Independência Poética: Maria Ávila

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA

Poeta de hoje: Maria Ávila

Maria Ávila é poeta, escritora, autora do livro “Poemas Paridos” (2021) e do e-book “Viva Mulheres” (2022). Baiana de Salvador, estudiosa da vida e obra de Frida Kahlo, está graduanda em Serviço Social pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), e colunista das revistas Minha Voz Cultural e Aorta. Criadora da página @mariamariapoesia, desenvolve trabalhos como facilitadora de escrita e se move no mundo em conexão com a potência da palavra, escrevendo vida e vivendo poesia.

O que te inspirou a começar a escrever?

Não sei precisar quando exatamente comecei a escrever, lembro que ainda na escola, quando descobri o mundo das letras, me identifiquei com a poesia. Nessa mesma época, escrevia em diários e fui descobrindo, aos poucos, as possibilidades da escrita na minha vida. Assim, escrever se tornou parte de mim, da minha rotina e de tudo que cabe no universo dos meus dias. Com 14 anos criei um Blog para compartilhar e, ao mesmo tempo, guardar os meus poemas, era uma diversão de menina sonhadora e apenas mais tarde, ao ingressar na Universidade, resolvi investir na minha escrita enquanto trabalho. Hoje, escrever é vital para mim, e também fonte de renda e de trocas
maravilhosas que nunca imaginei. A cada palavra escrita, descubro um novo começo e a cada começo, um novo motivo para escrever.

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

Gosto de dar um tempo para as minhas ideias e sempre faço o possível para não pesar a minha relação com a escrita, a poesia é sagrada na minha vida então respeito o seu momento de acontecer livre até de mim. Quando preciso muito escrever e não consigo prosseguir, procuro por outras formas de arte como pinturas de Frida Kahlo, músicas, filmes… Essa é a forma mais gentil que encontrei para lidar com o bloqueio enquanto parte do processo criativo.

Seu maior sonho como escritor(a)?

Nossa, são tantos… Mas o maior deles, sem dúvidas, é fundar um espaço físico de dedicação à poesia e a diversas formas de arte, um lugar com livros, artesanatos, muita música, comidinhas gostosas, saraus ao ar livre e todo tipo de gente que sonha se movimentando livre a descobrir a liberdade da sua expressão.

Assunto preferido de escrever?

Eu amo escrever sobre o cotidiano, o amor, os encontros e desencontros, as histórias que vivo e, sobretudo, as que fico sabendo, mas sou eu o meu assunto preferido, cheguei a essa conclusão recentemente. Parafraseando Frida: “Escrevo a mim mesma por que sou sozinha, e por que sou o assunto que conheço melhor”. Soy mi musa!

Um elogio para sua própria escrita?

Vejo a minha escrita como um experimento, um processo de criação sem começo exato ou fim calculado, imersa em tudo que me atravessa, tentando transformar em poesia cada fragmento de vida que me escapa. Se for possível elogiar algo tão abstrato, posso dizer que gosto da sua simplicidade, da forma que ela é livre em letras minúsculas e versos bagunçados mas, mesmo assim, tem a minha assinatura, o meu olhar impresso. Se esse olhar é bom ou ruim,
não posso opinar, mas gosto de saber que ele é fiel a tudo que sinto e sou enquanto sujeito no mundo.

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Sim! Publiquei o livro “Poemas Paridos” (2021) e o e-book “Viva Mulheres” (2022), os dois reúnem poemas autorais. Tenho planos de publicar muitos outros e ocupar estantes, mesas de cabeceira, mesas de bar, bolsas, malas de viagem e muitos corações! Quero a minha poesia voando e alcançando pessoas diversas.

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

Tudo que couber no alcance dos meus sentidos: do vento que arrepia a pele, ou bagunça o cabelo, até o sol, o mar e toda a beleza indescritível da natureza e das nossas relações. Eu tenho um encanto natural pelo mundo e pelas pessoas, acredito que desse encanto surge a matéria da minha poesia.

Qual dos seus poemas mais te define?

“não se vence uma guerra
com poesia
mas sem poesia todos os outros dias são perdidos”

(Poema 25 do livro “Poemas Paridos”, p. 42)

Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

A escrita enquanto um processo de criação é o meu lugar preferido no mundo, gosto do meu processo, amo o lúdico e me divirto com as possibilidades das minhas ideias para um texto ou para um novo Projeto, por isso o mais difícil para mim, enquanto autora independente, é conciliar a criatividade com a parte prática e exaustiva de lidar com o mercado, com o algoritmo nas redes sociais e com as dificuldades para fazer literatura no Brasil, sobretudo em Salvador.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?]

Não consigo escolher um único livro como favorito, mas como estamos aqui falando sobre poesia eu escolho o livro “Poemas” da poeta polonesa Wislawa Szymborska.


Um livro de Maria Ávila

Nome da obra?

“Poemas Paridos”

Quando e em qual editora foi publicada?

“Poemas Partidos” é uma publicação independente, feita pela EGBA (Empresa Gráfica da Bahia), publicada em setembro de 2021.

Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?

Em “Poemas Paridos” eu reuni poesias sobre o universo feminino que dialogam com a sensibilidade de qualquer pessoa, independente do gênero. Partindo da minha realidade, escrevi sobre ansiedade, medo, dor e libertação, encontrando poesia no cotidiano e marcando cada poema com a proposta central do livro, a intensidade da poesia marcada pela força e o amor necessários para gerar uma vida, por isso o título que marca a intensidade e faz referência ao vocabulário popular.

As poesias são divididas em fases nessa obra? Se sim, o que te motivou a fazer isso?

Não, as poesias estão reunidas em um fluxo contínuo.

O que te incentivou a escrever esse livro?

Escrever e publicar um livro sempre foi o meu maior sonho, há muitos anos desejava escrevê-lo mas ainda não conhecia a minha escrita ao ponto de saber como a colocaria para o mundo, também não sabia qual tema deveria abordar nem conhecia sobre o processo de publicação de um livro. Quando iniciei a minha página @mariamariapoesia no Instagram, comecei a me dedicar mais ao meu trabalho de poeta e, de maneira natural, o sonho foi se tornando uma possibilidade. Em 2021, com leitores e depois de muitas pesquisas e contatos,
o livro-sonho enfim ganhou forma. Por ser o meu livro de estreia e, acima de tudo, uma realização pessoal, sei que os próximos não serão como ele e sou muito grata por todas as experiências lindas que ele tem me proporcionado desde antes do seu lançamento.

É possível destacar uma poesia que mais se assemelha a seu cotidiano?

O poema 33 do livro, o “rua da poeira”, traz no título a rua em que vivo em Salvador, lembro exatamente do dia em que o escrevi, um fim da tarde com o sol se despedindo e eu escrevendo cada detalhe daquele momento, daquela vida que pulsa no lugar que eu mais entendo como casa no mundo. Esse é o poema:

rua da poeira

o fim de uma tarde na metade do verão
o começo de uma arte promessa pro meu coração passa no céu como passarinho
o voo de um avião
fecho os olhos e escuto baixinho uma martelada distante
um telefone que toca trim trim trim atende?
“alô” não há sossego
vida de prédio
tem cachorro latindo e o vento passando
uma luz dourada entra pela janela e beija a minha pele
já cansada do dia tento fotografar
mas com a câmera não consigo não sou boa de registro
sem palavra e poesia
o cabelo todo bagunçado a lista cumprida
dessa mulher produtiva
que passeia no meu corpo vez ou outra ainda sinto o vento
ele dança pelo meu quarto brinca com os meus pelos arranha as minhas costas encostadas na janela ainda ouço
esse quase silêncio tudo distante e bucólico como um fim de tarde na capital da Bahia
uma moto rápida de um entregador
o ambulante que grita “abará tempérádô” a sirene da ambulância
e alguma voz que comenta sobre a pandemia “pííícolé”
o senhor grita alto
vende nas ruas há mais de 40 anos mas cadê a aposentadoria?
a chave do vizinho cai no chão
o vento segue o seu caminho
um bichinho ou outro canta aqui do lado e no meu peito, agora calado,
repousa a sede de transformação mas mesmo entendendo tanto
o que haverá de ter aqui dentro além de um escritor
e atrevido coração?

(Poema 33 do livro “Poemas Paridos”, p. 53)

A sequência dos poemas conta alguma história?

As poesias seguem um fluxo natural da história contada pelo livro, no início concentrei poemas de sofrimento e, do meio para o final, trouxe poemas de cura e liberdade, acreditei nessa ordem como a melhor para o livro passar a mensagem que eu desejava.

Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?

Como escrito em um dos meus poemas preferidos da Wislawa Szymborska: “Somos filhos da época e a época é política. Todas as tuas, nossas, vossas coisas diurnas e noturnas, são coisas políticas.” Com a minha obra não é diferente, para além dos temas abordados explicitamente como a luta pelos direitos das mulheres e o incômodo com a desigualdade social, o livro foi escrito e publicado em um período pandêmico no qual o Brasil viveu um terror sanitário e político, por isso marquei através do Poema 16+1 o meu posicionamento contrário ao governo vigente na época, para que o livro pertença ao momento histórico no qual foi escrito enquanto ferramenta de crítica e denúncia de forma atemporal.

Qual a relevância dos personagens implícitos/explícitos da obra?

Eu escrevo sobre pessoas reais e suas angústias, suas esperanças e o que há de mais banal nos seus dias. Os meus personagens são as mulheres que sou, as pessoas que amo, os trabalhadores que passam pela minha rua, todos aqueles que me inspiram a ver uma centelha de arte no comum, e assim me ajudam a transformar essa pequena luz em uma chama de esperança, conforto, ou simplesmente poesia, naqueles que me leem. Na verdade eles fizeram tanto o meu livro quanto eu, então divido com cada um a autoria e agradeço pela inspiração.

Qual a poesia mais marcante desse livro?

Uau! Que pergunta difícil… O meu poema favorito é o “Fale!”, sempre que estou em um Sarau, palestra ou aula decido compartilhar, escrevi seus versos com tanta força que me sinto forte sempre que o repito.
Esse é o poema:

fale!

sua voz importa porque a sua grandeza
o silêncio não comporta então rompa com ele
o destrua, escancare a porta abra as janelas
e as cortinas da sua alma tire tudo o que adorna
não se preocupe com resposta fale! escreva! pense alto!
voe alto! sonhe alto! permita-se! quebre esse maldito silêncio que rasgou a garganta
das que vieram antes de nós ninguém vai te calar
porque essa poesia é a sua voz
essa poeta é a sua voz cada mulher
em cada canto do mundo denunciando, dizendo “não” é a sua voz
falamos juntas
em diversos idiomas por todo tipo de texto e todo jeito de arte nos movimentos
de cada contexto nossa voz é grande e poderosa
então pode falar
não se cale! não me Kahlo!
não há calo no pé
que diminua a vontade de seguir caminhando
em comunhão com a liberdade enfrentando cada injustiça
e toda desigualdade
de uma sociedade corrompida enquanto Malalas no mundo falam afirmo, como Marielle:
“Eu não serei interrompida!”

(Poema 38 do livro “Poemas Paridos” p. 62)


Enquanto Você Dorme

Texto de Ana Egito —

Dentre os costumes de um cotidiano, do que mais me encanta é o canto dos pássaros,  livres, se espreguiçam e se banham na terra dividida com as árvores,  as folhagens,  as flores.  

Não há canto triste no meu mundo, nem vento que corte a criatividade que comungo com meus pensamentos,  quando a perda dói no corpo, as palavras secam o choro, nada que fuja as regras malfadadas da tristeza, elas nos ensinam a andar sobre as águas como a voar planando os túmulos que fechamos, até que possamos entender sobre quem somos,  estamos sós, e somos quem queremos ser.

Dúvidas nascem com os sonhos, são reais, o que me assusta, mas não custa enxergarmos os obstáculos como pequenos frutos que caem na terra antes de madurar, precisamos entender que a perfeição é uma forma lúdica de se viver as emoções,  mas driblar as dificuldades, é mesmo um dos maiores ensinamentos.

No meu cotidiano que afronta o tempo, pode ser que a distração se disfarce de falta de atenção,  mas as noites que deixam o céu infinito em lacunas sombrias, também escondem as rezas que faço em silêncio, por mim, por você,  por quem precisa da liberdade que encontro nos passarinhos que alegram os meus dias.

Que não nos falte a sombra, o alimento, a razão,   da irracionalidade vestimos a capacidade de ludibriar o que nos oprime, a força é necessidade maior no momento de se resguardar para aquecermos um coração que bate e chora,   enquanto você dorme, eu estarei aqui, sem mesmo você saber.

Fotos de Ana Egito

Enfim fevereiro no Rio de Janeiro

Crônica de Toinho Castro — Menina, cheguei nessa cidade num fevereiro. No dia 9, dia do frevo. As águas são de março mas fevereiro não tem pra ninguém. A luminosidade, o calor, o vuco-vuco do Saara e o mar se despejando sem vergonha nas areias dessas praias lotadas, imaculadas, do Leme ao Pontal.

Crônica de Toinho Castro

Foto de Toinho Castro

Menina, cheguei nessa cidade num fevereiro. No dia 9, dia do frevo. As águas são de março mas fevereiro não tem pra ninguém. A luminosidade, o calor, o vuco-vuco do Saara e o mar se despejando sem vergonha nas areias dessas praias lotadas, imaculadas, do Leme ao Pontal. Gente chegando, gente pra lá e pra cá, de ônibus, no trem da Central, girando em torno do Parque de Santana, da Carioca, do Mercadão de Madureira, da igreja da Penha, de onde se vê o movimento, o tiroteio, a violência, o louvor e o Rio de Janeiro se espalhando como um curto-circuito descontrolado na superfície desse planeta novo e ingênuo. Uma cidade assim, que aterrou lagoas, rios, se esgueirou em encostas, por entre rochas paleozóicas, dilacerada de florestas e manguezais. Uma cidade de gentes, porque nunca uma cidade foi tão entranhada das pessoas, como se fossem, gente e cidade, e são, um organismo só. Uma cidade de onde a gente vê ilhas flutuando na linha do mar, feito miragens.

Uma cidade assim que da primeira vez que foi, foi amor e vontade de ficar, de nunca mais voltar. Tanto que anos se passaram, mais de duas décadas até eu me reconciliar com o Recife que deixei acolá. E hoje, nesse primeiro de fevereiro, véspera de Iemanjá, as duas coabitam meu coração agitado. Porque em fevereiro, esse mês em que nasceu minha irmã, em pleno carnaval do Recife, a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro se avoluma, não cabe em si de vaidosa e afetiva e calorosa, dada às amizades e aos encontros e poemas que são as pessoas trocando olhares e números de zap e marcando um chope, um abraço, um beijo pra já, porque fevereiro urge. Porque fevereiro é curto como uma explosão em câmera lenta, espalhando estilhaços pelo ano inteiro.

Como eu amo fevereiro, como eu amo o Rio de Janeiro. Digam o que disserem eu não arredo daqui o pé, não arredo daqui o peito em que inspirei esse ar que vem das matas, do mar, dos automóveis na presidente Vargas a todo vapor, perdidos como num formigueiro em que choveu. No dia em que remei até as Cagarras e dali te vi, Rio de Janeiro, e dali contemplei seu recorte contra o azul do céu, me perguntei dos que primeiro te viram e lembrei de Gil:

Rio de Janeiro
Bela Guanabara
Quem te viu primeiro, pirou

Eu nem fui o primeiro e pirei quando te vi, e ando por aí pirado de ti. Não nasci no Rio, mas de onde mais eu seria, senão daqui?


Independência Poética: Fabricia Santos de Jesus

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA

Poeta de hoje: Fabricia Santos de Jesus

Mulher preta, suburbana, mãe, mobilizadora e produtora sócio cultural.

Poeta, organizadora do Sarau do Cabrito, e idealizadora do Orí Aiê – Leituroteca, com oito publicações distribuídas em coletâneas e Revistas. Entre elas; Coletânea Poéticas Periféricas, Outras Carolinas e Revista Quilombo.

O que te inspirou a começar a escrever?

Escrevo o que não consigo dizer. Escrevo para nomear dores. Verso amores. Apenas sujo o papel com coisas internas.

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

Nunca passei por isso. Já atrasei escritas para ser menor visceral

Seu maior sonho como escritor(a)?

Oportunizar que mais gente tenha acesso aos livros.

Assunto preferido de escrever?

Escrevo o que sinto.
Mazelas do cotidiano.

Um elogio para sua própria escrita?

É viva !

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Participei de 5 coletâneas

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

O próprio cotidiano. O suor e riso. O chegar e o esperar , as labutas os sabores, a vida.

Qual dos seus poemas mais te define?

Não existe um que me defina. Pq cada um fala sobre um sentir. Sobre uma vivência. Eu não sou uma ponto único sou diversa. Eles todos falam de mim.

Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

A escrita é muito natural , ela somente chega. A parte difícil e expor , pq as vezes é muito íntimo.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

Eu leio bastante. E gosto muito da escrita livre. Da poesia chamada de Marginal. Agora as obras que causaram muito impacto na minha vida foram Grada Kilomba – Memória de Plantação e Ensinando a transgredir de bell hooks. Amo as poesias do Poéticas periféricas – Editora Galinha Pulando.


Sândalo vermelho e os gatunos olhos dela – Romance de Camilla Loreta

E a dica de hoje da Kuruma’tá é Sândalo vermelho e os gatunos olhos dela, primeiro romance de Camilla Loreta, do qual compartilhamos aqui três belos trechos!

Mas uma viagem pode nos levar por lugares muito antigos. E assim, Camilla Loreta nos leva pela mão por um tempo ancestral, consciência alterada do corpo, linguagem lírica dos sinais. É preciso saber ler, junto com os personagens, o que a vida desponta. E chegando ao final, saímos com a certeza de que a travessia é ao mesmo tempo individual e coletiva, e se repete no tempo e no espaço. E um dia, uma pequena cobra se alinha na coluna vertebral. — Carola Saavedra


Capítulo 1 — Lago escuro, escavações do esquecimento, os amantes da Lua

Acontece de uma pequena cobra se alinhar na coluna vertebral daqueles que aceitam.

Se você fosse contar sua história, será que assumindo um papel distante a recepção mudaria? Ao se separar dela, simular a falta de tensão, uma espécie de fenda em que quem ouve se entrega de imediato, sendo pego de surpresa na confusão das narrativas, como uma cobra sinuosa que se projeta na água sem sabermos se é matéria ou reflexo.

O quarto de Léia. Ela dorme no colchão apoiado em tábuas de madeira. Lá fora, imóveis, pinheiros altos, macieiras baixas e gramíneas se espalhavam pelo quintal do vizinho. Ainda não dormia tão bem à noite, e acabou caindo no sono depois do almoço. Antes de dormir olhava a paisagem interna. O quarto ainda estava repleto de caixas, as paredes nuas, apenas uma fotografia pendurada com fita adesiva. Era uma imagem antiga de uma montanha ao sul da Polônia chamada Morskie Oko. A foto de uma foto tirada tempos atrás, quando Léia era criança.

Ela estava deitada de barriga para cima, os cabelos enrolados soltos pelo travesseiro. Suas pálpebras se mexiam, os dedos manifestavam pequenas contrações, como quem olha alguma coisa, toca também, e sua respiração aos poucos foi aumentando, e uma pulsação em seu peito cresceu, a pele de seu rosto tornou-se levemente rosada.

Ela acordou de susto. Um tanto perdida com o modo repentino em que voltou ao mundo consciente, olhou para o teto fechando os olhos de vez em quando, como para espantar a sensação de que não estava totalmente acordada. Em seu sonho havia uma cobra verde e preta, estava escuro, uma mulher comandava forças no espaço infinito. Seus pés e mãos ferviam. Apurou os ouvidos, alguma das janelas estava semiaberta, e conseguia sentir um tremor suave do corpo, o vento ausente lhe causava arrepio.

A cama

Eu tinha um sonho recorrente quando criança, que foi evoluindo e mudando de forma conforme eu crescia. Começava sempre com uma cama, sozinha, no centro de um quarto, sempre à meia-luz. Me aproximava da cama, deitava, e era a melhor cama do mundo. Ia adormecendo dentro do sonho, sentindo que o corpo cedia ao colchão, de repente o colchão sumia. Eu continuava deitada no estrado, mas não achava posição para ficar ali. Quando criança sempre arranjava um jeito de acordar, e logo dormia novamente.

Porém, quando me mudei para a Polônia, não conseguia mais acordar, me mantinha deitada no estrado. Com o tempo, no sonho, encontrava boas posições para ficar equilibrada, mas logo meus ossos começavam a doer, e eu tinha que mudar de posição, sem nunca conseguir adormecer dentro do sonho. Acordava cansada, com muita dor no corpo.

Foi em São Petersburgo que tive esse sonho repetido pela primeira vez naquele ano.

Era como sempre, deitada na cama, o colchão desaparecia, e ficava muito tempo tentando encontrar uma posição no estrado para descansar. A madeira aos poucos se tornava macia e possível de se ajeitar, até que começava a sentir um osso doendo ou um músculo dando fisgadas. Às vezes podia encontrar uma maneira de ficar deitada que massageasse um ponto, o que tornava a posição mais agradável, mas logo isso começava a doer demais, e tinha a sensação de que estavam se formando grandes vergões roxos na pele.

Eu tentava me equilibrar bem, para pegar no sono e não me mover, com medo de cair no chão de repente. E logo meu quadril cedia, e minha virilha estalava de tensão. O que me levou a acordar eu não sei, mas sim que a cabeça ficou demasiadamente pesada, e o sol agora batia diretamente no me rosto. A mandíbula tensa, quase solidificada. Abri a boca aos poucos, e ouvi tudo estalar. Os olhos estavam sensíveis. Tive medo de olhar para o lado e descobrir que de fato estava deitada no estrado, mas a sensação das costas era de que estava em um colchão.

Capítulo 8 — A estrada e o eterno retorno

Às vezes, parada em uma sala com muita gente, fico me perguntando se existe mais alguém ali que gosta tanto do silêncio como eu. Não falo de qualquer tipo dele, não penso somente em pessoas que se incomodam com ruídos. É o silêncio de dentro. Quando suas vozes internas simplesmente param de manifestar as diversas camadas de significados complexos e encadeados. O único momento em que percebo que isso acontece comigo é quando observo os outros. Minha atividade favorita é sentar em qualquer lugar em que irá passar muita gente. É como se eu atingisse uma frequência ao reconhecer infinitas personalidades, sei que nenhuma delas será igual a outra.

Meu Pai me contou que quando era criança eu raramente falava, mas gostava muito de ir a eventos sociais com ele e minha Mãe. Ela sempre tinha esse tipo de compromisso, por ser colunista de um jornal carioca.

Gostava de segurar na mão dela, atravessando corredores e salas cheias de pessoas que perguntavam o meu nome. Quando isso acontecia, minha Mãe falava:

— Ela é muito caipira, não liga, não… Se chama Léia — e passava sua mão quente pela minha cabeça.


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A poesia de Giselly Corrêa

Inbox Kuruma’tá bombando de poesia! Hoje é dia de Giselly Corrêa, paraense que mora no Ceará. Estudante de jornalismo, aos 21 anos de idade e de sonho, Giselly abriu caminho até a gente e enviou dois poemas, que publicamos com essa alegria de missão cumprida, de chegar nesses Brasis todos, nesse Ceará querido e poético, de tantas vozes incríveis. Seja bem-vinda, Giselly! Portas da Kuruma’tá sempre abertas!

conheci Jesus, minha senhora
é uma mãe preta
uma avó cozinheira,
uma professora, uma artista,
uma faxineira

Foto de Willy Verhulst

no meio de nós

bateram à porta, atendi
eram as irmãs da igreja
e suas saias tão longas
quanto seus cabelos

“minha filha, você aceita jesus?”
e ele mandou solicitação?
repreende senhor, diz a senhora

todo domingo
é dia de evangelizar
levar aos perdidos
como eu
o Deus, sua propriedade
o homem branco, o salvador
criador dos céus e da terra, redentor

logo esse Deus, tão diferente de mim
Mulher, trans, LGBTQI
além de tudo
pecadora
e sem um tostão pra contribuir
Que Deus vai me querer assim?

quando refleti me despedi
já conheço Deus e seu filho Jesus
pega ônibus comigo, pediu ajuda pra mim
tá na rua, pedindo socorro
implorando aos próprios filhos
piedade
amai-vos uns aos outros
não é assim que vos ensinei?

conheci Jesus, minha senhora
é uma mãe preta
uma avó cozinheira,
uma professora, uma artista,
uma faxineira

e também a vagabunda
que vocês julgam, apedrejam, perseguem
e todo vez que escuto
Deus acima de tudo
estremeço

mas elas não foram embora
sem antes dizer
“deus esteja convosco”
em um reflexo respondi:
“Ele está no meio de nós”

Brasil, 2022

Todo dia tento ser otimista
Quando sol interrompe meus sonhos
acordo e penso
“dia lindo, dia de ser otimista”

Coloco pra dentro um café sem pão,
Ligo a tevê,
Desgraça, fome, trapaça, destruição
Desligo. É dia de ser otimista

feliz, o vizinho me diz
que o auxílio vai chegar
a gasolina baixar e o povo se armar

daí atravesso a rua
e um irmão me pede:
água, dinheiro, comida, emprego
Dou um tostão, é tudo que tenho, perdão

Subo no busão, passagem aumentou
vou caminhando trabalhar
em risco a vida, a carteira,
e a alegria de voltar
mas tento ser otimista.

oito horas me esperam,
berros do chefe,
trabalho duro
e o salário compensa?
mil-duzentos-e-doze
mal dá pra merenda,
pra parte da igreja, pro quilo da calabresa
ainda sim
tento ser otimista

porque se minha mãe dizia
filho, deus proverá
ser otimista não é mais uma escolha
é a única forma de continuar

Versos de uma tarde de sábado, de trabalho,
a 15 dias da eleição

apesar de tudo, o otimismo


Giselly Corrêa Barata é paraense radicada no Ceará, 21 anos, estudante de jornalismo que vez ou outra se aventura na ficção.


Sad trip, de Raquel Campos — Poemas selecionados

Hoje, na Kuruma’tá, a poesia da brasiliense Raquel Campos. E começamos traçando uma conexão importante. Raquel tem na poesia concreta dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari uma grande influência no seu trabalho. Neta de Augusto, suas leituras desde cedo percorreram as trilhas a que conduziu a experiência concreta, além de Augusto dos Anjos, Fernando Pessoa e Cesário Verde!

Hoje, na Kuruma’tá, a poesia da brasiliense Raquel Campos, com uma seleção do seu livro Sad Trip (Corsário-Satã). E começamos traçando uma conexão importante. Raquel tem na poesia concreta dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari uma grande influência no seu trabalho. Neta de Augusto, suas leituras desde cedo percorreram as trilhas a que conduziu a experiência concreta, além de Augusto dos Anjos, Fernando Pessoa e Cesário Verde! Como não amar a trajetória poética, e de poeta, de Raquel?! Pois a gente aqui na Kuruma’tá ama a poesia concreta e suas derivas. E temos o trio Décio, Augusto e Haroldo em alta conta, como grandes nomes da poesia brasileira. O trabalho deles me tem sido um farol permanente. Então recebo Raquel Campos com alegria.

Compre Sad Trip, de Raquel Campos

Outra conexão das melhores que surge com a obra de Raquel Campos é a poeta, tradutora e amiga querida Francesca Cricelli, que escreveu a orelha do livro:

“No belo livro de estreia de Raquel Campos, somos convidados a viajar em seus versos através de cinquenta e dois movimentos, ou paradas. Mas não se deixe enganar pelo título, leitor. “Sad Trip” seria esquivar-se do núcleo vital que aqui se apresenta em diferentes camadas por diferentes caminhos. O poema-prefácio aponta para uma primeira vitória, quase por via de uma loteria. A ela, supostamente, seguem-se tropeços e derrotas, mas toda exploração do eu e do Outro, pensando aqui com a voz de Rimbaud, nos versos da Raquel, é acompanhada por uma brilhante ironia e uma polidez na forma. A voz junta-se aos solitários, em contraposição aos “united”. Nesse caminho, presta homenagem às origens: Décio, Haroldo, Augusto. Porém, o diálogo imbricado no livro vai além das dedicatórias. Raquel está aqui em sua busca por uma verdade que só se revela em verso: entre o dito e o não dito, evoca Guimarães. E, no desfecho da viagem, nos deixa sedentos por outras futuras rotas em verso.”

Com isso o que vemos é que a poesia de Raquel tem tudo a ver com a Kuruma’tá, e vem compor essa trama, e também emaranhado, de poesia que é a nossa revista. Kuruma’tá é casa da poesia. — Toinho Castro, editor da Kuruma’tá!

Trazemos aqui uma seleção de poemas de Sad Trip, uma obra em movimento, composta por diálogos com referências, situações cotidianas, expectativas frustradas e contradições humanas tratadas com um certo humor.

Vamos à poesia de Raquel Campos?!


9.

eles amam como se odiassem
e odeiam como se amassem
não distinguem os cheiros das flores
nem cumprimentam os pássaros
fazem tudo de sangue no mundo
(menos o perdão)

seriam mais felizes
se não


18.

a vida – este
sapato pontiagudo
que queima
na sola do viver –
me caminha

cada passo dado fere
e me impulsiona – ao alto

resta saber de qual abismo
sobreviverei – ao salto


22.

todo o meu sangue mensal

deixo escorrê-lo pelas pernas
gosto de manchar lençóis –
e cabeças – com a minha
tão íntima e suja
destreza

ser mulher
tem dessas
belezas


32.

vim de lá, daquele cerrado quente
a vida ali é assim
o nariz sangra e os olhos mentem
nunca teve nem terá fim
a vista resseca e o coração se ressente
o sangue areia a alma
e a vida nos poeira
a facadas


38.

tomar café
tomar coragem
tomar no cu

seguir viagem


45.

sad trip
ser tudo que poderia –
tristeza infinita
de nunca conseguir –
ser o que eu já seria
precisar de mais
e corromper o que havia
maldita confusão
que fodeu a minha brisa

A brasiliense Raquel Campos nasceu em 1988, é poeta, ensaísta e professora de literatura. Atualmente, trabalha como editora na Relatar-se. Foi professora de Teoria Literária da UNESP (2021-2022) e co-organizou o livro “HC 21: leituras de Haroldo de Campos” (7Letras, 2021). Acadêmica, tem pós-doutorado em Estudos Literários pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR) e doutorado em Literatura pela Universidade de Brasília (UNB).

“Sad trip” (Corsário-Satã) é seu primeiro livro. Seu próximo livro de poemas está no prelo e se chamará “Meninas, eu vi”. Será publicado pela editora Relatar-se ainda no primeiro semestre de 2023 e parte de uma perspectiva feminista a respeito da sexualidade e prazer femininos.


Independência Poética: Dejanira Rainha Santos Melo

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA

Poeta de hoje: Dejanira Rainha Santos Melo

Meu nome é Dejanira Rainha Santos Melo, sou mulher negra nascida em Periperi, bairro do Subúrbio de Salvador. Sou filha de um homem negro retinto que era carpinteiro, marceneiro e estofador: Aguinaldo Alves de Melo e de uma mulher considerada branca em Salvador, dona de casa: Celeste Rainha Santos Melo. Estudei em escola pública durante toda a minha vida e cursei a universidade pública. Formada em Letras Vernáculas e em Pedagogia na UFBA, entrei no serviço público na Rede Municipal de Ensino de Salvador em 2000. Mas exerço a profissão de professora das séries inicias do Fundamental I desde 1994. Sempre trabalhando no Subúrbio. Faço poemas desde muito jovem, mas nunca publiquei, tendo os meus cadernos e agendas cheios de poemas que faço nos momentos mais inusitados a partir de uma ideia, de uma angústia ou de um grande prazer que grita dentro de mim a qualquer momento do dia ou em qualquer lugar. Sempre apresentei meus poemas em saraus ou em festas de amigos e amigas, mas somente em 2021 tive a ideia de criar uma conta no Instagram para divulgar os meus poemas. Também recentemente resolvi procurar editoras para publicar livros físicos de poesia, principalmente o meu primeiro livro infantil de poesia a pedido das crianças a quem eu venho apresentando os meus poemas como uma das ações da Biblioteca Social Afro-indígena Meninas do Subúrbio da Qual sou guardiã juntamente com Luane Pereira. Escrevi o prefácio de dois livros de poesia: “O Amor Não Está “ de Jovina Souza e “Preto Ozado” de Lucas de Matos, umbos poetas negros. Participei de Flipelô em 2000 e da última Bienal do Livro em Salvador.

O que te inspirou a começar a escrever?

A leitura de poemas dos clássicos da literatura brasileira me inspirou a escrever. Os poema que lia na escola primária, como chamávamos na minha época e também no colégio. O texto poético sempre me atraiu e eu sempre demorei as poesias que eram trabalhadas na sala de aula. Ficava repetindo no espelho até não errar nenhum verso. A poesia foi um dos motivos de eu ter trocado a faculdade de Filosofia pela faculdade de Letras Vernáculas 1999.

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

Fico muito tranquila, porque eu sei que é algo que passa e logo logo a palavra vai saltar da minha cabeça, brincando, querendo ser outra coisa, ter outra forma, dizer o óbvio de uma maneira inusitada. Eu só espero pacientemente a palavra ser tudo que ela deseja é quer ser: arbitrária por excelência, ilusória e criadora da realidade que desejamos ou até mesmo da que não desejamos.

Seu maior sonho como escritor(a)?

Atualmente eu tenho desejado muito publicar um livro físico.

Assunto preferido de escrever?

Valorização da mulher negra e da criança negra.

Um elogio para sua própria escrita?

Cada vez mais fluida, mas sedutora e mais atraente.

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Estou em vias de publicar. Procurando editoras.

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

Justiça para o povo negro, desejo feminino lésbico e como trabalho com crianças faz 29 anos o universo infantil.

Qual dos seus poemas mais te define?

Redenção

Dei para acreditar
Que vou pro céu
Porque sou imperfeita
Porque amo o candomblé
Namorar com mulher
Tomar uma cerva
Em dia de canseira
Dizer palavrões
Quando caiu na feira
Imaginar o que existe
Debaixo da blusa da freira
Imagino a grande piada de Deus
Com o perfeito idiota
Que não viveu
Nem no pensamento
Nem no corpo tenso
Riu sozinha da imaginação
Fumando, sentada
Ouvindo um samba canção
Ascendendo numa nuvem
Tida de algodão
E de lá de baixo
Os que não treparam
Pensam na foda perdida
Na comida cuspida
No catarro sem cigarro
E querem outra vida
Para se redimir.

Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

A mais fácil é deixar a escrita fluir quando ela quer chegar. A mais difícil é tentar corrigir um poema depois que ele foi sentido e pensado do jeito que saiu da primeira vez. Eu fico achando que ele passa a ser uma outra coisa, um outro sentimento. Porque no geral eu escrevo coisas que sinto e penso a partir do instante. Eu fico sempre achando que se corrijo passa passa ser uma espécie de fraude d sentidos. E claro que isso é só uma viagem, mas eu viajo nisso.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

Atualmente eu tenho me encatado cada vez mais pelo Livro “O Amor Não Está “ de Jovina Souza. É um livro inspirador e tem muito a ver com tudo que eu tenho vivido na atualidade.


A orfandade das fotos

Crônica de Joaquim Cesário de Mello — Temo o triste destino das minhas fotos. Daquele menino de ondulados cabelos ainda louros salpicados de laquê, posando com um olhar distante como quem assustado olha além da infância. Só eu sei daquele menino e de suas confidências e de todos seus esconderijos e mistérios. Só eu sei e ninguém mais. O que será dele naquele retrato quando eu não mais viver? Morrerá o menino comigo, restando a foto que nenhuma pessoa mais olhará

Seja muito bem-vindo à Kuruma’tá, caríssimo conterrâneo do Recife! Dentre a bela seleção de poemas e crônicas que nos enviou, destacamos essa A orfandade das fotos, crônica com tema que muito nos interessa aqui na revista, a fotografia, e que é tratado com beleza nessas linhas.


Crônica de Joaquim Cesário de Mello

Qual a serventia de uma foto sem lembranças? De que valem aqueles rostos fotografados de um instante que não existe mais? Rostos desaparecidos da vida cujos olhares ressuscitavam o burburinho hoje silenciado pela distância da memória. De que servem estes rostos e estas fotos se elas não foram feitas para os mortos? Qual vivo se interessa pelos vestígios domésticos e corriqueiros do cotidiano murcho de uma geração remota? Porém elas ainda resistem empoeiradas em meio ao mofo dos fundos das gavetas. Quantas caixas de sapato não guardam resíduos de memória de um passado desvanecido de quem não existe mais? As caixas velhas de sapatos e o fundo das gavetas são o cemitério onde estão sepultados o que deixou de existir de quem deixou de existir. Triste é o destino das fotografias de um morto.

As fotos de um morto não me dizem nada. De nada sei o que sentia, pensava ou sonhava. Instantâneos de uma vida que não vivi, de juventudes e alegrias que não foram minhas, imagens indizíveis de migalhas de tempo em que eu não estava lá. Tudo é tão mudo e inerte nas fotos sem donos: fragmentos inanimados de uma vida invisível pelo esquecimento. São gravuras que só têm significado em função da vida daqueles que ali estão. As fotos sem o seu senhor são espectros que recusam deixar um mundo que não mais lhes pertence. Se essas fotos exalassem o aroma das flores teriam o odor dos cravos.

Fotos assim tão órfãs não trazem a dor da saudade ou a crueldade do rememorar da perda. São ocas e fúteis. Não se pode sentir a brisa dos ventos entre o assanhar dos cabelos nem o brilhar da paisagem nas retinas. De que lá sei eu daqueles abraços cujas mãos não se tocam mais, ou dos amores rompidos no chegar das horas posteriores? Ali devem ter desejos frustrados e anseios sumidos. Sorrisos que depois viraram lágrimas, e olhares que olham para quem não lhes olham mais.

Rostos opacos e obscuros. Semblantes gélidos e inanimados. Gestos petrificados. Flagrantes proscritos e extintos. Segredos desaparecidos para sempre, permanentemente. Por que, então, eles continuam ali a nos desafiar a eternidade com o registro desafiante de sua imutável finitude? Para que servem os retratos depois que vem a morte e o fim de tudo? Deveriam evaporar no exato segundo do falecer de seus senhorios. Não ficariam assim inúteis e não seriam apenas somente fotos.

Temo o triste destino das minhas fotos. Daquele menino de ondulados cabelos ainda louros salpicados de laquê, posando com um olhar distante como quem assustado olha além da infância. Só eu sei daquele menino e de suas confidências e de todos seus esconderijos e mistérios. Só eu sei e ninguém mais. O que será dele naquele retrato quando eu não mais viver? Morrerá o menino comigo, restando a foto que nenhuma pessoa mais olhará

Crédito da imagem: Autoria não identificada/Acervo Instituto Moreira Salles

Joaquim Cesário de Mello é psicólogo, psicoterapeuta e professor universitário, residente e domiciliado em Recife (PE). Em meados dos anos 1980 participou do Movimento de Escritores Independentes e foi colunista da Vida Crônica (1998 – 2002) do encarte JC Cultural do Jornal do Commercio (PE). Escritor e poeta, participou de várias antologias literárias, entre elas Nouveaux Brésils Fin de Sciècle (2000), Poesia Viva do Recife (CEPE, 1996) e Cronistas de Pernambuco (Carpe Diem, 2010), Poesia na Escola (Palavra e Arte, SP, 2021). Autor dos livros Dialética Terapeuta (Litoral/PE, 2003), A Alma Humana (Labrador/SP, 2018), A Psicologia nos Ditados Populares (Labrador/SP, 2020), A Vida Como Um Espanto (Labrador/SP. 2021) e No Cemitério das Nuvens (Folheando/2022).

No futuro, Crosby morre

Texto de Toinho Castro — Eu e Roberval costumávamos ouvir David Crosby , naqueles discos, Crosby, Stills & Nash e Déjà vú, esse com Neil Young. Era essa coisa meio hippie que a gente adorava. Lembro que assistimos, não sei se juntos ou separadamente, Woodstock no Teatro do Parque, numa sessão épica. Crosby morre e é disso que recordo.

Texto de Toinho Castro

Montagem de imagem do Google Street View com foto de Nasser

Eu e Roberval costumávamos ouvir David Crosby , naqueles discos, Crosby, Stills & Nash e Déjà vú, esse com Neil Young. Era essa coisa meio hippie que a gente adorava. Lembro que assistimos, não sei se juntos ou separadamente, Woodstock no Teatro do Parque, numa sessão épica. Crosby morre e é disso que recordo. Eu e Roberval ouvindo esses discos lá na Imbiribeira. Lembro do nosso amigo |Artur, que detestava toda “essa merda hippie”. A gente o amava, justamente por isso, porque ele não deixava por menos. Ouvíamos música no apartamento de Artur, o Sandinista, do Clash, que acabou nas minhas mãos, cheio de dedicatórias confusas… para acabar nas mãos de Pedro Siqueira, que não sabe da assombração que ronda o disco. Assombração de longas noites, de poesia e amizades e caminhos partidos, corações partidos. Agora mesmo Crosby toca aqui na vitrola, uma edição de Déjà vu, comprada por intermédio de outro amigo, o Leonardo Martins. Almost cut my hair, com todas aquelas guitarras e aqueles versos, meio bobos e belos…

When I finally get myself together
I’m going to get down in that sunny southern weather
And I’ll find a place inside to laugh
Separate the wheat from the chaff
I feel like I owe it To someone, yeah

Escuto e a Imbiribeira não volta. Não sei por onde anda artur, se vivo ou morto, pra me dizer pra parar de ouvir essa “merda hippie”. E o fato é que essas músicas me lembram Artur, o que é maravilhosamente irônico.

Da calçada na Monsenhor Tabosa, Toinho e Beval do passado me acenam, e estiram o dedo médio em minha direção, porque não precisam de mim como preciso deles. Porque logo mais chegarão Melque, Boca de Cabelo, Behind, Côio, Dipilique, que morreu, e Luisinho. Tipo, “foda-se, Toinho do futuro! No futuro Crosby morre!”.

PS. O amigo Fábio Fernandes sugeriu escrever um livro com o título No futuro, Crosby morre. Fica a dica pra vocês mesmo, Fábio, escreve esse livro!!