Texto de Uelson Teixeira — Na cama fiquei escondida dentro dos lenções que protegiam-me daquele ruído quase devastador, passou um tempo resolvi ver o que era, acendi a luz do quarto que não precisava pois um luz mais fonte vinha de fora da casa, porem acendi e com uma garrafa de vidro que peguei na cozinha sai a desvenda aquele mistério.
Texto de Uelson Teixeira
Sobre foto de Vladislav Nahomy
Uma noite que estava clara como a luz do luar, uma luz tão forte que passava por entre as janela e portas, luz que refletia no mais alto dos céus. Nesta noite esbarrei com o que havia de mais supérfluo e aterrorizante, estava eu entrelaçada na minha cama, pronta para ir dormir; quando de repente ouço vindo de dentro da casa um ruído enorme e pavoroso, cheguei a tremer-me de medo; tudo passava na minha cabeça, que podia ser um ladrão, um animal ou até mesmo um podre louco.
Na cama fiquei escondida dentro dos lenções que protegiam-me daquele ruído quase devastador, passou um tempo resolvi ver o que era, acendi a luz do quarto que não precisava pois um luz mais fonte vinha de fora da casa, porem acendi e com uma garrafa de vidro que peguei na cozinha sai a desvenda aquele mistério.
Na cozinha nada tinha, muito menos no restante da casa. |Tudo parecia tão normal, que passou pela minha cabeça “estou a ficar louca, ouço vozes na minha cabeça”; aquele barulho forte voltou, aquela luz forte que fazia tudo ficar mais assustador do que já parecia ser, era um verdadeiro terror. Na minha cabeça já tinha visto todos os cômodos da casa, até mesmo o quarto de hóspedes que ficava minha prima quando vinha passar as férias aqui em casa. Voltei para o quarto e esperei ansiosa pela partida daquele barulho infernal; enquanto esperava lembrei-me que não olhei o banheiro do quarto onde ficava minha tão amada prima, percebi quando o som infernal foi embora, decidir olhar o banheiro; único cômodo que não tinha visto.
Levantei, abrir a porta do quarto, andei pelo corredor até o outro cômodo, olhei para trás. Aquele corredor queria me falar alguma coisa, pensei… entrei no quarto fui ao banheiro acedi a luz… apagou-se… tremi … de repente veio aquela claridade vi uma das criaturas mais horríveis do mundo, um escarro… fiquei paralisada, imóvel não fiz um movimento se quer; passou tempos e eu ali parada, a luz acendeu, apagou, voltou a clarear. Vi-me no espelho, a triste imagem de uma pessoa perdida em um sonho eterno.
Uelson Teixeira nasceu em 26 de Novembro de 2000. Escritor, Estudante de Letras UEPB, da cidade de Monteiro, na Paraíba. Para Uelson,, escrever é outro modo de encantar!
A poesia de Tereza Du’Zai
Que a excelente poesia de Tereza Du’Zai seja muito bem-vinda à Kuruma’tá, com suas imagens, seus ritmos e seu discurso incontornável do feminino, da mulher perante o mundo. Com sua liberdade intensa do falar. Poesia de vida, que pulsa, desafia.
PUTA
Quando minha filha nasceu, não me tornei mais uma desgraçada mãe solteira, me tornei PUTA; Quando apelei à justiça pelos direitos dela, fui rechaçada, uma velha professora me mandou criar vergonha na cara. “Sabia que ele era casado, agora quer tirar dinheiro da família do coitado? Ele tem filhos com a esposa, e ela não vai aceitar isso, guria! Tais doida?”. Meus filhos receberam pensão, sim, de acordo com a legislação. É preciso honrar as conquistas de mulheres que se importam. Entendem?… Quando rejeitei candidatos a “salvar” minha reputação, todos diziam ter me comido e “saído fora”; Quando eu aparecia com um namorado, logo as vozes se erguiam uníssonas:: “Tá na cara que ele só quer ela pra comer e jogar o bagaço fora”. Ora! Eu era uma PUTA MÃE SOLTEIRA e ele queria experimentar – certamente eu me prestava a todas as suas exigências sexuais; Quando entrei para a faculdade, não estava estudando nada, estava era fazendo programa. Inclusive nesse período descobri ter feito dois abortos. Sim, um aborto seria pouco, mas dois foram suficientes. Quando descobri tê-los feito – após uma série de ataques por consanguíneos, colegas de turma e de trabalho além de puta me tornei diabólica, um péssimo exemplo como professora; Quando eu esperava o ônibus sozinha num ponto deserto, por volta das 23 horas, para finalmente voltar para casa, na zona rural da cidade, triste por saber que encontraria minha filha dormindo, exausta depois de um dia de trabalho e estudo, percebi uma movimentação estranha, carros conduzidos por motoristas machos e fêmeas, buzinando, passando devagar. Alguns me ofereciam carona, me chamavam para um “passeio”, ou só faziam um sinal para entrar e seguir. Havia conhecidas e conhecidos me espionando sorrateiramente, inclusive flagrei uma professora me fotografando… Acreditaram ter como provar: se tratava de uma PUTA PROFISSIONAL, e fazia programa enquanto minha mãe sofria cuidando da neta; Quando morei com um namorado e engravidei de meu segundo filho, a família dele me orientou a doar minha filha aos meus pais para que fosse possível seguir com o casamento, afinal ele era um rapaz jovem, bonito, solteiro, merecia alguém em situação semelhante… Foram três anos infernais, diversas separações e voltas. Ele rasgava minhas calcinhas se as considerasse pequenas; vestia minhas roupas rasgando-as também. Não demorou muito para eu me encontrar usando camisetas dele como vestido. Certa vez jogou um Baudelaire no lixo. “Qual a razão de eu ler aquelas merdas. Já não era louca o suficiente?”. Por que permiti? Eu não permitia, eu o enfrentava, sempre o enfrentei, lutei muito, o Baudelaire não ficou no lixo, eu o li, Flores do Mal. Foi um período difícil de minha vida. Diziam para eu pensar no menino, diziam que ele mudaria, amadureceria, e eu persisti enquanto me foi possível, tornando o fim muito mais dramático. Eu não doei minha filha, segui minha vida com meus dois filhos; com meus dois filhos rejeitados por seus pais, crianças perplexas diante dos preconceitos incompreensíveis para mim, preconceitos também manifestados contra eles nas Unidades de Saúde, nas escolas, nos aniversários de sobrinhos – isso quando os convidavam. Quando eles foram para a escola, não faltou assédio, sondagens maliciosas, tentativas de manipulação contra mim, se iam de uniforme, não tinham outra roupa para vestir, voltavam com doações, peças enormes para eles, furadas, manchadas; se iam com roupas de passeio, recebiam advertência para eu assinar – três advertências para uma suspensão, avisavam. Minhas crianças tinham roupas, se fosse o caso, eu deixaria de comprar para mim, elas foram sempre muito bem cuidadas. Meu filho terminou o ensino médio noutra cidade, pois, quando estudou na cidade onde nasceu, reprovou, por não aceitar as investidas contra ele, contra mim, contra nós. De personalidade semelhante a minha, se declarou ateu aos dez anos e isso os revoltou ainda mais, quando fui chamada à escola para conversar sobre o assunto. Se era verdade ou ele estava mentindo. Eu respondi: sou ateia, ele pensa como eu, talvez pense diferente um dia, não sou eu quem irá decidir, e decidiu ser ateu – e continua ateu. Sobre a reprovação, ele havia adiantado um ano de sua vida escolar com a implantação do ensino fundamental de nove anos, e ficou tudo certo, claro, para a decepção da perversidade inserida no meio pedagógico. Covardes! Lembro-me dos rótulos impressos por alguns professores: “o filho da outra, o debochado…”. Quando minha filha engravidou, solteira como eu, logo teve início uma série de ataques idênticos aos sofridos por mim. Afinal a história deveria se repetir. “Viva!”. Mas nós dissemos: NÃO! E NÃO! E NÃO! Porque todas as famílias que conhecíamos tinham, e têm, suas PUTAS; algumas são putas exclusivas, de um machista só. Vivem infelizes, mas se dizem casadas e de respeito. Muitas são estupradas com frequência por seus maridos, mesmo enquanto dormem, depois de uma jornada dupla, tripla… de trabalho – Preciso dizer: o estupro durante o sono é uma barbárie ignorada, muitas vezes comentada com normalidade entre as heroínas do lar como algo natural, afinal é seu cônjuge quem a está estuprando, são mulheres casadas, mães do lar. Mulheres de respeito raramente são estupradas, isso é mais comum entre putas, putinhas, putonas, como me definiam. Aliás, algumas dessas digníssimas senhoras são putas religiosas, fodem com vários servos de Deus em nome de Jesus, e gozam gritando: Aleluia! Aleluia! Outras são putas que adoram sair com rapazes mais jovens, com quem vivem os melhores momentos de suas vidas e têm seus melhores orgasmos, ou únicos, pois costumam fingir para seus maridos em suas transas à papai e mamãe. São cúmplices perniciosas do patriarcado, por isso jamais as defendo. Muitas delas me apedrejaram o suficiente para que eu tivesse certeza do quanto são repugnantes, perversas, infelizes, invejosas… Sórdidas a ponto de envolver outra mulher nas mais terríveis experiências em nome de uma moral falsa, catastrófica, criminosa. Seus maridos infiéis, não raramente, fodem com outras mulheres e outros homens. Se sabem ou suspeitam? Muitas, sim, mas fingem, em benefício próprio, que não. Esses potros são muitas vezes os principais provedores da casa, Por isso, é deles o melhor carro; partem deles as principais decisões da família, de suas vidas. Por fim, quando perceberam o quanto eu havia me fortalecido ao me defender e enfrentar suas conspirações veladas, passaram a agir de um modo bastante vulgar, mas sobre isso, nem irei comentar, é desprezível, embora cômico. Elas continuam a defender suas rePUTAções. Assim como eu, uma ex-puta, defendo as putas, contra essas tais inimPUTÁveis.
Boceta
De pé no meio da praça, ele observa o movimento a sua volta, vestido à executivo: terno sob medida, óculos Gucci, pasta Prada, tudo original: sério, gargalhante, sério, gargalhante, sério gargalhante… P0rrA! Alguém precisa chamar a família! Ou é rico e doido, ou vigarista e doido, ou um principal se divertindo coma cara da ralé. E super loucos, super ansiosos para vê-lo se f0dend0. Eu cá não duvido: fez uma aposta entre os seus enquanto bebericava um Grand Cru. Um grande kÜ? Rsrsrs… Grand Cru, é uma marca de vinho. Ele deveria experimentar uma Corote dividida entre os trecheiros numa pet. Não há nada nele de andarilho. Foi aposta: quem conseguir juntar o maior número de curiosos por mais tempo ganha algo que não podemos comprar. Ricos se divertem com a curiosidade dos desgraçados que os financiam. Deve ser um escravagista do pinto rosa. Pode ser um psicótico. Estranho é a polícia ainda não ter chegado. Olha uma viatura estacionada lá! Contei quatro. Talvez seja um espião. Sei lá, melhor ir embora. Quer saber? Esse merda que vá tomar no Ku! Tenho de trabalhar. Preciso ir também. O Carlos está ali na Hercílio comprando um sapato. E não é um Brioni! Car@lh0! Preciso pegar a Anastácia na escola! Se der eu volto. Ainda não almocei. Também tentarei passar por aqui na volta. Quero saber qual é a desse maluco. E a da polícia também. Disfarça! Olhe quem tá lá!… A cópia do atestado falso há de estar na bolsa, Veio às compras e aproveitou para assistir um show, só para espairecer, peidar enquanto os carros passam, buzinam… Observe: ele parece indiferente à plateia.! Lá vem o But-But! O pastor da Sete, como sempre, vestido à marrom-diarreia. Agora, sim! Veja! Ele se aproxima com a Bíblia aberta. Está ronspirando: Ronc, ronc, ronc… Aleluias! Glória a Deus! Ronc, ronc… Oremos! Ronc, ronc, ronc… Sai daí, suvaquento de bosta! Deixa o cara, porra! Vai But-But! Expulse dele todo espírito de riqueza, vaidade e concupiscência. Conscup, concuspe! O quê? É só uma palavra. Esqueça! Ai, malandro da Sete, lança pra cá toda sorte de grife que cobre o corpo desse ambicioso endemonhado. Eu quero a mala! Os óculos! Aqui! O terno! O terno! O terno pelo amor de Deus! Eu mesmo faço os ajustes, But! Mas enquanto o charlatão se aproxima, o desconhecido se empolga: desce as calças, exibe sua b0 c ta depilada, rosada e linda: Louvado seja o Senhor Deus, meu adorável irmão! Em nome de Jesus, eu imploro: ore pelo milagre do pau nascente. Não precisou mais de um minuto para que suas roupas e acessórios fossem todas atiras para o alto, por ele mesmo, causando grande alvoroço entre os seus expectadores e perplexidade aos olhos encantados de But-But. Lígia lutou pelos óculos, mas alguém o furtou enquanto ela tentava enfiá-lo em sua bolsa; Cadu deu um salto certeiro sobre a pasta e saiu correndo como um atleta em uma pista rápida. O terno foi disputado com tal fúria e nada sobrou além de farrapos de tecido nobre, porém inúteis. O cinto caiu nas mãos de Mana Pitolina, de quem ninguém conseguiu mais se aproximar. Lá pelo meio da tarde, ela voltou faceira com cigarros, pinga, leite condensado, macarrão instantâneo, refrigerante… Somente quando o alvoroço terminou, os curiosos remanescentes atualizaram suas informações sobre o encontro entre But-But e o desconhecido, o qual glorificava a Deus enquanto o vigarista, arrebatado pelo vigor de sua linda bo c ta, a chupava com o furor , esganado de uma ovelha faminta em pasto gordo, ou ácaros pyemotes tritici, gemendo interjeições diabólicas. Sua respiração ofegante aumentou o fervor de seus roncos. Fato: o desconhecido não tinha pênis, tinha, sim, uma bo c t@ sedutora, a qual fora exposta pela fúria libertadora do execrável But-But. Espírito de pomba gira, possua o corpo deste teu dedicado servo A GO RA! Ronc! Ronc!… Se ambos foram presos por atentado ao pudor? Que blasfêmia! A políci@ não haveria de interromper um exorcismo sacrolibidinoso de tal relevância por conta de um bando de bisbilhoteiros desocupados. Eu hein!
De Pernas Abertas
Como um tumor outrora revestido por delicada capa brilhante, Você avança com seus tentáculos vermelhos. Como você se sente, senhora B.? Santa Senhora B. Sempre tão orgulhosa com suas toalhas de prato bordadas, E uma cidade para defendê-la. Bonitinha, enfeitadinha, Anedota de bajuladores. Esposa, mãe, filha, tia, Prostituta conjugal. Sem rumo em sua própria casa, Você aguarda a volta de seu potro; Amordaçada num casamento de aparências, Privada do privilégio de ser a protagonista de sua própria mentira. A culpa é sua, Senhora B. Você é culpada por essa casa, esses móveis, essas cortinas, essas refeições; Você é culpada por esses vizinhos, essas visitas, o egoísmo de seus filhos. Você decidiu permanecer, Permitiu que a adestrassem: ele e os outros. Primeiro um carro para ele, depois para você – um modelo inferior, um carrinho “de mulher”, Você é culpada, Senhora B. Por todas as traições sofridas, Não se faça de vítima, você as mereceu, Você as merece. Você é falsa e conivente, Senhora B. Não o julgue pelos filhos concebidos em leitos alheios; E não finja tê-lo perdoado, pois você jamais se perdoou, Sobretudo, não finja amar esses filhos gerados noutros ventres, Isso pode ser perigoso para eles, e para você, Senhora B. Saiba: ódio e amor são sentimentos antagônicos. Essas moças, a quem você chama “vagabundas”, São tão vagabundas quanto você, Senhora B.
Não perturbe meu silêncio
Porque você não sabe nada sobre ele, Porque, enquanto eu falava, você não quis me ouvir; Agora ele tomou dimensões descomunais, Sutil, sem fúria. Criou tentáculos entre os quais me abrigo sentindo a pulsão de sua profundidade, a viscosidade de sua pele. Vocẽ já não consegue alcançar minhas mãos, nem eu as suas. Lágrimas silenciosas descem, evaporam, drenam meu corpo, pouco a pouco… Você conhece o poço dos silenciados? Nele conversamos nossas dores sem falar. Lá, o tempo se divide em dois, E você poderá ouvir os ecos da mudez do mundo
Do Eu à Lírica
Não me impeça de partir, Distanciar-me de tudo o que vivi. É justa minha insatisfação; Esta ansiedade para deixar seus lodaçais, alcançar colinas, transpor pontes, ou – por que não? – descansar no silêncio tumular. Suas reminiscências gotejam desamor e crueldade. Não simule a dor que, francamente, não sentes! Não chores! Nuvens cinzas aparecerão como mantas de chumbo. Contudo, os vapores da saudade desaparecerão na indiferença dos desprotegidos. Mesmo que meu refúgio sejam cavernas escuras, nelas estarei alheia aos tormentos dos crentes alpinistas. Lá invocarei o Deus-corpo e com ele comporei uma canção à Mãe-Não. Nos reconheceremos, Eu e Deus? Ouçam os ecos das débeis elegias surdas dos carniceiros. Aprisionem suas dores tardias em seus sentimentos rochosos. A mulher-fábula caminhará.
Poeminha do Mal II
Quisera eu, com meu poema, asfixiar, sangrar, esfacelar sua ideologia de estábulo. E, como fazem as poetas malditas por natureza, Arrancar e atirar longe essa máscara ardilosa que esconde sua face. Sua face morta. Morta de medo, morta de vergonha, morta de rir. Eu rio de você, com e sem máscara. Nós. Fluidos corporais: gases, vômitos, diarreias, palavras. Minha pele filtrada. Boca espumante, Dedo na cara. Pernas fechadas: dou, não dou… Mil infernos dentro de mim. Eu fecho a cortina para não agourar meu dia. Ovo podre! Galinha choca! Estourou no mundo, cuspiu meu embrião psicótico. Meus versos, meu travesseiro, minhas unhas crescendo Tenho mágoas, tenho dó, Sou um circo, sou um rancho, sou uma vaca. Toctoctoctoc Faça amor com um palhaço e goze rindo na roda de fogo. Estou repleta de hematomas. Que surra, meu Deus! Chicote? Sim, com ponta metalizada. Tantos céus sobre minha cabeça… E nenhum sobre suas costas? Vomitei uma serpente. Quer uma jaca? Um nabo? Um chuchu? Sopa de lesma, leite de baleia, panqueca e pancada. Profissão: matadora de poesia. Quisera eu matar a mentira a socos e pontapés. Vê-la se contorcer, se encolher como um verme exposto ao sol. A culpa é sua por despertar em mim o pior sorvete do mundo. Alô, mamãe! Alô, papai! Donas de casa! Alô, Dona Maria! Ovos fresquinhos direto do cu.
Tereza Du’Zai, natural de Itajaí, SC, é poeta, contista, cronista e professora de Língua Portuguesa e Literatura. O tempo, a loucura, a solidão e a morte são temas recorrentes na obra de Duzai. Vencedora do III Concurso UFES de Literatura na categoria poesia, participou também de coletâneas publicadas entre 2016 e 2022
Quem se acostuma com pouco, desconhece sua capacidade, e também a generosidade que há na força da natureza, que mesmo bela, não esconde seus desafios que podem ser mortais. Somos parte deste universo que desvendamos ao longo da vida, ainda que incontáveis, estão entrelaçados num ninho que não se deixa abrir facilmente, aos olhos, são imperceptíveis, como a mente, um infinito labirinto. Por sorte, a intuição que célere se apresenta como misteriosa e inexplicável, porém, sábia como a própria natureza, e se lhe é estranho admitir tão precioso conselho, devera impiedosamente sujeito à escravidão dos seus cegos olhos.
Inútil, o ser se revolta contra seu semelhante, sem distinguir valores que compreendem a sociedade, venera o simbolismo da escuridão, impõe suas vontades emanando o ódio aliado a força física, enfraquecendo o intelecto, destruindo toda cultura que simboliza o amor, a fé e a esperança, cerceando direitos fundamentais já estabelecidos, criando assim suas próprias leis.
Quem almeja o impossível, tem à mente um caminho de mistérios e obstáculos a seguir, a depender do tamanho da sua fé, encontrarão portas que se abrirão cada vez que precisar repousar.
O amanhã será presente e certo, à luz do dia será alimentado, essa força, desconhece o vazio que ocupa a mente dos que mentem por tão pouco saber.
Cantora e compositora, Ana Egito é uma artista com trajetória internacional. Aclamada por crítica e público por sua performance e voz afinada seu primeiro contato com a música veio através dos Festivais da Canção e sua carreira profissional teve início na década de 1980, tendo como padrinho e mentor o saudoso cantor e ator Ivon Cury. Ele a levou para se apresentar como caloura no programa de TV “Cassino do Chacrinha”. Naquele dia ela ganhou o prêmio e foi convidada para participar da “Caravana do Chacrinha”.
Impossível dizer que não senti | Segundo disco de Mariana Volker está nas plataformas!
Eu já ia publicar um texto com três ótimos motivos para ouvir Mariana Volker. Os motivos são os singles que ela lançou como prévia, pra esquentar os corações, enquanto seu novo disco não chegava… pois não é que chegou?! No último 21 de outubro Impossível Dizer Que Não Senti caiu nas plataformas de streaming como um alívio
Eu já ia publicar um texto com três ótimos motivos para ouvir Mariana Volker. Os motivos são os singles que ela lançou como prévia, pra esquentar os corações, enquanto seu novo disco não chegava… pois não é que chegou?! No último 21 de outubro Impossível Dizer Que Não Senticaiu nas plataformas de streaming como um alívio, um respiro, um olhar pra vida depois desses dois anos pesados, intensos, cheios de tanta dor, mas não sem esperança a permear as tentativas de seguir. E aqui estamos.
Compositora, cantora e instrumentista, Mariana mergulhou no seu piano para nos trazer nove belas composições, sendo duas delas releituras, Disk me, de Pablo Vittar, e Que se chama amor, do grupo Só pra contrariar. As demais composições ela assume de próprio punho e coração ou compartilha em parcerias com Paula Santa Rosa, Valentina Zanini, Pedro Sodré e Rudah Guedes.
Dou play no disco e me deixo levar pela voz de Mariana, límpida e intensa, parece um tecido ao vento, que no movimento vai revelando sutilezas, dobras, profundidades. Coisa bonita de se ouvir, porque não se impõe sobre o instrumental. Numa cadência incrível ela se infiltra e amplia o trabalho da banda e do piano de Mariana, com naturalidade.
Impossível dizer que não senti pode ser escutado do começo ao fim, como a narrativa de um viver entre dores, amores, saudades. É um disco de música brasileira, dessa música brasileira que dialoga, que conversa com passados, futuros e outras terras. Uma autenticidade feita, certamente, de amor à música. Vejo Mariana como uma amante da música. Isso se reflete no seu trabalho. E de ouvir o o Brasil e o mundo, o disco tem algo de caseiro, assim senti. Mas casa com janela pra gente se debruçar, com porta aberta pra rua. Algo de dentro. Sabe?! Chegar em casa, ligar o som e deixar esse disco tocar enquanto a gente se desfaz da rotina, do trabalho, da pressão. Não que seja um disco leve. Tem uma tristeza, permeando finamente as melodias, mesmo nos momento mais alegres. Não é um tristeza pra ser evitada. É pra gente saber que ela está ali, que ela faz parte, que sobre ela muitas vezes se constrói a felicidade.
Gente, já falei muito, levado pelas canções tão bonitas que vão se sucedendo. Mariana é desse geração de mulheres talentosas demais que estão dando uma lição de como nossa música pode ser rica, diversa, complexa e tão bela. A melhor música brasileira, hoje, está sendo produzida por mulheres. Mariana tá no meio disso, inventando, arriscando, compondo, juntando pontas e parcerias e botando a gente pra cantar com ela, cantar juntinho e dançar e pensar naquele amor, naquela saudade, no porvir e na força de levar um ao outro.
Em outro universo Tão nosso com todas estrelas Que a gente inventou Que a gente inventou
Nessa viagem que é mais veloz que a luz O tempo espera o compasso do amor Compasso do amor
Me leva Que eu vou te levar (Hiperespaço)
Amei Impossível dizer que não senti e tô aqui ouvindo canção a canção, lembrando histórias, pessoas e mandando link do disco pras amizades, pra que elas escutem também e viagem comigo nesse hiperespaço do amor. Nessa avenida linda que Mariana abriu pra gente.
E eu sei que o dia vai clarear Quando abrir a avenida Em cores e flores só pra gente passar (Avenida)
Agora que já falei muito, três ótimos motivos para abrir as cortinas e ouvir Impossível dizer que não senti no maior volume:
ESCUTE A PLAYLIST COMPLETA DE IMPOSSÍVEL DIZER QUE NÃO SENTI
FICHA TÉCNICA DO DISCO:
Produção: Carolina Mathias, Pedro Sodré e Rudah Guedes Gravado no Estúdio MG (RJ), Estúdio Carolina (RJ) e Estúdio Biscoito Fino (RJ) Mixagem: Pedro Sodré e Gustavo Krebs Masterização: Arthur Luna (faixas 1, 2, 3, 4, 6, 7, 8 e 9) e Ricardo Garcia — Magic Master (faixa 5) Carolina Mathias — Produção musical, baixo, vocais, teclados, synth Manuella Terra — Bateria Pedro Sodré — Produção musical, guitarras, synth, teclados e programação Rudah Guedes — Produção musical, violão, clarinete, synth, teclados e programação Bernardo Aguiar — Percussão Antônio Neves — Trombone e Trompete Mariana Volker — Voz, vocais, piano e violão
FAIXAS:
01 — Água e Fogo — Mariana Volker 02 — Que se chama amor (releitura grupo Só Pra Contrariar) 03 — Hiperespaço — Mariana Volker e Paula Santa Rosa 04 — Outras Pessoas — Mariana Volker e Paula Santa Rosa 05 — Disk Me (releitura Pabllo Vittar) 06 — Avenida — Mariana Volker e Valentina Zanini 07 — Constelação — Mariana Volker, Pedro Sodré e Rudah Guedes 08 — Acorda Meu Amor — Mariana Volker, Pedro Sodré e Rudah Guedes 09 — Alguma coisa que eu não sei o nome — Mariana Volker
Foto de Capa: Julia Assis Direção de arte: Paula Santa Rosa Arte: Mariana Volker
Complexo de Cassandra – O adoecimento do saber diante de uma sociedade alienada e negacionista
No livro Complexo de Cassandra (Editora Sagarana, 2022, das pesquisadoras Liliane Abreu e Natalia Sayuri mergulham e analisam o fenômeno, escutando um grupo de médicos, enfermeiros, cientistas e outros tantos profissionais que submetidos à devastadora realidade do vírus e suas consequências, e também um grupo de negacionistas das mais diversas tendências.
Até onde vai a força negacionista? E como ela começou?
O negacionismo não é novidade e permeia nossas vidas, mesmo que em pequenas doses, desde sempre. Quem nunca se viu negando o óbvio que atire a primeira… não, por favor, não precisa atirar pedra em nada ou ninguém! Mas esses são episódios restritos, circunscrito a situações específicas, pessoais.
E quando isso se torna uma dinâmica social? E quando isso invade nossas relações, as decisões de estado sobre saúde e bem-estar, de maneira massiva?!
O que vimos na pandemia, discursos antivacina, prescrição de medicamentos ineficazes para tratar os quadros de Covid-19, a negação das mortes, da emergência sanitária… nos revela um quadro assustador que acomete não só o Brasil, mas se mostra uma tendência mundial.
No livro Complexo de Cassandra (Editora Sagarana, 2022, das pesquisadoras Liliane Abreu e Natalia Sayuri mergulham e analisam o fenômeno, escutando um grupo de médicos, enfermeiros, cientistas e outros tantos profissionais que submetidos à devastadora realidade do vírus e suas consequências, e também um grupo de negacionistas das mais diversas tendências.
O resultado é um livro robusto, profundamente esclarecedor, que traz luz sobre essa escuridão que nos cobriu e que está associada a difusos interesses políticos e econômicos, de exercício de poder e movida por máquina de desinformação que não para de trabalhar e gerar notícias falsas, mentiras e alimentar o medo, que está na base do comportamento negacionista.
Ontem, em mais um episódio do AoVivo Kuruma’tá, tivemos uma conversa com Liliane e Natalia, autoras do livro, e com a Jaciara Rosa, da Dedicata Comunica, amiga e parceira da Kuruma’tá, sobre o livro, sobre o momento que vivemos e sobre a esperança de resistir a tudo isso!
Primeiro capítulo, inédito, de uma ficção científica muito pouco pudica!
Para essa gente maior de idade, com muito amor envolvido
A Kuruma’tá tem a alegria e o prazer (Ah, esses dois, quando estão juntos…) de publicar o primeiro capítulo, inédito, da novela de ficção científica Patópolis, que o jornalista e cineasta Eduardo Souza Lima, o Zé José, começou a escrever nos anos 1990, quando nem existia coisas como Matrix e quejandos. Tivesse vindo à luz na época, anteciparia conceitos e tendências que se popularizaram na FC anos depois. Mas a época é agora, nesse impensável século seguinte, e a gente pode agora adentrar o universo de Patópolis!
PATÓPOLIS
por Eduardo Souza Lima
Episódio 1: “Moisés supunha que seus dedos eram rosas” (Betty Comden e Adolph Green)
Good morning, good mo-or-ning! Seis da manhã, o Despertador Donen toca. Moisés tateia a cômoda, pega a pistola incorporada ao aparelho e aponta… Good morning, good morning toBang! O holograma de Cosmo Brown cai para trás com um rombo no meio da testa enquanto os de Kathy Selden e Don Lockwood dão no pé. Até que esses 200 narizes de formiga foram bem gastos, pensa ele, satisfeito com o novo brinquedo. Ainda sonolento, arrasta-se até o computador e liga a caixa de correio: na tela, Martina está nua, com as mãos na parede, a bunda empinada, aquela penugem subindo pelo rego, um rabo de esquilo. Estou te esperando…, sussurra.
Moisés desperta como se tivessem injetado adrenalina no seu coração e manda uma sonda ao ciberespaço, para contatá-la. Tinha sonhado novamente com Martina; o tema era o recorrente: ela o procura fora do horário combinado, o que nunca havia acontecido até então, para convidá-lo a parar o tempo. A ligação dos meus sonhos? Moisés sentiu uma breve desconfiança, logo obliterada pelo habitual tesão incontrolável – tinha esse fraco, outra expressão a que ela dava forma. O combinado era que seus encontros sempre durariam uma hora e começariam pontualmente às 15:06h. Ele jamais poderia procurá-la: Martina o faria e Moisés lançaria uma sonda para receber as coordenadas do local do encontro. Certas perguntas eram proibidas. Ele também tinha seus segredos; então, o pacto lhe era conveniente – e as surpresas, bem-vindas.
Enquanto pensava nela, a sonda voltou sem nenhuma mensagem. Desapontado, começou a trabalhar.
SODOMA E GOMORRA (Sodom and Gomorrah/Japão, 2012) Direção: James Cameron. Elenco: Arnold Schwarzenegger, Ava Gardner, Linda Hamilton, Charlton Heston, Jane Russell, Michael Biehn, George Burns, Rossana Podestà. Épico. Deus iracundo (Burns) decide riscar do mapa duas alegres cidades. Somente o destemido Lot (Schwarzenegger) pode detê-lo. Rodado em Avatar System, a mais cara produção de todos os tempos (2 bilhões de narizes de formigas) e um retumbante fracasso de bilheteria que levou Cameron a cometer “Titanic – Além da vida”. 184 minutos.
O bico de resenhista da BlockBusterMax pagava as contas e lhe garantia anonimato necessário. Além disso, atendia ao seu principal requisito: Moisés podia se dar ao luxo de fazer uma pausa todas as tardes para se dedicar exclusivamente às vontades de Martina. Porém, deu a 15:06h e ela não ligou. Foi a primeira vez que aconteceu desde que se conheceram. Moisés ainda lançou uma nova sonda, mas novamente não obteve resposta.
Ele acreditava ter limpado todos os rastos de sua vida pregressa. Entretanto, mesmo que tenha tomado as precauções possíveis, Moisés conhecia o Lebréu como ninguém. E sabia que era praticamente impossível escapar do que foi concebido para ser implacável e inabalável. Teve certeza de que correria qualquer risco por ela antes mesmo do primeiro encontro; mas não custava redobrar cuidados – até para protegê-la, pois o procurado era ele.
Martina: seu nome começava arranhando a garganta e terminava num suspiro. Definia impecavelmente aquele apetite imensurável. Não era um programa, um boto ou um vírus-taxista, disso Moisés tinha certeza. Ele analisou cada nickname compatível ou ajustável em todos os bancos de dados que conhecia, e não encontrou nada parecido com ela – tanto em aparência como em personalidade e habilidades incomparáveis. Martina era a virtual materialização de seus sonhos; e os sonhos, ele acreditava, ainda eram indevassáveis.
Pegou no sono e a reencontrou em suas lembranças permanentes. Vem contar minhas pintinhas… ronronava ela, vestindo só a marca do biquíni, acariciando a os pelinhos abaixo do umbigo.
OCULTAMENTOS E A ESCRITA MÁGICA
Texto de Ana Andreiolo — A presente produção artística se desenvolve a partir da possibilidade de revelação de um mundo feminino. Com objetivo de abrir fissuras no pensamento dominante que nos forma culturalmente, tendo como pano de fundo um evento enigmático e paranormal de uma carta psicografada por uma mulher analfabeta, nascida na década de 30, no interior do estado do Rio de Janeiro, Brasil.
A SUBLIMAÇÃO DE UM MUNDO FEMININO
Texto de Ana Andreiolo
Ana Andreiolo é artista multidisciplinar, designer gráfica, astróloga e mestranda em artes visuais no Programa de Pós-graduação em Artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Aluna da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
RESUMO A presente produção artística se desenvolve a partir da possibilidade de revelação de um mundo feminino. Com objetivo de abrir fissuras no pensamento dominante que nos forma culturalmente, tendo como pano de fundo um evento enigmático e paranormal de uma carta psicografada por uma mulher analfabeta, nascida na década de 30, no interior do estado do Rio de Janeiro, Brasil.
OCCULTATIONS AND MAGIC WRITING THE SUBLIMATION OF A FEMALE WORLD
ABSTRACT The present artistic production develops from the possibility of revealing a feminine hidden world. In order to open fissures in the dominant thought that culturally shapes us, against the backdrop of an enigmatic and paranormal event of a psychographic letter by an illiterate woman, born in the 1930s, in the countryside of the state of Rio de Janeiro, Brazil.
Figura 1 – Ana Andreiolo, Sublimação, 2021, Zipper Galeria, São Paulo. Fonte: A Autora.
A gente combinamos de não morrer (EVARISTO, Conceição)
Devo a conjunção de Júpiter e Urano o inusitado acontecimento do ano de 1983. O encontro planetário inquietava o céu e relampejava mentes. Foi em uma tarde de domingo que uma mulher iletrada, nascida e criada num pequeno distrito escondido no estado do Rio de Janeiro, escreveu a próprio punho pela primeira e única vez, onze anos após o suicídio de seu sobrinho. A escrita automática e mágica continha uma mensagem do falecido.
Inesperadamente empunhada de lápis e papel, enquanto o apito do vapor da panela de pressão anunciava o aroma da feijoada que adentrava a sala, testemunhas oculares acompanhavam o acontecimento sobrenatural que atuava sobre aquela mulher. A senhora psicógrafa escreveu, apesar da inexperência e sem conhecimentos prévios, performando e produzindo uma ação impulsiva da linguagem corporal que pretendia ir além do pictórico para a manifestação de uma dimensão espiritual através do corpo.
Fez-se a importância do gesto, traçado por linhas verticais, horizontais, curvas, oblíquas, obtusas e agudas que formaram palavras. Contudo, acontecia ali, para além do significado do texto, a emancipação da estreiteza do pensamento governado pela razão. A desrazão daquela mulher, dissolvida num momento epifânico, denunciava a todos que a contemplavam a cultura agráfa na qual ela estava inserida. Evidenciava, à luz do pôr do sol que refletia por toda sala, seu mundo, até então, ilegível. Escreveu sem controle, sem preocupação estética, sem consistência gramatical, num estado transitório e misterioso que reside entre o adormecer e o acordar.
Revelações de um mundo misterioso, calado e ocultado, apareciam através do gesto mágico, traduzido em movimentos largos, rápidos e livres. Cada letra desenhada cobria com folga e extensão abundante a superfície do papel, numa espécie de tentativa de fuga ao seu condensamento social.
Figura 2 – Fotografia fac símiles sobrepostos das 3 folhas da carta original, 1983. Fonte: A autora.
As 3 folhas escritas, frente e verso, marcaram a profusão da fratura causada pelo acontecimento, onde a linguagem escrita cedeu lugar a ação gestual. Disse, certa vez, como relatado na Form Magazine (1916), o artista e ocultista Austin Osman Spare, famoso por sua técnica idiossincrática da relação entre consciente e inconsciente, que riscos automáticos de linhas entrelaçadas e enroscadas permitem que o germe de uma ideia da mente inconsciente se expresse, ou pelo menos, seja sugerida à consciência. Quando a mão trabalha livremente, correndo deliberadamente sobre a superfície, descobrem-se formas produzidas num estado de distração que tornam as sensações visíveis.
A carta se apresenta como um tipo de caligrama, contudo também deixa de sê-lo. Carrega em si a forma e o intuito de representar algo do reino do irrepresentável, utiliza o recurso caligráfico como representação figurativa de uma forma não objetiva e se torna uma espécie de poesia visual, que distribui a propriedade plástica de seus elementos com firmeza e vigor nítidos, acrescida da abstração de sua própria materialidade.
O confronto entre a formalidade da caligrafia com a dimensão subjetiva que aquela espacialidade ganhou, se deu na distribuição despreocupada de formas, que ultrapassavam um subentendido padrão de pautas. Como em um espaço sem limites, escrita em quantas folhas foram necessárias, num ato primordial, recebia toda a atenção de suas testemunhas oculares. A importância da ação revelou ali um potente ato criativo, que consistiu a matéria com qualidades primárias visuais, olfativas e táteis, preenchendo a conformidade de um espaço, essencial para sua materialização: a ocupação de um corpo.
No acontecimento, entre o objeto-carta e sua escritora, algo se tornou experiência e fenômeno passível de um processo de investigação e tentativa de decodificação do enigma como uma maneira de enxergar esse mundo feminino ocultado.
Ler um mundo oculto requisita abandonar a palavra que descreve o mundo visível, pois a carta é alguma coisa a mais que as palavras. Existe algo não dito, mas está lá. No silenciamento do texto, um mundo silenciado aparece.
Aqui, ampliar a palavra até que desapareça se apresenta como ato de prática artística. Através da técnica de ampliação computadorizada, quando a resolução estoura e o desfoque acontece, se dá a aparição de uma outra imagem disforme. Uma vez transmutada de sua significação, esse algo outro se torna visível. Aproximar-se das hastes e curvas das letras, esticá-las ao máximo, até que seus traços sejam abandonados pela forma e se esvaziem. Falar da palavra sem ela.
Alterar a matéria para dispersar a linguagem verbal e outros significados sejam revelados em associações mais livres. Em pensamentos vaporosos, produzindo pequenas percepções nessa passagem do linguístico para o não-verbal e vice- versa. Estas sensações mínimas que passeiam no limiar do degradê tonal, entre o gesto e o verbo. Essa interseção que apela aos sentidos a buscarem a significação verbal ausente.
A busca pela experiência do fenômeno da escrita paranormal vem pela turbidez das palavras da carta descoladas de significado e transmutadas na mágica aparição da mancha. Assim, palavra formal e mancha disforme coabitam o mesmo sistema: as linhas nítidas de cada letra e os borrões espectrais foram produzidos pelo mesmo gesto.
Ampliar é trazer mais pra perto, tornar maior, alargar, borrar. Fazer surgir do contorno manchas dispersas que se articulam e que se assemelham a coisa e a coisa nenhuma. Revelar manchas de cor, sensações tonais e outras visibilidades. Manchar a letra e turvar a visão dissolvem o sistema da razão para o inconsciente se expressar.
Figura 3 – Imagem digitalizada e ampliada fragmento da carta original. Fonte: A Autora.
Então, sublimar a mancha. Fazê-la transpassar de um estado a outro, transferi-la a quente, pelo calor, torná-la vapor. Neste novo estado de existência manchar sorrateiramente e penetrar a trama de um tecido leve e translúcido pela técnica denominada sublimação. A transferência sublimada ganha nova escala, maior, mais próxima do tamanho de um corpo humano, em uma referência a imagem que se entranhou no tecido do Santo Sudário.
Sublima-se uma aparição fantasmagórica, revelada por impregnação vaporosa em superfície têxtil esvoaçante. Depois, exposta, estabelece outras relações. O ambiente expositivo decorre de nova iluminação e correntes de ar por onde bate o vento que sopra o fantasmático tecido voil sublimado. Foi assim também as cortinas que ventavam na sala onde aconteceu o evento da escrita mágica.
Os corpos dos espectadores que passeiam pelo ambiente de exposição ora aproximam seus corpos ao tecido manchado e sublimado, ora distanciam e retracionam à nitidez e legibilidade da palavra. O ajustamento do olhar em um corpo caminhante que viaja pelo espaço físico, desfoca em aproximação e ganha foco em passos de afastamento. Ao se deslocar em uma média de 14 a 15 metros de distância do tecido sublimado, o observador vê a palavra similar ao tamanho original da carta. Esta distância pode transcender a capacidade do espaço físico, pode não caber no ambiente expositivo e ele precisa se imaginar para além dali, em outro lugar, onde ele não pode estar. Como em uma experiência de percepção projetiva, onde se percebe estar fora do próprio corpo, tentando alcançar esta dimensão extrafísica distante.
O caminhar que se ajunta gradativamente desfaz o traço e se perde da forma como quem se perde da razão. Perder-se da razão nubla o pensamento. Desta aproximação surge o fantasmático mundo daquela mulher de escrita mágica. A mancha sublime é uma aparição que manifesta o vivo, apresentada através do rubor, do calor da tecnologia utilizada em sua transferência.
Na poética do sublime é exaltado o supremo, a mensagem ultraterrena, que transita do contorno lúcido ao fantástico magistral de um outro mundo e os traços apenas definidem o indefinível.
Até aqui, vagueou-se da desincorporação do definido e da incorporação do indefinível, feito a mão rugosa daquela senhora, que de repente encerrou sua escrita, largou o lápis e se deu conta do corpo sentado na poltrona de couro verde na sala de estar e assim retornou.
Referências bibliográficas
ARGAN, Carlo Giulio. A Arte Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. BACHELLARD, Gaston. A poética do Devaneio. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 1988. BARTHES, Roland. O Óbvio e o Obtuso. Lisboa: Edições 70, 1982. CASTILLO, Lisa Earl. Entre a oralidade e a escrita: A etnografia no candomblé da Bahia. Bahia: EDUFBA, 2018.
CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ed. Ática S.A., 1994.
COCCIA, Emanuele. A vida sensível. Florianópolis: Editora Cultura e Barbárie, 2010.
EVARISTO, Conceição. Olhos d’água. 1. ed. Rio de Janeiro: Pallas, Fundação Biblioteca Nacional, 2016.
GIL, José. A Imagem nua e as pequenas percepções: Estética e metafenomenologia. Lisboa: Relógio D’Água Editores, 1996.
GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. Zahar. Kindle Edition.
RANCIÈRE, Jacques. O destino das imagens. 1. ed. Rio de Janeiro: Contraponto Editora Ltda, 2012.
SATURNINO TVARDOVSKAS, Luana. Dramatização dos Corpos. Arte contemporânea e crítica feminista no Brasil e na Argentina. São Paulo: Editora Intermeios, 2015.
SPARE, Austin Osman. Automatic Drawing. Publicado originalmente na FORM MAGAZINE, Vol. 1 No. 1, April 1916. Disponível em: http://www.johncoulthart.com/feuilleton/2017/01/04/form-and-austin-osman-spare/ . Acesso em: 30 de junho de 2021. VALLIER, Dora. A arte abstrata. Lisboa,Portugal: Edições 70, 1980.
ZUNZUNEGUI, Santos. Pensar la imagen. 7 ed. Madrid: Catédra/Universidad del País Vasco, 2010.
A grande festa democrática de Lula no Recife, pelas lentes de Ana Vallestero
Bem-vinda à Kuruma’tá, Ana Vallestero, com essas imagens incríveis daquilo que a gente quer que o nosso país seja, uma festa da diversidade, do afeto, da energia poderosa das gentes, das muitas vozes e sorrisos! A gente só agradece por esses registros!
No dia 14 de outubro o Recife provou a sede do Pernambucano por mudanças. As ruas do Parque 13 de Maio e o caminho pela Avenida Conde da Boa Vista até a Igreja do Carmo, percurso da comitiva, tingiu-se de vermelho nas veias da Cidade que pulsava o desejo e a esperança por um novo País. Um Brasil inclusivo com um líder que não prega o ódio. Lágrimas corriam de forma espontânea dos rostos de um povo que tão rico em conhecimento e cultura acabou sendo alvo da ignorância, uma alienação vestida de polaridades que nada mais é que um mecanismo para entreter a nação enquanto a corrupção passa as suas costas. Não somos um povo dividido, o Brasil é a pátria do amor e qualquer pessoa que pregue o oposto não deve ser ouvida. E foi essa a mensagem do Candidato Lula enquanto balançava as bandeiras do Brasil e da terra dos altos coqueiros e das mentes iluminadas pelo sol.
— por Ana Vallestero
Todas as fotos por Ana Vallestero
Publicitária de formação, se autodenomina Artista Audiovisual, sempre vê oportunidades onde veem limites, por isso está sempre crescendo e se descobrindo. Pernambucana de nascimento, mas com asas tão grandes acaba sendo uma cidadã do mundo, enquanto temos apenas esse para existir.
“Sol, você merece o sol” — Habilidades extraordinárias é o disco novo de Tulipa Ruiz
Queria que toda primavera trouxesse um disco assim. Lançado no último dia 23 de setembro em tudo que é plataforma, Habilidades extraordinárias (Brocal, 2022) é o quinto disco da cantora e compositora, e ilustradora, Tulipa Ruiz! Eu poderia entrar numa assim de dizer que o disco foi gravado no modo analógico, com rolo de fita. Ou que é o primeiro de músicas inéditas em sete anos… Mas prefiro começar dizendo que é um disco muito foda. De arrepiar.
Na primeira música já pensei em mim mesmo, anos atrás, lá no Recife, indo na loja de discos para investigar as novidades e comprar algo que me surpreendesse. E você encontrar um disco como esse, assim, do nada, é incrível. É esse meu sentimento. Falo assim porque, preciso admitir agora, conheço pouco o trabalho da Tulipa. Sei dela, sei que arrasa, porque tenho amigos que não me deixam viver na ignorância. Jorge Lz me falou de Tulipa, a Anne Rocha, célere fada que salpica na minha vida música feita por mulheres, me falou de Tulipa… Mas a gente não dá conta de tudo que quer saber e amar.
Mas hoje dei com Tulipa e seu discaço, nem sei como, por acaso, revirando não a lojinha de discos mas os becos da internet. E já me pegou no coração a música que abre o disco, Samaúma.
Vou misturar vogais com sementes Vou fazer uma bolsa de água quente Vou tingir com terra os meus quadris Delírio quando encosto meu corpo no rio
Diria que por conta da tal da captação analógica das canções (adoro essa palavra… canções), o disco essa textura orgânica, algo aquecido e aveludado, mesmo na hora da porrada. Porque tem porrada. Mas prefiro atribuir isso à gente que tá ali, manipulando sons e palavras, gente movida a sangue nas veias e sistemas nervosos pipocando clarões entre versos e acordes, pois. A voz de Tulipa é uma água límpida que vai achando o caminho, ou melhor, abrindo caminho na mata complexa dos meus pensamento e formando cristais.
A primeira impressão é: Música de verdade. Música de gente reunida, que se faz presente. Música afirmativa, rebelde, poética. Desses trabalhos que a gente joga na cara de quem diz que a música brasileira morreu, que o rock morreu (vi a Rita Lee pontilhada aqui ou acolá?!). E nesse disco a gente tem noção clara da força criativa feminina que impulsiona essa cultura brasileira a todo vapor. Outro dia comentei que a melhor música produzida hoje em dia é feita por mulheres. Habilidades extraordinárias seria prova disso, se algum distraído por aí precisasse de prova.
Tulipa, aliás, é ganhadora de Grammy, sabe?! Não que pra mim isso seja medida do que quer que seja. A mim basta a energia que ela exala, a qualidade inquestionável do que faz e o amor antropofágico, incontido, com que ela faz essas canções.
Produzido pelo irmão de Tulipa, Gustavo Ruiz, o disco traz participações de Negro Leo, Jonas Sa e… porra, JOÃO DONATO, fechando o disco em parceria com a belíssima, gostosa, O recado da flor.
Nessa primeira primavera depois do ciclo mais devastador da pandemia, esse disco vem como um anunciador de manhãs, um expurgador da dor que passamos, um chamado para a dança, para o encontro, para cantar junto. Uma afirmação da poesia que é sobreviver, se desembaraçar das redes lançadas para nos deter. E sair assim, com integridade e cabeça erguida.
Posso ficar falando, escrevendo, debatendo Habilidades extraordinárias com vocês, mas bom mesmo é ouvir, em looping, que nem criança que pede pra escutar a mesma história outra vez. Disco de amor à primeira vista, disco de comprar e correr pra casa pra ouvir. Disco pra ligar pra melhor amizade e dizer: Tu não sabe o som que ouvi inda agora?!
A primeira vez que dobrei os joelhos, não carregava pecados, eram pequeninos os meus olhos, minhas mãos, cabiam como pérolas em concha, enquanto outra mão fazia o sinal da cruz.
Ajoelhei-me seguidamente enquanto crescia, entregando a Deus meus pedidos e promessas com a ingenuidade dos que não sabem o que é pecar.
Os calos, sinal dos tempos, deixaram minha pele seca tanto quanto meus olhos, parecia ser o amor coisa insana, de doer na carne, véu que não se pusesse, desonra e castigo, o prazer, momento de elevar a alma, se tal casta, tudo de não se encaixar, de não se entender, “é mesmo louca… aos ouvidos se falava a deixar-me emudecer.
De pé, tudo parecia longe, cansaço constante só de pensar, mas, à margem de um sinuoso caminho, entre barro, mata e espinhos, também nasce flor, planta que guarda água, sombra que resguarda, sol que surge depois de tanta escuridão, e a luz se faz, e o corpo se refaz, hora de recomeçar.
De nada faço pena, não crio mágoa pra não ter que voltar no tempo levando desavenças perdidas, coisa mesquinha vira migalha, joelhos dobrados, e isso, não mais.
Se faltar força pelos idos de tanto correr, deixo pegadas para que me alcancem, novos andantes, todos muito falantes, estes, aprenderão comigo a não se dobrar .
Cantora e compositora, Ana Egito é uma artista com trajetória internacional. Aclamada por crítica e público por sua performance e voz afinada seu primeiro contato com a música veio através dos Festivais da Canção e sua carreira profissional teve início na década de 1980, tendo como padrinho e mentor o saudoso cantor e ator Ivon Cury. Ele a levou para se apresentar como caloura no programa de TV “Cassino do Chacrinha”. Naquele dia ela ganhou o prêmio e foi convidada para participar da “Caravana do Chacrinha”.