Captado pela intuição: uma aproximação

Do gosto pelas formas. Da dificuldade de trabalhar com “pessoas”, e, no entanto, estes corpos que são pessoas, essencialmente formas. Do feixe de luz reflexo no corpo vertical ondulando de um ponto a outro. Um plano. A indecisão perante o óbvio. Os movimentos sem aparente razão de ser, aliás, diz-nos, sem razão. Um ser errante no palco das atenções. Do espanto perante os que sabem dançar. Os bailarinos. Do esforço implícito nas mãos, no dorso. A tábua sob um dia de sol depois de uma chuva intensa. A indecisão, o momento interrupto de um a outro: a possibilidade de dança! [Texto de Diogo Simões]

Texto de Diogo Simões


Estamos sós com tudo aquilo que amamos.1
Novalis, Fragmentos de Novalis (2000)

Tânia Carvalho_Captado Pela Intuição © Rui Palma

Do gosto pelas formas. Da dificuldade de trabalhar com “pessoas”, e, no entanto, estes corpos que são pessoas, essencialmente formas. Do feixe de luz reflexo no corpo vertical ondulando de um ponto a outro. Um plano. A indecisão perante o óbvio. Os movimentos sem aparente razão de ser, aliás, diz-nos, sem razão. Um ser errante no palco das atenções. Do espanto perante os que sabem dançar. Os bailarinos. Do esforço implícito nas mãos, no dorso. A tábua sob um dia de sol depois de uma chuva intensa. A indecisão, o momento interrupto de um a outro: a possibilidade de dança!

O que representa aquele corpo? Nós não sabemos em certa medida, como se nos escapasse, e ele ali permanece, sobre um início. A solidão de um corpo, ora que se mostra e esconde ao mesmo tempo. Levado de um estado a outro, sem esforço, apenas a passagem do tempo nele e em nós, espectadores. É um corpo que a cada momento retoma a forma inicial, que não é a mesma e se assemelha, é um corpo que é começo. Esta solidão não é indiferente, não é isolamento, talvez a possibilidade de início. Como se de uma marioneta atracada com fios longuíssimos impossibilitando a retidão dos movimentos. Qualquer movimento. Ou, diante da analogia, a relação que Bragança de Miranda faz do corpo e a suportabilidade da vida:

O «corpo» é uma marioneta porque é puxado pelo «fio da vida» que irrompe da carne. O que podemos é apenas jogar com esse fio, em busca das suas melhores figuras.2

Os movimentos então irregulares, imprecisos e quebrados, são o apelo à forma capaz de provar aquilo que ousa. E então o que é aqui provocado? O que é captado, aqui, onde o corpo é corpo entre outros e, por isso, é já condição de possibilidade do outro? Há algo breve nisto que é captado, porque, não é como se agarrássemos a punho forte a coisa que por essência não pode ser agarrada – não existe, e no entanto teve lugar e apareceu. Inapreensível que é aquele gesto que acontece de um movimento a outro. Porque, precisamente, não será tanto aquilo que depreendemos dos movimentos e depois a fórmula que nos surge límpida, como a coisa que tem lugar e é vista e sentida pelo corpo que se move entre corpos que o veem e o tornam um corpo estranho. Estranho, como se todos nós estivéssemos ali a perturbar a ordem das coisas, a ordem daquele corpo que surge. Daí o questionamento de Tânia Carvalho. «O que é isto? O que são estas coisas?»3 Que lugar estranho!

Captar será então essa aparição quase que sem forma, e, daí, o movimento desprovido de razão. O movimento que é, paradoxalmente, impasse e indecisão. Contudo, isto não impossibilita o movimento, pelo contrário, permite-o, é a sua condição. Jacques Derrida, incidindo sobre a possibilidade do poema, a mão que interrompe, espanta-se diante da indecisão de Hans-Georg Gadamer. Segundo o filósofo, parece haver aí uma suspensão na leitura, alguma coisa que nos impele a tardar pondo-nos alerta:

A indecisão mantém para sempre a atenção ao rubro, quer dizer, viva, acordada, vigilante, pronta para enveredar por um caminho completamente diferente.4

E é nesse momento, em estado de alerta, que se abre e nos abrimos ao movimento:

A indecisão é indecisa, e indecide. Dá o seu sopro à questão que, longe de paralisar, põe em movimento. A interrupção liberta mesmo esse movimento infinito.5

O impasse é a razão em defeito, como sugere Kant, é uma ameaça à ordem das coisas. Mas, precisamente, é a ordem das coisas que é aqui posta em questão. É o ser emotivo, o que sofre a dor da alteridade. Daí então o plano, as tonalidades balanceando entre o claro e o escuro. Um corpo.


  1. Novalis, Fragmentos de Novalis (Lisboa: Assírio & Alvim, 2000), 135.
  2. J. A. Bragança de Miranda, Corpo e imagem (Lisboa: Nova Veja, 2012), 131.
  3. Carvalho, Tânia – Captado Pela Intuição [Em linha]. Coimbra: Linha de Fuga, 2020. [Consult. 2020-10-05]. Disponível na Internet:<URL: https://www.linhadefuga.pt/eventos/captado-pela-intuicao?lang=pt
  4. Jacques Derrida, Carneiros. O diálogo ininterrupto: entre dois infinitos, o poema (Coimbra: Palimage, 2008), 27.
  5. Idem, 28.

Este texto integra a coletânea produzida pelo grupo Crítica de Fuga, que acompanha os trabalhos dos artistas e as atividades do Festival Internacional de Artes Performativas – Linha de Fuga.


Sonho, Lama & Caos

Toda a área do Shopping Center Recife, e seu entorno, era um manguezal. Lembro que havia um cano, uma tubulação, que cruzava parte do mangue e era caminho da meninada aventureira para a praia. atravessar pelo cano era um rito de passagem… foi tudo aterrado e testemunhei boa parte desse processo, que é, essencialmente, um processo de perda. em múltiplos sentidos. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro

Para Beval Freitas


Hoje sonhei que o Pete Townshend dava a seguinte declaração sobre o Who:
The Who é como um parque de diversões. você liga os brinquedos e lá está a música.

No sonho eu citava essa declaração para o Kleber, enquanto explorávamos um manguezal que restava perto do Shopping Recife, num cenário dos anos 90, muito diferente de como deve estar hoje, depois da via mangue e ocupação imobiliária daquele trecho da rua Antonio Falcão, que leva da Imbiribeira até a praia.

Toda a área do Shopping Center Recife, e seu entorno, era um manguezal. Lembro que havia um cano, uma tubulação, que cruzava parte do mangue e era caminho da meninada aventureira para a praia. atravessar pelo cano era um rito de passagem… foi tudo aterrado e testemunhei boa parte desse processo, que é, essencialmente, um processo de perda. em múltiplos sentidos.

Perdemos o mangue, perdemos a aventura do cano, perdemos essa sensação de transição até a praia. hoje é prédio, prédio, prédio e de repente, praia. Antes havia uma espécie de desconstrução até chegar na praia, mesmo considerando os prédios da orla. parece bobagem, e é bobagem, e falta-nos bobagem. Bobagem é coisa séria.

Acostumados que somos a dar sentido às coisas, ponho-me a pensar sobre os possíveis significados desse sonho, eu e Kleber com os pés enterrados na lama do mangue até a canela, conversando sobre uma declaração do Pete Towshend. Talvez fale do cosmopolitismo daqueles manguezais, das antenas enfiadas na lama, atentas ao mundo apesar de estar naquela Recife dos anos 80 e 90, ou talvez dar sentido a um sonho assim seja somente um péssimo hábito que precisamos combater. E seja, ao fim, somente isso, eu, Kleber, Pete Towshend e o manguezal. E isso não é pouco.

De súbito, enquanto escrevo essas linhas, já pensando em finalizá-las, recordo de uma ideia subjacente na minha infância no Recife, de que o mangue era sujo, era lama, algo para ser limpo. Uma ferida aberta na cidade. Impressionante como a ideia de limpeza pode ser poderosa, colonizadora e contaminante. Talvez seja a principal ideia que move a força branca, conservadora e masculina sobre a terra: a limpeza. Do mundo, do corpo, da alma. Porque é tudo sujo. Aterrar o mangue, substituir o caos das florestas pela organização das plantações. O mundo enquanto porcelanato.

Dito isto, recordo certa vez que entrei na livro 7 e dei de cara com esse livro, do poema O cão sem plumas, de João Cabral de Melo Neto, ilustrado com as fotografias de Maureen Bisilliat (Meu amigo Roberval vai lembrar desse livro). Aquelas impressionantes fotos das crianças se refestelando na lama do Capibaribe. Quanta liberdade, que frescor… me vieram à mente as imagens dos elefantes deitando na lama, para dissipar o calor africano.

“Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.
Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.
Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos polvos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.”

(de O cão sem plumas, de João Cabral de Melo Neto)

Fomos nos afastando, nos afastando da lama do mangue. Aterrando, fazendo ruas, asfaltando as ruas, construindo, construindo prédios. Hoje os prédios nem tem mais apartamentos no térreo. No térreo ficam as portarias, e acima das portarias, dois ou três andares de garagens, e só então as casas, evitando o mundo. Todos na torcida para que o mundo seja límpido, branco, imaculado, revestido, recoberto, sem compreender que o mundo é detrito, resto de uma grande e primordial explosão que se dissipa universo afora. O universo é uma onda de choque que desarruma. A mecânica celeste é ilusória.

Pode ser que seja uma memória falsa, fabricada, mas lembro de minha mãe me dizer que na primeira vez em que ela foi morar na nossa rua, na Imbiribeira, a rua era estreita, com uma casinha aqui e outra ali, margeada ainda por terrenos baldios e manguezais. Sempre imagino essa cena como noturna, com as janelas dispersas emanando a luminosidade parca e amarela das velhas lâmpadas incandescentes. Um mundo espectral.

assistíamos tv
e o caranguejo
atravessou a sala,
deixando em todos a sensação
de que estávamos errados,
que ocupávamos
um espaço indevido,
que éramos bandidos,
ladrões, saqueadores de mundos.
assentamos nossa morada
numa rota de migração,
no caminho lúdico
para a toca da namorada.
era um fóssil,
o caranguejo das eras
que jaziam sob o assoalho,
testemunha do mangue
que minava ainda
as fundações do edifício inês.
pergunto-me o que ali ele enxergava
se as paredes,
o brilho azul da tela
ou o que lhe ditava a memória,
a terra negra, úmida,
o emaranhado de galhos
e raízes, as folhas pendentes
e seus pares,
à meia-luz noturna da lua.
éramos então os fantasmas,
o futuro irreconhecível.
habitávamos épocas distintas
e nos encontramos
num lapso, num vértice,
numa falha narrativa
nas nossas vidas mínimas.”

(de Toinho Castro, em Lendário livro)

Tudo foi sendo empurrado “para fora” da órbita civilizada, até que do mangue restou um canal, convertido em esgoto a céu aberto. Tal é a noção de mundo que temos. Isso a que chamamos de civilização é uma camada mal posta de cal, tóxica e aniquilante, mas mais para quem está acima dela. Embaixo, a vida ferve, fermenta, erode, consome, pronta a irromper convulsionada.

“O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

Como todo o real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
Como uma maçã
é espessa.
Como um cachorro
é mais espesso do que uma maçã.
Como é mais espesso
o sangue do cachorro
do que o próprio cachorro.
Como é mais espesso
um homem
do que o sangue de um cachorro.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.”

(de O cão sem plumas, de João Cabral de Melo Neto)



A caminhada como poesia de uma sensibilidade ficcionada para fazer cidade

Para um autóctone de Coimbra, pré-imaginar a cidade aberta é por si só um jogo. Città Aperta, de Alain Michard constrói-se numa pequena oficina de seis dias, pesquisando o “relacionamento sensorial e imaginário dos participantes com a cidade, (…) delineado e interpretado em comum por todos e composto por experiências que alternam entre performances, conferências, refeições coletivas, histórias e reconfigurações de espaços da cidade”, diz no programa. [Texto de Ricardo Seiça Salgado]

Texto de Ricardo Seiça Salgado

Membro do grupo informal auto-organizado Crítica de Fuga, para o Festival e Laboratório Internacional de Artes Performativas – Linha de Fuga | 12 Set. a 4 Out. 2020, em Coimbra.


Foto: Augusto Fernandes

Para um autóctone de Coimbra, pré-imaginar a cidade aberta é por si só um jogo. Città Aperta, de Alain Michard constrói-se numa pequena oficina de seis dias, pesquisando o “relacionamento sensorial e imaginário dos participantes com a cidade, (…) delineado e interpretado em comum por todos e composto por experiências que alternam entre performances, conferências, refeições coletivas, histórias e reconfigurações de espaços da cidade”, diz no programa. É um percurso concebido numa longa caminhada e participada, gerida por guias mestres-de-cerimónias que são, leem, fazem e elicitam a cidade, brincando em diferentes modos de relação com ela e com o público, jogando com o seu papel na performance e na cidade.

Na performance somos parte do público e somos bailarinos e performers. Na cidade somos cidadãos, habitantes, turistas, estudantes, visitantes a vários prazos e interlocutores da história do lugar no aqui-agora, reinventado em comum. A caminhada e a cidade é feita de uma coreografia interrompida com gatilhos para uma experiência da demo e da performance enquanto ensaio. Como se habita a cidade e/ou a performance que se faz nela? Que relações compomos na negociação das ficções persuasivas dos nossos habitats de significado e o etos da cidade? A caminhada e os acontecimentos-interrupção ensaiados convocam diferentes procedimentos de relação com ambos os planos, performance e cidade. E dão pistas nos seus jogos-momento para abrir a imaginação da cidade comum por vir.

Foto 02

Foto: Augusto Fernandes

A função dos guias é explicar o jogo em cada acontecimento-interrupção ensaiado, entramos com eles no procedimento e no nosso papel, o princípio de relação para com a performance e para com a cidade. Começamos a fazer uma coreografia, dançando onde passei grande parte da adolescência, círculos e linhas, a diferentes velocidades de tempo e de espaço (viewpoints, diria), várias pessoas caminham sob olhar de transeuntes, um happening dentro da performance, dança na Praça da República em tempos de pandemia. Saio daqui com uns óculos que impedem a visão, apenas permitem ver um muito vago sombreado fusco, guiado por um participante do público, em silêncio e separados por um pau de 2 metros pelo passeio, em direção ao Jardim da Associação. Ensaio sobre a cegueira. A audição amplifica-se, a atenção para o caminhar reaviva-se, novamente dança. Mas reparamos, penso fazendo.

Foto: Augusto Fernandes

Que abertura, a desta cidade? Afinal de contas, a cidade e a sua abertura fazem-se. A cidade aberta que se evoca também é performance aberta. Caminhar-fazer. Se a cidade for aberta é cuidar dela, se não for, como abri-la? Tem a cidade abertura na sua ficção persuasiva? E se sim, como? Com que performances? Para alguém que é de cá, que vai e volta, é inevitável reparar na sua pouca capacidade de fixação de pessoas desde há muito tempo, algo que lhe acentua um etos de não inclusão. Perante a minha cidade ou aquela que sintetizo enquanto ficção sociológica persuasiva, como fazer a performance da cidade por vir? Como se constrói uma atitude ativa para a cidade? O percurso faz isso com a cidade física e através da vida social e histórica dos edifícios, das ruas, da sua paisagem e o seu dinamismo social em todos os planos do habitar dialogicamente a rua por vir porque, em conjunto, experimentamos.

Foto: Augusto Fernandes

“Isto é um espaço de uma história famosa. E isto é uma história de famílias da cidade. Eram inimigas. O problema é que eram inimigas mas tinham filhos que não eram inimigos. Alguns miúdos lutam, mas o rapaz e a rapariga não o faziam. O nome dela é Julieta. Vive na varanda do segundo andar. E a porta, no final das escadas, está fechada. Fecharam definitivamente aquela porta. ‘Nós não queremos que o belo Romeu entre neste castelo’. Romeu conseguiu entrar pela porta fechada, mas como era um pouco idiota, nada sabia sobre poesia, viu-se confrontado em abordar aquela donzela. Tentou uma vez mas cedo percebeu que tinha de pedir ajuda. Pediu a um amigo com um nariz comprido que escreve um poema a Julieta. Na fala de Romeu que o diz, Julieta pede um beijo. Mas logo sentiu (o engodo)… Ainda hoje Julieta espera na varanda da enfermeira, da ama. Portanto têm aqui uma varanda em que podem enviar mensagens, poesia para a tua amada. Imaginem vinte aqui, talvez amantes…” (tradução livre da fala em performance de Alian Michard, parêntesis meus), conta o Alain na fachada do antigo hospital velho, agora parte da universidade. A poesia da arquitetura e do teatro, da história e do dramático contaminam-se por via do afeto, ressoando a história. Ao fundo da fachada, uma janela aberta.

Foto: Ricardo Seiça Salgado
Foto: Augusto Fernandes

Guiam-nos pela história da universidade e inventam cruzamentos para a vida social dos edifícios contaminada pela ficção: como a evocação subjetivada da história das escadas monumentais ou do primeiro dia da crise académica de 1969, nas Matemáticas, ou os três écrans de um artista “Miguel Machado” (fictício?), que estão entre as Químicas e as Físicas servem de interpretação da obra, ou a paisagem de quem entra no Botânico por cima, sobre o rio, naquela escala imensa que abrange as pontes ao fundo, é expressa como a obra de Isabel Ortice, no âmbito da Bienal Ano Zero de Coimbra! Realidade ou ficção? Uma ficção persuasiva para a cidade como um todo? Que todo pela parte? Como cruzar as partes da cidade física, da cidade-cabide, da cidade traje, ou da cidade de práticas? Que cidade habitat?

Foto: Augusto Fernandes
Foto: Augusto Fernandes

No percurso aparecem autênticos postais, uma instalação viva que se repete de um casal bonito simplesmente ali sentado, comendo snacks, conversando, e que vamos encontrando em todo o percurso. A cidade pequena dos fáceis reencontros. Real, ficção? Os casos reais são entrelaçados com a imaginação suscitada pela simples elicitação de um encontro, de um engajamento na performance da e na cidade. Na zona comercial da baixa, vejo a bela adormecida dormindo numa montra. Cuidado! Você está a ser filmado! Quererá um beijo, ou será um espelho?

Foto: Augusto Fernandes
Foto: Augusto Fernandes

No Botânico fui planta e contam-me a minha história, a de cada um dos participantes, depois de uma experiência-sensação que ativou o chacra do centro de comando (Ajña) no bambuzal para, no fim, ser alimento numa comunidade de práticas. No percurso somos interrompidos por fragmentos-performance dos projetos que os artistas residentes no Linha de Fuga experimentam e que colaboram. Um belo gaspacho feito em conjunto começou a resolver a minha relação com o pepino (que não suporto) e a cidade. Fazendo vamos, entre a realidade e a ficção persuasiva, na possibilidade de um comum, no pensamento e na ação, para uma sensibilidade de fazer cidade. Afinal, o futuro é sempre uma ficção.

Foto: Augusto Fernandes
Foto: Augusto Fernandes

Este texto integra a coletânea produzida pelo grupo Crítica de Fuga, que acompanha os trabalhos dos artistas e as atividades do Festival Internacional de Artes Performativas – Linha de Fuga.


Três da madrugada, um poema inédito de Braulio Tavares

Outro dia fizemos, eu, Aderaldo Luciano e Numa Ciro, um bate-papo ao vivo, no Facebook da Kuruma’tá, conversando sobre a obra de Braulio Tavares e sua presença no cenário da cultura brasileira, isso por ocasião dos seus 70 anos e também por conta da campanha de financiamento coletivo, para edição dos seus livros A espinha dorsal da memória e Mundo fantasmo, pela Editora Bandeirola. Ele não participou da conversa amas acompanhou tudo e lá pelas tantas mandou a seguinte pergunta: Posso enviar um poema inédito para o saite?!

Outro dia fizemos, eu, Aderaldo Luciano e Numa Ciro, um bate-papo ao vivo, no Facebook da Kuruma’tá, conversando sobre a obra de Braulio Tavares e sua presença no cenário da cultura brasileira, isso por ocasião dos seus 70 anos e também por conta da campanha de financiamento coletivo, para edição dos seus livros A espinha dorsal da memória e Mundo fantasmo, pela Editora Bandeirola. Ele não participou da conversa mas acompanhou tudo e lá pelas tantas mandou a seguinte pergunta: Posso enviar um poema inédito para o saite?!

Ele se referia ao saite que a Kuruma’tá organizou em homenagem a ele, com textos de muitas amizades. Bem, a resposta a tal proposta, naturalmente, foi Claro! Sempre vamos querer um poema inédito do Braulio. E aqui está…

Toinho Castro, editor


Três da madrugada

Já são as três da madrugada.
Estou bebendo na cozinha.
O dia pertence a todos;
a noite é minha.

Entre um copo cheio e um vazio
entre uma carne quente
e um vinho frio
meu olhar corre as paredes
como se acompanhasse
uma lagartixa
que ninguém mais vê.

E chega à lata de lixo
onde, por baixo da tampa,
emerge a cauda de um bicho.
Uma cauda que se mexe
e diz: “Não morri ainda.”

Um rato? Um gato? Um cachorro?
Um bicho que diz: “Não morro,
não me entrego, não desisto,
sou teimoso como um Cristo
que volta, ao terceiro dia.”

Que carrasco deixaria
um crânio decapitado
dizer:
“Não vou ser jogado
dentro da vala comum,
pois eu não sou qualquer um;
sou Eu, sou um indivíduo,
não sou o mero resíduo
do que foi vivo e morreu;
sou isto, sou sempre um Eu
que não se repetirá,
e glória maior não há
do que o mero existir,
o perceber, o sentir,
o responder, o falar,
o ser, o haver, o estar.

“Ser parte do turbilhão
onde a Carne e a Razão
desenham seu pas-de-deux;
onde o diabo e o bom deus
soldam a sua aliança;
onde a guerra aspira à dança
e a dança dilui a guerra;
e o corpo é mais um planeta
sacrificado à Ideia;
onde a Terra é uma carne
queimada por Prometeu?
Quem lhes pergunta sou eu,
cabeça decapitada;
um corpo que não é nada
e retorna à terra fria…”

Que carrasco deixaria
uma cabeça falante
dizer tais coisas diante
da multidão boquiaberta?

Não, não! A coisa mais certa
é queimá-la em mil fogueiras;
cabeças são feiticeiras
botando o mundo em perigo:
porta-vozes do inimigo,
cassandras da perdição,
arautos do armagedon…
Não! Que ninguém ouça o som
dinamitando os contentes.

Pois entre os seres viventes
somente uma lei vigora:
a de ainda estar vivo
para ver romper a aurora.
Viver; viver o momento
ter aceso o pensamento
ter o corpo em movimento
mesmo que o mundo se acabe.
Viver a vida de quem
“tira de onde não tem
pra botar onde não cabe”.

E assim passa meu olhar
e chega à lata de lixo
onde momentos atrás
eu vi o rabo de um bicho…
Era uma tira de plástico,
escuro, comprido, elástico,
que um vento qualquer mexeu.
Não era bicho nem nada.
Era a cabeça cansada
de pensar tanto; era Eu.


Participe da Campanha de financiamento coletivo dos livros A espinha dorsal da memória e Mundo fantasmo, de Braulio Tavares

No mês do Halloween, pro terror eu digo sim!

Resolvi escrever esse artigo para divulgar um autor incrível. Ele escreve livros e contos de terror. Abaixo vocês podem descobrir mais sobre ele na entrevista EXCLUSIVA que ele concedeu à Revista Kuruma’tá!

Como vocês já sabem, no quinto livro da série literária de sonetos que estou publicando, onde os sonetos conversam com outras artes e linguagens, o #SonetERROR, escreverei sonetos para esse gênero literário, dominado desde sempre pela prosa. [Texto de Eduardo Maciel]

Texto de Eduardo Maciel


Olá, queridxs kurumateirxs!

Resolvi escrever esse artigo para divulgar um autor incrível. Ele escreve livros e contos de terror. Abaixo vocês podem descobrir mais sobre ele na entrevista EXCLUSIVA que ele concedeu à Revista Kuruma’tá!

Como vocês já sabem, no quinto livro da série literária de sonetos que estou publicando, onde os sonetos conversam com outras artes e linguagens, o #SonetERROR, escreverei sonetos para esse gênero literário, dominado desde sempre pela prosa.

Mas enquanto os sonetos macabros não chegam, quero prestigiar o que há de melhor nesse gênero literário acontecendo hoje em dia.
Bora saber mais? Com vocês, Jorge Alexandre Moreira!

1- Conta pra gente: quem é Jorge Alexandre Moreira?

Faço terapia toda semana pra chegar mais perto dessa resposta, mas ainda não tenho a menor ideia.

2- Qual o seu propósito na literatura?

Escrevo porque gosto. Sempre gostei muito de ler e ouvir histórias e gosto muito de contá-las. Se eu tivesse que dizer um propósito na literatura, pelo menos nesse momento da minha vida, seria continuar produzindo, publicando, evoluindo como escritor, e me tornar uma pouco mais conhecido para que eu não precisasse ficar me preocupando tanto em me divulgar pelas redes sociais. Esse processo de se divulgar pelas redes é essencial, para os autores que ainda estão tentando se estabelecer e, para mim, pelo menos, é muito cansativo.

3- Como descobriu o ofício das palavras?

Minha mãe me ensinou a ler em casa, muito cedo, antes de eu ir para a escola. E mesmo quando estávamos passando por épocas muito ruins, financeiramente falando, ela sempre fazia um esforço para comprar os livros que eu pedia. Então, sempre fui muito exposto à literatura e o movimento na direção de escrever foi uma coisa natural, que nem sei te dizer exatamente quando começou. Muitas folhas de caderno com contos manuscritos se perderam pelo caminho. A minha fase de contos de terror com começo, meio e fim começou no Ensino Médio, eu devia ter uns 13 anos.

4- Faz um resumão da sua obra pra gente?

Em 2003, pela extinta editora Papel & Virtual, lancei “Escuridão”, que é uma história de terror passada na Amazônia, com um conflito entre Brasil e EUA como pano de fundo. Em 2018, lancei “Parada Rápida”, um thriller sobre uma mulher que desaparece em um posto de gasolina, durante uma viagem de férias. Participei das duas edições do Ghost Story Challenge, que é um evento em que escritores de terror se isolam em uma casa ou sítio e viram a noite trocando ideias, para produzir histórias. Desses eventos nasceram os contos “Vontades” e “Um Lugar Especial”. Meu novo livro se chama “Numezu” e é finalista no III Prêmio Aberst, como melhor livro de terror do ano de 2020.

5- Conta mais sobre seu novo livro?

Numezu conta a história de um casal em crise, Laura e Raoul, que decide alugar um veleiro para passar as férias, para tentar resgatar algo da época em que o casamento ainda era bom. Mas, durante a viagem, Raoul encontra uma antiga estátua que, eles não sabem, é a imagem de um demônio esquecido, aprisionado por uma maldição. Sob sua influência, pouco a pouco, Raoul enlouquece e Laura terá que lutar pela vida. É uma história tensa, claustrofóbica, violenta e rápida. Não tem muito tempo para respirar.

6- Algum recado para os poetas que nos frequentam aqui na Revista Kuruma’tá?

Sigam fazendo poesia, sigam criando. Nós precisamos desse olhar mágico sobre as coisas e sobre a vida que o poeta é capaz de trazer. De quando em quando, na história, ressurgem momentos em que a poesia é mais necessária. Esse é um deles.

Incrível, né? De arrepiar! Esse aí é pra devorar com sangue nos olhos!
Super indico e recomendo!

Jorge Alexandre Moreira – Foto: Divulgação

O Como do Como. Uma noite com Ynaie. EU COMO VOCÊ. Comida É. Comida fui –

Uma terça de outono; noite em COIMBRA. LINHA DE FUGA. Fui ao Trincanas, misto de associação de dança folclórica e restaurante, assistir a uma performance da artista Ynaie Dawson. Uma yansã em corpo de menina. ‘Quer alguma ajuda Yna?’, perguntei ao chegar, a vendo andar, calma e seriamente, entre a cozinha e o salão. ‘Quero que se sente à mesa’, falou firme e sorrindo. [Texto de Lu Lessa Ventarola]

Texto de Lu Lessa Ventarola


Ynaie Dawson – Foto de Augusto Fernades

Uma terça de outono; noite em COIMBRA. LINHA DE FUGA. Fui ao Tricanas, misto de associação de dança folclórica e restaurante, assistir a uma performance da artista Ynaie Dawson. Uma yansã em corpo de menina. ‘Quer alguma ajuda Yna?’, perguntei ao chegar, a vendo andar, calma e seriamente, entre a cozinha e o salão. ‘Quero que se sente à mesa’, falou firme e sorrindo. E colocou não só a mim, como a todos, sentados, feito meninos e meninas, em almoço de família. Na mesa comprida as conversas cruzavam-se animadas. Ynaie passa por cada um (e éramos muitos) perguntando sobre o que queríamos beber: água, cerveja, vinho tinto ou branco? Não estava anotando em lugar nenhum e pensei comigo “vai lembrar-se?”. Os seus dedos dobravam-se, sem muito alarde, em uma coreografia estranha de anotação e … pronto, logo depois chegaram as bebidas conforme os pedidos. Esses dedos…! Estes mesmos, com suas duas respectivas mãesmãos, trouxeram as comidas, que iam logo para as bocas tão curiosas quanto prazenteiras. Antes eram paisagem para os olhos – com suas formas e cores. Sensório. Sensual. Isso tudo se deu – das entradas à sobremesa – em sequência e ritmo. Na boca a comida entrou exigente, quis ocupar espaços e acionar diferentes papilas gustativas – tudojuntomisturado. Satisfez. O molho com pimenta fincou bandeira. Lambuzou. Havia um êxtase coletivo, mas falo por mim e posso falar assim porque a mesa e a comida nos devolvem a nós mesmos. Mesmo que diante do outro -e com o outro- o ato de comer nos lembra que somos também matéria singular e precária. Precisa de cuidados. Ynaie não falou de arte, não usou frases bonitas de efeito, não teorizou. Ia e vinha da cozinha para o salão com bandejas e travessas; para além de explicar, eventualmente, aqui e ali, um ingrediente ou outro, pouco falou, mas disse muito. Disse fazer. Disse cuidado. Disse generosidade. Disse que a vida é feita de Matéria. Mater. Mãe.

No final fui dar-lhe um abraço na cozinha e a senti saciada. Dei-me conta que não fui assistir a uma performance, nem participar ao menos… não… aquilo era outra coisa, fui mesmo ser comida. EU COMO VOCÊ – o nome da performance não são palavras bonitinhas jogadas ao vento. Arte; sem dizer, disse.

Lu Lessa Ventarola, Coimbra, 1 de outubro de 2020.

Um bordado em recado a Ynaie
Foto de Lu Lessa Ventarola

Este texto integra a coletânea produzida pelo grupo Crítica de Fuga, que acompanha os trabalhos dos artistas e as atividades do Festival Internacional de Artes Performativas – Linha de Fuga.


Uma lagoa escura, arrodeada de areia branca

O governo da Bahia quer construir uma estação de esgoto onde? Nas margens da Lagoa do Abaeté. É isso mesmo que você leu… buscar alternativas, não. Vamos lá estragar, acabar, mais um patrimônio natural. Não sou da Bahia, não nasci em Salvador, e nas duas únicas vezes em que estive lá não tive oportunidade de visitar a Lagoa do Abaeté. Mas cresci à margem dela, na areia branca, desde que escutei, pela primeira vez, It’s a long way, de Caetano Veloso, no seu álbum Transa, gravado no exílio em Londres, em 1971, e lançado no Brasil no ano seguinte. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Para Zidi Brandão

O governo da Bahia quer construir uma estação de esgoto onde? Nas margens da Lagoa do Abaeté. É isso mesmo que você leu… buscar alternativas, não. Vamos lá estragar, acabar, mais um patrimônio natural. Não sou da Bahia, não nasci em Salvador, e nas duas únicas vezes em que estive lá não tive oportunidade de visitar a Lagoa do Abaeté. Mas cresci à margem dela, na areia branca, desde que escutei, pela primeira vez, It’s a long way, de Caetano Veloso, no seu álbum Transa, gravado no exílio em Londres, em 1971, e lançado no Brasil no ano seguinte. Nela, Caetano evoca os versos de Dorival Caymmi, da canção A lenda do Abaeté, de 1959. No Abaeté tem uma lagoa escura / Arrodeada de areia branca… No contexto do disco, do exílio, esses versos pareciam-me mais uma fantasmagoria. Talvez as águas escuras do Abaeté assombrassem mesmo Caetano, enquanto vagava pelas ruas frias de Londres. Para mim, na rua Pampulha (Nome de outra lagoa…), lá na Imbiribeira, no velho Recife, esses versos eram como uma pista, a dica secreta de um tesouro escondido. Como se me fossem ditos no meio da noite.

Segui essa pista e ao meu imaginário adicionei essa mapa, esse caminho, esse long, long, long, long, long way até lá. Sentei na areia branca, mirando a escuridão das águas numa noite de lua prateada. Parte de mim senta-se ainda hoje nessa areia, nessa noite de luar que perdura. Ainda há um mistério e uma revelação por vir. Há algo de visagem, que com Caymmi e sua Lenda do Abaeté, se aprofunda. Ele asobia no meio da canção. É o vento na mata, nas árvores? É o vento cisando sobre as águas? Vamo chamar o vento.

O pescador
Deixa que seu filhinho
Tome jangada
Faça o que quisé
Mas dá pancada se o seu filhinho brinca
Perto da Lagoa do Abaeté
Do Abaeté

A noite tá que é um dia
Diz alguém olhando a lua
Pela praia as criancinhas
Brincam à luz do luar

O luar prateia tudo
Coqueiral, areia e mar
A gente imagina quanto a lagoa linda é

Sou cria afetiva da Lagoa do Abaeté tanto quanto do Capibaribe ou da foz do Potengi. São os barulhos de água que escuto dentro de mim.


Assusta-me e revolta-me imaginar que um grupo de pessoas senta-se às margem de sua burocracia predatória e decidem fazem uma estação elevatória de esgoto na Lagoa do Abaeté. Você não fica com o estômago revirado? Daqui de longe, de onde estou, envio meu apoio à luta daqueles que, em Salvador, defendem a lagoa do Abaeté da ação dos destruidores de mundos. Com isso defendem o vento, os barulhos estranhos na mata, as lendas remotas que as águas escuras escondem, os reflexos prateados da lua e, em última instância, as pessoas. E as divindades.


Foto de destaque: Flickr Câmare de Salvador – Modificada a partir de foto original, de acordo com os termos da licença Attribution-NonCommercial-ShareAlike 2.0 Generic (CC BY-NC-SA 2.0)

Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa: Realidade Virtual

Mas a vida era dura. A cada crise, a cada problema nos estudos, no estágio, nos empregos, Luís buscava santuário nos livros. Ali ele não precisava lutar pelo pão de cada dia do patrão com o suor do seu rosto; não precisava engolir sapos viscosos a cada dia no escritório; não precisava aprender a se relacionar bem com os colegas. [Texto de Fábio Fernandes]

Texto de Fábio Fernandes


Luís gostava de ler. Tudo o que lhe caísse nas mãos era bem-vindo: livro, revista, bula de remédio. Preferia, contudo, os livros. Aprendera desde muito cedo que cada livro era um mundo, pleno de possibilidades.

Luís também era pleno de possibilidades. Pais de classe média, boas escolas, futuro brilhante. Poderia fazer o que quisesse na vida, condições para isso não lhe faltavam.

Mas a vida era dura. A cada crise, a cada problema nos estudos, no estágio, nos empregos, Luís buscava santuário nos livros. Ali ele não precisava lutar pelo pão de cada dia do patrão com o suor do seu rosto; não precisava engolir sapos viscosos a cada dia no escritório; não precisava aprender a se relacionar bem com os colegas. Ali ele pilotava naves no espaço profundo, solucionava crimes impossíveis, desbaratava conspirações, fazia sexo com a mocinha no final. Luís aprendera que ali as regras eram outras: todos os mundos eram bons, até mesmo os maus; todos os mundos eram válidos.

O tempo passou. Luís pulou de emprego em emprego e acabou conseguindo se manter no pior de todos porque todas as outras opções já haviam sido desperdiçadas. Num deles, apaixonou-se. Mas nunca ousou se declarar.

Hoje, Luís está aposentado. A casa, repleta de livros. Não pára de ler nem por um instante, e só sai à rua em caso de absoluta necessidade. Luís aprendeu que todos os mundos valiam a pena ser vividos. Menos o seu próprio.

“O que eu quero pra você é o mesmo que pra mim”

Hoje vi uma live da Camilla Farias e lembrei desse texto, que foi publicado em 29 de fevereiro exclusivamente no nosso Instagram, por ocasião do lançamento do seu disco, Singeleza – Para o mundo colorir. A live deixou aquele gosto bom do trabalho da Camilla e resolvi postar o texto novamente, agora aqui no site da Revista. Nunca é pouco destacar o trabalho de gente talentosa como a Camilla! [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro

Hoje vi uma live da Camilla Farias e lembrei desse texto, que foi publicado em 29 de fevereiro exclusivamente no nosso Instagram, por ocasião do lançamento do seu disco, Singeleza – Para o mundo colorir. A live deixou aquele gosto bom do trabalho da Camilla e resolvi postar o texto novamente, agora aqui no site da Revista. Nunca é pouco destacar o trabalho de gente talentosa como a Camilla!

— Toinho Castro, editor da Kuruma’tá!

Sempre que vou falar de uma coisa outra me vem à mente. Gosto disso. Gosto de ter outras ideias no juízo, uma puxando outra. Falar o que se pensa deveria ser como catar cajás maduros caído do pé na areia macia do quinta. Vem um, depois outros e todos estão ligados uns aos outros e a gente tem que demonstrar pra pessoas que aqueles cajás todos são do mesmo pé de cajá.

Falo tudo isso ao pensar no disco Singeleza – Para o mundo colorir, lançado nesse 2019 que nos deixou pela vibrante Camilla Farias. Pensei, desde que o escutei pela primeira vez, que deveria escrever algo sobre esse disco, destacá-lo, sua beleza de primeiro disco de paraibana de João Pessoa, dessa coisa que ele tem de um Brasil enorme, de um jeito de cantar que convida ao quintal, à reunião no terraço, enquanto alguém foi ali pegar a cerveja gelada pra nós.

E foi aí que pensei em outra coisa que demais me alegrou. Lembrei de um disco do baiano Raimundo Sodré, A massa, de 1980. Na contracapa do disco do baiano de Ipirá, tem uma foto que quando eu vi pela primeira vez, senti esse pulso da raiz da música brasileira. O cantor, sem camisa e com o violão em punho, anima a meninada sentada à sua volta no terreiro de uma casa simples. Ainda hoje olho essa foto arrepiado. Quando escutei Singeleza essa foto me veio como um raio.

Contracapa do disco A massa, de Raimundo Sodré

Porque o que eu senti com o disco de Camilla foi esse terreiro, esse Brasil, a singeleza de se reunir para ouvir música, evocar os ancestrais, os ritmos e os ritos, né?! Tem essa canção, Barco de música, que ao ecoar nas caixas de som me deu vontade de ligar para uns três velhos amigos queridos, pra gente escutar juntos.

Vou dizer uma coisa aqui que é desnecessária, pois a intenção não é validar por aí a música de Camilla, mas ela é neta do mestre Vital Farias. E com isso quero dizer que ela traz essa ancestralidade nordestina, que tanta vezes e com tanta força define o Brasil. No seu disco delicado e potente ecoam essas vozes e versos. é um disco novo que já começa com uma longa história, porque como os cajás maduros apanhados do chão, ele tá conectado, com o chão, com o pé de onde caiu para colorir o mundo.

E aí, de repente, tá lá Elba Ramalho cantando no disco e a gente vê como as duas tem a ver, como as duas formam um dueto amalgamado e como uma deve a outra, porque passado e futuro se pagam tributos justos no presente. E isso é de grande beleza e de grande raridade… assim o disco se revela como uma joia.

Singeleza é um disco de amigos, de amizade. Sua trama musical é um tecido muito bem estendido ao sol. Nele a gente escuta aquele violão que dá gosto, uma percussão natural, que não se impõe mas que pontua o caminho de cada música com sabedoria antiga e dá aquela vontade danada de acompanhar com as mãos, com o passo. A alegria transborda a cada virada de faixa e que coisa boa é sentir em cada uma delas o aprendizado de uma cantora e compositora jovem, de mão cheia, que tá escrevendo sua própria história. A música brasileira está ali, como indescoberta, como território por desbravar

E pra completar minha alegria de exilado do Recife em terras de São Sebastião, o disco encerra com um frevo delicioso, que nesse carnaval de 2020 foi de alegrar a alma. Que coisa boa esse disco. Que coisa boa.

Deixo aqui, por fim, o convite para você escutar Singeleza – Para o mundo colorir, carregado pela voz de Camilla Farias e seu talento para a composição, que diriam uns que ela herdou, e que eu digo que ela simplesmente o tem, como algo mesmo que é dela, e que se alimenta desses rios caudalosos em que ela mata a sede. Aprendizado.


Escute também…

Apresentação da Camilla Farias, com participação especialíssima do compositor e violonista Fabrício da Rocha, no Teatro Violeta Arraes (que nome lindo para um teatro!), na Fundação Casa Grande, em Nova Olinda, lá no Ceará.

Publicado originalmente em abril de 2020, aqui na Revista Kuruma’tá, em parceria com o Programa na Ponta da Agulha, do querido Jorge Lz. Porque somos fãs da Camilla!

O fantástico romance da Arca de Noé e outros cordéis – A força da poesia de Edmilson Santini

Venho aqui só pra dizer que o poeta Edmilson Santini é um dos grandes artistas que conheço. Há quem faça a distinção artista popular, que é coisa que não faço, por consistir num pleonasmo. Ou vocês imaginam uma arte que não seja popular? Uma arte de elite, para os nobres com seus brasões? Santini é, em si, um brasão da tradição artística de um povo, carrega isso no verso, no poder da fala, no compasso enumerado das rimas. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Edmilson Santini – Foto do Facebook do Poeta!

Venho aqui só pra dizer que o poeta Edmilson Santini é um dos grandes artistas que conheço. Há quem faça a distinção artista popular, que é coisa que não faço, por consistir num pleonasmo. Ou vocês imaginam uma arte que não seja popular? Uma arte de elite, para os nobres com seus brasões? Santini é, em si, um brasão da tradição artística de um povo, carrega isso no verso, no poder da fala, no compasso enumerado das rimas. Seu lugar é a rua, a praça, o âmbito das escolas, porque com Santini tudo se transforma em escola, porque sua arte, outro pleonasmo, é educadora. Não tem como ser diferente. Santini entende como poucos o imperativo de passar a mensagem adiante, em forma e conteúdo. Se ele sentar numa mesa com você, por exemplo, ali na Galeteria Cruzeiro, no Avenida Central, ele vai puxar um verso e você vai aprender algo. Em Santini poeta e poesia se confundem, se misturam e fortalecem um ao outro.

A pandemia achou que ia parar Edmilson Santini, fazê-lo silenciar seus versos e arroubos. Mas quem pode parar Santini?! Ele salta, corre, se adapta, porque é feito dos encontros e caminhos que talhou ao longo da vida de poeta, de cordelista. Ele se adapta, descobre novos caminhos e ilumina escuridões. É isso.

E eis que no meio dessa confusão em que o mundo se meteu, ele me surge com um livro, cuja publicação depende da gente garantir sua produção comprando nossos exemplares com antecedência. Recebo sua mensagem de voz no zap, e me chama de poeta. Isso é uma verdadeira honraria. Acato o elogio, mas com ciência do meu lugar. E ele me fala do O fantástico romance da Arca de Noé e outros cordéis, que encontra-se em pré-venda na editora Proverbo. E é assim que a poesia brasileira vai se virando e contornando os desastres que se sucedem nesse país. É assim que se mantem viva, verdejante nesse deserto. É assim que Santini mostra que, enfim, não há deserto e que é possível despertar com a arte: agitando o ambiente, produzindo poesia e nos lembrando que é isso que queremos pra nossa vida!

Fica aqui a minha dica: Colabore com a poesia viva de Edmilson Santini adquirindo seu livro O fantástico romance da Arca de Noé e outros cordéis, no site da Editora Proverbo! O poeta e a poesia agradecem.