o que importa

e quando algo (ou alguém) ameaça aqueles que amamos (e talvez, para muitos, só aí, só atingindo este limite da possibilidade do inominável) descobrimos, boquiabertos, que somos verdadeiramente capazes de compaixão e de empatia. de nos perceber como seres interligados. de compreender o que é viver em comunidade. de entender como nossas escolhas pessoais influenciam toda uma sociedade, todo um ecossistema. [Texto de Laura Limp]

Texto de Laura Limp


o que importa nesse momento não são as distâncias impostas. mas os afetos. se tem algo que nos une neste instante, ao redor de todo o planeta, é o amor.

do assassino ao juiz, do justo ao corrupto, do pobre ao rico. de norte a sul do país, de um hemisfério a outro do mundo. não importam as distâncias nem as fronteiras. a classe social, a idade, o gênero, a raça, a crença religiosa, a orientação sexual, o partido, o time de futebol, nem mesmo as línguas importam. todo mundo ama ou já amou alguém. todo mundo.

e é por causa do amor que o Bolsonaro vai cair. não por causa do ódio, dos desafetos e desavenças, das discordâncias políticas ou da crise econômica que se anuncia, mas porque os amores devem ser preservados. e serão.

essa, talvez, seja a única coisa realmente capaz de mudar o rumo da história, o futuro do planeta e das pessoas que nele habitam: o amor.

e quando algo (ou alguém) ameaça aqueles que amamos (e talvez, para muitos, só aí, só atingindo este limite da possibilidade do inominável) descobrimos, boquiabertos, que somos verdadeiramente capazes de compaixão e de empatia. de nos perceber como seres interligados. de compreender o que é viver em comunidade. de entender como nossas escolhas pessoais influenciam toda uma sociedade, todo um ecossistema. só aí somos capazes de nos colocar no lugar do outro, verdadeiramente. de ter a real dimensão de que É IMPOSSÍVEL SER FELIZ SOZINHO, como cantava Vinícius de Moraes.

diante da dura lição que só um vírus foi capaz de nos impor — e que nos ensina que o afastamento daqueles que amamos pode ser a única arma que, de fato, precisamos — percebemos que: ou está bom pra tod@s ou não está bom pra ninguém. como dizia Sartre: “O inferno são os outros”. acredito que a antítese também seja verdadeira. pelo menos, temos o potencial para que seja.

a grande queda deste patético homenzinho (e, quiçá, de todo um sistema que já dava sinais de colapso) se dará, ironicamente, através do amor. exatamente o contrário de tudo que ele e os seus pregavam, seja em nome do dinheiro que escraviza e aliena, seja em nome de uma fé inescrupulosa que cega e abusa de inocentes.

ninguém está imune ao amor. ninguém, nem mesmo ele. nem mesmo este pobre e patético homem. ainda que seja pela ausência de.

hoje, depois de ser tomada pela revolta (como tantos de nós) após discurso tão irresponsável, criminoso e que beira o desumano, me pego sentindo algo inédito por ele: pena.

imagino a dor que deva sentir um ser tão incapaz de entender e vivenciar o amor; alguém que, muito provavelmente foi privado deste sentimento ao longo da vida. que solidão atroz. que escuridão permanente. que morte dolorosa e lenta, ainda em vida, é a ausência de amor.

que triste fim (pra alguém com ego tão gigante) deve ser ter nas mãos o poder de fazer alguma diferença no mundo e dessa maneira, entrar pra história… e o desperdiçar. uma enorme “oferenda ao nada” como bem disse Nilton Bonder em “A alma imoral”.

encerro com um poema de Wislawa Szymborska chamado “Vietnã”. ele, por si só, resume tudo o que eu disse antes. e que nunca mais nos esqueçamos do poder e da importância da arte, essa chama capaz de nos iluminar em meio a escuridão.

VIETNÃ

Mulher, como você se chama?
– Não sei.
Quando você nasceu, de onde você vem?
– Não sei.
Para que cavou uma toca na terra?
– Não sei.
Desde quanto está aqui escondida?
– Não sei.
Por que mordeu o meu dedo anular?
– Não sei.
Não sabe que não vamos te fazer nenhum mal?
– Não sei.
De que lado você está?
– Não sei.
É a guerra, você tem que escolher.
– Não sei.
Esses são teus filhos?
– São.


Quarentena: O que os Filósofos diriam sobre o Coronavírus?

O poeta e professor Nonato, Gurgel quando não manda um texto preciso e de beleza pra gente, traz sempre uma dica não menos certeira! E foi assim que nos chegou esse texto leve e inteligente, que essa quarentena carece e merece. O escritor e professor Arzírio Cardoso, do Paraná, soltou esse texto texto nas redes e isso tá ganhando o mundo; soube ontem que já foi traduzido para o francês, por uma professora de francês portuguesa, que mora em Sintra! Que beleza esse mundo, né? Mesmo sob quarentena! [Texto de Arzírio Cardoso]

O poeta e professor Nonato Gurgel quando não manda um texto preciso e de beleza pra gente, traz sempre uma dica não menos certeira! E foi assim que nos chegou esse texto leve e inteligente, que essa quarentena carece e merece. O escritor e professor Arzírio Cardoso, do Paraná, soltou esse texto nas redes e isso tá ganhando o mundo; soube ontem que já foi traduzido para o francês, por uma professora de francês portuguesa, que mora em Sintra! Que beleza esse mundo, né? Mesmo sob quarentena!

E agora, com a autorização do Arzírio, a gente publica aqui na Kuruma’tá O que os Filósofos diriam sobre o Coronavírus?

E mais… Essa versão é diferente da que está circulando na web. Foi reescrita pelo Nonato, em dialogo com o autor, ordenando os filósofos e levando em conta a História da Filosofia. Uma versão inédita, diríamos! E também propícia para trabalhar em sala de aula por professores das áreas de Humanas (Letras Sociologia Direito…).

Texto de Arzírio Cardoso


I – FILOSOFIA ANTIGA

HERÁCLITO: não se pega duas vezes o mesmo vírus.
PROTÁGORAS: o vírus é a medida de todas as coisas.
SÓCRATES: a verdade sobre o vírus já está dentro de você. Tomara que o vírus não.
PLATÃO: fiquem na caverna!
ARISTÓTELES: o vírus está apenas cumprindo seu papel no Cosmos ao infectar corpos.

II – FILOSOFIA MEDIEVAL

SANTO AGOSTINHO: a medida de amar é amar longe.

III – FILOSOFIA MODERNA

DESCARTES: habito, ergo sum.
SPINOZA: o ser humano é muito afetado, por isso o vírus o afeta.
BERGSON: é preciso que o homem seja tomado pelo elã vital, e não pelo elã viral
ROUSSEAU: o homem é bom por natureza, mas o vírus o corrompe.
HEGEL: tese: fique em casa; antítese: fique em casa; síntese: fique em casa.
KANT: duas coisas me enchem a alma de crescente admiração e respeito, quanto mais intensa e frequentemente o pensamento delas se ocupa: o céu estrelado lá fora e eu aqui dentro.
NIETZSCHE: fique em casa, por mais difícil que seja suportar sua própria presença.

IV – FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA

MARX: trabalhadores do mundo, separai-vos.
FREUD: O vírus dá plena vazão a suas pulsões reprodutivas porque não é reprimido sexualmente, na infância, pela civilização.
JUNG: o medo arquetípico do vírus é uma herança entregue a nós pelo inconsciente coletivo.
HANNAH ARENDT: para o vírus, matar é uma tarefa banal e cotidiana.
WITTEGENSTEIN: aquilo que não se pode contrair, não se pode transmitir.
MIKHAIL BAKHTIN: não há possibilidade de neutralidade, todo vírus é ideológico.
WALTER BENJAMIN: a reprodutibilidade excessiva e sem freios do vírus traz como consequência a perda de sua aura de sacralidade.
SARTRE: nada a retificar, o inferno são os outros.
SIMONE DE BEAUVOIR: não se nasce infectado, torna-se infectado.
ALBERT CAMUS: hoje, mamãe morreu…
VILÉM FLUSSER: O DNA do vírus não pode ser decodificado porque a escrita acabou.
ROLAND BARTHES: o vírus não tem autor, só receptor.
FOUCAULT: esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo são o que podemos chamar vírus.
JACQUES DERRIDA: o objetivo de todo vírus deve ser a desconstrução do corpo infectado.
BAUMAN: a maior evidência da sociedade líquida é sua dependência do álcool.
JUDITH BUTLER: o fato de esta lista ser composta por 95% de homens revela como a história da humanidade é a história da dominação patriarcal. Homens são o verdadeiro vírus.
OLAVO DE CARVALHO: o vírus é um idiota, eu sou um idiota. Na verdade nem sei o que estou fazendo aqui nesta lista, nunca fui filósofo, só faço mapa astral.
MARILENA CHAUÍ: o vírus é uma abominação, eu odeio o vírus.

V – OUTRAS FILOSOFIAS, CIÊNCIAS & ARTES

BUDA: a paz vem de dentro de você mesmo. O vírus, de fora. Fique em casa.
FRANCISCO DE ASSIS: onde houver vírus, que eu leve álcool gel.
CRISTO: amai-vos uns aos outros ficando longe uns dos outros.
MARTIN LUTHER KING: I have a virus.
ISAAC NEWTON: não acreditem em quem disser que não há gravidade.
VOLTAIRE: se o vírus não existisse, seria preciso inventá-lo.
BERTOLT BRECHT: primeiro o vírus infectou os chineses, e você não disse nada, depois infectou os italianos, e você não disse nada, depois os espanhóis, e você não disse nada, agora o vírus te infectou, e você já não pode dizer nada.
PROVÉRBIO POPULAR: se o vírus não vai até a pessoa, a pessoa vai até o vírus.
DERCY GONÇALVES: fica em casa, porra, caralho!


Mensagens com pérolas

Nesses dias temos trocados muitas mensagens entre nós, as amizades. Alguém enviando um abraço, uma música ou uma dica de livro. Pequenos afagos virtuais se espalhando por aí como um vírus do bem. Cada mensagem parece uma ostra com uma pequena pérola dentro. O barulho desse mar que nos oferece ostra e pérolas é um lenitivo em resposta às ruas vazios de hoje. Um amigo me mandou uma mensagem só porque ele sabe que estou em casa e ele também está. [Texto de Toinho Castro}

Texto de Toinho Castro


Nesses dias temos trocados muitas mensagens entre nós, as amizades. Alguém enviando um abraço, uma música ou uma dica de livro. Pequenos afagos virtuais se espalhando por aí como um vírus do bem. Cada mensagem parece uma ostra com uma pequena pérola dentro. O barulho desse mar que nos oferece ostra e pérolas é um lenitivo em resposta às ruas vazios de hoje. Um amigo me mandou uma mensagem só porque ele sabe que estou em casa e ele também está. E aí ele me pergunta se está udo bem, se estamos seguros. E estamos. E ele também está, apesar do que hoje nos prende a todos em casa.

Aí troco algumas letras do alfabeto com ele, formando sentenças de afeto. Um amigo com quem tenho falado pouco e justo hoje dá vontade de convidá-lo para um chope. Um impossível chope na Galeteria Cruzeiro. São trinta copos de chopp, / são trinta homens sentados, emendaria Carlos Pena Filho o poeta recifense. Mas como a gente não pode / fazer o que tem vontade, / o jeito é mudar a vida / num diabólico festim… diria ainda o poeta, a gente vai trocando pérolas digitais. E foi mesmo pérolas que Renato Frazão, meu amigo, ofereceu-me quando pedi a ele algo para colocar na Kuruma’tá. Logo depois da mensagem Vou te mandar umas coisas, ele me passou o link de um disco que ele gravou no ano passado, com a cantora e compositora Luisa Lacerda. O disco chama-se Cantiga do Breu… e mal começa o violão e eu já me vejo no breu da noite, numa varanda, talvez, olhando a mata. Olhando o céu, em busca do Bendegó riscando o firmamento.

Que disco bonito e bem-vindo numa quarta-feira de muito trabalho, em frente para o computador. Somente sete faixas, como um sete-estrelo musical. Digo somente e já me arrependo, porque parece a medida precisa e necessária. E vou escutando uma por uma, um contraponto ao trabalho, aos e-mails, às tarefas e programas e aplicativos abertos e pedir atenção. Não, aora não, que qeu quero ouvir esse acorde. Eu quero ouvir esse verso. A voz dessa moça (e que voz linda!)em entrelaçado com a voz desse rapaz. Um outro mundo que vai se abrindo, a me namorar à sombra da laranjeira. Bem que eu queria ele em vinil, com aquele ruidinho que o vinil faz. É nostalgia que fala? Que seja… Um outro mundo ou outro tempo, sem que seja anacrônico, porque genuíno, e terno. Escuto e escuto de novo. E repito uma ou outra canção. Renato, meu amigo, é um compositor caprichoso e todas as músicas do disco levam sua assinatura, ao lado de um rol generoso de parceiros. De todas, com tantas qualidades, destaco duas: a primeira, Bendegó, parceria com Claudia Castelo Branco, e a última, Temquitê, com Lucas Videla. Duas canções poderosas. Com poderes diferentes. Entre uma e outra, um doce fio condutor a nos guiar dia afora e noite adentro, nesse território a que chamamos Brasil.

Que mensagem boa foi essa que recebi hoje; benza-te Deus!

1 – Bendegó (Claudia Castelo Branco/Renato Frazão)
2 – Alma e Vento (Diogo Sili/Renato Frazão)
3 – Xexéu e Bacurau (Renato Frazão)
4 – No Luar do Teu Sertão (Marcelo Fedrá/Renato Frazão)
5 – Andar Andei (Marcelo Fedrá/Renato Frazão) | part.: Paula Santoro
6 – Senhora de Si (Renato Frazão)
7 – Temquitê (Demarca/Renato Frazão)

Luisa Lacerda – violões e vozes
Renato Frazão- violões e vozes
Elísio Freitas – violão, guitarra, baixo, viola caipira e rabeca
Lucas Videla – percussão
Produção musical, gravação, mixagem e masterização: Elísio Freitas
Capa: Mauro Aguiar


Quando eu era criança eu morria de medo do Breu. Minha mãe dizia, depois das seis horas, a hora do ângelus, Não vai sair não que tá o maior breu lá fora! O que era esse breu, meu deu? Era uma escuridão ancestral, anterior á cidade e às ruas. E precisou passar tempo, tive que ler muita poesia e fazer amizades demais para que o breu fosse um conforto, um lugar de quedar silencioso, ao ouvir cantigas.


O Marcianos de Mercúrio

Os marcianos estão em toda parte. Estão em Mercúrio também, com suas plataformas e mãos sujas de sangue. Eles não se escondem no lado oculto do planeta. Na verdade não só não estão escondidos como estão bem à vontade, negociando escravos e planejando domínios no sistema solar. Como sei dessas coisas? Estive lá, vi e perto suas políticas perversas nos becos escuros sob o chão rochoso de Mercúrio. Eles nos ignoram, com seus olhos grandes, e essa é a nossa sorte. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Os marcianos estão em toda parte. Estão em Mercúrio também, com suas plataformas e mãos sujas de sangue. Eles não se escondem no lado oculto do planeta. Na verdade não só não estão escondidos como estão bem à vontade, negociando escravos e planejando domínios no sistema solar. Como sei dessas coisas? Estive lá, vi e perto suas políticas perversas nos becos escuros sob o chão rochoso de Mercúrio. Eles nos ignoram, com seus olhos grandes, e essa é a nossa sorte.

A astronomia deles não enxergou nada na terceira órbita do sistema. Há ali para eles uma zona nebulosa, de inexplicáveis lendas, mas nada real. Nada concreto. Quando digo-lhes que venho do terceiro planeta eles caem na gargalhada; acham que sou um piadista. Passam perto da Terra com suas naves prateadas e translúcidas e não nos enxergam. Entendem as interferências dos nossos satélites em suas comunicações como ruídos de fundo do universo, defeitos em seus equipamentos, sonhos ruins.

Deixemos que sigam assim pois são gananciosos e estão a procura de novos mundos para multiplicar suas dores e alimentar seus filhos tristes. Em Mercúrio, perto da fornalha do sol, construíram torres que não projetam sombras e enviam seus sinais para o centro da galáxia. Dizem que enviam sinais para seus irmãos, para os seus deuses que habitam o buraco negro em torno do qual todos nós giramos. Sabem que o sol vai morrer, sabem exatamente o dia e a hora nos seus calendários e não estão a se arrepender.

Não quero voltar a Mercúrio, não quero mais encontrá-los. São os piores da sua espécie e mesmo em Marte não são bem vistos. Mesmo em Marte não dizem tudo a eles e resta-lhes pouca confiança. Mesmo em Marte os evitam e celebra-se o dia em que partem de volta a Mercúrio. E aqui mesmo no terceiro planeta, caminhando pelas ruas, não dou as costas a Mercúrio, nunca. Pode ser que eles despertem, a qualquer momento, desse sonho estranho em que a Terra não existe.


E os velhinhos em quarentena?

Nesse momento de pandemia, precisamos proteger os mais seniores ao nosso redor, porque as taxas de letalidade do coronavírus aumentam em proporção direta com o aumento da idade.
E hoje em dia proteger implica muitas vezes em não estarmos fisicamente tão presentes.
No entanto, podemos ligar, mandar áudio, enviar livros.
E por que não recitarmos sonetos por telefone? Ou lermos aquela obra que estamos degustando com eles ao telefone em voz alta? Leitura coletiva sim, né gente? [Texto de Eduardo Maciel]

Texto de Eduardo Maciel


Olá, kurumateiros!
Nesse momento de pandemia, precisamos proteger os mais seniores ao nosso redor, porque as taxas de letalidade do coronavírus aumentam em proporção direta com o aumento da idade.
E hoje em dia proteger implica muitas vezes em não estarmos fisicamente tão presentes.
No entanto, podemos ligar, mandar áudio, enviar livros.
E por que não recitarmos sonetos por telefone? Ou lermos aquela obra que estamos degustando com eles ao telefone em voz alta? Leitura coletiva sim, né gente?
Por isso, hoje quero abordar um tema que me é muito caro: as relações entre sonetos e a terceira idade.
Particularmente não gosto de me referir aos idosos como terceira idade, porque qualquer referência numérica pode soar comparativa ou até mesmo pejorativa, e a maioria de nós sonha com longevidade, certo?
Eu mesmo tenho pais com idade mais avançada, e percebo neles por vezes uma vivacidade que nem eu, que sou um quase idoso, tenho.
Talvez seja porque meus pais cultivem uma alma jovem, ou talvez a minha é que seja velha demais.
Mas esse não é o ponto.
Dia desses estava pensando na relação tão íntima entre pessoas mais velhas que lêem e uma maior desenvoltura cognitiva nelas, e fui buscar na ciência respaldo para minha observação empírica.
Logo de início me deparei com o fato de os idosos reconhecerem (em pesquisas focadas no tema) que atividades como a leitura trazem benefícios para a promoção de um envelhecimento ativo e saudável.
O envelhecimento populacional é uma característica mundial. As projeções indicam que, em 2050, a população contará com aproximadamente dois bilhões de pessoas idosas, ultrapassando o número de crianças, conforme Pereira, Curione e Veras (2003).
E vamos combinar: esse aumento da longevidade humana também é percebido no Brasil. Estimativas para os próximos 20 anos sugerem que o número de idosos, no Brasil, deve ultrapassar 30 milhões de pessoas, chegando a representar quase 13% da população (Frank, Santos, Asmann, & Alves, 2007).
Dessa forma, o envelhecimento populacional é fato consumado que exige o desenvolvimento de programas e ações capazes de contemplar a promoção da saúde na velhice, visando um envelhecimento ativo e participativo, conforme as recomendações da Organização Mundial de Saúde.
De acordo com Queiroz e Papaléo Neto (2007), dentre todos os programas direcionados aos idosos, aspectos que dizem respeito à sociabilidade e à educação devem assumir primazia na promoção de um envelhecimento saudável. Nessa direção, entendendo que a interação social (atualmente compulsoriamente reduzida) e que o acesso à educação e à leitura dependem, inevitavelmente, de processos interlocutivos que se efetivam no espaço de produção da linguagem.
Convém destacar os papéis que a poesia e os sonetos podem assumir no processo de envelhecimento.
De acordo com Neri (2007), 49% da população idosa brasileira é considerada analfabeta funcional. Sendo que, desse total, 23% dos pesquisados declaram não saber ler e escrever, 4% deles afirmam só saber ler e escrever o próprio nome e 22% dos idosos consideram a leitura e a escrita atividades penosas, seja por deficiência no aprendizado, problemas de saúde, ou ambos os motivos
Ou seja, uma parcela significativa da população idosa permanece à margem da sociedade grafocêntrica atual, confirmando a necessidade de implantação de políticas públicas que contemplem atividades de letramento junto a tal população.
Nesse sentido, cabe destacar o papel que profissionais da saúde e da educação podem desempenhar nesse cenário, formulando propostas capazes de promover um envelhecimento saudável a partir do desenvolvimento de práticas de letramento capazes de inserir o sujeito idoso na sociedade atual.
Inicialmente, convém explicitar que sujeito o é considerado idoso pela Organização Mundial da Saúde a partir dos 65 anos de idade. Esse critério tem sido adotado nos países desenvolvidos.
Todavia, o processo de envelhecimento individual assume particularidades tão distintas que associá-lo à idade cronológica permite apenas uma percepção grosseira desse processo, além de retirar do envelhecimento suas feições sociais e seus aspectos históricos (Wong & Moreira, 2000).
Envelhecer configura-se como uma experiência única e singular para cada pessoa. Por isso, diversifica-se entre os sujeitos que compõem o mesmo grupo social, apresenta-se de maneira heterogênea entre esses sujeitos e, também, entre diferentes grupos sociais, implicando individualidade, diversidade e variabilidade (Bassit, 2004).
Assim, tendo em vista que a definição de velhice é perpassada por questões sociais e culturais, as pesquisas sobre o envelhecer necessitam ir além da preocupação com doenças relacionadas à idade. Isso porque o envelhecimento humano envolve mais que evitar doenças.
Além da manutenção ou fortalecimento das funções físicas e cognitivas, a pessoa que envelhece, para manter-se ativa e saudável, depende de efetiva inserção em atividades produtivas e do estabelecimento de relações interpessoais (Feitosa, 2001). E a poesia carrega em si mesma essa função. Não por acaso existem hoje um sem-número de grupos de leitura, rodas de debate e tertúlias culturais organizados para a população mais sênior.
As discussões em torno do processo de envelhecimento não podem e nem devem excluir os aspectos biológicos envolvidos, mas precisam considerar a relevante existência dos aspectos históricos, sociais e culturais nesse processo (Arantes, 2006).
O envelhecimento populacional implica nova orientação em termos de uma perspectiva acerca do papel desempenhado pelos idosos na sociedade atual. É preciso que a sociedade, de forma geral, repense com urgência as atitudes em relação ao idoso a fim de evitar que a velhice passe a constituir mais um problema social, uma vez que está comumente caracterizada como um dos momentos de improdutividade humana, dependência, incapacidade, isolamento e doença. E o mais agravante é que essa concepção distorcida de velhice está sendo incorporada pelos próprios idosos, observem que lástima! (Pinheiro, 1998).
A cada dia mais, o envelhecimento está sendo associado apenas às modificações do corpo biológico que sofre alterações ao longo do tempo, sendo ressaltados os aspectos fisiológicos dos sujeitos idosos, como por exemplo, a diminuição da sua força e da sua coordenação, a redução da sua capacidade visual, auditiva e sua deterioração vocal.
A própria linguagem desses sujeitos tem sido estudada mais detidamente a partir de manifestações decorrentes de processos patológicos. Com relação à linguagem oral, a literatura tem apontado que os idosos apresentam dificuldades para encontrar palavras, dificuldades relacionadas à fluência verbal, inferências e pressuposições. Seu discurso é marcado por prolongamento, passividade na tomada da palavra, desorganização sintática proveniente do grande número de segmentos abandonados e interrompidos, além da incidência de repetições. Afirma-se, ainda, que há um processamento de informações mais lento, ocasionando dificuldade na compreensão (Damasceno, 1999).
Essas são análises relevantes acerca da linguagem do idoso, que merecem toda nossa atenção, na medida em que são encaradas a partir do não-lugar que tem sido dado ao sujeito idoso na sociedade em que vivemos. Sem negar a importância das questões biológicas constitutivas da linguagem, queremos ressaltar que as atividades lingüísticas e suas manifestações não podem prescindir de uma análise histórica e social. A linguagem e os sujeitos da linguagem não são munidos apenas de componentes orgânicos e fisiológicos. Por isso, as análises em torno da linguagem dos idosos não podem ficar meramente pautadas em uma categoria que volta sua atenção para a idade cronológica. Da mesma forma, as manifestações da linguagem desses idosos não podem decorrer apenas do envelhecimento orgânico.
Entendendo que todo sujeito está inserido em uma intrincada rede dialógica, a linguagem é considerada essencial para a manutenção da saúde e da qualidade de vida dos sujeitos em processo de envelhecimento, uma vez que todas as esferas da atividade humana pressupõem um contexto social e o uso da linguagem. É por meio da linguagem que o sujeito se constitui desde o nascimento até a morte. A linguagem está, assim, vinculada à singularidade do homem, que faz uso dela, em todos os momentos da vida, para estar no mundo, interagindo com os outros em diversos contextos sociais (Gamburgo & Monteiro, 2009).
Há estudos apontando como fato complicador as histórias de relação desses sujeitos com a leitura e escrita, muitas vezes, marcadas por situações negativas. Ao serem questionados acerca do processo de escolarização e das experiências de letramento vivenciadas no ambiente escolar, idosos relatam algumas situações que marcaram negativamente suas vidas nesse contexto. Eles afirmam, por exemplo, que não se sentem à vontade para ler e escrever, pois, na escola, sofriam castigo de se ajoelhar no milho a cada vez que não liam ou escreviam de acordo com o padrão esperado (Lourenço & Massi 2009).
Vocês acreditam? Pois é.
Mas há sim uma luz no fim do túnel: a possibilidade de fazer uso da leitura e da escrita pode conceder ao idoso um lugar de sujeito e autor de sua história, expandindo sua qualidade de vida e garantindo-lhe autonomia, mesmo que promovida pelo mergulhar do idoso em versos de um soneto, por exemplo.
Com base nessas afirmações, sabendo que a população de idosos vem se expandindo de forma acelerada e entendendo que o exercício pleno da cidadania, do papel social, só pode ser alcançado na medida em que participarmos de maneira ativa e crítica de ações mediadas pela linguagem escrita, podemos dizer que é extremamente necessário se estimular nos idosos o hábito de ler.
Apesar das dificuldades de adaptabilidade do idoso. Apesar das questões físicas que os acompanham.
E quanto antes, melhor o prognóstico.
Por isso, queridos, dêem livros de presente aos mais velhos em sua família ou no seu círculo de amigos.
E adotem para vocês mesmos esse hábito, mesmo que sejam novos em idade.
Isso pode fazer muita diferença lá na frente.
Pensem nisso com carinho durante a quarentena.
Fiquem em casa. Fiquem seguros. E foquem nos velhinhos perto de você. Nos dias de hoje, um telefonema literário vale mais do que aquele abraço gostoso.


Escutar Chico César é um ato revolucionário

Eu já conhecia Chico César de Mama África, sem dar muita atenção. Tocava ali na rádio e eu sabia do que se tratava, mas não me chegava. Certo verso de A prosa impúrpura do Caicó, na voz de Elba Ramalho, no Grande encontro, me comoveu; Em meu peito Catoláico / tudo é descrença e fé. Mas foi aderaldo Luciano, sentados que estávamos à mesa da Galeteria Cruzeiro, ali na saída Rio Branco do metrô da Carioca, que trouxe pra realidade da dimensão de Chico César e sua obra. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


CHICO CÉSAR (FOTO: JOSÉ DE HOLANDA/DIVULGAÇÃO)

Eu já conhecia Chico César de Mama África, sem dar muita atenção. Tocava ali na rádio e eu sabia do que se tratava, mas não me chegava. Certo verso de A prosa impúrpura do Caicó, na voz de Elba Ramalho, no Grande encontro, me comoveu; Em meu peito Catoláico / tudo é descrença e fé. Mas foi aderaldo Luciano, sentados que estávamos à mesa da Galeteria Cruzeiro, ali na saída Rio Branco do metrô da Carioca, que trouxe pra realidade da dimensão de Chico César e sua obra. Corri pra casa, né… pra ouvir, com as palavras de Aderaldo zoando na minha cabeça. E por confluências destinais, Chico havia há pouco lançado seu disco mais recente, o poderoso O amor é um ato revolucionário. Mas cheguei e botei Elba. Caicó arcaico, me chamando de longe. A voz e Elba não é simplesmente uma voz, mas uma tradição que se conecta e dá linha ao canto das mulheres nordestinas, carpideiras, lavadeiras, entoando loas. Que beleza.

E o mergulho em Chico César deu-se assim, eu na minha batisfera, adentrando essa densidade nascida em Catolé do Rocha, no sertão paraibano. Escutando disco a disco, do mais recente ao mais antigo, Aos vivos, de 1995. 25 anos de Chico César, cada vez mais fundo, até quem sabe o chão comum de todos nós que viemos daquelas sesmarias. Só que nesse mergulho, ao invés da escuridão se fechar, abriu-se a claridade. A música de Chico César é esse cruzamento de caminhos numa clareira; a gente chega a arregalar os olhos pra receber o máximo dessa luminosidade cheia de esperança .

O amor é um ato revolucionário
Quem vive amando dando amor e sendo amado
Colhendo o que lhe é oferecido
E a si mesmo se coloca ofertado
Se este está nu veste-o manto sagrado
Que ao que ama o infinito faz vestido
De deus e os deuses sim é o mais querido
Mesmo no escuro seu sentir é iluminado

O amor é um ato revolucionário é um disco demolidor, preciso, moderno e eu poderia continuar com uma lista de adjetivos, mas adjetivar é errado, né? É o disco certo, na hora certo e no tom perfeito para um país alucinado numa viagem e autodestruição. Disco de alerta, de chamamento, de força. ão, não é um manifesto. É uma resolução, que estabelece o necessário e o inaceitável. É, sobretudo o território da poesia, que é do poeta que vem a revolução do amor, e o amor não alisa quem quer esmagá-lo. Canta Chio em Pedrada: Fogo nos fascistas! / Fogo, Jah! O amor que é amor quer quebrar tudo, quer incendiar a Babilônia , que nos quer carne para moer.

Nos últimos dias, esses dias que vocês sabem que dias são, a música de chico César tem nos alegrado, nos comovido e animado. Abre o dia e o Spotify derrama Chico César na nossa casa. Tem aquele desenho do Tom & Jerry em que eles inundam a casa e depois, com os fios da geladeira (não tente isso em casa!!) eles transformam tudo numa pista de patinação. É isso que acontece aqui, com esse alagamento que essa música provoca e evoca. E é nisso que a gente patina e baila o dia todo.

https://www.youtube.com/watch?v=TK_os6cCJLU

Aquele disco, estado de Poesia, é inacreditável. Começo o dia sempre com Caracajus, uma canção de amor que só podia ser mesmo uma moenda de cana. Um coração-moenda. Quando escuto lembro das minhas viagens de infância a Natal, atravessando a a Paraíba. Os canaviais estendidos a perderem-se de vista e as usinas. O cheiro das usinas, que eu ansiava dentro do ônibus da Nápoles. Pertinho de Goiana, já chegando no limite com a Paraíba, onde a estrada ficava melhor, tinha a Usina Nossa Senhora das Maravilhas, e na entrada dela a Igreja de Nossa Senhora das Maravilhas, e logo depois vinha a Paraíba. Caracajus… Uma palavra que eu não sabia o que era até o próprio Chico explicar essa mistura de Caracas com Aracaju, fundindo-se no afeto e na ilusão da distância de uma história de amor. E dá nisso… Caracas, Aracaju, a BR-101 cortando Pernambuco, Paraíba e Rio Grade do Norte, até Natal. Porque uma canção é vetor de muitas histórias e imaginações, independente da história que ela conta. E por causa da história que ela conta.

Fogo na caldeira
Da usina
Fogo na caldeira
Sucos e melaços
Caracajus
Caracajus
Caracajus

Chico César é essa Borborema que atravessa um Brasil, puxando ritos, alinhavando linhagens de cantadores, de poetas do povo e das ancestralidades. É comovente. No palco de Estado de poesia – Ao Vivo, parece mais uma Entidade que não e diz o nome à toa. Monólito de uma cultura diversa, entrecortada de África, Sertão, Atlântico, América. O disco é uma disco de história, porque na música desse moço convergem muitos rios da música brasileira e Chico lhes dá a direção do mar. Uma voz libertária e destemida, que se ergue, Borborema, contra o moedor de gente, contra o fascismo, contra a banalização do mal e pelo amor, pelo mel do melaço e pelo museu das vidas, do jambo pendurado no jambeiro. Que alegria e honra ter Chico César tocando na vitrola eletrônica e streamíca aqui de casa. Quando pela manhã nos instalamos na sala, Raquel pergunta: Cadê ele? Ele é Chico César… eu vou lá e dou play e o mundo se torna essa calçada explodindo em flor.


Às vezes, no fim do dia, escutamos Reis do agronegócio, essa cantilena oratória devastadora, que não deixa pedra sobre pedra do cinismo canalha de quem destrói o campo, a vida e o futuro. Doloroso alerta. Chico não tem medo de dizer o que precisa ser dito. E que seja dito em poesia. Poesia que reina soberana. Jah!



O poeta em quarentena

Todos de quarentena mas o poeta nos visita. Ou será o poema? O poeta então traveste-se em poema para driblar a reclusão, o isolamento, para visitar-nos e falar do vão profundo que se deu no mundo. É a janela que ficou aberta que deixou o poeta, ou a poesia?, entrar. [Poemas de nonato Gurgel]

Todos de quarentena mas o poeta nos visita. Ou será o poema? O poeta então traveste-se em poema para driblar a reclusão, o isolamento, para visitar-nos e falar do vão profundo que se deu no mundo. É a janela que ficou aberta que deixou o poeta, ou a poesia?, entrar. Bem-vindo hoje, Nonato Gurgel.

Poemas de Nonato Gurgel


 — Para Francisco Soares, meu pai.

LIÇÕES DE QUARENTENA

‘Exilo-me, logo existo.’

a quarentena muda
hábitos & gestos e gera
um imaginário asséptico
de gel tupi no café da manhã

lavo
leio
ligo celular
luto via word email zap

na feira orgânica quase vazia
da General Glicério, as plantas
os vegetais, raros, pareciam tristes
nenhum veio comigo

na padaria meio deserta asseptgel
corpos distanciados na fila do caixa
como o brasileiro jamais portou-se
será que vamos aprender a só ser?


JANELA SIM RUA NÃO

A gente se fortalece quando está só,
e a melhor relação com os outros é:
o mais distante.
Bertolt Brecht,

dessa janela noturna
ouço silêncios que vem
das ruas de almas aflitas
pós panelaço na República das Laranjeiras

nem sempre olhar a cidade acalma, Waly
mas objetos luminosos dizem i’ts all right
e bichos em quarentena indagam
se não foi assim que eu sempre vivi


VÍRUS DE ALMA FECHOSA

fecha bar fecha escola
fecha teatro porto praia academia
param as gravações da novela das 9
fecham até cidades como Arraial do Cabo onde ninguém entra
fronteiras de países fecham
só não fecham os 3 templos do capitalismo:
o banco o shopping a igreja


Para o mundo não acabar

Da janela mesmo liguei pra um amigo pra conversar sobre o velho John, porque esse meu amigo também ama os seus filmes. Eu e ele frequentemente nos vemos em filmes de John Carpenter, sabe?! A gente tá num lugar e passa um sujeito siderado e a gente troca uns olhares e sabemos o que estamos pensando… “Parece um filme do John Carpenter. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Foto de Nathan Hartley Maas

Da janela olhei para a cidade vazia. Não que eu pudesse ver a cidade, a cidade inteira. você sabe, é modo de dizer. Vi o que me cabe da cidade, o que é bem pouco. Minha rua, Umas árvores, automóveis… esticando a vista via-se o morro e seu intrincado de casas. Um grande silêncio cobria tudo como se fosse uma névoa, apesar do intenso sol das duas tarde. Era uma névoa invisível mas ela estava lá. Parecia um filme do John Carpenter. Você já viu um filme do John Carpenter? Ele está entre os meus professores de amor pelo cinema. É o cara que com um único filme demonstrou que fomos colonizados por extraterrestres bizarros. Chama-se Eles Vivem. E eles vivem mesmo, sabe? Estão aí, entre nós. Sei que parece loucura e por isso John Carpenter é genial. Ele faz um filme sobre uma loucura mas é real. Tudo em John Carpenter é real. É o que eu posso dizer dos filmes dele. esses eram os meus pensamentos na janela, vendo o que me restava da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Da janela mesmo liguei pra um amigo pra conversar sobre o velho John, porque esse meu amigo também ama os seus filmes. Eu e ele frequentemente nos vemos em filmes de John Carpenter, sabe?! A gente tá num lugar e passa um sujeito siderado e a gente troca uns olhares e sabemos o que estamos pensando… “Parece um filme do John Carpenter. Bom, o cara fez mais de 20 filmes, então as chances de você se ver num filme dele não são poucas. Eu sei, eu sei… extraterrestres, vampiros, névoas assassinas, crianças esquisitas. Mas você acha o que? Que o mundo é habitado por seres humanos? Que marte é um deserto? John Carpenter sacou tudo e com isso criou uma das obras cinematográficas mais fodas que exite. Liguei pro meu amigo e falamos sobre isso, sobre o quanto esses filmes vão sobreviver a tudo e dar lições sobre como era o mundo no século 20.

É que eu não quero contar como é Eles vivem, quero que você tenha curiosidade e vá assistir. Baixa um piratão… porque é muito ruim de tá passando na TV hoje. Ou amanhã. Ou depois. Essa galera morre de medo do John Carpenter. Porque seus filmes revelam a natureza dessas pessoas que estão no comando das TVs, das grandes corporações, dos governos. Cara, outro dia fui ver aquele filme louco, Bacurau. Filmaço, filmaço… E aí tem uma cena em que tá rolando uma capoeira, com aquelas músicas de berimbau e aí esse som emenda numa música do John Carpenter, porque o cara também é músico! É uma cena alucinante… é como se o filme de repente aumentasse de volume, não só de som mas de corpo, como se tivessem adicionado fermento. É mágico. Os caras também curtem John Carpenter. Estão sabendo do que é necessário saber. Assiste Bacurau aí, porque é claro que é uma homenagem ao velho John.

Eu nem ia escrever tanto sobre ele. Era mais sobre ter que ficar ilhado em casa, assistindo ao mundo silencioso. Queria sair pra tomar uma cerveja e falar de John e dos seus filmes em que estamos metidos até o pescoço. Mas não podemos. Cada um trancado na sua casa, nessa cidade de milhões de casas trancadas, tudo porque tem algo à espreita e precisamos nos cuidar, para o mundo não acabar. Mas então… lembrei do John Carpenter, lembrei de Eles vivem e tudo se tornou irresistível. Coloquei meus óculos escuros (veja o filme e você vai saber a razão…) e perscrutei a névoa invisível, que com certeza cobria a cidade, em vão. Lá longe vi uma publicidade que cobria toda a lateral de um prédio. Era de uma das milhares de empresas loucas que na verdade são a Unilever. Sim, eles vivem. Obrigado, John Carpenter. Nunca esquecerei o que você me ensinou.


Em tempos de Coronavírus…

Não me surpreende, portanto, que a leitura tenha se transformado em recurso terapêutico ao longo dos tempos. No primeiro manicômio dos Estados Unidos, o Pennsylvania Hospital (fundado em 1751 por Benjamin Franklin), na Filadélfia, os pacientes não apenas liam como escreviam e publicavam seus textos num jornal muito sugestivamente chamado The Illuminator (“O Iluminador”, em inglês). [Texto de Eduardo Maciel]

Texto de Eduardo Maciel


Mesmo não sendo o meu momento quinzenal aqui com vocês, kurumateiros queridos, resolvi escrever sobre o tanto que a poesia (e os sonetos) podem fazer bem à saúde tanto para enfermos quanto para a prevenção de doenças em pessoas sãs, e como a leitura de versos alimenta nossas almas deixando para o leitor uma sensação de bem-estar que perdura, e que por fim proporciona maior qualidade de vida.

Principalmente durante esse frenesi do coronavírus.

De fato, como já bem pontuou o médico sanitarista e escritor Moacyr Scliar, “não é de se admirar que a leitura tenha se tornado um recurso terapêutico ao longo dos tempos”.

E com Moacyr fazem coro o meio científico, pesquisas relacionadas a tratamentos de saúde não convencionais, estatísticas e relatos pessoais de pacientes de várias matizes de enfermidades. A literatura, sobretudo a poética, performa mesmo um papel de apoio à cura de doenças.

O dramaturgo e poeta modernista americano William Carlos Williams (1883/1963) já atestara que: “É difícil / Extrair novidades de poemas / No entanto, pessoas morrem miseravelmente / pela falta daquilo que ali se encontra”

Desses versos se depura uma observação empírica do autor: a de que os tratamentos convencionais da medicina tem seu potencial de cura aumentado caso associados à leitura poética.

E nesse contexto se destacam os sonetos, que, pelo seu tamanho reduzido e sua rima cadenciada, acabam sendo de mais fácil absorção pelos enfermos, que sem se deixarem sucumbir a um eventual tédio, logo chegam à conclusão lírica intrínseca aos sonetos.

Mas o que será que de fato existe, nos sonetos, nos poemas e na literatura em geral que possa ajudar a manter as pessoas vivas e auxiliar os tratamentos para a cura de doenças?

Bem, as próprias palavras em si já são um primeiro elemento para a resposta: desde os longínquos tempos da Grécia Antiga já se considerava o poder medicinal das palavras para mentes sofredoras. E isso não é apenas uma figura de linguagem não, leitores queridos. Há documentos relatando que, no século 1 d.C., o médico romano Soranus prescrevia poemas e peças teatrais para seus pacientes em tratamento. Ao ouvir ou ler os poemas, os pacientes se sentem emocionalmente amparados, e isso tem uma influência direta em todos os prognósticos médicos para as doenças em geral e sua evolução física nos pacientes.

Não me surpreende, portanto, que a leitura tenha se transformado em recurso terapêutico ao longo dos tempos. No primeiro manicômio dos Estados Unidos, o Pennsylvania Hospital (fundado em 1751 por Benjamin Franklin), na Filadélfia, os pacientes não apenas liam como escreviam e publicavam seus textos num jornal muito sugestivamente chamado The Illuminator (“O Iluminador”, em inglês). Nos anos 60 e 70 do século 20, o termo “biblioterapia” passou a designar essas atividades. Logo surgiu a “poematerapia”, desenvolvida em instituições como o Instituto de Terapia Poética de Los Angeles, no estado americano da Califórnia. Aliás, nos Estados Unidos existe até uma Associação Nacional pela Terapia Poética.

Ademais, a literatura poética pode colaborar para a própria formação médica. Muitas escolas de medicina pelo mundo, inclusive no Brasil, estão incluindo no currículo a disciplina Medicina e Literatura. Através de textos como “A Morte de Ivan Illich”, do escritor russo Léon Tolstoi (em que o personagem sofre de câncer), “A Montanha Mágica”, do alemão Thomas Mann (que fala sobre a tuberculose) e “O Alienista”, do grande mestre brasileiro Machado de Assis (uma sátira às instituições mentais do século 19), os alunos tomam conhecimento da dimensão humana da doença. E assim, mesmo que muitas vezes indiretamente, a literatura passa a ajudar pacientes de todas as idades.

E os benefícios da soneto-terapia não param por aí. Lembram que mencionei a questão da qualidade de vida no início do texto? Pois bem: foi feito um estudo na Universidade de Liverpool, na Inglaterra, elaborado por Philip Davis, de onde se depreende:

“[…] ler poesia é mais útil e eficaz em tratamentos do que livros de auto-ajuda […]” (p. 36).

As formas e métricas dos sonetos, as rimas cadenciais e a sonoridade de seus versos fazem com que o cérebro se alivie, alimentando a alma.

Nesse sentido, cabe citar:

“A poesia incendeia a alma com chama ardente, quente, porém deliciosa. É capaz de transformar coração contrito em pura euforia, de fato, a poesia é remédio até para curar paixão não correspondida, quiçá tristeza descontínua, contínua, com ou sem motivo. Sou a prova viva de que essa belezura, criada pelo Divino, transmuta e muda a gente por inteiro. Quando iniciei meus devaneios pela Literatura, encontrei-me no mundo e a dor profunda do meu peito foi-se embora e seu rastro, por mim, fora transformado em linhas cursivas, claramente, em poesia de aurora. Portanto, percebo que muitos autores contemporâneos, assim como eu, escrevem como fuga de si mesmos, e acabam se encontrando nas letras, rimas e enredos, além de ter e ver a escrita como espelho da alma. Logo, a poesia atual é sem fronteiras e sem rasuras, há lugar e espaço para todos, excepcionalmente para o leitor e o seu deleite”.

Priscila Goes é graduada em Letras – Língua Portuguesa e respectivas Literaturas, pela Universidade Católica do Salvador.

Ou seja: ora para efeitos curativos em tratamentos médicos, ora para conforto e saúde emocional, ou mesmo durante tempos de quarentena preventiva, os poemas e os sonetos se erguem como alternativa para incremento de qualidade de vida, o que afeta diretamente e positivamente a própria longevidade do ser humano. Primeiro, porque a poesia comunica com a alma. Depois, porque ela não precisa ser entendida. Poesia é para ser sentida, degustada como um bom vinho, como os perfumes que nos levam aos céus. Não é preciso ser químico para saber dos elementos que compõem as estruturas do aroma. Basta apreciar.

Apreciem, portanto, a leitura poética. Apreciem e apliquem como remédio. Na dosagem máxima. Em overdose. E sem medo. Não mata.


Faça uma trilha com as minhas rimas

É bom ter alternativas, assim como andar é bom, mas nesse caminho pode-se correr de vez em quando. Não para se chegar mais rápido ao destino – até porque, este, sabe-se lá a distância em que se encontra. Basta olhar a bússola, consultar o mapa, fazer as contas. Ou, simplesmente, seguir o ritmo. Correr é bom quando se quer sentir a brisa no rosto, tem a ver com liberdade. [Texto de Eduardo Frota]

Texto de Eduardo Frota

Foto de Michal Zacharzewski

Há um caminho arborizado a ser seguido. Rima com abrigo. Isso quer dizer que há sombra para proteger os nossos passos. Vem. Mesmo quando chove, tem. As copas das árvores funcionam como um guarda-chuva. Guarda-se nesse caminho as impressões do sol e da lua. Nesse caminho é possível ouvir o canto dos pássaros, observar os canteiros que se colocam à frente dos olhos, transpô-los é fácil – às vezes. Às vezes. Quando são intransponíveis, pegamos uma rota alternativa. É bom ter alternativas, assim como andar é bom, mas nesse caminho pode-se correr de vez em quando. Não para se chegar mais rápido ao destino – até porque, este, sabe-se lá a distância em que se encontra. Basta olhar a bússola, consultar o mapa, fazer as contas. Ou, simplesmente, seguir o ritmo. Correr é bom quando se quer sentir a brisa no rosto, tem a ver com liberdade. Esse caminho tem bifurcações, é fácil se perder nele, mas também é fácil voltar a ele, mesmo que não haja placas indicando as direções. Nesse caminho podemos andar descalços, porque as pedras são pequenas e massageiam a sola dos nossos pés cansados. Carros não podem transitar por ele, porque é uma caminhada que deve ser feita com calma, lembrando que nem tudo é perene. Nesse caminho você não precisa caminhar a sós. É bom que os melhores pensamentos lhe sirvam de companhia, de vez em quando é bom ter uma mão como guia. Tem a ver com vontade de andar ao lado enquanto a paisagem se desnuda, fluida. Podemos andar nus, se quisermos. Nus das suas e das minhas verdades. Por dentro e por fora. Desnudados de tudo, até que que a noite caia, até que seja novamente dia. Você sabe: o seu nome rima com poesia.