Passando distraído pelas ruas agitadas e algorítmicas da internet, fui surpreendido por uma cantada!
Disco não é novidade para a pianista Claudia Castelo Branco. Cinco desses registros ela já gravou, com a também pianista Bianca Gismonti, como Duo Gisbranco, e um utro com o guitarrista e compositor Marcos Campello. Mas o recém lançado Cantada Carioca (Já disponível no Spotify) é sua primeira aventura solo. A palavra aventura implica em movimento, agitação, sustos, surpresas, mas o disco de Claudia é uma aventura íntima, pra dentro, enredada na alma e transcrita com delicadeza, leveza e fina inspiração, em onze canções, pra que a gente possa aventurar-se com ela; como ouvintes, a bem da verdade. E que coisa boa escutar esse disco, que coisa boa uma cantada assim, carioca, ao som piano e do talento dessas mulheres, cujas canções que Claudia reuniu tão sob esse recorte, da mulher carioca, seja porque aqui nasceu, ou porque fez do Rio sua morada, seu coração.
Concebido e gravado, em casa, durante o período de isolamento da pandemia (que não, ainda não acabou!), Cantada carioca se debruça sobre uma produção não só feminina, mas também independente. Essa é uma das grandes forças do disco, seu encantamento, revelador que é do tanto que se faz de música boa fora do dito maistream. Outro dia a Kuruma’tá postou, no Instagram, o seguinte recado: A melhor música brasileira hoje é produzida por mulheres. Esse é mais um disco que atesta isso de maneira precisa. Tanto pelas músicas escolhidas, quanto pela própria Claudia e seu piano.
Aí tem a outra força do disco. Nele, voz e piano se bastam de tal maneira, que bem podemos ouvir como duas vozes, que se entrelaçam indistintamente, numa dança, numa conversa caprichada e caprichosa. Deliciosa. A voz e o piano como estrutura mínima, cristalina, a sustentar a riqueza que vai nascendo de cada canção. Que coisa boa, gente. É daqueles trabalhos que você coloca a primeira faixa pra ver qual é, e não consegue mais parar, não consegue escapar da espiral que vai te erguendo, te animando (de anima, alma!) e descortinando um cenário incrível que vem remodelando a música brasileira.
Claudia Castelo Branco tá de muito parabéns com esse trabalho. Cantada carioca é disco pra tocar em casa, como foi feito, naqueles dias de sossego ou pra sossegar; pra tocar no fone de ouvido no sacolejo do ônibus, do trem rumo ao subúrbio, ou com a gente que a gente ama. É uma belíssima resposta, no meio dessa pandemia, à escuridão que insiste. Uma luminosidade para esses dias difíceis, e para os bons dias que virão e que até lá, vão se enxerindo em meio ao caos, pegando carona nas artes, nos afetos, nos encontros.
MÚSICAS E MULHERES NA CANTADA CARIOCA DE CLAUDIA CASTELO BRANCO
1_ Céu de gêmeos (Belliza Luar) 2_ Brejeira flor (Ilessi e Simone Guimarães) 3_ Ledo engano (Elisa Fernandes) 4_ Miragem de Inaê (Anna Paes e Iara Ferreira) 5_ O adeus (Marcela Velon e Aluízio Elias) 6_ Tem dor (Bianca Gismonti e Claudia Castelo Branco) 7_ Concha (Gabi Buarque e Angelica Duarte) 8_ Eta (Maíra Freitas e Edu Krieger) 9_ Breve (Aline Gonçalves e Vovô Bebê) 10_ Nau dos meninos (Carla Capalbo e Tuca Zamagna) 11_ Pra acordar (Paulo Monarco e Suely Mesquita)
A orquestra dos inocentes condenados | Livro de Milena Martins Moura
Resenha de Toinho Castro, citando poemas lindos do livro da Milena
— Totalmente escrito e publicado em meio à devastidão que espalhou pelo mundo, pelo Brasil, A orquestra do inocentes condenados é um livro de ordem íntima, que você lê e sente ele vindo de dentro. De dentro da poeta, e de dentro da gente. Memórias e miudezas aparentes.
Resenha de Toinho Castro, citando poemas lindos do livro da Milena
caros amigos venho informar que hoje apareceram júpiter e saturno próximos no céu.
As mais de 600 mil morte, só no Brasil, até onde se sabe e até agora, são uma mancha de violência tão enorme na nossa história, que é difícil falar das coisas boas que, de um jeito ou de outro, vieram a nós durante essa pandemia. Mas é preciso que se fale delas também, não para justificar esse desastre como um espaço de aprendizado, até porque, o que se aprendeu a gente já deveria saber há muito tempo. Mas sem dúvida há coisas que nos ajudam a manter a cabeça fora d’água. Essa água tumultuosa, invasiva, reativa e escura. No meio disso, há pontos luminosos, e cada um de nós poderá citar seus pequenos faróis na guia para atravessar esses tempos.
Um desses faróis, sem dúvida, é a poesia. E muita poesia se fez nesses dias duros.
venha rápido pois tenho pressa tenho uma pedra então entenda o mergulho nessa água escura é um risco que eu só vou aprender a viver depois do salto um risco é o que se corre e eu tenho pressa meus braços são tão fracos e eu tenho pressa mesu olohs tmê falhaod e eu tenho me evitado no reflexo do poço eu tenho pressa da palavra pesando meu corpo de levantar os olhos e ver e ver cada silêncio é uma imagem a menos então venha rápido antes da próxima maré que nessas águas repousa a coisa morta que se perdeu de mim durante a última música
A Kuruma’tá, como uma casa de poesia, fica atenta a isso e acompanha essa claridade súbita que se faz quando a gente menos espera. E com isso que a gente se alegra, com esses livros corajosos que se insurgem contra a morte e contra a perda da sensibilidade. A orquestra dos inocentes condenados (Editora Primata, 2021), de Milena Martins Moura, é um desses lampejos.
Escrever como maneira de manter-se sã durante tempos atípicos e assustadores.
Totalmente escrito e publicado em meio à devastidão que espalhou pelo mundo, pelo Brasil, A orquestra do inocentes condenados é um livro de ordem íntima, que você lê e sente ele vindo de dentro. De dentro da poeta, e de dentro da gente. Memórias e aparentes miudezas. Coisas que, na verdade, crescem gigantes na alma. Universos suburbanos que parecem mínimos, mas são mínimos como um aleph, que a tudo comporta.
Ler o livro é descobrir-se e enfrentar-se, na tentativa, tantas vezes vã, de alcançar sentidos, razões, caminhos para essa coisa chamada vida. Ao mesmo tempo, suas páginas são traspassadas pela morte, pela brevidade de tantas coisas, de tanta gente, que de uma hora pra outra se torna inalcançável, ausente. O passado se torna inalcançável e só podemos revirá-lo com a poesia. Essa lente, às vezes meio difusa, que investiga essas frestas que se abrem e que vão sendo preenchidas pela latência do possível.
Ali está Milena, nas suas próprias páginas e palavras. poderia ser eu com essa dor e esse olhar. Poderia ser você com essa hipermetropia, esses cadarços por atar. A poeta é líquido revelador derramando sobre o papel fotográfico… e o que vemos na foto que surge é a sucessão das coisas perdidas, algumas reencontradas, tão deslocadas que parecem outras. E a cada luz e sombra, a cada nuance que vai se revelando, esperamos ver o que ainda não há. O futuro improvável, ilegível. Ler Milena é ver essas fotografias se revelando a cada virada de página do álbum. É escutar sua música insinuada a cada verso, cadente. Leia. Cante…
perdoe se me repito mas acho importante reiterar que o sol é só mais uma estrela sobre a qual, esclareça-se não pesam peculiaridades uma média amarela numa esquina esquecida do rolé perdoe-me também se devo repetir que ser humano é resvalar no abjeto. é suar, sujar e cuspir limpar do corpo as secreções que nos disseram impróprias porque não foram retratadas nos quadros de santos porque deus não mancha com nódoas de suor a sua toga nem se narram dele as excrecências mas assim se convencionou falar dos bichos tenta-se, como ato redentor, escapar ao humano que não é senão bicho com suor e saliva e gozo e choro imagem e semelhança dos que preferem sentir a terra com os peitos
Ler poesia é sempre melhor que falar ou ler sobre poesia! Poesia para manter-se vivo. Mais ainda, para viver. Para caminhar entre os seus e entre os demais. Para abrir os braços no meio do corredor e se sustentar nas paredes porque talvez as pernas fraquejem. É o que sustenta. Esse versos, escritos por Milena, arrebatam a gente e também desafiam a remexer nessas gavetas mal fechadas da vida. Que dali se tira o que viver e o que esperançar. Apesar.
Milena Martins Moura nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro em 1986. Passou a infância no bairro de Madureira e a adolescência no bairro da Pavuna, morando hoje no bairro do Cachambi. Seu Rio de Janeiro não está nas letras de Bossa Nova. Tem ônibus lotado, vendedor de bala no trem, sapato pendurado no fio elétrico, padeiro de bicicleta vendendo o pão de porta em porta e a recorrente menção à Telefunken 1984 sem controle remoto da infância.
Em 2011, lançou seu primeiro livro de contos, Promessa Vazia, que mistura literatura fantástica com relatos intimistas e psicológicos. Seu livro de poemas Os Oráculos dos meus Óculos foi lançado em 2014 num evento com participação da banda Tormentorum, da qual a poeta foi vocalista entre 2013 e 2016. Os Oráculos são sua carta de despedida para seu avô Daniel, falecido em 2010 após um longo e doloroso processo de morte que se tornou temática constante em sua obra.
Lançou também o plaquette de poesia Banquete dos Séculos, em 2021, de maneira independente como e-book. O Banquete é uma introdução a seu projeto independente de contos, a série Violenta, prevista para 2022.
Como escritora, foi publicada em inúmeros portais e revistas, como Cronópios, Subversa, Torquato, Mallarmargens, Ruído Manifesto, Desvario, toró, Arara, Kuruma’tá, Aboio, Arribação, Totem Pagu, Granuja (México) e Kametsa (Peru). Seus poemas também estão em podcasts como o Toma Aí Um Poema. Além disso, integra as equipes de colunistas da revista Tamarina Literária e de poetas do portal Fazia Poesia.
Marfê na Kuruma’tá
A conexão Maranhão está a todo vapor! O poeta Felipe Gabriel, ou Marfê, , que nos chega altamente recomendado pela também poeta Micaela Tavares, traz pra gente uma poesia carregada de força contra a roda que esmaga gente, mas também fresca, vívida, amorosa, vibrando ao sol. Bem-vindo, Marfê, à Kuruma’tá!
EU RECONHEÇO AGORA
Quando quis ser doce, fui amargo Quando quis ser companhia, fui a peça errada que não encaixou Foi mal pela falta de tato, pelos meus olhares perdidos, estava tentando resolver todo caos interior A gente se amou no tempo errado Como eu poderia ser o seu o sonho, se eu era a sua insônia? Eu sei, eu sei, você realinhou a sua rota e eu fico feliz por isso, por favor, acredita em mim Sei que foi bem melhor para nós dois a distância, nos regulamos Descobrimos um novo ser dentro de nós, cada um em seu próprio apê, colocando seus próprios estilos musicais bem distintos Você colocava Vivaldi – La Primavera e eu colocava Liniker – Psiu Você optava por beber uma cervejinha no barzinho que a gente amava e eu decidia me arrumar para mais tarde assistir à uma peça dramática para despejar toda a minha saudade de você naquele lindo teatro E assim eu finalmente descobri a falta que você faz, me desculpa
SABE NADAR?
Feche os olhos Escute o mar Respire fundo Abstrato exclusivo só pra quem sabe nadar no meu mar Sabe nadar? Nade em mim, sinta a minha água salgada e deixa eu te temperar Dê um bom mergulho e fale “que delícia” Sabe nadar? Cuidado para não afundar nos meus textos molhados, a correnteza é confusa e não faz sentido Se eu puxar você para baixo, você estará no topo O salva-vidas da ilha se chama “ALÍVIO”, sim, o mesmo que a gente sente de chorar por horas Sabe nadar? Não? Não tem problema, eu abrirei, com meu tridente, o caminho certo para você chegar à beira do mar da renovação
SUMI, VIREI ARTE IMATERIAL
Não poderás mais me abraçar Não poderás mais me beijar Talvez poderás me sentir, porém no âmago da madrugada e de forma surreal Não te prendas a mim, até porque não sou mais um, virei muitos Sumi, virei arte imaterial Não sei se terás dificuldade na reflexão, introspecção cruel Me observarás no seu ouvido e no seu estômago embrulhado Sumi, virei arte imaterial Amarelo queimado fictício Vermelho sangue surreal Roxo desconfortável interior Azul tristeza temporário Verde misterioso sinistro Marrom despelado eterno Sumi, virei arte imaterial E ainda me procuras.
ÚLTIMO TIRO
Eu nunca ganhei flores, mas me nego recebê-las somente em um funeral Os 80 aplausos foram silenciados e transformados em 80 caçadores de alma e nunca escutarei a música desse meu irmão de cor A vermelhidão que eu gostaria de ver era a de um guará alçando voo à beira-mar, e não espalhada no asfalto quente ou no chão de terra batida, consegue entender? Quando será o último tiro? Dizem que a vista do último andar dos apartamentos é sempre a mais bonita, menos naquele 2 de junho, gostaria de ver aquela criança cheia de vida sonhando mais Acordo, esquento o café, vejo o jornal anunciar mais uma morte e volto há 2018 me perguntando “Quem será que matou?” Os tiros tiram e tiraram a vida dos meus irmãos! Os tiros tiram e tiraram a vida dos meus líderes! Ergo o meu braço direito com a mão fechada! Uso preto para expressar minha força e minha dor! Não pense que sou amargo, só estou mais realista Nunca mais as ilusões gritaram contra mim Apenas me pergunto “Quando vou ganhar flores e quando será o último tiro?”
MAKTUB
Olha, esse Maktub me bagunçou de um jeito… Não pediu licença e puxou o meu tapete (a queda foi feia) Já peço desculpa pela acidez na segunda-feira, mas não posso fazer muita coisa sobre isso Apenas escrever, escrever para não gritar comigo, escrever para centrar a energia no que importa Bom, tinha que acontecer, não posso negar Porém, o objetivo desse jogo não vingou o que sempre planejei e pensei Realmente, estava gravado nas estrelas, mas olha… me surpreendi Maktub clichê, que me desorientou e me fez crer que tudo ia dar certo Hoje observo e interpreto a distância como ALÍVIO Pra quê ficar se não quer, não é mesmo? Maktub, pois te vi no show, mas não era você Maktub, pois te vi no nome de escolas, farmácias e restaurantes, mas também não era você Te vejo em muitos lugares ainda Maktub, pois o frio que foi me dado se equilibrou com o cobertor mental que eu sempre tive Suportei Consegui mudar Faz 1 mês que passo 1 hora da noite deitado observando o céu e lendo as estrelas Você, eu nem quero saber onde está Maktub eterno
CARAMBOLAS “VERANO”
Pedaços de sol Doces e azedos Transbordando na bacia Eu amo o teu sítio Carambolas “verano” Sempre caem bem em dias como esses Cadeiras e mochilas no porta-mala Vamos à praia Tua melanina conforta a minha Pele de prata preta brilhosa Carambolas “verano” Gosto de beijo Eu repito Fala verão em espanhol de novo Por favor Me dá mais um beijo
EU PRAIA
Minha pele com pelos é a areia de uma praia deserta Quente e que esfolia Minha boca tem gosto de mar Meus dentes brancos são conchas raras As curvas são dunas para você escalar Não tente encontrar algum “x” por aqui O único tesouro que eu posso te dar é a brisa da minha voz ao teu ouvido
UMA TAÇA DE VINHO ROSÉ
Domingo cativante Cerejeiras no quintal Perfume de bambu por toda a casa Cortinas brancas dançam com o vento, bela valsa Piso de madeira clara e cara Escada confortável que te leva ao meu escritório Me olhas de um jeito espirituoso Colocas “Valerie” da Amy, porque sabe que é a minha favorita Pegas uma taça de um vinho rosé E fazes do meu dia, um dia frutado.
Felipe Gabriel – Marfê (22 anos):
Felipe Gabriel, estudante de administração da UFMA, busca intensamente enxergar a vida por uma ótica mais poética possível para aliviar-se do cotidiano caótico de um jovem adulto preto nordestino a partir de seu pseudônimo Marfê. Poeta que aborda várias situações com a sua singularidade artística, tem muito a agradecer ao teatro, sua primeira casa da criatividade, em que dos 13 aos 15 anos viu suas habilidades se expandirem até receber o prêmio de melhor ator em um festival cultural. Marfê nasce a partir de sentimentos reprimidos e da revolta pelas injustiças que fazem do mundo, um lugar mais pesado, manifestando-se juntamente com a fúria e a beleza do mar.
Jandaíra quer ficar – Parte 2
Uma fábula estranha de Toinho Castro — Sentada na praia, Jandaíra olhava o mar. A maré alta cobria os arrecifes e o Atlântico se descortinava para além do horizonte. Apesar do ruído das ondas, o mar parecia-lhe silencioso, contido. Atrás dela, a Avenida Boa Viagem jazia carente do movimento dos automóveis. Agora, somente um outro veículo a atravessava rumo ao Pìna, ao Centro ou Olinda.
Sentada na praia, Jandaíra olhava o mar. A maré alta cobria os arrecifes e o Atlântico se descortinava para além do horizonte. Apesar do ruído das ondas, o mar parecia-lhe silencioso, contido. Atrás dela, a Avenida Boa Viagem jazia carente do movimento dos automóveis. Agora, somente um outro veículo a atravessava rumo ao Pìna, ao Centro ou Olinda. Na maior parte das vezes, veículos autônomos de serviço, aspirando inutilmente a poeira das pistas e dos tempos, recolhendo o lixo cada vez menos abundante, entregando pacotes a quem ainda encomendava pacotes.
Jandaíra abriu o app de gravação de voz do seu celular, sentindo-se uma personagem daquele filme, Omega man – A última esperança da terra, e começou a gravar. Eis o que ela gravou:
Li, dia desses, que construíram complexos massivos de servidores no fundo do mar. No leito do mar, assim dizia a revista. E aí fico ouvindo as pessoas falando na Nuvem; que vão pra Nuvem, em subir pra Nuvem… Não sei se é uma ironia ou uma doçura, que a Nuvem fique no fundo, no leito do mar. Então imagino essas instalações como grandes navios fantasmas, carregando aquelas almas digitais, que optaram, por vontade própria, movidas por alguma vaidade, abandonar o mundo, por outro outro mundo. Uma Valhala de bits e algoritmos e silício. Nem sei se ainda usam silício, mas que importa?
São sítios secretos, com autonomia, dizem, de milhares de anos, murmurando nas águas geladas das profundezas, como certos monstros marinhos. Os peixes os evitam, repelidos pelo murmúrio contínuo, que faz a água ao redor, sob o peso do oceano acima, vibrar como uma ameaça permanente. Os peixes contornam essas estruturas submersas, que mais parecem abandonadas, à própria sorte, confiando nos tais milhares de anos de autonomia. Essas almas confinadas, que não sabem que a Nuvem, fica no fundo do mar. Milhares, milhões, de almas a vagar. Entre elas, a minha mãe.
Já em casa, Jandaíra abriu o notebook, apagou a luz da sala, deixando apenas uma pequena luminária acesa. O aroma leve do incenso enchia ar, bem como a fina fumaça, se desenvolvendo em pequenas volutas, ao sabor do pra lá e pra cá de Jandaíra pela sala. Sentou-se em frente ao notebook, respirou fundo, e disse pra si mesma: Vai começar a sessão espírita…
— Não vai ligar a câmera? — Hum… hoje não. — Mas bem que eu queria te ver. Tô com saudade do seu rosto. — Como você “vê”? — Como assim? — Assim… ver algo é um evento… como dizer? Físico? A luz atravessa a pupila, alcança a retina e é transformada em impulsos elétricos, sei lá, e essa informação é levada ao cérebro, que, por assim dizer, forma uma imagem. Você precisa ter olhos para ver. — Sério isso?! É isso que você quer saber?! Sei lá como eu vejo! Nem antes eu sabia direito. Pare alguém na rua e pergunte como ela enxerga. Duvido que saiba responder. Eu não sei… só sei que te vejo. — Você lembra? Ou tá esquecendo meu rosto? Ou tá com medo de esquecer? — Eu não te esqueço. Jamais. E estou te esperando aqui. Você sabe disso. Eu, seus amigos… — Alguns. — Sim, alguns. Nunca são todos, em lugar nenhum que você estiver, Janda. — Isso aí não é um lugar. — Ah, chega, né?! Liga a câmera, Jandaíra! Pelo amor de Deus, né?! — Deus não existe.
Não foi a melhor conversa que elas tiveram. Jandaíra acabou se sentindo culpada, mas o lance de saber como ela enxergava, era uma dúvida legítima, talvez colocada num momento inoportuno. Elas tinham 15 minutos por semana para conversar, para ver uma a outra, seja lá como isso aconteça, e Jandaíra estragou se recusando a ligar a câmera, teimando, dizendo que Deus não existe. E daí?, pensou Jandaíra. Grande merda Deus existir, não existir. Para se redimir, talvez consigo mesmo, Jandaíra fez pra sua mãe um upload do som das ondas que ela havia gravado na praia. Lembrou que as duas costumavam ir bem cedinho e se demorar, assistindo a maré mudar, até o sol encontrar o limiar dos edifícios e a faixa de areia começar a se encher de suas sombras. Porra, ela amava a mãe e sentia uma falta enorme dela.
— Eu reivindiquei seu corpo… — Oi? Não sei se entendi… — Seu corpo, eu reivindiquei ele, — Como assim, Jandaíra? — Ema té três dias após a transferência, um familiar pode solicitar o corpo. Bem… eu solicitei o seu. — Mas que diabos! Pra quê isso, Jandaíra?! Pra quê isso?! — Para cremar… — Jandaíra?! Cremar?! — Sim. Cremei seu corpo, numa pequena cerimônia. Eu e o Joelson somente. — Eu não morri, Janda! — Não? Não era o que seu corpo me dizia.
Como você pode ver, foram quinze minutos de papo bem esquisitos.
CONTINUA…
programa _aguaceiro — poesia, música, resistência
_aguaceiro é um programa lindo, produzido pela Monique Lima, e que vai ao ar pela bravíssima Rádio Graviola. Monique é educadora, escritora-letrista, artista inspiradíssima e ativista da cultura!
Toinho Castro e Jorge LZ bateram um papo maravilhoso com Monique, no Konversa Kuruma’tá, sobre o _aguaceiro, poesia, música e sobre a alegria profunda da arte e da parceria entre as gentes!
Bora assistir ao programa e ouvir o aguaceiro que Monique, tão belamente, nos oferece, reunindo poesia, música, talentos e ousadias.
programa mensal de poesia na www.radiograviola.com _O que é poesia? Chave para uma orientação pelas estrelas. Naveguemos
Monique Lima, educadora, escritora-letrista, criadora e apresentadora do programa @_aguaceiro, da Rádio Graviola, é quem chega junto da gente nesse sábado, frio no Rio de Janeiro, mas possivelmente quente e de céu azul em outras cidades. Chega junto da gente com poesia, melhor jeito de chegar. E muito haverá entre Monique e Kuruma’tá. Se ligue!
Fito na parede um relógio de ponteiros em algarismos romanos
A engenhoca é uma arapuca de corda
A espiralada concha mecânica de lâminas afiadas fatia o próprio molusco
Não se sabe quem é o original, como seria possível? Afinal, quando você copia um arquivo dentro de uma pasta de seu computador, coloca a cópia em outra pasta e abre os dois arquivos ao mesmo tempo, é possível saber qual foi o primeiro a ser criado?
Não. Não.
Com eles é a mesma coisa. Sem tirar nem pôr. A mesma coisa. Todos lêem os mesmos livros, vestem-se sempre do mesmo jeito, estão sempre nas mesmas festas, acontecimentos e happenings. Todos têm o mesmo discurso. O mesmo discurso, sem tirar nem pôr.
Eles podem até não ser exatamente iguais por fora. Mas por dentro não há a menor diferença. A menor diferença.
Jandaíra corria em sua bicicleta pelas ruas vazias do Recife. No pequeno aparelho de MP3 tocava em looping a musiquinha do momento, com seu infatigável refrão: Tá todo mundo morto, tá todo mundo vivo. Ela só ria da canção. Você pode imaginar Jandaíra como uma adolescente, com sua bicicleta e sua juventude cristalina. Mas Jandaíra tinha 34 anos, e uma bicicleta que a carregava pra lá e pra cá, numa cidade silenciosa e perigosa. Mas ela não ligava. Jandaíra havia perdido tudo. Jandaíra não tinha ninguém. Seus pais, a maior parte absoluta das suas amizades, desafetos, professores, vizinhos e estranhos, havia desaparecido. Tá todo mundo morto. Mas Jandaíra trocava ideias com os mais chegados dessa turma com alguma frequência, porque tá todo mundo vivo; como dizia a canção.
O telefone de Jandaíra raramente tocava. Mas naquele fim de tarde, depois que ela largou a bicicleta no corredor do décimo andar do pequeno prédio, espremido entre dois hotéis, em que vivia, ela escutou o velho e familiar toque. Demorou a reagir com o que deveria ser o gesto automático de atender. Por fim, disse:
— Oi! Diga lá… (pausa) — Sim, sim… eu tô ligada. Tô sabendo! Quem não tá, né?! (pausa) — Sim, imaginei que você ia. Eu entendo. Aliás, nunca disse que você não devia… (pausa) — Pois é… dizer que eu apoio é excessivo, né. Mas é sua vida, né. Não vou te dizer o que fazer e, honestamente, espero o mesmo de você… (pausa) — Não, não tô chateada… desde que você não me chateie rsrsrs. Mas, cara, de boa, acabei de chegar em casa. (pausa) Sim, tava pedalando… enfim. preciso me arrumar aqui, tomar um banho. Essas coisas que gente faz. (pausa) — Não!!! Não tô ironizando, não. Só perturbando um pouco rsrsrs. — Ok… Ok… Mais tarde eu ligo. Prometo.
Naturalmente era a conversa. A conversa que tem perseguido os dias e noite de Jandaíra. “Foda-se! Não quero ter essa conversa!”, pensou Jandaíra deixando a roupa no chão e se isolando do mundo sob a ducha de água quente que o chuveiro despejava sobre seus cabelos cacheados e sua pele escura, como a de sua mãinha, de sua avó e de gerações dos seus, até ela. Até ali, aquele momento na história, depois de tantas tormentas e travessias, tantos porões fechados e céus abertos sobre suas cabeças. Anos, décadas, séculos sobrepostos e ainda tinha gente querendo dizer a ela o que fazer, o que era melhor pra ela e mesmo decidir por ela… e da pior maneira, como se estivessem explicando ela pra ela mesma. Como se ela não soubesse quem era. Ali, embaixo do chuveiro, Jandaíra prometeu a si mesma que não ligaria mais tarde. Falou pra si mesma que as pessoas que restavam já estavam mesmo desistindo dela, do seu caso perdido. Só lamentavam… Ela mesma só queria pedalar e se abastecer do que restara aos pouco que resolveram ficar.
— Foda-se! — Berrou Jandaíra de dentro de sim mesma, espalhando água com a força do ar que saía de sua boca. Ninguém ia ouvir mesmo.
Você que faz parte da conexão Kuruma’tá, precisa conhecer o trabalho do poeta, escritor e dramaturgo Daniel Rodas, que ainda é editor da bravíssima Revista Sucuru, que é parceira da Kuruma’tá na Rede AFETIVA de Culturas.
Daniel acabou de lançar, pela Editora Urutau, seu livro Umbuama (Que título lindo!),trabalho selecionado para publicação em chamada especial da editora para a região Nordeste, juntamente com outros títulos de autores nordestinos, no primeiro semestre de 2021. Umbuama é um neologisco, que nasce de “umbu” (que vem de “umbuzeiro”, árvore nativa do sertão nordestino) e da partícula “ma-“, que remete tanto ao verbo “amar”, quanto à palavra “mãe”. Resistência e ternura numa palavra só.
Os poemas de Umbuama assentam-se, portanto, na materialidade das coisas sobre a terra. Não para a simples contemplação da paisagem e de seus elementos materiais, mas como fagulha que impele o sujeito poético a perquirir sobre a geografia mais íntima do Ser e produzir imagens da beleza íntima da matéria que não teme a passagem do tempo, mas o acolhe em seu interior e se molda às suas investidas, como o velho umbuzeiro que consegue resistir às intempéries e fincar-se soberano sobre a terra.”
Prof. Dr. Marcelo Medeiros (trecho da orelha do livro)
O poeta brinda a Kuruma’tá e quem a lê com três poemas selecionados do seu livro, pra que a gente abra essa porta que existe no Umbuama, entre e não saia mais!
Lições do Umbuzeiro Arvorar as raízes Da vida
Fazer-se carne Mesmo que ao Vento
Buscar sustento Nas profundezas Da terra
Matar a morte Na teimosia do Instante
Estar aqui Agora e amanhã
Mas sem nunca Esquecer
As tardes do Ontem.
*
Andorinha Não escolho em quem faço Caca Só vejo a cabeça E a camisa alva
O resto é sociologia dos Fundos.
*
Na Floresta Dormiremos em paz esta noite Os bárbaros não virão Esqueceram as motosserras.
Trata-se de uma obra sobre o ser humano e o mundo que o cerca; de uma obra política, de contestação à crueldade e à arrogância; e de reafirmação da humanidade enquanto parte integrante da Vida.
Já contei essa história aqui, em outro texto, mas vale recordá-la. Eu era moleque, me encantando com os primeiros contatos com a ficção científica. Ainda sem entender muito bem, mas fascinado por aqueles mundos distantes da minha rua. Certa vez visitamos tia Nadir, minha tia avó, por parte de mãe. Lá na Vila Tamandaré. Enquanto os adultos conversavam, eu me entretinha com uma edição de bolso de 2001/ Odisséia espacial (Assim era o título, nessa edição!), de Arthur C. Clarck. Como eu já disse, não entendia muito bem, mas viajava naquilo! Em dado momento, tia Nadir passou por mim, reparou eu lendo e pegou o livro da minha mão. Observou, folheou rapidamente, olhou pra mim e disse: Eu também vivi uma odisseia. Depois dessa frase fantástica, ela me narrou sua viagem, de ônibus, a São Paulo (Ou Rio de Janeiro?!), lá em mil novecentos e bem pouco. Ouvi atento, e minha tia parecia-me mais uma astronauta das páginas de Arthur C. Clarck ou Asimov.
Em 1993, atravessei eu mesmo o Brasil, do Recife ao Rio de Janeiro, na mesma trilha de tia Nadir, num ônibus da Itapemirim. Uma longa viagem pela BR-101, pra descobrir, em Ipanema, que eu sou Nordestino. Pra descobrir que falo outro idioma. Que eu sou outro idioma. Porque somos linguagem. Ser reconhecido ou confundido com baiano pelo sotaque… na sequência, a explicação: Não, sou do Recife. Das quantas vezes que escutei as pessoas dizerem que amam as praias e o carnaval, e me perguntarem do frevo ou do maracatu, ou Olinda. Ou se eu conhecia Fulano. “Mas ele é de lá!”. Não, eu não conhecia fulano e ouvia rock progressivo num quarto na Imbiribeira, na rua Pampulha.
Mas era sempre como se eu precisasse corresponder à expectativa desse lugar imaginário, sem imaginação, porém. O lugar repetido de uma pessoa pra outra. Eu era de outro lugar.
Com 25 anos de Rio de Janeiro, feliz em Vila Isabel, boto pra tocar o Nordeste Ficção, primeiro trabalho solo de Juliana Linhares. Gente, como faz com esse disco?! É como um reencontro comigo mesmo e com os meus. Ainda aqui, sob o impacto da emoção poderosa que brota da audição do trabalho dessa potiguar.
Lá em 1979, Belchior anunciava: Nordeste é uma ficção / Nordeste nunca houve.
Movida pela encenação da peça A invenção do Nordeste, do Grupo Carmin de Teatro e pela leitura livro A invenção do Nordeste e outras artes, de Durval Muniz de Albuquerque Jr. (Comprei!), Juliana construiu no seu disco um painel iluminado, de alegria, dança, força, vida, música, coragem, amor, saudade, infância, crença… um mapa vertiginoso desse Nordeste, que não é uma delimitação geográfica, mas uma vitalidade, um embrenhamento de pessoas e trocas culturais e afetivas.
Quero dizer a Juliana que quando escutei Bombinha (composição de Carlos Posada, nem acreditei no recado certeiro: E não quero ir pra Marte / Quero ir pro Ceará! Num mundo torto de Jeffs e Elons enviando turistas pro espaço, quero pegar de volta a BR-101. É uma abertura de caminhos, de jornadas, por um continente interior, que é feito de gente. Gente espalhada pelo mundo, gente que canta e cuida dos seus. Bombinha é esse chamamento poderoso para o brincar. Força e lirismo. Um negócio de arrepiar. Um estandarte anunciando o que virá a seguir, na próxima música. E na seguinte e nas outras.
E o que vem na sequência é esse olhar terno para nós mesmos, um rendado delicado e comovido, uma conversa de portão, quando anoitece. O balanço do mundo, o balando da rede no terraço, do casal ao som do fole numa noite de junho. O disco de Juliana é um inventário de um Nordeste, não o inventado, mas o sonhado e vivido, como em sonho. Lá estão minha mãe, meu pai, meus avós na rua dos Pescadores, meu bisavô Miguel Canuto, em Natal, olhando do seu portão a Avenida Um. A valsa que ele fez pra minha bisavó, Dedê.
Juliana tem uma voz poderosa, nítida, cheia de lirismo, que tece memória e contemporaneidade com elegância e alegria. Como toda festa, Nordeste ficção é feito de muita gente. Tá lá o genial Chico César em duas parcerias com Juliana (Embrulho e a deliciosa e amorosa Lambada da lambida), tá o Zeca Baleiro no dueto e parceria de Meu amor afinal de contas, a presença de Petrúcio Amorim com sua Tareco e Mariola, o grande Jessier Quirino com a lindeza do seu Bolero de Isabel e um Tom Zé clássico e cirúrgico com a inédita Aburguesar, que conta ainda com um dueto com Letrux!
Nordeste ficção, completo
Perpassa a ideia de Nordeste a afetividade, a criatividade e também a política, e é com força política demolidora, mas também divertida, cheia de ironia, vibração e coragem que Juliana encerra o Nordeste ficção, com Frivião que não deixa, jamais, a gente se aquitar!
Vem me atacar Que quando eu canto milhões se juntam pra cantar Vem se assumir Que eu canto de peito aberto, que é certo, esse mal vai sumir
Vem me abraçar, vem se amar, sacudir, vem dançar Vem falar, se esfregar, se perder, libertar Em toda forma de amor há motivo pra gente lutar
O coração na canção grita que assim não dá não Tradição, mutação, vida e evolução O frivião que não deixa se aquietar
Nordeste ficção me chegou como uma descarga elétrica, arrepiando. Chegou com uma afirmação poética e libertária. Jogando pro alto o Nordeste fácil e abrindo a complexidade de falas, olhares, visões versos e vidas do lugar onde eu nasci. Conheço o meu lugar.
Fazia tempo que eu não chorava ouvindo um disco. Obrigado, Juliana.
PS. Que capa linda, rara!
Aproveito para compartilhar um texto que escrevi há tempos, movido por esse sentimento que a gente encontra em Nordeste ficção. Só que eu falava do Recife, do meu bairro a Imbiribeira. Um microcosmos que contrastava com os clichês acumulados, esses que roubam a narrativa do que é uma cidade e suas ruas.
Acabei escrevendo e publicando um livro, Imbiribeira, para revelar esse slide guardado na memória e surpreender as pessoas com o que eles não imaginam que seja o meu lugar, aquilo que sou.
O meu Recife é outro
do livro Imbiribeira de Toinho Castro
Quando chego num bar, numa reunião de amigos, basta eu começar a falar e logo alguém repara no meu sotaque, aos poucos perdido nas águas da fala carioca, e pergunta-me: Você é de onde? Mal afirmo ser do Recife e já começam, um e outro, a tecer loas sobre meu sotaque restante, e sobre a cidade de onde vim, há mais de vinte anos. Em geral, a gentileza das pessoas, sempre bem-vinda, evoca o Recife que lhes é acessível, de pontes e poesias, como as de um João Cabral de Melo Neto. Ou frevo, às vezes Capiba, inevitavelmente as praias… assim como ao falar do Rio de Janeiro, evocariam o Cristo Redentor, o samba ou a feijoada. Mas preciso dizer que, embora esse Recife faça parte do meu repertório, o meu Recife é outro. De outra ordem e natureza.
Meu Recife é muito diferente do Recife mítico do Capibaribe ou rua da Aurora, ou dos versos de Ariano Suassuna no seu poema Canto Armorial do Recife – Capital do Reino do Nordeste, a nos lembrar o lugar do Recife no mapa afetuoso de Pernambuco.
Meu Recife não é capital nem nada; é beira do tempo e do espaço. Meu Recife é o Recife da Imbiribeira e do Ipsep, do Ibura, com o mar logo ali adiante, bafejando maresia. Meu Recife é espalhado de galpões, oficinas e pequenas favelas escondidas; a Ilha de Deus e o Mata Sete, fermentando sob o ruído dos aviões decolando no Aeroporto dos Guararapes. Tenho essa recordação, de estar no alto do Montes Guararapes com meu pai, assistindo ao aeroporto acontecer logo ali abaixo. A pista extensa e a luz acinzentada de um fim de dia. Será verdade ou memória inventada de tanta vontade?
Meu Recife é de pouca luz e muitos terrenos baldios, de Ave Maria rondando as casas ao anoitecer e do caminho até o bairro de Afogados. Um Recife sem épicos, sem movimentos musicais ou brincantes. Uma ou duas bodegas, o canal, vestígio do mangue, cheio ainda de xiés, e as fogueiras cobrindo tudo de fumaça nas noites de São João. Entre tantas fogueiras acesas no passado, curiosamente, nunca esquecerei é a fracassada fogueira de paus verdes, que meu pai comprou e chiava, espumando ao calor, como os xiés no velho canal, mas não pegava fogo de jeito nenhum, em tentativas cada vez mais infrutíferas de acendê-la. Nem sai da lembrança a canjica com gosto de sabão, tão mal preparada pela vizinha, cujo nome não revelo. Ela já não está entre nós há alguns anos. Partiu, talvez, sem aprender a fazer uma boa canjica; o que não sabemos, no entanto, é também parte do que somos. Recordá-la pela sua canjica intragável não deixa de ser uma curiosa reverência. Em tempo: você precisa limpar todo o cabelo das espigas de milho, caso contrário, saberá a sabão. Permito-me também essa vaidade de guardar um pequeno segredo.
Esse Recife, não recordo de ter sido registrado em verso ou cinema ou fotografia, ou algo qualquer que a gente possa chamar de arte. Um Recife desaparecido, por definitivamente irrelevante, para além das pequenas vidas que ali se moviam e dali desapareceram. Meus amigos e eu nos reuníamos às vezes em volta de um bueiro na encruzilhada da rua Pampulha com a rua Itamaracá, para falar sobre coisas que jamais interessariam a mais ninguém; nossas vidas pequenas e sem esperança na escuridão reinante à nossa volta. Eram os marcos desse meu Recife a ponte na fronteira com a Vila do Ipsep, que eu atravessava de bicicleta pra vadiar; a linha de trem, cruzada cotidianamente para ir à casa de Roberval, e que nos separava também de Boa Viagem, da praia; havia ainda o aeroporto, fronteira com o mundo, e a ponte Motocolombó, nos limites com o bairro de Afogados.
Um Recife mínimo, sem charme, impermanente. Quando escuto barulho de avião ainda olho pro céu e tenho a lembrança de algo que pode não ter acontecido, eu e meu pai no alto da colina dos Guararapes.
ATUALIZAÇÃO
Showzaço de Juliana Linhares no Festival Levada
9 de dezembro de 2021 – Teatro Rivel Refit
Fotos lindas de @rogeriovonkruger, cedidas pelo Festival Levada ___ Nessa última quinta a Kuruma’tá botou o pé na rua pra ver o primeiro show desde que a pandemia começou. E somente o @festivallevada pra motivar esse feito. O Levada com sua alegria e curadoria de primeira linha. E o show escolhido dentre os quatro programados nessa primeira etapa no festival foi Juliana Linhares, com seu Nordeste Ficção!
A Juliana Linhares é uma fonte de energia e encantamento. Quando ela abre aquela voz límpida, potente, tudo se alumia! Desfiando o repertório do disco lindo que ela realizou nesse 2021 (Leia aqui sobre o Nordeste Ficção), Juliana nos pegou pela mão pra dançar e viajar por um Nordeste acima dos clichês.
Sua música é território. Sua presença de palco é onda que se espalha e preenche espaços e corações de quem a assiste. Aquece. O show Nordeste Ficção é pautado pelo encontro, com a música cumprindo seu belo papel de conectar as pessoas numa só, nessa imensidão nordestina de sertões, praias, terreiros e quintais. Nordeste da fala, da dança, da literatura imensa que mapeia modos de ser, de estar e imaginar. O amado Teatro Rival estava nordestinado.
Escutar Galope razante, de Zé Ramalho, e Capim do Vale, de Paulinho Tapajós e Sivuca e ancestralizada na voz de Elba Ramalho… Escutar essas música com Juliana, é de dar água nos olhos. Reencontro com uma música formadora, chão de terra. De repente todo mundo ali sabe de onde veio e o que nos liga. E chegando aos tempos novos, das novas vozes, tá Karina Bhur, representada com uma vibrante versão de Eu menti pra você. E a beleza da versão em libras de Embrulho, emocionante porque foi tão natural e tão necessária nesse país que urge por inclusão!
Saímos dali de alma lavada, lembrados de que se tem alma e leveza. O show foi um retorno ao mundo, ao Rival, aos encontros. Um retorno à casa, como se logo ali estivessem as águas mornas de Boa Viagem, do Cabo Branco, de Ponta Negra.
PS: Todo show devia ter violino!!!! PS2: Banda impecável