No dia seguinte podíamos ver na frente de casa a fogueira reduzida às cinzas e brasas esparsas, ainda acesas à luz da manhã. A cinza das horas, talvez. Da noite anterior o cheiro do milho persiste, mais na memória que no ar, ou na língua. O último dia de Junho ia assim se esvaindo, como as próprias fogueiras que ao longo do mês enfeitaram a rua e aqueceram histórias e conversas. [Texto de Toinho Castro]
Eu sei que é junho, o doido e gris seteiro Com seu capuz escuro e bolorento — Geraldo Valença
No dia seguinte podíamos ver na frente de casa a fogueira reduzida às cinzas e brasas esparsas, ainda acesas à luz da manhã. A cinza das horas, talvez. Da noite anterior o cheiro do milho persiste, mais na memória que no ar, ou na língua. O último dia de Junho ia assim se esvaindo, como as próprias fogueiras que ao longo do mês enfeitaram a rua e aqueceram histórias e conversas. Lembro de, menino, ficar observando o crepitar da lenha, a incontinência meio selvagem do fogo e as fagulhas, ao revirar-se as brasas para assar o milho, a subir no ar quente, como mínimos balões, traçando caminhos randômicos até cessarem, desaparecerem, como quase tudo, ou tudo, diria minha mãe, desaparece. Fim de junho, fim de um mês inteiro de ansiedade pelas noites frias e estampidos da bombas e rojões reservados aos adultos, ou aos jovens afoitos.
Recordo uma noite em que rodávamos, eu e uns amigos, de carro pelo Recife, noite de Junho claro. Éramos já universitários, indo de um bar para outro, na zona norte da cidade, e percebíamos, sem comentar uns com os outros, uma neblina fina que cobria tudo. Seguíamos em silêncio mas algo pedia para ser dito, então um de nós, não lembro quem, falou: É São João. Até hoje não sei se ele se referia à época em que estávamos ou se mesmo ao santo, que naquela neblina se manifestava entre nós. Era pois a fumaça das fogueiras, que ali por onde passávamos não víamos sinal delas. Apenas a fumaça fina, como uma friagem a emoldurar a noite. Talvez a fumaça de fogueiras pretéritas, há muito apagas, como um espírito, um ectoplasma . E nos era dado ver porque havíamos bebido, porque estávamos em silêncio e possivelmente sem rumo. Era São João… murmuro ainda hoje.
Lá vem Julho. São Pedro, o último da trindade junina a se manifestar, já cerrou as portas do seu dia, e colocou a chave na gaveta, ao lado da cama em que dorme São João. Santo Antonio, debruçado na janela, olha para o céu uma última vez antes de fechá-la. Julho acompanha Junho, sobre o tapete das brasas adormecidas, até o sorvedouro onde, por fim, o fio do seu último dia escoará. Silêncio na rua Pampulha, silêncio na Imbiribeira. Todos dormem enquanto Junho se vai. Todos em suas casas, em suas camas, como São João. Todos dormindo, profundamente.
Orgulho Gay
Olá, meus caros kurumateiros!
Hoje é segunda, e ontem foi o dia do assim resumido “orgulho gay”. Resumido, eu disse.
Resumido porém não encolhido. Na verdade estou aqui na ressaca pandêmica e isolada de tanto festejo, em casa, pelo marco da luta desse grupo vasto, oprimido, assassinado como em nenhum outro país do planeta, vilipendiado da roda do poder econômico, visto ainda como uma gente marginal, alijada de oportunidades das mais diversas [Texto de Eduardo Maciel]
Olá, meus caros kurumateiros! Hoje é segunda, e ontem foi o dia do assim resumido “orgulho gay”. Resumido, eu disse. Resumido porém não encolhido. Na verdade estou aqui na ressaca pandêmica e isolada de tanto festejo, em casa, pelo marco da luta desse grupo vasto, oprimido, assassinado como em nenhum outro país do planeta, vilipendiado da roda do poder econômico, visto ainda como uma gente marginal, alijada de oportunidades das mais diversas, dentre as quais destaco a oportunidade (que na realidade deveria ser um direito inalienável) de serem quem são, sem nenhum tipo de censura ou inferioridade. Luta desse grupo. No qual me insiro, com orgulho. Sou casado com um homem que amo, tenho uma linda família com ele e seus dois filhos que só me devolvem amor. E nesse clima, gostaria de trazer a memória desse movimento, e espero que empatizem com o relato. Em 28/06/1969, nos Estados Unidos, pessoas ligadas ao movimento LGBTQAIP+ enfrentaram a opressão policial contra os direitos inalienáveis desse grupo. Esse evento foi o marco histórico do movimento organizado. No Brasil, o movimento começou a se organizar em 1977, por incentivo do advogado João Antônio Mascarenhas, radicado no Rio de Janeiro. A pauta da luta LGBTQAIP+ orbita em torno das seguintes demandas:
– Apresentação de projetos de lei que punam a discriminação; – Não permitir que pessoas jurídicas ou físicas, que tenham algum registro de discriminação, participem de licitações públicas; – Apoio à apuração e punição efetiva para atos discriminatórios – Criação, revitalização e fortalecimento de órgãos defensores dos direitos LGBTQAIP+; – Respeito às diferentes orientações sexuais como pauta em escolas formadoras de policiais; – Criação de diversos canais de denúncia para crimes discriminatórios; – Engajamento da sociedade na luta pelos direitos LGBTQAIP+; – Facilitação de acesso a procedimentos médicos de redesignação de gênero; – Inserção, no currículo escolar obrigatório, da pauta antidiscriminatória; – Incentivo a eventos socioculturais de empoderamento LGBTQAIP+; – Criação de programas específicos de saúde voltados para esse público; e – Implantação de políticas públicas que garantam, para esse grupo, acesso a emprego e renda.
Particularmente, defendo todas essas demandas, por entender que o direito à cidadania deve ser irrestrito. A luta LGBTQAIP+ é uma luta minha. Da minha família, dos meus amigos. Mas deveria ser também uma luta sua, de cada um de vocês, que se identifiquem ou não com cada uma dessas letras na sopinha de letras que tenta nos agrupar e com isso nos fortalecer. Fica aqui um abraço a todos vocês, a todos nós, que lutamos contra preconceitos de toda natureza! Inté!
Gilberto Passos Gil Moreira
Hoje é aniversário de Gilberto Gil, esse artista central na nossa cultura, central na nossa vida porque é a conexão de tantos caminhos, de tantas linhagens e vozes. A generosidade do seu talento luminoso é um abre-alas… fico aqui pensando em tantas portas que Gil abriu pra gente, das tantas direções para onde sua voz apontou e para onde seguimos sem medo, com fé! A música negra e universal de Gil está cravada em nossos corações, e por isso resistimos e marcamos essa linha divisória, que separa a vida de todo o resto que é contra ela. [Texto e poema de Toinho Castro]
Hoje é aniversário de Gilberto Gil, esse artista central na nossa cultura, central na nossa vida porque é a conexão de tantos caminhos, de tantas linhagens e vozes. A generosidade do seu talento luminoso é um abre-alas… fico aqui pensando em tantas portas que Gil abriu pra gente, das tantas direções para onde sua voz apontou e para onde seguimos sem medo, com fé! A música negra e universal de Gil está cravada em nossos corações, e por isso resistimos e marcamos essa linha divisória, que separa a vida de todo o resto que é contra ela. Gil é nosso marco afirmativo. A canção cantada por nós, mirando o amanhecer.
Há tempos escrevi para ele esse poema, que já circulava nas redes sociais e que de tempos em tempos recupero para pontuar a grandeza desse artista. Hoje o oficializo aqui na Kuruma’tá, como poema dedicado a quem comungar com essa fé.
Gilberto Passos Gil Moreira esse nome que é um verso quase uma poesia inteira outro dia ouvi você cantar aquela canção da menina baiana num velho disco de vinil que ressoou na minha caixa craniana me convidando pra dançar deixando-me febril
e lá fui eu para lá para além do ano 2000 e não me contive de alegria por sua música profunda que a tudo alumia e inunda não me contive onde eu estava em quem eu sou e saí pela rua a todo vapor e pensei em você menino baiano de salvador pisando as pedras do calçamento sujeito ao encantamento da Bahia e da Nação para fazer da própria música o pão para reparti-la com os irmãos
escuto aquela canção da menina baiana do menino negro de salvador atomizado na raiz do cabelo no dna de raiz africana na raiz da macaxeira menino que se chama um verso — Gilberto Passos Gil Moreira
corre, menino corre que amanhã é dia de luta corre que amanhã é dia de feira
Obrigado, Gil. Você foi um dos meus professores de poesia.
Um filtro de barro dentro de casa
Quando deu-se a pandemia e na sequência a quarentena no Rio de Janeiro, resolvi por em prática um ideia que há tempo vinha alentando: Comprar um filtro de barro. Sem saber do que viria pela frente e já de olho no colapso dos sistemas, pensei logo que poderíamos ter dificuldade de comprar água mineral. Como vínhamos de uma crise hídrica, por conta da contaminação do principal sistema de abastecimento do estado do Rio, beber água mineral tornou-se uma rotina, mesmo depois que o problema sentiu-se resolvido. [Texto de Toinho Castro]
Quando deu-se a pandemia e na sequência a quarentena no Rio de Janeiro, resolvi por em prática um ideia que há tempo vinha alentando: Comprar um filtro de barro. Sem saber do que viria pela frente e já de olho no colapso dos sistemas, pensei logo que poderíamos ter dificuldade de comprar água mineral. Como vínhamos de uma crise hídrica, por conta da contaminação do principal sistema de abastecimento do estado do Rio, beber água mineral tornou-se uma rotina, mesmo depois que o problema sentiu-se resolvido. O filtro de barro seria a garantia de ter água para beber enquanto cumpríssimos os ditames do isolamento e distanciamento social, que estava já a pautar nosso cotidiano.
Comprar um filtro de barro é trazer uma pessoa pra dentro de casa. O bicho não é plug & play. Tem um processo, uma adaptação à nova vida que ele vai levar fora da lojinha em que dormia até ser resgatado. Antes de poder beber a água que ele verte, é preciso filtrar uns bons litros da mesma até que se vá certo gosto que a enfeita, por demais desagradável. Diz o folheto da vela (ou como se lê, o elemento filtrante), que deve-se filtrar uns 30 litros de água antes que esteja adequada para o consumo. Aí começa a relação com essa criatura que é o filtro de barro. Primeiro a gente ferve a água da torneira que vai abastecê-lo. Então deixamos que ela esfrie naturalmente para que seja derramada na entranhas do filtro, como uma pequena cascata cristalina. O som que isso faz já é lindo, da água caindo no oco da parte superior do filtro, que se ocupa desse volume que ainda será filtrado. Depois de tampada a abertura, imagino o silêncio naquele interior escuro, como de remotas cavernas, ou poços nos ermos do sertão.
E aí temos que dar conta da filtragem desses desses primeiros litros até que um primeiro copo de água pode ser experimentado, uma água como que depurada, maturada, que não é simplesmente obtida, mas extraída das virtudes da lentidão. Esse primeiro copo sela a comunhão da família com o filtro, que agora sim, convertido na sua utilidade mágica elege-se como um novo membro, a partilhar do aconchego que é uma casa.
Uma coisa boa do filtro de barro? Suas paredes frias. Você encosta a mão no filtro e sente a friagem do barro, como se acumulasse noites. A textura do material, a lisura que se deu àquele elemento extraído do chão rude. Quando olho para o filtro de barro, lembro das barreiras que a estrada cortava no caminho entre o Recife e Natal, caminho de minha infância. Recordo que de certa feita o ônibus da Viação Nápoles quebrou bem junto a uma dessas barreiras. Nas longas horas em que esperávamos a chegada de um novo ônibus para nos levar ao destino, aproveitei para gravar ali no paredão de barro o meu nome, mesmo sabendo que seria lavado pelas chuvas. Olho para o filtro, penso no seu dentro e me vem esse nome inscrito simbolicamente em seu interior; irmanados que somos então.
filtro de barro que de sua posição de lótus me observa que dentro de si reserva a água que mata minha sede
filtro de barro que no silêncio só se escuta o gota a gota do teu pulso que nem balanço de rede
Outra coisa boa do filtro de barro, além da água que nos provê, naturalmente, é esse pingo que se escuta de dentro dele. Noite dessas, já tarde, passei por ele e escutei aquele gotejar, esparso mas recorrente, compassado. Uma música mínima, que pontua sua existência e compromisso com o resto da família. Quando o pingo cai e encontra a água, já filtrada, que repousa no compartimento inferior do filtro (inferior na posição física que ocupa no filtro, mas superior na missão de conter e dar saída à água de beber), escutamos aquele som que é como séculos, como o som da primeira gota que caiu numa porção de água. Tem um eco e um oco que invade ouvido, adentra o juízo de um jeito que você até escuta uma voz remota chamando: menino, vem beber água!
Isso é um filtro de barro dentro de casa. Outro dia, enchendo uma garrafa, a água já minguava em sua torneira quando o inclinei, para que mais água, que eu sabia dentro dele, pudesse sair e completar minha tarefa de encher a garrafa. Que gesto de tantas gerações, que me veio tão naturalmente, como respirar. Lembrei de um texto de Julio Cortázar, no seu O jogo da amarelinha:
Penso nos gestos esquecidos, nos muitos salamaleques e palavras dos nossos avós, pouco a pouco perdidos, não herdados, caídos um atrás do outro da árvore do tempo. Esta noite encontrei uma vela sobre a mesa e, para brincar, acendi-a e andei com ela pelo corredor. O ar causado pelo movimento ia apagá-la e, então, vi levantar-se sozinha a minha mão esquerda, abrigando e protegendo a chama como uma cortina viva que afastava o ar. Enquanto o fogo se endireitava, outra vez alerta, pensei que esse gesto fora o gesto de todos nós durante milhares de anos, durante a Idade do Fogo, até que a trocaram pela luz elétrica.
Olhamos para ele e sei quele nos olha, concentrado que está no chamado ao qual atende, um sistema fechado, autorregulado, que só precisa que você o abasteça. Como uma ostra secreta, assaltada por um grão de areia, vai gerando suas pérolas límpidas, que nos oferece com silenciosa generosidade. Espírito antigo, como os gatos, é um elemental da casa, uma presença ancestral e carregada de história. Beber água do filtro de barro é beber água como minha mãe e meu pai, como meus avós, beber como se fosse de um riacho secular, infiltrado na nossa cozinha, o riacho subterrâneo que o professor Lidenbrock usou de guia na sua viagem ao centro da terra, o Hans Bach. Água lenta, como lento deve ser o mundo, a verter-se dentro de si.
Junho
Na memória afetiva, Junho começa em março com a procissão de São José. No sertão baiano, os católicos cantavam rimas ao Santo carpinteiro, pedindo chuva para irrigar as sementes de milho. Em Junho, com a colheita farta, as rezas e canções são para o trio católico e tão nordestino: Antônio, João Batista e Pedro. Junho é meu avô acendendo a fogueira e minha avó ofertando a mesa farta. Desde menino, eu sempre olho para o céu nesse mês tão glorioso. [Texto e poema de Márcio Fabiano]
Na memória afetiva, Junho começa em março com a procissão de São José. No sertão baiano, os católicos cantavam rimas ao Santo carpinteiro, pedindo chuva para irrigar as sementes de milho. Em Junho, com a colheita farta, as rezas e canções são para o trio católico e tão nordestino: Antônio, João Batista e Pedro. Junho é meu avô acendendo a fogueira e minha avó ofertando a mesa farta. Desde menino, eu sempre olho para o céu nesse mês tão glorioso.
Foto de Toinho Castro
Junho
Estouros no meu coração Olhos de mil cores Bandeiras trêmulas Ventos sopram dores
Olha o fogo menino- grita a senhora.
Junho
Lembranças na brasa ardente Cinzas no meu pulso Fé e fumaça O menino pirraça A velha acha graça
Junho
O velho acende a fogueira João está dormindo A comida está na mesa João está pedindo Os meninos fazem festa João está dormindo O balão está no céu João está subindo Para ver o menino Jesus, que em seus braços de luz, abençoa o Santo, o menino e a festa.
Sérgio Ricardo em 3 histórias
Hoje é aniversário de um dos grandes nomes da cultura brasileira. Artista completo, pleno, Sérgio Ricardo transita pela música, artes plásticas, cinema, poesia, com uma obra vasta e riquíssima. É um artista sem medo, que vem traduzindo o Brasil para quem quer entender desde que me entendo de gente, de brasileiro. São 88 anos de vida e uma obra de resistência… [Texto de Toinho Castro]
Hoje é aniversário de um dos grandes nomes da cultura brasileira. Artista completo, pleno, Sérgio Ricardo transita pela música, artes plásticas, cinema, poesia, com uma obra vasta e riquíssima. É um artista sem medo, que vem traduzindo o Brasil para quem quer entender desde que me entendo de gente, de brasileiro. São 88 anos de vida e uma obra de resistência, que vai se desenhando desde os anos 1950, passando pela febre dos festivais, atravessando a ditadura, compondo trilhas, fazendo filmes e desafiando o Brasil sem ceder aos modismos e bons-mocismos. Seu nome está inscrito em verdadeiras pedras monumentais como Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, filme para o qual criou uma trilha tão poderosa e marcante quanto o próprio filme. Por conta do teor de suas letras e mesmo da sonoridade de seu cancioneiro, podemos facilmente de imaginá-lo como cantor de protesto… a repercussão de discos como o que gravou em 1973, que traz Calabouço, pode nos enganar. Mas não, não se engane, que Sérgio Ricardo é mais amplo que um rótulo. Sua música é valente, é uma música que vem do povo, da força das tradições musicais, e aponta continuamente para o futuro. É um Brasil adentro danado!
Para entrar nessa celebração de vida e obra mágicas de Sérgio Ricardo para falar um pouco de como alguém assim se conecta com a vida da gente, com nossa história familiar e afetividade, como molda nosso imaginário e gostos e escreve linhas de fogo na nossa história.
Primeira história
Quando eu era criança, contei isso para Marina, sua filha, eu tinha medo de Sérgio Ricardo. Sua imagem em preto e branco, com o violão em punho, aquele violão prestes a se arrebentar contra a mesmice, carregado de tensão, tensão do artista em crianção! Era uma imagem que assustava uma criança que crescia prestando atenção ao mundo. Mas quando eu escutei Calabouço foi que se deu aquele sentimento de profundeza e escuridão, que eu sabia que atormentava o país. Meus país era muito politizados e eu já tinha essa percepção da dor que se instalava, mesmo sem entendê-la completamente, sem entender a dimensão daquela violência que passávamos. Calabouço me transmitiu exatamente o que era aqui. Eu escutava aquela sua voz densa, intensa, como uma verdade se instalando.
Cala a boca, moço!
Eu ouvia as conversas e ia juntando as pontas sob a guia daquela canção, para saber do Brasil. Eu era criança e não daria conta de tanta coisa, mas Calabouço me alertou, me despertou e despertar assim assusta a gente. Olha o vazio nas almas / Olha um violeiro de alma vazia. Recentemente comprei o disco em vinil, botei pra rodar na vitrolinha e entre ruído talhado nos sulcos, pelos 47 anos que se passaram desde seu lançamento, recuperei aquela sensação de poder de uma voz, de como uma canção pode ser determinante no nosso aprendizado e identidade com uma nação. Cidadania que chama, né?
Segunda história
Ainda moleque, ligado na TV pra assistir o Sítio do Picapau Amarelo, série da Globo baseada na obra de Monteiro Lobato, eu reencontro Sérgio Ricardo, meio sem saber direito. Os livros de Lobato mesmo, até então, eu nunca havia lido. Minha aventura literária era a coleção Vagalume, os livros de Maria José Dupré, Lúcia Machado de Almeida… mas ali na telinha luminosa da TV da sala reinava o Sítio e as invenções de Narizinho, Pedrinho, Emília e do Visconde de Sabugosa. E o que nos carregava naquelas histórias aventurosas era uma trilha sonora linda, caprichadíssima, realizada pela nata da música brasileira. Depois de grande é que a gente vê a constelação que tinha ali, reunindo nomes como Dorival Caymmi, Doces Bárbaros, Gilberto Gil, João Bosco… e Sérgio Ricardo, interpretando, de sua autoria, a música de Emília.
De novo a visitação da poesia. Acho que foi uma das primeiras vezes em que a ideia de poesia se instalou na minha cabeça. Essa coisa da imagem poética. Talvez eu pudesse dizer isso de qualquer música daquela trilha. Todas erguiam o véu para um outro modo de ler o mundo. Mas em Emília tem uns versos que até hoje atiçam minha própria inspiração e imaginação.
Por mais que o sol se esconde Cruzes se cravem no raiar do dia
São versos em que vejo a criatividade plástica de Sérgio Ricardo. Mas naqueles dias, com meus dez ou 11 anos, eu projetava em minha imaginação esse sol se pondo, essas cruzes cravadas num raiar de dia. Eu não sei se entendia muito bem esses versos; e acho que talvez ainda não entenda e muito possivelmente isso não importa. Importa a força dessa imagem na mente de uma criança, impulsionando o desejo de ser também poeta e escrever coisas que os outros não entendam.
Terceira história
Poucos anos atrás, Kleber Mendonça Filho, diretor, ao lado de Juliano Dornelles, desse filme incrível que é Bacurau, me enviou o roteiro do mesmo, para que eu desse lesse. Eu e Kleber somos amigos desde os tempos de faculdade e tenho a alegria de acompanhar de perto sua carreira, desde os primeiros filmes. Sempre trocamos ideia e não foi diferente com Bacurau. Algum tempo depois de ler o roteiro e comprei aqui no centro do Rio, um vinil do Sérgio Ricardo, uma coletânea daquela coleção Nova história da Música Popular Brasileira, da Abril Cultural, de 1978. São discos que eram lançados em série, acompanhados de fascículo com história de vida e obra do artistas contemplados em cada volume. Ouvindo o do Sérgio Ricardo, esbarrei em Bichos da Noite, música originalmente escrita para a peça O Coronel De Macambira, do poeta pernambucano Joaquim Cardozo.
Escutei aquele rito, aquela passagem sombria, e pensei imediatamente no roteiro, que ainda não era filme. Havia ali aquela carga que parecia aflorar do arruado de Bacurau. Achei a música no YouTube e mandei pra Kleber naquele dia mesmo. Algum tempo passou, mais de ano, certamente, e não tive notícias daquele e-mail. Até que então encontramos, eu e Kleber, aqui no Rio de Janeiro e fomos jantar. Ao perguntar pela música, se ele havia recebido, ele avexou-se em responder “Nossa, Toinho! A música tá no filme! Mexeu demais com o filme…”. Imagine minha alegria por ter dado esse verso, que não é meu, ao poema que é Bacurau! Ter estendidos as mão e feito essa conexão me comove. Quando assisti, finalmente, ao filme no Cine Odeon, na Cinelândia, e aquela voz que conheço desde Calabouço soou desde dentro da tela, da terra, do sertão nordestino, do povo daquele vilarejo…. que emoção. Foi um reencontro com alguém que nunca encontrei, mas que me acompanhou vida afora, com suas lições de poesia e cidadania, no sentido de reconhecer, pela música, um pertencimento e uma responsabilidade.
Parabéns, Sérgio Ricardo. E obrigado por tudo que não esquecerei.
Desvirado pra lua
Eu não, já me acostumei. A mãe sempre diz que nasci “desvirado pra lua”. Sei não. Desde a ocupação que teve lá na escola, tem uns colegas falando umas coisas diferentes, políticas, umas palavras difíceis, ainda não consigo entender tudo, mas fazem mais sentido do que as palavras da mãe. As pessoas acham que na perifa só tem analfabeto ou burro. É que só estudar não garante nada, não.
“Sei que não pode sair, tio”, eu disse. Que homem chato, aquele de máscara, e nem pra comprar uma bala! Vi duas garotas saindo de um carro, do outro lado da rua, com quentinhas e garrafas de água. Atravessei, me livrando do mascarado e doido pra descolar um rango. Mas já tinha endereço e quantidade certos: uma família que “morava” num canto de calçada.
Elas já vinham lá de cima e estavam indo direto na população de rua. “Eu também não tenho casa, não”, disse. Não dava pra perceber, estava de tênis, blusa e bermuda mais ou menos limpas. Não era muito verdade, e também não era mentira. Tenho casa, mas não posso voltar desde ontem, me meti quando meu padrasto batia na minha mãe. Acabei apanhando também e sendo expulso. Só deu tempo de pegar umas roupas e enfiar na mochila.
O que a mãe podia fazer? Não deu em nada ir à polícia ano passado, só deixou o cara com mais raiva. Falei pra ela de umas pessoas que ajudavam mulheres assim, mas ela estava sem coragem. Quando meu padrasto soubesse, e ele ia saber, ficaria pior. Coragem ela queria pra matar o desgraçado, que nem uma amiga, que depois se mandou pra bem longe.
“Amanhã a gente vem de novo, tá bom?” Fiz que sim com a cabeça, pensando “mais um dia sem comer não mata. Se eu não morrer antes desse troço aí que geral tá falando”. Devo ter pensado alto, elas ficaram tristes.
Eu não, já me acostumei. A mãe sempre diz que nasci “desvirado pra lua”. Sei não. Desde a ocupação que teve lá na escola, tem uns colegas falando umas coisas diferentes, políticas, umas palavras difíceis, ainda não consigo entender tudo, mas fazem mais sentido do que as palavras da mãe. As pessoas acham que na perifa só tem analfabeto ou burro. É que só estudar não garante nada, não. Não tem espaço pra todo mundo, ainda mais pra gente. A gente tem que se esforçar muito mais pra conseguir qualquer coisa.
Agora só espero arrumar algum até o fim do dia. Dinheiro, rango, carinho. Sei que tá mais difícil, as ruas mais vazias, lojas e bares fechados, restaurante não tá podendo doar, pra não juntar muita gente. Quem sabe pelo menos não descolo umas máscaras divertidas?
Como será que tá a mãe? Quando eu for maior, vou livrar a gente daquele cara. Se der pra resolver na boa, no correto, melhor. Mas se for necessário, terá de ser… Como é mesmo que os colegas falam? Autodefesa. Preciso ficar mais velho e mais forte, me organizar. Torcer pra dar tempo. Se eu sobreviver a esse troço aí que geral tá falando, um dia salvo a minha mãe.
Arte original de Maria Cristina Martins
Festa junina da Barroca
Por inúmeras vezes acompanhei dela a contagem regressiva para chegar logo. Por tantas outras soube de causos havidos no ambiente da festividade, detalhes da logística, representatividade social. Enfim. Quando penso em festa de São João, penso nela. Mais até do que em minhas próprias memórias de diversas festas juninas onde estive… [Texto de Eduardo Maciel]
É nesse clima de São João que venho aqui compartilhar com vocês minha ligação afetiva com a festividade. Vão vendo…
A mãe de uma das pessoas que mais amo nesse mundo, a Dona Graça (que eu amo também), mora no interior da Bahia, Senhor do Bonfim.
Devo-lhe visita, mas tenho pagado cautelas a cada ano, e nunca consigo ir lá. Mas ela não! Vem regularmente. E eu sempre a vejo. E a gente sempre conversa. Papo sobre tudo.
E nesse tudo, uma constância. A bendita festa de São João da Barroca – que eles chamam de roça.
Por inúmeras vezes acompanhei dela a contagem regressiva para chegar logo. Por tantas outras soube de causos havidos no ambiente da festividade, detalhes da logística, representatividade social. Enfim. Quando penso em festa de São João, penso nela. Mais até do que em minhas próprias memórias de diversas festas juninas onde estive…
Pois, nesse período de pandemia, me apeguei na referência e fui falar com Dona Graça, pra saber o que está rolando sobre festa junina pros lados da Barroca.
E como adoro o formato entrevista, que carrega em si mais empoderamento na fala, fiz algumas perguntinhas a Dona Graça.
Pula fogueira iaiá e vem conferir!
O que você acha das festividades de São João no Nordeste? Você participa?
Eu acho que as festividades de São João, são pro nordestino. É a maior festa que comemoramos, mais até do que festejamos Carnaval, Natal ou Ano Novo… Então nos preparamos o ano inteiro pra ir chegando São João. Se eu participo? Participo sim! Eu amo dançar forró, então, quando chega o mês de junho, eu fico é adrenalina pura, toda agitada, pra tomar licor, e dançar que é muito bom.
2- Como está sendo a organização para esse ano em Senhor do Bonfim, em tempos de pandemia?
Por contra da pandemia, não vamos ter São João, o que é muito triste pra nós, pois essa é a festa q traz muita alegria pro nordestino.
Na sua opinião, qual o tamanho da importância dessas festividades para as pessoas que vivem aí?
O São João é muito importante pras pessoas que vivem aqui pois é a tradição no Nordeste fogueiro. Guerra dê espada, licor e forró.
Tem alguma história sobre festas passadas que queira dividir com a gente?
Tenho uma história do São João de 2017 que me marcou muito: tinha terminado o namoro, e estava de coração partido. Fui pra praça toda jururu… Começou a chover, aí que fiquei triste no canto. Olhando pro lado, vi meu ex com outra. Aí nessa hora o sangue esquentou, comecei a dançar na chuva, e apareceram vários amigos meus. Dançamos até ó dia amanhecer! Era pra ser uma noite triste, acabou sendo a noite de São João que eu mais curti. Foi muito bom.
Tenho que concordar com Dona Graça, e empatizo com ela. Mas se a gente olha a cobra e de fato é mentira, tem que poder fazer desse limão uma limonada.
Vai ser em casa, online. Vai ser por vídeo, mas vai ser.
Porque o espírito da festa é alegria. E alegria não pode faltar, nem na pandemia!
Dona Graça, animada para o Sâo João, mesmo online!
Poema de Santo Antônio
Normalmente, hoje eu estaria, a essa hora em que publico aqui esse poema, em de certo morro aqui em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, a louvar Santo Antonio em sua igrejinha, que vela pelo bairro e pela cidade do alto dos seus 180 e tantos degraus. Como tenho feito desde que aqui no bairro vim morar. O dia 13, em geral, é um dia de temperaturas amenas , e chega mesmo a esfriar um pouco, para os padrões da cidade de São Sebastião. Hoje a noite está mais quente, estamos sob quarentena e uma pandemia rola solta e sem controle no país.
Normalmente, hoje eu estaria, a essa hora em que publico aqui esse poema, em de certo morro aqui em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, a louvar Santo Antonio em sua igrejinha, que vela pelo bairro e pela cidade do alto dos seus 180 e tantos degraus. Como tenho feito desde que aqui no bairro vim morar. O dia 13, em geral, é um dia de temperaturas amenas , e chega mesmo a esfriar um pouco, para os padrões da cidade de São Sebastião. Hoje a noite está mais quente, estamos sob quarentena e uma pandemia rola solta e sem controle no país. Mas é hora de pensar em Antonio, no alto do seu morro, reservado em sua pequena igreja, reinando em seu dia, com Sebastião dizendo assim: Vai, Antonio. Hoje é teu dia de zelar por essa gente. E dia dessa gente lembrar de ti. Vai, Franciscano, assume meu posto por hoje. Mas segura minha mão, que hoje preciso de ti como qualquer um.
antonio, velho amigo antes de mim já estavas por aí a caminhar comigo
vadeias pelo sertão ninguém sabe que tu és tu mas sabes eles quem são
muitos a te buscar sem saber que és tu mesmo quem os irá encontar
acendes uma fogueira um balão aquecido sobe no ar para além da mangueira
pois cismas calado de pés descalços pelo terreiro da festa, lotado
a noite já avança na brasa ardente acendem-se memórias de tuas andanças
movem-se os ares estrelas apontam no céu escuro e nos altares
antonio, velho amigo se ando por aí se ando perdido é em ti meu abrigo
Os oitocentos de Antônio. António. Vivas –
Ano passado, hospedada em uma casa antiga bem ao lado da Igreja de Santo Antônio, no Alfama, assisti às festas antoninas em Lisboa. Eita, que febre! As missas, rezas e adorações dos devotos começavam logo cedo e eu acompanhava tudo da varanda. As velas acessas no velário durante todo o dia riam, à noite, do escuro em uma bela cena. No dia 12, que só termina com o sol amanhecendo 13, um mundo: casórios, procissões, sardinhas, cantigas, pães, missas, multidão, sardinhas, samba, batuque, (eu já falei das) sardinhas (?). SantoAntônio é de muitos. [Texto de Lu Lessa Ventarola]
Antônio. O homem; o santo. Vou contar do que sei, à moda de roda, à moda dos causos. Primeiro o conheci pelo pão que minha avó me dava para comer pedacinhos. ‘Pão de SantoAntônio, minha filha’. E não dizia mais nada, não explicava e nem mandava rezar. A fé dela era grande o bastante para abarcar as minhas desconfianças sobre aquele pãozinho estranho enrolado em um guardanapo. Fui aprendendo assim com ela que há coisas que nos ultrapassam e valem por si; o poder de impregnação dos ritos repetidos, os símbolos… ‘Deixa disso e só come’ – ela me diria agora. (Está bem, cortei do texto, vó). Assim conhecia o Santo: pelo pão e pelas festas juninas. A alegria da fogueira aquecendo os gelados invernos de Minas. Esquentava também o clima de romance abençoado pelo santo casamenteiro e o tradicional quentão, mas deixa isso pra lá… Esquentavam-nos também as danças de quadrilha, mas deixa isso pra lá…
No Rio de Janeiro, no convento do santo, no fuzuê do Largo da Carioca, as tardes de conversas animadas – entre cafés, bolos, chás, risos, fios e linhas – com frei Roger, meu amigo do coração. O resumo é: meu SantoAntônio sempre foi o primeiro no ranking das alegrias. Ê santinho próximo, camarada. Tem gente que até se pega com ele em ralhos, exigindo amores. É santo de casa, sujeito, pois, às tempestades de humor domésticas.
Ano passado, hospedada em uma casa antiga bem ao lado da Igreja de Santo Antônio, no Alfama, assisti às festas antoninas em Lisboa. Eita, que febre! As missas, rezas e adorações dos devotos começavam logo cedo e eu acompanhava tudo da varanda. As velas acessas no velário durante todo o dia riam, à noite, do escuro em uma bela cena. No dia 12, que só termina com o sol amanhecendo 13, um mundo: casórios, procissões, sardinhas, cantigas, pães, missas, multidão, sardinhas, samba, batuque, (eu já falei das) sardinhas (?). SantoAntônio é de muitos.
Abro campanha: Antônio, pode ser de muitos, santo afável que é, mas NASCEU em COIMBRA. Em Lisboa ele era Fernando e, como Fernando entrou no Mosteiro de São Vicente de Fora, aos 15 anos. Mas, um tempo depois, pediu para se mudar para Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra para estudar com calma. Debruçou-se na então rica biblioteca e, aos 25 anos, foi ordenado sacerdote. Fernando. Cônego Regrante Fernando de Bulhões.
Pois bem, andavam pela cidade 5 frades franciscanos – Berardo, Otão, Pedro, Acúrsio e Adjuto -, preparavam-se eles para partir para a terra dos sarracenos e tiveram chance e ocasião de travar conversas com Fernando. E partem, pois, em missão. Sabiam que era entrega de vida e foi: em 16 janeiro de 1220 foram, e contam que com altas doses de crueldade, torturados e decapitados em Marrakech. O Mosteiro de Santa Cruz recebe logo, em fevereiro do mesmo ano, as relíquias dos cinco mártires. O Cônego Fernando comove-se. Mede sua vida de estudos frente à força da ação e toma decisão: deixa a ordem dos agostinianos para assumir a simplicidade da fé franciscana. Sobe, a pé, até o pobre ermitério de Santo Antão – e decide nascer como Antônio (António) neste dia.
Há 800 anos foi em Coimbra que Antônio nasceu. Sua entrega, em vida, fez dele santo. É festa!
Coimbra, 11 de junho de 2020.
Lu Lessa Ventarola – em franca campanha: AntónioédeCoimbra.