João lê Trevisan, leitor de Curitiba

Em tempos de isolamento, nada mais pertinente do que falar de um autor que vive recluso, isolado, a metáfora do isolamento como criação e resistência: Dalton Trevisan, o vampiro de Curitiba. Lido como um dos principais escritores do nosso cânone moderno, detentor do prêmio Camões, ele completa 95 anos no próximo mês de Junho e lê o escritor como um ‘vampiro de almas’.[Texto de Nonato Gurgel]

Texto de Nonato Gurgel


Para o poeta e prof. Francisco Ivan

Em tempos de isolamento, nada mais pertinente do que falar de um autor que vive recluso, isolado, a metáfora do isolamento como criação e resistência: Dalton Trevisan, o vampiro de Curitiba. Lido como um dos principais escritores do nosso cânone moderno, detentor do prêmio Camões, ele completa 95 anos no próximo mês de Junho e lê o escritor como um ‘vampiro de almas’.

Sua obra se destaca pela forte presença de, dentre outros, duas formas culturais: o conto e a cidade de Curitiba. Seu texto breve, escrita curta é, às vezes, incômoda. Com cerca de 50 títulos publicados, sua bibliografia desconstrói a forma-conto e o texto da cidade-clichê, a ‘cidade sorriso’ criada pela mídia, pelo designer, a Curitiba ‘toda de acrílico azul para turista ver’.

Esse autor que desconstrói o conto e a cidade nos chega através do belo ensaio Trevisan, leitor de Curitiba (2019), de João Batista de Morais Neto. Munido de procedimentos como a paródia, a ironia, o intertexto e o corte, esse Dalton leitor da cidade tem forte porção barthesiana, principalmente do Barthes póstumo de O rumor da língua, livro que acentua as questões da leitura, autoria e escrita.

Desde sua inscrição no contexto contracultural das poéticas alternativas dos anos 80, no Rio Grande do Norte, o poeta e prof. João Batista é um dos nomes mais representativos das letras contemporâneas. Autor de Temporada de Ingênios (1980), Itajubá (2007), O veneno do Silêncio (2010) e Bissexto (2019), dentre outros, João é um escritor de ouvido atento aos rumores da língua e aos barulhos do contexto. Sua obra, ‘atravessada pela leitura dos Campos’, destaca-se pela construção de uma escrita concisa, enxuta, linkada num ‘saber com sabor’.

Essa concisão dialoga de forma interdisciplinar com saberes de diferentes épocas, e está presente em Trevisan, leitor de Curitiba (Sebo Vermelho). O texto foi reescrito a partir da dissertação de mestrado defendida pelo autor na UFBA. Nas orelhas assinadas pela professora Cellina Muniz, João é lido como um ‘vampiro às margens do Potengi’.

O livro é curto, denso, mas tem formato simples dividido em 3 partes: ‘Introdução’, ‘Uma antipastoral trevisaniana’ e ‘A cidade como texto’. Essa cartografia sugerida pelo sumário põe em evidência os ‘mitos provincianos do mundo suburbano’, recortados pelo vampiro desde o seu 1º livro Novelas nada exemplares (1959). Além dos mitos da província, o texto de João acentua o apreço do autor curitibano pelos signos e linguagens das classes média e baixa, lendo no autor uma ‘poética da elipse’.

Para compor ‘Uma antipastoral trevisaniana’, João tece uma polifonia com as vozes de Deleuze, Marshall Berman, Leyla Perrone-Moisés, Berta Waldman, Jose Castello, Sanches Neto e Rosse Marye Bernardi. Junto a esses críticos-leitores, destaca-se a voz do poeta curitibano Paulo Leminski, que ratifica a leitura de Trevisan, em torno da cidade tematizada por ambos. Diz o bandido que sabia grego e latim: ‘Curitiba é a cidade dos desejos inconfessáveis. Uma cidade onde a sexualidade é reprimida pela mística imigrante do trabalho.’

Trevisan, leitor de Curitiba tem o seu apogeu na parte final, ‘A cidade como texto’. Nela esplende a porção semiótica do Roland Barthes, ensinando que ‘o texto é o próprio aflorar da língua’. De ouvido na língua e no espaço urbano, João afirma que ‘a cidade é, simultaneamente, conceito e imagem, forma e conteúdo’.

Nessa parte final, um belo recorte comparativo dialoga com os olhares citadinos de Bandeira, Drummond e Pessoa. Além disso, João registra o olhar ‘lírico-dessacralizador’ de Trevisan, e demonstra como ele distorce, para o leitor comum, a cidade de Curitiba, inscrevendo não a cidade histórica, ‘mas a Curitiba que é a sua própria escritura, uma cidade ideal que, para existir, precisa ser evocada’.

Com este livro, cuja economia verbal opera com as mesmas ‘armas’ do vampiro-tema, João Batista cria ‘uma poética da recusa’ que nos ajudar a ler, não apenas Trevisan e Curitiba, mas a sua própria ensaística.


Magrinho

Hoje é dia de gente nova chegando na Revista Kuruma’tá! Trazido até aqui pela mão da amiga e colaboradora Maria Cristina Martins, Cadu Marconi é historiador, palpiteiro e músico, não necessariamente nessa ordem. Mas o que ele é mesmo é um escritor de mão cheia, com uma prosa ágil e provocadora. Bom demais, gente! Seja bem-vindo à Kuruma’tá! [Texto de Cadu Marconi]

Hoje é dia de gente nova chegando na Revista Kuruma’tá! Trazido até aqui pela mão da amiga e colaboradora Maria Cristina Martins, Cadu Marconi é historiador, palpiteiro e músico, não necessariamente nessa ordem. Mas o que ele é mesmo é um escritor de mão cheia, com uma prosa ágil e provocadora. Bom demais, gente! Seja bem-vindo à Kuruma’tá!

Texto de Cadu Marconi


Ilustração inventada por Toinho Castro com referências ranbdômicas

Só por achar um pedregulho daquele tamanho no meio da Presidente Vargas já merecia um prêmio. Tu mesmo, duvido achar!

Daí a tentar quebrar a propaganda da Reforma da Previdência embutida na placa do relógio de rua era consequência natural. O bleque-bloque bem que tentou. Era mirrado, mirradinho. Dizoituanos recém completados mas tentou.

Jogou a pedra uma, duas, três vezes e o vidro não arregou, se manteve lá! Mineral porreta o vidro, que atrás de si trazia o anúncio pregando as vantagens de se morrer antes da aposentadoria. Porque os homens velhos do governo são muito religiosos e nisso se encontram nas piores palavras bíblicas: morre, que depois a vida fica melhor.

Não demorou muito pra uma multidão se juntar ao redor: a fúria da horda pacifista se manifestou contra o magrinho. Surgiram primeiro com um cerco e gritos de guerra:

— Não me representa!! Não me representa!!

Em poucos segundos tomaram partido de forma mais clara, quando começaram a abertamente defender um lado (o do mineral):

— Olê, olê, olê, olêêê, vidroooo, vidrooooo!
— Ô blequebloquêêê, tomá no cuuuuu, eu defendo é o vidro do Itaúúúú!

Partiram pra cima do magrinho, mas ele como? Retrucando feroz. Peito estufado tipo pombo de calçada, gritou que foda-se a reforma, é que deu 40 graus no marcador, que isso ele não admitia.

Deu-se a confusão. Temperatura é coisa séria. Houve quem defendesse o verão, quem fosse contra, quem achasse que a boa era ocupar o termômetro, não permitindo seu pleno funcionamento.

O magrinho, salvo por sua particularíssima bomba de efeito moral e por outros e outras magrinhas, achou tempo e espaço pra sair dali. Fugiu enquanto se dissipava a fumaça.

Hoje, quinta-feira, há notícias de que a horda pacifista ainda está por ali, próxima ao relógio de rua na altura do número 700. Já chegaram em um consenso sobre a temperatura mas discutem furiosamente sobre o horário.

— 19h30? Claro que não. Acho que já é mais tarde!


Zé Salvador do Ceará: o cordel por trás da pessoa e a pessoa atrás do cordel

Pois bem. Lembram que eu mencionei que sua aposentadoria foi (ou melhor dizendo: tem sido) produtiva? Justamente nessa época publicou um livro de sonetos, ao qual deu o título de “Vai um Soneto aí com Zé Salvador?”, proporcionando aos seus leitores sonetos decassílabos heróicos. Esse livro não contou com a máquina editorial, no entanto. Foi sendo vendido no boca a boca mesmo, em uma aula de militância poética que nos deu o mestre Zé. [Texto de Eduardo Maciel]

Texto de Eduardo Maciel


Como vocês estão, queridos kurumateiros?

Espero que estejam bem. Apesar de tudo. Essa quinzena vim apresentar, a quem ainda não conhece, o mestre do cordel Zé Salvador (conhecido nos cartórios como José Washington de Souza).

Eu o conheci através de uma bela iniciativa chamada Diário da Poesia. E dali surgiu uma amizade e um bem-querer que perdura até hoje.

Nascido na cidade Tianguá, no Ceará, hoje nos brinda com sua ilustre presença na região metropolitana aqui do Estado do Rio de Janeiro.

Na infância, brincava de subir em árvores e ele mesmo fazia seus brinquedos: peões e papagaios (ou pipa, como a conhecemos pelos lados de cá). Também frequentava feiras, onde os cordelistas cearenses levavam suas maletas, espalhavam seus folhetos em meio às mercadorias e os declamavam para a alegria da garotada.

Aprendeu a ler e escrever em casa com a mãe (que além de cuidar do lar, compunha a renda familiar costurando e vendendo bolos). E usava cordéis para fixar na memória a teoria da língua portuguesa, como se fossem exercícios lúdicos. Apenas ingressou no sistema de ensino formal aos onze anos.

Aos dezoito, partiu em busca de um panorama mais agitado e foi morar em Fortaleza, capital de seu Estado, onde estudou parte do curso de contabilidade.

Em fevereiro de 1977 veio visitar uma irmã aqui no Rio de Janeiro. Nessa época, estudava e trabalhava no comércio, lá no Ceará.

Segundo o próprio: “vim pra cá pra passear, mas acabei gastando o dinheiro da minha passagem de volta e tive que arrumar um trabalho para conseguir comprar essa passagem. Continuo tentando comprar até hoje”. Até mesmo contando “causos”, tudo nele é poesia.

Em 1981 conheceu a mulher com quem vive até hoje e teve filhos, cujos nomes prestigiam Gandhi e “As Brumas de Avalon”. Para dar o melhor para a sua família, acabou protelando a conclusão dos estudos e é autodidata em tudo que faz e produz, o que para mim evidencia ainda mais o seu brilhantismo altruísta.

Desde cedo escrevia, e um dia, ao mostrar um de seus textos no liceu onde estudou, ainda no Ceará, disseram a ele que o escrito era um poema. Desde então ele se reconhece como poeta.

Durante a ditadura, foi convidado para escrever para um periódico local em Tianguá. Seu poema “Conversando com a Brisa”, no entanto, não viu a luz do dia, por ter sido considerado subversivo para aquela época. Censurado.

Já no Rio de Janeiro, continuou a escrever sem parar, apesar de ter passado anos a fio sem pretensões literárias, talvez em razão desse trauma da censura.

Das suas idas à Feira de São Cristóvão surgia um apreço cada vez maior pela literatura de cordel que conhecera no Ceará, muito embora nessa época o Zé Salvador ainda escrevesse poemas livres.

No ano 2000 foi primeiro lugar num concurso literário nacional, com o poema “Séculos”. Foi o que faltava para ele abrir sua gaveta de pérolas poéticas. Graças a Deus.

Ato contínuo, participou de trinta e cinco antologias com a editora que o havia premiado, e depois de mais outras cerca de vinte obras em coautoria, para instituições públicas e privadas.

Sua estreia oficial no mundo do cordel foi em 2006, quando escreveu “Pinochet e a Tentativa de Tomar o Inferno”, por ocasião da morte do ditador chileno. Nessa obra, pegou emprestado o “Inferno de Dante” e nesse cenário fez com que o ditador fosse realmente punido, já que ele havia escapado das devidas reprimendas em vida.

Continuou no ofício do cordel, mas de novo sem publicar. Isso mudou drasticamente em 2014, ano em que se aposentou.

Sabem como funciona a assim chamada “aposentadoria produtiva”, né? Então. Mais pra frente eu conto.

Conseguiu notoriedade com o cordel “Brincanagens”, inspirado em confraternizações com seus antigos colegas de trabalho. E a essa altura já escrevia poemas com métrica e rima, tendo dominado sozinho esse leão arredio da poesia regrada. Na jaula do leão, compôs vários cordéis e sonetos. Difícil, eu bem sei.

Mas o melhor vem a seguir, quando Zé Salvador se rendeu ao “Orkut”, lá nos primórdios das redes sociais como as conhecemos hoje. Nas comunidades literárias dessa rede, fez intercâmbio com diversas figuras que o ajudaram a trazer sua técnica à perfeição.

Pois bem. Lembram que eu mencionei que sua aposentadoria foi (ou melhor dizendo: tem sido) produtiva? Justamente nessa época publicou um livro de sonetos, ao qual deu o título de “Vai um Soneto aí com Zé Salvador?”, proporcionando aos seus leitores sonetos decassílabos heróicos. Esse livro não contou com a máquina editorial, no entanto. Foi sendo vendido no boca a boca mesmo, em uma aula de militância poética que nos deu o mestre Zé.

Junto com o livro, foi fazendo cordel assiduamente, num fluxo incessante entre produção e publicação, que perdura até hoje. Inclusive, ele já tem sessenta cordéis publicados, “mais um tanto que estão terminados aqui em minha mesa esperando a oportunidade de publicar”. Aspas dele.

Em 2019 foi primeiro lugar, com o cordel “Mochila que Guarda Medos”, em concurso promovido pela Biblioteca Anita Porto Martins. E nessa altura já transformava crônicas em cordel, o que prova de forma incontestável sua fluidez literária. Esse trabalho itinerou voluntariamente por escolas no Rio de Janeiro, no formato de “oficinas de cordel” por ele ministradas, fazendo do mestre Zé uma figura importante no segmento educacional. Fascinante.

Hoje em dia, Zé Salvador é vice-presidente da UBT (União Brasileira dos Trovadores), em razão de suas várias trovas premiadas e seu comportamento resiliente. Guarda em sua estante o troféu “Arte em Movimento” e se orgulha disso. Também, né? Coisa para poucos. Poucos e bons, eu diria.

Escreve para o portal literário “Entre Poetas e Poesias”, e também é comissionado para escrever cordéis por encomenda.

Palavras do Zé: “todo dia eu escrevo poesia, não tem um santo dia que eu não escreva”. Talvez isso o tenha colocado no lugar de membro elegível da Academia Brasileira de Cordel, onde estão vários de seus amigos. Corre a boca pequena que, com a triste e trágica passagem de Moraes Moreira, ele ocupe a sua cadeira vitalícia na Academia. Vamos aguardar. E torcer.

Ele mesmo, quando perguntado sobre títulos e comendas, se diz despreocupado, por ser “agradecido demais pelo dom de escrever”. Bem que eu disse que ele era altruísta…

Como tem acontecido com todos nós, sofre os impactos da pandemia, e com isso teve que interromper os trabalhos em cordéis coletivos no Nordeste. Mas tudo isso vai passar, e se Deus quiser ele concluirá esse lindo trabalho.

Para ele, “a literatura de folhetos do Nordeste por um tempo foi tratada como uma literatura menor, sendo que uns até a enxergavam como subproduto do folclore”.

Como nos ensina: “por um longo período de estudos sistemáticos sobre a literatura de cordel, a visão sobre esse trabalho era a de um produto coletivo, desprezando-se o criador e dando foco apenas no objeto da criação. Essa tendência se confirmou nas pesquisas de Silvio Romero, Leonardo Mota e Gustavo Barroso, quando foi Romero quem primeiramente usou no Brasil o verbete cordel. O pai do cordel brasileiro, Leandro Gomes de Barros, por outro lado, foi um dos caras que mais divulgou o cordel de folhetos no país.. De qualquer forma, o cordel para mim é algo que valorizo muito, principalmente quando ele está dentro da métrica. Porque o cordel, composto de 8 a 16 páginas, tem que ter a base, o tripé da métrica (com as sete sílabas tônicas ou poéticas) , da rima e da oração. Se não tiver esses três elementos, o texto não é um cordel. Mas existem vários tipos de cordel por aí, como o “martelo agalopado”, “martelo alagoano”, “peleja”, “galope à beira-mar”, “oitavão rebatido”. Por isso, se não for regrado, não vale. No Nordeste, onde os cordelistas são bem mais rigorosos, se você for falar de “cordel de pé quebrado”, podem até fazer chacota de você. E o “repente”? É cordel? Bem, ele é um primo do cordel, porque cordel vem de cordelista de bancada, enquanto o “cantador” vem com a viola ou pandeiro, sempre com um apoiador. Tem “cantador” que canta a obra de outros, e o “repentista” que cria ali na hora.”

Celebrado por grandes nomes da pesquisa de cordel como Elis Regina Barbosa Angelo e Sylvia Regina Bastos Nemer, continua usando o seu chapéu com esse sorrisão franco que podemos ver na foto.

Mas Edu, conta pra gente! O que será que o Zé Salvador deseja despertar no leitor? Vou deixar pra ele mesmo responder: “eu gostaria de despertar o prazer na leitura, pra que ele fique preso à leitura e goste da leitura. Ou então, fazer com que ele se sinta bem. Que tenha curiosidade pelo tema, e que eu possa passar alguma informação com aquilo que escrevo pra ele. Conhecimento, prazer e bem-estar”. E nós temos, mestre Zé. Bem-estar é o que não nos falta ao lermos o seu legado!

Obrigado demais por me deixar compartilhar um pouco de ti aqui na revista.
Salve, mestre Zé Salvador!

Contato Instagram: @ze.z.salvador

Não dá pra não seguir!


No Tabuleiro do Brasil, com Geraldo do Norte

Geraldo comandava nas madrugadas das sextas e sábados, na Rádio Nacional e em seguida na EBC, essa riqueza que era No Tabuleiro do Brasil, um programa de 3 horas de duração que resgatava e dava luz a uma produção que, fora dali, não tem vez nos veículos de comunicação. Escutar o programa era viajar no tempo e no espaço, sentir o sabor tradicional da rádio brasileira, conhecer nomes, estilos e talentos. Um tapa na cara de quem diz que a música do Brasil acabou. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro

Pandemia e quarentena, asteroides passando de raspão, discos voadores revelados pelo Pentágono… o mundo anda em polvorosa, mas em meio a toda essa confusão em que nos metemos, ou nos meteram, a gente tem que resgatar boas notícias antes que o sol se ponha, antes do final de cada dia. E nessa busca por acender lâmpadas em meio a escuridão, trazemos essa notícia que clareia tudo, porque tem a ver com cultura, com música, com o resgate do que há de bom nesse Brasil. Estou falando da volta do programa de rádio No Tabuleiro do Brasil, com apresentação desse mestre que é o querido Geraldo do Norte.

Tive a alegria de conhecer Geraldo pessoalmente por obra e graça do poeta Aderaldo Luciano, que o convocou para os encontros da ACACANCACA (Academia Carioca do Acadêmicos e Não-acadêmicos da Carioca), ali nas mesas Galeteria Cruzeiro, saída Rio Branco do metrô da Carioca. Entre muita conversa boa, poesias e viagens pelo cancioneiro brasileiro, Geraldo descortinou seu conhecimento musical desse país enorme e diverso. Um conhecimento não enciclopédico, mas afetivo. Cada encontro com Geraldo é uma aula, das boas! Daí ser um mestre.

Geraldo e sua Parelhas ao fundo, no Seridó, Rio Grande do Norte – Arquivo Pesoal

Geraldo comandava nas madrugadas das sextas e sábados, na Rádio Nacional e em seguida na EBC, essa riqueza que era No Tabuleiro do Brasil, um programa de 3 horas de duração que resgatava e dava luz a uma produção que, fora dali, não tem vez nos veículos de comunicação. Escutar o programa era viajar no tempo e no espaço, sentir o sabor tradicional da rádio brasileira, conhecer nomes, estilos e talentos. Um tapa na cara de quem diz que a música do Brasil acabou. Está vivíssima e Geraldo do Norte, nosso amigo Geraldo Ferreira, é um de seus principais divulgadores.

Na onda do desmonte que assola o país o programa de Geraldo foi vitimado, num dano sem tamanho à nossa cultura. Tirar a voz de Geraldo das ondas da rádio, das nossas madrugadas, foi mais um golpe dentre golpes que esse Brasil vem sofrendo. Estávamos nós sentindo uma falta danada do boa noite de Geraldo e da narrativa saborosa que alinhava o programa.

Mas eis que, Geraldo telefona na semana passada para me dar a grande notícia, das melhores desse período esquisito de pandemia e desmando, de que No Tabuleiro do Brasil está de volta! Dessa vez às 6 da manhã dos domingos, na rádio web Viva o Samba, que tem uma programação de 20 horas dedicada ao samba e ao choro. A estreia já é nesse próximo domingo, dia 3 de maio. Se você for esperto e ama música brasileira como anda dizendo por aí que ama, vai acordar cedo e sintonizar No Tabuleiro do Brasil. Bate até uma emoção.

Nesses tempos de Covid-19, essa doença com nome de congresso de produtores de vídeo, a gente sente falta de sentar às mesas da Galeteria Cruzeiro para trocar palavras, rimas e ideias com Geraldo, um poeta de mão cheia e coração aberto, com seus versos que falam de sua gente, de sua distante Parelhas, no Rio Grande do Norte, dos sertões e das cidades e dos aprendizados que a gente tira desses dias que vivemos.

Aderaldo Luciano e Geraldo do Norte na casa do artista plástico Ciro Fernandes

Então, está anotado na agenda?
No Tabuleiro do Brasil, com Geraldo do Norte
na rádio Viva o Samba
A partir do próximo domingo, dia 3 de maio
às 6 da manhã!

Eu estarei escutando atentamente e muito feliz. Espero que você também!


Para os que ainda estão em casa

Da varanda, os versos ainda andam à espreita. Eis o que o escritor, à espera, observou sentado em seu trono – uma cadeira barata com armação de alumínio estrategicamente posicionada para que a correnteza não tornasse turva a vista que se desnudava diante de seus olhos. [Texto de Eduardo Frota]

Texto de Eduardo Frota


Rooms by the Sea, 1951, por Edward Hopper

Da varanda, os versos ainda andam à espreita. Eis o que o escritor, à espera, observou sentado em seu trono – uma cadeira barata com armação de alumínio estrategicamente posicionada para que a correnteza não tornasse turva a vista que se desnudava diante de seus olhos.

I
(“A sunday kind of love” – Etta James)

O sol nasce todo o dia a leste. Os primeiros raios chegam. Não cegam. O sol se põe todo dia a oeste, mas para pintar o firmamento ele usa paletas de cores distintas, distantes.

II
(“Everytime we say goodbye” – Ella Fitzgerald”)

O limite entre o céu e o mar é de um azul calmo, tranquilo. Ainda que as ondas quebrem com intensidade, de longe parecem algodão-doce. Um dulçor branco, puro. As ondas, por maiores que sejam, elas sabem que são oceano.

III
(“Blue moon” – Billie Holiday)

À noite, as luzes dos prédios parecem vaga-lumes, pontos luzidios. Substituem as estrelas, pontas fugidias. Não havia percebido que elas são coloridas.


Sem desperdício

Sendo uma crônica jornalística, porém, basta estarmos conectados com o mundo externo por algum advento tecnológico. Não nos locomovemos em carros voadores, como pensávamos sobre o século XXI, mas o futuro nos trouxe a internet, potência de informação muito mais incrível do que supôs Isaac Asimov. Às vezes até mais do que gostaríamos ou deveríamos. Ontem, por exemplo, fiquei sabendo de carreatas contra a quarentena em alguns pontos da cidade. [Crônica de Maria Cistina Martins]

Crônica de Maria Cistina Martins


Redes – Arte original de Maria Cristina Martins

Difícil escrever uma crônica sem sair de casa há mais de um mês, sequer para ir ao mercado, lugar que deve estar ainda mais fértil para boas histórias. Penso em situações que vão de “Ensaio sobre a cegueira” a “Supermercado”, do Porta dos Fundos. Crônica é um gênero muito relacionado à rua, à observação dos seres humanos em seu cotidiano. Não dá para imaginar os grandes cronistas escrevendo com facilidade sem acesso a tipos e “causos” urbanos.

Sendo uma crônica jornalística, porém, basta estarmos conectados com o mundo externo por algum advento tecnológico. Não nos locomovemos em carros voadores, como pensávamos sobre o século XXI, mas o futuro nos trouxe a internet, potência de informação muito mais incrível do que supôs Isaac Asimov. Às vezes até mais do que gostaríamos ou deveríamos. Ontem, por exemplo, fiquei sabendo de carreatas contra a quarentena em alguns pontos da cidade. Pessoas que saíram em seus carros, muitos de luxo, exigindo o fim do isolamento social, usando caixões para debochar das milhares de mortes provocadas pelo novo coronavírus. Essa notícia eu não queria ter visto. Por outro lado, sem saber, como reagir a esse tipo de atitude? Mas conseguimos reagir?

Melhor do que qualquer debate contra os que debocham da morte é seguir Brecht e não desperdiçar “um só pensamento com o que não pode mudar”, e retirar “do poço seu irmão, com as cordas que existem em abundância”. Enquanto uns clamam pelo fim do isolamento em nome da economia, fazendo a economia se sobrepor à vida, estabelecendo uma falsa dicotomia, outros organizam redes de solidariedade para que não se precise escolher entre morrer de fome ou de covid-19. É inspirador ver a capacidade que têm os grupos mais vulneráveis de se organizar e autogerir, como aconteceu em Paraisópolis, em São Paulo, e em Acari, no Rio de Janeiro. Não digo isso em contrário à justa cobrança que deve ser feita ao Poder Público. Já que estamos sob o sistema capitalista, desigual e injusto, no qual elegemos representantes para nos governar, é inadmissível que, em um momento como este, não haja medidas de proteção aos que precisam.

Digo isso porque, mais do que nunca, se não for “nós por nós”, como se usa nas quebradas, a situação será mais trágica do que as previsões apontam. E se formos privilegiar o debate com uma parede de ignorância e mau caratismo impermeável a qualquer lógica e bom senso, e mesmo ao emotivo, adoeceremos também mentalmente. Na atual conjuntura, estar bem informado, principalmente quando se está há mais de trinta dias sem sair de casa, pode ser produtivo para escrever uma crônica jornalística, mas nem sempre para viver. Como vi em um meme: mantenha-se informado, mas não muito, senão dá vontade de morrer.

Pode dar vontade de matar também, pois pode ser necessário que “esmaguem o patife egoísta que lhes atrapalha os movimentos, quando retiram do poço seu irmão, com as cordas que existem em abundância”.


Zé Ramalho é imortal dentro e fora do cordel

Aos 3 de outubro de 2019, Zé Ramalho completou 70 anos. Entre os atos de celebração, a reunião de todos os folhetos de cordel sobre o vate sertanejo ganhou vida no livro Zé Ramalho na Literatura de Cordel (De como o menino do Avohai tomou aura de visionário). Os autores Kydelmir Dantas e Aurílio Santos catalogaram e inventariaram as melhores obras. [Texto de Aderaldo Luciano]

Aos 3 de outubro de 2019, Zé Ramalho completou 70 anos. Entre os atos de celebração, a reunião de todos os folhetos de cordel sobre o vate sertanejo ganhou vida no livro Zé Ramalho na Literatura de Cordel (De como o menino do Avohai tomou aura de visionário). Os autores Kydelmir Dantas e Aurílio Santos catalogaram e inventariaram as melhores obras. O texto a seguir é a apresentação escrita por Aderaldo Luciano.

Texto de Aderaldo Luciano


Na pequena casa da Rua São José, nº 102, em Areia, na Paraíba do Norte, eu sintonizava a Rádio Caturité de Campina Grande, ZYI-676, AM. Não me lembro a hora, nem me lembro o dia. Nem o mês. Tampouco o que estava acontecendo no Brasil. Ou no mundo. Talvez o sol estivesse em Libra, a Lua em Aquário e Marte em Leão. Mas a palavra mágica AVOHAI, ponto central de uma canção com um arranjo estranho, agressivo e doce, sideral e telúrico, avoaria por dentro, me fazendo tremer o peito e alargar-me um nó, resultado de conflitos emocionais dos quais nunca mais me livrei.

Em 1978, aos 28-29 anos, José Ramalho Neto, Zé Ramalho da Paraíba, Zé Ramalho, assinava a primeira página de sua imortalidade. O poeta solitário, o cantador místico e o músico performático encontrariam nele a guarida, o afago, o ferro e o fogo, a alquimia e a profundidade, a pele e o cérebro, alguma dose de coração e inundações de sangue ancestral. Ao completar 70 anos de vida e ressurreição, todos esses ingredientes permanecem efusivos, ecoando da voz de baraúna, timbre sertanejo, consistência das pedras mais profundas, vindas do centro da Terra, do marco do fim do mundo.

O Homem se imortaliza na obra. Sua biografia é um misto de vida de gado, ao som dos aboios (reais e imaginários), de passos tatuados no chão das galáxias (onde as cabeças se encontram), da cor preta rasgada em veios no acetato (as agulhas de diamante lhe servirão de chicote), de abissais viagens pelas encruzilhadas da mente e horas e mais horas de peregrinação. Mas há outro caminho para a imortalidade: a letra elétrica, poética e imorredoura, aquela que tece e reage dentro do poema de cordel. Zé Ramalho é imortal na sextilha do cordel, assim como Lampião, Raul Seixas, Luiz Gonzaga, Padre Cícero.

A transição do poeta autor de cordéis (veja-se o folheto seminal Apocalypse) para personagem épico da própria matéria cordelística é fruto da importância e ascendência de Zé Ramalho sobre a Vida Brasileira. Os folhetos reunidos, os incontáveis versos de sete sílabas, a assinatura poética da poesia do povo, trazem até nossos olhos a dimensão imaterial de sua alma desenhada em Brejo do Cruz, onde nasceu a 3 de outubro de 1949. É vasta a produção sobre a obra ramalhiana, assim como é a vasta a produção sobre ele e com ele. Zé Ramalho empunha a espada, engatilha a viola, segue célere para o espaço infinito, aninha-se em nossos corações, repousa na poesia. O Velho cruza a soleira, há um tom mais leve no seu embornal!

Aderaldo Luciano
Mirante da Serra das Araras
Primavera de 2019

Zé Ramalho – Foto de Roberta Ramalho (Divulgação)

De volta ao passado

A igreja é o que se pode chamar de ex-voto. O maior que jamais imaginara conhecer. A peste negra havia enterrado um terço da população veneziana, mas a epidemia chegara ao fim. Nobres, padres, arquitetos, operários e a população lançam-se então à tarefa de erguer a basílica para agradecer à Santa Maria, e celebrar a graça (enfim) alcançada, pagamento de promessas inimagináveis. [ Texto de Napoleão de Paiva Sousa]

Texto de Napoleão de Paiva Sousa

A Revista Kuruma’tá traz hoje uma contribuição do médico, poeta e escritor Napoleão de Paiva Sousa. Nascido na cidade de Alexandria, no Rio Grande do Norte, Napoleão já publicou os livros Apenas Chegaram, Depois Comigo, E Por Acaso Deliro, de poesia. Tem na fila um livro de contos com lançamento previsto para este ano. Vamos torcer que esse ano ainda seja capaz de nos trazer esse livro novo de Napoleão, que será muito bem-vindo.


Foto de Juan RulfoDireitos reservados

O momento atual pode ser comparado àquele sujeito que leva fama de rico a vida inteira, morre de repente, e então descobre-se a verdade: de rico não tinha nada. Países da América, Ásia e, principalmente, da Europa, economias consolidadas, sobre quem se enchia a boca para nomeá-los “países de primeiro mundo”, mostram hoje, claramente, diante a aluvião de mortes e sofrimento nos seus territórios, que longe estão das portas do paraíso que se auto atribuíam. Descobriu-se desafortunadamente que têm sistemas de saúde mal estruturados, confusos, com nível lento de decisões, respostas mais lentas ainda, sem correta previsão de catástrofes e, pior, sem lastro operacional/financeiro para fazer frente às dificuldades, como a essa onda escura que se ergue sobre todos nós.

A Itália, quarta economia europeia, confessa não ter equipamentos – respiradores e EPIs – para assistir os seus; o governador e prefeito de NY convocam voluntários pela net, anunciando não ter insumos, máquinas e leitos suficientes para a assistência – a passos do colapso; a Inglaterra bate cabeça – em uma semana anuncia estratégias distintas para combater a Covid-19, e em seguida se rende ao unânime isolamento horizontal; a China, tão pujante na elevação anual do PIB, mistura num só balaio controles sanitários ultrapassados, tecnologia de ponta, e peneira política sofisticada e repressora de informações estratégicas de interesse humanitário – tornando suspeitas suas estatísticas, no mínimo. Constrangedor o mundo ocidental, de bolso liso, e a ONU, fazendo cara de paisagem ante as evidências de manipulação de informações, prisão de médicos, comportando-se como meros parceiros comerciais submissos e omissos, jogando aos porcos princípios éticos, morais, humanitários.

Quando vi por esses dias o jornalista Mainardi nas ruas esvaziadas de Veneza, indo desmanchado em direção à Basílica de Santa Maria della Salute, tive a estranha sensação de uma dupla volta ao passado: meu aniversário de 28 anos, ali, em frente a La Salute, como conhecida, deslumbrado com sua beleza barroca e uma história de quase 400 anos.

A igreja é o que se pode chamar de ex-voto. O maior que jamais imaginara conhecer. A peste negra havia enterrado um terço da população veneziana, mas a epidemia chegara ao fim. Nobres, padres, arquitetos, operários e a população lançam-se então à tarefa de erguer a basílica para agradecer à Santa Maria, e celebrar a graça (enfim) alcançada, pagamento de promessas inimagináveis.

A exótica cidade devastada por uma moléstia de origem não sabida. Seriam as águas, castigos divinos, emanações doentias, ou a população de ratos e pulgas que infestavam seus canais e ruas tortuosas? Sem medicamento algum para tratar, anterior a mais vaga noção do que um dia seriam as vacinas, com a medicina sem noção do que fazer, e mais, do que curar. Havia forte suspeita de que tudo começara na China – teria por acaso sido em Wuhan? – aportando depois no território da hoje Itália através de 8 galeões genoveses.

Lentamente (depois de décadas ou séculos) chegou-se a uma radiante descoberta: o valor do isolamento como meio de conter a propagação do mal. Tal como o de hoje, rebatizado de isolamento social. Afastar-se do convívio. A nobreza escondia-se em suas deslumbrantes propriedades rurais. A população contaminava-se indefesa nas ruas, no meio social. Anos para descobrir que a transmissão se dava pelas vias respiratórias e por secreções do corpo. A partir daí proibiram-se o acompanhamento de doentes por circunstantes, ou de rituais para velar os mortos.

É provável que por então as ruas do medievo estivessem coloridas de lenços cobrindo as faces das pessoas, a se defenderem dos temidos miasmas, emanações contaminantes, e outras crenças anteriores à microbiologia. Os médicos que cuidavam dos enfermos da peste usavam uma roupa preta de couro e uma máscara, igualmente de couro, em forma de bico de pássaro.

Séculos mais tarde passou-se ao uso de máscaras mais delicadas. Geralmente brancas ou azuis, com elástico.

Tão longe, tão perto.


Melancolia, de Carlos Cardoso

Nesses dias de quarentena esse é uma obra para ter ao alcance da mão. Volta e meia puxo ele do seu silêncio natural para falar comigo. Heloisa Buarque diz assim, de um jeito simples: Um livro belo. Sim, belo e consistente. Bem trançado com a matéria dos dias e dos sentimentos. Carlos Cardoso sabe o que está fazendo, tem um caminho bem trilhado e cruzar esse caminho me deixa muito feliz. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Nada como quando a poesia nos bate à porta. No meio de uma pandemia, o interfone toca… susto! Corre? O interfone? Quem será… É o moço da entrega. Entrega? Entrega de que? Descobri depois. Entrega da alma! Ou melhor, para a alma. Era, veja só, um livro de poemas. Protocolos quarentênicos cumpridos, vamos à leitura. Leitura ao vagar. leitura leve e lenta, como parece pedir essa poesia que me chegou. Gente, ter a poesia entrando assim, inesperada, na sua vida, é a melhor coisa. O livro? Chama-se Melancolia. Apropriado aos nossos dias, dirão os apressados. Mas com poesia não precisa haver pressa, ainda que um hai-kai de Leminski nos apresse a viver. A vida pode ter pressa, mas a poesia não. Não a poesia de Carlos Cardoso, em sua melancolia.

Por muitos anos fui um leitor adepto da poesia de vanguarda. De tantos ler manifestos dadaístas, concretos, acabei por abolir-me o verso. Tardiamente, naturalmente. Empunhando experiências de toda sorte, um dia me vi sentindo uma falta absurda do verso. Porque não, o verso não estava morto. Estava vivíssimo dentro de mim, esperando um gatilho. E foram muitos os gatilhos a disparar-me em direção às boas estrofes. Então, esse livro feito de versos, estrofes, página após página. O desenrolar e desenlace de cada palavra que se segue, me encanta. Para mim, ler poesia é voltar ao leito natural, ancestral. A poesia é anterior a tudo que se lê. Tá na raiz da gente e Melancolia toca essa raiz e a estimula

Não sou crítico, sou um leitor. Heloisa Buarque, na orelha do livro (que delícia que livros tenha orelhas), fala com muito mais propriedade, das tristezas vagas, do trabalho pela palavra fluida, ainda que escrita. A escrita é uma marcação. Quando lemos, o que há é um fio condutor e o poeta, ou a poesia (como se confundem esses dois, é o que está à margem dessa marcação. Por vezes inalcançável , por vezes nos falando de dentro de nós. Curioso você ler o que outra pessoa escreveu e isso falar de você. A gente pensa, que veio foi esse que o poeta alcançou e me encontrou, e falou como se fosse eu. Porque assim o escuto.

A palavra é um bem comum, que um poeta como Carlos Cardoso tece e destece, em nome de cada um e nós. Tem aquela brincadeira, do extraterrestre que chega à Terra e diz “Leve-me ao seu líder!”. Eu imagino que dirá:

— Leve-me ao Poeta!

Melancolia é um livro de encontro com a palavra, com essa essência. Não é poesia porque está em verso, mas porque fala como só a poesia pode falar. É denso e necessário. Inalcançável? Não, inevitável. incontornável, como a pedra, que é central no livro. Como ponto de equilíbrio.

Pedra pura

Essa pedra que carrego
sobre a balança que me peso
é pedra dura, de concreto
pedra que dói e cura, brilha

pedra pura!

Nesses dias de quarentena esse é uma obra para ter ao alcance da mão. Volta e meia puxo ele do seu silêncio natural para falar comigo. Heloisa Buarque diz assim, de um jeito simples: Um livro belo. Sim, belo e consistente. Bem trançado com a matéria dos dias e dos sentimentos. Carlos Cardoso sabe o que está fazendo, tem um caminho bem trilhado e cruzar esse caminho me deixa muito feliz. Abrir um livro de poesia como Melcancolia, faz-me recordar com graça aqueles dias em que eu ostentava a morte do verso. O verso está vivo, sempre vivo, muito vivo e está aqui para mexer com a gente, nos tirar do lugar, falar de nós e nos projetar no outro.

Só pra não deixar de contar esse detalhe… Melancolia recebeu o prêmio de melhor livro de poesia de 2019 da APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte.

A Revista Kuruma’tá entrou na campanha adote uma livraria e adotamos a Blooks Livraria. Fica então aqui a dica de comprar o livro Melancolia, de Carlos Cardoso, no site da Blooks!

Adote também uma livraria!
Queremos todas de portas abertas quando a quarentena terminar!


Bora brincar de soneto e logogrifo?

Sonetos e enigmas? Isso mesmo! Enigmas sob a forma de logogrifos.

Mas antes que eu conte a vocês o que são os logogrifos, o método para sua solução e um exemplo para vocês tentarem descobrir, preciso falar um pouco mais sobre esse sonetista, o Antônio de Paula, que foi ter com os deuses da arte em outro plano ainda nos anos oitenta do século passado. [Texto de Eduardo Maciel]

Texto de Eduardo Maciel


Olá, valorosos kurumateiros!

Trago hoje uma história linda e uma brincadeira. Gostam de resolver enigmas?

Pois bem. Participo de um grupo de Whatsapp cujo foco é educação, e foi lá que conheci o Joaquim de Paula. No grupo, ao saber que eu me dedico a escrever sonetos (dentre outras coisas), me contou que o pai dele tinha uma obra póstuma, chamada “FLORES DE PAPEL”, publicada pelo esforço conjunto da viúva do autor e seus familiares, unindo sonetos e enigmas. Chamou a minha atenção na hora!

Sonetos e enigmas? Isso mesmo! Enigmas sob a forma de logogrifos.

Mas antes que eu conte a vocês o que são os logogrifos, o método para sua solução e um exemplo para vocês tentarem descobrir, preciso falar um pouco mais sobre esse sonetista, o Antônio de Paula, que foi ter com os deuses da arte em outro plano ainda nos anos oitenta do século passado.

Me foi descrito como um senhor modesto e desprendido, que apesar do talento para as letras, não se considerava um intelectual. Era uma pessoa de muitos amigos e um profissional zeloso e correto, na chefia da Secretaria de Fazenda Pública do município de Montes Claros/MG. E para além disso, músico e poeta, amante dos epigramas e logogrifos. Um homem sensível, sem dúvidas.

Não divulgou seus poemas por uma questão de modéstia. No entanto, em sua época preencheu um espaço lúdico no “Jornal de Montes Claros”, onde aos domingos se encontrava com seus leitores através de sátiras grifadas com os números enigmáticos dos logogrifos. Isso sem mencionar os seus exímios talentos como violinista.

E como fruto desse trabalho, deixou um legado para lá de precioso: um dicionário para a decifração de enigmas com mais de cento e dez mil verbetes! Obra de valor inestimável.

Todos os sonetos são lindos demais, cheios de entusiasmo, francamente sarcásticos em sua maioria. Ao ler, a gente se coloca na cena na hora!

Sob o ponto de vista técnico, Antônio de Paula era um sonetista dedicado a um tipo de soneto conhecido como “Soneto Livre”, onde existe a estrutura de dois quartetos e dois tercetos inerente à maioria das espécies de soneto, mas não há um compromisso fixo com métrica e rima. Os sonetos são sonoros como precisam ser, apesar da falta de rigor sob esses dois últimos elementos.

Agora falemos sobre os logogrifos. Quem são eles? De onde eles vieram? De que se alimentam?

Deixarei o próprio autor nos contar:

“O logogrifo é, dentre os vários enigmas existentes, um dos mais difundidos e apreciados. De decifração muito simples, é composto de palavras-chave e de um conceito, só que aquelas são marcadas em negrito e o conceito, vem sempre em letras maiúsculas. Em um mesmo logogrifo, cada número representa sempre a mesma letra, sendo que a numeração mais alta corresponde ao número total de letras do conceito que trará a solução do enigma. Para melhor esclarecer a forma de decifração do enigma, foram adaptados por mim logogrifos a uma quadrilha popular. Vamos, pois, ao exemplo:

Baixa, baixa serraria
Que eu quero ver a cidade
Meu benzinho aqui tão perto
E eu MORRENDO de saudades…

4,1,8,7,11,6
3,10,7,7,6
7,2,5,4,7,6,7
4,12,13,7,6,1,13
9,8,7,9,4

Note-se aí que a solução deve conter 13 letras (o número mais alto do logogrifo) e que deve ser equivalente, na semântica, ao termo “MORRENDO”, que é o conceito. Anotaremos então em um papel as chaves e o número de letras da solução, como segue:

Baixa = 4,1,8,7,11,6
Serraria = 3,10,7,7,6
Ver = 7,2,5,4,7,6,7
Benzinho = 4,12,13,7,6,1,13
Perto = 9,8,7,9,4

SOLUÇÃO = 1,2,3,4,5,6,7,8,9,10,11,12,13

Iniciando agora a decifração procura-se, para cada palavra-chave, um sinônimo. Esse sinônimo será transferido para a solução, obedecendo a numeração existente sob cada letra. Chegaremos assim à resolução do enigma, que é a seguinte:

Baixa = Aderna (4,1,8,7,11,6), onde se associa a cada letra do sinônimo um dos números, na ordem.
Serraria = Serra (3,10,7,7,6)
Ver = Reparar (7,2,5,4,7,6,7)
Benzinho = Adorado (4,12,13,7,6,1,13)
Perto = Cerca (9,8,7,9,4)

SOLUÇÃO = DESAPARECENDO (1,2,3,4,5,6,7,8,9,10,11,12,13)

Está aí a decifração: “DESAPARECENDO”, que é um sinônimo de “MORRENDO”, termo que constitui o conceito!

A solução de um logogrifo pode às vezes ser representada por mais de uma palavra (expressão, locução) e até mesmo vir em sentido figurado.”

Fascinante, não é mesmo? Quando tive acesso ao livro pela primeira vez, e tendo entendido o conceito por trás da resolução do enigma, me pus a tentar solucionar todos os 76 sonetos que o livro abriga. Consegui resolver alguns, outros não. Para facilitar o exercício de vocês, vou reproduzir aqui mais um soneto com seu logogrifo, e em seguida a solução. Caso queiram tentar descobrir, não vale olhar a solução antes de se debruçarem sobre o logogrifo, combinado? O soneto escolhido segue abaixo. Vamos começar a brincadeira? Valendo!

“O Amado Filho do Construtor

Arnaldo pega a marmita,
Bife, arroz, frango e feijão.
Vai levar a supradita
Ao seu pai, na construção

A caminho o Arnaldo vai,
Mas não resiste ao bom cheiro
E devora o frango inteiro,
Levando o restante pro pai.

Não viste o frango ensopado
Que sua mãe prometeu,
Para o almoço, ó filho amado?

Caiu no chão, diz o Arnaldo
E apesar do esforço meu,
Só pude apanhar o CALDO!”

SOLUÇÃO = 21 LETRAS
9,2,7,20,8
5,1,19,17,9,13,9
16,9,8,14
11,5,21,7,17,4,10
5,6,9,7,12
11,5,15,3,5,18

Se não conseguirem de primeira, podem tentar de novo. Muito bom brincar de detetive e desvendar os enigmas que trazem os logogrifos!

E para conferirem se acertaram, a resposta correta é “suco extraído dos frutos”.

Tomara que tenham gostado do jogo. Eu particularmente adorei! Fora a história que envolve esse autor e essa obra, que me deixaram encantado.

Preciso agradecer imensamente a gentileza do Joaquim de Paula, filho do nosso autor revelado, que além de me autorizar a escrever sobre o pai dele me presenteou com esse livro sem igual.

Sonetos e logogrifos: adorei a combinação!