Ela não sabe que existe o Pinterest. Poderia colecionar imagens de nuvens

Vento de ligeiro frio. Todos sentem igual. Nada pode com o vento. O acumulo de ar beneficia as pedras, as plantas, seres que habitam. Tudo agora é qualquer coisa. — Texto de Salma Soria

Texto de Salma Soria


Vento de ligeiro frio. Todos sentem igual. Nada pode com o vento. O acumulo de ar beneficia as pedras, as plantas, seres que habitam. Tudo agora é qualquer coisa. Alguém a faz olhar automaticamente para o seu instrumento de trabalho, um tabuleiro de frutas repousado na altura dos quadris, os ponteiros dos relógios marcam as horas, o tempo segue a norma, silencioso pacto coletivo de não se importar.

Seus olhos são alienados. Nem buzinas, nem megafones rompem a concentração dos sonhos de dentro. O vento desconcerta os cabelos, a ponta de seu longo vestido vermelho flutua perto da parede. Uma placa de trânsito cai rente ao ombro dela.

“São três por cinco senhora”.
“Aqui está”.
“Obrigado senhora”.

Naquela manhã tudo reluzia com boa vontade. O silêncio, forjado como aceno de paz, se ausenta em meio a gritaria de compre isso compre aqui. A rua inteira se confunde com cheiro de peixe, laranja, melancia, temperos. Chão molhado de gelo. A tranquilidade é inodora.

“Tá fresquinho?”.
“Sim, senhora, é de hoje”.
“Não quer levar mais alguma coisa?”
“Quero não, Selene, muito obrigada!”
“Está bem. Até mais!”.

Sempre que termina de embrulhar as frutas vendidas, Selene olha para o céu. Quer fazer umas perguntas. Mas não consegue saber o que falar. O céu é tão longe.

O barraqueiro ao lado se preocupa com os instantes em que Selene se ausenta por longos períodos olhando para cima. Até que ela percebe, isso sempre acontece, não gosta que a controlem, não gosta de ser observada. Disfarça arrumando as frutas. E o barraqueiro também disfarça:

“Ei, será que chove? Tá com cara né?”.
“Tô preocupada porque deixei a roupa no varal”.

Com o dia translúcido e céu sem neblina, todo mundo sabia que jamais choveria naquele dia inteiro de julho. Já comentam entre as barracas sobre a sanidade mental dela que evita ao máximo olhar para o céu quando todo mundo a olha. É quando abaixa a cabeça, pega um pequeno caderninho e anota uns detalhes para não se perder.

como as nuvenzinhas se partem pelo meio?
por que não caem?
é Deus que assopra as nuvens? Quem cuida delas?
a fumaça copia o algodão celeste, mas esse fumaceiro não consegue chegar até o céu. nem fumaça nem nuvem o céu aspira a queda igual o asfalto aspira a chuva e o ar aspira as fruta

Por conta da lona preta que forra a casa onde vez ou outra sai voando por aí é que aprendeu a observar no telhado que o céu existe. Gosta dos formatos decorativos de nuvens. Mora só. Sonha com uma casa inteirinha feita de crochê. Esse sonho, quer materializar e sempre quando a vontade bate forte, contempla sozinha no meio da sala.

“Seria tão bom deixar as coisas de casa macias”.

Se alimenta das frutas que sobram no fim do expediente e de vez em quando se dá ao luxo de comer uma fritura. Bolinho. De chuva. Quando come esses bolinhos, gosta de fazer um ritual que a faz sentir como madame: pega a única xícara da casa, não sabe dizer se aquilo é porcelana ou plástico, até que tem um brilho translucido entre a amarelidão crescente das bordas, pega a única colherzinha do armário enferrujado, esquenta a água na chaleira de cabo quebrado, colhe umas cinco folhinhas de hortelã, coloca no fundo da xícara, joga a água fervente, se fascina em ver parte da água evaporar pela cara enquanto sobe um aroma gostosinho, pega os cinco bolinhos que preparou, coloca sobre o papel toalha, cuidadosamente carrega os bolinhos envoltos no papel e a xícara, senta na rede estendida no meio da sala e tilinta por vários minutos a colherzinha na xícara, assopra delicadamente, esperando esfriar. O coração é tomado pelo alumbramento que vem da cara recém aquecida.

“Vaporzinho bom”

Balança a rede com as próprias pernas. Mastiga devagarinho o bolinho para não acabar o momento que nem sabe dizer, só é gostosinho. Se um dia perguntarem a ela, coisa que nunca fizeram, Selene gostaria de dizer que seu prato preferido é bolinho de chuva. Só não gosta de peixe. Nem de peixaria. O motivo foi um pescador que fez o que fez com ela, coisa que nem gosta de explicar.
Os dias passam e Selene se entrega ao vento manso, sem contramão. Tem vontade de ser vento, de se germinar por ele mesmo sem saber se essa semente de ventanias dará frutos. Certa vez, um único moço perguntou porque ela gosta tanto de olhar para o céu.

“Acho que as nuvens distraem para a gente não saber de que cor é o vento. Tu sabe dizer se tem como se esconder pelo vento?”
“O vento existe para ouvir ele, né?”

Nesse dia, o moço, coitado, balançou a cabeça negativamente e não soube responder a nenhuma das perguntas anteriores.
Nos fins de semana gosta de sol, de apreciar beija-flores nos galhos das manhãs.

“Tinha um beija-flor aqui, mas já foi embora”.

Tem um terreno baldio ao lado da casa. A vizinhança escolheu esse lugar para descartar o lixo. Uma vez Selene achou cacos prateados pelo chão, possivelmente bolas de natal quebradas. Recolheu uma a uma e as guardou para enfeitar pelas paredes no dia que tiver uma parede de verdade.

Ela pensa e pensa profundamente no quão longe uma nuvem pode chegar, essa equação sem resposta, sem mais ou menos qualquer outra coisa porque se atrapalha e não consegue saber como. Tem vezes que a ideia se conjuga aflita. Especialmente quando um tomate cai sobre os pés. E isso sempre acontece pela feira. As vísceras molhadas do tomate entre os dedinhos do pé fazem com que se apresse e jogue asfalto por cima da pele para estancar o gelado.

Adora quando passa o Voyage branco 1988 do vizinho e o carburador expelindo fumaça negra. O perfume do escapamento dá uma alegria. O vizinho acelera, desesperado, mas é aí que ela corre atrás dele com toda velocidade que consegue só para desfrutar um pouco mais do vapor arranhado. E quanto mais o motorista acelera, a dura fumaça sobe e um festival de diversas nuances em nuvens escuras se torna perceptível ao olho. De todo mundo.

Selene nunca para de correr atrás desse carro. Corre até as pernas bambearem. É quando a tosse começa, alguma coisa do olho começa a pinicar, o frio de dentro emerge e o corpo todo, subitamente desmaiado, adere ao chão da rua. Neste barro atormentado de tantas marcas é que vez ou outra consegue chegar mais perto de um céu que só ela sabe. Se soubesse que existe o Pinterest, poderia colecionar imagens de nuvens.


Poemas de Três línguas, livro de Verônica Ramalho

Que Verônica Ramalho e sua poesia inventiva, que brinca e desafia e transcende a língua , sejam muito bem-vindas às águas da Kuruma’tá! Alegria grande ler esses poemas, bons de ler em voz alta. Esses versos me lembraram um verso de outro poeta, Caetano Veloso, em sua canção Língua: Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões. É bem isso, falar não é movimento involuntário. É intenção, desejo. Roçar.

Na poesia de Verônica, há ainda esse significado sensorial, da percepção física das palavras. Nos permite sair da emissão vocal padrão, ilusória e despercebida, para sentir o sabor tátil das palavras.

“Invisto em uma linha de comunicação que explora os recursos textuais para deslocar a imaginação da história narrada para os efeitos do texto em si. Para mim, a estrutura do texto é a parte mais importante da escrita”, aponta. “Subverter a língua é um desafio, um jeito de superar o risco, de tensionar as estruturas.” — Verônica Ramalho

Compre aqui seu exemplar

Três línguas é dividido em três parte, Deos, Antígona e Jardim, e aqui temos uma seleção de cinco poemas compreendendo essas três passagens.


1 de 5 (Deos)

Coço a orelha com a língua.
Toda a massa meio mole, aflição intensa.

 


2 de 5 (Deos)

Deriva a língua na ponta de cima, a ponta se empina, sinal insonoro.
O tempo empilha cada corte de unha, cada resto de resto, cada naco de pele, cada parte de sobra, um grão.
Toda a terra o que sou. O caminho se espalha, camadas de cacas, sou todo chão. Provo o relevo novo, subo morros mirantes escalo. Todo o relevo feito do que caiu de mim. O nada se preenche de aparas.

 


3 de 5 (Antígona)

Trapos amontoado peles restos podres, acampamento desfeito cheiro humano. Rastros frações amortizadas. Tecido papelão roídos, gordura, gosto conhecido. Saibo queima carvão gravado.
Calha escorre água preta, linfa urbana escorre encontra grelha, deslizo, sumidouro, ultrapasso. Língua queima, molhado aço. Evapora arrasto.

 


4 de 5 (Jardim)

Línguas erguidas arfam, tremem secas a agonia da espera. Brancas, amarelas, castanhas, o jardim palpita ocre.
Há cortes bolhas bolotas, algumas camuflam herpes. Aftas se reproduzem, escorre pus pelo gramado.
Erguidas, as línguas arfam. Exibem sua decomposição.

 


5 de 5 (Jardim)

Lambidas pardas cortam a névoa, recendem cáseos. A flora muscular fede. Saburra é escudo e espelho pro cheiro forte, miasma intenso atordoa.
Lambidas desordenadas se esbarram, alvoroço, indisposição e calor.
Corpos em leque, as plantas abanam. Aragem distribui e dispersa o azedo, sopro manso. Assobio simula coro, aravia.

Verônica Ramalho

Verônica Ramalho tem dois olhos míopes e uma língua lépida nascidos em Santos, litoral de São Paulo, em uma segunda-feira de tempestade em 1987. Formada em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos, dirigiu curtas-metragens e trabalhou por dez anos como cenógrafa para televisão, teatro e cinema. Atualmente é tradutora e escritora. “Três línguas” é seu segundo livro, contemplado pelo edital de fomento ProAC.


A poesia de Árion Lucas

Bem-vindo, Árion, às páginas da Revista Kuruma’tá, com sua poesia das boas, dessas que nos assaltam de surpresa. “que susto!”… que verso bom demais pra começar um poema, pra começar a vida, para saudar os encontros!

Bora ler logo Árion!

lanterna

que susto!
um macaco
esfomeado
descendo
subindo o
cipó sozinho
no meio da
encruzilhada
a galinha
olhos vermelhos
debaixo
da bananeira
choca os ovos
branca nas penas
nesse frio
um gato preto
passa correndo
farfalhando terra
três cães atrás
o dono em guerra
vem resgatar
vestes escondidas
pra ninguém roubar
diz pus óleo
esquentei
coisa e tal
ia jantar
veio a chuva
pum!
caiu assim
do meu lado
mas saímo ileso
foi deus
depois cortei
isso fui eu
fizemo fogueira
mas hoje durmo
na usina
não tem jeito
muita cobra
recuperando
cada toca
sabe o que faço
se uma dessas aparecer?
se me atacar
eu mato
senão vou assim
se não tem? rapaz
mas tem muita
mais até
que as bostas
as garrafas
e o pano
amarelo
dobrado no
galho
com cupins
do cimento
recém-restaurado
preto cremoso
sob o pneu do
pictograma
escorregadio
na placa torta
ao ônibus da seta
as cigarras
entrecortadas
por carros
na lanterna
do imperador
doada ao alto
pelo feudo oriental
em 1957
sob a palmeira
que corre o risco
de apagar

 


clareira

em sopros de outra vida
desassossegos dorminhocos
as panelas estão de volta
na subida do alto paraíso
empilhadas que nem pagode
em frente desse caminhão
seus vendedores sob o sol
dois senhores numa cadeira
o galo cantando no morro
pra família num piquenique
as crianças entrando no mato
à procura dos mitos passados
dos três troncos quebrados
que formaram um triângulo
entre os cacos de carinho
seus moradores alertando
nossa casa é esta terra
do povo usando chinelo
os corredores sob as copas
labirinto de palmeiras cruas
entupiu? limpeza de fossas
o caminhão perto do vovô
que poderia ter sido um poeta
mas saltou do táxi pra roncar

do zine rota alto, 2021


Árion Lucas é um autor carioca nascido em 1992. Vende zines independentes no bairro Alto da Boa Vista. Publicou os romances Pequenos Sonhos do Tempo (Jaguatirica, 2019) e Todos os Fins (Urutau, 2021), os livros de poesia Silêncio a Lapsos (Urutau, 2019) e Casa Praça (Trevo, 2022), a coletânea de contos Espelho de Nuvens Sãs (Amazon KDP, 2019), além de escrever quinzenalmente crônicas inéditas em arionlucas.medium.com


Tempo sem cruz | Poemas de Flora Miguel

Conexões maravilhosas. De São Paulo, onde passava uns dias, meu amigo Jorge LZ me fez essa ponte generosa com a poeta Flora Miguel, e com sua poesia. Hoje a Kuruma’tá publica, com alegria, cinco poema do livro Tempo sem cruz, que Flora lançou recentemente, pela Editora Primata.

Conexões maravilhosas. De São Paulo, onde passava uns dias, meu amigo Jorge LZ me fez essa ponte generosa com a poeta Flora Miguel, e com sua poesia. Hoje a Kuruma’tá publica, com alegria, cinco poema do livro Tempo sem cruz, que Flora lançou recentemente, pela Editora Primata.


Nestes poemas, as formas de contragolpear o bloqueio do futuro carregam uma espécie de ambivalência produtiva, estratégia lírica desfolhada em uma bandeira ao mesmo tempo política e afetiva. Se a consciência dos limites (os nossos e os do mundo) se impõem em números e dados objetivos, a força das coisas miúdas também é reconhecida, entre outras coisas, na elegância guerreira das formigas: “folha que é escudo!/ graveto que é lança!”.

Da apresentação de Andrei Reina
jornalista de arte e cultura e mestrando
em sociologia na USP, com pesquisa
sobre a teoria crítica brasileira.

tempo sem cruz

alguém te liga na manhãzinha
uma voz de plástico derretido
afônica
chega até a sua orelha

e você pensa em Olga
em Priscila em Luanda
Tânia Bruna Mari
Sandra

você pensa em toda a
revolução social
que é um útero dizendo
não
dizendo
não agora
dizendo shiu
dizendo quando como e por que
dizendo escuta,
apesar da guerra
há maneiras
de sangrar

e ainda que você tenha lido que foram identificados
770 óbitos maternos com causa básica
aborto
no SIM de 2006 a 2015
que se somados aos 220 óbitos que têm o aborto
como uma das causas mencionadas
representariam um acréscimo de aprox. 30%
no total de óbitos associados ao aborto
no mesmo período
fora a subnotificação,
você pensa mais uma viva
renova votos na causa
[errada?]
quer chorar
quer sonhar
acordada


refugiados

sentir a praça pelos pés
discutir Tolstói com as mãos

também desejamos terra

terra é carne que quanto
mais se reparte
mais se tem

das nuvens
nenhuma palavra:
pacto de cumplicidade


película de horror

nessa parte arrancada se senta um gato
ronrona e aprendo [o diabo é uma mulher
chamada Siri e tem sempre tempo
para o conhecimento]
que gatos domésticos
ronronam em frequência máxima de 30,2hz
e que diferentemente do miado
o ronronar produz um som de timbre grave
audível somente a distâncias curtas

nessa parte rasgada
à faca afiada
cachorros fazem festas

esse trecho esse treco oco
é pista para uma mosca
que depois de toda vida dedicada à transmutação envelhece como hospedeira de agentes patogênicos
como qualquer um de nós

nesse vão se chocam todas as quinas
enfiam dedos fincam,
seguros
e inseguros,
os dias

talvez não seja a única a sentir
a confusa presença do que é ausente
instrumento desafinado aposentado
lidando com seus ruídos


formiga

1
estender a canga
intervir
no trajeto das formigas

por entre as dobras
de chita
travar batalha
minimalista

2
A estudante de Pós-Doutorado em Entomologia do Instituto Nacional de Pesquisa da Biodiversidade Florestal, Luana C., foi responsável por um estudo inédito que monitora o impacto de uma fábrica têxtil de larga escala na fauna das formigas

3
desde a infância Luana C.
foi extremamente sensível

fazia dança aeróbica e clássica,
brincava sempre de teatro
– atriz é porvir
desenhava histórias sobre
seres fantásticos
em pequenos recortes
de papel furta-cor

a cada ocasião considerada especial
compunha música própria
letra e melodia
e se fazia um dia de sol e calor
coreografava a criação

costumava dizer que seria cientista
mesmo com a desenvoltura para as artes
em pura combustão

passava horas observando as galinhas
do quintal
conversava piu, piu, piá
no balanço de pneu
pendurado em enorme tronco de árvore

anotava suas considerações
num grande caderno de folhas mistas tons
de terra e céu
e encadernação feita pela mãe
com maquinário próprio
instalado na lavanderia da família
das formigas,
ao interagir forçosamente
mas ainda com o notório embaraço,
admirava a elegância:
folha que é escudo!
graveto que é lança!

4
Luana C. morreu
já tem sete anos
o rim perfurado
pela bala do milico
policializado

morreu e eu a procuro
procuro e a reinvento
que a atriz merece o melhor
papel
tons de terra e céu
pneu nunca de moto
parada em nenhuma autopista
prêmio Nobel:
melhor cientista

5
a gente sem escudo
nem lança

sem cortina sem regente

o furo agudo estridente
no canto da nossa barriga

a polícia mata a gente
como a gente amassa formiga


um faquir no viaduto

na cama de pedras pontiagudas
o peito já rasgado
não tem mistério em sorrir
tamanduá
espantar pombos cerrar punhos
ver no que dá

magia é a fumaça da moto
andando com a moto
a moto em zigue zague
a troco de quê
ninguém
sabe

a moto,
palito de fósforo
riscando sua noite com nuvens

[O viaduto se transforma num céu. Sinos tocam.]

feito o arco de luz que acompanha
a porta da sala batendo na cara
cala
como quem jaz
canta
como quem chora

no dia em que eu vim embora
não tinha nada demais


Flora Miguel é jornalista, trabalhadora da cultura, poeta. Tem textos esparramados por veículos literários no Brasil, Portugal e México.


Este é o meu tio: Alfredinho Bip Bip

Texto lindo, comovente, de Franklin Mello, sobrinho/filho do mestre Alfredinho Bip Bip. Para quem é de fora e por acaso não conheça a história de Alfredinho, saiba, entre tantas coisas e gestos de sua história, ele “comandou” com leveza o boteco mais afetivo desse meu Rio de Janeiro.

E para saber mais, siga o fio do querido Franklin nessa prosa boa!


Este é meu tio. Alfredo Jacinto Melo (erro do escrivão contra os dois L de toda a família), ou apenas, como preferia , Alfredinho Bip Bip. Mais que um tio, um pai. Segurou as pontas quando o verdadeiro progenitor sumiu. Irmão da minha mãe, cuidou para que os sobrinhos tivessem boa educação.

Cheguei a trabalhar com ele; primeiro no escritório de importação e exportação na rua Teófilo Otoni, centro do rio, onde , por uma razão que desconheço, era chamado de Peniche.

Depois, no Bip seminal.

Éramos poucos, Alfredinho, Cristina Buarque e eu, que fiquei responsável, com a ajuda dela, pelo balcão e por lavar os copos. O boteco não tinha petiscos. Só bebida. Nordestinas batidas vindas de Bangu, uísque vodka água e Cerpinha, uma cerveja longneck paraense. Se lembrar de mais, registro.

O banheiro do boteco era reverenciado como o mais limpo da Zona Sul. Era verdade, limpíssimo. E unissex.

Alfredo era católico e comunista . Eu discordo um pouco. Ele era socialista. Tinha um sonho de que no Brasil todos teriam, no mínimo, quatro refeições por dia. Além de educação adequada.

Apoiou quem apostava nesta ideia, neste projeto. Brizola, Darcy Ribeiro. E Lula e o PT. Viveu sua breve vida fiel à ideia de que todos tem direitos básicos.

Seus aniversários eram muito comemorados. Todos podiam participar , desde que trouxessem um quilo de alimentos não perecíveis. Que depois seriam distibuídos às entidades.

Sou testemunha ocular da história: vi montanhas de doações; montanhas.

Depois ele começou a coletar gorjetas em dinheiro no próprio bar (continua até hoje. Participem!). Depositadas numa caixa, vão sendo acumuladas, para financiar, no Natal, um almoço caprichado para os que nada tem . Os amigos ajudam, os restaurantes ajudam, na preparação. Todos ajudam. E num momento em que a alegria invade alguns, a tristeza toma os corações de centenas. O almoço de Natal conforta e aquece esses corações.

Este foi meu tio.

Um real não pesa na sua carteira, mas faz uma diferença na vida de tantos. Este é o meu projeto. Um real para manter as pessoas alimentadas. Estou esperando o projeto do Betinho – para fazer a proposta aqui. Apenas um real (ou doações em alimento) e vamos acabar com a fome no Brasil.

PS. O bip bip está em atividade e continua com os projetos sociais. Procurem o Matias Bidart. Ele é nosso braço forte . Obrigado.


O voo ligeiro e o xêro

Texto de Caru


Alguém está perdida. Eu ouvi. De repente histórias se cruzaram. Horários confusos. Relógios trocados. Talvez não dê tempo. O portão verde está fechado. Eu quase que não entro. Quase não te vejo. Quase não encontro. Quase não ganho o xêro que desejei. E que me foi concedido. Carro. Pessoas. Caminho trocado. As unhas agora estão no volante. E mais tarde? Por enquanto, o ângulo do retrovisor não tinha me dito nada. Luzes acesas. Revelando o interior. No centro. Um beijo para começar. Arrepios densos. Pode continuar. Alguém me conta histórias pelo caminho. Eu as ouço. As escrevo. Guardo comigo. Vivo. (Re)vivo. Cada piscar, uma palavra. Cruzamentos. Sinal fechado. Convite para outro beijo. Vaga na porta. Sorte. Gemidos na entrada. O norte. Acho que cheguei. Geme lá ou aqui? Mãos enormes. Lindas. Luzes vermelhas ou verdes? Tanto faz. Acabo de ver em qualquer cor. Um dos únicos pedaços sem pêlos. Boca cheia. Língua farta. E os outros relevos. Geografias. Na faixa. Seu seio no meu. Sabemos quando encaixa. Nessa cama encontramos histórias. Solidões cruzadas. Tatuagens e seus tantos significados. Encontros. Nomes, vários. Chupávamos pitombas imaginárias ali. Nas bocas juntas ou separadas. Uma simples pergunta: posso te alisar? A unha pode te arranhar? Na sua coxa, agora sei o desenho. Talvez eu não veja mais. Será? Vi de pertinho seu furo no queixo. O voo da libélula é ligeiro. Transformações. Alguém está descobrindo novos desejos.


Jorge du Peixe no Circo Voador – O Baião Granfino de Luiz Gonzaga


Pela primeira vez, desde o começo da pandemia que nunca acaba, adentrei a madrugada sob a lona do Circo Voador. É um reencontro com o Rio de Janeiro, com o espírito da cultura livre, com a arte feita por gente. Viva o Circo Voador! Os portões abrem às 22h, mas nada começa antes de meia-noite. Talvez porque o rito exija a transformação, a fada do contrário, que à zero hora nos liberta da abóbora para a farra no palácio.

Era lá pra uma da madrugada quando Siba, primeiro show da noite, pisou no palco para esquentar e animar a plateia, com riqueza rítmica, bom humor e a poderosa carga política e carnavalesca de A Turma Tá Subindo.

A turma tá na rua e não vai mais parar
Tão gritando alto pra você ouvir
Acima de tudo não é seu lugar
Abaixo de todos você vai sumir 

Quase duas da madrugada, Jorge du Peixe e sua banda preciosa adentram o palco. Gente, não tenho mais idade pra varar a madrugada desse jeito, mas foi só os acordes e melodias imortais de Assum preto soarem na atmosfera pra eu lembrar que estava ali para reverenciar a obra de Luiz Gonzaga, sua Majestade o Rei do Baião, na leitura comovente de Barão Granfino, disco carregado de afeto que Jorge lançou em setembro de 2021 e apresentava ali, num retorno à luminosidade do Circo Voador, como eu.

Que alegria imensa, nesse junho em que o Ciclo Junino desperta do seu sono pandêmico, ouvir as canções de Luiz Gonzaga em interpretações tão bonitas, realizadas com tanto cuidado e respeito, evocando a modernidade e elegância que é própria do repertório que Jorge alinhou tão bem no disco, e que desfiou ali num palco do Rio de Janeiro como quem pisa o chão dos sertões de Pernambuco. Porque realmente o que Jorge fez não foi modernizar Gonzaga, e sim evidenciar o tanto que sua música é moderna, altamente contemporânea e perene. E assim, o fole roncou e a poeira subiu. Cheiro de São João no ar e a fogueira viva de uma banda profundamente comprometida com essa tradição de um povo, que resiste, insiste e se impõe na hora que a gente quer falar do Brasil

Um show que renovou minhas forças e minha fé.

Música a música, Jorge du Peixe transformou a pista em terreiro de festa do interior. Não decorei setlist porque tava encantado demais e envolvido demais pelo ritmo, pela poesia e pela dimensão gigantesca do mestre Lua., mas escutamos ali o disco inteiro, com algumas adições como O último pau de arara e Festa (Belo é o Recife pegando fogo / Na pisada do maracatu). Ao mesmo tempo que éramos transportados para um Nordeste mítico, a brasilidade desse mesmo Nordeste se declarava por inteiro, tornando irreal essa ideia de uma cultura separada. Tá tudo entranhado, Nordeste é Brasil. Luiz Gonzaga é artista brasileiro.

Voltamos pra casa quase às quatro da madrugada, enlevados, reconectados com a energia vibrante das nossas raízes, que se espalha pelos nossos galhos e folhagens e nos faz crescer. Hoje mesmo, enquanto escrevo essas notas, estou ao som de Gonzaga e do Barão Granfino.

Ai, ai, Baião, você venceu!
Mas no sertão, ninguém lhe esqueceu

Longe do Recife, das fogueiras da minha rua de infância, lembrei do dia em que vi Rei do Baião no Aeroporto dos Guararapes, lembrei do meu pai, que na minha cabeça tem essa conexão com Luiz Gonzaga, talvez pela canção A vida do viajante, que foi a vida que meu pai levou. Gonzaga mexe com a gente e o Baião Granfino que Jorge du Peixe apresentou no Circo Voador nos devolve a um Brasil que prezamos, que queremos, pelo qual lutamos. O Brasil da alegria, da poesia, da festa do povo.

Viva o milho verde! Viva o São João!

PS. E ainda encontrei com Caru e Luiza!


Banda
Voz: Jorge du Peixe Bateria: Bruno Buarque Baixo: Fabio Pinczowski Guitarra: Lello Bezerra Sanfona: Nanda Guedes Percussão e vocal: Sthe Araújo e Victória dos Santos


Assista ao bate-papo com Jorge du Peixe no AoVivo Kuruma’tá, de 29 de março:


Orgulho LGBTQIA+: coletivo Toma Aí Um Poema promove ações poéticas para junho

Coletivo promove “O amor é gigante”, período de declamação e distribuição de poesia, e uma campanha de financiamento de antologia de autores LGBTQIA+


No mês do orgulho LGBTQIA+, o coletivo Toma Aí Um Poema promove duas semanas de declamação e distribuição de poesia de autores LGBTQIA+. Nomeada como “O Amor é Gigante”, a ação será realizada de 15 a 30 de junho e contará com contribuições de nomes de destaque na literatura, como Nina Rizzi, Bruna Mitrano, Amara Moira, Simone Brantes, Carla Diacov, Maya Falks, Francisco Mallmann e Matheus Guménin Barreto

As poesias serão distribuídas em mais de 15 plataformas (entre elas, Spotify, YouTube e Instagram). Serão lidos entre 30 e 50 autores. Atualmente, o podcast do Toma Aí Um Poema é considerado o maior podcast de declamação de poesia lusófona, somando mais de 70 mil ouvintes diferentes ao longo do tempo e tendo sido escutado em mais de 130 países.

Neste mês, a editora do Toma Aí Um Poema ainda lança acampanha de financiamento coletivo do “LGBTQQICAPF2K+: O Amor é Gigante”, organizada pelo coletivo como parte da “CEMana de 22”, projeto que tem como objetivo, 100 anos depois da Semana de Arte Moderna, organizar, mapear e registrar a produção contemporânea de poesia.

Dentro da edição, foram selecionados 45 poetas brasileiros, entre eles Simone Teodoro, poeta, mestra e doutora em Literatura Brasileira pela UFMG; Brune Motta, artista híbride não-binárie de Curitiba (PR); Giselle Ribeiro, poeta e professora de Teoria Literária na Universidade Federal do Pará (UFPA); Lilian Farias, escritora, professora, ganhadora do prêmio Uirapuru 2021, na categoria romance; Neuza Doretto, poeta, atriz e diretora de teatro EAD/USP; e Pedro Moreira, poeta, autor de Malemá (Patuá, 2021) e finalista do Prêmio Mix Literário 2021.

Um coletivo feito por mulheres, pessoas trans e não-bináreis

O Toma Aí Um Poema é um coletivo preocupado com a inserção de autores e autoras independentes em novos espaços de divulgação e promoção de literatura. É um projeto social de acolhimento, de incentivo e de desenvolvimento da escrita e da leitura. É uma potente publicadora de material literário em múltiplas mídias: podcast, revista, livros físicos e digitais e redes sociais.   

O coletivo é feito por mulheres, pessoas trans e não-bináreis. Jéssica Iancoski, editora-chefe do projeto, é pessoa não-binária e é casada com Belise Campos, assistente editorial. Monique Sandrielly, social media e designer, é pessoa não-binária;  Nícola Otávio, web desenvolvedor, é homem trans; Andreia Moema, responsável pelas relações públicas e declamadora, é simpatizante; Neusa Doretto, curadora e declamadora, é homossexual; e Erika Kash, das relações públicas, é pessoa fluída. 

“Isto quer dizer que todas as profissionais que estão envolvidas na criação do livro sofrem violência de gênero, decorrente de relações de poder manifestadas socialmente”, frisa Jéssica Iancoski, editora-chefe.

Um dos principais objetivos da TAUP é publicar o máximo possível de poesia, incluindo minorias, e fazer circular novos pontos de vista dentro da literatura brasileira, também auxiliando e fornecendo informações para autores independentes sobre o mercado editorial brasileiro. “Queremos contribuir e estimular a literatura gratuita e livre para todos”, frisa Jéssica. 

Parte do coletivo, através da poesia, busca combater ideais culturais de dominação e repressão. “Em nossas edições, muitas vezes, praticamos  valores sociais para que seja possível publicar autores que pertencem a grupos minoritários; a decisão é uma tentativa de promover o fortalecimento social dos indivíduos e a emancipação de autores. É um grito contra as editoras-sugadoras e prestadoras de serviço – em sua maioria lideradas por homens-héteros-cis-padrão – que geram capital através da exploração da cultura e do trabalho dês autores”, argumenta a profissional.


A poesia de Renata Ettinger


“Gosto de pensar este como um livro sobre transformações e processos. O próprio título já traz a mudança. A mesma vida é outra é um livro de percurso, desses que a gente vai e volta e, se não estamos mais no mesmo lugar, também estamos. É uma espiral. Os recomeços insistem, incluem a estrada já percorrida e incluem nossas transformações. Por isso, também é um livro sobre estar em movimento, sobre o tempo e sobre estar viva”
— Renata Ettinger

Presença baiana na Kuruma’tá! Hoje a gente destaca a poesia de Renata Ettinger, com seu livro A mesma vida é outra. Sempre essa alegria de descobrir essas joias no inbox da Kuruma’tá. O tempo é curto e a equipe pequena, mas aos poucos a gente vai dando saída a todo esse trabalho bonito que nos chega, sempre surpreendendo.

Li com imenso interesse a poesia de Renata Ettinger. Com encanto esbarrei em versos assim: eu, cheia d’água, / fui escrever… / molhei o papel. Que riqueza de imagem, que fala tanta coisa sobre o fazer poético, sobre o estar em si, ter essa ciência do que somos e do que nos fazemos do que somos.

Paro agora de falar e deixo vocês com o melhor dessa página, os versos de Renata Ettinger.

esse perigo

uma pilha de livros
caiu hoje sobre a mesa
fui empilhando os livros
poema por poema

quando a pilha
despenca
ela me lembra dos poemas
que não li
ela me lembra dos poemas
que não escrevi
secretamente empilhados
por dentro
esperando o exato momento
de despencarem todos
no papel
na voz
no que sou

poemas empilhados
esperam para me ser

eu sou
essa pilha de poemas
esse perigo de estar
sempre na beira
de me despencar
poema-inteira

 


lapso líquido

entre o que escrevo
e o que vivo
tem um lapso
de alguns segundos

pensamentos
se perdem em mim
enquanto escrevo
a palavra de antes

meu futuro se perde
do meu texto
cai na mesa
tal como leite derramado
e é incapturável

não cabe mais
na garrafa que sou

encharco um pano
com o leite de um porvir
e corro até a pia
para espremê-lo
e deixar o futuro
do pretérito
seguir seu fluxo
pelo ralo

um lapso líquido
que se desfaz
enquanto escrevo

 


seca

insisto
na poesia
que não quer
chegar

secou a fonte

secou o poço
ficou só o pó

o copo, antes
meio cheio,
agora
vazio inteiro,
sujo de mãos
de poeira

insisto
e minha palavra
é sertão

resisto
suplicante
por uma gota
que seja

e
não cai
uma lág-rima


 

terra-palavra

minha terra-palavra
sofre com a seca

sou toda
a aridez do verso
clamando por água

acolher a pausa
um sentir semente

e esperar o tempo
do verbo-chuva

 


poema enxuto

eu, cheia d’água,
fui escrever…
molhei o papel.

e poderia não funcionar
papel e água e caneta
mas parece que,
com a água,
as palavras fluem melhor…

agora,
estendo no varal
o papel encharcado
de palavras-lágrimas
e deixo secar
ao sol…

me comove saber que,
em algum momento,
o papel irá secar
e as palavras-lágrimas
ainda vão estar lá,
molhando os sentimentos…

e o poema, enxuto,
há de fazer sentido.

 


atemporal

sangro presente
a cada amanhã

eu não sei
me conjugar
futuro

conjugo
agoras

que é quando sei
o tempo que sou

 


desfuturos

a gente conjuga
o verbo amanhã
como se futuro
fosse

a gente esquece
que amanhã
o verbo é
hoje

 


exercícios para uma angústia que não cabe

1
o corpo
é um copo de angústias

copo que está
sempre até a boca

quanto de angústia
ainda me cabe
eu não sei

tempo

o corpo
é um copo cheio
de angústias

tempo

o corpo é um copo
já cheio de angústias
que não se sabe
quando irá
se irá
transbordar

a qualquer
tempo-angústia
o corpo-copo
irá quebrar

corpo-copo
em cacos
existindo
num mundo de angústias

tempo
não há

2
a angústia
e seu fôlego

as estruturas da casa
não se sustentam

experimentar derreter
dissolver-se nesse mar

o sal da angústia escorre
e não há lenço que contenha
essa água
e não há tempo para voltar
ao que já não é

uma angústia-pena pesa no ar

um tempo sem vento
me ensina o voo
no chão

3
quanto pesa
um quilo de angústia?

perguntei sabendo
o tamanho do fardo
que iria carregar

o preço
não perguntei

examinei meu copo
para achar em mim
onde coubesse

querendo meu corpo
expandir-se do que sou
me desfazer
dos meus descabimentos

trincada
ou em cacos
carrego esse quilo
que não sei
quanto pesa
ou se posso

o preço
não perguntei

 


desabapoema

quando pareço
desabar
corro

pro poema

e poeta
faço minha
cena, dou
trela

estremeço os verbos
pra ver o que cai

às vezes
desabo
no choro

outras
em mim

 


alinhavos

minha mãe
sempre olhou
o avesso das roupas
o cuidado com os acabamentos
sempre lhe disse muito
uma costura mais torta
um forro barulhento
todo o invisível que
poderia interferir
no caimento

às vezes cabia uma
pinça para realçar
as estruturas
mas ela sempre fazia
um alinhavo
antes de passar
qualquer costura

hoje
olhando
meus avessos
vejo o quanto tenho
cuidado dos acabamentos
reparo nas linhas
soltas
trabalho em cada costura
fazendo sempre
um alinhavo antes
de firmar as estruturas

minha mãe
me ensinou
a me costurar

 


fluxos

a mesma vida
testa seu fluxo
em mim
e vira do avesso
pra ver se estou
do meu lado
certo

a outra vida
me testa
pra ver se sou
a mesma
ou se sou outra
habitando
o mesmo corpo

a outra vida
é sempre a mesma

a mesma vida
é outra a cada dia

e sou sempre
a mesma e a outra
a testar
e atestar
as vidas

 


existindo apesar

a vida
existindo apesar
do tempo
do medo
de mim

existindo
sendo a mesma
sendo outra

apesar
de ser a mesma
de ser outra

a vida
existindo

existindo apesar
de não sabermos
a vida

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Baiana, nascida em Itabuna, Renata Ettinger é uma poeta e dizedora de versos que encontrou na palavra um lugar de ser. Publicitária e arteterapeuta, ela fala pelos poemas desde os 12 anos. “A mesma vida é outra” é o seu terceiro livro de poemas. Também publicou os livros “GRITO: silêncios ecoando em minha voz” (2020), “Oito Polegadas” (2018) – uma coletânea lançada com os poetas Mário Garcia Jr., Nalini Vasconcelos e Ricardo Guedeville – e “Um eu in verso” (2002), todos de forma independente. Leitora voraz de poesia contemporânea, durante o período de isolamento social, realizou o projeto “Quarentena com Poema (QCP)”, em que compartilhou um poema em áudio por dia com amigos e interessados em poesia. Foram 215 dias consecutivos de poesia para ouvir e sentir, com mais de 70 autores contemplados. Depois, Renata criou o podcast “Trago Poemas”, iniciativa que caminha para o segundo ano em formato semelhante ao QCP. Ambos podem ser conferidos nas principais plataformas de streaming (Spotify, Deezer, Google Podcasts, entre outras). Para mais informações, basta acessar o instagram @renataettinger.


Tijucano no Império da Tijuca 

Texto de Eduardo Maciel


Olá, kurumateires! Tudo certo?

Trago novidades do meu coração e da minha servidão consentida à arte. Espero que não achem este texto autorreferente, porque a razão de ser dele é a gratidão e o amor.

Quiseram os deuses da arte e os protetores do carnaval que eu pudesse receber a maior das honrarias, e a maior das responsabilidades da minha vida!

Fui acolhido como Diretor Executivo do Império da Tijuca, tradicional escola de samba do carnaval carioca.

Para mim, tijucano e já figurinha fácil em diversas ligas do carnaval virtual, não tem preço. Foi uma flechada certeira no meu coração. Quem atirou a flecha? Cupido, não tenho a menor dúvida.

Sou vice-presidente, diretor musical, compositor e intérprete de samba-enredo da GRESV Pau no Burro, que desfila no carnaval virtual de desenho. Com o maior orgulho.

Além disso, sou jurado em várias ligas do carnaval virtual: de desenhos, de maquete e de Minecraft, onde ainda sou vice-presidente e patrocinador da LIVESM (Liga Virtual de Escolas de Samba de Minecraft), com o maior orgulho também.

Fora do virtual, componho a tribo Cheyenne do tradicional bloco Cacique de Ramos, e esse ano de 2022 ainda fui jurado da Federação dos Blocos Carnavalescos do Rio de Janeiro, nos desfiles da Intendente Magalhães. Emoção sem igual.

E agora, pinto meu coração de verde e branco sendo parte da família imperial do samba, com o Império da Tijuca.

O Grêmio Recreativo Escola de Samba Educativa Império da Tijuca (ou simplesmente Império da Tijuca) é uma tradicional escola de samba brasileira da cidade do Rio de Janeiro. A escola traz, acrescido ao nome, o termo “educativa“, porque a preocupação principal, no momento de sua fundação em dezembro de 1940, foi com a educação. E ainda o é até hoje! Promovemos durante todo o ano ações sociais e educativas para as comunidades tijucanas, em especial pro povo lindo do Morro da Formiga, a quem dedico meu respeito e mais profundo afeto!

O Império da Tijuca foi a primeira escola de samba a usar em seu nome o termo “Império”, razão pela qual tem uma coroa: símbolo da nobreza, em sua bandeira verde e branca, bem como ramos de fumo e café que traduziam as riquezas do Brasil na época.

De tirar o fôlego essa linda história, que se confunde com a história do carnaval do Rio em si.

Mas para que nenhum de vocês se confunda, o melhor sobre essa notícia não é a notícia. É o que está por vir. É o que pretendo fazer para que se justifique esse acolhimento tão generoso!

Viva o samba! Viva o carnaval! Viva o Império da Tijuca!

Até breve, seus lindos!