Eu só quero um horizonte

Por isso o direito fundamental: esperar. Mas esperar com horizonte à frente. E por isso o horizonte. Esse fundamento do humano. Um querer estar lá estando aqui. Uma força de passo à frente. O horizonte: essa presença visível de coisas não acontecidas. [Texto de Dênis Rubra]

Texto de Dênis Rubra


O horizonte. Eis um direito fundamental. Acordar. Levantar. Olhar acima. Ver adiante. Um céu inteiro bem na sua frente.

Mas ver o amanhã é fácil. O difícil é enxergar um hoje. Ter o dom de sair da cama. Saber lidar com o que se apresenta à frente. Hoje. Na ausência da potência pra ser feliz. Quando o que resta é sonho. E no sonho o amanhã. E no amanhã o hoje. Ou, se não o hoje, algum jeito de chegar aonde quer que seja.

O leitor deve pensar: que isso? Eu explico.

Todo homem vive no hoje. E viver no hoje implica ter havido ontem. E já todo ontem implica um amanhã (mesmo que o amanhã seja agora). O que significa: vivemos uma eternidade imensa de instantes a espera do que há de ser.

Por isso o direito fundamental: esperar. Mas esperar com horizonte à frente. E por isso o horizonte. Esse fundamento do humano. Um querer estar lá estando aqui. Uma força de passo à frente. O horizonte: essa presença visível de coisas não acontecidas.

Como viver sem? Como acordar no escuro da esperança? Acordar e só. Levantar e só. Olhar a baixo e pensar: é isso?

Como não haver algum amanhã qualquer capaz de se fazer presente agora? Mesmo que distante. Algum futuro que acene. Aquele jeito do que vem vindo dizer já venho.Já vou. Mais um pouco e sou.
Ah, como te espero!

Ah, como te espero!
Veja bem: Eu não invoco o futuro!
Eu só quero um hoje! Só peço um hoje! Um hoje apenas!
Um hoje com algum horizonte que acene!
Que me diga: Como vamos?
E se eu disser: Mal.
Responderá: Iremos juntos até estarmos bem.
Está me vendo? Eu direi: Sim.
E ouvirei de sua cor tão de horizonte… Me ver sempre será o suficiente.


Sonhei com um mar que não era azul

Eu tive um sonho noite passada. Era uma praia de águas esverdeadas. Quase deserta, como se fosse baixa temporada. Permanecia imóvel na faixa de areia, debaixo de um sol inclemente, observando as ondas se avolumando para além da arrebentação. Lá no fundo, havia uma pessoa. Não, não era possível ver o seu rosto. Mas eu sabia quem ela era, certamente. [Texto de Eduardo Frota]

Texto de Eduardo Frota


Eu tive um sonho noite passada. Era uma praia de águas esverdeadas. Quase deserta, como se fosse baixa temporada. Permanecia imóvel na faixa de areia, debaixo de um sol inclemente, observando as ondas se avolumando para além da arrebentação. Lá no fundo, havia uma pessoa. Não, não era possível ver o seu rosto. Mas eu sabia quem ela era, certamente.

De repente, em mim levantou-se a necessidade de ir até lá e trazê-la à terra firme novamente. Não, ela não pedia por socorro. Mesmo que eu não pudesse ver o seu semblante, sabia que não estava desesperada. Ela não corria o risco de se afogar, ou qualquer outro desastre. Ainda assim, era um resgate.

Entrei na água gelada e comecei a empreender intensas braçadas para vencer as ondas que agora ameaçavam quebrar diante do meu rosto. No entanto, era difícil sair do lugar. Sentia a boca salgada. Usava meu corpo inteiro para tentar chegar mais perto dela, mas pouco me movia. A água começava a se assemelhar a areia-movediça.

Em determinado momento, fiquei completamente desorientado. Havia perdido ela de vista e, olhando para trás, não mais avistava a praia de onde tinha vindo. Era tudo um mar verde que só, tranquilo e imenso. Eu, no entanto, inquieto e pequeno. Percebi que meus pés não alcançavam o fundo. Percebi também que a minha respiração começava a ficar curta. Meus braços, cada vez mais curtos.

– A correnteza puxa – dizia uma placa.

– Logo eu, que nadava tão bem quando era criança – pensei.

Fui acordado quando uma onda, daquelas que se avolumavam, teimou em se quebrar sobre a minha cabeça, me deixando embrulhado, sem saber o que fazer. 

Levantei exaurido, encharcado.

Meus pés, estranhamente, formigando. Como se estivessem sujos de areia.


Oração a Nossa Senhora da Cloroquina

Em meio à pandemia e à confusão de informações, conhecida popularmente como desinformação, a gente vai sendo jogado de um lado pra outro. Seguimos com nossas máscaras anti-Covid escondendo nossa cara de enganados, enquanto o número de infectados e mortos aumenta exponencialmente e o número de leitos diminui. Onde reside alguma luz nesse caminho escuro? Na arte, na poesia que enfrenta com poderosa ironia o domínio da violência! Bravo, Nonato! Bravo, poeta! [Poema de Nonato Gurgel]

Em meio à pandemia e à confusão de informações, conhecida popularmente como desinformação, a gente vai sendo jogado de um lado pra outro. Seguimos com nossas máscaras anti-Covid escondendo nossa cara de enganados, enquanto o número de infectados e mortos aumenta exponencialmente e o número de leitos diminui. Onde reside alguma luz nesse caminho escuro? Na arte, na poesia que enfrenta com poderosa ironia o domínio da violência! Bravo, Nonato! Bravo, poeta!

Texto de Nonato Gurgel

Estou exigindo a questão da cloroquina…
E essa decisão passa por mim…
Jair Bolsonaro

I

Nossa Senhora da Cloroquina
dai-nos força para suportar
em meio a essa pandemia
as mudanças de ministros
que não liberam o protocolo

Livrai-nos dos políticos e seus amigos
donos de laboratórios
que precisam vender remédios
de olhos nas próximas eleições

Fazei com que eles entendam
que a coloroquina é uma droga
com efeitos colaterais e pode causar
parada cardíaca hipoglicemia
perda de consciência e que mudar
o protocolo não salva vidas

II

Se a ciência e a Anvisa não atestam
não adianta um político determinar
que o exército produza 1 milhão
de unidades por semana
(antes eram produzidos 250 mil
comprimidos a cada 2 anos)

Ajudai a entrar no céu
aquela moça linda de Caxias
que tomou cloroquina
aos 17 anos e se foi

Não esqueça do Trump que é parceiro
do fabricante do medicamento
Ele deixou morrer quase 90 mil
e agora está mudo parou
de sugerir a droga contra a Covid19

Nossa Senhora da Cloroquina
devolvei a respiração que eu tinha
e que essa pandemia roubou amém


O rastro selvagem se espalha

A gente sabe que Revista Kuruma’tá tá dando certo, existe de verdade quando chegam esses retornos inesperados. Gente que lê, que curte e compartilha nossas publicações, que acompanha nossas lives… quando a gente vê os números de seguidores aumentando nas mídias sociais, nos números animadores do Google Analytics. Mas também quando nos chega um e-mail, uma mensagem no Facebook ou Instagram, de alguém que se identificou a ponto de querer que a gente publique seus textos, seus poemas. Foi assim com Anna Apolinário, poeta da Paraíba, que nos enviou três poemas inéditos de sua lavra. [Poemas de Anna Apolinário]

A gente sabe que Revista Kuruma’tá tá dando certo, existe de verdade quando chegam esses retornos inesperados. Gente que lê, que curte e compartilha nossas publicações, que acompanha nossas lives… quando a gente vê os números de seguidores aumentando nas mídias sociais, nos números animadores do Google Analytics. Mas também quando nos chega um e-mail, uma mensagem no Facebook ou Instagram, de alguém que se identificou a ponto de querer que a gente publique seus textos, seus poemas. Foi assim com Anna Apolinário, poeta da Paraíba, que nos enviou três poemas inéditos de sua lavra.

Produtora cultural e organizadora do Sarau Selváticas (@sarauselvaticas), Anna estreou em 2010, com Solfejo de Eros (Câmara Brasileira de Jovens Escritores). Publicou ainda Mistrais (Prêmio Literário Augusto dos Anjos, Edições Funesc, 2014), Zarabatana (Editora Patuá, 2016) e Magmáticas Medusas (Editora Cintra/ARC Edições, 2018). Seu próximo livro A chave selvagem do sonho será publicado em 2020 pela Editora Triluna.

Anna, seja bem-vinda à Kuruma’tá!

Poemas de Anna Apolinário


Centelha

Sou a mulher que veio do sonho
Nascida de incêndios
Iniciados por outras mulheres
Eu venho do cerne das vertigens
Trago o verbete mágico
E meu rastro selvagem se espalha
Por livros sem fim


Akai Ito

Teu coração:
um tambor místico
pronunciando todos os meus nomes

Minha pele:
uma tempestade tatuada em teu espírito

Nosso beijo:
o espelho do apocalipse conspurcado
por um vislumbre do infinito


Lunando

Devolver à terra
A rubra cura
Vertida de meu ventre
Com reverência
Plantar centelhas
Alumiar os caminhos
O sangue é a semente
Da purificação
O declínio das guerras
Magia e maldição.

A poeta Anna Apolinário

Diário do Edu Maciel

Sim, é época de pandemia. Pandemia causada por um vírus. Perigoso. Muito perigoso. E com a pandemia, a necessidade de isolamento social. Com o tempo, as pessoas começam a estranhar o confinamento, a desnudar e virar do avesso relacionamentos, se readaptar em rotinas e por vezes se desanimam. [Texto de Eduardo Maciel]

Texto de Eduardo Maciel


Meus caríssimos kurumateiros! Nesta quinzena não vou dizer olá. Vou apenas deixar o convite para lerem a última página do meu diário:

Querido diário,

Sim, é época de pandemia. Pandemia causada por um vírus. Perigoso. Muito perigoso. E com a pandemia, a necessidade de isolamento social. Com o tempo, as pessoas começam a estranhar o confinamento, a desnudar e virar do avesso relacionamentos, se readaptar em rotinas e por vezes se desanimam.

Por que será que isso não acontece comigo? Sim, tomo TODAS as precauções possíveis para me proteger. Sim, estou em casa (com mais um adulto, duas crianças e quatro gatos). Sim, tenho amigos tocados pela Covid, e dentre eles uma que se recuperou, dois que sucumbiram e uma internada em estado grave. Não, não recebo informações sobre a evolução do quadro de saúde de minha amiga. E isso dói. Corrói. E é trágico. 

Rezo por ela (também) todas as noites, e sofro a perda dos que foram.

Mas, por outro lado…

Por outro lado, me sinto extremamente bem e seguro. Primeiro, porque exercitei na vida a maleabilidade da adaptação. E nesse processo, em meio ao não mais recente desemprego, já havia experimentado o isolamento e a opressão do desamparo. Além é óbvio de ter faxinado minhas gavetas de amigos, praticando o desapego pra valorizar mais o que ficou.

Depois, porque desmistifiquei os vírus, bactérias e afins, e faço exames semestrais para checar a saúde.

Fora o fato de que aprendi a projetizar tudo o que se passa comigo, e isso me assegura efetividade com relação a compromissos, sejam eles quais forem.

Todos os dias escolho olhar a vida com as melhores lentes, com otimismo e acreditando na lei de causa-e-efeito e na implacável lei do retorno. E isso me conforta.

E do conforto, vem a imaginação, a inspiração e a criatividade de que preciso para servir às artes, o que é a chama que me aquece a alma.

Acho que todas as pessoas, meu diário confidente, têm algo em si mesmas que as permitam ter suas almas aquecidas. Que usem então esse tempo de recolhimento para cavar em si mesmo até encontrar esse gatilho.

Porque, se a gente se mantiver produtivo todo o tempo, cada um produzindo o que deve e o que gosta, não haverá espaço para falsos atalhos ou tédio. Ou mesmo coisas piores.

Espero que todos possam renovar sua esperança a cada amanhecer, que possam usar com sabedoria esse período para crescimento pessoal. 

Que possam tirar lições disso tudo. E que fiquem em casa, mas não fiquem paradas.

Vou me despedindo por hoje, meu diário leal. E obrigado por me deixar desabafar um pouco aqui em suas páginas.

Ah, preciso assistir aos três últimos episódios da série, mas não estou conseguindo. E você sabe, estou tentando.

Até a próxima!

Será que fui íntimo demais hoje?


Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa: Cientista

Na verdade, ele pensa rabiscando a lousa, os dedos e a blusa velha de lã totalmente cobertos de pó de giz, tudo é tão fácil de calcular. Ele só não pode perder o fio da memória, o raciocínio não pode nem por um momento descarrilar do trem do pensamento senão tudo se perde e será como aquela história, aquela anedota infelizmente real do poeta inglês Samuel Taylor Coleridge… [Texto de Fábio Fernandes}

Texto de Fábio Fernandes


Na verdade, ele pensa rabiscando a lousa, os dedos e a blusa velha de lã totalmente cobertos de pó de giz, tudo é tão fácil de calcular. Ele só não pode perder o fio da memória, o raciocínio não pode nem por um momento descarrilar do trem do pensamento senão tudo se perde e será como aquela história, aquela anedota infelizmente real do poeta inglês Samuel Taylor Coleridge, que, após ter sonhado com um poema épico inteiro, Kubla Khan, acordou e começou desesperadamente a escrevê-lo – para ser interrompido por uma certa “pessoa de Porlock”, que apareceu de repente em sua residência sem ser convidada e o desconcentrou de tal forma que ele nunca mais conseguiu completar o poema conforme o havia sonhado. Um dos pesadelos do cientista enquanto preenche a lousa com seus cálculos é exatamente esse, e é precisamente por isso, para evitar a entrada de sua pessoa de Porlock que ele se cercou de todos os cuidados possíveis dentro do porão da sua casa a fim de que ninguém o atrapalhe, pois ele está prestes a descobrir o grande e supremo cálculo que há de unificar tudo o que ele sempre suspeitou até agora e descobrir por que o universo se comporta do jeito que se comporta, por que as pessoas são do jeito que são, por que tantos desencontros, por que as relações humanas não podem ser medidas e calculadas como equações matemáticas?

Agora falta pouco, muito pouco. Ele tem certeza de que, no próximo intervalo de sua série de tevê favorita, ele conseguirá retomar o fio da memória e completar o cálculo. Falta pouco.


De onde eu vim não dá pra andar na rua

Malditos portais dimensionais! Estão em toda parte… quem inventou essa moda? Vocês, do século 21, ficam aí reclamando que o trânsito é infernal… vocês precisam ver as soluções que inventaram e o caos que se instalou no nosso dia a dia. Primeiro foi o teletransporte, o sonho de todo mundo que assistia Star Trek. Não muito tempo depois da implementação em escala planetária de cabines para teletransporte, o sonho virou pesadelo. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Malditos portais dimensionais! Estão em toda parte… quem inventou essa moda? Vocês, do século 21, ficam aí reclamando que o trânsito é infernal… vocês precisam ver as soluções que inventaram e o caos que se instalou no nosso dia a dia. Primeiro foi o teletransporte, o sonho de todo mundo que assistia Star Trek. Não muito tempo depois da implementação em escala planetária de cabines para teletransporte, o sonho virou pesadelo. Pessoas sendo desmanchadas de um lado da cidade para terem seus átomos reunidos do outro lado. Virou uma febre, ninguém mais conseguia ficar parado. Todo mundo se teletransportava pra lá e pra cá porque era fácil e barato.

Aí ocorreu um sério debate que ofuscou o brilho daqueles anos. Quando uma pessoa é teletransportada e tem seus átomos, partículas ou sei lá o quê desagregados e jogados no espaço… essa pessoa ainda existe? O que ela é enquanto está no percurso entre uma cabine e outra? Nada? Ninguém? E ainda mais: se uma pessoa é aquele grupo de átomos reunidos sob circunstâncias específicas, podemos dizer que esses mesmos átomos, desagregados e reagrupados numa circunstância completamente diferente, são a mesma pessoa? Ou seja, uma pessoa teletransportada é a mesma pessoa? Ou uma cópia, talvez apenas aparentemente igual?

Vou te dizer que as pessoas deixaram pouco a pouco de usar aquelas cabines e ficaram muito tempo desconfiadas até de si mesmas. Naturalmente a empresa privada e monopolista que explorava o serviço faliu, fechou as portas e as cabines apodreceram nas esquinas. Dizem que algumas ainda funcionam, mas não há garantias. Alguns loucos se arriscam a usá-las, como se fosse uma religião.

Como ninguém consegue ficar sossegado, alguém teve a brilhante ideia dos portais dimensionais. O certo seria chamá-los de portais transdimensionais mas também seria certo que as pessoas não passassem fome em pleno século 22. Posso ainda dizer que certo mesmo seria não existirem portais dimensionais. Mas, enfim! Diferentemente das cabinas de teletransporte, os portais não são instalações físicas, mas alterações em determinados campos de energia que fazem com que uma pessoa praticamente tropece de uma dimensão para outra, ou mesmo para a própria dimensão em que existe, passando por uma outra, intermediária. A vantagem jurídica é que a pessoa não deixa de existir, ou pelo menos não é desmanchada em poeira de estrelas. Apenas não está aqui por uns instantes. E é tudo muito rápido.

Mas é claro que os portais proliferaram como praga e acabaram gerando campos de instabilidade em áreas inesperadas. Acontece que muita gente saía para comprar o pão e ia parar numa outra dimensão, habitada por dinossauros inteligentes e egoístas, porque dobrou na esquina errada, numa hora inconveniente. Não preciso dizer que nem todos os portais estão sinalizados e que muita gente aprendeu a fazê-los por conta própria. Tem gente que cria portais no meio da cidade só por anarquia. Agora imagine que andar pela cidade se tornou arriscado para qualquer um. Que mãe deixaria seu filho passeando de bicicleta por aí sabendo que os portais estão se multiplicando e que muita gente não volta dessas viagens.

Bem, agora vocês já sabem como eu vim parar aqui, porque os portais atuam deformando não só o espaço como também… o tempo! E aí você pode ir parar num outro dia, outro século. E foi desse jeito que… eis-me aqui e agora! Bem pensando positivamente, melhor pra mim, pois assim não corro o risco de encontrar comigo mesmo. Sabe-se lá que tipo de confusão isso ia acabar gerando, não é verdade?

Agora é tocar a vida e vê se encontro um portal em algum lugar. Sei que eles existem por processos naturais. São raros, mas existem. Torcer para que um daqueles anarquistas tenha vindo parar aqui e criado um dos seus portais artesanais. Quem sabe esbarro com um desses num dos muitos becos dessa cidade. Não tenho a menor ideia de onde ou quando eu poderia chegar. Na verdade eu duvido que consiga retornar a algum lugar que eu reconheça. Eu tô tranquilo aqui, sabe? A vizinhança é boa e não tem portais dimensionais em cada esquina. Não tenho nada a perder e não deixei muita coisa para trás. Ninguém que venha atrás de mim.


Quando vai terminar?

Por um tempo nos perguntávamos sobre quando começou. Se teria sido em 2013. Se teria sido em 2016. Ou se antes. Onde estávamos e o que fazíamos enquanto os pés do absurdo caminhavam lentamente até aqui? Mas “ah, como esta hora é velha!… E todas as naus partiram!”. Hoje, a voz que nos grita se pergunta à beira do precipício: quando vai terminar?! [Texto de Dênis Rubra]

Mais um nome novo e querido chegando na Revista Kuruma’tá. Dessa vez é do poeta e parceiro de letras e sonhos e resistências, Dênis Rubra. Dênis está marcado no comecinho dessa aventura, quando topou editar, pela sua Rubra Editora, o Lendário Livro, coletânea que reuniu poemas de Aderaldo Luciano, Braulio Tavares, Nonato Gurgel, Numa Ciro, Otto e Toinho Castro! Ali, naquele encontro de poetas, nascia a semente da Kuruma’tá. E agora a gente tem a alegria de editar o Rubra aqui na nossa revista, essa nova aventura! Bem-vindo, amigo!

Texto de Dênis Rubra


Kazimir Malevich – Morning in the Village after a Snowstorm, 1912

Por um tempo nos perguntávamos sobre quando começou. Se teria sido em 2013. Se teria sido em 2016. Ou se antes. Onde estávamos e o que fazíamos enquanto os pés do absurdo caminhavam lentamente até aqui? Mas “ah, como esta hora é velha!… E todas as naus partiram!”. Hoje, a voz que nos grita se pergunta à beira do precipício: quando vai terminar?!

O privilégio das pequenas alegrias. O dom do sonho. O poder ver algum azul de outono e sorrir qualquer vaidade mesquinha. Como era bom poder ser mau. A maldade dos antigos inimigos até guardava alguma semelhança conosco. Como era bom. Poder se sentir impotente, mas vivo. Poder acordar perdendo, mas com a ilusão da vitória possível. Hoje não deu, amanhã será.

Hoje, o amanhã é só outro ontem que insiste. E quando vai terminar? Todos os ontens agora acumulados em um só instante contínuo! Que peso, não? Que tempo é este em que o tempo parece ter se esquecido de um direito tão básico que tínhamos: acordar para encerrar os pesadelos. Hoje não deu, amanhã parece que também não vai dar.

Então quando vai terminar? Enquanto ao mundo pesa a tristeza de terem de se isolar uns dos outros. A nós, este peso se adiciona ao pavor de nos vermos tão próximos, mas da barbárie. E como pesa. E como é difícil. A cada dia, a cada entrar e sair de nosso palácio em ruínas, alguma faca fere ao mesmo tempo todos nós. E algum sino que soa parece marcar o hoje correndo livre em direção ao amanhã. O amanhã cada vez mais ontem… O mau cada vez maior. E não porque ele seja grande. Mas porque nós é que vamos ficando menores ao permitirmos que ele prossiga. Antes que ele nos termine. Será que vai terminar?

Antes que ele nos termine. Quando vai terminar? Esse insistir do tempo. Esse jeito sutil de recriar os horrores. Essas âncoras da manhã que nos ancoram dia a dia, todo dia, ao mesmo passado que se mantém presente, sufocando o futuro. Angústia. Desnorte. Quando vai terminar? Quando seremos capazes de alcançar algum amanhã possível? Um hoje em que possamos ter a alegria das pequenas tristezas. Um ontem pra se deixar pra trás. Um agora em que faça sentido nos perguntarmos como começou. Agora não dá. Hoje só dá pra tentar chegarmos amanhã.

Pois é. Meu caro Chico, perdão, mas – ao que parece – seu hoje voltou. Ou seu ontem não passou. Não sabemos. A verdade é que estamos juntos. Ainda. Ainda na mesma canção. Ainda aguardando. O momento. Quando chegar.


O rei nu

Quando eu era criança entrei numa livraria de um shopping na Barra da Tijuca – aquele bairro que fica no Rio de Janeiro, mas que jura que na verdade é uma parte perdida de Miami. Na época a gente morava em Campo Grande, bairro suburbano que não tinha nem filial do McDonald´s que dirá uma loja lotada de contos infantis. Ir à Barra, portanto, era um evento. [Texto de Tássia Hallais Veríssimo]

Vejo sempre a Revista Kuruma’tá como uma encruzilhada, por onde as pessoas passam, param, se encontram, conversam… Nesses tempos de pandemia e quarentena, pensamos a Kuruma’tá como uma janela, um ponto de encontro e uma perspectiva para o olhar o mundo. E eis que entre os que passam e deixam suas palavras, chega-nos a Tássia Hallais Veríssimo, com uma certeira observação dos dias que vivemos.

Bem-vinda, Tássia!

Texto de Tássia Veríssimo


Arte de Toinho Castro a partir de ilustração original

Quando eu era criança entrei numa livraria de um shopping na Barra da Tijuca – aquele bairro que fica no Rio de Janeiro, mas que jura que na verdade é uma parte perdida de Miami. Na época a gente morava em Campo Grande, bairro suburbano que não tinha nem filial do McDonald´s que dirá uma loja lotada de contos infantis. Ir à Barra, portanto, era um evento.

Lembro que, naquele espaço mágico, dentre tantos livros, peguei para ler um que contava uma história inusitada. Um rei que, enganado por um trambiqueiro, comprava uma suposta peça de roupa mágica que só os inteligentes podiam ver. Na verdade, o rei havia gastado o dinheiro do contribuinte por coisa alguma. Estava nu a desfilar em meio aos seus súditos, que para não despertarem o aparato repressivo do estado fingiam não notar a bunda mole do soberano. O rei também se via nu, mas para não passar atestado de burro, fingia que não sentia a vergonha tomar conta de si.

A loucura só parou quando alguém teve a coragem de falar o óbvio: o rei estava nu!

O Brasil da pandemia é praticamente uma adaptação ao vivo – e em cores de desespero – desse conto. Elegemos um rei que se recusa a aceitar o óbvio e que está rodeado por um séquito que insiste em um universo paralelo no qual remédio para Malária cura de chifre a dor de dente, passando por pneumonia.

No fundo, sabem que o rei está nu. Mas estão há tanto tempo fingindo ver roupas que não existem que não veem como sair dessa sem admitir a vergonha de ter caído no conto vigário. E quem fala as verdades que precisam ser ditas é visto como inimigo. Natural, afinal quem quer ser confrontado com seus medos mais profundos e com a vergonha de ter criado um mito a partir do barro?

O Brasil está – mais do que sempre – divido entre os que enxergam a nudez de um governo que serve apenas ao interesse daquele 1% que detém o capital e os que parecem estar dispostos a se sacrificar para não admitir a própria nudez, pois já se fundiram de tal modo ao rei que não se sentem seguros sem o guia. Tal qual uma criança que se perde numa loja de departamentos.

Mas, uma hora a nudez aparece. Ela sempre aparece. É impossível de esconder.

A nudez aparece nos corpos internados, nos corpos em busca de cura, nos corpos com fome, nos corpos com medo. Estamos todos com medo, mesmo os que fingem ver roupas de ouro no mito.

Aliás, sempre bom lembrar que mitos não existem, tal qual as roupas do rei nu.

E o livro? Meu pai não comprou. Mas, talvez mesmo por isso, nunca o esqueci.


Anjos de Espada

Houve esse tempo em que para dizer algo a alguém você primeiro dizia esse algo a outro alguém, que dizia a outro e isso chegava ao moço no navio, que atravessava o Atlântico, o Pacífico, o estreito de Ormuz, para que ali, outro alguém escutasse e passasse adiante, numa cadeia sucessiva de alguéns até que chegasse ao destinatário. Hoje basta um Enter no teclado para que eu saiba a mensagem, basta um e-mail para que chegue assim um poema, lá de Coimbra, falando de anjos. Quem diria? — Toinho Castro , ao receber o poema de Lu Lessa Ventarola.

Houve esse tempo em que para dizer algo a alguém você primeiro dizia esse algo a outro alguém, que dizia a outro e isso chegava ao moço no navio, que atravessava o Atlântico, o Pacífico, o estreito de Ormuz, para que ali, outro alguém escutasse e passasse adiante, numa cadeia sucessiva de alguéns até que chegasse ao destinatário. Hoje basta um Enter no teclado para que eu saiba a mensagem, basta um e-mail para que chegue assim um poema, lá de Coimbra, falando de anjos. Quem diria? — Toinho Castro , ao receber o poema de Lu Lessa Ventarola.

Poema de Lu Lessa Ventarola


Partem-se muitos.
Os mil demônios ficam.
Sobrevoam
a noite dos meus dias
à espera do banquete que farão
com todas as malditas palavras.
Estas que, sem terem para onde ir,
colaram-se à minha carne.
 
Tenho dúvidas ainda se me entregarei facilmente.
Gostaria mesmo de, antes do inevitável,
comer eu própria uma centena deles.
Demônios.
Assá-los em fogo com suas asas abertas.
Colocar mel em suas carnes duras e
lambuzar-me chupando seus ossos.
 
À mesa alguns anjos diriam amém.
Outros apiedariam-se dos irmãos caídos.
Mas os meus melhores amigos – os anjos de espada -,
ah estes! comeriam comigo o repasto.
 
Depois poderia subir o cadafalso feito uma antonieta.
 
Ou, talvez, no momento da entrega,
apenas chore feito cordeiro a ser imolado,
acreditando ver passarinhos a
sobrevoar
o dia das minhas noites.
 
 
Coimbra, 02 de março de 2020
Foto de Catarina Carvalho