A fábrica da Tacaruna e a descoberta de Austro-Costa

Em 22 de março de 1986, eu e Roberval fomos ao show do RPM, lá no Centro de Convenções, no Complexo de Salgadinho, entre o Recife e Olinda. O RPM, com Paulo Ricardo à frente, era a banda do momento no Brasil, tocando até encher o saco em todas as rádios com vários hits do seu primeiro disco, Revoluções por minuto. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Em 22 de março de 1986, eu e Roberval fomos ao show do RPM, lá no Centro de Convenções, no Complexo de Salgadinho, entre o Recife e Olinda. O RPM, com Paulo Ricardo à frente, era a banda do momento no Brasil, tocando até encher o saco em todas as rádios com vários hits do seu primeiro disco, Revoluções por minuto. A gente não curtia aquilo, mas Roberval trabalhava, ou estagiava, ou sei lá o que, no jornal da praia, jornalzinho que circulava na praia da Boa Viagem, e tinha dois ingressos promocionais, para fazer a cobertura do show, que prometia um padrão internacional como espetáculo, para o periódico praieiro.

Não lembro da gente ter se divertido ali. Acho que começou tarde, fez muito barulho, não do bom, e terminou ainda mais tarde. A gente que era liso e não tinha carro, e de repente estávamos diante do problema que era voltar pra casa àquela hora. O Centro de Convenções ficava longe demais de onde a gente morava, e seria coisa de pegar dois ou três ônibus naquele começo de madrugada. Um pra sair dali até o centro e outro pra chegar na Imbiribeira. Outro problema era um ônibus passar ali naquele ermo em meio ao breu.

O que você que me lê precisa entender é que aquele lugar era um meio de caminho entre duas cidades, sem residência alguma à vista. A gente só via os carros indo embora, o lugar se esvaziando, nenhuma carona pintando. Nos restou caminhar até o sombrio ponto de ônibus não tão mais próximo, em frente a fábrica da Tacaruna, que é, naturalmente, uma fábrica abandonada.

Fachada da edificação, c. 1900.

Construída para ser a Usina Beltrão, e tendo sua construção concluída em 1895, acabou por virar uma manufatura de tecidos e em 1982 foi desativada. Muitos planos foram feitos para ela mas até hoje segue vazia, se deteriorando e assombrando o Complexo de Salgadinho. E lá estávamos eu e Roberval, às uma e trinta da madrugada, esperando uma ônibus fantasma que nunca viria, em plena escuridão. Hoje existe um Shopping Center em frente à Tacaruna, do outro lado do canal, mas há quase 35 anos… pense! À nossa frente os carros passavam faiscando nas vias expressas que conectam as duas cidades, enquanto conversávamos sobre o que conversávamos, ou seja, discos, músicas, livros, espíritos. Impossível não falar de fantasma na situação em que nos encontrávamos. E quando tudo já estava bem ruim, vimos que um camburão da polícia, uma clássica Veraneio, vinha se aproximando devagar, chegando junto, e a gente ali, tipo, que merda.

— O que vocês estão fazendo aqui?
— Esperando ônibus. A gente tava num show no Centro de Convenções.
— Aqui não é um lugar legal pra vocês esperarem ônibus. Entrem aí, a gente vai deixar vocês no Derby.

O Derby era a civilização mais próxima, com um bom sortimento de ônibus, mesmo às duas da madrugada. O negócio era entrar no camburão sem acreditar que a gente seria deixado no Derby. Dois perdidos numa noite suja… onde fomos nos meter? Bem, até ali… num camburão da PM. Mas contra nossas piores e bem fundamentadas expectativas, o caminho até o Derby foi cordial, gentil mesmo, pontuado por algum bate-papo e o vento entrando pela janela. Da calçada demos adeus à nossa inesperada missão de resgate e dali pegamos um ônibus para o centro, e na Dantas Barreto entramos num Bacurau do Jordão Baixo ou Alto, Destination: Home!


Essa é uma história que gosto de contar e ela sempre surge quando o tema da conversa é sobre essas experiências, esses acontecimentos miúdos da vida, muitas vezes estranhos, e a té perigosos, mas que se tornam engraçados com o passar dos anos. Contar uma história assim também é ua oportunidade de se reencontrar com uma versão de si mesmo, que você não vê há muito tempo. Roberval não lembra dessa história, mais um motivo para eu contá-la e recontá-la. Por mim e por ele.

Recentemente dei com os costados na Tacaruna mais uma vez, virtualmente, é claro. Devo ter comentado essa história com alguém e isso atiçou minha curiosidade pela velha fábrica, que eu sempre fazia questão de contemplar quando passava de ônibus no caminho entre Recife e Olinda. Com mais de um século de existência, a fábrica tem uma história longa e confusa, sujeita aos humores da economia açucareira de Pernambuco no século passado, às idas e vindas dos caprichos do estado e também às ideias do empresário Delmiro Gouveia. Há um bom material sobre a fábrica na internet, inclusive um artigo da Fundação Joaquim Nabuco. Mas no furdunço da internet encontrei o documentário Usina Beltrão e Fábrica Tacaruna, de Lucas Lobato Ferreira, baseado no livro do historiador Limério Moreira da Rocha, Usina Beltrão e Fábrica Tacaruna: História de um empreendimento pioneiro. A partir de uma entrevista com o próprio Limério, e imagens da fábrica e seu entorno, mergulhamos nos muitos vieses de uma história riquíssima que, ao que tudo indica, ainda não terminou. Logo no começo do vídeo Limério fala de sua visão da fábrica, que não é muito diferente da que eu tinha, e mesmo Roberval. A visão daquela grandiosidade abandonada, fantasmagórica, carregando a si mesma como fardo. Recife tem vastas inspirações sobrenaturais e a Tacaruna, ainda hoje, parece-me mesmo uma insólita assombração, a vigiar os caminhos. Naquela noite, eu e Roberval sentíamos seu olhar pesado às nossas costas.

Mas o que esse doc tem de muito bom é que, pra explicar o espanto da fábrica, Limério evoca os versos do poeta pernambucano, nascido em Limoeiro e que fez do Recife seu lugar de vida e verso, Austro-Costa:

O bond parou
Ergui os olhos de meu De Profundis
E surprehndi a treva afflicta
na Noite — irmã da alma de Wilde,
Afflicta, afflicta…

O óleo negro da Noite escorria por tudo.

Porém , os maroins têm lanternas na insídis…
(Os microscópicos anthropóphagos do Mangue!)

De prompto, o assalto.
Mas…
(Oh! A ultriz delícia
de esmagar, a sorrir, com um tabefe de estalo
a perfídia de um átomo de lama!…)

Segue o Bond, de-novo,
Agora, ao longe, a Fábrica
é bem um negro, immenso transatlântico
encalhado no mangue.

Quem me lê com alguma frequência ou me conhece, sabe do meu interesse, amador, diga-se, pela poesia pernambucana, sobretudo a quem Recife como fonte de inspiração. Então, descobrir um novo poeta, que eu simplesmente ignorava, é de uma imensa alegria. Ainda mais com tais versos. Vi a mim e a Roberval nesse poema, nesse bonde, a esmagar maroins contra o corpo, aos tabefes, e a mirar com respeito a Tacaruna. Que riqueza de imagem, um poema que é uma história inteira, um filme quase. Fica aqui a dica, Kleber Mendonça filho!

Assisti ao ótimo documentário e corri às pesquisas, agora em busca de Austro-Costa. Pouca coisa disponível, pouquíssimos poemas reproduzidos em parcos blogs. No Suplemento Pernambuco um delicado e curioso perfil nos oferece uma visão rápida mas bem apurada da passagem do poeta entre nós. Morreu jovem, o poeta, no dia 29 de outubro de 1953. Tinha 54 anos e se foi num acidente de ônibus, um dos primeiros a acontecer na cidade. Estava de pé no coletivo, a ler, e ao súbito impacto caiu e bateu com a cabeça. Lembrei imediatamente de Carlos Pena Filho, outro poeta do Recife que morreu, precocemente, num acidente envolvendo um ônibus.

“Quanto a mim, se não morrer, / vou entrar para a Academia / e isso é pior do que morrer!”

Mais um poeta sobre quem pouco se fala, pouco se lembra. Me vi andando pelo Recife, ignorante de Austro e seus versos, seu olhar sobre o mesmo Capibaribe que olhei tantas vezes ao longo da vida. Um outro Capibaribe que não o de João Cabral, que tanto pontuou meu convívio com o rio.

Capibaribe, meu rio,
espelho do meu sonhar
quero fazer-te o elogio,
mas penso: Se te elogio,
é a mim que estou a elogiar…

Capibaribe, meu rio,
espelho do meu sonhar…

Foi nos arquivos digitais da Biblioteca Nacional, pesquisando as edições das décadas de 1940 e 1950, que acabei por conviver com Austro-Costa. Poemas, encontros, pequenas notas, sua correspondência na posta restante do Diário, os posicionamentos políticos, o olhar sobre o cotidiano da cidade. Andei com Austro por um Recife imaginário, muito anterior a mim, mas ainda assim em mim, de alguma forma. Talvez pelo Recife ter sido sempre velho, mesmo quando eu andava pelas suas ruas, como se tivesse também quase 500 anos. Tudo que cresce de uma cidade, cresce dentro da gente também. Sua histórias, suas vielas, seus lampiões de gás, tudo vem dentro da gente. Veio dentro de mim Austro-Costa, sem saber, nem eu e nem ele. Poetas parecem sempre ser uma resposta ao que ansiávamos. Encontrar a obra de Austro-Costa e sua presença é um reencontro, uma espécie de “Gente! Claro!”. Esteve sempre ali, latente. E foi no espanto do reencontro que emergi dos arquivos da Biblioteca Nacional, agora em busca de um livro reunindo seus poemas. Uma pesquisa, agora na Estante Virtual, levou-me a alguns poucos e caros exemplares de época. Mas para minha grata surpresa, não é que a CEPE tem um volume que traz seus dois livros publicados e uma seleção de sonetos satíricos por módicos R$15?!

Enquanto escrevo aguardo ansioso a chegada da minha encomenda, para folhear suas páginas e conversar com esse poeta, verso a verso. Perguntar a ele se naquela noite, ao parar o bonde, ele não teria visto dois jovens perdidos, a esperar sabe-se lá o que, enquanto os maroins esvoaçavam, esses anthropóphagos do Mangue! Se ele viu, refletido nos olhos daqueles dois, o impossível Recife do futuro, os carros riscando a noite do Complexo de Salgadinho, a Tacaruna abandonada, ainda ancorada na escuridão de onde já não é mais mangue.

Leia também:
Austro-Costa, um Poeta do Recife – Texto de Paulo Gustavo (Revista Será?)
Pesquisa escolar FUNDAJ


Uma viagem musical

Há 11 anos que Marcia Feitosa, pesquisadora, professora, musicista, cantora… Eita, que é muita coisa boa pra uma pessoa só fazer!! Pois são onze anos, com todos esses fazeres e talentos, tocando o projeto Musicandarte, iniciativa pensada, e posta em prática, para levar à criançada a memória viva da nossa música brasileira. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Há 16 anos que Marcia Feitosa, pesquisadora, professora, musicista, cantora… Eita, que é muita coisa boa pra uma pessoa só fazer!! Pois são 16 anos, com todos esses fazeres e talentos, tocando o projeto Musicandarte, iniciativa pensada, e posta em prática, para levar à criançada a memória viva da nossa música brasileira. Vivíssima, porque a gente não pode imaginar essa turma crescendo sem saber quem foi Chiquinha Gonzaga, Cartola, Tia Ciata e tanta gente linda que contribuiu para essa história, que é nossa história como povo.

Como legado desse trabalho, a Marcia nos apresenta agora o primeiro volume de uma séria de livros que aborda com leveza e conhecimento, momentos-chave dessa história. As viagens de Zequinha no terreno dos Chorões (Editora Inverso), com ilustrações de Lhaiza Morena, nos carrega até o Rio de Janeiro nos primeiros anos do século XX, pra gente assistir de camarote a ebulição artística daquele período que nos deu um dos gêneros musicais mais cativantes que a gente conhece, o Choro!

É virando uma esquina que Zequinha, a caminho do campinho pra pelada, adentra magicamente nesse universo em que vamos… Gente, não quero dar spoiler! O livro abre pra gente, crianças e também adultos, o mundo dos Chorões, das rodas de choro, das casas acolhedoras de bairro, de tanta coisa formadora da nossa cultura. É um livro cheio de delicadezas, capaz de tocar qualquer um que se interesse por música, por cultura, e também capaz de despertar esse interesse. E isso é que é importante e o centro da ideia do Musicandarte e do trabalho da Marcia Feitosa. Zequinha viaja no tempo e a gente viaja com ele ao encontro de personagens inestimáveis, cativantes, que nos legaram uma importante herança cultural.

Para adquirir o livro online, visite o site da Casa – Projetos Literários


E agora deixamos você com uma super bate-papo que tivemos com Marcia Feitosa e o violonista Carlos Mas, em que conversamos sobre o livro e o projeto Musicandarte!


A Lua sobre nós

A Lua é mais antiga que a terra, está nos registros mentais mais baixos e inacessíveis. Sonhei com isso, com essa informação. A Lua foi o veículo que nos trouxe até aqui, que nos protegeu no percurso mais difícil da nossa migração. Era verde, rica e foi abandonada. Agora está latente, aguardando os sinais, a movimentação da civilização no sentido de abandonar mais um planeta.

Texto de Toinho Castro


Primeira foto da lua, em 1840, por John Draper

A Lua é mais antiga que a terra, está nos registros mentais mais baixos e inacessíveis. Sonhei com isso, com essa informação. A Lua foi o veículo que nos trouxe até aqui, que nos protegeu no percurso mais difícil da nossa migração. Era verde, rica e foi abandonada. Agora está latente, aguardando os sinais, a movimentação da civilização no sentido de abandonar mais um planeta.

Aportaremos então nos seus vastos campos e rumaremos para o interior, onde descansam as grandes máquinas e os alvéolos semi-transparentes, onde seremos decompostos ao mínimo necessário para empreender uma nova viagem. Todos nós sabemos, no núcleo de alguma consciência que temos, que é assim. Que tem sido assim. Está previsto recomeçar do zero em algum outro mundo. O passo a passo da evolução reencenado por nós, os mais antigos viajantes do cosmos. É um processo contínuo, que está em andamento exatamente agora e algo em nós, perdido em nós, para que não o encontremos, o controla. Posso sentir isso agora, vibrando levemente sob meus olhos fechados. Você não sente porque sentir isso que está acontecendo comigo é um acidente, previsto em matemáticas muito antigas, mas que ainda vamos descobrir.

Agora eu sei e tenho essa memória de gerações de nós, vivendo em mundos diversos, distantes no tempo e devastados, deixados para trás. O longo caminho da nossa civilização, do silencioso vácuo percorrido. Sei agora que não somos terráqueos e a lua é o nosso transporte. Tantas teorias para explicar sua origem e nenhuma que se encaixa, nenhuma que explica. Fomos até lá nos nossos foguetes toscos, enchemos um saco de pedras e voltamos. E nunca mais quisemos retornar. O que os astronautas descobriram que não quiseram nos contar? Talvez meus sonhos e presságios sejam conseqüências desses vôos. Algo iluminou-se, de alguma forma, em alguém.

Eugene Cernan foi o último homem a pisar na lua. Imagino sempre ele contemplando aquela paisagem árida, o céu escuro, a terra distante e uma voz interior que lhe dizia: Vá embora daqui. Ainda é cedo. Eugene esqueceu, certamente, essa voz, como esqueceu o peso enorme sobre os ombro, desafiando a falta de gravidade. Sei que visitaremos a lua ainda outras vezes, sempre em busca de explicações, antes que despertemos todos e sigamos em busca de um novo lugar para nós no grande vazio entre os mundos.

A terra é o décimo quinto planeta que colonizamos, num processo longo e complexo que implica em começar tudo outra vez em cada novo mundo. É assim que temos sobrevivido e destruído uns aos outros. Agora eu sei… sou uma testemunha, um louco.

Vou até a rua e olho a lua. Eu deveria uivar pra ela, como os lobos. É possível que os lobos sejam um sistema, uma conexão, alimentando a lua com dados a cada uivo, dados que os computadores no centro da lua elaboram para colocar em movimento o que quer que precise estar funcionando quando chegar o dia último, em que partiremos mais uma vez.


Eu, a internet e as redes sociais

Fiquei um bom tempo refletindo sobre meu texto para essa quinzena. Não por não ter o que dizer ou o que contar, mas porque são muitos os “causos”. Finalmente resolvi contar pra vocês minhas impressões (ou melhor: reações) a um documentário que assisti recentemente sobre o nosso papel, enquanto humanos, na indústria das redes sociais. E isso me leva a falar da internet, já que é nesse palco que as redes acontecem. [Texto de Eduardo Maciel]

Texto de Eduardo Maciel


Olá, kurumateirxs!

Fiquei um bom tempo refletindo sobre meu texto para essa quinzena. Não por não ter o que dizer ou o que contar, mas porque são muitos os “causos”.

Finalmente resolvi contar pra vocês minhas impressões (ou melhor: reações) a um documentário que assisti recentemente sobre o nosso papel, enquanto humanos, na indústria das redes sociais.

E isso me leva a falar da internet, já que é nesse palco que as redes acontecem.

Pois bem… Quando eu nasci, em 1978, nada disso existia. Minha infância foi recheada de brincadeiras e traquinagens, improvisos e imaginação, fraldas de pano, pipas e peões, bolinha de gude e muitas conexões reais, personalíssimas.

Talvez por isso eu tenha amigos de infância até hoje, e agradeço muito por isso.

Depois, já em plena adolescência, demorei a ceder às primeiras redes e comunidades online: em grande parte por resistência pessoal mesmo, e em parte por incentivo de pais e professores, já que a internet era algo não assim tão acessível a todos e eu precisava manter total foco em meus estudos.

Só que esse “universo paralelo” foi se avolumando, e emulando praticamente todos os formatos relacionais que temos aprimorado desde a idade da pedra. Comércio, ensino, vida financeira e até mesmo sexual e afetiva: para cada humanidade, uma simulação online. Tanto e em tal proporção que recentemente resolveram nos alertar que somos produtos em circulação, gado mesmo, levados de lá pra cá pelos tais algoritmos que eu nunca tive o (des)prazer de conhecer pessoalmente.

Não pretendo aqui examinar o assunto, nem me aprofundar nele. Quero apenas me posicionar, contar pra vocês o que penso e (espero) te convidar à mesma reflexão.

Já sei: provavelmente vocês esperam de mim um discurso eloquente e saudosista, de quem viveu pelo menos uns quinze a vinte anos sem celular e conexão remota. Se esperam isso, hão de se decepcionar. E eu explico…

Seria no mínimo equivocado de minha parte ignorar a realidade, que é sim irreversível, e da qual não podemos escapar. E de certa forma, que bom que não podemos, ou a leitura desse texto (assim como a sua publicação) não seriam viáveis.

Uso a internet para diversas coisas que me trazem comodidade, rapidez e graças a ela consigo alcançar coisas, pessoas e conhecimentos que talvez não tivesse no modo antigo. Sou grato por isso.

Uso também as redes sociais para trabalhar e divulgar o meu trabalho, em um perímetro extremamente mais amplo do que eu poderia fazer no modo antigo. E sou ainda mais grato por isso.

Eu sei… Vocês podem estar se questionando sobre a minha cara de pau de vir aqui nesse espaço de vanguarda que é a Kuruma’tá falar que não tenho medo algum da internet, das redes sociais e tudo o que as acompanha. De certa forma concordo com vocês.

Porém, o cerne da coisa não é discutir aquilo que é inexorável é irreversível. É eivar esforços em pressionar, enquanto sociedade, nossos governos a adotar freios e contrapesos, regulações e regramentos, de ordem pública, para a proteção dos cidadãos. E, de igual forma, pensarmos em como essa coisa toda afeta a nossa vida, separando o que é bom do que não é, bem racionalmente, para que com isso possamos fazer eventuais ajustes e escolhas qualificadas.

Tenho lido textos e conversado com pessoas sobre esse tal documentário, feito pelos “criadores do monstro” nos alertando sobre seus perigos. A velha história do Frankenstein, recontada.

Gente que está considerando deletar suas redes sociais, que está se sentindo usada, que está temerosa sobre seus dados na rede disponibilizados. Leio e escuto tudo com o máximo de empatia, e me solidarizo porque muito me preocupam as próximas gerações, que, ao contrário de mim e meus contemporâneos, não terão outro paradigma para comparar.

Mas não me iludo não. Por acaso algum naïf aí acha que os carros vão sumir? Que as geladeiras hão de desaparecer? Não vão. E se forem, apenas serão substituídos por outras versões (mais evoluídas) de si mesmos.

Então o que faço, afinal? Qual o derradeiro resultado das minhas divagações e pensamentos sobre esse assunto?

Acho que devemos em algum momento parar, nos desconectar e refletir:

  • Como eu uso a internet e as redes sociais?
  • O que eu alcanço de comodidade?
  • Onde estou emulando relações reais em ambientes fantasiosos e pouco críveis?
  • O que eu poderia deixar de fazer na internet e voltar (ou passar) a fazer na vida real?
  • Quanto tempo a internet e as redes sociais demandam de mim?

Feito isso, já podemos nos reconectar com mais autoconsciência, sabedores de que sim, tentam nos robotizar e nos induzir a comportamentos, como um algoz em um relacionamento abusivo. Mas, no fim das contas, tudo acaba se resumindo em uma relação entre A e B, onde o A é o mundo virtual que quer usar você, e o B é cada um de nós, só que num embate pessoal.

E assim sendo, acaba o problema: afinal, quando um não quer, dois não brigam, não é mesmo?


O espelho da bela adormecida e o diabo é o aborrecimento

Diana de Sousa parte do imaginário da bela adormecida e apresenta a versão duracional da performance que se metamorfoseia em vários formatos que por sua vez trabalham diferentes relações com os espectadores. Existe a versão de palco que não vimos no Festival Linha de Fuga, mas ouve a surpresa de uma versão performance-acontecimento montra, inserido na Città Aperta de Alain Michard. [Texto de Ricardo Seiça Salgado]

Texto de Ricardo Seiça Salgado

Membro do grupo informal auto-organizado Crítica de Fuga, para o Festival e Laboratório Internacional de Artes Performativas – Linha de Fuga | 12 Set. a 4 Out. 2020, em Coimbra.


“Conheces a história de uma mulher? Uma mulher forte como um touro que disse que só casaria com quem a derrubasse. Com quem a atirasse ao chão. Durante anos a fio apareceram muitos pretendentes. Muitos visitantes. Chegaram de todas as partes do mundo. Vinham fortes. Partiam fracos… Ninguém o conseguiu, ninguém a conseguiu derrubar.” (www.bela-adormecida.com).

Foto 01_ bela adormecida em Città Aperta, de Alain Michard. Foto de Miguel Cunha.

Diana de Sousa parte do imaginário da bela adormecida e apresenta a versão duracional da performance que se metamorfoseia em vários formatos que por sua vez trabalham diferentes relações com os espectadores. Existe a versão de palco que não vimos no Festival Linha de Fuga, mas ouve a surpresa de uma versão performance-acontecimento montra, inserido na Città Aperta de Alain Michard. E a versão duracional, uma performance-instalação que admite apenas uma pessoa-público e se desmembra e estilhaça do e no conto homónimo agora rescrito da bela adormecida, adensando-lhe o erotismo, o voyeurismo e performer-público mútuo, e a relação que desfabula a mulher da sua expectativa ruído.

Estamos no meio de uma teia de protocolos a cumprir para o encontro, entre o controlo das posições que cada um toma, tu e a bela adormecida, jogando a vigilância dos estereótipos da cultura dominadora patriarcal. Da psicologia do fantástico se faz real sociológico em cada um no imaginário, como o conto te posiciona dentro da performance, ritualizando o encontro, jogando com o poder entre géneros, e de como ele sobrevoa e atua em todos nós, mas atualizando. A bela adormecida e a pessoa-público vão estar num quarto vazio, já veremos.

Tem os contos da tradição popular, seja a Bela Adormecida, a Branca de Neve, a Cinderela, várias princesas e fadas e sempre uma que toma o papel do acontecimento de uma força ruim opressora, talvez voz herdada de um campo energético dorido, privando a princesa disto ou daquilo, reproduzindo a jusante e a montante (e é esse o problema) a figura de retórica (que é poder) da mulher vulnerável, frágil, mulher do lar, como o machismo objetifica a mulher, como no sistema patriarcal, submissa. Na encruzilhada (meia-noite), um sono profundo imenso e a bela adormecida entra então no estado de entre mulher fábula e desfabulada, nessa liminaridade que habita o bosque, aparentemente estéril mas que agora se joga como potencial emancipação, a partir da bela adormecida que se te apresenta.

Do conto tem a performance em duas fases, a preparação do encontro (em chat) e o encontro propriamente dito. Nunca, nem bela adormecida, nem pessoa-público sabem da identidade real de ambos até ao derradeiro encontro. Spooky! A marcação é feita pela produção que pede sigilo, e para entrar no chat é-nos pedido pela produção para inventar um nickname para acertar os detalhes do encontro. Já no chat é-me perguntado como gostaria que a bela adormecida se apresentasse. Ups!_ o que se passa na cabeça de quem vai entrar no quarto de uma bela adormecida por vir? Parece às tantas que a bela adormecida faz uma espécie de questionário-casting, colocando eu-pessoa-público nessa posição de vulnerabilidade. Jogo-dominação. É denso e nonsense estar a falar diretamente com a bela adormecida online. Sai um sorriso que também é atrevido.

Somos chamados aos “protocolos” que este encontro pressupõe ou inclui, como o facto de ir ser filmado, de haver um vigilante que nos recebe e clarifica de todos os procedimentos, e encaminha ao quarto. Há algo de kafkiano em tudo isto. Há num plano acima na escala do social, do lugar político da mulher no sistema de expectativas do senso comum e que o conto conta, e há a escala da autobiografia, o si próprio ou as suas máscaras, nesta trama em que és e estás colocado. Mal sabe que fala com um príncipe libertário, descontraio. Diz-nos afinal no chat, “o engano é pensarmos que um beijo resolve tudo. Um engano. Tudo isto é um engano. Não me acordes.” Spooky! O diabo é o aborrecimento, penso de Peter Brook. A bela adormecida acaba de me aceitar para pessoa-público-performer. Desejo do desejo ou desejo da coisa em si como ela afinal é e para quê? Há um desfoque do desejo que é aqui colocado em jogo e que se quer sempre refocar no encontro. Performance laboratório.

O encontro consiste, então, em passar uma noite num quarto privado com a bela adormecida, das 0h às 07h do dia seguinte, altura em que toca um despertador e a performance tem impreterivelmente de terminar para ambos. Nunca nesse período a pessoa público poderá sair do quarto, o que também determinará para ele o fim da sua prestação, diz nas regras. No quarto, o rigor com que a instalação viva é montada embate em múltiplas direções. São camadas em suspenso, o sono e a mulher da história tradicional, a liminaridade ritualizada do encontro na tua posição no jogo performance. A performance chama-nos. Planos de significado emergem da história dos objetos expostos e o modo como estão meticulosamente organizados suspendem o pensamento na improvisação a que fomos chamados a fazer. Neste beijo (in)desejado totalizador, que meta-beijo possível, a partir dos papéis culturais que sobrevoam o nosso imaginário e que comandam o pensamento do senso comum e que metemos em prática no nosso verdadeiro backstage on the road? Tudo está a ser gravado, por isso o diabo é o aborrecimento. O raça do teatro vida.

À maneira do ritual a performance simula com as suas regras prescritivas e protocolos a seguir. E qualquer ritual amplifica, mesmo que simulado pelo jogo. Encapsulados na anterior bela adormecida estamos, mas a experiência do bosque surte um novo efeito, porque a bela adormecida observa, mesmo em sono profundo. Entramos neste filme, estamos a ser filmados, e observados observando. Nossa!_ o risco de aborrecer a bela adormecida, ou a mulher múltipla não objeto do desejo imposto é a performance. Alguém entra num palco vazio sobre o olhar de outro, diz Brook, é o mínimo para haver teatro. És protagonista, instalam-te nesta performance instalação. Ups! Que espelho perante a bela adormecida quando lhe passas em frente? Bela adormecida aparecida e desaborrecida, o diabo é o aborrecimento.


Este texto integra a coletânea produzida pelo grupo Crítica de Fuga, que acompanha os trabalhos dos artistas e as atividades do Festival Internacional de Artes Performativas – Linha de Fuga.

O número mais perigoso do mundo é retorcer um coração

Meu avô era o Homem Mais Forte do Mundo. Quem me contou foi a minha avó, que o conheceu ainda na tenra idade, quando ele fugiu com a cidade deixando pra trás toda a família circense. Dizia ela que os bíceps, tríceps e quadríceps dele já não davam mais conta do exaustivo e intenso intento diário de carregar tudo nas costas. E eram assim, por detrás da coxia, tremendo de frio com os músculos à mostra, que meu avô invocava o choro mais forte do mundo. [Texto de Eduardo Frota]

Texto de Eduardo Frota


Meu avô era o Homem Mais Forte do Mundo. Quem me contou foi a minha avó, que o conheceu ainda na tenra idade, quando ele fugiu com a cidade deixando pra trás toda a família circense. Dizia ela que os bíceps, tríceps e quadríceps dele já não davam mais conta do exaustivo e intenso intento diário de carregar tudo nas costas. E eram assim, por detrás da coxia, tremendo de frio com os músculos à mostra, que meu avô invocava o choro mais forte do mundo. E este espetáculo, dantesco aos olhos do senhorio, não interessava mais ao público.

A vida do casal começou a mudar justamente quando se viram, meu avô e minha avó, pela primeira vez, após o espetáculo dominical. Ele quis a carregar no colo, mas ela não se importou em caminhar pela rua salpicada de orvalho. Depois ele retorceu um cano de aço em forma de coração, como se fosse uma folha de papel, mas ela elogiou o formato perfeito do presente, e não os músculos besuntados de óleo de rícino. Mais tarde ele pediu que ela tocasse em seu peito para ver como era rijo, como era definido. Só que ela colou o ouvido nele apenas para deleitar-se com todo e qualquer batimento cardíaco.

E assim, deitaram-se pela primeira vez.

Naquela noite, o meu avô, ainda o Homem Mais Forte do Mundo, não se aguentou e chorou na frente da minha avó, porque era incontrolável a vontade de abraçá-la para impedir que ela fugisse e ele ficasse só. Exatamente como ele fazia com um gigantesco urso durante um de seus números mais perigosos. No entanto, tinha receio de machucá-la. E por conta de toda aquela quantidade de lágrima, ela ofereceu o seio como morada doce e quente. Ele simplesmente encostou ali a parte mais leve de seu corpo naquele momento, a cabeça.

E assim, fizeram amor pela primeira vez.

Desde então, meu avô procura emprego em um circo que o aceite como o verdadeiro artista virtuoso que é: o Homem Mais Sortudo do Mundo.

Poema de Juraci Cruz para Nonato Gurgel, no dia em que as cinzas do poeta foram jogadas ao mar

Nesse dia 15 de outubro do ano de 2020 as cinzas do poeta Nonato Gurgel foram lançadas ao mar. Em sua homenagem a amiga e poeta Juraci Cruz, de Caraúbas, terra de Nonato, escreveu o poema a seguir, recordando a vida gentil e poderosa desse mestre que partiu. [Poema de Juraci Cruz]

Poema de Juraci Cruz


Nesse dia 15 de outubro do ano de 2020 as cinzas do poeta Nonato Gurgel foram lançadas ao mar. Em sua homenagem a amiga e poeta Juraci Cruz, de Caraúbas, terra de Nonato, escreveu o poema a seguir, recordando a vida gentil e poderosa desse mestre que partiu.

Nonato Gurgel

Nasceu escrevendo poemas
Nas pedras do beco
Na Varzinha
Em São José
Caminhou com passos lentos
Olhou pra frente, sonhou
E foi

Os pneus do jeep
Espalharam letras
Pelo chão empoeirado do Seridó
Desceu pro Sudeste
Encontro Ana C
Estudou Clarice
Guimarães
Plantou letras
Regou frases
Colheu poemas
E amizades, eternas

Boina clara
Bolsa a tiracolo
Sorriso largo, piadas
Sarcasmo poético
Foi pra baixada plantar ensinos
Guiar meninos com a sua luz
Ensinou, aprendeu e cresceu
Virou gigante com tanta humildade
Virou luz com tanta bondade

Olhava o mar, se encantava
Fazia de cada onda um poema
Da areia um lugar de descanso

Hoje te devolvemos ao mar que tanto amavas
Vais ser embalado pelas ondas do Leme
Na calçada Clarice te olha e sorri
Pois agora vocês estarão juntos na mesma poesia
E o mar celebra a presença de um ser tão grande.
Vai Nonato
Segue
Dorme ouvindo as ondas
Olhando o céu
Nós seguimos por aqui
Reverenciando sua boina
Horas lembrando o sol da esperança
Horas lembrando a lua de paz.

Macaé, 15 de outubro de 2020


70 anos de Guinga com as vozes femininas!

Outro dia a gente estava comemorando aqui na Kuruma’tá os 70 anos de Braulio Tavares, e agora a gente para tudo pra comemorar os 70 anos do grande Guinga! Seu aniversário foi em junho, mas agora a gente tem a deixa do CCBB – Centro Cultural Banco do Brasil, aqui do Rio de Janeiro, para celebrar! Trata-se da retomada da série de espetáculos, interrompidos pelo início da quarentena, GUINGA E AS VOZES FEMININAS. [Texto KURUMA’TÁ]

Texto KURUMA’TÁ


Outro dia a gente estava comemorando aqui na Kuruma’tá os 70 anos de Braulio Tavares, e agora a gente para tudo pra comemorar os 70 anos do grande Guinga! Seu aniversário foi em junho, mas agora a gente tem a deixa do CCBB – Centro Cultural Banco do Brasil, aqui do Rio de Janeiro, para celebrar! Trata-se da retomada da série de espetáculos, interrompidos pelo início da quarentena, GUINGA E AS VOZES FEMININAS, que retorna agora em versão online, pois depois de sete meses ainda estamos enrolados com a pandemia. A idealização e direção é da artista visual e cineasta Fernanda Vogas, e cada live será transmitida ao vivo, direto do CCBB do Rio de Janeiro, pelo canal do YouTube do Banco do Brasil, com acesso gratuito!

GUINGA E AS VOZES FEMININAS acontece entre 8 de outubro a 12 de novembro e tem patrocínio do Banco do Brasil, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura.

Foto de Renato Mangolin

Na agenda das lives, a lista luminosa de convidadas, e também convidados muito especiais para acompanhar o mestre e dessas divas Confira:

No dia 15 de outubro, Guinga vai receber a cantora lírica paranaense Cíntia Graton e Marcus Tardelli, ex-violão requinto do Quarteto Maogani. No dia 22, Simone Guimarães, paulista radicada em Brasília, vai cantar com ele e o violonista Jean Charnaux. No dia 25, será a vez da carioca Anna Paes, também cantora, mais o clarone de Pedro Paes.

No dia 29 de outubro, Guinga e Charnaux acompanharão a jovem Bruna Moraes, de São Paulo. No dia 1 de novembro, a mineira Ana Carolina empresta a sua voz grave ao repertório luxuoso de Guinga, com o reforço de Jean Charnaux. Já no dia 5 de novembro, a potência vocal da carioca Ilessi se somará às cordas de Guinga e Charnaux. No dia 8 de novembro, Luísa Lacerda, ótima violonista do Rio de Janeiro, vai cantar e tocar com Guinga e o sax soprano de Zé Nogueira.

Por fim, teremos ainda três palestras com a violonista e cantora Anna Paes, professora da Escola Portátil de Música: nos dias 24 (“Guinga e Paulo César Pinheiro”) e 31 de outubro (“Guinga, memória, história e identidade”) e 7 de novembro (“Viva Aldir! A parceria entre Guinga e Aldir”). 

Gente, ter uma artista dessa dimensão, aqui entre nós, produzindo, iluminando o palco e a cultura brasileira, é de um privilégio enorme. São mais de 50 aos dedicados à música, quase 20 discos e uma constelação de composições e parcerias. Se alguém chegar junto de você e disser que não conhece Guinga, diga que a pessoa está enganada, que conhece sim e que se nasceu nos últimos 50 anos, traz a música dele entranhada no DNA; porque não dá pra contornar esse monumento. Ele tá inserido na tradição e na inovação, e sua obra é reveladora do Brasil que a gente gosta, que a gente sente falta quando tudo parece perdido. São tempos de escutar Guinga e se conectar com essas raízes, do violão brasileiro, de Villa-Lobos, Pixinguinha, Jacob do Bandolim. Bote Guinga pra tocar, se programe direitinho e assista à essas lives pelo que elas carregam de talento e compromisso com a cultura, bem como pelo que tem de histórico nesses encontros! Vai ser bom demais.

AGENDA DE LIVES

Dia 8 de outubro (quinta-feira), às 20h
Guinga recebe Leila Pinheiro e Marcus Tardelli
(Já aconteceu. Assista aqui!)

Dia 15 de outubro (quinta-feira), às 20h
Guinga recebe Cíntia Graton e Marcus Tardelli

Dia 22 de outubro (quinta-feira), às 20h
Guinga recebe Simone Guimarães e Jean Charnaux

Dia 25 de outubro (domingo), às 20h
Guinga recebe Anna Paes e Pedro Paes

Dia 29 de outubro (quinta-feira), às 20h
Guinga recebe Bruna Moraes e Jean Charnaux

Dia 1 de novembro (domingo), às 20h
Guinga recebe Ana Carolina e Jean Charnaux

Dia 5 de novembro (quinta-feira), às 20h
Guinga recebe Ilessi e Jean Charnaux

Dia 8 de novembro (domingo), às 20h
Guinga recebe Luísa Lacerda e Zé Nogueira

Dia 12 de novembro (quinta-feira), às 20h
Guinga recebe Leila Pinheiro e Marcus Tardelli

CICLO DE PALESTRAS – POR ANNA PAES

Aos sábados, às 20h

Dia 24 de outubro :: Guinga e Paulo César Pinheiro
Dia 31 de outubro :: Guinga, memória, história e identidade
Dia 7 de novembro :: Viva Aldir! A parceria entre Guinga e Aldir Blanc

MASTERCLASS – COM GUINGA

Dia 10 de outubro (sábado), às 20h, com a temática “A influência de Villa-Lobos e Tom Jobim na obra do compositor”
(Já aconteceu. Assista aqui!)

FICHA TÉCNICA

Patrocínio: Banco do Brasil
Realização: Centro Cultural Banco do Brasil
Produção: Vogas Produções
Curadoria e Direção Geral: Fernanda Vogas
Operadoras de Câmera: Thais Taverna e Rita Albano
Design Gráfico: Xabier Monreal
Cenografia: Carmen Slawinski
Sonorização: Spectacle
Técnico de som: Leco Passolo
Operação de luz: Julio Katona
Transmissão: Video Shack e All Net
Assistente de produção: Barbara Mazzola
Fotografia: Renato Mangolin
Assessoria de Imprensa: Monica Ramalho e Rafael Millon, da Belmira Comunicação

Foto de Renato Mangolin

Leitura recomenda: Praia do Eco, de Francisco Paschoal

Antes de mais nada, uma declaração: Sou suspeito. Sou fã dos textos que Francisco Paschoal espalha por aí, ao sabor da internet, sempre surpreendendo a gente. O sujeito é meu amigo e eu poderia simplesmente ficar quietinho a respeito de seu novo trabalho, ou simplesmente mandar um “pô, maneiro…”, expressão que provavelmente nem se usa mais e, decerto, cafona. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Antes de mais nada, uma declaração: Sou suspeito. Sou fã dos textos que Francisco Paschoal espalha por aí, ao sabor da internet, sempre surpreendendo a gente. O sujeito é meu amigo e eu poderia simplesmente ficar quietinho a respeito de seu novo trabalho, ou simplesmente mandar um “pô, maneiro…”, expressão que provavelmente nem se usa mais e, decerto, cafona. Outra expressão que não se usa mais. Mas se trata do volume 1 de Praia do Eco, novíssimo lançamento da Mamakoosa e eu vou fazer o que é certo e afirmar sem pudor: Trate de ler!

E afinal, por que essa urgência? Porque é tudo de bom, de leve, divertido e esperto. E inesperado. Francisco sabe levar a narrativa com o cuidado de não entregar tudo, deixando mesmo a gente sem saber se tem um tudo. Aos pouquinho, a cada página você vê que algo tá se desenhando, que uma estrutura tá se aramando e que algo sorrateiro, subterrâneo, está por irromper. Ou não? Essa é armadilha que nos captura em Praia do Eco e faz a gente se mover de uma página para a seguinte, naquela adrenalina da expectativa de que algo vai se revelar.

Mas, leitores, esse é o volume 1 de Praia do Eco e mais vem por aí. Eu tô ligado mais ou menos do que é, mas não vou dar spoiler. Não vou estragar essa curiosidade que acabei de plantar em você, sobre um exemplo irado de literatura nacional, que bem poderia virar um filme, uma série ou um boato!Lembro quando eu era moleque, lá no Recife, e um dia a gente tava na casa de um amigo, já de noite, sentados na calçada. Um de nós começou a falar de uma história que tava rolando, da Perna Cabeluda, uma lenda urbana sobre uma perna, cabeluda, que andava solta por aí, separada do seu corpo, nas noites recifenses, a assustar e botar pra correr os mais destemidos e moleques como a gente. Um arrepio foi percorrendo todo mundo, saindo de um pro outro. Aos poucos todo mundo foi se levantando e rumando pra casa. Não sem olhar pra trás. Afinal, nunca se sabe.

Praia do Eco tem algo de história assim, que a gente escuta não se sabe exatamente onde, que a gente conta meio que mudando um pouco, acrescentando um susto, algo nosso. Leia com esse espírito. Você não vai largar o livro. Vai ser como maratonar uma boa série e ficar contando os dias para a próxima temporada.

Vale. Vale muito!

PS. Ah, sim… eu escrevi o prefácio. Hehehe

Compre no site da Mamakoosa!

Entrevista à coreógrafa Tânia Carvalho

A entrevista à coreógrafa Tânia Carvalho foi feita uns dias antes da apresentação da sua peça no contexto do festival Linha de Fuga. Apesar de sublinhar várias vezes a sua falta de vontade de parecer que tem certezas, lá foi desfiando o novelo, com cuidado, pois isto das palavras nem sempre é o melhor remédio. A conversa não foi longa, porque o palco do TAGV estava sob o escrutínio de pequenas obras e era preciso ir verificar tudo. É assim o trabalho da Tânia Carvalho: meticuloso. E completamente arrebatador. [Por Carina Correia]

A entrevista à coreógrafa Tânia Carvalho foi feita uns dias antes da apresentação da sua peça no contexto do festival Linha de Fuga. Apesar de sublinhar várias vezes a sua falta de vontade de parecer que tem certezas, lá foi desfiando o novelo, com cuidado, pois isto das palavras nem sempre é o melhor remédio. A conversa não foi longa, porque o palco do TAGV estava sob o escrutínio de pequenas obras e era preciso ir verificar tudo. É assim o trabalho da Tânia Carvalho: meticuloso. E completamente arrebatador.

Por Carina Correia

Outubro de 2020

Tânia Carvalho_Captado Pela Intuição © Rui Palma

Li algures que a Tânia Carvalho fala pouco das suas criações, sendo nomeadamente essa uma das suas imagens de marca. É verdade?

Não é que não goste. Não tenho problema nenhum em dar entrevistas ou a responder a perguntas. O que eu normalmente não gosto é de explicar uma peça, o que desde logo é impossível. Quando falo da peça, as pessoas fecham um bocado a ideia da peça ali, e isso faz-me pena, porque as pessoas têm capacidade para muito mais do que isso. Ao ver uma peça, têm a capacidade de a receber de formas mais originais, sem ser a minha só. E é por isso que não gosto. E depois, porque é mesmo difícil falar-se disto tudo que é a criatividade, de como é que se faz. Podemos falar um pouco, mas não podemos realmente explicar o que é. Depende do tipo de trabalhos, mas no meu trabalho não faz muito sentido, digamos, não é muito óbvia a forma de o falar. Eu não faço articulações de pensamento para criar peças, então não as tenho. Ao responder, parece que as tenho, e depois fica-se fechado ali.

Será que podes quebrar a regra e falar-me um pouco do que trazes aqui ao Linha de Fuga? Captado pela Intuição é uma obra de 2017: «um solo que balança entre o abstraccionismo lírico e o figurativo», segundo palavras tuas. Dois pontos opostos, não?

Eu gosto muito de ser apanhada pelas coisas. Em vez de ir à procura, fico à espera, faço quase exercícios de espera, principalmente nos solos, fico à espera de que as coisas me surjam, que passem através de mim. Na altura, o que me estava a surgir eram formas abstractas; mas depois, fazer formas abstractas com o corpo, e como é o meu corpo, torna-se complexo, porque olho e vejo uma pessoa a fazer figuras, e daí o figurativismo. E aí surgiu uma parte da peça que posso dizer ser mais teatral, entre aspas, é dança, mas vê-se que é uma pessoa que está num certo estado, numa certa situação. No início, não se vê tanto, não se percebe bem o que se está a passar, são só formas. A peça é mesmo como ela aconteceu em mim, enquanto estava em estúdio e a trabalhar. Foi um processo muito solitário. Andei um bocado a divagar, as ideias divagam, não ficam muito fixas. Mas esse texto foi uma brincadeira que fiz com essas duas coisas: esse dualismo que é estar num sítio e estar num outro.

Mas esta peça foi criada em algum contexto específico que estivesses a viver?

Não. Estive em vários sítios e andava sozinha. Quando trabalho sozinha, posso passar muitas horas em estúdio, mas as horas de ensaio da peça em si são poucas, faço outras coisas antes: alongamentos, exercícios. Na verdade, quero estar o mais aberta possível para o que possa aparecer, é assim que gosto de fazer.

A peça teve alguma adaptação para esta apresentação ou está igual?

Está igual.

Que reflexão, se é que existe, está por trás das tuas coreografias?

As reflexões estão sempre aqui, não é? Estamos sempre com a cabeça a mexer. Mas eu não escrevo sobre isso, nunca escrevi, não o faço, não falo com as pessoas sobre isso, não é uma coisa que me dê vontade. Mas os pensamentos andam aqui, penso nas coisas. Depois, olho muito para as minhas peças como espectadora. Não é fácil separar, mas há uma parte de mim que consegue. Consigo ver a peça e a partir daí ver coisas que não tinha visto, tirar conclusões, ou fazer reflexões, lá está, mas não é um exercício que eu faça metodicamente, com intenção, faço sempre sem querer.

Para ti o corpo pode ser também matéria política? Podes desenvolver essa ideia, desse papel que o corpo pode ou não ter, uma vez que o tema deste Festival é precisamente a Democracia?

Eu sei que tudo o que fazemos pode ser visto de uma forma política, mas eu não penso nisso. Eu faço política mais no meu dia-adia do que nas minhas criações. Houve uma altura em que eu tinha um discurso em que dizia que estávamos todos sozinhos, coisas assim, mas já não digo, porque pode ser interpretado como uma espécie de ideia de que estamos separados do resto do mundo e não é verdade. Eu acho que nós somos todos a mesma coisa, embora sejamos extensões diferentes dessa coisa. E por isso é que gosto de fazer este tipo de trabalho, senão não havia tanta ligação. Quando vamos ver um espectáculo e nos sentimos conectados com o que vemos, ou mesmo na rua, estamos realmente ligados. Se eu pensar na minha forma política de estar na arte, é a forma como eu trato as pessoas dentro da arte, como trato os bailarinos que trabalham comigo, os produtores, as pessoas que trabalham nos teatros. Eu vejo as pessoas todas de forma igual, e acho que tem de começar por aí. Não me apetece fazer uma obra e falar sobre os direitos humanos e depois chegar ao teatro e tratar mal um técnico. Isso não faz sentido nenhum. Para mim, a política está no meu fazer do dia-a-dia e não na minha criação. Acho que a criação é importante, e há pessoas que têm muito talento para fazer criação política, conheço artistas que o fazem, mas não é a minha vertente. Por exemplo, o que eu acho que faço é dar às pessoas um trabalho que é uma pesquisa interna profunda, que é um estar à espera do que surja, e querer comunicar-lhes isso, porque também é delas, pois eu vou buscar as coisas a um sítio que é de todos. E trazer cá para cima coisas que estão enterradas, ou a pedir para serem vistas de alguma forma, e comunicar com elas ajuda a que depois as pessoas possam pensar as suas políticas de modo diferente, porque a arte muda as pessoas. Nesse sentido, sim, o meu trabalho é político, mas não directamente. Quando trabalho, não sou eu que mando, é algo que não sei explicar. Acho que os artistas todos têm isso. É algo que sentimos que temos de fazer. O trabalho é que me faz a mim, funciona um bocado ao contrário. E este solo foi muito assim. Tive muito tempo sozinha, muito tempo de estudo, de silêncio, na rua, e as coisas apareceram-me. Essa parte mais política, mental, não me surge, o que não quer dizer que não ache importante.

E a oficina de dança «Flores»? Foi-te lançado, para ela, o desafio de «assumir a intuição como facilitadora do surgimento do ser social». É fácil promover esse trabalho corporal com quem muitas vezes não tem noção ou consciência dessa intuição?

Não é fácil nem difícil, depende das pessoas. São três dias, não vou impingir às pessoas a minha forma de fazer, lá está. Eu vou lá dar algumas ideias de coisas que podem fazer e guiá-las de alguma forma. Mas nunca me passa pela cabeça dizer «eu faço assim e é assim que se deve fazer». Cada um tem a sua forma de fazer e não há uma forma melhor do que outra. Acho que a intuição é importante, que devemos ouvi-la, mas não se ensina de uma maneira específica. E só é despertado quem quer despertar. Alguns alunos irão sentir que gostam deste trabalho, outros não, mas isso é normal. Eu não vou fazer esforço para que sintam afinidade comigo. O que faço é mostrar, partilhar, para ver se surge. Mas eu também vou receber, é uma troca. Por isso, é que acho que não se ensina, só se aprende. Normalmente, corre sempre bem.

A coreografia, o trabalho com o corpo, é só um dos campos em que te moves e crias. Há outros, como a música e o desenho. Pessoalmente, gosto muito dos teus desenhos, apesar de, ou se calhar por isso mesmo, transmitirem uma certa ideia de caos, e talvez até de solidão. E são desenhos que sugerem também movimento. Como é esse processo? Desenhas muito?

Há fases em que desenho mais e outras, menos, não tenho método. Os meus bonecos são sempre os mesmos, mas eles mudam. Os mais antigos são mais… maléficos, acho eu. Actualmente, são mais pacíficos. Creio que todos temos um lado mais negro que escondemos, e essas sombras saem-me quando desenho. Todos temos essas sombras, que por vezes são mal vistas, mas fazem parte de nós, temos de as assumir e estar confortáveis com elas, senão ficam piores. E acho que o desenho é um bom exercício para isso. Há dois tipos de desenho: uns em que são só os bonecos, todos iguais, ou parecidos, e outros em que eles estão uns em cima dos outros, numa espécie de equilíbrio, e que não os vejo como estando sozinhos, porque se tiro um, aquilo cai tudo. Portanto, tudo é preciso para estar bem. Na verdade, representam tudo o que existe, o bom e o mau. São uma espécie de uma fracção de segundo de um mundo qualquer, como um frame de um filme que continua. Mas no fundo, é harmonia o que existe ali.

Pensar a partir do corpo é, à primeira vista, pensar antes da fala, é usar uma outra linguagem que não a da palavra. Achas que são linguagens antónimas?

Nós descodificamos tudo através da palavra, somos seres humanos. Mas há outros seres que não usam a palavra, que usam movimento. Quanto ao corpo, eu antes de aprender a falar já me mexia. E podia nunca ter aprendido, podia não saber falar. A palavra está em tudo porque nós de facto falamos de tudo e é a nossa forma de comunicar mais comum, mas não é a única. Por exemplo, a música é uma forma de comunicação muito forte; podemos falar dela, mas não conseguimos por palavras transcrever uma música. Nós identificamos sons, podemos tentar defini-los, mas não conhecemos, por exemplo, o som do mar enquanto não o ouvirmos. Não conheço o sabor desta bebida que estou a beber enquanto não a provar, por melhor que mo descrevas. Quanto ao meu trabalho de movimento, eu estou a sentir uma coisa e cada espectador sente outra, vê outra. Às vezes, pode até questionar-se se a peça existe ou não. Como é que as coisas existem se cada um tem uma interpretação? Na verdade, não existem, existem interpretações.

Gostas de falar com os outros das interpretações que fazem do teu trabalho?

Gosto de saber, mas não é que isso que me vai motivar. Gosto de ouvir e gosto de falar das coisas que vejo também. O meu problema às vezes é a importância exagerada que se dá às coisas. Por exemplo, uma pessoa vai ver um espectáculo e lê antes aquele texto das folhas de sala e dá-lhe muita importância. Para mim, já está o caldo entornado.

Preferias não ter folhas de sala, portanto.

Preferia, sem dúvida. Mas os teatros querem sempre dar.

Não achas que pode ajudar por vezes ter algumas luzes?

Acho que enquanto houver essa ideia… O papel vai ajudar, mas é uma ficção. Depende dos trabalhos, claro, há trabalhos que precisam. No meu, não precisava de ter o texto. Acho que devia ser uma escolha de cada artista ter esse texto ou não antes. Penso que o meu trabalho é melhor recebido se não se souber nada sobre ele. E até prefiro. Isso faz-me lembrar que as pessoas muitas vezes dizem que não percebem nada de dança. Isso dá-me pena, porque a dança, lá está, não é a palavra que está à volta dela, é só aquele momento em que a pessoa se está a mexer. É como a música. Há pessoas que não sabem nada da escala, nem de notas, e ouvem música e entendem a música. São frequências, são energias, e a dança é a mesma coisa.

A tua vasta internacionalização permite-te fazer algumas comparações com os diferentes estados da cultura e das artes em diversos países. Fala um pouco da tua percepção dessas diferenças.

Sim, existem diferenças, mas acaba por ser muito parecido. Não estamos a falar em termos criativos, certo? Há países onde a dança é mesmo muito importante, muito querida. Por exemplo, na França e na Bélgica. Fazes em França um espectáculo de dança numa terra pequena e o teatro está cheio. Mas é normal, porque fazem dança, têm essa cultura, há muitos mais anos do que nós. Como se para nós fosse o fado, ou algo do género. Em Portugal, acho que não estamos assim tão mal. Não falo de aspectos financeiros, nem de concursos, dessas chatices em que as coisas podiam estar sempre melhores e podiam ser feitas de outra forma, menos complexa, mas isso também existe nos outros sítios.

Ainda tens dificuldades nesse campo ou é algo que já não te afecta por seres reconhecida?

Sim, tenho. Parece que não, mas sim. Concorri aos últimos e não tive apoio, e acho que tinha um bom programa. Mas é assim, não há para todos. Mas também não reclamei: há um júri que decidiu e está decidido. Nesse sentido, não sou privilegiada, mas sou noutros, sinto que já tenho um trabalho válido, por assim dizer. As palavras às vezes são complicadas. Mas sim, tenho um trabalho que é reconhecido aqui e fora, já não tenho de provar certas coisas. Quando trabalho fora, não entro a fundo num sistema, não sei fazer bem essa comparação. Sei que com a Pandemia houve artistas que nem se candidataram a esses concursos, receberam logo o apoio. Mas são países com mais dinheiro. Acho que as coisas têm de se ver de uma forma mais global.

Pegando no assunto Pandemia, mas também no surgimento de diversos contextos podres por todo o mundo, que é na tua opinião suposto fazer-se para que a cultura seja vista de uma vez como essencial, como aquilo que nos permite consolidar a humanidade e lidar com esta espécie de falhanço da vida?

Acho que as coisas se fazem muito no dia-a-dia. E devemos ver as coisas boas e não só criticar. Há uns anos, isto estava muito pior. Nós já melhorámos imenso, é preciso olhar para esse crescimento. Não gosto de falar destes assuntos, porque precisava de os estudar e perceber melhor, não falar só por falar. Quando eu comecei a fazer dança, havia menos pessoas a fazer; havendo agora mais, é normal que o apoio seja menor. Mas há também mais sítios onde fazer espectáculos, e é mais fácil circular, há outras facilidades. Mas o artista devia deixar de ser visto como alguém que fica bem com pouco, que vai resolver, que se vai desenrascar, e essa ideia está intrínseca, muitas vezes nos próprios artistas. É complexo alterar, tem de ser dos dois lados. Por isso, acho que é um trabalho diário. Não é só mudar estatutos, mas um lado psicológico também. Os artistas devem exigir que o seu trabalho seja bem pago. Eu só faço um espectáculo se tiver dinheiro para ele, para pagar ensaios, bailarinos, tudo.

A seguir a Coimbra, vais para onde?

Vou para Marselha. Estou a fazer uma criação nova com uma Companhia de lá.


Este texto integra a coletânea produzida pelo grupo Crítica de Fuga, que acompanha os trabalhos dos artistas e as atividades do Festival Internacional de Artes Performativas – Linha de Fuga.