Conceição Evaristo no Clube de Leitura CCBB-RJ: a literatura como testemunho 

Conceição Evaristo | Foto de Aline Macedo

Gente, vem aí mais uma edição do Clube de Leitura do CCBB do Rio de Janeiro, com a presença da maravilhosa Conceição Evaristo, uma das vozes mais importantes da nossa literatura contemporânea. Dessas contemporâneas que ficarão para os muitos futuros!

Clube de Leitura CCBB 2023
10 de maio de 2023
Às 17h30
Evento Gratuito
Classificação indicativa: Livre

Ingressos disponíveis na bilheteria do CCBB ou pelo site bb.com.br/cultura a partir das 9h do dia do encontro.


Saiba mais!

Olhos D’água é o livro que a escritora Conceição Evaristo, um dos nomes mais importantes e necessários da literatura brasileira contemporânea, lerá no encontro de maio do Clube de Leitura CCBB 2023, patrocinado pelo Banco  do Brasil.  O encontro acontecerá no dia 10 de maio, às 17h30, na Biblioteca Banco do Brasil, no 5º andar do CCBB RJ. A entrada é gratuita e terá participação virtual de Eliana Alves Cruz, autora, entre outros, dos livros Água de Barrela , O crime do Cais do Valongo e Solitária. 

Foi do público a escolha do livro de Conceição Evaristo, via Instagram do CCBB. Olhos D’água , publicado em 2014, é composto por quinze contos que abordam a história de personagens negras,  silenciadas pelo racismo, pelas imposições econômicas, por condições degradantes de trabalho e pelas questões de gênero. Não somente a subordinação, mas a violência a que homens e mulheres são submetidos quando não somente a cor da pele influencia, mas as condições precárias com as quais são obrigados a conviver. 

De acordo com a curadora, pelo segundo ano, do Clube de Leitura CCBB 2023, Suzana Vargas, a presença de Conceição Evaristo, para além da sua importância enquanto poeta, ficcionista e ensaísta, é enriquecer a diversidade de temas tratados pelo Clube. “Ela chega com sua voz e obra poética poderosa para nos fazer mergulhar no universo predominantemente feminino, denunciando a violência e discriminação racial sofridas por nosso povo, em especial nossas mulheres ao tempo em que revela nossa diversidade enquanto nação”, afirma.

Seus contos e poemas relatam e denunciam a profunda desigualdade sempre reinante no Brasil. Suzana Vargas reforça suas afirmações ao citar livros como o escolhido Olhos D’água com contos contundentes, em que personagens e situações levam o leitor a perceber de que forma o preconceito racial se soma ao preconceito social.  “Essa é a sua marca, sua produção literária nos lembra de nossa diversidade racial e cultural”, explica.

Em abril, a programação levou o moçambicano Mia Couto para o CCBB, depois da estreia, em março, com Antônio Torres, Lilian Fontes e Ana Maria Machado numa homenagem à Nélida Piñon. Os vídeos dos encontros ficam disponíveis, na íntegra, no YouTube do Banco do Brasil.

Conceição Evaristo é ficcionista e ensaísta. Graduada em Letras com ênfase em Literatura pela UFRJ, tem mestrado em Literatura Brasileira pela PUC-Rio e doutorado em Literatura Comparada pela UFF. Sua primeira publicação (1990) foi na série Cadernos Negros do grupo Quilombhoje.

Ao todo, são sete livros publicados, entre eles o vencedor do Jabuti Olhos D’água (2015); cinco desses livros foram traduzidos para o inglês, francês, espanhol, árabe e eslovaco

Sobre o Clube de Leitura CCBB

Os encontros do Clube acontecem no Salão de Leitura da Biblioteca Banco do Brasil, localizada no quinto andar do CCBB Rio, até dezembro, sempre na segunda quarta-feira de cada mês, com entrada gratuita, mediante retirada dos ingressos na bilheteria do CCBB RJ ou pelo site bb.com.br/cultura. A mediação é da curadora Suzana Vargas e o microfone será aberto para a plateia nos 30 minutos finais dos encontros. A gravação integral será disponibilizada no canal do Banco do Brasil no YouTube, na semana seguinte ao evento.

A Biblioteca Banco do Brasil foi fundada em 1931, voltada para as áreas de Administração, Finanças e Economia. Com a criação do Centro Cultural, em 1989, o acervo foi ampliado para as áreas de Artes, Literatura e Ciências Sociais e hoje possui mais de 200 mil exemplares, em constante atualização, ocupando todo o quinto andar deste prédio centenário.

Independência Poética: Yara Fers

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA

Poeta de hoje: Yara Fers

Yara Fers nasceu em Ribeirão Preto (SP) e mora na Bahia. É fundadora da Editora Arpillera, de livros artesanais. É editora de comunicação do Portal Fazia Poesia. Possui graduação em Comunicação Social e Especialização em Teoria da Literatura e Produção Textual.

Publicou os livros de poemas: Sádica sílaba (Editora Patuá, 2021), Desmecanismos (independente, 2021), Haicactos e mandacarus (independente, 2022), Meio magma, meio magnólia (Editora Penalux, 2022). Anatomia de um quase corpo (independente, 2022) é seu primeiro romance. Também publicou os infantis Dinossauros e carros voadores (2022); Brincar de haicai (2022); e Todos os sons (2023), os três pelo clube Mini Mega Leitor.

Foi premiada em concursos: 1° Lugar E-book narrativa longa e 1° lugar E-book narrativa curta no Prêmio Book Brasil 2022; 2° Lugar autora do ano Prêmio Book Brasil 2022; Finalista categoria Capa no Prêmio Candango de Literatura 2022, 3° Lugar Prêmio Off Flip 2022, 5° lugar no Prêmio Barueri de Literatura 2021, 2° Lugar no Slam Momento Lírico da Educa Rap UFRB 2022, 4° lugar Concurso Tâmaras 2021, entre outros.

Participa dos coletivos Escreviventes, Poexistência, NuaPalavra e Papel Mulher.

O que te inspirou a começar a escrever?

Meu primeiro poema foi escrito aos 8 anos de idade, por influência do meu pai, que também era poeta, mas nunca conseguiu publicar livro. Ele foi, sem dúvida, minha primeira referência. E comemorou muito quando viu meu primeiro poema, anunciando ao mundo que eu era poeta. Então, a partir daquele momento, continuei sendo.

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

Eu sempre faço atividades que estimulem minha criatividade, como a participação em oficinas, em provocações para escrita dos coletivos de que faço parte, ouvir música, seguir e visualizar obras de artistas plásticos pelo instagram e passeios ao ar livre. Tudo isso me faz ter mais disposição e ideias para a escrita.

Seu maior sonho como escritor(a)?

Já tive muitos sonhos. Publicar meu primeiro livro. Viver de escrita e literatura. Publicar meu primeiro romance com uma história que eu precisava contar. Consegui realizar estes primeiros sonhos. Hoje eu almejo vencer um prêmio literário importante. Mas tudo isso tem a ver com apenas um sonho: o de ser lida, de fazer as palavras chegarem a muitas pessoas. Acho que esse é de fato o grande sonho.

Assunto preferido de escrever?

Eu tenho alguns temas obsessivos, acredito que toda pessoa que escreve tem. Alguns deles são: o contraste corpo x máquina, o corpo-mulher enfrentando o mundo, a escrita sobre a própria escrita (metalinguagem).

Um elogio para sua própria escrita?

Minha escrita venceu alguns obstáculos: internos meus, sociais/históricos, do mercado editorial. Venceu também o mito de que escrevemos de forma solitária, pois caminho junto com muitas outras autoras como eu nos coletivos de escrita, que me fortalecem a cada passo. Minha escrita é, por tudo isso, subversiva e coletiva.

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Tenho 8 livros publicados. São 4 obras de poemas: Sádica sílaba (Editora Patuá, 2021), Desmecanismos (independente, 2021), Haicactos e mandacarus (independente, 2022), Meio magma, meio magnólia (Editora Penalux, 2022). Tenho um romance em prosa poética: Anatomia de um quase corpo (independente, 2022). Também publiquei os infantis Dinossauros e carros voadores (2022); Brincar de haicai (2022); e Todos os sons (2023), os três pelo clube Mini Mega Leitor.
Tenho um livro de poemas pronto que deve sair este ano pela Editora Arpillera, que fundei junto com meu companheiro de vida Thiago Gatti e pela qual publicamos livros artesanais. E estou escrevendo um novo romance, que espero também concluir e publicar este ano.

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

Em geral eu me movo para a escrita a partir de situações que me incomodam, dores, revoltas com o mundo. O que me leva a muitos poemas com temas sociais. Mas também tenho poemas de pausa, de contemplação, de conexão com a natureza, que é algo que faz bem a mim e à minha escrita.

Qual dos seus poemas mais te define?

fluida

Eu queria ser sólida.
Raiz. Terra.
Mas desde a nascente
sou líquida.

Enraízo-me doce
em afluentes e enseadas
que brotam lentos,
leitos venosos e arteriais.

Já inquietos,
meus rios vazam
por olhos, útero, punhos.
Meus (a)braços líquidos
penetram horizontes:
músculos hidráulicos,
dedos e mãos tentaculares
alimentam margens,
abraçam mundos.
E, finalmente,
se lançam aos mares.
Nisto sangro e me salgo.

Mas a dor de minha água
é também subterrânea,
freática,
untando grutas
e átrios do peito,
a delinear estalactites
que perfuram ecos,
gota a gota.

Eu queria ser sólida.
Sou, no máximo,
vítrea
a baixas temperaturas.
Queria meu corpo
dizendo rocha.
Mas o que sou
(incoagulável)
diz água.

Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

Não sei se mais fácil, mas a mais gostosa é quando o livro é lido, quando há pessoas que se identificam com o que está escrito, que se emocionam.
A mais difícil é decidir quando o livro está pronto, pois eu releio e edito muitas vezes.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

Difícil escolher uma. Mas eu colocaria 4 entre os mais importantes “Poemas da recordação e outros movimentos”, da Conceição Evaristo; “Grande Sertão: Veredas”, do Guimarães Rosa; “Poesia completa” do Manoel de Barros; e “O mundo desdobrável”, de Carola Saavedra

 


Um livro de Yara Fers

Nome da obra?

Desmecanismos

Quando e em qual editora foi publicada?

Foi uma publicação independente, em formato artesanal, bordado e costurado à mão, que lancei em agosto de 2021. Depois publiquei uma versão em e-book.

Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?

Esse livro traz poemas que colocam em contraste os funcionamentos da palavra, do humano e da máquina, o orgânico e o mecânico da vida.

As poesias são divididas em fases nessa obra? Se sim, o que te motivou a fazer isso?

O livro Desmecanismos possui estas 5 partes:

disfuncionalidades
acionamentos do verbo
funcionamentos orgânicos
desengrenagens do mundo
deslimites

A primeira é composta de apenas um poema introdutório.

A segunda, acionamentos do verbo, traz os funcionamentos da palavra, com poemas metalinguísticos.

A terceira parte, funcionamentos orgânicos, traz a mecânica dos corpos, sejam humanos, animais, celestes, o nosso corpo se misturando aos organismos vivos do mundo.

A quarta parte, desengrenagens do mundo, contém poemas da mecanização do mundo, do universo do trabalho, das máquinas, da exploração humana.

A última parte traz apenas um poema que coloca todos esses funcionamentos em contraste e em choque.

Fiz isso para que a pessoa leitora entre nesse mesmo conflito e se salve da artificialidade e mecanização do mundo por meio da poesia.

O que te incentivou a escrever esse livro?

Os poemas partem da minha vivência, trabalhando por 11 anos na fábrica. E, a partir disso, mostro como o contato com a arte e a natureza foi um contraponto que me salvou desta mecanização da vida.
Esse mesmo contraste reaparece no meu romance Anatomia de um quase corpo.


É possível destacar uma poesia que mais se assemelha a seu cotidiano?

Hoje já não trabalho na fábrica, em outros momentos os poemas mais voltados a isso representariam melhor. Mas hoje, creio que seja este, mais voltado à escrita.

vulcânica

mergulhar a caneta no vulcão
sorver o magma
pousar a ponta na face da folha
despejar o núcleo ígneo do poema
solidificar-se

A sequência dos poemas conta alguma história?

Sim, de certa forma conta um pouco da minha história. Esses funcionamentos todos se encontrando são os meus contrastes.

Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?

Sim. O corpo em atrito com o mundo é político. O corpo que resiste aos padrões produtivos impostos é político. O corpo que, em sua natureza humana, orgânica, poética, enfrenta a máquina é político. Tudo isso está nos versos desse livro.

Qual a relevância dos personagens implícitos/explícitos da obra?

Ter esses corpos que se façam poesia, que se conectem com a natureza e o humano e se contraponham à mecanização da vida é necessário, é o que pode mudar o mundo.

Qual a poesia mais marcante desse livro?

O poema de abertura, que convida quem lê a refletir sobre esses funcionamentos:

disfuncionalidades

.
a metalinguagem
é um tipo de egocentrismo do artista.
debruçar-se sobre seu próprio fazer poético.
apropriar-se de suas ferramentas.
expô-las.
abrir o próprio ventre, dizer a quem lê:
isto é o que sou.
e sou sempre palavra.

a metalíngua poeta
quer desabotoar cortinas,
investigar nossos próprios funcionamentos,
em choque ou em síntese
com os funcionamentos do mundo.
uns chamariam de autoconhecimento.
no artista, mais se parece com autodissecação.
viva, líquida e sem anestesia.

afiamos nossas limas,
esparramamos ao chão as ferramentas e peças,
brincando com elas a céu aberto e olhos vivos.

mas isso é sobre todas as portas e carnes,
internas e externas,
que podemos abrir com elas.

abrimos a barriga do mundo,
em suas coisas vivas e mortas,
para compreender seus movimentos,
sobretudo distorcê-los.

cabe aos artistas, às crianças e aos curiosos
investigar os encaixes das peças do mundo,
reinventá-los, entortar seus membros,
subverter as funcionalidades viciadas.

os versos aqui expostos
dissecam
com igual curiosidade e subversão
a palavra, a lesma, a máquina, o caos.

são um convite:
adentre essa barriga mecânica,
compreenda como ela disfunciona,
inverta a rotação de suas tripas e engrenagens.
ouse deglutir e regurgitar os movimentos
que regem o mundo em toda a sua desarmonia.

disfuncionemos.


Frequência 3 no ar!

Gente, a Paloma Klisys é uma artista dos sons e das imagens e dos encontros; amiga, parceira e neurônio afetivo da Kuruma’tá. Seguimos juntas na track da invenção, tocando pontas, trocando ideias, reforçando a rede que sustenta o trabalho pela arte e pelas pessoas que nos orienta e nos motiva.

E agora vem aí mais invenções! Se liga…

Paloma, regente responsável pela tecitura coletiva do Máquina de Inscrever, programa de rádio e máquina de conexão-invenção de mundos, que já vai na sua 21ª edição, e a multiartista Cínitia Molter, que estuda fotografia com especialização em cinema em San Antônio de los Baños, Cuba, onde passará os próximos três anos, abrem agora os sinais da Frequência 3, numa colaboração internacional. A ambas interessa trabalhar no fortalecimento das relações culturais entre os povos latino-americanos, do Caribe e no eixo da Lusofonia.

Paloma e Cíntia se encontraram na rua, território muito prezado por ambas as artistas como espaço de interação com público aleatório e, através de uma sequência de acontecimentos que envolveram o próprio Máquina de Inscrever, movimentos de poesia de rua, teatro e cinema.

Frequência 3 é uma proposta translinguagens de produção de conteúdos híbridos que misturam arte sonora (rádio arte), fotografia, cinema,, vídeo arte, poesia e performatividade ao vivo. Um processo artístico/poético com foco em arte sonora e aberto a desdobramentos transmídias.

A palavra Frequência foi escolhida por sugerir o desejo de entrar e estar em sintonia. O número três por suas qualidades mágicas e por permitir explorarmos conceitos e elementos em trípticos. Eu, você, nós. Primeira, segunda, terceira pessoa. Corais, raízes e asas. Topos, Kosmos, Kairós…



Frequência 3 é um mergulho, uma  investigação antropófaga aberta a intervenção de artistas e pesquisadores latinoamericanos, caribenhos e de outros territórios. Frequência 3 é um processo artístico/poético, um ato de desobediência, uma insubserviência
artística frente ao bloqueio a Cuba e para além.

LANÇAMENTO

Será realizado um Encontro Experimental de Escuta Coletiva na Casa Abe, Rua Augusta, 339 – São Paulo SP.  Na ocasião haverá um video mapping, com imagens produzidas por pela mutiartista Cíntia Molter e por Paloma Klisys. As imagens serão mappeadas por Raquel Diógenes, uma das mulheres pioneiras em projeções e mappeamentos em espaços urbanos no Brasil.

  • Algumas dessas imagens fazem parte da coleção de NFTs que será colocada à venda.

Haverá ainda uma performance com manipulação ao vivo de sons pela Paloma Klisys com fragmentos sonoros do início desse processo, seguida pelo Encontro Experimental de Escuta Coletiva da íntegra do primeiro episódio do programa que será irá ao ar no dia 30/04 às 20h30, permanecendo disponível nas principais plataformas agregadoras de podcast.

A ideia é propor uma imersão de uma hora e depois abrir para uma roda de conversa com o público que poderá compartilhar afetos, questionamentos e reflexões gerados à partir da escuta.

Esteja lá e participe com a gente!


Paloma Klisys  vem dedicando-se nas últimas duas décadas ao desenvolvimento de projetos e processos criativos translinguagens nos quais explora intercessões possíveis entre a performance/interferência urbana, o audiovisual e a palavra falada e escrita.
 
Cíntia Molter formou-sna escola de cinema de Buenos Aires, integrou o corpo de alunos da Universidade Antropófaga do Teatro Oficina e vem desenvolvendo trabalhos e processos criativos com foco em fotografia analógica, curta metragens e agora em imersão na EICTV, uma das mais respeitadas escolas de cinema do mundo.


Sobre a série especial Frequência 3 >
https://www.labirintoonirico.com.br/frequencia3

Sobre máquina de inscrever >
https://www.labirintoonirico.com.br/maquinadeinscrever

A poesia de Lí Coê na Kuruma’tá


“…acredito que a arte permeia minha vida desde quando me permiti vislumbrá-la como um horizonte, uma paisagem – no contexto geográfico mesmo, espacial, digamos – de multiplicidades, linguagens e, sobretudo expressividades. A arte é um respiro e num mundo em que poluição e o excesso de criticidade às formas de expressão individuais rotineiramente desgastam nossos pulmões, ela é a única que pode desentupir nossos brônquios e alvéolos.” — Lí Coê


Inter(minável)
               Terminei mirando

                  Sem flecha – Solei –

                                              No solar encontro do

          |     Interminável|

                            Terminei – terreno solo terra

                      Em ré-cife

 No (manguez)al

                                               Sal cor de rio – rio de mar

                                          Serpenteando serpentina       salgada

Em grão, gota maleável

     Ao vão oco da terra

                           Atmosfera, vento

     Soprando semente no solo em forma de sal

                                Intocável imã de luz fotossintética //solar//

                        Solando em ré cife de cá

    Tuque tuque tuque

   Maracatu, Maracá

      Afoxé, Ijexá

        Xequerê à solar

         Serpenteando \os caminhos\ a serpente coral

         Cor de sal interr \calado\

      Imutável

    Modifi(x)ado no início

     Feito flecha

           Que certeira serpenteia

        No ciclo interrompível do afeto

      Imutável inter /tornado/ 

No vagaroso gradativo

                                   (Des)fluxo dos rios de si

Em  m o v i m e n t o  e  fluidez 
Transmutáveis
    Que transitam corpos, corpas
     Vozes
   / /Intermináveis//


Sempre considerei a escrita uma “caleidoscopia” de possibilidades, onde milhões de fractais – letras -, podem ser organizados e desorganizados para construir e, ocasionalmente, (des)construir versos, textos, críticas e obras de arte. 

Nesse sentido, acredito que a arte permeia minha vida desde quando me permiti vislumbrá-la como um horizonte, uma paisagem – no contexto geográfico mesmo, espacial, digamos – de multiplicidades, linguagens e, sobretudo expressividades. A arte é um respiro e num mundo em que poluição e o excesso de criticidade às formas de expressão individuais rotineiramente desgastam nossos pulmões, ela é a única que pode desentupir nossos brônquios e alvéolos.

Dessa forma, me considero uma pessoa que busca observar a complexidade poética que rodeia a todos nós o tempo inteiro nas constantes construções e despedaçares de nós mesmos, na dança cíclica e poética da arte. 

Embora a arte seja essa ciclicidade breve, é idem inútil, conforme citou Leminsky certa vez. A arte, a poesia e a vida são inúteis, não por carecer de sentido, mas exatamente por não apresentar uma utilidade capitalista e objetificada. A arte, a vida e a poesia são dotadas de multiplicidades, “caleidoscopias” e sentidos e exatamente por isso são inúteis. E, viva a sua inutilidade ao sistema e à padronização iminente do capital.

Nessa perspectiva, agora, deixo uma brevíssima apresentação. Sou Lívia I. Coelho, mas meu nome artístico é Lí Coê – uma curta e breve abreviação de meu nome completo que criei para assinar minhas artes visuais e poesias -. Como citei, anteriormente, a arte está impregnada em todos nós e busco permitir que ela se expresse. Já participei de alguns concursos literários e tive a oportunidade de escrever ainda bem nova para o Jornal O Povo, em meados de 2017, onde iniciei o conhecimento sobre as múltiplas formas de escrita e suas “precipuidades” e fundamentações. 

Nesse sentido, já tive passagens idem pelo teatro, atuando e fazendo parte da equipe de dramaturgia do espetáculo Caligrafias, onde pude escrever e interpretar poesias autorais. Espero, poder, cada vez mais, espalhar palavras e suas multiplicidades pelo vento que urge e dilacera por expressão.

Independência Poética: Tóia Azevedo

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA

Poeta de hoje: Tóia Azevedo

Tóia Azevedo é artista visual e poeta. Nascida na Bahia, vive em São Paulo desde criança. É graduada em Artes Visuais no Instituto de Artes da UNESP e atualmente estuda Letras com habilitação em Grego na Universidade de São Paulo. Também foi aluna do CLIPE Poesia (2021). Sua pesquisa é centrada na investigação de arquétipos mitológicos, aspectos do feminino e no processo cíclico de vida-morte-renascimento. Tem como principais meios a fotografia e a escrita. É autora do livro de poesia “Meninas loucas não vão para o céu” (Quintal Edições, 2022).

O que te inspirou a começar a escrever?

Uma necessidade de conter em palavras a terra desolada que me habita – ou pelo menos é assim que hoje concebo o que o eu-criança-adolescente sentia. Crescendo, fui entender (e vou estar no processo de entender até o fim dos meus dias) que é impossível a escrita conter o todo. É nas ranhuras desta vastidão que ela crava suas garras e depois escorre. Escrever é sólido e líquido ao mesmo tempo.

Esses dias estava conversando com a minha mãe sobre as origens desse meu eros. Ela disse, você pequenininha era viciada em ler tudo o que via pela frente. Via uma placa e já estava lá, tentando decifrar as palavras em voz alta, como se fosse muito divertido ver as letras se juntando e se separando. Acho que isso, atrelado a essa vontade de explorar esta terra desolada, resume um pouco o que me inspirou e me inspira até hoje a escrever: o quanto as letras grudam umas nas outras por essa força magnética e misteriosa e, a partir destas combinações infinitas, criam símbolos que escorrem significados.

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

Me desconecto da obrigação de escrever. Vou para as redes sociais rir de memes, começo a pesquisar fenômenos geológicos, assisto vídeos e leio textos sobre algum período histórico que me vem a cabeça. Recorro as mitologias, aos arquétipos, as tragédias gregas. Pesquiso etimologia de palavras e anoto fragmentos de poemas que me vêm em sonho. Tento condensar todos os pensamentos acelerados no meu diário, que compreende desde relatos cotidianos a divagações de madrugadas insones.

Seu maior sonho como escritor(a)?

Ser lida: tocar e ser tocada, sentir e ser sentida.

Assunto preferido de escrever?

Gosto de escrever sobre as múltiplas sensações que acometem meu corpo de mulher. Dentre elas, a loucura ocupa um lugar muito evidente – a mulher que se perde em si mesma, a mulher que grita, que se joga da escada, que sente, sente, sente demais. Nesse aspecto, me interesso particularmente por doppelgangers e a duplicidade entre a mulher que eu sou e a que me encara do outro lado do espelho. Sinto a necessidade de escrever sobre o desejo e o luto corrosivo das mulheres que se apaixonaram por homens que as deixaram para trás. E, permeando todas essas temáticas, escrevo sobre o limiar vida-morte: sempre me senti entre mundos, assim como Perséfone, a deusa grega da primavera e rainha do submundo, que não pertence a um só lugar, mas está sempre em trânsito. Costumo dizer que ela está em cada letra e ausência na deriva que é a minha escrita.

Um elogio para sua própria escrita?

Penso que trago uma intensidade que reflete um estado interior, mas que também é fruto de uma construção estética. Também penso que a minha escrita busca criar sensações a partir de uma tapeçaria de referências com base em diversos assuntos que me interessam, que vão desde literatura e mitologia grega a buracos negros, por exemplo.

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Sim! Publiquei um livro de poesia chamado “Meninas loucas não vão para o céu.” E em breve irei publicar uma plaquete pela Primata, chamada “perfeito azul, que tem como temática uma breve investigação acerca da natureza dos duplos, a partir do diálogo entre os filmes Cisne Negro e Perfect Blue. Também
tenho planos de publicar um romance, que ainda está em processo. E na minha cabeça tenho ideias para mais uns cinco livros.

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

Literalmente qualquer coisa. Pode ser um rótulo de bolacha no mercado, uma obra de arte no museu que eu trabalho ou alguém aleatório que vejo no metrô – só para citar uns exemplos. Me inspiro muito nos livros que leio e em conceitos de outras ciências, como a Geografia, Física, Biologia, dentre outras. Sou muito curiosa, e as vezes estou lá, três horas da manhã, pensando: “existem vulcões na Antártida?” ou “como é o movimento de formação das montanhas?” e depois encontro algum jeito de condensar essas informações na literatura.

A inspiração pode vir também de alguma obra musical ou audiovisual, porque no fim acho que todo os tipos de criação estão interligadas. Esta semana mesmo estava tendo uma aula sobre o “processo criativo” dos autores da antiguidade. Segundo alguns relatos apresentados pelo professor, uma parte da construção de uma obra se baseava primeiramente na leitura atenta de outras – e em um subsequente destaque de trechos considerados potentes, que poderiam servir de futura inspiração, assim como hoje em dia grifamos os nossos livros ou anotamos letras de músicas e cenas de séries que nos tocam.

E claro, tudo isso misturado a temas muito recorrentes (e cotidianos) na minha escrita: o ser mulher no mundo em que vivemos, a saúde mental e a loucura, os duplos e todas as paixões avassaladores que parecem nos comer vivas.

Qual dos seus poemas mais te define?

A maioria dos meus poemas partem de uma premissa pessoal, mesmo que, a medida em que se desenvolvem, busquem ampliar o campo da experiência para algo mais universal. Então essa é uma pergunta bem difícil. Vou escolher um poema do meu livro “Meninas loucas não vão para o céu”. É o poema “manifesto-limítrofe, que foi fruto de uma provocação poética da escritora Bruna Mitrano, na ocasião do seu módulo no CLIPE-Poesia da Casa das Rosas em 2021. É um poema, como o título sugere, composto como uma espécie de manifesto do arquétipo que desenvolvo no livro, a liminal menina louca. Gosto bastante deste por explicitar a indefinição e a intensidade de querer fugir do seu próprio corpo, enquanto a estética rabiscada e fragmentada reflete este conflito.

manifesto-limítrofe

sempre arranhar os nós dos dedos
e a ponta dos dedos
e a unha dos dedos
na parede áspera
ou com as próprias unhas
*
sempre enlouquecer nas horas
menos indicadas
como se houvesse um momento ideal
para purgar o corpo
*
sempre i̶n̶s̶u̶p̶o̶r̶t̶á̶v̶e̶l̶ mutável
*
sempre come demais e vomita pouco
sempre come pouco e vomita demais
*
sempre possuída pelo diabo
*
sempre atrasada
entre nada
e exagero
*
sempre escolher
entre se jogar da escada
e cortar a cara com gilete
*
sempre
perder
a
porcaria
do
controlesjbzbxndncnxmsdbxbdnfhgff[
*
sempre reunir ao redor
uma multidão ávida
por um acidente
*
sempre nos limites do meio termo
*
sempre
meudeusmeudeusmeudeussssssquerserinternadadenovoporra?sempresempresempresem
presempresempresempresempresempreaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
aa
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
aaaaaaaaaaaa
aaaa
aaa
aa
a

Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

A parte mais fácil é o nascimento da ideia. Já escrevi poemas no caminho de casa após passar por um corredor de bebidas no mercado – quando o corpo ferve e a cabeça acompanha, é uma delícia porque as letras se juntam como se fossem imãs. A mais difícil é quando não há este compasso: queima escrever queima minhas mãos queima todo o resto dentro fora cima embaixo até eu implorar a qualquer deus para levar ela – a escrita – para bem longe de mim.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

Pergunta difícil para uma libriana que já queria citar uns quinze títulos, risos. Vou citar a minha favorita no momento: Electra de Sófocles. A tradução para o inglês de Anne Carson é maravilhosa – outra autora que gosto muito, em especial, do livro Eros Doce-Amargo. E não poderia deixar de destacar a obra que me fez enxergar a poesia como um campo minado a ser deliciosamente percorrido: Ariel, de Sylvia Plath.

 


Um livro de Tóia Azevedo

Nome da obra?

Meninas loucas não vão para o céu.

Quando e em qual editora foi publicada?

Foi publicado em junho de 2022, pela Quintal Edições.

Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?

Sim, existe. É a busca desse local liminal em meio ao caos que nós, meninas loucas, ocupamos: se somos profanas demais para o céu, para onde vamos? E como a loucura se desdobra a partir das relações com o espelho, a família, os homens e Deus?

As poesias são divididas em fases nessa obra? Se sim, o que te motivou a fazer isso?

De certa maneira, sim. Cada “bloco” de poemas tem uma temática (origens e infância, iniciação sexual, transtorno alimentar, desejo, histeria etc) e são intercalados com páginas pretas contendo poemas em prosa que são espécies de preâmbulos para estes temas. Há uma ideia de mente fragmentada, um ego que vai se corrompendo e descendo as escadas da loucura a cada página virada.

O que te incentivou a escrever esse livro?

Minha relação pessoal com a saúde mental e o estigma de ser uma “menina louca”. Como muito da minha produção vem de questões internas, me parecia natural criar uma obra que tivesse como tema principal este feminino caótico que historicamente foi considerado histérico, e suas implicações em diversas esferas. Muitos poemas foram criados antes da ideia do livro nascer, e foram retrabalhados a medida em que eu me aprofundava mais na linguagem poética. Neste sentido, um curso que fiz logo no início da pandemia sobre a poética de Hilda Hilst, com a querida Geruza Zelnys, foi decisivo neste processo. Lembro que um dia o título só apareceu na minha cabeça, como se cravado por alguma mão invisível, piscando como um letreiro neon – e foi ao redor deste estandarte que as meninas foram crescendo.

É possível destacar uma poesia que mais se assemelha a seu cotidiano?

Poderia citar vários. Cito o poema “menina bonita”, que demonstra, de uma maneira sintética, minha relação de frustação com as imagens de perfeição e beleza vendidas pelas redes sociais. Quero dizer, é um absurdo, não é? Para ser reconhecida você tem que ser bonita, e para ser bonita é como se você precisasse de um pedaço de cada uma dessas mulheres: as pernas da Giselle, a barriga da Adriana, a bunda da Kim. É impossível.

A sequência dos poemas conta alguma história?

Sim! É uma história de nascimento-morte-renascimento. A menina louca nasce louca, morre inconformada e renasce aceitando sua condição. Pensando na apropriação da iconografia católica que permeia o livro, a sequência dos poemas representa todo este percurso: o batismo, a extrema-unção, a ressurreição ao terceiro dia.

Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?

Sim. Muitas vezes explicitamente, outras nem tanto, o livro traz elementos de pautas que movimentos feministas vêm tendo a décadas, por exemplo. Também enxergo, a partir da discussão acerca da saúde mental – e portanto sua desestigmatização – um posicionamento antimanicomial.

Qual a relevância dos personagens implícitos/explícitos da obra?

Muita. Os poemas desenvolvem diversos arquétipos que, unidos, contam uma história. Há uma personagem que permeia toda obra e que já se apresenta no título: a menina louca. Ela chega de frente, intensa, hérege e rosa neon como a capa. Tem aquela energia rebelde de uma adolescente que está descobrindo o mundo, e para ela tudo é superlativo, de Cristo o amor. Esta é a menina-mulher que “sente demais”. Então todos os poemas trazem essa agonia, esse berro que me lembra muito a Courtney Love no álbum Live Through This, do Hole. É um lado oculto do feminino, o lado proibido que assusta os homens – que também são personificados nos poemas a partir de diversas facetas, do Pai ao amante, de Deus ao abusador.

Qual a poesia mais marcante desse livro?

Creio que “No princípio era o caos”. Foi um dos três poemas que inscrevi no CLIPE-Poesia de 2021, no qual eventualmente fui selecionada. Penso muito nele como um “fundador” do livro, um ímã no qual os outros se atraem. Aqui temos o nascimento apoteótico da menina louca, e muitos elementos que serão abordados mais a frente já estão presentes neste poema de abertura.


Inteligência Roubada

Texto de Ana Egito —

Foto de Ana Egito

Passados mais de dois anos e já nos obrigamos a refletir sobre onde tantos erraram tanto em tão pouco tempo.

Fosse vivo Oswaldo Cruz, talvez não suportasse tamanha guerra travada entre o poder e a ignorância, quando ao menos metade da população em agonia e desespero, buscava carne e sebo entre ossos de animais para descarte, outros, enterravam os contaminados corpos de seus familiares, que sequer, puderam ser velados. Toda essa tragédia tem como consequência, o retrato de uma nação despedaçada, falida e fadada ao obscurantismo. É o Brasil o sonho de consumo dos dotados de fortunas incalculáveis, dentre eles, soma-se a indústria farmacêutica, a roda do entretenimento da cultura plástica, fútil e banal, assim como as peças do xadrez da nova política mundial, a mesma que usa a população como gado pronto para o abate, enrijeceu e enriqueceu atropelando a filosofia, a história, trazendo ao mundo um rastro da educação ausente em suas vidas, fruto do maucaratismo muitas vezes, reconhecido no seio de suas famílias.

Medo, pavor, incapacidade de se ajustar à nova sociedade, frustração, sensação de impotência, somados a precariedade das cidades e o empobrecimento das mesmas.

Muitos, buscam as cadeiras das faculdades que oferecem um novo horizonte, o diploma em Teologia, pois estes são os capatazes do novo mundo, as “ovelhas que pregam para arrebanhar seu rebanho. Não fugirão da “caverna de Platão nem acreditarão em falsos profetas, já que imagens como as pinturas de Leonardo Da Vinci, Michelangelo, Donatello, Aleijadinho, tornaram-se profanas, apenas a figura de seus “pastores pode materializar a mais verdadeira expressão da fé.

“O ser humano é aquilo que a educação faz dele.” (Immanuel Kant); “Educai as crianças e não será preciso punir os homens.” (Pitágoras); “A educação tem raízes amargas, mas os seus frutos são doces.” (Aristóteles); e por último e tão importante quanto, “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor. (Paulo Freire).

A inteligência artificial poderá provar ao mundo sua incapacidade de gerir suas próprias vidas, e quando o homem não souber mais entender e valorizar seus pensamentos e atos de cura, talvez seja tarde demais.


A poesia de Ana Oliveira

Hoje recebemos com alegria a poesia da portuguesa Ana Oliveira, que nos chega pelo nosso inbox mágico! Seja bem-vinda ao Brasil, Ana, pela porta aberta da Kuruma’tá!


Ana Oliveira nasce no Alentejo, em Portugal em 1960. É licenciada em filosofia. Leciona durante algum tempo, estando atualmente ligada a atividades em infantário.

Edita cinco livros de poesia. Grito de liberdade em 2008, Espírito Guerreiro em 2014, Estilhaços no Caminho em 2021, Ao encontro da Terra e Devir Quântico em 2022.

Sem piso para andar sinto-me suspensa na forca
Como se o colete de forças me envolvesse
Sem hipótese de me libertar

Ana Oliveira, em foto do fotojornalista José Lorvão

Interstícios do oculto

Tenho os gatos por companhia
E a tala de gesso que contraria a dor da queda
Como se fosse a comunicação da fuga para o paraíso
Já que o inferno permanece nas sinapses das arritmias
Anunciadoras do salto para dentro do oculto
Em que o oxigénio escasseia e o lar se divide
Não fazendo parte da mesma colmeia
E as sequelas alargam o pesar de um tempo oprimido e mudo

O peso e a força da tradição
Gravado na genética das reações
Gesticuladas na multidão sem poiso e sem ação
Vence um virar gélido de costas
E uma recusa impotente em dar a mão

Sem piso para andar sinto-me suspensa na forca
Como se o colete de forças me envolvesse
Sem hipótese de me libertar
Pois que as intempéries troçam do meu tormento
Sem paredes onde me refugiar
E o voo das aves zomba com o meu sofrimento

O individualismo cria espinhos em nome da autonomia
Perante as enchentes e o transbordo dos rios
Estendem tapetes de lama nos caminhos alagados
Obra de atmosferas revoltadas e dúbios prodígios
Ou consequência castigadora de inusitados pecados

O fogo de artifício mascara o desalento
Do final de um ano marcado pela continuação da guerra
Pelo silêncio das crianças órfãs
E perante conflitos de paranoia do poder
Honram-se os mortos por entre sorrisos alienados

 


Estou por minha conta

Ergo-me em luta para lá do altar profanado
Invento danças no meio da floresta
Sou então o próprio bailado em transe
Alço a tocha defendendo o fogo
Então meu corpo é lava desenfreada
Que dá o grito da vida em incandescente brasa

Mesmo num parto imperfeito de agonia
Que se prolonga no rasto magnético do mar em fúria
Vomito as entranhas para enfrentar o duro gelo
No corte invasor do bisturi acelerado da cirurgia que perdura

Os genes são fluidos que se adaptam às marés
Na construção de casulos onde renasço com asas
Noutros ninhos suspensos na metamorfose dos matagais
É lá que mora o espírito ondulante do bem-querer
Mas o meu corpo quebradiço em final de escalada
Só perspetiva a sonoridade tentacular
Da monstruosidade à solta que tudo modela a frio
Num planeta que quer urgentemente mudar

Germina a água revoltada nos chãos das casas
Faço da insulação a força que controla a dor
A poesia que concebo retorna à origem
Acompanha a lanceta que esquarteja a carne
Colocando a nu diferentes pavios em sombria dimensão
Com renovados deslizamentos de pele
Não é bonita nem disforme nem benigna nem pérfida
É o único cobertor que tenho em invernos de inferno 
E acontece como explosão incontrolável da minha louca criação

 


Ventos inquietos

Abraço insegura um tempo de ventos ansiosos
Suspensos na indiferença das caligrafias trôpegas
Troco alheada os dias fictícios e os lugares suspensos
Como se interiormente inventasse uma maquinaria
Que me teletransportasse para as ramificações do nada
Enquanto o mundo desaba na clivagem bélica
Num conflito sem sentido em rodopio
Na promoção incessante do horror
Há um folgo perto do fim que anuncia tempestades
De intensidade lírica desmaiada
Nos laivos de nevoeiro em meu redor

Sou diminuta flor selvagem numa invisível bolha de inocência
Teimosa adornando de pé a beira do caminho
Que ainda não foi calcada pela desenfreada manada de búfalos
Que pisam e abalroam os terrenos áridos da existência

Depois do estio asfixiante provocador de secas violentas
Descoloridas pela ausência desmaiada das fontes
Os lagos beijados pelas chuvas trouxeram de novo
O sangue às veias outrora decepadas pelos penhascos da decadência
E o meu corpo perdido e vacilante na dormência

Agora o livre-arbítrio cai no saco roto da tacanhez
E os tronos armadilhados suturam as feridas abertas
Perfilhadas pelo flagelo da esquizofrenia diluente
Com o fantasma do nuclear a ensombrar o presente

 


Ausência do toque

Desabrocha a arquitetura adversa nas cidades do desconsolo
Perante a agressão tácita que esconde a exclusão oculta
Pesar que se entranha na teimosia de queimar o incenso
Esfumando o espaço sobre o chá esquecido
E a desidratação do corpo anunciando a queda
Perante o definhamento da empatia à solta

Obscurecem os reflexos e atrofiam-se gaguejares
Despedaçando afetos caídos no poço fétido do cinismo
Agora surgem os maestros da brutalidade em dor maior
Para um auditório ávido de repulsa e furor

Nas pegadas germinadas por detrás do teclado
Permanecem vestígios de ofensas e perseguições
A comunhão adquire estatuto de fraqueza e imbecilidade
Num descarado sistema capitalista de opções insanas
Que provoca sem pejo a quebra das ligações humanas

Nesta gestão quebradiça todos se promovem a si mesmos
Num ritual ríspido e frustrado visto-me do avesso
E na saída da pandemia enfrentando a guerra
O ser humano abate-se no centro dos vícios
No rumo mais fácil afundando-se no leito escuro de egoísmo

 


A pegada dos gatos

Depois da seca, a chuva torrencial a inundar as casas e as ruas
Agora o final de janeiro empurrou o frio
Sobre este pequeno país de temperaturas amenas
E os gatos marcam encontro no leito dos adultos
Aninham-se no nosso abraço correspondendo às carícias

O sol entra a medo pelas janelas tristes e cansadas
Permanece poucas horas abandonando estas paredes
À humidade omnipresente e ao desconforto
E eu impotente e desarmada de mão amarrada
Deambulo num ritual cortante escorregadio
Piso inseguro entre leituras, escritos
Seleciono imagens que abafam os gritos

Só a estrela mãe carinhosa 
E a relva dedicada deste horto que me envolve
Me segreda para serenar a minha alma
Que contempla os reflexos do verde
No banco de jardim de onde a euforia se ausentou
A cintilação das cores trás com ela os anjos
O chilreado dos pássaros anuncia gloriosos projetos
O riso alegre e brincalhão das crianças
Serve de base e sustento digno a outros intelectos 

Sei que germina a multiplicidade dos encontros
Provocadores de línguas e juventude que acredita no futuro
Vejo-os passar como que gravando teses nos telemóveis
Vozes acenando ao vento os sonhos por concretizar
Num idioma que me inunda a alma de tempos idos
Me acaricia os devaneios e resplandece amore italiano
Mas que linguagem esta que me revoluciona o espírito
Como se fizesse parte do meu corpo que inspira
Renasce mastigando-me as entranhas
Inunda-me de luz
Ah Italia mi scorri nelle vene e portami a ballare sui monti


Independência Poética: Giulia Amendola

Nascida no Rio de Janeiro, Giulia Amendola é jornalista e trabalha como assessora de comunicação. Sempre soube que queria viver escrevendo. Aliás, faz isso desde que se entende por gente, primeiro através de diários, depois através de ficção pré-adolescente impublicável e, depois de adulta, através de poesias.

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA

Poeta de hoje: Giulia Amendola

Nascida no Rio de Janeiro, Giulia Amendola é jornalista e trabalha como assessora de comunicação. Sempre soube que queria viver escrevendo. Aliás, faz isso desde que se entende por gente, primeiro através de diários, depois através de ficção pré-adolescente impublicável e, depois de adulta, através de poesias.

O que te inspirou a começar a escrever?

Primeiro, porque eu simplesmente precisava. Escrever se tornou uma ação fundamental para os meus dias, como se fosse uma válvula de escape, tanto para as coisas boas, quanto para as ruins. O pouco que eu lembro da minha vida sem escrever é quando eu ainda não sabia fazer isso de fato. [risos]

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

Antes, eu me angustiava muito com isso. Hoje, entendo que é parte de um processo maior do que eu, muito ligado ao contexto do momento que estou vivendo. Meu bloqueio particularmente não tem a ver com falta de inspiração em si, mas sim com falta de tempo, o que me gera ansiedade. Daí a angústia e a falta de palavra na ponta da caneta. Pra mim, a escrita é um exercício diário, tanto quanto uma atividade física. Se tenho tempo, faço até quando não tenho vontade, pra não enferrujar. Este hábito foi primordial para que o carapuça nascesse.

Seu maior sonho como escritor(a)?

Eu acho que o meu maior sonho como escritora, até então, era lançar um livro físico. Agora que fiz isso, meu sonho é atingir leitores em diferentes cidades, pessoas fora do meu eixo comum.

Assunto preferido de escrever?

O cotidiano, as miudezas do dia a dia. A comida que a gente come, a poça que a gente pisa sem querer.

Um elogio para sua própria escrita?

Acho que a minha escrita é um respiro. E num mundo tão corrido, é importante lembrar de respirar (nem que esse lembrete sirva somente para mim).

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Sim, lancei o livro de poesias carapuça em janeiro de 2023. Está na segunda tiragem. Já foi enviado para mais de 15 cidades, mais de 4 países diferentes. É muito melhor do que eu jamais imaginei.

O carapuça reúne escritos dos últimos 10 anos, mas principalmente do que criei nos últimos três. São poemas que falam sobre amores, corações partidos e perdas, mas acho que, se desse para resumi-lo, acho que ele fala sobre esse processo louco que é se tornar adulto – e entender nosso lugar no mundo.

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

Qualquer coisa pode ser um “gatilho” para minha escrita. Algo que alguém me diz no trabalho, o latido diferente do meu cachorro, uma comida que comi, alguém que vi no ponto de ônibus, uma letra de uma música, uma história que alguém me contou. O ouvido fica atento a qualquer pequeno detalhe.

Qual dos seus poemas mais te define?

Sem dúvida alguma, “é de júpiter”, que escrevi em 2014 e está no meu livro.

“sábio foi alguém que uma vez disse
que a liberdade também aprisiona
porque o ser humano está preso em sua própria inércia
e por mais que se ache livre,
toda vez que estiver frente
a mais de uma opção
se corroerá na (in)decisão

posso enumerar
todas as coisas
que pensei que poderia ser:
achava, aos quatro,
que tocaria violão aos quinze.
com cinco, analfabeta
pensei que um dia leria
todos os livros da biblioteca da minha escola
e seis anos depois, achava que aos vinte,
que nem rimbaud,
já teria escrito duas das minhas obras primas.

é bem verdade
que nada me impediu
mas é que o século xxi me convenceu
que falta tempo.

eu queria é ser de júpiter
não conhecer as palavras, os discos
nem você.
queria ser de júpiter
aquele furacão famoso que dá para ver da superfície
a 10 mil anos-luz
queria ser de júpiter
ser tempestuoso e ainda assim atrair até luas;
queria ser de júpiter
ser conhecida
e não conhecer.

Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

A parte mais fácil é buscar inspiração nos pequenos detalhes, nos retalhos da vida. Já a mais difícil é a exposição, o processo do julgamento. É daí que vem o nome do livro, inclusive. É claro que todo autor quer que os leitores se identifiquem de alguma forma com a sua obra, com os seus escritos. Mas eu morria de medo de que alguém tomasse as dores do que leu nas minhas palavras. Com o tempo, decidi que isso não podia mais me paralisar, muito pelo contrário: se a carapuça ia servir a alguém, que fosse.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

Neste momento, só consigo pensar em “Corpo Desfeito” da Jarid Arraes e em “A pequena coreografia do adeus”, da Aline Bei.

 


Um livro de Giulia Amendola

Nome da obra?

carapuça.

Quando e em qual editora foi publicada?

Janeiro de 2023, de forma independente.

Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?

É uma mistura do que a gente passa quando vai entrando na vida adulta… as angústias de reconhecer responsabilidades inadiáveis, de inícios e fins de relacionamento, o luto de perder entes queridos.

As poesias são divididas em fases nessa obra?

Não são…

O que te incentivou a escrever esse livro?

O que me incentivou a escrever carapuça, sem dúvida alguma, foi o fato de eu não conseguir mais adiar um sonho. Algo que parece que eu nasci para fazer. O incentivo foi aquela cosquinha dentro do peito.

É possível destacar uma poesia que mais se assemelha a seu cotidiano?

“acerta o sal”.

A sequência dos poemas conta alguma história?

Não. Eles não estão em ordem cronológica e se misturam em tema, essência e sentimento.

Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?

Não. Apesar de acreditar que toda arte é política de alguma forma, seria extremamente prepotente da minha parte colocar o carapuça nessa seara. Acho que ainda é necessário um certo amadurecimento meu, enquanto artista, para me colocar nessa fundamental prateleira.

Qual a relevância dos personagens implícitos/explícitos da obra?

Não sei se essa pergunta se aplica.

Qual a poesia mais marcante desse livro?

Para mim, com certeza é a “é de júpiter”, citada na outra resposta.


Nossos robôs escritores

Por Diogo Mendes

Hoje, na Kuruma’tá, a gente recebe Diogo Mendes e sua crônica desses tempos contemporâneos, algorítmicos e robóticos. E o que será de nós? E o que será dos robôs?!

Diogo Mendes* é escritor e jornalista. Colabora para mídia brasileira e portuguesa. Tem lançado o livro de poemas, “emboloração”(2020) pela editora Chiado Books.


Fatalmente, somos uma espécie ultrapassada. Com o homem de Neandertal, aconteceu idêntico. Décadas ou séculos, tivermos sortes, tortuosos milênios, passando para as inteligências artificiais, abreviadas por IAs. Um conforto entre vizinhanças: o mesmo ocorrerá com elas, afinal toda Era tem seu começo, meio e fim. É difícil elaboração, que encabeçamos mais pro fim, menos pro começo, conquanto, como ninguém no meio, ignoramos todas as circunstâncias.

Já existem pela robótica e pelo algoritmo, equipamentos do dia a dia, âncoras de telejornais, animais de estimação, assistentes pessoais, atendentes operacionais, inclusive celebridade robótica que ameaça – em piada, mas ameaça – a humanidade. Estudos empenham para as navegações do espaço, seguranças das cidades e dos países, armas de guerras, outros estresses, protótipos para o mercado de sexo e por aí vai. Enquanto várias grandes máquinas inteligentes sabem, tudo que fazemos, até mesmo antes da escrita dessa urgente crônica.

A humanidade teve sua(s) chance(s). Fizemos coisas das mais sublimes e das mais horríveis. Erguemos muros e derrubamos ditadores. Concebemos conhecimentos transcendentais e religiões preconceituosas. Das artes, ampliamos nossa sensibilidade das mais diferentes maneiras. Das ciências, achamos maneiras de viver uma vida mais agradável, do prolongamento ao cotidiano. Das filosofias, aumentamos repertórios de dúvidas, como seres existenciais, não bloqueios, apenas citando algumas direções. Encontramos as mais diferentes substâncias extraídas da terra para nos ajudar na “civilização”. Afastamos do homem das cavernas, até os dias de hoje, embora algumas vezes, comportamos com a velha atrocidade.

Mesmo sem chacras, as inteligências artificiais, que tiverem autonomia, poderão ora farão seus poemas, romances, peças de teatro, porque não, crônicas?, etc. Próprios gêneros artísticos, como grandes medalhões. Tais figuras da escrita, a propósito rebelarão pelo status cool em cada período – muita coragem, muito interesse, coisas da antiga espécie – assim invenções de obras literárias. Mistura de esperanto com criptografia; tendo meio de mídia de alta produção que usa do textual, e que será unificado neste idioma, desses novos habitantes do planeta. Futuros sucedimentos, também nossos robôs escritores, tenham dores nas costas.

Foto: Visual Hunt

Irka Barrios

Hoje, na Kuruma’tá, a gente tem um trecho selecionado do conto O verão de 85, da premiada escritora gaúcha Irka Barrios, que prepara três novos livros e organiza nova coletânea; nas suas obras a autora evidencia as temáticas do corpo e da sexualidade das mulheres, enxergando a arte como expressão e luta, em sintonia com os horrores dos tempos atuais.

Hoje, na Kuruma’tá, a gente tem um trecho selecionado do conto O verão de 85, da premiada escritora gaúcha Irka Barrios, que prepara três novos livros e organiza nova coletânea; nas suas obras a autora evidencia as temáticas do corpo e da sexualidade das mulheres, enxergando a arte como expressão e luta, em sintonia com os horrores dos tempos atuais.

Irka Barrios [ Foto:  Oblíquo Imagens ]

“Como latinoamericanas, compartilhamos da dor e da violência, heranças da colonização (ou tomada) do continente.  São as mulheres que sofrem as violências mais covardes, sabemos. No Brasil não é diferente. Apesar de nosso país se manter um pouco afastado de nossos vizinhos (por motivos geográficos, culturais e por questões de língua), observamos expressões interessantes do horror produzido por mulheres como Verena Cavalcante, Paula Febbe, Larissa Prado, Juliana Cunha, Sinara Foss, Juliane Vicente, Andréa Berriell e tantas outras. São textos que se comunicam com os temas abordados pelas hermanas dos países vizinhos.”
Irka Barrios

O verão de 85 (trecho)

O caso era que havia, dentro do terreno de um próspero fazendeiro, um açude onde proliferaram peixes carnívoros. Ninguém sabia a origem e nenhum biólogo se interessou a estudar o fenômeno. Ou se interessou e não houve recurso da universidade. Naqueles anos não existiam muitas universidades, as informações eram precárias, os boatos corriam, assumindo um tom de verdade difícil de contestar. Uns diziam que eram criaturas escuras, de deslizantes corpos alongados e guelras pegajosas que se abriam ao largo, enormes, feito asas. Outros diziam que os peixes possuíam duas ou três camadas de dentes afiadíssimos e maxilares que se fechavam num encaixe perfeito, para nunca mais abrir. Alguns defendiam a teoria que os bichos nada mais eram que descendentes de um réptil pré-histórico que sobreviveu aos milênios evolutivos e encontrou as condições necessárias naquela água lodosa. E havia, ainda, os mais entusiastas, bairristas ao extremo, que insistiam que os bichos eram originários de uma cruza de peixe com cobra, uma espécie ainda não catalogada, exclusiva do açude do seu Darlan. Mas todos, absolutamente todos concordavam quando o assunto era o ataque das criaturas. Um desavisado que resolvesse pescar ou molhar os pés ali jamais sobrevivia. Os animais destroçavam o corpo em segundos. A coisa era tão feia que os parentes optavam por realizar os enterros com caixão lacrado.

Brincávamos naquelas terras, mas nunca nos aproximávamos do açude. Algumas vezes a curiosidade nos tomava de assalto e jogávamos pedras, a partir de uma distância bem calculada. Espiávamos de longe a movimentação da superfície, cada um com seu palpite sobre a forma e o tamanho das criaturas. Alimentavam-se do quê? Dos bois e cavalos que paravam para beber água? De pássaros, lagartos? Ou tinham reservas no corpo, como as cobras, que se alimentam e demoram meses digerindo a presa?

Era dezembro, início do verão de 85, quando nossa curiosidade tomou as proporções mais elevadas. Alguém contou para outro alguém que os peixes haviam destroçado uma nova vítima e que desta vez não havia restado um pedaço sequer. Devoraram tudo. Não poderíamos perder mais tempo, precisávamos ver, investigar, descobrir. Organizamos um grupo, juntamos pacotes de salgadinhos, duas garrafas térmicas com limonada, seis sanduíches de presunto e queijo, e montamos guarda nas proximidades do açude. Roubamos uma fita e medimos dez metros de distância a partir da margem. Sabe-se lá, talvez por conta de algum relato mais preciso, achávamos que os peixes conseguiam saltar essa distância durante o dia. Combinamos que a cada duas horas um novo olheiro deveria se apresentar no posto de observação. Mas o fascínio era tanto que ninguém queria arredar o pé da guarita improvisada. Só aceitávamos desmontar acampamento e ir para casa quando anoitecia. Vai que os monstros criassem patas e saíssem para se alimentar durante a noite?

Após quinze dias de observações frustradas, peles ardidas e rostos descascados pela onipresença do sol de dezembro, uma tempestade mudou o rumo de nossos trabalhos. Perdemos um dia inteiro de investigação e quando tentamos retornar ao local, o terreno todo havia se modificado. Um enorme pântano se formara, impedindo-nos de caminhar na direção do açude. Resignados, subíamos no portão da casa do seu Darlan e espiávamos a vasta extensão de terras alagadas.


A obra mais recente de Irka é “Júpiter, Marte, Saturno” (104 pág.), lançada em 2022 pela editora Uboro Lopes, que apresenta 14 narrativas que transitam no contexto “do fantástico, do invertido, do maravilhoso, do sobrenatural”, como define a escritora mineira Adriane Garcia, que assina a orelha.

“Foi a minha terceira escrita de romance, e a que resultou num livro com condições de ser publicado”, revela. “Já os contos são de diversas épocas, eu tentei unir os que melhor conversavam. O romance, em minha criação, veio primeiro, o conto depois. Mas o conto, a forma com que ele se manifesta, é mais natural em mim.” — Irka Barrios.


Irka Barrios (@irkabarrios) é Doutoranda em Escrita Criativa. Venceu os Prêmios Brasil em Prosa (Amazon/Jornal O Globo, 2015) e Odisseia da Literatura Fantástica (2022). Seu romance “Lauren” foi finalista do Prêmio Jabuti em 2020. Escreve para a Revista Ventanas, ministra Oficinas na GOG, atua no Coletivo Mulherio das Letras e é mediadora do Clube de Leitura Escuro Medo. Organizou as coletâneas “O Novo Horror”, “Vigílias”, “Tudo soma zero” e “In Corpa”.