Parahyba | Braços de rio, abraço do oceano — 40 anos de fotografia de Gustavo Moura
O Brasil é feito de seus rios, é o que podemos dizer. Eu mesmo nasci numa cidade cortada e marcada por um rio, o rio Capibaribe, que atravessa o Recife para desaguar no Atlântico. Não tão longe dali, nos estado irmão de Pernambuco, a Paraíba, o rio Paraíba encontra-se com o mesmo Atlântico enorme. ou Parahyba, na grafia assumida por Gustavo no título do seu trabalho, Paraíba se torna Parahyba, que significaria Rio que é braço de mar ((pará-hyba). [Texto de Toinho Castro]
A pandemia comendo solta no mundo e eu aqui, há seis meses sem sair de casa mas de olho no portão, porque tá pra chegar essa encomenda linda que é o livro Parahyba| Braços de rio, abraço do oceano, do fotógrafo paraibano Gustavo Moura.
O Brasil é feito de seus rios, é o que podemos dizer. Eu mesmo nasci numa cidade cortada e marcada por um rio, o rio Capibaribe, que atravessa o Recife para desaguar no Atlântico. Não tão longe dali, nos estado irmão de Pernambuco, a Paraíba, o rio Paraíba encontra-se com o mesmo Atlântico enorme. ou Parahyba, na grafia assumida por Gustavo no título do seu trabalho, Paraíba se torna Parahyba, que significaria Rio que é braço de mar ((pará-hyba).
Celebrando 40 anos de fotografia, Gustavo Moura lança Parahyba| Braços de rio, abraço do oceano, dedicado ao percurso do rio e sua influência na vida de quem o acompanha pelo caminho, numa jornada que desce da serra do Jabitacá, no município de Monteiro (divisa com Sertânia, em Pernambuco, onde nasceu meu pai), onde o Paraíba nasce, até seu estuário em Cabedelo. O que vemos pelo caminho é uma série de fotografias desse Brasil profundo, que o olhar de Gustavo capta com carinho, com senso de história e pertencimento. Não, não vi o livro todo, vi algumas fotos, flashes que o artista compartilhou previamente, mas conhecendo o trabalho desse mestre que há 40 anos percorre o imaginário do nosso país com sua câmera, não espero menos que o assombro da terra e do povo revelados.
A trajetória de Gustavo Moura é sólida e enraizada na cultura brasileira, e cruzou com outras trajetórias potentes, como a do mestre Ariano Suassuna, a quem fotografou belamente, como belamente fotografou cada um que cruzou também esse mesmo caminho, com suas lentes generosas, narrando vidas, espaços, manifestações culturais e linguagens.
Com 168 páginas e apenas 150 exemplares editados, Parahyba| Braços de rio, abraço do oceano traz ainda a poesia do escritor Hildeberto Barbosa e texto do professor Diego Gomes de Lucena. Projeto editorial da Maracá Cidadania, o livro tornou-se possível graças a parceria com a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), e apoio do Núcleo de Arte Contemporânea (NAC) e da Editora UFPB.
Fotografias de Gustavo Moura – INtegrantes do livro Parahyba| Braços de rio, abraço do oceano
Para adquirir seu exemplar entre em contato pelo telefone 83 99984-4794 ou pelo e-mail [email protected]. O livro tem o preço justo de R$ 120 + frete de envio.
Maldito seja Vênus
Os Marcianos estão chegando! Quase os vi baterem à minha porta de tão anunciados. Tudo sobre Marte, o planeta vermelho! Foram filmes, livros, teorias da conspiração, homens verdes para lá e para cá, canais, Ray Bradbury, uma saturação desse tal de Elon Musk, seriezinha na Netflix, para esses cientistas desprovidos e sentimento ou memória afetiva descobrirem vida em Vênus! Pelo amor de Deus, quanta decepção nesse mundo que se desmancha aos meus olhos. [Texto de Toinho Castro]
Os Marcianos estão chegando! Quase os vi baterem à minha porta de tão anunciados. Tudo sobre Marte, o planeta vermelho! Foram filmes, livros, teorias da conspiração, homens verdes para lá e para cá, canais, Ray Bradbury, uma saturação desse tal de Elon Musk, seriezinha na Netflix, para esses cientistas desprovidos e sentimento ou memória afetiva descobrirem vida em Vênus! Pelo amor de Deus, quanta decepção nesse mundo que se desmancha aos meus olhos. Olhe bem pra mim… uma vida dedicada a Marte. Quando criança, lá na Imbiribeira, olhava para o céu, procurando entre as estrelas a minha pequena joia vermelha. Alguém me disse, ou li em algum lugar, que os planetas eram aquelas estrelas cujo brilho era fixo, não cintilava como as estrelas de verdade. Isso porque eles não emitiam luz, mas refletiam a luz do Sol, como a lua. O brilho das estrelas cintilava por causa da distância que precisava viajar para chegar até nós. Até hoje não sei se isso é verdade, porque eu prefiro que seja., então está entre as coisas que eu não pesquiso. Veja bem, que quando Vênus se insinuava no céu, a Estrelas D’álva, Vésper, todos paqueravam com ela. Todos a chamavam de estrela, como se isso fosse um valor agregado. E eu dizia: É um planeta… É somente Vênus, o planeta. Mas nada disso importava porque eu tinha o meu amor secreto. Marte!
Eu tinha esse amigo, Biano. Digo tinha porque nunca mais o vi, mas ainda o tenho. Biano era todo enxerido pro lado de Vênus. Amava… Ele me dizia Toinho, se tiver vida no sistema solar fora da Terra, é em Vênus. Escreve aí o que eu to te dizendo. Travamos inúteis e terríveis batalhas de argumentos e paixões. Marte era o deus da guerra e eu um soldado pronto a defendê-lo. Já Vênus, era o portador da paz. O oposto complementar. Coexistiam no céu das noites do Recife. Coexistiam em mim e Biano, com Terra entre eles, mediando suas passagens, suas órbitas e alinhamentos possíveis. Minhas únicas pazes com Vênus era a suite Os planetas, em que discorre musicalmente sobre nossos companheiros de sistema solar, excetuando Plutão, que ainda não havia sido descoberto, e a própria Terra. Marte, como eu bem achava adequado, abria triunfante a obra, bélico, marcial, estranho, sombrio. Vênus era o segundo movimento. Vênus, o portador da paz. E o fato é que ainda hoje éo meu movimento preferido da obra do compositor inglês. Escuto Marte apressado, ansioso, porque tenho que escutar. Porque teno esse compromisso com meu companheiro celeste. Mas escuto esperando Vênus, como nossos vizinhos corriam para rua, para ver Vésper nascer, naquela hora estranha, entre o dia e a noite, em que os morcegos revoavam sobre a rua Pampulha. Sempre preferi escutar a versão do músico e compositor japonês, pioneiro da música eletrônica, Isao Tomita. Dizem que a filha de Holst não ficou feliz com a versão de Tomita para a obra do seu pai. Mas felicidade é uma coisa que nem sempre a gente tem.
Mas quando Holst saía da vitrola, Marte reinava. Li tudo que você pode imaginar. Literatura, reportagens, artigos jornalísticos. Vi filmes e desenhos animados, estudei mapas e centenas de fotografias e desenhos do nosso vizinho na quarta órbita a partir do Sol. Fascinado que eu estava. Porque imaginava que a qualquer momento um sinal de vida surgiria. Acompanhei todos os movimentos dos olhos voltados para Marte, as sondas, os robôs a circular pelos seus ermos, na beirada de suas crateras, cobertos de uma fina poeira vermelha, perscrutando, e talvez se perguntando, no íntimo dos seus chips “Onde andará a vida nesse planeta?!”, enquanto apontava suas lentes para o cume distante do massivo Monte Olimpo. Tudo em vão… os rovers a vagar pelos mares, a escutar nada que não seja o próprio ruído, comunicando-se apenas com a Terra. Mesmo o lendário rosto marciano, esculpido na latitude 40°75′ norte e longitude 9°46′ oeste, revelou-se um engano da baixa resolução da Viking 1.
Enquanto isso Vênus dormia sob sua densa camada de nuvens, responsável pela alta capacidade de reflexão da luz solar, que resultava no objeto mais brilhante no nosso céu noturno, depois da Lua. Uma das sondas Venera, lançada pela União Soviética, foi o primeiro objeto a feito pelo homem a pousar em outro planeta e tirar uma foto. Nesse dia eu devia ter desconfiado que o futuro não estava em Marte, mas eu tinha apenas dez anos e Marte era o único brilho vermelho no céu. Fui levado pelo seu canto noturno. E nem Biano, com sua amizade, foi capaz de me arrebatar pra Vênus. Mesmo Holst não foi suficiente, apesar de neste instante eu escuto a versão de Tomita para Venus – The bringer of peace.
Hoje li que descobriram por lá um gás que está diretamente associado à vida. E isso é uma grande pista. Pode ser um grande engano também, mas na manhã de hoje todos já esperavam ansiosos pela Etrela D’álva no fim da tarde, já imaginando os seres flutuantes e silenciosos em sua atmosfera, com os corpos cobertos pela mesma luminosidade que enfeita os peixes nas profundezas do nossos oceanos. Seres pacíficos, como talvez tenha imaginado Holst. Seres que não precisaram construir cidades ou automóveis, que não ergueram estátuas e que são carregados aleatoriamente pelos poderosos ventos que varrem o planeta. E por causa disso, todos os encontros se dão ao acaso. Vênus é isso, um planeta de encontros ao acaso. Parece-me, pois, que já sou quase um convertido. Pela janela olho o céu nublado mais uma vez, sabendo que não verei Marte.
De repente sou assombrado pelo fato irreversível de que Vênus é o planeta regente do meu signo, Libra. Digo para mim mesmo que não acredito em signo, mas apenas para acreditar no que digo. Talvez eu tenha que ter trilhado esse longo caminho de negação até Vênus, até que ele me receba sob seu denso manto de nuvens de CO2 e ácido sulfúrico, onde alguma poesia deve haver.
Maldito seja Vênus!
Ainda que de olhos fechados você saberá onde eu estarei
Por mais que fechemos os olhos porque o corpo se entrega ao desafio cego da rotina, sabemos que as nossas mãos vão se em pleno voo, no ar, bem acima das cortinas, no vazio dos olhares desconfiados de um respeitável público ávido pelo mútuo fracasso. E daí se ninguém aplaudir? O espetáculo do destino está em despistar o errante mesmo diante de um erro de cálculo. [Texto de Eduardo Frota]
Eu tive uma ideia: e se a gente retirasse a rede de proteção? Veja, passamos a vida inteira ensaiando esse número carregado de sutileza. Sim, somos trapezistas, aqueles que enxergam o mundo de ponta-cabeça. Há muito tempo nos tornamos especialistas em piruetas, dois mortais pra frente, acrobacias irreais, dois mortais pra trás.
Por mais que fechemos os olhos porque o corpo se entrega ao desafio cego da rotina, sabemos que as nossas mãos vão se encontrar em pleno voo, no ar, bem acima das cortinas, no vazio dos olhares desconfiados de um respeitável público ávido pelo mútuo fracasso. E daí se ninguém aplaudir? O espetáculo do destino está em despistar o errante mesmo diante de um erro de cálculo.
Pior do que alçar voo velado pelo sagrado véu da vida é vestir essa roupa colada ao corpo todo o profano dia. Sinto-me sempre pressionado. Todos os músculos, todas as juntas, todos os ligamentos e sentimentos ridiculamente à mostra, comprimidos e imediatamente depois desnudados pelo contato colante do náilon. É como estar nu diante dos fatos. A verdade é que a gente salta para o desconhecido todas as vezes que sobe ao alto, a troco de muito pouco ou de quase nada, camarada!
Ah, isso é papo de trapezista – talvez diga o atirador de facas enquanto se maquia em frente ao espelho e espia o movimento do circo de soslaio. É porque ninguém atira lâminas afiadas em sua direção, é sempre o contrário. Pois então, meu nobre, só por hoje então, meu chefe, corta pra gente os cabos que amarram em quatro apoios a rede que nos protege dessa queda incerta e inerte.
Que o número principal tenha sempre com a vida, e não com a morte, este temível flerte.
Bravos: Tudo indica que estamos saindo para uma aventura!
Não entendo muito de quadrinhos. Não é minha praia, como se diz. Mas meu amigo Francisco sabe tudo. É bom escutá-lo falar sobre quadrinhos; os estilos, variações, possibilidades, os milhares de links e inspirações das histórias, dos autores, de todas essas páginas já produzidas. O mainstream, o alternativo, o sub, o experimental… Quadrinhos é um mundo. [Texto de Toinho Castro]
Não entendo muito de quadrinhos. Não é minha praia, como se diz. Mas meu amigo Francisco sabe tudo. É bom escutá-lo falar sobre quadrinhos; os estilos, variações, possibilidades, os milhares de links e inspirações das histórias, dos autores, de todas essas páginas já produzidas. O mainstream, o alternativo, o sub, o experimental… Quadrinhos é um mundo. Francisco é uma janela para esse mundo, que eu não exploro muito porque não dá para dar conta de tudo que a gente pode amar. Música, cinema, livros, artes… e no meio disso tudo tentar encaixar novas descobertas. Mas volta e meia, da janela que Francisco é, eu dou uma espiada nesse outro mundo. E muito me animo, porque ele só dá dica certeira. E foi assim que li Bravos, que tem roteiro (como num filme) e arte do brasileiro Victor Moura.
Faço questão de escrever brasileiro ao mencionar Victor, porque a gente consome muita coisa de fora e tem maravilhas sendo feitas por aqui. e muitas vezes sendo esnobadas pela brasileirada que proclama adorar quadrinhos. Pois Bravos é quadrinho brasileiro e de primeira linha. Tem três episódios lançados e disponíveis na loja da Mamakoosa, responsável pela edição e que está fazendo um trabalho bonito em colocar quadrinho nacional na vitrine pra valer. O nome disso é coragem, o resto é bobagem. O que tá nascendo ali vai florescer bonito e convido vocês a participar, comprando as HQs e lendo e espalhando a boa nova.
Sobre Bravos, puro encanto. Num cenário que remete à Idade Média, feito de florestas, estalagens, lagos, castelos, Bravos nos convida à aventura. Então assim, não falo como nerd de quadrinhos mas como leitor, como gente que gosta de descobrir novas narrativas e que está começando a encontrar nas páginas das HQs o sabor de uma outra possibilidade poética. Bravos é de uma leveza poética que surpreende e que não deixa cair o fio da meada em bobagens e clichês. É uma narrativa enxuta, cheia de fina ironia e traz esse tema que, ou a gente enfrenta ou a gente se perde… a luta contra o que nos oprime, o que ameaça nossa floresta, o nosso encanto do mundo e mesmo, nosso lugar na comunidade. É poético, leve e ao mesmo tempo uma porrada bem dada, dessas pra nos acordar do torpor do cotidiano, das contas, do chefe demente, do governo que nos insulta.
Os protagonistas dessa fantasia enraizada de mundo real, são Lourenço e Albuquerque, um sapo e uma raposa, vagando rumo a uma missão impossível, iluminados pela presença de Rosa, uma misteriosa heroína que parece saber mais do que eles dos labirintos escuros do reino. E os três guiarão uns aos outros rumo à aventura por vir, que se desenha desde as primeiras páginas. E as páginas passam céleres, ágeis, num modelo super legal em que cada publicação é um capítulo! Bom demais de ler e deixar essa dica aqui é essencial, porque é um ponto de partida incrível pra você enveredar no trabalho dos artistas nacionais dos quadrinhos e na produção da Mamakoosa, que botou a mão na massa pra trazer energia das melhores nessa pandemia doida que nos engoliu.
Leia Bravos e conheça os outros títulos da Mamakoosa… os grincos já ganham grana demais.
Bora comprar quadrinho brasileiro!
Augusto dos Anjos – o poeta das redes sociais em 1900! Oi? Quando?
Um dos meus poetas preferidos é Augusto dos Anjos, que nasceu em 1884 no Engenho Pau d’Arco, atualmente no município de Sapé, Estado da Paraíba. Como muitos à sua época, teve sua primeira educação (o que hoje seria a educação básica) em casa, com o pai. Como era muito dedicado e como as letras sorriam para ele, acabou conseguindo vaga no Liceu Paraibano, onde viria a ser contratado como professor em 1908. Desde os sete anos de idade compunha, precoce e gênio que foi e ainda é. [Texto de Eduardo MAciel]
Olá, queridxs kurumateirxs! Vim hoje trazer no dia da pátria um pouco da história de um seus maiores expoentes.
Um dos meus poetas preferidos é Augusto dos Anjos, que nasceu em 1884 no Engenho Pau d’Arco, atualmente no município de Sapé, Estado da Paraíba. Como muitos à sua época, teve sua primeira educação (o que hoje seria a educação básica) em casa, com o pai. Como era muito dedicado e como as letras sorriam para ele, acabou conseguindo vaga no Liceu Paraibano, onde viria a ser contratado como professor em 1908. Desde os sete anos de idade compunha, precoce e gênio que foi e ainda é. Em 1903, ingressou no curso de Direito na Faculdade de Direito do Recife, formando-se em 1907. Em 1910 ele se casa com Ester Fialho. Seu profundo e intenso apego pela leitura influenciaria muito a construção de sua obra, que abrangeu diversos estilos (incluindo-se aí sonetos) e que tiveram um viés de retratar o mundo de sua época, sob a sua ácida ótica. Filosoficamente, acreditava ser impossível se conhecer a essência das coisas, apesar do seu claro entendimento sobre a evolução da natureza e da humanidade.
Um dos pontos principais para se compreender Augusto dos Anjos é o fato de ele acreditar – e refletir essa crença em sua obra, que a vida e a morte seriam simples fatos de natureza química e que a vontade pessoal deveria ser sobreposta por objetivos maiores. Cético, ele? Não exatamente.
Augusto dos Anjos (e talvez esse seja um ponto de conversão com seu nome), tinha na Bíblia uma realidade espiritualista, tendo-a usado como contraposição aos preceitos iluministas na arte. Mas fez isso de sua própria maneira e ao seu estilo inconfundível, bastante agressivo no uso da letra. E o fez num momento de muita aceitação ao iluminismo. Talvez por isso muitos (eu incluso) o considerem pré-modernista e não propriamente um autor modernista, tal qual muitos o catalogam.
Sua escrita reflete a realidade que via ao seu redor, num contexto histórico, com a crise do modelo produtivo vigente à época, onde oligarcas viam ruir seu modo de produção pautado na escravidão de pessoas. Os ex-escravos, então vivendo livres e miseráveis, e seus senhores perdendo pujança a passos largos, certamente lhe serviram como inspiração. O mundo que ele representava era justamente esse, onde cada ser humano vivia sua própria tragédia, cujas culminâncias seriam o nascer e o morrer.
Para Augusto dos Anjos, apesar de toda sua consideração pela letra sagrada, a religião não era capaz de explicar o mundo e suas dinâmicas. Por isso, sua poesia foi feita usando-se de diversas ironias e sátiras contra o cristianismo e a religião de uma forma geral.
Mas não se enganem: o homem era repleto de antagonismos (e certamente isso é um dos fatores que o fazem ainda mais atraente quando se compara a pessoa com o seu eu-lírico), e em sua cidade natal, o escritor foi ligado à condução de reuniões mediúnicas e psicografia.
Dedicou-se também ao magistério após fixar residência no Rio de Janeiro, onde foi professor em vários estabelecimentos de ensino. Se no Nordeste nasceu e no Rio se estabeleceu, veio a falecer em Minas Gerais, onde dirigia uma instituição de ensino, em 1914, aos parcos 30 anos de idade. Foi-se de pneumonia, o que era comum então.
Na casa em que morou durante seus últimos meses de vida funciona o Museu Espaço dos Anjos. Por outro lado, a antiga residência de Augusto dos Anjos em João Pessoa, é atualmente sede da Academia Paraibana de Letras. Além de seu trabalho como professor e diretor de instituições ligadas à educação, publicava poemas em jornais da época (que funcionavam analogamente ao que hoje conhecemos como redes sociais), sendo o primeiro, intitulado “Saudade”, no ano inaugural do século XX.
Mas seria ele um poeta de periódicos “apenas”? Não chegou ele a publicar livros, que é o que a gente normalmente associa a escritores? Em 1912, publicou seu ÚNICO livro de poemas, chamado “Eu”. Lindo, lindo livro!
E foi somente depois de morto que teve uma curadoria para compilar seus diversos poemas espalhados em um livro póstumo: “Eu e Outras Poesias”, incluindo poemas até então não publicados pelo autor. Grande indivíduo, grande professor, grande poeta e grande fonte de inspiração. Esse é o Augusto dos Anjos que eu tanto admiro. Exemplo de coração rebelde pulsando suas críticas em versos.
E, pra fecharmos a quinzena com chave de ouro, meu soneto preferido escrito por ele:
“Apóstrofe à carne Quando eu pego nas carnes do meu rosto. Pressinto o fim da orgânica batalha: – Olhos que o húmus necrófagoo estraçalha, Diafragmas, decompondo-se, ao sol posto…
E o Homem – negro e heteróclito composto, Onde a alva flama psíquica trabalha, Desagrega-se e deixa na mortalha O tacto, a vista, o ouvido, o olfato e o gosto!
Carne, feixe de mônadas bastardas, Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas, A dardejar relampejantes brilhos,
Dói-me ver, muito embora a alma te acenda, Em tua podridão a herança horrenda, Que eu tenho de deixar para os meus filhos!”
Inté, meus queridxs!
Amor, carinho, cuidado
Existe coisa melhor que satisfazer um desejo? Principalmente quando se trata do alimentar-se. E isso toma uma dimensão muito maior quando fazemos nossa própria comida. Nesse processo, vertemos amor, carinho e cuidado. A sensação de satisfação é dobrada. Isso é felicidade na certa. [Texto de Raíra Moraes]
Existe coisa melhor que satisfazer um desejo? Principalmente quando se trata do alimentar-se. E isso toma uma dimensão muito maior quando fazemos nossa própria comida. Nesse processo, vertemos amor, carinho e cuidado. A sensação de satisfação é dobrada. Isso é felicidade na certa.
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A delícia que é curar em casa um queijo canastra envolve cuidado, carinho, e também disciplina e resignação para cuidar e, ao mesmo tempo, resistir a ele todos os dias. Sentir esse cheiro maravilhoso e único e prosseguir a cura sem tocar num pedacinho sequer não é para qualquer um.
A tortura e a espera valem muito a pena. Depois de dois a três meses lavando, secando e virando todos os dias, ele fica simplesmente espetacular. Para comer puro, ou acompanhado de um bom vinho ou café, nada melhor. Esse da foto estou há um pouco mais de um mês curando.
Assisti a um documentário sobre o canastra. Quanto amor e dedicação há por ele nos seus produtores! Desde a criação do gado, o que ele come, a forma de tratar o animal na hora de tirar o leite, até os detalhes no processo da feitura, cujos métodos, até hoje, são artesanais. E não é sem razão. Esse queijo tem um sabor e textura únicos e inigualáveis e, por todos esses motivos, é que o IPHAN o tombou como patrimônio cultural e imaterial brasileiro. Impossível não se apaixonar.
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Recebi um presente da amiga que planta cítricos Márcia Perígolo. Duas mãos de frutas: uma que conheci na plantação dela, há uns quatro anos. Provei dela e NUNCA mais esqueci o sabor, a cor e o aroma dessa fruta inacreditável: montenegrina! Chupei várias no pé! Ela tem outros nomes, mas, no momento, esqueci. Lembra uma mistura de laranja com tangerina.
A outra é o limão doce, que, até ontem, também desconhecia. Que sabor maravilhoso! Não tem a acidez do limão e é realmente doce. Até a casca de ambos é deliciosa, e as como puras, até porque a produção é sem agrotóxicos.
Que viagem é saboreá-los de todos as maneiras: chupar, fazer suco, geleia, misturar ambos, comer a casca, fazer delas essência para perfumar a casa, enfim! Ontem mesmo fiz uma geleia com a casca de duas montenegrinas. Misturei com suco de laranja comum, um limão capeta e um pouco de açúcar orgânico. Avimaria!!!
Dane-se a linha temporal!
Mas sabemos, eu e Braulio, que Aderaldo nunca é pego nos redemoinhos do acaso. Ele tem esse grande plano arquitetado, do qual nem desconfiamos o teor. Provoquei Braulio, perguntando-lhe se quando era rapazote, por essas esquinas de Campina, lendo as primeiras páginas de ficção científica, imaginara que alcançaria um mundo com portais dimensionais.
— Trupizupe! — Ouvi chamarem no meio da confusão! Olhei e era o Braulio, saltando pra fora do portal interdimensional que aparecera ali há pouco. Sabe como são essas coisas de portal interdimensional, né?! Você tá sossegado, bebendo sua cerveja num boteco em Campina e de repente um rasgo no tecido do tempo-espaço cospe do seu lado uma pessoa com cara de quem foi pega desprevenida, não porque tenha sido, afinal ninguém entra num portal sem querer. É porque essa é a cara padrão de todo mundo que se vê desmaterializado para ter os átomos rearrumados num outro lugar. Coincidência eu tá bebendo em Campina e o Braulio aparecer justamente na frente do boteco em que ocupo mesa como última trincheira civilizatória?! Na verdade não… Tá dando essa zica nos portais. Muita gente vindo bater aqui em Campina sem querer, porque deu esse revertério em certas vias de transição ou acesso ou outra coisa que eu não sei o que é. Posto que o problema é esse… você entra no portal pra… sei lá, visitar a mãe no Recife e vem bater em Campina Grande. Eu ter caído na frente de um bar e o Braulio, em seguida, também, isso sim é coincidência. Bom pra ele, que quando chegou eu já tava ajustado ao ambiente e com uma cerveja gelada na mesa. Estupidamente gelada, diga-se de passagem, pois não estamos todos de passagem?
Pedi mais um copo assim que ele me viu e cambaleou esbaforido até a mesa. Leva uns minutos até que a pessoa se recupere de uma viagem interdimensional. — Essa bar fecha que horas, moço?! — Pergunto, e abriu um sorriso com a resposta.
— Tô fechando não! Com essa bronca dos portais tá chegando gente por aqui a toda hora! Essa primeira é por conta da casa, que esse poeta conheço bem.
Nada como estar à mesa com um filho ilustre de Campina Grande. Brindamos céleres ao defeito nos portais que nos arremessou ali na beira daquele bar que nunca fecha, como se não tivéssemos compromissos a cumprir. Pelo menos essa ocorrência era uma boa desculpa para adiar as pendências da rotina. — Aderaldo bem que podia entrar num portal defeituoso, né?! — Liguei para o impiedoso versejador mas ele não atendeu. Vai que entrou num portal com outro defeito! É o que não falta por aí… usar portais interdimensionais é a nova aventura do dia a dia. Ficamos bebendo e conversando então sobre as possibilidades do aleatório, calculando as chances de Aderaldo ciscar pra fora de um súbito portal, quem sabe já dentro do bar, para pedir sua indefectível “água com gás e limão, jovem”.
Mas sabemos, eu e Braulio, que Aderaldo nunca é pego nos redemoinhos do acaso. Ele tem esse grande plano arquitetado, do qual nem desconfiamos o teor. Provoquei Braulio, perguntando-lhe se quando era rapazote, por essas esquinas de Campina, lendo as primeiras páginas de ficção científica, imaginara que alcançaria um mundo com portais dimensionais.
Imaginei muita besteiras Imaginei carros voando Naves cruzando fronteiras Alienígenas dizendo asneiras Seres-bolhas flutuando Realidades transversais Em dimensões paralelas Prodigiosos ritos e sinais Mas nunca, jamais Esses portais de meia-tigela!
Portais de meia-tigela é pegar pesado, afinal devíamos a eles, no mínimo, estar bebendo em Campina Grande, quando certamente estaríamos cumprindo tarefas de meio de semana na frente do computador. Pra mim, que mal conhecia Campina, estar ali era um espetáculo. Estivera por lá uma única vez e por pouco tempo, o suficiente para dali visitar Alagoa Grande e prestar honras ao nosso querido Jackson, cruzando aquele outro portal, esse real e pandeirístico, que marca a entrada daquela vila. Conversamos então sobre Jackson e sobre o velho Lua, sobre os caminhos do sertão e da asa branca voando de volta, sobre o raio laser e o gás chamado hidrogênio, que incendiou o dirigível Hindenburg. Daí pro campo do Jiquiá foi um salto, e chegando a conversa ao Recife, falamos das pontes e dos malassombros e da Cruz do Patrão, de Calos Pena Filho e do Capibaribe, moroso, arrastando com ele manguezais, homens-caranguejos e antenas, sob os flamboyants a sangrar.
De repente, lá de dentro do bar, para muito além do balcão, escutamos uma voz familiar, fazendo as vezes de narrador de jogo de futebol, desse de rádio de pilha, fanhoso e como se narrasse o desembarque da Normandia, emulando a final do Campeonato Paraibano de 1966, quando o Treze sagrou-se campeão invicto, rendendo o Campinense no 1 a 0! Era Aderaldo que vinha lá de dentro do Bar, animado por nos encontrar.
— Uma água mineral com gás, jovem mancebo! — Fez uma pausa enigmática e completou: — Brauilo, Tunico… o acaso não existe. Estamos aqui pra comemorar teus 70 anos, Braulio! — Oxe! Ainda não! — Ainda sim! Veja bem, jovem. Essa passagem não é só interdimensional, como também transtemporal! Assim sendo, saímos de onde saímos num dia e demos aqui em outro. Tudo isso dentro de um plano edificante que nos escapa à compreensão. Bora brindar? — Lascou! — Murmurou um conformado Braulio Tavares, que bem sabe que não há argumento com Aderaldo, com as malemolências dimensionais e temporais. — Desce outra!
Pra conferir o feito, Braulio levantou-se e foi até à folhinha pendurada na parede para conferir a data. Voltou pálido em meio a confusão do boteco, enquanto o portal sacudia mais um incauto nas ruas de Campina.
— O que foi, cabra? — Lá na folhinha… Setembro tá escrito assim: Septenbrum. — Fez um silêncio. — Alguém pisou numa borboleta!
Nisso o portal desabrochou mais um desorientado na calçada do bar gritando: — Dane-se a linha temporal!
Ouviu-se um som de trovão.
Playlist II
Confira as observações musicais de Aderaldo Luciano, com sua Playlist. São textos e músicas pescadas no cotidiano. São frutos dessa quarentena que se prolonga e é preenchida com buscas e encontros nas ondas da rede e do Spotify!
O poeta enlouqueceu na noite passada, deitado na barca da morte: as sombras da ansiedade. As paredes e o teto o transformaram no Conde de Monte Cristo, uma cela minúscula e escura. Mas recebeu no café da manhã a possibilidade de mais um dia, talvez de mais um fim de semana. O poeta ouve música, o poeta busca as canções. O poeta encontra Sabah Moraes. O poeta gosta de carimbó. O Pará é um imenso rio onde o sol nunca se põe, onde o poeta navega numa canoa invencível.
7
Sigo na noite que segue também. Há chuva nas ruas, há frio nas veias, há sonhos em véus. Os cães estão calados. No frio parece que eles perdem a capacidade de dialogar. Nenhum grito, nenhum uivo, latido algum. A voz de Karsu Dönmez é uma lâmina beijando-me o coração e, por algum portal cardíaco secreto, chegando a alma. Vou apagar a luz. Vou desligar o mundo. Vou descer pelo Karasu. Vou com ele e com o Kabhur. Vou para o Mar. Vou me deixar.
8
Por um breve momento, no escuro, senti a Terra parar. Foi breve, mas foi vero. As nuvens desceram, bem devagar. Tenho certeza que ninguém notou. Tudo continua como estava. Os vizinhos estão aprofundados em suas telas. Eu também estou, mas senti a Terra dar um breque. Sei que aconteceu porque meus gatos levantaram a cabeça ao mesmo tempo e espicharam as orelhas. Eles ouviram o som. Eles ouviram a música. Foi um experimento de Deus. São muitas almas subindo ao céu. Tenho certeza.
9
Desci ao porão dos que remavam. Desci a seus pesadelos. Desci para flagrá-los remando. É isso que fazem para mover nossa imensa caravela. À frente dos que remam e suam, outro condenado bate o ritmo do tambor. É esse ritmo que aprisiona os que remam. É esse ritmo que aprisiona o que toca. Estamos todos condenados a remar. Quando subi ao convés, Vardan Hovanissian e Emre Gültekin apontavam para Adana, cidade onde quase todos morreram.
10
Persegui flores toda minha vida. Borboleta, eu. Nas imensas planícies da Mongólia, vaguei por vários dias, planei sobre os mistérios, assustei cavalos selvagens e rondei Genghis Khan. Nas noites aninhei-me com frio no pedúnculo de alguma flor adormecida. Quando o sol nascia, ou um pouco antes, o orvalho evaporava e eu continuava minha jornada rumo ao Orkhon, entre os montes Khangai. Busco Karakorum, onde morreu meu pai.
A lua lá fora
Hoje desci pra levar o lixo lá para o lugar do prédio em que o lixo espera, em estado fermentativo, até ser levado para o lugar onde todo o lixo do mundo se acumula e nos espera. Na verdade avança metro a metro sobre nós. Mas não é sobre isso que quero falar, e sim sobre descer as escadas desde meu terceiro andar até o térreo, de máscara, para me livrar do lixo e dar com aquele portal mágico que se tornou a porta da rua do nosso prédio. Lá estava ela, fechada, com seus vidros transparentes, através dos quais eu via a rua. [Texto de Toinho Castro]
Hoje desci pra levar o lixo lá para o lugar do prédio em que o lixo espera, em estado fermentativo, até ser levado para o lugar onde todo o lixo do mundo se acumula e nos espera. Na verdade avança metro a metro sobre nós. Mas não é sobre isso que quero falar, e sim sobre descer as escadas desde meu terceiro andar até o térreo, de máscara, para me livrar do lixo e dar com aquele portal mágico que se tornou a porta da rua do nosso prédio. Lá estava ela, fechada, com seus vidros transparentes, através dos quais eu via a rua. Lá estava a rua, como se nada devastadoramente inesperado tivesse acontecido em 2020, como se esses cinco ou seis meses. Como se lá fora não houvesse mais de cem mil vidas a menos, mais de cem mil círculos de famílias e amigos mergulhados na tristeza da perda.
Já havia me livrado do lixo e fiquei ali contemplando brevemente a porta da rua fechada. Enfim caminhei até ela e a abri. Senti a brisa delicada de 23º, resquício da frente fria que já nos abandona ao sabor da primavera que se achega na cidade. Nem um mês inteiro falta. Deixei a porta entreaberta e desci os degraus até o portão e, finalmente, a calçada. A rua. Por um milésimo de centésimo de um lapso de segundo, senti como na Imbiribeira, 40 anos atrás. O corpo noturno do mundo. Lá na esquina, o bar aberto, iluminado, e com algumas pessoas a conversar na calçada. Mas eu não escutava o que elas diziam e os automóveis na via principal pareciam passar em silêncio, o silêncio de filme mudo que se espalhava pelas coisas. Lembrei de um texto de Jorge Luis Borges, do qual sempre lembro, chamado Sentir-se em morte, em que ele rememora a experiência de, numa caminhada a esmo, chegar a essa rua remota, de casas baixas. Nenhuma casa se aventurava à rua; a figueira escurecia a esquina; os portõezinhos – mais altos que as alongadas linhas das paredes – pareciam trabalhados com a mesma substância infinita da noite. — Ele escreve.
Todo aquele cenário se apresenta tão antigo e, simultaneamente, tão deslocado do tempo, que bem poderia ser mil oitocentos e tantos. O fácil pensamento Estou em mil oitocentos e tantos deixou de ser algumas poucas aproximativas palavras para entranhar-se em realidade. Senti-me morto, senti-me um percebedor abstrato do mundo. Recordei também de um poema de Allen Ginsberg, no qual encontramos o verso, na tradução de Claudio Willer:
Tive um lampejo de claridade, vi o sentimento no coração das coisas, saí para o jardim chorando.
São esses momentos de um limpidez que nos ocorrem num mundo turvo. Alegra-me que seja consequência de descer com o lixo, essa tarefa que se tornou árdua, cercada de protocolos que a quarentena nos impõe, e também permeada de inseguranças. Mas foi esse fio que eu puxei e que me levou à rua, enquanto atrás de mim deixava um outro fio, um fio de prata, que dizem prender o espírito ao corpo quando esse se aventura nos territórios dos sonhos ou nas viagens astrais. E foi assim que, como um antigo astronauta preso a nave, flutuando sobre os destroços do mundo, eu vi a Lua, com seu disco incompleto, brilhando tanto no céu sem nuvens. Há quanto tempo não a via, ainda mais assim tão nítida. Da minha janela tenho meu quadrante de céu, uma faixa estreita, delimitada por prédios. Em certos períodos do ano posso contempla-la da minha janela, mas nos últimos tempos ela andava sumida. Porque tudo gira… a Terra gira, em torno do seu eixo inclinado, a Lua gira, arrodeia a Terra e ambas se lançam em torno do sol, numa dança contínua de mútua influência que define as estações do ano, as marés, as corrente submarinas, o movimento nem sempre sutil das placas tectônicas… eventualmente tudo findará, com o sol consumindo seu combustível final e se expandindo para engolir as órbitas de Mercúrio, Terra e Marte, num evento tão grandioso quem nem nos será dado participar, mínimos que somos.
Bem ao lado da Lua havia algo que muitos diriam ser uma estrela, e que eu sabia ser Júpiter, porque leio esse tipo de coisa, porque nunca se sabe quando podemos precisar de uma informação assim. E veja só, eu estava justamente diante de um momento como esse. Lá estava eu e lá estava Júpiter, bem ao lado da Lua, e eu sabia.
Bem ao lado da Lua é modo de dizer, pois sabemos o quanto essas relações são ilusórias. O gigante gasoso, que de tão grande e massivo por pouco não se tornou um sol, dista quase cinco anos de viagem desde a Terra. Enquanto a Lua está logo ali. Na falta de gravidade em que me sentia, pensei que poderia nadar até lá de braçadas, arrastando atrás de mim, pesada, a minha cápsula, presa ao meu escafandro pelo fio de prata. Carregando comigo Raquel, os gatos, nossos livros e discos, as mudas de limão doce… rumo a Lua, sabendo que não há estrelas no caminho, porque elas estão bem além, muito além de Júpiter e suas família de outras luas, e seus anéis. Sim, Júpiter tem anéis. E esses pensamentos, comigo ali, de pé na calçada do prédio, no silêncio primordial da rua, um silêncio que estava me esperando desde eras priscas… por quanto tempo revoaram esses pensamentos na minha cabeça? Dois minutos? Cinco?
Ainda enevoado recolhi meu meu fio de prato rumo ao interior da minha nave-mãe. Fechei a escotilha e olhei uma última vez para a rua e para o imenso céu sobre ela. Esse céu que nada sabe sobre nós e nossa desventura quarentênica. Subi as escadas e o lixo ficou para trás também, a ser recolhido logo pela manhã. vamos deixando tudo para trás… a rua, as noites, o lixo, enquanto avançamos sem rumo, nos afastando velozmente daquele ponto indizível, concentrado, mínimo, de onde tudo explodiu e expandiu preenchendo esse conceito estranho chamado Nada, em que demos por existir, seja lá o que for a existência.
Já em casa, no calor dos meus, escrevi esse texto, a ser publicado sem data, mas com uma data de expiração. Quando o Sol em suas últimas convulsões de energia, varrer do universo isso tudo que seguimos deixando para trás. Há de restar uma enorme nuvem de gás e poeira, que há de ser berço de algo futuro. Há de restar uma nave ou outro prodígio a carregar algo que sobre de nós. Ou mesmo a terra estará atravessando a escuridão do cosmo em busca de outro lar. Tem um livro sobre isso, do escritor chinês Liu Cixin sobre isso, e um filme também, inspirado no livro! Recomendo… ainda temos um mundo para viver.
+ POEMAS DO TESSERATO | CALÍ BOREAZ
tesserato é um súbito lugar de fusão. em toda a fusão existirá um momento de confusão? numa sucessão de interseções de espaços e tempos em movimento — como se estivessem girando num grande hipercubo —, o sujeito poético se desloca ao longo da imobilidade. toda a imobilidade conterá uma suspensão? nesse amplificar-se, entre estar e já-não-estar, entre a inexistência de um pouso e a espera por si mesmo já nesse pouso, é traçada uma inexplorada dimensão. os poemas — em verso e prosa — de tesserato são tentativas de atingir o tanto de um instante. [Poemas de calí boreaz]
estou muito compenetrada na imagem suspensa de um hipercubo a girar
: na visão do pássaro a passar entre os fios da fiação-elétrica-sobre-azul : na janela do 8º andar por onde cai lentamente alguém — em forma de nada : no momento em que uma cor se apaga e outra se acende no semáforo : no vidro a emudecer o frenesim do lançamento na livraria-café : na fé quanto à necessária inutilidade de toda a poesia ali contida na medida em que ela é o contributo humano à infinitude do mundo — e para que serve o infinito
eu estou muito compenetrada na imagem suspensa de um hipercubo a girar
: na intermitânsia do letreiro a anunciar o café curativo da ansiedade : na busca alheia do gesto que livre a palavra do livro : no suave compadrio entre o que arde em cada coisa da cidade : na cidade como arte do encontro de linhas geométricas mas não de gente : na tampa do esgoto que não explode pouco antes que eu pise nela : no fogo a comer a outra parte da cidade enquanto esta sofre de esgotamento tampado, enquanto eu
continuo muito compenetrada na imagem suspensa de um hipercubo a girar
: na rasteira balística dos bilhões de sapatos ritmados a desarrumarem-se rumos : na consciência da carteira vazia de notas e moedas e mesmo do que as precede : na súbita e esmagadora surgência de um prédio abandonado : na súbita e esmagadora percepção da beleza que há num prédio abandonado : no que há de súbito e esmagador em perceber que no abandono assim muito assumido nos livramos de quase tudo e quase nada nos falta, só um pouco de ar, e por isso é que eu
ainda estou muito compenetrada na imagem suspensa de um hipercubo a girar
atenta, a ver se a aresta-âmago a-que-brilha pára de frente pra mim parece simples mas estou há oito mil anos nesta vã guarda e depois não sei — penso que brilharei e esmerilharei todas as formas da leveza e da inutilidade inaugurais penso que até sou capaz de pular carnavais (outra vez) assim como quem se expande a partir de um 8º andar levando consigo os pássaros os semáforos os estilhaços dos vidros — e da poesia as tampas dos esgotos pelo ar e os passos dos funâmbulos finalmente a desabar e os fogos todos soltos a confiarem-se as danças dos grandes vazios dos grandes lugares o café os livros o poder de compra recalculadamente a brincarem de avoar com as crianças ah, depois não sei — penso que a cidade toda será não o chroma key do artista mas a carótida das profundas crianças que nada sabem da língua e só querem o abandono da cambalhota no ar, e rir e rir demasiado . o que sei é que no desmazelo poético da cidade o hipercubo continua a girar e eu, aqui à margem de tudo, largar-me! não me posso distrair é que se não tivesse já parado, ainda podia parar . com uma vênia ao equilibrista está tudo justificado
tempografia comigo de costas a olhar a fotografia que prendi
na parede última da décima primeira casa estrangeira, uma janela trans-espacial para a vista do quarto dos meus avós. num tropeço do atlântico, escorrego assim para os lados da lezíria do tejo, mais para dentro, e mais para dentro, ali onde termina o campo e principiam as tintas cítricas dos crepúsculos, e as estações frutadas, e a promessa do sumo quente das oliveiras, e de onde, tão de repente, se contempla a abundância do que precede tudo. dessa janela, ela amanhecia antes do inteiro mundo, e ela é que ligava a brisa os pólens e a cor rosa-chá da manhã, enquanto ele, de radinho baixo muito ao pé do ouvido, nem acordava (porque nunca dormia), desanoitecia.
e o que sinto, aqui parada a esta janela, não é a arrebentação da saudade, e sim a breve metálica sensação de um eu-futuro a olhar-me enquadrada aqui olhando o quadro
mas o que sinto, aqui parada a esta janela, não é tanto a fantástica projeção de um eu-futuro a olhar para mim-agora, e sim a longa consciência de um eu-passado — a olhar pela janela real e — sabendo que, um dia, aquela casa toda mesmo primeira seria estrangeira e aquela vida toda mesmo infinita seria enquadrada