A poesia de Jeová Santana

Jeová Santana chegando com sua poesia na Revista Kuruma’tá, via nosso inbox mágico, que só nos traz alegria e colaborações sempre preciosas. É Sergipe nas nossas páginas, com força e indignação pela palavra.

DOROTHY

Ó nossa devotada Dorothy
Dai o denodado destemor
Para derrotar os homens
De má vontade, sedentos
Das riquezas dormentes
Nos espessos veios da floresta

Deixai essa força dadivosa
Do vosso corpo mirrado
Quebrar a tunda do medo
Para só espalhar a festa
Dessa luz bruta do verde
Nos vastos mundos da floresta

A morosa pena da lei até pune
Quem não tem pena de nada
Mas logo, logo ficam fanfando
Os mandantes e mandatários
Que levam homens e mulheres
A não ver mais o sol da estrada

padre Josimo (1986)
Chico Mendes (1988)
Dorothy Stang (2005)
Raimundo Nonato Carmo da Silva (2009)
Zé Cláudio e Maria do Espírito Santo (2011)
Emyra Wajãpi (2019)
Maxciel Pereira dos Santos (2019)
Paulo Paulino Guajajara (2019)
Ari Uru-Eu-Wau-Wau (2020)
Reginaldo Alves Barros e Maria da Luz Benício de Sousa (2021)
Zé do Lago, Márcia Nunes Lisboa e Joane Nunes Lisboa (2022)
Bruno Ribeiro (2022)
Dom Philips (2022) …

 


TRÊS MERGULHOS NA GARGANTA DO BRASIL PROFUNDO

1. IGNORAR ANÚNCIOS

A conversa daquela juíza
Com esta anônima menina
Não me lembro de nada
Mais ferino na retina

Lembro sim, outra juíza
Que envia outra menina
À cela cheia de homem
Minha memória ilumina

Aquela juíza tão saudável
Com cabelo todo alisado
Nunca triscou na fome
Num quarto despejado

Aquela juíza de sobrenome
Não circulante na ralé
Nunca teve dor de dente
Nem tirou bicho-de-pé

Aquela juíza a querer
Ver a menina a parir
O fruto de um estupro
Faz a luz da vida ruir

Mas não posso imaginar
Em circunstância igual
Outra juíza viesse a usar
A mesma medida do mal

Preciso assim me agarrar
A esse único pobre fiapo
Senão me dano doido
Vou me agarrar ao Diabo

Pois só sob Sua batuta
Encaro tal desmantelo:
Nos olhos da tal juíza
Estou incólume a vê-Lo

24.6.2022

2. AMARGAZÔNIA

de novo
o mesmo filme
com cortes

de sangue
à sombra
do horror

a borrar
sem penas
águas infindas

tantas ideias
tanto amor
à causa verde

se acabarem
num saco
feito lixo

nem plantas
nem pedras
nem povos

o capital
não alisa
diz na lata

para ver
impunemente
passar boiadas

quer na bandeira
verde-amarelo
só desordem

assentar
no coração da selva
a bandalheira

3. QUINTILHA DA VERGONHA

ó minha pacata Umbaúba
batei o tambor da poesia
contra tribulação e tirania
para não veres filho teu
ser trucidado à luz do dia


Jeová Santana nasceu em Maruim-SE, em 1961. É professor titular da Universidade Estadual de Alagoas e da rede pública em Aracaju. É autor de Dentro da casca (1993; 2ª. ed. 2019), A ossatura (2002), Inventário de ranhuras (2006), Poemas passageiros (2011), A crítica cultural no ensaio e na crônica de Genolino Amado (2014), O internato como modelo educacional segundo a literatura: um estudo sob a perspectiva da teoria crítica (2015), Solo de rangidos (2016) e Estilhaços (2021). Participou das coletâneas Chico Buarque, o romancista: ensaios (2021) e Sobressaltos: Antologia de poemas contemporâneos brasileiros (edição bilíngue, França, 2022). É um dos colaboradores do site Brasil 247.


Os marcianos de Mercúrio

Texto de Toinho Castro


Os marcianos estão em toda parte. Estão em Mercúrio também, com suas plataformas e mãos sujas de sangue. Eles não se escondem no lado oculto do planeta. Na verdade não só não estão escondidos como se sentem bem à vontade, negociando escravos e planejando domínios no sistema solar. Como sei dessas coisas? Estive lá, negociei contrabando com eles nos becos escuros sob o chão rochoso de Mercúrio. Eles nos ignoram, com seus olhos grandes, e essa é a nossa sorte.

A astronomia deles não enxergou nada na terceira órbita do sistema. Há ali para eles uma zona nebulosa, de inexplicáveis lendas mas nada real. Nada concreto. Quando digo-lhes que venho do terceiro planeta eles caem na gargalhada; acham que sou um piadista. Passam perto da Terra com suas naves prateadas e translúcidas e não nos enxergam. Entendem as interferências dos nossos satélites em suas comunicações como ruídos de fundo do universo, defeitos em seus equipamentos, sonhos ruins.

Deixemos que sigam assim, pois são gananciosos e estão à procura de novos mundos para multiplicar suas dores e alimentar seus filhos tristes. 

Em Mercúrio, perto da fornalha do sol, construíram torres que não projetam sombras e enviam seus sinais para o centro da galáxia. Dizem que enviam sinais para seus irmãos, para os seus deuses que habitam o buraco negro em torno do qual todos nós giramos. Sabem que o sol vai morrer, sabem exatamente o dia e a hora nos seus calendários e estão a se arrepender.

Não quero voltar a Mercúrio, não quero mais encontrá-los. São os piores da sua espécie e mesmo em Marte não são bem vistos. Mesmo em Marte não contam tudo a eles e resta-lhes pouca confiança. Mesmo em Marte os evitam e celebra-se o dia em que partem para Mercúrio. E aqui mesmo, no terceiro planeta, caminhando pelas ruas, não dou as costas a Mercúrio, nunca. Pode ser que eles despertem, a qualquer momento, desse sonho estranho em que a Terra não existe.

Para Ray Bradbury


O defunto do teu pai | Texto de Marina Pereira Dantas

Texto de Marina Pereira Dantas — Conta meu pai que: — para dar conta das encomendas, fiz o roteiro confiado a mim por meu pai mais de cinco vezes, até porque na sexta parei de ouvir. Quando retornei para casa, a fim do velho conferir toda a carga, lá soube que faltava um bêbado. Nessa de não cabe mais nada e quem manda no meu carro sou eu eu e sob meu teto você respeita minhas ordens, eis que, o banco do passageiro, destinado inicialmente a minha namorada da rua de baixo, teve que ser aquecido por outra poupança, esfriando a minha por tabela.

Seja bem-vinda, Marina, à Kuruma’tá, com sua prosa boa de ler, com esse jeito de contadora de história, que enreda a gente nas palavras, parágrafos, cenários e gentes! Bom demais ler e compartilhar seu texto com nossa comunidade.

Texto de Marina Pereira Dantas

Foto de Marina Pereira Dantas

Certa feita, quando os carros não zuniam acelerados por aí de forma impessoal, meu avô pediu que meu pai fizesse uma viagem de Campina à Taperoá, para levar feira, tralhas e gente.

Conta meu pai que: — para dar conta das encomendas, fiz o roteiro confiado a mim por meu pai mais de cinco vezes, até porque na sexta parei de ouvir. Quando retornei para casa, a fim do velho conferir toda a carga, lá soube que faltava um bêbado. Nessa de não cabe mais nada e quem manda no meu carro sou eu eu e sob meu teto você respeita minhas ordens, eis que, o banco do passageiro, destinado inicialmente a minha namorada da rua de baixo, teve que ser aquecido por outra poupança, esfriando a minha por tabela.

O “dito cujo” era Abelardo, filho de dona Zinha e Neto do velho Manguara, que veio tirar a sorte na indústria têxtil em Campina Grande, para o descaroçar da fibra branca que tornou a cidade uma das maiores exportadoras do fio, atrás apenas de Liverpool.
Em matéria de sorte, o bendito tinha e era muita, destacou-se de Taperoá para Campina atrás dessa modernidade, fugindo da sina de tirador de leite, ao qual o pai, o avô e o bisavô tinham fundado.

Branco por branco, tentou um sólido em fibras que pareciam nuvens, quando as máquinas rodavam e iam dando crescimento as fibras, certas plumas se soltavam e pairavam pelo ar, dando ao trabalho repetitivo um ar singelo. Quem sabe assim deixasse seus sonhos mais pertos do céu?

Com o trabalho conseguiu comprar uma casa nova no alto, que também tinha branco no nome, o Alto Branco, bairro mais afastado do centro e mais barato, por consequência. Lá foi um pai de família. Casou com a filha da dona da venda em frente a fábrica, com quem teve cinco encostos.

Foi neste tempo que a sorte grande diminuiu um pouco, os cinco filhos, logo após crescidos, passaram fugitivos da derrocada dessa suposta candura e foram buscar refúgio no oco do mundo. Alguns chegaram a ocupar cadeira de professor, enquanto outros não têm notícias até hoje.

A fábrica vinha de mal a pior e então fechou. Sumiu da noite para o dia. E os filhos passaram a ser a aposentadoria de Abelardo, mandando apenas o sustento, sem qualquer visita. Afinal, nem todo couro fica inteiro após ser esfolado.

Mandavam certas reservas aos pais, pelos Correios. Todo mês um envelope branco com letras negras: Ao Sr. pai Abelardo Pereira Costa. Nada mais.

Numa dessas, os envelopes foram ficando atulhados nos Correios, até que começaram a ser devolvidos pelo entregador ao remetente. Foi aí que a esposa de Abelardo foi pedir ajuda ao meu avô, ela era analfabeta, mulher que não sabia das coisas. Terminou de ser criada por Abelardo e só sabia lavar louça. Precisava de gente entendida para ver se dava jeito na murrinha do marido.

Nesta altura meu avô fez as vezes de um chefe de família, foi tentar pegar os envelopes nos Correios, mas eles já tinham voltado. Tentou encontrar o endereço dos remetentes, mas eles nunca informaram de onde exatamente vinham.

Sem solução, tentou acudir Abelardo. Tirou ele do quarto úmido e levou-o ao sol. Tentou conseguir Doutor que desse jeito na tosse, sem solução.

O jeito que teve foi de deixar a viúva de Abelardo se acomodar em sua casa e deixá-lo em Taperoá, para ser enterrado com seus parentes, como é o costume da família, com meu pai de motorista, sob ordens de vô.

Nesse caso, foi pai e Abelardo para Taperoá. Nas curvas Abelardo ia tentando mais proximidade, ao que pai respondia: — Sai pra lá Abelardo, deixa de teu enxerimento! Sempre fosse um homem sisudo e agora estais inventando moda?

Curva outra, tome um rela coxa. Uma mão boba pelo braço e outro espasmo do meu pai: – Sai pra lá, Abelardo! Fica quieto que tu é carona e eu te deixo na estrada!

Chegando em Taperoá, as despedidas foram rápidas, sem muita cerimônia. Muitos agradecimentos por parte dos parentes e muita devoção ao meu pai e avô foram dados como garantia. O ano era de eleição e a parentada votou no candidato de vô. Todos ficaram agradecidos, menos a namorada de pai da rua de baixo, que teve que ir no ônibus do sábado, solteira. 


Aposto

Texto de Daniel Ribas — Ontem, quando éramos crianças em meio a grãos amarelados de inocência, brincávamos de quem segurava a respiração debaixo d’água ou quem nadava mais longe enquanto nossos pais olhavam para o lado.

Hoje recebemos uma colaboração preciosa, do amigo, parceiro e agitador cultural, Daniel Ribas. É uma grande alegria pra Kuruma’tá esse texto. É, certamente, o primeiro de muitos!

Bem-vindo, Daniel!

Texto de Daniel Ribas


Ontem, quando éramos crianças em meio a grãos amarelados de inocência, brincávamos de quem segurava a respiração debaixo d’água ou quem nadava mais longe enquanto nossos pais olhavam para o lado.

Hoje, após beijos debaixo dos raios azulados de nosso senhor, trocamos votos de que aguentaríamos nossas bagagens e pesos internalizados. Testamos nossos amigos que não acreditavam que a vida pode ser direta em meio as ondas que criamos. De novo, um concurso de quem iria se distanciar mais, com a intenção de mantermos-nos ao lado do outro.

Amanhã, sentado na poltrona marrom carcomida por boletos e bulas, você seguiu e sumiu no horizonte. E eu olho para o mar, parado, prendo a respiração, descanso os braços e permito que a correnteza me conduza a seu encontro.


Daniel Ribas é um leitor que escreve. Jornalista e escritor, tem livros publicados e colabora com diversas iniciativas culturais.

A poesia de Wendel Golfetto na Kuruma’tá

O Inbox Mágico da Kuruma’tá nos brinda hoje com a poesia do Paulistano Wendel Golfetto. Pra nós é sempre essa alegria, que alguém nos escreva um e-mail dizendo que escreve poesia, ou crônica, ou o que seja, querendo publicar com a gente. Felicidade essa de ver as pessoas se engajando no projeto independente, livre, da Kuruma’tá. Seja bem-vindo, Wendel. Seja bem-vinda sua poesia.

Montagem sobre fotos de Miss Pueblos mágicos e Lucas Pezeta

A Dama de Preto

Nas ruas lavadas pela chuva,
Em desesperado vagar,
Pela madrugada de corpos
Esculpidos em curvas,
Estava a te procurar.
No copo,
A encerrar o vinho,
Mantenho-me fixo
Em eternizados segundos
De um olhar desnudado.
Sua língua a umedecer lábios que sucumbo
Em ardente vermelho,
Refletindo beleza no imponente espelho,
Na suntuosa noite de um céu cinza-chumbo.
Em teu sorriso discretíssimo,
Meu pensamento
Residente no vácuo
De uma taça com destilado líquido.
De seu cabelo solto em sua tez,
Em sono que a encobre com delicada seda,
O despertar de um sentido adeus,
Que no peito se hospeda.
O amor que goteja
Dilui-se em litros na sua presença,
Sob o abrir de seus lindos olhos,
No devastador leito de um ninho.
Despeço-me com o desinteresse fingido.
Deveras, não mais vejo a beleza no mundo
De luzes que fascinam os trópicos úmidos
– Tão somente em noites góticas contigo.

 


Fantasma

Um fantasma no móvel escultural,
Soprado no assovio de uma ventania,
No apagar de luzes de um dia invernal.
Os ponteiros a apontar para o leste
– açoitada visita sem hora marcada –
No apogeu de sombria madrugada.
De origem fétida – matéria orgânica.
Criatura: peço-lhe que a minha casa não infeste.
O que desejas, ser, que a mim causa repugnância?
Digo-vos: vinde diretamente do profundo.
Foste convocado ao inferno.
Causais-me assombro.
Se nem mesmo criaturas imundas assassinei,
Por que seres malvados não assombrais?
Por que minh’alma fora reprovada?
Dizei-me!
Como arauto apocalíptico
Em sua mente lhe trouxe mortes bizarras.
Como quereis seja sua beleza desfigurada?
Seus atos de bondade de nada lhe serviram.
Assassinaram tua esperança, cidadão distinto!
Não há vaga em celestial vida vagarosa;
Mandá-lo-ão aos quintos sem demora.
Mas e o Deus paterno?
Castigai-me!
Salvai-me!
Não pesarão os pais-nossos rezados aos milhares
Sem contar as preces em que fui citado?
Quem te disseste?
Rezaste só por ti
E o fizeste em falsidade.

Ademais, não existem dois serem distintos.
A dualidade é imanente a toda criatura,
Mesmo a mais excelsa.
Deveria ter notado que neste mundo
O comando é o da vontade,
Da natureza que canta os ditames
Sem clemência ou piedade.

O sofrimento é a ordem.
Mata-se de forma copiosa.
Por que achaste que do outro lado
A vida seria plácida e tediosa?
Neste mundo não há sequer espaço.
Após a caçada,
O tédio engana,
No silêncio do pavor que antecede
A penetrada de nova lança.
Quem está lá?
Todos que conheceste em vida,
Exceto os poucos que amaste.
Encontrarás novamente os tolos,
Os invejosos, os falsos,
Enfim, todos os teus amigos!
O que lhe parece?
Eis o inferno!

Mas prega-se na casa do Senhor
A salvação para os que Nele creem.
A casa do Senhor é no descampado,
No tumular noturno das presas.
Ser frágil – imprestável!

O onipresente está na alma de quem caça ou da presa?
Grita dentro do predador pelo êxito da morte iminente
Ou no âmago da carne dilacerada da vítima em
ardência?
O que representa a ti um inseto?
Não sei
Quantos mataste?
Muitos,
Mas qual a importância disso?

Vede!
O fizeste porque lhe pareceram insignificantes.
E o que haveria de ser tu a um Deus, criador do
Universo?
A tua vida é um cuspido no chão sujo.
Os vergéis do paraíso são delírios
De mentes desesperadas.
Somente os mais sábios já previam a infinita caçada.
Não acordarás.
Teu corpo cintila no frio
Da massacrante noite estendida.
Teu sonho de infância se realiza.
Tens agora o poder de voar,
Após vida adulta extinta.
Teu pouso não será neste mundo.
No teu desterro fenecerás,
Na infinitude contagem tumular dos segundos.

 


Inverno Interior

Egresso do inverno interior,
Não mais me reconheço
No espelho de oblíqua noite.
Em mim, o atroz frio cortante
— sensação de iminente horror —
Já não sei o que alucina, o que é torpor.
Nefando lampejo,
A sombria estação
Congelou os pássaros no parque.

O lume brilha fosco,

A noite tremula em cintilante febril,
Tudo escoa no ser de foz horripilante.
Nesse diapasão,
O frenesi despertar
De aguda dor da morte,
Nascida de minhas tristezas,
Prometendo me libertar
Do fardo castigo da eternidade.

 


Locus

Emboca e se desloca,
Embora se conforte na desdobra,
Na oca de cada cumbuca
Se estufa na tumba da retranca
Entravada no agonizante flutuante,
No desgosto tosco do enrosco dos outros,
De nossos futuros obscuros, confusos e sujos.

Arcos amarrados nos barracos,
Estados preclusos e inacabados,
Buracos profundos e elucidados,
Mentes doentes e incontinentes,
Diabos cansados e perturbados,
Criaturas imundas e divergentes.

Moralmente ilegais e inconsistentes,
Seres necrófilos, indecentes,
Seres humanos insuportáveis e indolentes.

Que, entretanto, andando por aí percebi
Sem sentir a fraqueza quase demente
De pessoas horrorosas, odiosas,
Tidas como inescrupulosas,

Que são todos gente!


Wendel Golfetto – Nascido na capital paulista, formado em Direito pela PUC/SP e servidor público. Divulgação de poemas na internet:  https://www.instagram.com/sanatoriodamente/

No Dia Nacional do Maracatu, relembrando o seu primeiro registro fonográfico

Por Luiz Ribeiro Fonseca

Dona Santa, rainha do Maracatu Elefante, em um retrato
do acervo da Fundação Joaquim Nabuco

No dia 01 de Agosto, celebramos o Dia Nacional do Maracatu, símbolo tão importante da identidade brasileira. Essa manifestação de matrizes africanas se dá principalmente no estado de Pernambuco, e é dividida entre Maracatu de Baque Virado, mais tradicional, e Maracatu de Baque Solto, criado por grupos nascidos no interior do estado no início do século XX.

Derivada da coroação dos reis do Congo do século XVIII e das cerimônias do Xangô e da Jurema, o Maracatu desfila nas ruas de carnaval do Recife ao som de instrumentos como o gonguê e a alfaia, compondo uma orquestra percussiva que costuma se apresentar com mais de 30 músicos e apresenta, dentre outras figuras, o Caboclo de Lança e a Calunga.

Entretanto, o primeiro – e pouquíssimo discutido – registro fonográfico da manifestação, a canção homônima “Maracatu”, se deu a partir de uma instrumentação composta apenas por piano e voz: gravada nos estúdios da Odeon, no Rio de Janeiro, em 1929, a canção foi composta pelo maestro pernambucano Waldemar de Oliveira a partir de um poema de Ascenso Ferreira.

Com estrofes que narram o longo e violento processo de tráfico de escravizados sob o ponto de vista dos próprios oprimidos, a gravação foi executada pelo piano sincopado de Nelson Ferreira – que se destacaria futuramente como um exímio compositor de frevo – e pela soprano Alda Verona, que entoava: “Luanda, Luanda, onde estou? Luanda, Luanda, onde está?”. “Maracatu” evoca também a potência das musicalidades negras no Brasil, destacando os “batuques de ingonos” e as “cantigas de banzo” das toadas maracatuzeiras que se tornariam parte da identidade pernambucana. Como resultado do encontro, a obra torna-se parte do recital de Verona – também conhecida como Celeste Brandão – no consagrado Teatro Santa Isabel, localizado na capital pernambucana.

Nelson Ferreira, um dos responsáveis por levar o Maracatu para a Odeon.

Em 2014, cerca de 85 anos depois da primeira gravação do gênero, o Maracatu de Baque Virado foi alçado à categoria de Patrimônio Imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Posteriormente, a partir da PL 397/2019, instituiu-se o 01 de Agosto como o dia nacional do Maracatu.

Dessa maneira, relembrar a obra de Ascenso Ferreira e Waldemar de Oliveira – que ainda seria regravada por Alceu Valença no álbum Cavalo de Pau (1982) – significa resgatar um pequeno retrato que evoca o processo de diáspora africana e marca as primeiras relações entre as musicalidades negras e a indústria fonográfica ao longo do século XX.

Encontre “Maracatu” nas versões de 1929 e 1982.


Luiz Ribeiro Fonseca é jornalista e mestrando em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (PPGCOM-UFF). Pesquisa fonogramas de maracatu gravados na primeira metade do século XX.


Sobre o livro Não queria bonecas Gostava de flores, de Tays Melo

Que prosa boa a de Tays Melo, que prosa forte. Esse texto pequeno é pra dizer do seu livro, Não queria bonecas, gostava de flores, trabalho selecionado no Prêmio Literário Lúcia Giovana, da Secretaria de Cultura da Prefeitura de Areia, na Paraíba, via Lei Aldir Blanc. E viva a Lei Aldir Blanc.

Texto de Toinho Castro

Que prosa boa a de Tays Melo, que prosa forte. Esse texto pequeno é pra dizer do seu livro, Não queria bonecas, gostava de flores, trabalho selecionado no Prêmio Literário Lúcia Giovana, da Secretaria de Cultura da Prefeitura de Areia, na Paraíba, via Lei Aldir Blanc. E viva a Lei Aldir Blanc.

Lida a seleção de crônicas que costuram o livro, a vontade que dá é de sentar numa esquina de Areia, numa noite neblinosa e possivelmente assombrada, pra beber uma cerveja e observar Areia passar e transmutar nessa substância mágica que percorrer a escrita de Tays. Escrita de mulher que transcreve a cidade , e que pela cidade é transcrita. Escrita de mulher que cresce nesse mundo de homens no comando. Escrita rebelde e indomada, escrita de Basta e Chega. Também escrita de Repara só! Nas coisas, nas ruas, nas pessoas. Também nos jeitos, nos preconceitos, nas negações e portas que se fecham se você é mulher, se você é menina. Escrita de coragem. A escrita é a arma de Tays, e também bandeira e alento.

Eu poderia ter cresci assim, uma delicada mocinha entendida e submissa apenas ao que cabia ao meu gênero. No entanto, mais do que “coisas de menina fêmea”, aprendi com meus pais, com a escola e a sociedade que ser menina era um grande tédio. Ensinaram-me claramente que eram as coisas mais divertidas feitas apenas para os meninos e, ainda que não fossem produtivas como os adultos gostariam, aos meninos eram permitidas.

Em Não queria bonecas, gostava de flores, Tays vive a cidade, vive Areia. E o que lemos é esse enredado de gente e ruas, e os modos e maneiras em que Tays, narradora, personagem, misturada e separada, transita nesse espaço. E de como ela extrapola, maior que singela malhar urbana e social, cultural. De como ela se amplia a cada passo rumo a suas histórias.

Que livro bom de ler, feito de luta e também de leveza. Como se Tays me pegasse pela mão e me levasse pra conhecer esse universo modular de cidade e mulher, e como uma se insinua na outra, como uma impacta a outra. E disso nasce essa literatura, que em mim vira leitura e uma vivência compartilhada, que me faz saber de Tays, de Areia e da neblina que cedo ou tarde, a tudo cobre.

Eita, prosa boa.


Mais Tays Melo na Kuruma’tá!

As manhãs e andanças do poeta Lucas Carneiro

Do inbox mágico da Kuruma’tá, nos chegam os poemas do poeta baiano, de Alagoinhas, Lucas Carneiro. Sempre uma alegria ver que a poesia resiste firme nesse país que precisa valorizar mais o fazer poético. O trabalho de Lucas reafirma a qualidade e diversidade dessa poesia que se faz em todo o Brasil, do Oiapoque ao Chuí, passando por Alagoinhas!

Seja bem-vindo à Kuruma’tá, Lucas. Portas e janelas abertas!


Manhã

sete e quarenta e cinco da manhã
pequenos feixes de luz dão
boas-vindas pela fresta da janela
tapete persa velho
empoeirado
sacolejando com a brisa matinal
mortes são noticiadas cedo pela impressa
jovem negro assassinado
durante operação policial
peste virulenta avançando
sem trégua por toda extensão
pássaro amarelo repousa quieto
sobre a varanda pequenos ruídos
trovões e relâmpagos prenunciam uma tempestade
clima melancólico vagueia pelo território
cama desarrumada, casaco desbotado sobre o aparador
livro de poemas apoiado na cabeceira
Wallace Stevens, sereno, sorrindo
visão matinal me aterroriza
aparição fantasmagórica me deseja um bom dia
e assim todo o caos se inicia, respectivamente
as sete e quarenta e cinco da manhã.

Alagoinhas BA, 23 de janeiro de 2022.

 


Andanças

caminho pelas ruas velhas
turvas, sujas
marcadas por paralelepípedos
riscados em pólvora pelas comemorações
promíscuas de fevereiro

na dobradiça do semáforo
um bêbado, nu e desvairado
direciona sua prédica louca aos espíritos noturnos
que silenciosamente ovacionam
os vândalos barbudos que urinam
alegremente
frente à estátua do poeta

nas avenidas insones
manchadas pelo alarido do povaréu
um corpo
sob uma poça encarniçada
agoniza
atraindo aqueles
a que sem parar
caminham pelas frias calçadas em direção as vielas
ensombradas pela tenuidade
dos lampejos noturnos
onde os vermes
proferem discursos hediondos contra toda a população
nas sarjetas letais do podre planalto central

Alagoinhas, 08 de julho de 2022.


Lucas Carneiro é nascido em Salvador BA, possui 21 anos e atualmente reside na cidade de Alagoinhas. É graduando do curso de letras, língua inglesa e literaturas da Universidade do Estado da Bahia. Atualmente, desenvolve pesquisas sobre poesia moderna em expressão anglófona, com foco no processo de antropomorfização através da força da palavra poética. No curso do período pandêmico, começou a publicar suas poesias com mais frequência.

Poemas de Tayline N

Tayline Nunes tem 24 anos e é Curitibana. Gosta de ler e escrever. Por volta dos 10 anos de idade começou a discorrer textos. Escrevia para se libertar. Sempre deixou ocultas suas redações, até que nesse ano criou coragem para apresentar seus trabalhos para as pessoas próximas. E agora trouxe seu trabalho para as páginas da Kuruma’tá! Seja muito bem-vinda, Tayline! Kuruma’tá de portas e janelas abertas.

Faça como Tayline e envie seus poemas, crônicas, contos, o que seja, para a Kuruma’tá!


Ingênua

Quando me tocaram
sem eu deixar,
Me senti invadida
Criouse um sentimento placebo,
Frio,
sombrio,
e aterrorizante.
Quis gritar,
Vi meu lado ingênuo
Tornarse um lugar duvidoso,
Desconfiado,
e amargurado
A essência de uma criança pura e inocente acabou,
Em instantes.
Desconfiaram
diziam ser mentira
Agora eu me pergunto
Eu mentiria para quem?
Porque
Não me olharam
Doeu,
Minha mãe coitada,
Pobre mãe
Que não acreditava,
Vestia uma armadura de leoa
Não podia ser verdade
.
Quem fizera seu filho sofrer?
Quem rompera a nobreza desse cristalzinho!?
Lapidou sua primogênita,
Para um qualquer tirar isso dela.
Apagaram,
Incendiaram,
E adormeceram,
Seu lindo sorriso.
Agora,
No lugar de risos
Lágrima.
No lugar da verdade 
Mentira.
No lugar de lealdade
Desconfiança.
Por fim, Um vazio.
Um silêncio.
Me roubaram,
Me tiraram,
E ainda 

Dói.

 


Santos Andrade

Ao meu redor pássaros,
Barulho de água
Silêncio.
O verde das folhas e árvores
Um banco de madeira, parece resistir para não apodrecer igual seres que neles estão sentados
Algumas barracas
Sabe Deus o que se
Vende nelas
Será que vendem desafeto? amor?
Os prédios vazios
Talvez às 9 da manhã, nesse sol que raiou
Ainda alguém esteja dormindo,
Tomando café, criando coragem para acordar.
O branco que clareia a praça
Comporta milhares de mentes que querem aprender algo, com alguém
A vista daqui e o silêncio acompanha a solidão que muitos carregam, Embora eu esteja tão solitária
Quanto
eles. Perguntei para um desconhecido
Que vestia amarelo
De fone
Óculos escuro
Se
onde estávamos era a praça
Santos Andrade
Ele com clareza diz que sim,
Mas Andrade é tão comum
E Santos é a ambiguidade de um ser puro
O que te faz diferente disso?
As aves voando
Buscam também a liberdade que até hoje não encontrei.
Ao piar dizem o que?
Com olhos a 360 graus avistei algumas pessoas sentadas
Uma criança caiu
Vestimenta azul
Passou as mãos sobre as calças, como quem limpara para esquecer e sair correndo novamente.
A solidão toma conta
Silêncio.

 


O café

O café pode ser amargo como a dor
De um amor
Não
correspondido
Mas ele também pode ser tão doce
Quanto às palavras que eu descrevo
Claramente direcionada á você
Suas interpretações
O modo que você me decifra
Eu sei que não é tanto
Mas é o suficiente para nos manter
Mesmo sem teu toque eu te sinto
Mesmo sem te ter eu te tenho 
É evidente
Eu te sinto mesmo que de longe
Será que isso é amor?
Eu não gostaria de rotular absolutamente
Nada sobre você
Dentro de mim tem tanto de nós
E eu me perco 
Eu sou uma poeta desconhecida
Que você conheceu
O desespero dia após dia sem saber
Sem ter repostas
Mas quais eu gostaria de ter
Se o AMOR supera tudo
Eu ainda não superei
Se amar for essa avalanche
Submeterse a ser
E a ter algo indecifrável
Delicadamente te lapido
E aos poucos te tenho
Soltar você seria como me jogar da ponte
A mais alta existente
E eu não sei onde encontrala
Você sabe?
Seus sinais são apenas vestígios
Que instigam
E sangram
Mas me diga como 
Me mostre aquilo eu que preciso ver
Ao tocar a pele dela te satisfaz?
Pudera eu,
Pudera por um instante
Pudera
Suas pupilas também dilatam ao vê-la?
A velocidade do seu coração é a mesma ?
Me mostre 
Ao invés de fazer seses
Seja amarga ao ponto de embrulhar meu estômago
Ou doce até me dar uma overdose
Mas não seja incapaz 
Tão incapaz
De me dizer
E não deixe vestígios
De que ainda se importa 


Potengi

Texto de Toinho Castro —


Morro do Careca

A palavra Potengi significa Rio de Camarão. É também o nome do rio que corta a cidade de Natal, onde nasci e onde estou agora, passando uns dias para visitar minha mãe. Potengi, uma palavra, sonora, deliciosa de se falar, legado sinuoso do indígenas, habitantes primordiais dessas terras varridas pelo vento que não cessa, esquina do continente que é. Potengi.

Nasci aqui, na Maternidade Escola Januário Cicco, um prédio que sempre procuro visitar quando por aqui apareço. Visitar que eu digo é passar na frente, de carro, e observá-lo. Deveria, qualquer dia desses, entrar. Quem sabe na próxima segunda. Aqui nasci, mas aqui pouco vivi. Cresci no Recife, com seus canais, pontes. Com o Capibaribe e o Beberibe alimentando o Atlântico. Com os arrecife, rentes à costa, nos protegendo sabe-se lá de que misterioso perigo. De lá saí somente aos trinta anos de idade, para o Rio de Janeiro, onde vivo há vinte e cinco anos. Faça as contas. De nostalgia do Recife, no meio dessa pandemia, escrevi até um livro. Que Natal tenha uma mágoa comigo, da falta de uma palavra de carinho em tudo que escrevo, não seria de estranhar. Reservei Natal para a minha mãe, que contou suas e histórias de infância e juventude num filme que fizemos juntos.

Ao longo da infância fiz de Natal meu quintal de férias. E digo quintal na acepção lúdica da palavra, lugar de mundos e fantasias, de chão de folhas e frutas machucadas da queda e dos pequenos bichos a assustar e encantar. Natal como terreiro noturno, rua erma e assombrada, que eu percorria ao lado dos primos que eram como irmãos. Mas sempre voltava para o Recife do mangue, da água salobra da ameaça de enchentes, de onde minha mãe olhava para as bandas de Natal, como quem busca um farol que acuse um porto.

Criança do Recife e suas prendes e segredos, cresci sem sentir-me natalense. Depois de adulto a perambular pelo mundo, pude elaborar essa ascendência.

Potengi é parente de Potiguar. Outra palavra folgosa que os mesmos povos gravaram na nossa língua. Comedor de Camarão, é o que significa, e é como chamam aqueles que nasceram nesse território, o Rio Grande do Norte. E é nela que me sei de onde vim, comedor de camarão que sou. Pois não é que o que comemos é o que nos define?

Hoje retorno a Natal e quis, pois, alinhar essas palavras de reconciliação com a origem, a fonte que vai minando água, nascente de rio que é, desde longe. Desde antes de mim. Aqui brinquei nas minhas férias, aqui brincaram os meus. Meu bisavô, Pai Miguel, senhor de casas e filhos, minha avó Mariola, que se foi quando eu morava no Rio de Janeiro. Por conta disso, até hoje sua morte é uma irrealidade, um desacontecimento. Ainda penso que posso visitá-la no Alecrim.

De carro, entre um compromisso e outro na cidade, passo na fábrica de doces abandonada da Sams, de onde emanava um cheiro adocicado que até hoje eu sinto. A rua Miguel Castro, o Minipreço (Hoje uma “Igreja”), onde comprei meu primeiro disco, um compacto do Kraftwerk, com Spacelab de um lado, e The model do outro. As tardes de música e aventura, as caixas d’água, enormes, da CAERN, como algo deixado ali por extraterrestres. Natal que eu e meus primos exploramos e mapeamos com o coração. O mar em que nadamos e de onde saímos salgados (Por favor, leia essa crônica de Clarice Lispector sobre o banho de mar), e o Morro do Careca, no fim de Ponta Negra, com seu topo proibido e inatingível como um Everest de areia (Hoje em dia é, de fato, proibido subi-lo), e o vento sem dó a nos revirar os cabelos e os pensamentos e as dunas.

Todas essas visões resistem, sob as muitas camadas de Natal que se sobrepuseram, ao longo dos anos, sobre essa Natal que vivi como um encantado. Como resistem em mim, sob as lâminas dos dias e noites que se sucederam. Uma visita assim é como olhar a cidade com olhos de raio X e, ao mesmo tempo, ser dissecado até esse íntimo em que a gente nela se reconhece.

Quando menina minha mãe via com, com sua mãe, o pôr do sol no rio Potengi. Herdei dela esse pôr do sol e essa palavra, Potengi. Vim aqui tomar posse desse amor. Vim aqui comer camarão.

Por do sol no rio Potengi, hoje maculado pela presença da ponte Newton Navarro