Inbox da Kuruma’tá à todo vapor! Bem-vinda, Nina Camargo, às águas da Kuruma’tá, com sua poesia destemida e jovem. A nós muito alegra receber talentos como o seu e compartilhar força assim.
Caiçara de Ilhabela, Nina reside em São Paulo, e sua voz fala com gente de toda parte que quiser ouvir. “Eu me pergunto”, diz Nina nos seus versos, nesse mundo de homens e violência e opressão. Se perguntar é subversivo.
sobreviver é histeria
o que é mais feminino do que ser forçada a ficar sozinha o que é mais feminino do que não ser capaz de se ver sozinha o que é mais feminino do que ter medo de ficar sozinha o que é mais feminino do que querer – e não conseguir – estar sozinha o que é mais feminino do que sobreviver
o que é mais feminino do que não morrer de raiva porque ensinar já virou rotina porque cuidar já virou rotina porque pedir desculpas já virou rotina
o que é mais feminino do que competir por uma vida que não quer porque nasceu ou se descobriu mulher porque querer ser mulher é fraqueza porque não ser mulher, mas acharem que você parece mulher, é fraqueza
o que é mais feminino do que não ser suficientemente mulher o que é mais feminino do que não ser suficiente
quando penso em quantas vezes mascarei a compulsão com o fumo quando penso em quantas vezes cobri o seio para não fechar o punho quando penso em quantos deles se sentaram ao meu lado sem assunto
eu me pergunto
o que é mais feminino do que o silêncio o que é mais feminino do que gritar e te mandarem fazer silêncio o que é mais feminino do que não pedir socorro e te perguntarem mas por que é que você fez silêncio
mãos abanando
nunca toquei as linhas tênues do teu rosto e as sinto lamber as linhas da minha palma como se trocassem teorias, gracejos, lágrimas como se algo nessa troca fosse mais que esboço
entre agonias, subentendidos e pressupostos encaixei-o em fantasias tolas como se alguma delas fosse mais que tosca como se algo nelas fosse um pouco nosso
ouvi as tuas músicas de novo nunca ouvi tua voz assim tão perto como se algo aqui fosse concreto como se nenhum fragmento estivesse solto
ah, meu bem, conte-me: quando, afinal, você vem? quando, afinal, você vai embora? quando compreendo que, sem demora, eu já deveria ter fugido, também?
brinco aqui com esboços de rostos brinco aqui com linhas tênues de pressupostos as mesmas músicas velhas de novo a mesma leveza do que não é nosso
ainda assim, meu bem, eu sufoco por engrandecer o que não compreendo por sentir o encontro na passagem do tempo por sentir o tempo na passagem do encontro
qualquer dia, meu bem, isso passa dessa vez, quando choro, é sem peso não sinto medo do depois que desconheço e o que conheço agora já me transpassa
bons tratos e mariposas
fugir da dor de cabeça três vezes em uma terça, debruçar-se na mesa torta, odiar o formato da boca. escrever em silêncio escondida do sol, odiar o ministro, tentar ser mais boba.
fazer-me de sonsa cinco vezes até quinta, ter preguiça de justificativas e de moscas. ter a impressão de não ser tão sensível por gostar de ser bons tratos e de mariposas.
impor uns limites aqui e acolá, nem todos muito justos, mas há de se reconhecer a coragem do intento. ainda não saber o que gosta de si, o que gosta da vida; ser indecisa, ingênua e não saber abraçar o contentamento.
há um longo caminho até se parecer consigo mesmo; há camadas impostas o bastante para que se viva abrindo janelas. antes da segurança e da certeza, portanto, esqueçamos um pouco o reconhecimento e passemos a enxergar a beleza das frestas.
Nina Camargo tem 21 anos e é pedagoga, estudante de História da Arte e poeta. É caiçara de Ilhabela, mas mora em São Paulo. Ama gatinhos, crianças, padarias e livros de fantasia. Em seu Instagram, @iapoes, compartilha poemas inspirados em obras de arte e experiências cotidianas.
Mostra Itinerante de Curtas
Gente, Kuruma’tá chegando em cima do lance pra falar desse projeto lindaço que é a Mostra Itinerante de Curtas, uma iniciativa que nasceu no Rio de Janeiro em 2011, e agora chega a outros quatro Estados pela primeira vez. São alunos de Ensino Médio e Fundamental de Camaçari (Bahia), Várzea Paulista (São Paulo), Vitória (Espírito Santo), Macaé, Duque de Caxias e Niterói (Rio de Janeiro) que participaram das oficinas de Cinema que resultaram na produção de curtas metragens concebidos e realizados por eles – do roteiro à edição final .
A Mostra Itinerante de Curtas apresentará os resultados da 12ª edição do Programa Imagens em Movimento (PIM) em sessões gratuitas e abertas ao público, a serem realizadas até o dia 8 de dezembro, nos 7 municípios em que o projeto atua. Ao todo, serão exibidos 35 curtas-metragens seguidos de debates com os jovens realizadores brasileiros, além de curtas feitos por estudantes de outros países.
O público do Rio de Janeiro verá os filmes dos jovens a partir desta terça, 22 de novembro, das 9h às 12h, em sessão no Planetário do Rio, na Gávea. No dia seguinte, 23, também das 9h às 12h, será a vez de ocupar o Espaço Itaú de Cinema, em Botafogo. A garotada de Niterói vai se encontrar na sexta, dia 25, das 12h às 15h, na Reserva Cultural Niterói, em São Domingos. E a última sessão no Rio será na quinta, dia 1º de dezembro, das 13h30 às 16h, no Memorial Getúlio Vargas, na Glória. Depois das exibições, haverá debates com alunos da rede pública.
“Esse projeto nasceu de um desejo que poderia ser considerado utópico, de colocar os estudantes de escolas públicas brasileiras em situação de igualdade com alunos de outros países como França, Alemanha ou o Japão. É claro que eles vivem realidades absolutamente distintas, inclusive no que diz respeito ao contexto da educação pública de cada lugar. Mas através da experiência criativa do cinema e do encontro com essa arte, tem sido possível, sim, realizar este sonho”, conta Ana Dillon, diretora do Programa Imagens em Movimento e fundadora da ONG Raiar.
A juventude fazendo filme é de emocionar!
Confira alguns curtas!
PROGRAMAÇÃO DA MOSTRA ITINERANTE DE CURTAS METRAGENS DO PIM (sessões gratuitas e abertas ao público em geral)
ESPÍRITO SANTO | Vitória
QUANDO: 16 novembro (quarta), das 11h às 12h
ONDE: Auditório da EMEF Moacyr Avidos – Av. Jurema Barroso, 58, na Ilha do Príncipe, em Vitória, no Espírito Santo – ES
RIO DE JANEIRO | Macaé
QUANDO: 17 novembro (quinta), das 14h às 16h
ONDE: Auditório do NUPEM/UFRJ – Av. São José do Barreto, 764, em São José do Barreto, Macaé – RJ
RIO DE JANEIRO | Capital
DIA 1
QUANDO: 22 de novembro (terça), das 9h às 12h
ONDE: Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro – Rua Vice-Governador Rúbens Berardo, 100, na Gávea, no Rio de Janeiro – RJ
Debate com alunos das escolas municipais Orlando Villas Boas, Calouste Gulbekian e Frederico Trotta
DIA 2
QUANDO: 23 de novembro (quarta), das 9h às 12h
ONDE: Espaço Itaú de Cinema – Praia de Botafogo, 316, em Botafogo, no Rio de Janeiro – RJ Debate com alunos do Colégio Estadual Adelina Castro e do Colégio Estadual José de Souza Marques
DIA 3
QUANDO: 25 de novembro (sexta), das 12h às 15h
Local: Cinema Reserva Cultural Niterói – Av. Visconde do Rio Branco, 880, em São Domingos, em Niterói – RJ Debate com alunos das Escolas Municipais José Emygdio de Oliveira, Profª Lúcia Maria da Silveira Rocha, Profº Dario Souza Castello e Maestro Heitor Villa Lobos
DIA 4
QUANDO: 1º de dezembro (quinta), das 13h30 às 16h
ONDE: Memorial Municipal Getúlio Vargas – Praça Luiz de Camões, s/n, subsolo, na Glória, no Rio de Janeiro – RJ Debate com alunos das Escolas Municipais Ayrton Senna da Silva, Roraima, Pracinha João da Silva e Araújo Porto Alegre
SÃO PAULO | Várzea Paulista
DIA 1
QUANDO: 28 de novembro (segunda), das 9h às 12h
ONDE: Grupo Cine (Shopping Alegria) – Av. Duque de Caxias, 2225, no Sítio do Moinho, na Várzea Paulista – SP
Debate com alunos das escolas E.E. Tiburcio Estevam de Siqueira, E.E. Mitiharu Tanaka, E.E. Monsenhor Hamilton José Bianchi e E.E. Lavignia Ribeiro Aranha
DIA 2
QUANDO: 29 de novembro (terça), das 9h às 12h
ONDE: Grupo Cine (Shopping Alegria) – Av. Duque de Caxias, 2225, no Sítio do Moinho, na Várzea Paulista – SP
Debate com alunos das Escolas Municipais Armando Dias e João Nalini
BAHIA | Camaçari
DIA 1
QUANDO: 7 dezembro (quarta), das 13h30 às 16h30
ONDE: Teatro Alberto Martins – Rua Eixo Urbano Central, no Centro, em Camaçari – BA
Debate com alunos da Escola Municipal Cosme de Farias e dos Colégios Estaduais Professora Nadir Araújo Copque e José de Freitas Mascarenhas
DIA 2
QUANDO: 8 dezembro (quinta), das 8h30 às 11h30 ONDE: Teatro Alberto Martins – Rua Eixo Urbano Central, no Centro, em Camaçari – BA
Debate com alunos do Centro Territorial de Educação Profissional Região Metropolitana, Colégio Estadual Gonçalo Muniz e Colégio Modelo Luís Eduardo Magalhães Camaçari-BA
Arrastando | texto de Rafaela Navas
Mais uma bela colaboração que nos chegou via nossa chamada aberta para publicação. Essa resposta é maravilhosa e nos dá gás e alegria para continuar. Rafaela Navas é do interior de Rondônia! Isso é o Brasil nos abraçando.
Fiquem agora com esse texto bonito da Rafaela. Que venham outros. Estamos aguardando, Rafaela! Seja muito bem-vinda!
Nos arrastamos todos os dias. Da cama, do quarto, de casa. Do trabalho para casa, de casa para o trabalho.
Às vezes estamos arrastando aquilo que chamamos de corpo para festas, bares, shoppings e outros lugares. Nada disso faz sentindo na sua vida, portanto continua a se arrastar para lá e para cá. Só que chega uma hora que isso cansa, que não suportamos mais viver se arrastando, damos como vencido para o cansaço, nos entregamos. E sabe o que acontece? Nada. Não acontece absolutamente nada.
Deixamos a vida passar, tudo continua e não vamos nos arrastar mais. Isso ficou lá no passado; não importa mais! A vida, a família, nós mesmos.
O tempo só flui através do universo, pessoas tristes fingem estar felizes o tempo todo; pessoas felizes fingem estar feliz quando não está; e nada e nem ninguém pode mudar. Quando desistimos ninguém se importa, nem a gente mesmo. Então por isso continuamos nos arrastando por ai sem rumo, sem direção exata, sem vida e sem futuro.
Aonde é que vamos chegar?
Isso que não consegues falar; está te sufocando e você não sabe quando parar, dar um pause e não se entregar, a vida é um mistério, é um carrossel que não para de girar, um soneto uma peça para mudar. Uma hora terá que parar de se arrastar.
Rafaela Navas é acadêmica em Medicina Veterinária pelo Instituto Federal de Rondônia; reside no interior do estado de Rondônia. Escritora e Poetisa, já teve suas escritas publicadas em antologias e revistas nacional e internacional, teve o seu primeiro livro de poesias publicado aos 19 anos intitulado por “Se o Universo falasse” pela editora curitibana Toma Aí Um Poema.
PS. Não consegui identificar o autor da arte que ilustra esse texto, mas mantive sua assinatura. Se alguém souber, avise a gente, que quero creditar.
A poesia de Lorena Lacerda
O inbox da Kuruma’tá é uma caixa mágica. Uma caixa poética, por onde me chegam as vozes diversas desse Brasil múltiplo, singular. E hoje é a vez de Salvador, Bahia, nos encantar com a poesia de Lorena Lacerda, que nos chega numa flecha só.
O inbox da Kuruma’tá é uma caixa mágica. Uma caixa poética, por onde me chegam as vozes diversas desse Brasil múltiplo, singular. E hoje é a vez de Salvador, Bahia, nos encantar com a poesia de Lorena Lacerda, que nos chega numa flecha só.
Seja bem-vinda, Lorena! A Kuruma’tá é nossa!
Uma flecha só
No meio da mata A onça me ataca, Como um camaleão Eu me camuflo Ela não me escuta E nem me vê
No meio da mata Eu vou à caça, E então me deparo Com uma naja, Mas como uma boa caçadora Já tenho meu plano B
Na caça da vida Sou atiradora, Não fujo de batalha Por mais que seja desesperadora
Na caça da vida Vou com uma flecha só, Analiso o perímetro Cálculo os riscos E atiro. Eu atirei e ninguém viu, Senhor Oxossi é quem sabe O que a menina pediu.
As moças que todos temem
Não é novidade pra ninguém Que mulher com poder Respeito não tem.
Não é novidade pra ninguém Que ter Maria no nome Pode assustar alguém.
Mas… As Marias dessa poesia São as mais temidas, São as famosas Pombagiras.
Da calunga à estrada Da malandragem de Navalha Temem, mas sabem pedir.
As moças sempre te ajudam Mas da mesma forma que o mundo faz com as Marias encarnadas Depois delas fazerem sua “função”, Falam mal E descarta-as
Trovões
Trovejou, Ventou, É o sinal…. Ela levantou.
Saiam da frente, Com a força do búfalo Ela irá passar, Mas não se preocupem, Como uma bela borboleta Isso vai te encantar.
Me ensinou que ser forte Não é ser bruta, Que a vida é uma luta Que devo ganhar de forma astuta.
Ser sua
Vire o espelho para si Se admire em cada detalhe Se idolatre
Não, não é egoísmo Você precisa está bem Faça o que lhe convém
Quem me ensinou Foi uma bela iabá Que se enche de ouro A riqueza de oxalá Principalmente quando se encontra Com as águas de mãe Iemanjá
Colha os lírios Fique sob o clarão da lua E sinta como é bom Ser sua.
Sereia
Sim, sou sereia Com minha pele preta Meu corpo gordo E de cabelo curto, Sereia que canta em um tom grave E tem posicionamento astuto.
Com olhar nem um pouco angelical, Sereia de água quente, Onde o mar quase pega fogo Onde marinheiro passa e faz cara de desgosto.
O marinheiro queria… A minha bela voz doce, Os meus cabelos longos e pretos, O meu corpo curvado, perfeito!
Ah… Marinheiro O mar pegou fogo O peixe palhaço deu sinal, Por que essa sereia no seu corpo Respeitou sua ancestral.
Lorena Lacerda é poeta, Auxiliar de Secretaria e estudante das Terapias Integrativas. Soteropolitana, amante de todas as vertentes da arte, umbandista que faz parte da curimba do seu terreiro, o Templo e Escola Umbandista Pai José de Aruanda, onde canta e toca atabaque. A escrita e a música são as bases que compõem quem é Lorena, e ela compartilha tudo isso no Instagram @ecleticalorena.
Misericordia Dei
Texto de Ana Egito — Compaixão, sentimento presente nas almas humanas que desconhecem a solidão, assim como o não, suas frases, narrativas, tem sempre a primeira palavra a que conforta, anima, enaltece, desenhando a mão estendida, o braço a sustentar o peso que a vida suporta.
Compaixão, sentimento presente nas almas humanas que desconhecem a solidão, assim como o não, suas frases, narrativas, tem sempre a primeira palavra a que conforta, anima, enaltece, desenhando a mão estendida, o braço a sustentar o peso que a vida suporta.
Bendita é a voz que chama, ao ver em aflição os que só conhecem a voz interior, onde só Deus está presente, bendito é o amor que traz de volta a paz sonhada.
Uma guerra está prestes a surgir quando o mundo se enche da incapacidade de respostas, o conhecimento faz um rei, a ignorância cria ditadores, a inveja veste os incrédulos, a soberba crava a coroa na cabeça que de vazia, tomba a esmagar os que galgam o progresso para o bem de todos.
Escalar a montanha e se despir de suas próprias vontades, é mesmo um sacrifício, e se Deus é a personificação do amor, louve a cada passo, agradeça e será agraciado, no topo, vislumbrará as velas acesas dos que elevaram seu pensamento para que seu sacrifício fosse reconhecido por virtudes que só os abençoados são capazes, os que crêem na força capaz de remover cicatrizes doloridas e insuportáveis causadas pelas chagas de um tempo de lágrimas e pouca fé.
Se acredita, será essa a verdade, ela é luz em sombra, mansidão na hora mais esperada, uma porta que se abre, hora de recomeçar.
Foto de Ana Egito
Elis e Karen, 1981
É com alegria gigante que a gente recebe na Kuruma’tá, o escritor, o amigo, Rodrigo Santos, autor dos livros Macumba, Carcará, agraciado com o Prêmio Kuruma’tá de melhor livro de 2021, e o recente Fogo nas Encruzilhadas, entre muitos contos publicados na mais diversas antologias!
Texto de Rodrigo Santos
Foto: Anibal Philot / agência O Globo 1981
— Vambora, meu povo, vamos dar adeus a 1981!
Eu me escorava em um canto, esperando o White Horse falsificado se diluir um pouco no gelo e se tornar minimamente agradável, enquanto a socialite Dorinda de Assis Garcia borboletava pelos convidados como uma fada — uma fada bêbada, é bem verdade — conjurando o ano bom que se iniciava, em sua cobertura em Copacabana.
Eu havia publicado algumas crônicas no Jornal do Brasil, sobre cultura em geral, inclusive música, o que me havia angariado o convite de Nelson Motta para aquela festa. “Precisamos de artistas, escritores, poetas! Essas festas são o auge da caretice carioca, precisamos de amor!”, me dissera ao telefone que eu mal conseguia pagar, naquele kitinete da Rua da Conceição, em Niterói.
Foi assim que, do nada, o escritor de São Gonçalo debutava no grand monde, com glamour e sem dinheiro. A primeira barca de volta para Niterói saía às cinco e meia da manhã — era a minha meta final — enquanto eu tentava fazer contato com algum editor que se dispusesse a publicar meu romance de estreia, o “Mágoa”.
“Parece um romance de alguém que não é romancista”, havia me dito o Cléber Rocha, do jornal “O Fluminense”, o mais vendido em Niterói, cidade que havia sido capital do Estado e que agora amargava uma segunda divisão política. Mesmo assim, era melhor do que ficar em São Gonçalo, minha cidade natal, sendo reduzida gradativamente de cidade industrial para cidade dormitório. Mas nada disso importava naquele momento, ali eu tinha uísque (mesmo que de procedência duvidosa) e canapés. Meu último réveillon tinha sido na portaria do prédio, com coxinhas e Brahma Chopp quente, então eu estava no lucro.
Rostos conhecidos circulavam na multidão, como era de se esperar. Nelsinho passou e me apresentou ao José Augusto, grande compositor. “Tão grande quanto o Roberto, bicho!”, dizia ele. “Este é o escritor de que te falei”, complementava, apenas para trocarmos o olhar condescendente de quem está na pista há muito tempo. Eu estava prestes a cumprimentar o craque Zico e sua esposa, a Sandra, quando Nelson me chamou num canto. O Flamengo havia acabado de ganhar o campeonato mundial, e eu, como bom rubro-negro (quase me chamei Mengálvio, vejam só) ansiava pelo momento de apertar a mão do Galo. Até porque estávamos entrando em ano de Copa, e não tínhamos tanta certeza de um caneco desde 1970! Mas Nelsinho tinha outros planos.
— Esse aqui é o escritor de que falei, Rodrigo Santos. De São Gonçalo.
A pequena notável então abriu o sorriso com os olhos, e exibiu os dentes pequenos. Eu já entrara em anos, não me deixava levar pelas modas musicais desde a decepção com a bossa nova, mas Elis era diferente. Transcendente, reluzente, picante. Não lembro exatamente do que falei (aquele White Horse certamente era paraguaio), mas não acredito que tenha conseguido me comunicar com muita clareza. Elis vinha com o César, seu marido — e grande pianista — e as crianças. João Marcelo era grande, 11 anos já, parecia querer sair dali pra brincar, mas tinha que olhar seus irmãos menores, o Pedro e a Maria, de 6 e 4 anos.
“Gostei muito da versão de Carinhoso que você fez com o Delmiro”, falei com o César, meio balbuciante, mas não acredito que ele tenha prestado muita atenção. João Marcelo tinha sumido, Elis segurava o Pedro pela mão, Maria chorava. Voltei para o copo vazio, e acendi um Continental sem filtro.
A festa se completava em volume e espécie. Renée de Vielmond transitava e exibia o luxo de estar no ar com a novela “Brilhante”. Todos esperavam por Tarcísio Meira, o protagonista, mas ele não apareceu. Lucinha Lins e Cláudio Tovar exibiam sorrisos solares, apagando a vaia do recente festival. Eu fiquei conversando com o César sobre jazz, MPB e escrituras. Lembro inclusive de conversamos sobre mitos gregos na literatura, e acredito até que tenhamos falado sobre Édipo e Jocasta, que anos depois seriam tema de novela e trilha sonora.
Deviam ser já quase onze horas quando eles entraram. O Brasil ainda era uma colônia provinciana que se recusava a entrar nos anos 80, então não se surpreenda que gringos — ainda mais gringos famosos — nos deixassem extasiados. Ele, de cabelinho Príncipe Valente e smoking, branco como uma vela, destoava. Ela, uma beleza no olhar e no sorriso, mas um manequim vazio em seu vestido azul de franjas, despertava um misto de pena e amor de pai em todos nós, quase pedindo um abraço. Os Carpenters.
Nelsinho, onipresente, em poucos minutos nos unia.
— Essa é a Karen, e seu irmão Richard. Richard! — Esse já havia se esgueirado com um novo amigo, um moreno de Copacabana que eu apostava ser um desses arruaceiros que chamavam de Gracie. Foi quando a pequena Maria correu e puxou o vestido de Karen, trazendo sua mãe a tiracolo. — Olha, que criança linda! — vou poupar vocês de anglicismos, a tradução é gratuita na maior parte do tempo. Maria apenas sorriu, envergonhada, e escondeu o rosto na barra do vestido da mãe. Usava uma presilha vermelha nos cabelos, combinando com seus óculos e sua bochecha rosada. — Karen, esse é o César, grande pianista. — Ah, olá! — Vou deixar você aí, tenho que falar aqui com o pessoal. Nelsinho então nos deixou a sós. Eu, um escritor provinciano e penetra, batendo um papo com Karen Carpenter e César Camargo Mariano. E Elis. — Ah, você é a Elis Regina! — Disse Karen. — Ouvi falar de você. Lembro de ter visto um vídeo seu, cantando uma música chamada… Desculpa, meu português é péssimo. Como nosso país, é isso mesmo? Elis, que tirava uma colher de plástico da mão de Maria, entrou na conversa. — Isso, isso mesmo. Como nossos pais. — Quando cantei com a Ella também me falou muito bem do Brasil… Falou-me sobre você, sobre Elza Soares. Até brincou com a semelhança dos nomes, Ella e Elis.
E o papo engrenou. Elis estava em cartaz no Canecão com o show “Trem Azul”, de seu último disco; Karen e o irmão haviam feito um show nas Casas Sendas, no mês anterior. Para o mundo, a turnê dos Carpenters tinha acabado em novembro, mas os irmãos (muito mais por insistência do Richard, devido a sua amizade com o Badu, dos Tincoãs) decidiram ficar para o réveillon de Copacabana — que não tinha ainda a grande queima de fogos, mas já trazia suas multidões vestidas de branco para saudar Iemanjá, independente do credo.
Eu ainda tentei entrar no papo umas duas vezes — quando falavam de praias, não pude deixar de vender Itacoatiara, claro — mas a estupefação era maior. Pedro e Maria estavam brigando por algum motivo, e eu separei, protegendo a menina, que sorriu pra mim.
— Então, você é escritor? Escreve o quê? Richard Carpenter havia se desvencilhado de seu boy e decidiu socializar com os outros mortais. — Romance — novel, isn´t it? — Poemas. — Ah, eu gosto de poemas! Sobre o que fala seu romance? Sobre carnaval, futebol? Já sei, sobre macumba? — E abriu o seu sorriso marca registrada. Os gringos sempre acham que a gente vive sambando, rezando, fazendo embaixadinha e bebendo caipirinha. — Não, não. Mas pode deixar, no meu próximo livro eu falo sobre macumba. — A ideia não era de todo má, não é? — Ah, awesome! Batmacumba yê yê, batmacumba obá! — Ainda bem que ele era pianista. — Você curte um pó? Caía bem agora… — Pó? Não, obrigado. Mas pera aí que vou ver se descolo um para você.
Nem foi difícil, em menos de dez minutos Nelsinho trazia Daniel Filho, que salvava a gente. “Você vai ficar só nesse cavalo paraguaio aí?”, ainda fez troça da minha cara. Mas meu negócio era só birita mesmo. Talvez um fino, mas não queria perder nada daquela noite.
— Vamos todos saudar 1982, o melhor ano de nossas vidas está chegando! — Dorinda assim chamava a todos para o espetáculo da queima de fogos. Olhei para o relógio, faltavam poucos minutos para a meia-noite. Garrafas de champanhe e taças começavam a passar de mão em mão, e uma logo escolheu a minha mão como pouso e repouso, amém.
Fomos para a sacada, um grupo feliz entre tantos outros. Elis ria, jogando a cabeça para trás, e bebia o champanhe, brindando com Karen. Richard coçava o nariz e olhava em volta, à procura de algo (ou alguém?). César segurava em seu colo o pequeno Pedro, que já dormia. Pelo canto do olho eu vi o Sérgio Machado, filho de Seu Alfredo, um dos fundadores da editora Record. “Bom, não vim aqui apenas pra beber champanhe”, mas não consegui me desvencilhar do grupo pois Maria segurava a minha mão.
Após a contagem regressiva, o mundo se iluminou em barulho, com fogos e saudações efusivas. Maria, com medo, pulou no meu colo, e juntos vimos 1982 nascer, entre gritos de “Feliz Ano Novo!” e taças se partindo. Karen nos deu um abraço conjunto, amassando a menina e lhe dando um beijo estalado na bochecha — que Maria logo limpou com as costas da mão.
— Quem é essa moça? — É a segunda maior cantora do mundo. — Eu falei. — Mamãe é a primeira? Apenas sorri. — Você também vai ser cantora quando crescer? — Eu não. — respondeu, balançando a cabeça com força e pulando do meu colo e indo pegar na mão da mãe.
Eu tinha que seguir com o meu plano inicial, Sérgio já me escapava do foco. Dei um beijo na cabeça da menina Maria, e cumprimentei Elis, com felicitações de Ano Novo. Karen Carpenter chegou, com mais uma taça de champanhe. Eu segurava a minha garrafa fechada com egoísmo de quem tinha o ano de 1982 pela frente para beber Brahma Chopp quente.
— Nelsinho! — Pronto, achei a ponte que me levaria ao Sérgio. Mas não podia ir embora sem me despedir da estrela estadunidense. — Karen! Prazer viu? Olha, deixa eu te dizer uma coisa. — Peguei no ombro de Elis e a virei na nossa direção. — Você é maravilhosa, mas a nossa superstar é essa aqui, tá? — e fugi para o salão, saindo com Nelsinho à procura daquele que poderia finalmente publicar o meu primeiro livro, o “Mágoa”.
O resto é resto. O ano de 1982 acabou não sendo o melhor ano de nossas vidas, como a nossa anfitriã previu. Menos de dois meses depois, o mundo perdia a sua maior cantora, a mãe de João, Pedro e Maria. A melhor seleção brasileira de todos os tempos não trouxe a taça pra casa e, pra piorar, no ano seguinte a segunda maior cantora também nos deixou. Não consegui publicar o “Mágoa” pela Record — o que não significou muito, o livro foi um fracasso. Ironicamente, anos depois, lancei um livro chamado “Macumba”, que dediquei ao Richard pela ideia. Cheguei a lhe enviar um exemplar, mas nunca obtive resposta.
E a pequena Maria, de óculos e presilha de cabelos vermelhos, medo de fogos de artifício e bochecha rosada, virou um grande cantora, como aquelas que saudaram a chegada do ano de 1982 na sacada da cobertura de Dorinda de Assis Garcia, acompanhadas de um escritor medíocre — porém esforçado — de São Gonçalo.
Vencemos | Pela lente de Ana Vallestero
Comemoração da vitória de Lula no Recife pela lente de Ana Vallestero — Foi uma alívio no peito, o sopro de angústia que nos deixou. Sabíamos que ele iria utilizar-se da máquina para tentar modificar o destino. Mas se tem algo que não se muda é a força de vontade do Nordestino. A gente é Carcará, não adianta tentar desviar, o bote é certeiro!
Celebrações da vitória de Lula no Recife
Foi uma alívio no peito, o sopro de angústia que nos deixou. Sabíamos que ele iria utilizar-se da máquina para tentar modificar o destino. Mas se tem algo que não se muda é a força de vontade do Nordestino. A gente é Carcará, não adianta tentar desviar, o bote é certeiro! O resultado já estava escrito pelo povo guerreiro, espalhados por todo o mundo mas concentrado numa região que grita e quando grita o resto do mundo ouve. E nesse dia todos nós em uma só voz gritamos “Lula Presidente do Brasil!” Na verdade foi… “Ei Bolsonaro, Vai tomar no … O resto vocês já sabem.
Ontem, depois de encontrar com o amigo e poeta Edmilson Santini no Largo da Carioca, dei de cara com a barraca da baiana e parei para um ansiado acarajé. Desde o afrouxamento das medidas de isolamento que eu passava por ali e não via a baiana e já achava que sua barraca havia sucumbido, como tantas outras inciativas maravilhosas, ao rigor da pandemia. Mas eis que me enganei, para felicidade geral de quem frequenta ali a região. E eu estava doido por um acarajé há dias, então foi uma coração de um reencontro e o sortilégio de um desejo realizado. Alegria que só mesmo um bom acarajé pode proporcionar.
Ocupei um mesinha de madeira, daquelas de boteco, com meu acarajé e uma Coca-Cola e pensei em Gal Costa, que a gente havia perdido no dia anterior. Ah, pensei na Bahia, na minha amiga Nara, que certa vez visitei em Salvador, depois de comer um acarajé no Rio Vermelho.
Você sabia que tem a capa de um disco do Luiz Gonzaga que foi fotografada ali, juntinho do edifício Avenida Central? E vocês sabiam que Gal gravou um versão absolutamente bela de Acauã? E que ali, quando era somente um buraco da construção do Metrô, foi cenário para o filme A queda, do Ruy Guerra?! Tantos Brasis a sorrir dentro de mim*, enquanto eu comia um acarajé e pensava na Gal cantarolando Baby.
Você precisa saber de mim…
Esse negócio de autoria, pensava eu saboreando a pimenta, é uma coisa muito louca. Dizer que Gal era intérprete, pensava eu deleitado de dendê, é saber tão pouco sobre o que é compor uma música. Gal era uma compositora, uma criadora de universos com sua voz. Você pega Vapor barato, gravada no disco Fa-tal, e pra mim Gal é coautora. Porque o conceito jurídico, sei lá, de autoria não me interessa de jeito nenhum.
Gente, acarajé faz a gente pensar. Tava um sol lindo no Rio, depois de dias de chuva e essa friagem carioca de 19º. enumerei de cabeça os clássicos definitivos alinhavados por Gal ao longo dos anos, de décadas. E são tantos…. Eu e meu amigo Jorge LZ preparamos um programa na Rádio Graviola em homenagem a Gal. Que coisa mais impossível selecionar as canções. Por mais que a gente escolhia, mais ficava de fora. Pensei que o programa poderia continuar, iria continuar por conta dos ouvintes, que correrias para seus CDs, vinis ou plataformas para preencher as tantas, imensas lacunas, do nosso modesto programa de rádio, tão menor que Gal.
Escutava no meu fone de ouvido, enquanto desfiava o acarajé, com o camarão seco desafiando a gravidade, a gravação de Mãe, de Caetano. Pra mim (escolha a sua) a melhor canção gravado por Gal. A mais bela. E minha própria mãe tão longe do Largo da Carioca, lá na rua dos Tamoios, em Natal, no Rio Grande do Norte… Vixe, que vontade de chorar me deu. Guitarras, salas, vento, chão / Que dor no coração. Desculpa, Caetano, mas essa música é da Gal. Essa música é minha toda vez que a escuto. Eu a recrio ao sabor da voz de Gal a cada audição. Nova e inédita toda vez que toca no rádio da minha consciência.
Toda música é um ponto luminoso onde tanta gente se encontra.
Gal era uma espécie, pois, de Quatro Cantos de Olinda. Nela desaguavam Caetano, Caymmi, Luiz Gonzaga. Cada rua de Salvador dava nela; onda quebrando em praia, moça de saia rendada dançando no terreiro. A luz do sol, o barulho do vento… Tudo permeado pela voz de Gal, tudo apontando o rumo dela. Porque Gal Costa era a maior cantora brasileira. A voz de uma geração atrás da outra. Voz que, graças a invenção do fonógrafo, vai continuar a alimentar esse rio caudaloso de pessoas que precisam de uma bela canção no fim de um dia difícil, ou de um dia divino, maravilhoso.
Sabe, vejo muita gente associando voz a instrumento musical. A voz de fulano é seu instrumento musical, como se isso agregasse valor à voz. Vejo distintamente… a voz de Gal era sua pessoa. Voz é gente, não é instrumento. Uma projeção do ser no ar. Por isso quem ressoava ali comigo, enquanto eu caminhava pelo sol do Largo da Carioca com o sabor/saber do acarajé resistindo na boca, era a própria Gal, desmentindo sua morte. Somos eternos, pensei. Talvez fosse o acarajé agindo sobre meus pensamentos. Que fosse então. Melhor assim. Melhor pensar que somos eternos, que perduramos, que persistimos. Numa voz, numa memória, numa foto. Lembrei da foto da capa do disco Domingo, que ela gravou com Caetano. Ela e ele num frame, preto e branco, num dia de sol. Fiquei comovido
Queria que aquele acarajé durasse uma eternidade. Sabor alegre da Bahia, sol no Largo da Carioca, Gal Costa na cabeça. Pensamentos vários, entrelaçados, vívidos, sobre as pessoas, a cultura, a história da nossa gente. Sobre mim mesmo e aquele que, pra mim, é agora o Acarajé da Gal.
*parafraseando o último verso do poema Loucura, de Florbela Espanca: Tantas almas a rir dentro da minha.
Rio Grande do Norte representado na poesia de Wagner Cortês
Wagner Cortês é mais um poeta que nos chega pela nossa Chamada para Publicação. A muito nos orgulha a qualidade do trabalho que está inundando nosso inbox. Direto da cidade de Carnaúba dos Dantas, onde vive, no Rio Grande do Norte, Wagner nos brinda com sua poética que nos chama à terra, à miudeza do mundo e também à vida das gentes sobre esse mesmo mundo! Bem-vindo, Wagner!
Antefaces
escondeu-se pelo cuidado seu rosto guardado metade cheiro descartável invade a respiração de um sorriso largo enclausurado pela farsa começou a chamar de riso os olhos que viam o outro
Perceptível a olho nu
ao seu redor tudo era vivo as formigas besouros escorpiões aranhas lacraias minhocas todos rastejadores de cotidiano habitantes de instantes cada um no seu percurso
tanta vida na miudeza
envergonhou-se em ser pedra quebrou-se ao meio e viu a beleza de dentro seu ser-tão vivo
Intransponível
a estrada me olhou com os olhos devoradores de passagem pegadas de ontem enfileiradas seguiam seu curso sem volta
passagem é nome-cidade de habitantes nômades somente as marcas permanecem riscadas em caules em baixo relevo chão fezes
tudo fica pra ontem
Miragem sertão
depois da janela o sol beijava as coisas filhote de pássaro chamava a mãe a macambira arranhava pedras
depois da janela recriei a cena sertão tinha pernas de sariema andava na terra quente comendo poeira de redemoinho sertão tinha olhos de espinhos facheiro avoava da cor de concriz no rastro da cascavel cantava repente e cuspia o veneno do peito
depois da janela sertão rezava de unha encardida com terço na mão ave maria na boca da noite
depois da janela silêncio estiagem badalava o chocalho pouco sertão chorava água doce no sonho de um inverno pesado
Manifesto
ao mundo de gente eu grito: ódio não é coisa boa é desgraça guardada em garrafa de vidro
ao mundo de gente eu digo: rancor não é coisa boa é cativeiro algoz no corpo escondido
ao mundo de gente eu choro: depressão não é coisa boa é sangue alvacento inodoro
ao mundo de gente eu sussurro: escuta coisas boas há chance para vida escalar os muros
ao mundo de gente eu trago oração: sorria de dentro escancare os dentes da face do seu coração
Burocracia
oh dia burocrático! venho por meio deste ofício pedir-lhe com muito esmero que faça um sacrifício muito simples por sinal
estique a boca da segunda para que as terças, quartas, quintas e sextas-feiras desprendam o riso e façam a semana toda burocraRISAR
Suicídio poético
hoje me deu vontade de rasgar todos os poemas que talvez nem sejam poemas que penei em escrevê-los
hoje pensei em assassinar o poeta que talvez nem seja poeta mas penei em querer ser nem que fosse em um instante
hoje ocasionou desânimo um fracasso descomunal pessimismo estranho quebrei o ego do meu lápis tolo
hoje não me deu vontade de poeta não me deu vontade de rima não me deu vontade vontade nenhuma
hoje me entrego ao suicídio das palavras morto nos versos quem sabe assim viro poesia
Som no App: 3 singles lindos – Iara Rennó, Bela Ciavatta e Gabriel Vale
Lula no assentado no Planalto Central e 3 singles lindos para um novo Brasil. Vibrante, quente, diverso, bonito e com a cultura derramada pelas ruas, para toda gente, finalmente!
É nessa vibe da mudança que a gente traz pra vocês…
DICAS KURUMA’TÁ
Lula no assentado no Planalto Central e 3 singles lindos para um novo Brasil. Vibrante, quente, diverso, bonito e com a cultura derramada pelas ruas, para toda gente, finalmente!
É nessa vibe da mudança que a gente traz pra vocês…
Iara Rennóe Curumin com Flecha (Òkè Aró), que tá no belíssimo disco Okírì, recém lançado pela Iara, e já indicado para o Grammy Latino de 2022. Okírì é o oitavo disco da artista.
Venho ao que vim é single da carioca Bela Ciavatta, acompanhado desse bonito videoclip! Boa de cantar, boa de dançar, boa de dar as mãos para rodar na praça. A assinatura brasileiríssima da canção encanta e chama pra festa!
Gabriel Vale nos brinda com uma versão para Carcará, do seu avô João do Vale! Gabriel se debruça sobre a obra mais conhecida do seu avô com carinho, contemporaneidade e sensibilidade certeira nesse país que se inaugura!
Começo de nova era no Brasil, embalados por um cancioneiro rico e representativo dessa gente bonita espalhada por aí, esperançosa de dias melhores e justos.