Escolha bem o que vai para o lixo

Na área de serviço encontrou fácil o que precisava: sacos de lixo pretos dos grandes, flanelas, álcool gel, uma vassoura de pelo e pazinha. Tudo, menos a vassoura, foi acomodado num balde, e ainda com urgência – talvez mais – Elys atravessou de novo corredor e subiu as escadas. Entrou no quarto e fechou e trancou a porta. Como de costume, conferiu se a porta estava mesmo trancada virando bem devagar a maçaneta. Estava. Só então – como de costume – virou e olhou o quarto, o seu quarto, o mesmo de toda a sua vida, de todos os seus 29 anos. [Texto de Diego Franco Gonçales]

Texto de Diego Franco Gonçales


Não é que Elys tenha levantado do sofá — ela disparou. Passou tão rápido pelo corredor que liga a sala de TV à área de serviço que sua mãe, lavando louça na cozinha, disse “meniiina”, prolongando a sílaba central para alertar sobre os perigos da alta velocidade. Elys respondeu “velhiiinha”, sinalizando total controle e gratidão pela preocupação.

Na área de serviço encontrou fácil o que precisava: sacos de lixo pretos dos grandes, flanelas, álcool gel, uma vassoura de pelo e pazinha. Tudo, menos a vassoura, foi acomodado num balde, e ainda com urgência – talvez mais – Elys atravessou de novo corredor e subiu as escadas. Entrou no quarto e fechou e trancou a porta. Como de costume, conferiu se a porta estava mesmo trancada virando bem devagar a maçaneta. Estava. Só então – como de costume – virou e olhou o quarto, o seu quarto, o mesmo de toda a sua vida, de todos os seus 29 anos.

Decidiu começar pelas gavetas do criado-mudo — três. Puxou de dentro do balde um saco de lixo e sentou na beira da cama para abrir a mais alta das gavetas. Estando tão à mão no dia a dia, aquela gaveta era a mais abarrotada de todo o quarto; mas, também por esse fácil alcance, a maior parte de seu conteúdo era recente e, pela experiência de Elys, quase não oferecia resistência para ser jogado fora. Bom local para começar: uma espécie de treino, de esquentar dos motores, que daria maior segurança para quando ela chegasse às gavetas menos acessíveis e aos seus conteúdos que não aceitavam tão pacificamente o descarte.

Mas antes… antes, o celular. Involuntária como a circulação sanguínea, num só movimento a mão de Elys já levava o celular para a frente do rosto e o polegar desenhava um polígono que fazia surgir ícones de aplicativos sobre a imagem de fundo — uma selfie dela. Ela abriu o Facebook e imediatamente deslizou a timeline, já que a primeira postagem que apareceu — um gato montado numa cabra, compartilhada pela tia que mora em outro estado — já tinha sido vista, bem como a segunda, a terceira e a quarta – uma montagem do Moro, numa careta estranha, com as palavras “acabou pra você, juizeco!”; um vídeo de Fuscas, Brasílias e Del Reys circulando no centro da cidade há mais de 30 anos; e um aviso de que a Beatriz, que ela nunca conheceu pessoalmente, tinha curtido uma postagem qualquer na página “Red Hot Chilli Peppers Maníacas”. Ela rolava as postagens para cima, reconhecendo num átimo cada uma delas; todas já vistas lá no sofá, nas duas últimas horas, num frenesi automatizado que vencia a capacidade dos algoritmos apresentarem novos posts; os minutos de falso interesse passando rápido e devagar ao mesmo tempo, o Moro e a cabra e a Beatriz de novo e de novo, até que eclodiu nela a decisão de não passar o resto das férias daquele jeito, alternando celular no sofá e masturbação no quarto, e o pensamento vou é jogar coisas fora disparou Elys do sofá.

Batidas na porta assustaram Elys, desprevenida. “Elys, está tudo bem?”, a mãe perguntou. “Tão rápido você passou por mim, e agora… tranca-se no quarto?” O célebre idioma de dona Norma. “Professooora”, disse Elys abrindo a porta. Apertou as bochechas da mãe: “Fechei a porta porque vou limpar meu quarto e…” – Elys olhou o quarto, fez um gesto de quem enfim deixava tudo para trás e continuou – “…e dar fim numas coisas. Vai ter pó.” Dona Norma se alarmou. “Certo. Se haverá pó, então ficarei longe”, disse a mãe, imiscuindo entre as frases da oração um sabor lógico, ao modo como quando ensinava em suas aulas de português no colégio particular. “Escolha bem o que vai para o lixo, sim?” — a delícia de conjugar bem o imperativo. “Estarei lendo na sala, na eventualidade de você precisar de algo.”

Elys voltou à gaveta, ansiosa para trabalhar nas sensações que mudariam aquela tarde e aquelas férias. Papéis predominavam, mas houve também pilhas, grampos de cabelo e bolachas de chope. As bolachas ficaram, mas todo o resto foi para o saco preto. Elys viu sua obra, uma gaveta limpa e organizada, e pensou: “Aí sim”. Aquela visão e o cheiro de álcool gel esvaneceram o pressentimento de repetição do fracasso das férias do ano anterior. “Mais uma vez não dava, né?”, Elys disse para a flanela. Sentiu-se corajosa e com vontade de ouvir música, e deu play pelo celular — finalmente, Queens of The Stone Age, que ela vinha evitando desde o começo do ano. A banda a lembrava o sexto colocado na enquete da “Barba do Ano” da página “Barbudeiras”: o Jason. Elys é uma das moderadoras da página, e umas das artífices de um encontro da comunidade num camping litorâneo; um réveillon do que desse e viesse entre barbudeiras e barbudos. Ela e Jason se conheceram lá, e desde o primeiro dia do encontro houve flerte entre os dois, mas esse flerte, tímido, contido, indeciso, só evoluiu para algo mais na meia-noite da noite de ano, quando Elys puxou Jason para sua barraca, o colocou sentado de pernas abertas no colchão inflável, abriu o velcro da sua bermuda e, em lágrimas, o chupou em sincronia com os pipocos dos fogos de artifício. Era muito choro mesmo, em parte justificável, em parte inexplicável: um choro que ela já conhecia, provocado pela emotividade de cada 31 de dezembro, mas também um choro novo, um choro de esteta, porque de algum modo Elys sentiu ser muito belo enfiar na boca um pau tão decididamente agarrado. Implodindo de constrangimento por trás de óculos escuros, ela o evitou no restante dos dias do encontro, aprofundando o mal-estar a ponto de Elys, estendida numa canga de frente para o mar, decidir que nas próximas férias ela não faria além de ficar em casa.

A próxima gaveta abriu mais fácil. Na superfície, pacotes de absorvente, caixas de anticoncepcional, tudo vazio, tudo direto para o lixo. Nos estratos inferiores, misturavam-se tufos de cabelo vermelho, que Elys pinçou enojada com a ponta do indicador e do polegar, e resíduos de lápis de cor apontados, ingressos de cinema e guias de pagamento de tributos federais da empresa em que ela é uma faz-tudo administrativa. Ubre: as guias de pagamentos acenderam a palavra na cabeça de Elys.

O celular de novo, inconscientemente, à mão; o polígono, a selfie, os aplicativos. Elys pausou a música e ficou ouvindo o silêncio da casa. Os papéis do trabalho ao seu lado, na cama. Ubre. Ela abriu o navegador. Ubre. Um site pornô. Ubre.

Digitou na área de busca huge tits. Enfileiraram-se na vertical frames de vídeos com mulheres, algumas sozinhas, outras com homens. Ela correu a tela até encontrar uma desacompanhada e como ela — natural, sem silicone — e tocou naquele rosto muito norte-americano para que o vídeo começasse. Não se interessou muito pelos primeiros momentos do vídeo, em que closes extremos faziam partes ainda vestidas da mulher ocuparem todo o retângulo do celular. Elys adiantou o vídeo até a metade e murmurou “hmmm” ao ver que naquele ponto a mulher já nua despejava em si mesma um óleo translúcido. Reclinou-se no travesseiro, uma mão segurando o celular e outra deslizando para dentro da legging verde.

Elys suava quando se satisfez. Recompôs-se voltando roupas de baixo e de cima para seus lugares e sentou na cama para ouvir um pouco a casa. Silêncio como se só ela existisse. Ao seu lado, os papeis do trabalho. Ubre. Elys sentiu uma repulsa apertar a garganta. Como a mesma palavra podia agora ser completamente outra?

“Tá louquinho por esse ubre, hein?”, dissera o chefe de Elys para o vendedor de móveis quando ela passou por eles na calçada, numa saída para o almoço meses atrás. Ela não sabe se o chefe não se importava que ela ouvisse, se fizera aquilo de propósito ou por descuido, mas a reação do vendedor fora inequívoca: um empurrão no velho, seguido de “Tá maluco!?” Ela seguiu o caminho pensando: “Tadinho”. O vendedor é apaixonado por ela. Músculos hipertrofiados estufam a camisa dele no limite do esgaçar nas quatro vezes diárias em que Elys passa na frente da loja e ele solta um cumprimento desajeitado para ela. Nunca que o vendedor aprovaria aquele comportamento do chefe de Elys, o que a agradava, mas não havia o que a inclinasse a ceder a ele. O principal lhe faltava: barba. E não tinha barba logo do pior jeito, que é não tendo mesmo — rosto imberbe não dava.

Assim ubre entrou no vocabulário de Elys. Seja evocado por algo ou alguém, seja por geração espontânea, quando a palavra surge, algumas vezes funciona como um gatilho para o ressentimento pelo local de trabalho que ela (“formada em faculdade!”) sente ser baixo demais para si, mas de onde não consegue se desvencilhar, e em outras vezes é um chamado autoerótico que a lembra do poder que exerce com seus “bebezões”, nome que deu aos próprios seios, e que a lembra também da atração proibidinha que sente por bebezões alheios.

Guardou na bolsa os papeis do trabalho. Um saco de lixo já estava completo. Elys o amarrou e encostou na porta do quarto. Agora vinha a última gaveta.

Uns poucos CDs deslizaram uns sobre os outros com o movimento da abertura e vieram bater à frente da gaveta. “Nuestro amor” foi o primeiro que Elys pegou para olhar, uma relíquia do auge da sua adolescência, e o refrão “Y es así, así es, Y no hay nada que hacerle” começou a tocar em sua cabeça. Uma passada de flanela fez o acrílico refletir o rosto de Elys, e ela viu a correspondência exata entre seu tom de cabelo e o de uma das meninas do RBD; assim hoje como há treze anos. “Filho da puta”, pensou no chefe. “Nojenta”, pensou em sua baia no trabalho. “Mereço mais”, enxergou a si mesma saindo de prédios de vidro, esperando o semáforo fechar ao lado de uma multidão bem-sucedida.

Por baixo dos CDs, encontrou um cartão de visita. Uma oficina de alinhamento de pneus à qual levou seu carro uma vez.

Um lento foguete entrou em ignição dentro de Elys.

Na primeira vez em que foi à oficina, o dono não a atendera. “Só com hora marcada”, ele dissera na ocasião.

Elys foi se acomodando novamente no travesseiro.

Cheio de idiossincrasias, o mecânico a fizera retornar outro dia, e quando enfim a atendeu, colocou Elys para ajudá-lo no serviço enquanto monologava sobre sua ex-carreira de encarregado do setor de pneus em uma montadora multinacional, empregão que largou para ter tempo de praticar corrida de rua, sua paixão.

Elys segurou o cartão sobre o rosto com uma mão. A outra já estava por dentro da calça. As letras vermelhas sobre o papel com manchas de graxa foram fundo em seus olhos.

“E hoje não quero ninguém me enchendo o saco, empregado, patrão. Nem cliente hahaha. Ninguém. Faz um favor, ruiva, pega aquela chave pra mim.”

Dessa vez, Elys escorria por tudo que é lado quando terminou. Estava nua por completo, o lençol embolava por baixo de seu corpo e o cartão da oficina, esmagado, tinha virado uma bolinha de papel no centro da sua mão. Ofegando, ouviu uma descarga no andar de baixo, e o tornozelo da mãe estralou ao sair do banheiro.

Ainda nua, Elys pegou o celular. Polígono, selfie, Facebook. “No que você está pensando, Elys?” Ela sabia exatamente. Escreveu “O Q FOI ISSO” e tocou em “Publicar”.

Foto: Pxhere

Baú do Braulio: O Fantasma de Canterville

O livro de Wilde foi mais um golpe pesado na literatura gótica de velhos castelos, noites tempestuosas, maldições seculares, tragédias de famílias nobres, espectros penitentes que imploram perdão ou vingança. Surgindo no século 18, cem anos depois esse tipo de romance já merecia sátiras e paródias variadas. No século 20, os fantasmas bonzinhos acabaram se transformando num clichê tão consagrado quanto os fantasmas ameaçadores. [Texto de Braulio Tavares]

Há 119 anos morria, em Paris, Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde, conhecido entre nós, meros mortais, como Oscar Wilde. E é claro que ao lembrar da data corri para o Mundo Fantasmo, do Braulio Tavares, para descobrir o que ele andou escrevendo sobre o autor de O retrato de Dorian Grey, porque, com certeza, ele escreveu algo! E escreveu mesmo! Porque o Mundo Fantasmo é uma labirinto de histórias, crônicas, comentários, descobertas.

E aqui vai esse texto sobre o livro O Fantasma de Canterville, para recordar Wilde, que morto, é agora nosso fantasma provocador, irônico, sempre com a frase luminar para desmontar nossos disfarces.

Texto de Braulio Tavares


Poucas histórias de fantasmas serão tão emblemáticas quanto esta noveleta de Oscar Wilde, de 1887, que hoje é um clássico da literatura infantil. Foi adaptada várias vezes para o cinema, várias vezes traduzida no Brasil. É a história de uma família norte-americana que compra Canterville Chase, uma tradicional propriedade rural inglesa, e ao se mudar para lá recebe o aviso de que a casa é mal-assombrada. A família é pragmática e materialista, não acredita no Fantasma, e, quando este aparece, não lhe dá muita importância. A partir dessa primeira aparição o Fantasma passa a ser o ponto de vista narrativo, e vemos sua decepção e perplexidade diante daquelas pessoas que não o temem, e daquelas crianças capazes de qualquer coisa para infernizar sua vida: há um par de gêmeos que lembram Hans & Fritz, os “Sobrinhos do Capitão” dos quadrinhos.

Wilde cria uma historieta divertida mostrando o desespero do pobre Fantasma que não assusta ninguém. Os jovens e saudáveis norte-americanos não o levam a sério em momento algum, por mais que ele recorra a todos os seus truques, caracterizações, efeitos especiais. O autor fica numa posição “triangular”, mostrando à distância os dois lados da história, satirizando ambos, mas com um bom humor juvenil que talvez tenha se diluído à medida que ele foi cristalizando a “persona” cínica que o tornou famoso em Londres.

O livro de Wilde foi mais um golpe pesado na literatura gótica de velhos castelos, noites tempestuosas, maldições seculares, tragédias de famílias nobres, espectros penitentes que imploram perdão ou vingança. Surgindo no século 18, cem anos depois esse tipo de romance já merecia sátiras e paródias variadas. No século 20, os fantasmas bonzinhos acabaram se transformando num clichê tão consagrado quanto os fantasmas ameaçadores. A “sacada” de Wilde foi de que seria engraçada uma situação em que as pessoas incrédulas vissem, sim, o fantasma, mas isso não tivesse o menor efeito sobre elas. Pelo contrário: os adultos tentam ajudá-lo (dão-lhe óleo para lubrificar as correntes, que rangem muito) e as crianças pregam-lhe peças terríveis. No fim do livro, a filha da família Otis, Virginia, torna-se amiga do fantasma e ajuda a libertar sua alma.

O fantasma do livro é Sir Simon de Canterville, que em 1565 assassinou a própria esposa. O que acaba parecendo uma premonição do poema mais famoso de Wilde, a “Balada do Cárcere de Reading”, escrito dez anos depois, em 1897, onde estão os famosos versos: “Pois todo homem mata a coisa que ama, / e cada um que escute bem: / alguns o fazem com um olhar amargo / outros com uma palavra de elogio / o covarde o faz com um beijo / e o homem valente com uma espada”. Por ter morto a esposa, Sir Simon tem que passar 300 anos vagando pelos corredores da mansão, até ser desmoralizado pela incredulidade dos norte-americanos e ser libertado pela compaixão da garota, a primeira que é capaz de perdoá-lo.

https://www.youtube.com/watch?v=mHgyZQT_RcI

Escrito e publicado em Mundo Fantasmo em 18 de maio de 2011.


Asar

O poeta disfarçado de publicitário, o caro amigo Amândio Cardoso, traz mais um colaboração para a Revista Kuruma’tá. Lá do Recife ele envia esse poema, esse fôlego que se toma para seguir em frente, para insistir quando tudo propõe descrença e desinsistências. O caos e as divisões, os abismos que se abrem diante de nós, dos nossos pés e não podemos cair. E nos resta o que? Resta-nos se sustentar no ar e encontrar uma voz. Amândio tem essa voz e nos fala aqui e agora. E do futuro? Asa.

O poeta disfarçado de publicitário, o caro amigo Amândio Cardoso, traz mais um colaboração para a Revista Kuruma’tá. Lá do Recife ele envia esse poema, esse fôlego que se toma para seguir em frente, para insistir quando tudo propõe descrença e desinsistências.

O país. O caos e as divisões, os abismos que se abrem diante de nós, dos nossos pés e não podemos cair. E nos resta o que? Resta-nos se sustentar no ar e encontrar uma voz. Amândio tem essa voz e nos fala aqui e agora. E do futuro? Asa.

Toinho Castro [Editor]

Poema de Amândio Cardoso


Asar

Asa para não voar
Para ser raiz
Asa de olho voado,
de ser não alado
Como asa de caneca
Asa assim de cão
Asa de imaginação
Para nada e pára tudo
Asa do Brasil que vaga
Se vendo dentro do chão e no vago ar pagão
Asa que voa no não
Asa que é divisão
E que finca pra asa teimar
Nunca no ar voar
Se é asa assim de voar
Assim quero asa pra ficar

Foto: Cecilia Urioste

Melhoras pra moça que não estava resfriada

CARU chegou! CARUMA’tÁ! Riqueza de artista, cantora, compositora ( e também arquiteta, urbanista e cenógrafa!)… Conheci CARU, primeiro indiretamente, via o querido demais Jorge LZ, parceiro/irmão da Kuruma’tá com seu Programa na Ponta da Agulha! Depois diretamente, pessoalmente, assistindo ao show lindo da Livia Nery no Festival Levada!

CARU chegou! CARUMA’tÁ! Riqueza de artista, cantora, compositora ( e também arquiteta, urbanista e cenógrafa!)… Conheci CARU, primeiro indiretamente, via o querido demais Jorge LZ, parceiro/irmão da Kuruma’tá com seu Programa na Ponta da Agulha! Depois diretamente, pessoalmente, assistindo ao show lindo da Livia Nery no Festival Levada!

Contatos facbookianos trocados, acompanhando postagens, fotos, sagacidades, lançamentos, como o do belíssimo clip NINA (Assistam aqui!), que veio à luz no último 22 desse novembro! Aí, de repente, dei com seus escritos… e que jeito de Kuruma’tá que eles têm! Convidei e, convite aceito, eis o primeiríssimo texto da CARU ara a nossa Revista! Iluminando as páginas da nossa revista!

Seja bem-vinda, CARU!

Toinho Castro [Editor]

Texto de CARU


Tocar e ser invisível. Sumir. Desaparecer. Ouvi isso hoje e pensei. Pensei muito, como é do meu costume. Tentei pensar em algo que eu tivesse feito nessa vida que tenha me trazido essa sensação de desaparecimento. Nada me veio à mente, ainda. Nada me vem. Até agora, arrasto pra baixo o telefone celular pra não achar nada. Escrevo porque assim, talvez, eu reative a memória de algum momento de invisibilidade do passado. Flutuo no breu do cérebro. Hoje eu chorei na rua. Tentei esconder. E a moça que vende paçoca na porta do restaurante achou que fosse resfriado. Ainda assim, não acreditei. Ela esqueceu de tentar me vender a paçoca. Também não me pediu nada. Só me desejou: “melhoras, moça”. Um olhar que parecia pena. Ou consolo. Eu acho que – falando comigo – ela fingiu que eu estava resfriada. Aliás, eu tenho disso também. Se adivinhasse ali a minha verdade eu choraria mais. E eu não estaria invisível. Talvez quando eu cante. Talvez quando eu fique na janela escrevendo qualquer coisa sem sentido num caderno quase cheio de bobagem. Voltei pra casa e acendi um cigarro. Cigarro. Eu disse que não ia fumar hoje. Fumei. Achei que eu realmente estivesse invisível. Entrei no elevador fumando. Só me dei conta quando cheguei aqui dentro, na sala de casa. Acho que ninguém me viu. Nem eu me vi por alguns poucos segundos. Será que eu tô invisível até agora?


Como eu ganhei a guerra

Deixei meu parco dinheirinho na loja, com o vendedor gente boa, e levei pra casa o disco azul do Smiths. Os russos de Sting, encarando o fim do mundo, ficaram para trás, como acabou ficando para trás a terceira grande guerra e o apocalipse nuclear que o bombardeio da Líbia pelos aviões americanos havia nos prometido naquela madrugada, sem sucesso. Taí uma coisa que sempre me decepciona, o fim do mundo. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro, para Susanne


Todos os objetos que nos cercam possuem alguma história. às vezes importante, às vezes banal. Existem objetos, coisas, especialmente afetivas, que estão ligadas às nossas vidas pelos gostos pessoais, certas intimidades. Coisas que as outras pessoas não vislumbram. Discos e livros estão nessa categoria especial, carregada de significados. Sou do tempo, diz o velho em mim, em que a gente comprava discos e livros. Uma paixão que nos motivava a ir ao centro da cidade, ficara horas numa loja de discos ou livraria, procurando algo que fizesse nosso coração bater mais forte. Esse texto de hoje é sobre um desses dias em que saí para comprar um disco e uma história para ser contada se deu. Sting ou The Smiths não sabem, e certamente nunca virão a saber, mas esses dois discos aí da foto estão conectados na minha memória dita afetiva por conta de uma guerra.

No dia 14 de abril de 1986 estava eu a caminhar pela avenida Conselheiro Aguiar, em Boa Viagem, no Recife, quando da calçada do outro lado da avenida uma amiga minha, Susanne, gritou pra mim que a Terceira Guerra Mundial, sim, ela mesma! Ali, do outro lado da rua, ao sol matinal do Recife, com sua brancura, cabelos muito loiros e olhos azuis demais, Susanne parecia uma lâmpada, uma aparição anunciando o fim dos tempos.

Olhei entre atônito e confuso em sua direção e ela completou:
— Os EUA bombardearam a Líbia!

Trocamos essa informação bombástica, literalmente, enquanto caminhávamos em direções opostas, em lados opostos de uma avenida. Fomos assim deixando, nas nossas passadas rápidas, um ao outro para trás. Enquanto a violência de um bombardeio sacudia o mundo, eu seguia meu fluxo natural, para comprar discos numa lojinha que ficava ali perto. Naqueles tempos eu não tinha dinheiro e se eu conseguia algum para comprar discos, posso dizer que isso valia uma dedicação que não era uma guerra que iria deter.

Chegando na loja, entre os muitos lançamentos, dos quais eu só poderia comprar um, estava o The dream of the blue turtles, que era o primeiro disco solo do Sting, recém lançado. Mesmo não tendo sido exatamente um fã do Police, atraiu-me o título do disco, algo surreal. Levei a bolacha para escutar na cabine (pois é, tinha uma cabine, na verdade duas, para ouvir os discos em sossego) e passando faixa por faixa esbarrei numa música chamada Russians, que versava sobre a possibilidade de uma guerra nuclear, apelando pelo amor às crianças para que isso pudesse ser evitado. Tudo sob um soturno tema do compositor russo Sergei Prokofiev.

In Europe and America there’s a growing feeling of hysteria
Conditioned to respond to all the threats
In the rethorical speeches of the Soviets
Mister Krushchev said, “We will bury you”
I don’t subscribe to this point of view
It’d be such an ignorant thing to do
If the Russians love their children too

How can I save my little boy from Oppenheimer’s deadly toy?
There is no monopoly on common sense
On either side of the political fence
We share the same biology, regardless of ideology
Believe me when I say to you
I hope the Russians love their children too

À beira de uma guerra nuclear, como aparentemente estávamos, não me senti muito animado a levar pra casa um disco com aquela marcha triste, que ainda citava o brinquedo de Oppenheimer, a tal da bomba atômica. O disco do Sting ficou para outra ocasião, apesar da bela Love is the seventh wave e do animado hit If you love sombody set them free, que só aprendi a amar tempos depois.

Então, de volta às prateleiras, esbarrei na capa azul do Hatful of hollow, do Smiths, também recém lançado no Brasil. Os versos tristes e ácidos de Morrissey pareceram mais adequados àquele jovem perdido numa cidade costeira que eles haviam esquecido de bombardear (é o verso de Everyday is like sunday, do primeiro disco solo de Morrissey, que surgiria muito depois, e que diz bem como eu me sentia no Recife naqueles anos).

Aqui fica a loja de discos dessa pequena aventura. Hoje, um armazém de construção.

Deixei meu parco dinheirinho na loja, com o vendedor gente boa, e levei pra casa o disco azul do Smiths. Os russos de Sting, encarando o fim do mundo, ficaram para trás, como acabou ficando para trás a terceira grande guerra e o apocalipse nuclear que o bombardeio da Líbia pelos aviões americanos havia nos prometido naquela madrugada, sem sucesso. Taí uma coisa que sempre me decepciona, o fim do mundo.

Em casa tranquei-me no quarto, como de costume, para apreciar a nova aquisição. Heaven knows i’m a miserable now, Reel around the fountain e This night has opened my eyes iluminaram minha vida e a do meu amigo Roberval, a quem convidei para escutar aquela beleza comigo; o mundo podia até acabar numa fucking guerra, mas eu estaria cantando Please, please, please let me get what I want à beira do canal do mangue que passava lá perto de casa, esperando o fim chegar. Esse disco mudou minha vida, né?! E a de Roberval também!

Nunca esquecerei a versão do Dream Academy, na sequência do museu em Curtindo a vida adoidado (Péssimo nome em português para o clássico do grande John Hughes, Ferris Bueller’s Day Off. Hughes havia nos brindado ainda com outro clássico dos anos 8o, The Breakfast Club, ou O clube dos cinco.

Eventualmente acabei comprando o disco do Sting. Russians, apesar de há muito dissipado o pesadelo ainda me assombra, como se eu voltasse no tempo àquela manhã de abril tão distante. Esses dois discos são também essa lembrança de Susanne; sem ela na equação eu teria comprado o disco de Sting. Será? Jamais saberemos.

Hoje esses discos estão com o jovem amigo, Pedro Siqueira, para quem doei minha coleção de vinis. Os dois discos da foto que ilustra este texto foram comprados recentemente, aqui no Rio de Janeiro, em tardes prosaicas, sem grandes histórias. Mas é uma alegria tê-los aqui comigo, certamente. A alegria de um reencontro. Graças aos CDs e ao mundo digital nunca deixei de escutá-los nesses anos em que fiquei longe da minha coleção de discos (que ficou no Recife quando vim morar no Rio, 21 anos atrás), mas ter novamente esses dois long plays de 33 1/3 nas mãos… Please, please, please let me get what I want.

E foi assim que eu ganhei a guerra. Com música.

PS. Olhando as capas lado a lado vê-se entre elas uma semelhança. tons de azul, O Azul que permeia os dois, no caso do disco do Sting um azul profundo, quase preto. As fotos em preto e branco, com alto contraste, os nomes dos dois artistas bem destacados na parte superior… eram os discos daqueles dias


Texto inédito de Helena Lima para a Kuruma’tá

Tem uns anjos soprando textos para a Kuruma’tá… Eu tô lá na internet e de repente, num zap, no messenger, alguém aparece com uma preciosidade, uma dica. Tínhamos acabado de publicar o texto sobre o livro O cajueiro nordestino, de Mauro Mota, publicado em 1955, quando essa voz, via messenger, me trouxe para o presente mais presente. É de Andréa Drummond a dica desse texto inédito e potente de Helena Lima

Texto de Helena Lima


Tem uns anjos soprando textos para a Kuruma’tá… Eu tô lá na internet e de repente, num zap, no messenger, alguém aparece com uma preciosidade, uma dica. Tínhamos acabado de publicar o texto sobre o livro O cajueiro nordestino, de Mauro Mota, publicado em 1955, quando essa voz, via messenger, me trouxe para o presente mais presente. É de Andréa Drummond a dica desse texto inédito e potente de Helena Lima, que está lançando o livro Amores virados pra cá, juntamente com a escritora Isabelle Borges, pelo selo Lago Baikal, o selo de literatura pra gente grande da editora Lago de Histórias (confira os detalhes no final dessa publicação).

E agora, com o poder da palavra… Helena Lima!


25 de novembro é o Dia Internacional da eliminação da violência contra a mulher.

Século 21 
e ainda querem nos calar.
Nossa liberdade afronta.
Nosso desejo precisa ser contido.
Nossa voz, abafada.
Nossa arte, censurada.
Toda essa criatividade é prejudicial à saúde. (De quem?)
Ela tem ideia demais.
Não é normal.
Tem problemas psicológicos. Isso é certo.
Escrever um livro a cada movimento de expiração? 
Não, não pode. 
Muito perigoso.
Isso é excitação. Euforia…
Ela não quer mais casar?
Quer ir pra onde o desejo está?
Quer ser livre?
Feliz?
Romper com as estruturas?
Como assim?
Tá tudo posto.
Tá tudo certo.
Tá tudo de tão bom gosto…
Mas ela gosta de outras coisas.
E desestrutura.
Enfrenta.
Banca.
Fode com tudo.
Precisa ser silenciada.
Que história é essa de liberdade de expressão, de escolha, de caminho?
Prende esse desejo.
Prende essa potência.
Prende esse surto de independência.
Que mulher perigosa…
Que ousadia…
Que putaria…
Ela fumou maconha? Maconheira.
Ela bebeu caipirinha? Cachaceira.
Ela quer outro homem? Piranha.
Ela chegou de madrugada? Irresponsável.
Péssima mãe.
Não foi esse o exemplo que lhe foi dado.
Era pra ser recatada.
Quieta.
Calada.
Obediente.
Casada.
Que absurdo…
Uma mulher empoderada.
Livre.
Solta.
Desamarrada.
Chama a ambulância.
Amarra ela na maca.
Prende ela na marra.
Tá possuída pelo demônio.
Ela sou eu.
Você.
Cada uma de nós.
Ela é o próprio demônio.
Possuída de si.
Ultrapassa as grades do manicômio.
Manda um beijo. Pisca o olho.

“Desculpa desapontar.
Pra me conter, vai ter que me matar”.


Lançamento do livro Amores virados pra cá

O lançamento do livro Amores virados pra cá, seu primeiro livro para o público adulto, em parceria com Isabelle Borges, será lançado na próxima sexta dia 29 de novembro, na super ultra querida Blooks Livraria, na Praia de Botafogo, 316. O horário é 19h!

O cajueiro nordestino

O cajueiro nordestino, de 1955, escrito a partir da monografia apresentada pelo autor ao Instituto de Educação de Pernambuco, concorrendo à cátedra de Geografia. Trabalhado para um outro público, livre de tecnicalidades de uma monografia, o livro oferece um detalhado, e delicioso, passeio pela história do cajueiro, essa árvore que nos é tão cara. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Cajueiro de Pirangi – Foto: Toinho Castro

Tempos atrás andei fazendo umas pesquisas pessoais, resgatando do fundo do baú certa poesia recifense, ou pernambucana, que não fosse João Cabral de Melo Neto ou Manuel Bandeira, nomes sempre lembrados. Dei com nomes que ditos assim parecem óbvios, mas que há muito não são muito recordados em conversas ou artigos escritos por aí, salvo quando somos atacados por uma nostalgia qualquer. Dentre poetas que vieram à tona nessa busca estão, naturalmente, Carlos Pena Filho, Lucila Nogueira e Mauro Mota. Deste último consegui um livro lindo, Elegias, de 1952. Uma primeira edição, tão bonita…

Ó Rua Real da Tôrre,
que mistérios ocultais
nos chalés mal-assombrados
que aos fantasmas alugais?
[Mauro Mota]

De Mauro Mota fui ainda presenteado, pelo amigo e livreiro Francisco Olivar, com uma belíssima peça, um pequeno volume em plaquete chamado São João do Nordeste, que traz uma palestra que o poeta proferiu no Rotary Clube do Recife, em 1952, sobre as tradições juninas da região. às voltas assim com Mauro Mota, o poeta Aderaldo Luciano apresentou-me, numa conversa, um terceiro livro que muito me interessaria. O cajueiro nordestino, de 1955, escrito a partir da monografia apresentada pelo autor ao Instituto de Educação de Pernambuco, concorrendo à cátedra de Geografia. Trabalhado para um outro público, livre de tecnicalidades de uma monografia, o livro oferece um detalhado, e delicioso, passeio pela história do cajueiro, essa árvore que nos é tão cara.

Quem no Nordeste não esteve aos pés de um cajueiro?! Meu tinha um galpão no caminho entre Recife e Cabo de Santo Agostinho, que era usada para depósito de cargas rodoviárias, mas que também servia aos passeios de fim de semana da família Castro. O lugar era perto de uma lagoa e cercado por cajueiros e pequenas casas esparsas. Ali passamos algumas tardes e lembro bem dos pés de caju fincados na areia fina, branca, como de praia. Como esquecê-los? Também jamais esquecer os cajueiros de Natal, nas dunas onde brinquei, mesmo o exemplar da praia de Pirangi, uma espécie de monstro mitológico, que mais se assemelha a uma colônia de árvores, ainda que todo aquele infinito de galhos e folhagens tenha origem num único tronco. Na verdade, numa única castanha, mágica, por certo, que ali caiu num dia perdido no tempo.

Ela virá no verão
Com as chuvas de cajus
[Alceu Vaelença]

Mauro Mota nos carrega por uma trilha que começa nos primórdios dessas terras e chega até o seu tempo presente, nos anos 1950, traçando uma genealogia do cajueiro entre nós e de nós mesmos, entre os cajueiros, para o bem e para o mal. Didático e poético o livro versa sobre a origem brasileira da planta, as extensões de terra cobertas por suas copas, seu ciclo de vida, a floração, as chuvas. As chuvas de caju, essa expressão tão bonita que anuncia uma transforação do mundo para que nos venham esses frutos vistosos, versáteis. Esses frutos dourados do sol; que se entranham na culinária do nosso povo em doces, bebidas, compondo os mais diversos pratos, saboreados nas mais diversas classes, como um fio dourado ligando as pessoas, sem pensar em suas origens, posses, crenças. Assim o cajueiro integra o cenário humano, uma simbiose com a casa, com as ruas, com o corpo.

– Não morro mais este ano, doutor. Chegou a safra de caju.

Comecei a ler o livro justo numa viagem de ônibus, a primeira em décadas, entre as cidades de Natal e Recife. Os pequenos municípios, ora esparsos, pareciam emendar uns nos outros, salvo pelos tapetes esverdeados da cana-de-açúcar. E lá estava eu, como viajante a tentar registrar com os olhos a ocorrência de um cajueiro, tentando pinçá-los na rapidez da paisagem que se deslocava, em vão. Não faltam, aliás, à narrativa de Mauro Mota. os viajantes e seus relatos. Gente que passou por terras brasileiras, por terras nordestinas, e que não pôde ignorar os cajueiros e seus frutos, e também sua madeira. Passou por aqueles caminhos, talvez o mesmo da estrada que eu cruzava, quando era uma picada, uma vereda.

Curiosamente não falta ao livro, já ali naquele tempo, o dado triste da devastação. As léguas de cajueiros tombando para virar carvão, para abrir espaços para a especulação imobiliária e o crescimento sem rumo e sem norte das cidades. A sanha do dinheiro desaparecendo com esses companheiros de galhos tortuosos, que se esgueiraram pelo litoral do Nordeste, saciaram sede e paladar de indígenas, holandeses, portugueses. Que se espalharam pelo mundo, migraram para a África, Índia… Enquanto em suas próprias terras foram perdendo espaço para as estradas, ruas, sumindo mesmo dos quintais, dos oitões. Mauro Mota faz um canto triste a essa perda e define com precisão a dor:

Nas praias arrancam as cortinas protetoras, entregam a planície mole aos dentes do mar e da ventania. O homem torna-se um necrófilo vegetal. Constrói sua morada sobre um cemitério de plantas.
[Mauro Mota]

Gente, que aventura esse livro! Uma aventura pela história por meio de uma planta. Conhecer mais do seu lugar, de si mesmo, nessas páginas é uma alegria, apesar dos tristes cenários que a civilização vai pintando sobre os bosques. Leitura fluida, vívida e cheia de cores e sabores. História, geografia, sociedade, guerras, povos, os quintais, a brisa e a sombra do cajueiro. Tudo intrincado, como seus galhos. Tudo passando rápido enquanto o mundo muda. Hoje, no Rio de Janeiro, não escuto ninguém falar das chuvas de caju. Há poucos dias, no Rio Grande do Norte, escapou da boca de alguém numa conversa casual. Para mim foi a volta de muitas coisas, muitas imagens. Sobretudo das castanhas de caju queimando em labaredas dentro de uma lata. Imagem da infância. Imagem do Nordeste.

Foto: Pxhere

Para assar, usa-se depositá-las num velho recipiente frestado de flandres mais largo do que o profundo, a fim de que as castanhas não fiquem muito superpostas e o calor se distribua bem. Lançado o fogo embaixo, comunica-se pelas frestas e o óleo das cascas logo se inflama, levantando labaredas que, à noite, parecem de uma fogueira de São João. A assadeira, de certa distância, e sempre protegendo os olhos contra o lançamento de partículas de cáustico, mexe e remexe as castanhas com uma vara, a fim de que todas se inflamem bem. O declínio das chamas indica o término da operação, assistida por adultos e crianças. A vara entorna o vasilhame de cima do seu apoio em tijolo e as castanhas se espalham no chão ainda fumegante. Jogam-lhes punhados de areia e logo começa a quebra com pedaços de pedra ou pau, tarefa muito disputada pelos meninos.

Se você chegou tão longe nesse texto a dica é óbvia. Leia O Cajueiro nordestino, de Mauro Mota. Tem uma bela edição da CEPE Editora, disponível também em e-book, que é a que eu estou lendo… Estou lendo porque não quero terminar, quero viver à sombra dos cajueiros do poeta Mauro Mota.



Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa: Buraco Negro

O pior não é a perda de memória, você pensa. O pior é você não esquecer que está começando a esquecer as coisas. A consciência da perda é o que mais incomoda. Mas os médicos já desenganaram você: não tem jeito, esse tipo de doença degenerativa funciona assim. Chega um ponto em que você só conseguirá se lembrar de uma coisa: que não lembra mais de nada. [Texto de Fábio fernandes]

Texto de Fábio Fernandes


O que era mesmo que você tinha que fazer no banheiro?

Os olhos percorrem o armário escancarado atrás do espelho. Então você vê a caixinha de Tranxilene e lembra.
Engole o comprimido em seco.

O pior não é a perda de memória, você pensa. O pior é você não esquecer que está começando a esquecer as coisas. A consciência da perda é o que mais incomoda. Mas os médicos já desenganaram você: não tem jeito, esse tipo de doença degenerativa funciona assim. Chega um ponto em que você só conseguirá se lembrar de uma coisa: que não lembra mais de nada. E você já está tão anestesiado pelos remédios que nem consegue mais ficar triste com isso.
Mas o que era mesmo que você tinha que fazer no banheiro?

Você vê a caixinha de Tranxilene e lembra. Engole o comprimido em seco e vai saindo. Anda até a cozinha e vê as horas no relógio do lado do armário da louça.
Você não tinha que ir ao banheiro?


Tilia L.

Lucía tinha acabado de descobrir, ao ir num enterro, o primeiro naquela terra, que a morte é o nascimento ao contrário. Não o contrário do nascimento. E que se viemos do nada e nos transformamos em matéria, o nada não chega a ser nada, mas alguma coisa. Mesmo raciocínio com a morte, que dizem nos levar ao nada que, no entanto, também é a mesma coisa de antes do nascimento, ou seja, alguma coisa. Procurava explicações pra tudo embora quase nunca as encontrasse. [Texto de Adriana Nolasco]

Texto de Adriana Nolasco


Lucía precisava de um chá. Precisava de muitas coisas, embora soubesse que a simplicidade era a chave do seu portão. Porém, sabia, não se sabe como, que simples não queria dizer fácil. Queria dizer, isso sim, tantas coisas. Ela também. Que na verdade gostava de café, mas a bebida tinha sido proibida, ao menos por um tempo (que não se esgota) por causa da gastrite que ganhou quando começou a sentir medo. Nesse período também não podia beber álcool, mas podia sim tomar pílulas de diferentes tamanhos e cores que tinham a função de domar seus neurotransmissores, que insistiam em transmitir sem parar, a despeito de tudo.

Lucía tinha acabado de descobrir, ao ir num enterro, o primeiro naquela terra, que a morte é o nascimento ao contrário. Não o contrário do nascimento. E que se viemos do nada e nos transformamos em matéria, o nada não chega a ser nada, mas alguma coisa. Mesmo raciocínio com a morte, que dizem nos levar ao nada que, no entanto, também é a mesma coisa de antes do nascimento, ou seja, alguma coisa. Procurava explicações pra tudo embora quase nunca as encontrasse. Nem mesmo nos dicionários e livros que lia com muita atenção, principalmente aos errros ortográficos, considerados um tesouro em meio a tantas regras e certezas. Amava os erros, assim como o rótulo das coisas.

Tilia L. é um género botânico pertencente à família Malvaceae. A ele pertencem as árvores de nome comum tília. É típica de regiões de clima temperado, com estações do ano bem demarcadas. Para os germânicos, as tílias eram árvores sagradas com poderes mágicos que protegiam os guerreiros.

Pela sua leveza e outras características, a madeira de tília (em inglês: basswood) é utilizada na construção de corpos de guitarras maciças, como alguns modelos da Fender fabricados no Japão, e na construção de baterias. A maior tília existente em Portugal (em Paredes) tem 22 metros de altura e 24 metros de diâmetro de copa e, segundo o seu proprietário a colheita da sua flor ocupa 20 homens durante 3 dias.

Foto: Stefan Wernli – Fonte: Wikipédia

O dia de Tobias

Visitando o Recife, bebendo cerveja no Bar Frontal, encontro com o amigo Afonso. Amigo de longa data e muitas conversas. Acabamos, eu e Afonso, conversando sobre a Kuruma’tá e o desafiei, por fim, a escrever para a revista. Do celular ele sacou esse texto que agora publicamos aqui. Ali mesmo, na mesa do bar, levantamos umas fotos no Instagram para ilustrar o conto/crônica. E é assim que a Kuruma’tá funciona, de uma hora pra outra, no ímpeto de fazer algo e abraçar os amigos!

Texto de José Afonso Silva Junior


Visitando o Recife, bebendo cerveja no Bar Frontal, encontro com o amigo Afonso. Amigo de longa data e muitas conversas. Acabamos, eu e Afonso, conversando sobre a Kuruma’tá e o desafiei, por fim, a escrever para a revista. Do celular ele sacou esse texto que agora publicamos aqui. Ali mesmo, na mesa do bar, levantamos umas fotos no Instagram para ilustrar o conto/crônica. E é assim que a Kuruma’tá funciona, de uma hora pra outra, no ímpeto de fazer algo e abraçar os amigos! Seja bem-vindo, Afonso, à Kuruma’tá!

Toinho Castro [Editor]


Tobias chegou em casa. Fim de tarde de uma sexta feira. Suando frio. Trânsito horrível. Emprego horrível. Salário horrível. Semana horrível. Brigou com a namorada. Levou bronca do chefe. Abre a caixa do correio. Cobranças e mala direta. No email, só spam. Redes sociais regurgitando ódios. Toma um banho frio. Analisa as possibilidades dadas pelo horrível que o órbita. Acende um cigarro. Pensa.

Olha o celular. Pensa em ligar para alguém. Mas talvez ninguém o suporte. Poupa os amigos de si mesmo. De sua presença. De sua voz. Abre a geladeira. A semana foi horrível. Não fez supermercado. Só tem sobras de almoço. Água. Tem ovo. Não tem pão. Abre a carteira. 20 reais o olham. O que fazer com isso. Procura uma camisa em meio a cama desarrumada. Acha uma usada, mas que aguenta. A veste, atravessa a sala catando as sandálias Havaianas. Sai de casa. Aperta o botão do elevador. E… Falta luz.

É uma boa noite para voltar a beber. Mas não tem cerveja que queira conversar. Tá escuro. Tateia e acha o buraco da chave. Retoma a sala, o quarto. Devolve a camisa usada sobre a cama. Escuta. Longe reverbera um som. Acende um cigarro. Anda pela sala iluminada pelo isqueiro até a varanda. Acha o celular. Busca nomes. Acha o de Leda. Sarro da escola que há muito não vê. Liga. Da caixa de voz. Liga para Marlene. Não atende. Marlene também levou esporro do chefe. Talvez um desabafo, uma solidariedade ou apenas uma punheta. Sabe lá. Marlene não atende.

Da varanda vê um grupo de garotos e garotas. Improvisam som de maracatu em meio a noite. Recife tem dessas coisas. Olha. Demora. Olha de novo. O cigarro quase no fim.

Sexta-feira é fim. À noite é fim. No meio, tem Tobias. Tem o apartamento vazio. Tem a falta de luz. São 16 andares até o térreo. São só 20 reais. Descer é mole. Subir cobrará os anos de consumo contumaz de Marlboro. Avalia. Não desce. Tem falta de elevador. Ter falta é fim. O que sobra?

Começa a chover, fininho. A luz dos prédios e ruas chegam ao seu rosto. Driblam a atmosfera úmida e rasgada por pingos. Tateia a carteira. Acabaram os cigarros.

Chove, falta luz, elevador, televisão. Falta cigarro. Falta voz. Tem longe um som de gente se divertindo. Tobias se sente muito só. E esta com insônia. Amanhã talvez seja melhor.