da arte acima de qualquer ameaça.

Enfrentamos ditaduras, diversas obras no centro da cidade, e vencemos os vários planos econômicos fracassados. Agora, graças à resiliência e à competência de nossa equipe, seguimos firmes rumo a nove décadas como o palco da cultura carioca. Resistimos à pandemia mantendo-nos como porto seguro para nossos artistas e nosso mais que querido público. O nosso compromisso com a cultura mantém-se mais firme do que nunca. A cultura é a alma do povo, e o Rival faz parte da alma carioca.

O Teatro Rival tem em sua história o compromisso com o humor, a irreverência e a ousadia, apontando para a diversidade, a tradição, a inovação e a qualidade artística. Por trás da longevidade do teatro, está sua capacidade de transformação.

Sob o comando de seu precursor Américo Leal, o teatro foi um dos principais palcos do teatro de revista. Depois, o palco recebeu toda a geração do chamado teatro rebolado. Em meio à ditadura militar, o caráter alternativo da casa foi enfatizado com os seus famosos shows de travestis.

De Grande Otelo, Oscarito e Dercy Gonçalves a Rogéria, Jane di Castro e Divina Valéria, o Rival permaneceu como espaço democrático e grande referência da vanguarda carioca. Já sob minha direção, o palco do teatro tornou-se o berço de gerações de artistas da música popular brasileira: Beth Carvalho, Zeca Pagodinho, Alcione, Arlindo Cruz, Luiz Carlos da Vila, João Nogueira, Cauby Peixoto, Elza Soares, João Bosco, Emílio Santiago, Luiz Melodia, Ivan Lins, Cássia Eller, Lenine, Adriana Calcanhotto, Seu Jorge e tantos outros artistas lançados, valorizados ou resgatados.

Nestes 89 anos, inúmeros eventos de sucesso foram realizados em nosso palco, e posso dizer que estamos preparados para mais, para muito mais. Seguimos firmes em nossa missão de difundir a arte em suas mais diversas formas de expressão. O Teatro Rival permanece vibrante com sua inequívoca capacidade de se reinventar culturalmente e representar – como poucas instituições são capazes de fazer – a alma carioca.

Os shows permanecem centrais na proposta do espaço, mas novas peças de teatro e animadas festas que celebram a diversidade também são parte da programação. Além disso, o espaço permanece sendo uma histórica opção de locação para eventos, com infraestrutura completa de palco, salão e cozinha para atender a qualquer demanda.

O Rivalzinho, que se consagrou como um dos bares mais interessantes da cidade, continuará sendo ponto de encontro para o esquenta e pós-shows do Teatro Rival.

Agora vamos viver juntos a retomada, construindo um futuro melhor e mais vibrante sempre. Estamos prontos e de braços abertos para recebê-los e realizar seus eventos.

Angela e Leandra Leal

Biblioteca, lugar de imaginações!

Texto de Toinho Castro


Começa a conversa sobre livros e leitura e tudo circula em torno do preço do livro ou que as livrarias estão acabando, que ninguém gosta de ler, que as livrarias estão acabando, e que o livro está caro e as pessoas preferem ir ao bar que ir numa livraria e as livrarias estão acabando.

A Biblioteca frequentada por anjos em Asas do Desejo, de Win Wenders

É verdade. A onipresença devoradora e sem controle da Amazon está devastando o comércio tradicional de livros, a livraria. O que é uma pena, porque ir a uma livraria é um passeio e tanto. E cada vez mais as livrarias estão tendo que se virar para se tornar atrativas, porque o livro não parece ser suficiente para levar gente até elas. E tome sarau, clube de leitura, debates, encontros e outras virações importantes para manter o negócio de portas abertas.

Mas gente, e as Bibliotecas?

Dessa gente que lê, que eu conheço, que conversa sobre livros… não ouço um fonema sobre Bibliotecas. Essa ligação imediata do livro à propriedade (comprar livros), às questões capitalistas (preço livro e mercado livreiro), parece-me insuficiente para debater a leitura. E a Biblioteca? Onde elas estão? Em que condições de funcionamento? Como estão seus acervos?

Biblioteca 13 de maio – Recife

A verdade é que não disponho de pesquisas ou informações suficientes sobre o tema. Nem mesmo sou qualificado para discuti-lo seriamente. Apenas sou acometido por essa sensação de que ninguém liga muito para Bibliotecas.

Discutir a questão do acesso à leitura pelo viés da livraria é muito excludente. Boa parte da população não consegue comprar livro, nem se for barato. Essa gente precisa da Biblioteca. Gente, eu preciso da Biblioteca no meu bairro, pra não ter que comprar todos os livros que eu quero ler. Porque eu não preciso possuir um livro. Eu só preciso lê-lo. Biblioteca é uma coisa que todo mundo precisa, ainda que na dormência do neoliberalismo selvagem não o perceba.

Bem sei que possuir um livro, ter um exemplar estacionado em casa, é algo ligado à nossa afetividade também, claro. Mas os livros da Biblioteca também são meus, e de quem mais vier. Dá pra criar afeto na Biblioteca. Quantas vezes eu vi num filme estrangeiro, desses bem bobos, um primeiro beijo na Biblioteca da escola?! Não são poucas as ocorrências de Bibliotecas nas produções norte americanas. Em Asas do desejo, de Win Wenders, a Biblioteca é frequentada por anjos.

O centro da vida comunitária precisa ser a biblioteca, e não a academia de ginástica.

Biblioteca Parque da Rocinha C4
Foto de Caru Ribeiro

Quando foi a última vez em que você ou eu fomos a uma Biblioteca? E não vale a Biblioteca Nacional ou o Gabinete Português de Leitura, pra tirar foto.

Pode ser que eu esteja muito errado nessas observações. Certamente tem movimentos legítimos, de valorização e resgate das bibliotecas. Iniciativas existem e eu e vocês precisamos nos posicionar melhor pelas bibliotecas e brigar por elas. A Biblioteca é esse espaço do sonho, da leitura fora da ótica do mercado; um espaço de imaginações e descobertas. Precisamos de mais delas espalhadas por aí, funcionando de verdade, com belos acervos, manutenção e gente boa trabalhando nelas, e gente vivendo o espanto de ler um livro.


O duplo refletido | Poemas de Lorraine Ramos Assis

“O duplo refletido” nasceu como um projeto que buscava uma escrita híbrida e que, apesar de ter sofrido muitas alterações desde seu projeto inicial que imitava o formato diário, sempre teve intenção de abordar experiências de vida relacionadas com o feminino e a violência de gênero, luto e orfandade e as consequências dessas vivências na saúde mental.

Tive a intenção de colocar essas discussões em evidência de modo cru, mas ainda com cuidado dado a natureza dos temas. Acabamos de sair da pior fase de uma pandemia com dezenas de milhares de mortos, logo, como o luto não pode ser discutido?”

— Lorraine Ramos Assis

Três trechos de “O duplo refletido” (Folhas de Relva Edições, 2023), livro da poeta carioca Lorraine Ramos Assis

1

No Brasil, século dezenove, discutiam sobre a mulher gozar dos mesmos direitos da herança no decreto 181. Obstáculos não mais existiam, mas sim uma arquitetura de um mesmo sobrenome a desfrutar os direitos dos filhos. Não importava a decisão profissional de nossos companheiros, ou a educação dada a quem foi parido nesses mares. Na França, os obstáculos eram garantidos pela confiança na organização hierárquica com barras.
Barras memoram prisões.
Quero sair desse cômodo e nunca mais voltar. Olhar para a face fluvial do mirante azul, a que reconheço desde os afogamentos. Entoar o que me tornaram e falar a língua daqueles a terem me conferido induções dramáticas. Sempre gostei ou melhor, me forcei a ser o palco. E no palco exprime-se imagem e essência, confundindo o telespectador como coautor dos malabarismos linguísticos. E assim fujo.
Polida: se minha fala está feita de extravagâncias, conjuntas às maiores obsessões, na vida sou um silêncio para quem a face é demolida tal qual um imóvel ou um espólio de antigos maridos.

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Onde eu estava?

Eu não me lembro.
eles fatigam meu nome, mas não me lembro.
Lili.
Parei. Pensei na própria regata preta e no canal revisitado perto da lanchonete.
As vias estavam obstruídas, não havia mais caminho a ser percorrido.
Lili.
Lineia.

Era esse o meu nome?

Flor de tulipa rasgada, libero o pó para que saiba
Ainda vivo
Mesmo não sabendo onde
Amnésica
Caminho sem mais mastigar a barbárie
Recordo-me a perpétua luz projetora do futuro daquele que me disse

Somos todos sonhadores. Mas quem está sonhando?

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sentindo o ar preso em corpo de perpétua fuga
consegui fisgar um semblante de madeixas pretas nariz adunco
o olhar a que chamavam

a doçura enigmática fora do escudo marmorizado

contudo a garota (ou qualquer coisa a ser) contornava tanto os seus gestos que as madeixas por desespero foram cortadas uma a uma e essa pessoa de tanto assinar e esconder o último sobrenome daquele homem sentia não existir mais

se ela não sentia nada desde tenra idade

quem era eu, afinal?

Lineia
Ou
Lyna?


Lorraine Ramos Assis (@catarsesoculares), de 26 anos, é poeta, resenhista e editora. Foi publicada em diversas revistas/jornais nacionais e estrangeiros, tais como Jornal Cândido, Cult revista, Relevo, Granuja (México) e Incomunidade (Portugal). Colabora para São Paulo Review e Revista Caliban, além de integrar o corpo de poetas do portal Fazia Poesia. Pesquisa sobre a marginalização feminina em obras ficcionais/biográficas. “O duplo refletido” (Folhas de Relva) é seu livro de estreia.


A morada

Texto de Ana Egito — O céu é o limite do meu olhar, ávido, encarnado, na busca incessante das verdades que mudam o rumo das nossas vidas, na fé inabalável em um Deus que me permite ser melhor e mais confiante, frente às incertezas que rondam como sombra o cotidiano, o presente, nela, está o futuro que se abre aos meus pés. 

Texto de Ana Egito


Queria morar bem perto das nuvens, abraçá-las ao despertar e chorar junto ao seu orvalho, por pura emoção ou saudade de tudo e de tantos que ainda fervem em mim.

O céu é o limite do meu olhar, ávido, encarnado, na busca incessante das verdades que mudam o rumo das nossas vidas, na fé inabalável em um Deus que me permite ser melhor e mais confiante, frente às incertezas que rondam como sombra o cotidiano, o presente, nela, está o futuro que se abre aos meus pés. 

Tomada pelo desejo, absorta e presa aos meus pensamentos, posso ter deixado de me enveredar por amores soltos da vaidade, e por não serem assim, únicos e predominantemente genuínos de um encantamento puro e angelical, guardei-me em segredos só confessos às estrelas, tendo a lua como testemunha a não me sentenciar, os tempos idos, combinados aos hormônios que flagram paixões, deixaram suas lições para que na calmaria da maturidade em sua chegada, entendesse que o amor se propaga como a luz, trazendo vida onde os espinhos deixaram suas marcas, calmaria, onde muitos embates derramaram sangue, lucidez, onde dúvidas deixaram de assim ser, pois que o amor próprio se encarrega de trazer de volta o brilho nos olhos de quem só quer paz.

Ao fazer das nuvens meu palco sagrado, não me escondo, vôo, planando sobre a geografia que me encanta, nada é mais sublime que reconhecer-se em seu lugar, suas origens, ao mesmo tempo, me desfaço e me revolto ao ver ressoar os gritos que emudecem suas vítimas que ao chão, se ajoelham e rogam por um momento de luz, justiça, razão.

Foto de Ana Egito

Agenda Rival: Show de Luiz Carlos Sá

O cantor e compositor Luiz Carlos Sá – que fez trio com Rodrix e Guarabyra, e depois dupla só com o Guarabyra – lança seu CD “Solo e bem acompanhado” no Teatro Rival, no dia 19 de maio, sábado, com show às 19h30. 

— Revista Kuruma’tá apoia o Teatro Rival —

O cantor e compositor Luiz Carlos Sá – que fez trio com Rodrix e Guarabyra, e depois dupla só com o Guarabyra – lança seu CD “Solo e bem acompanhado” no Teatro Rival, no dia 19 de maio, sábado, com show às 19h30. 

O repertório preparado para o lançamento conta com vários de seus sucessos em mais de 50 anos de carreira como, “Caçador de mim”, “Dona”, “Mestre Jonas” e “Sobradinho”, além é claro, de inéditas deste primeiro CD solo.

Sá é legítimo participante da geração pós-tropicalista na história da nossa MPB. Entre seus parceiros frequentes ou eventuais, além de Guarabyra, estão representantes de diversas gerações e tendências da música brasileira, como Zé Rodrix, Flávio Venturini, Sérgio Magrão, Torquato Neto, Ivan Lins, Chico César, Almir e Gabriel Sater, Frejat e Zeca Baleiro.

SERVIÇO

Data: 19de maio, sexta-feira
Horário: 19h30 (Abertura da casa às 18h30)

Local: Teatro Rival
Endereço: Rua Álvaro Alvim , 33 – Subsolo – Cinelândia/Rio de Janeiro (Clique aqui para localizar no mapa)
Telefone: (21) 2240-4469

INGRESSOS

Venda online via Sympla

E na bilheteria do Teatro Rival: De quarta-feira a sexta-feira (15h às 20h) e sábados (somente em dia de shows – 16h às 20h30)


Independência Poética: Erika Genebra

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA

Poeta de hoje: Erika Genebra

mulher brasileira multifacetada. cheia de inquietude de si. gosta de carregar perguntas e ser curiosa das coisas do mundo. poeta, psicóloga e pesquisadora multidisciplinar. autora de “a quietude das coisas – poemas para seres vivos” é sua primeira obra literária-poética.

O que te inspirou a começar a escrever?

me perceber viva. me relacionar com a amplitude e complexidade que é se fazer vivo,

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

não sei exatamente o que você chama de bloqueio. a minha experiência é permeada por tudo que vivo, sinto, observo e atravesso. faço a seguinte leitura, as coisas se dão através do fluxo. cada momento me apresento de uma maneira. venho aprendendo a observar quando esse corpo tem fome em colocar as palavras para fora, seja digitando no notebook, ou pegando uma caneta na mão. quando o mesmo corpo escreve de outras maneiras. descansando, dançando, lendo. eu vejo como uma grande dança, com passos e ritmos diversos. se estou na presença para acolher, sinto que tudo flui para onde tem que fluir. e, cada projeto-obra, acontece como tem que acontecer. de uma maneira muito orgânica e própria,

Seu maior sonho como escritora?

tenho fome de mundo. com isso, tenho muitos sonhos. um escritor não existe sem o leitor. eu desejo ser lida,

Assunto preferido de escrever?

não escolho os assuntos. eu escrevo diante do que me atravessa. mesmo as vezes não querendo falar sobre aquilo. existe uma força própria da palavra e das temáticas para além do que escolhemos. talvez, diante da nossa experiência no mundo, os assuntos vão nos escolhendo como aliados. percebo que minha escrita é permeada sobre o tempo, o corpo, o amor. de alguma maneira de como enxergamos as coisas do mundo,

Um elogio para sua própria escrita?

não sei se é um elogio, mas é um fato. eu só sei escrever diante do que pulsa, angústia e me atravessa,

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

“a quietude das coisas – poemas para seres vivos”
e-book – “maria mulher cartografia de nós”

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

a vida. o mistério. o vazio. a morte. o assombro. o silêncio. olhar nos olhos. histórias de amor,

Qual dos seus poemas mais te define?

todos de alguma maneira me definem e nenhum me limita,

Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

escrever é escrever. é jorrar. é ser. abrir o corpo. os poros.
qual formato dessa escrita já é outra questão. na minha experiência em escrever a quietude, um dos desafios foi compreender o que de fato essa obra pedia em cada detalhe. esse me parece um trabalho de devoção, presença e paciência,

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

são tantas. a lista é enorme. sou completamente apaixonada e alucinada por Hilda Hilst,

 


Um livro de Erika Genebra

Nome da obra?

“a quietude das coisas – poemas para seres vivos”

Quando e em qual editora foi publicada?

lançado independente, em novembro de 2021,

Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?

as coisas no mundo e como nos relacionamos com elas,

As poesias são divididas em fases nessa obra? Se sim, o que te motivou a fazer isso?

cada capítulo é um corpo vivo. uma investigação sobre um tema central das coisas do mundo. não sei o que motivou, sei que essa obra precisava nascer assim,

O que te incentivou a escrever esse livro?

estar colada na minha angústia e curiosidade,

É possível destacar uma poesia que mais se assemelha a seu cotidiano?

avesso

outro jeito de ser

carrego um sentimento de profunda inadequação em me perceber no mundo. além de sempre me sentir na contramão, talvez nasci do avesso,

A sequência dos poemas conta alguma história?

arrisco dizer que de alguma maneira sim,

Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?

tudo é político. viver é um ato político. minha obra é atravessada por essa perspectiva,

Qual a poesia mais marcante desse livro?

cada pessoa que se encontra com a obra, algo fica mais vivo. também me interessa saber sobre,


Um poema de Maria Gabriela Cardoso


Nossa poeta de hoje é Maria Gabriela Cardoso, 24 anos, gaúcha de Montenegro, atualmente morando no litoral norte de Santa Catarina. Vegetariana, amante das plantas, animais e livros. Formada em Administração Pública e Auxiliar de Contabilidade. Membro do Coletivo Escreviventes e idealizadora do Coletivo Literário Escribas. Escreveu seu primeiro conto “Ela Era Eu” aos quinze anos, mas só passou a pensar na possibilidade de ser escritora aos dezenove anos após ler a biografia de Clarice Lispector. Aos vinte e um anos, passou de fato a se dedicar profissionalmente à escrita, tornando essa, a sua profissão. Escreve contos, poesias, crônicas e novelas com o pseudônimo Lua Pinkhasovna (“pinkhasôvna” ou “pinkhasóvna”)  para revistas, podcasts e antologias, assim como também para seus canais próprios intitulados Excertos Diários. Vencedora do 1° Concurso de Itapemirim/ES em homenagem ao Newton Braga e do II Concurso “Literatura de Circunstâncias”, organizado pela EdUFRR, e participante das antologias Poesia Minimalista, Infâncias, Comer é Um Ato Político, Chorando Pela Natureza: Poesias sobre a Geopolítica Ambiental,  A Poesia Não é Inofensiva, e entre outras, da Editora Toma Aí Um Poema, assim como também da Coletânea de Poemas Bertha Lutz, e Até Quando o Carnaval Chegar, da Editora Persona. Em pouco tempo, acumulou uma longa lista de trabalhos realizados em diversos canais. 

Café de Amanhã

Pão na chapa enche de açúcares
os vasos sanguíneos do burguês ao acordar 
de açúcares padece o corpo cansado
sem pão na chapa na mesa ao levantar 
 
Frutas fornecem nutrientes essenciais,
lipídeos e vitaminas que enchem o cérebro de energia; 
uma uva, uma manga, uma banana
trocam de preços todos os dias no mercado: 
a saciedade está tão cara comprar!
 
Mas o pão, o pão têm simbolismo divino 
na alimentação
foram multiplicados, são o corpo de Cristo 
cada pedaço fora dividido após terem sido ungidos 
em suas santas bênçãos
 
Hoje, à mercê do Estado
que não é divino,
nem pai, nem democrático,
o pão, de tão caro contrasta desigualmente
com miseráveis salários
condenando à inanição!
 
O pão divide o burguês do proletário;
enquanto a mão de um estica-se 
para no miolo algo ali passar 
outras, juntas, rezam à noite 
para quando, no café da manhã 
do amanhã,
o estômago logo acordar.