Independência Poética: Alyne Castro

Fui tantas, sou tantas e serei tantas de mim, que abraço por inteiro quem sou, na minha pluralidade e singularidade. Brincando com minha loucura e me deliciando com ela. – Alyne Castro.

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA

Poeta de hoje: Alyne Castro

Designer de comunicação, poeta, ilustradora, contadora de histórias, virginiana, druidesa, mãe e uma caminhante dos sonhos. Fui tantas, sou tantas e serei tantas de mim, que abraço por inteiro quem sou, na minha pluralidade e singularidade. Brincando com minha loucura e me deliciando com ela.

O que te inspirou a começar a escrever?

Aprender a ler. Ler histórias e poder fazer parte delas sempre foi magia para mim. E queria poder dar essa magia a todos. Desde que aprendi a escrever crio pequenas rimas, escrevo cartas e tento eternizar momentos com poesia. Escrever é isso, eternizar momentos e emoções, preencher uma folha em branco com ideias, sensações, que pode até não fazer sentido, mas foi necessário naquele momento. A possibilidade de colocar em frases o que em alguns momentos não se consegue falar. O universo de possibilidades de interpretação do que constar num micro poema.

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

Caminho, vou a um café, observo a vida que pulsa ao meu redor. Coloco uma música que ressoa no momento em meu coração para tocar mil vezes e danço. Meditar também tem me ajudado, rsrs, acalma a mente e coloca algumas coisas em ordem. Minha espiritualidade também me inspira diariamente, a conexão com minha soberania e natureza.

Seu maior sonho como escritor(a)?

Penso que seja pertencer. Pertencer a um momento. Que pelo menos um poema pertença ao momento de alguém, que faça sentido e traga emoção. Que emocione.

Assunto preferido de escrever?

Escrevo poemas, poesia confessional. Gosto de escrever sobre o cotidiano, as sensações que tenho. Sobre espiritualidade. E estou me aventurando em contos.

Um elogio para sua própria escrita?

Depois de tanto ter medo, ela sai sem medo.

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Participei de duas coletâneas: I Tomo das Bruxas – Do ventre a vida e Coletânea Semente Poética – Turma 4 da Yara Fers. E lancei um livro artesanal, pela editora Arpilerra, chamado Onirismo.

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

Meu filho, minhas práticas espirituais, um café, olhar pela janela. Escutar a conversa de alguém sentado próximo. Quando a gente se permite sair do automático, a vida é um prato cheio de sabores e aromas a serem absorvidos e vivenciados e isso é inspiração pura.

Qual dos seus poemas mais te define?

Anatomia, que está no meu primeiro livro de poesias, Onirismo

Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

Nos dias de muita inspiração, as palavras fluem, e fica fácil. Escrever sobre o que sinto, vivencio, sobre o que acredito é fácil. Ando sempre com caderno e pequenos blocos, para escrever no momento que a inspiração vem. Envio áudio para mim mesma quando não consigo escrever. O mais difícil é se estou preparada para colocar num papel o que estou sentindo, se estou preparada para ser lida. Algumas palavras são íntimas demais, mas precisam ser escritas.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

Tenho algumas, O oceano no fim do caminho do Neil Gaiman. Sobre a escrita do Stephen King. História sem fim do Michael Ende. The Awful Rowing Toward God (O Terrível Remar Rumo A Deus) de Anne Sexton.


Um livro de Alyne Castro

Nome da obra?

Onirismo

Quando e em qual editora foi publicada?

Publicado em Abril de 2023 pela Editora Arpillera.

Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?

No Onirismo, o tema é sobre o sonhar, sobre insônia, sobre minha relação com o onírico.

As poesias são divididas em fases nessa obra? Se sim, o que te motivou a fazer isso?

Não. Elas são um convite para sonhar.

O que te incentivou a escrever esse livro?

Escrever um livro sempre foi um sonho. E tinha tanto medo de realizar que fiquei empurrando e me escondendo atrás das minhas inseguranças e medos. Até que resolvi ser apenas eu e nada mais. Ser dona de mim e da minha soberania, e escrever sempre fez parte de mim, e sempre esteve presente em todos os momentos da minha vida. Então, relendo meus poemas, percebi um tema constante: o universo dos sonhos Coincidiu com o chamado de lançamento da editora Arpillera, que tem a proposta de ser subversiva e artesanal, e resolvi tentar. Reuni meu sonho e poemas sonhos e enviei o manuscrito. E foi uma felicidade ser selecionada.

É possível destacar uma poesia que mais se assemelha a seu cotidiano?

Sim, A arte negra diálogo com Anne Sexton.

A sequência dos poemas conta alguma história?

Conta sobre sonhos, insônias e vigílias. Sobre se permitir delirar, fantasiar e, também, despertar.

Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?

Respirar é um ato político. Então gosto de pensar que meus poemas e a realização do sonho de lançar meu livro, seja inspiração para que as pessoas percebam que é possível sim acreditar em um sonho e ele se tornar realidade. Que sonhar, desejar é subversivo, é combustível para lidar com os dias ruins e fazer acontecer uma real mudança em sua vida. Que acreditar em si mesmo e em seu potencial é resistir.

Qual a relevância dos personagens implícitos/explícitos da obra?

É sobre a importância de sonharmos

Qual a poesia mais marcante desse livro?

É um poema que não tem título, mas que tem muitas sensações.

“às vezes, me perco além do olhar

vejo futuros possíveis, passados refeitos

rostos que já não estão mais aqui

imagens dançam em minha frente

e bailo com elas sob os raios de sol

então percebo que estou de olhos abertos

 

a mente deseja que seja real

estico os braços para sentir

mas, como nuvem

tudo se dissipa

onde foi parar?

em algum lugar entre lucidez e delírio

respiro fundo e fecho os olhos

sem adormecer, me percebo desperta

sem enlouquecer, caminho fingindo

fingir normalidade é o que me resta

até a noite chegar e poder mais uma vez sonhar”


Comentário a respeito do livro A última noite de José Wilker, de André Balaio

Texto de Toinho Castro

Uma grande alegria me veio ao ler o primeiro parágrafo do novíssimo livro de contos, ou melhor, histórias, do querido amigo André Balaio. Ler livros das amizades é sempre uma grande armadilha, até que se confirme como algo maravilhoso. E é, por fim, uma maravilha a leitura de A última noite de José Wilker, publicado pela Caos & Letras. Balaio sabe escrever, e a gente sabe que saber escrever não é alinhavar letras e palavras em frases e parágrafos, mas envolver, tecer um espaço de pertencimento, de encontro. Nesse espaço se desenrolam as histórias, as lendas e mitologias, as invenções humanas para transcender nossa limitada presença no mundo.

A sensação é de que cada página virada dos contos de Balaio nos atrai, segurando nossa mão, para um mundo de espelhos levemente distorcidos. Há algo de (Jorge Luis) Borges perscrutando os parágrafos. Não é exatamente fantástico, no sentido de gênero literário. Mas o tempo inteiro, sentimos algo a espreita. Algo imperceptivelmente fora do nosso controle. Esse espaço de encontro que André tão habilmente descortina (porque ele já existe em algum lugar. E isso é assustador e fascinante), é um espaço de encontro com o inusitado, com o inesperado; pequenos desvios em que o mundo se transforma e somos arrebatados por uma estranheza.

São quatro contos e uma pequena, mas notável, novela, que dá título ao livro. Que coisa bonita alguém que gosta de escrever assim, que se dá ao prazer de construir cenários, personagens reais (mas como nos espelhos), e acontecimentos que se desenrolam com desenvoltura, sem tropeços. Nos enlaçando, nos enredando e nos entregando algo que só a literatura pode nos entregar, porque é isso que André Balaio, habilidosamente faz: literatura.

A última noite de José Wilker é um desses livros que eu adoraria ter encontrado por acaso, num sebo, na banca do Olivar, lá na Carioca… Porque seria uma espécie de operação de magia, muito condizente com as narrativas que o atravessam. Incauto leitor, se em 20 anos você esbarrar com esse livro num sebo, compre! Será estranho, e bonito.

PS. André, eu sei, amo o cinema. E o cinema está ali em cada página. Assisti muitos filmes lendo esse livro.


Poemas de Alessandra Martins

Alessandra Martins nasceu em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, hoje vive entre Brasil e Estados Unidos. É pesquisadora, escritora, poeta, ativista social e autora do livro de poesia marginal Voa, Sankofa, Voa! (Chiado Books, 2021). É graduada em Letras e especialista em História e Cultura Afro-brasileira e Indígena, cursa pós-graduação em Literatura, Artes e Filosofia pela PUCRS e MBA em Marketing pela USP.

Alessandra Martins nasceu em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, hoje vive entre Brasil e Estados Unidos. É pesquisadora, escritora, poeta, ativista social e autora do livro de poesia marginal Voa, Sankofa, Voa! (Chiado Books, 2021). É graduada em Letras e especialista em História e Cultura Afro-brasileira e Indígena, cursa pós-graduação em Literatura, Artes e Filosofia pela PUCRS e MBA em Marketing pela USP.

Jurema Preta

Na noite
a chuva regou
as folhas da umbaúba
que belamente cresceu
Ao amanhecer
alfazema
tomilho, funcho e alecrim
no jardim floresceu

Verde, vida, amor
As borboletas passeiam
O vento suspira
A abelha namora a flor

Ela nasceu no inverno
Intensa.
É de Osun – além de
amarela, também ama azul

Ar fresco, sombra, flores
ela sente que renova
ela sente que é ela
Radiante
Jurema Preta é o nome
dela

Ao falar
ao olhar
ao sorrir
onde ela chega
traz cores
beleza
faz o dia florir

Seu aroma é forte
cítrico
exala capim limão
ao caminhar todos
a olham
presença marcante
tem o mundo nas mãos

Ela brilha concomitante
com o sol no horizonte
o som do atabaque se
encontra com o seu
coração de poesia
pulsante

Tudo ecoa
São sons de vida

Ela desperta do sono
Em seu sonho se vê
sambando

Entre flores de
girassol
Toma banho de
arruda
E os aromas se
misturando
espalhando
a terra
contagiando
flores
folhas
energia
O chocalho agita no
morro

Ao subir a ladeira
chegando pede
agô e fala adupé!
Ela reverbera sua luz
Os irmãos
respondem axé!

 


Bicho solto

Espírito meu,
teu, nosso
Nasceu para
ser livre.

Não se deixe
aprisionar.
Não permita
grilhões nos
seus tornozelos,
nem correntes
nos seus pulsos.

Nada que te faça
parar.
Grades? Corte-as!
Fechaduras? Quebre-as!
Cordas? Arrebente-as!

Não permita que
te impeçam de ver
o infinito do céu.
Lute, mas também
Descanse.

Aproveite as
abundâncias da vida
Saboreie do néctar,
do mel.
Permita-se ser amado
e amar.
Viaje, dance, beije,
viva, voe, navegue.
Descubra o infinito
do céu, a imensidão
do mar.

 


Negra Soul

Eu sou a negra que
você olha
e acha que não
vai conseguir.

Eu sou a negra
que você
tentou diminuir.

Eu sou a negra
que você
xingou, bateu.

Eu sou a negra
que você
desmereceu.

Eu sou a negra
que você
não quis namorar,
muito menos se casar,
só comeu.

Eu sou a negra parada
no canto.

Eu sou a negra que
acorda e vai dormir aos
prantos.
Eu sou a negra que na
escola você apelidou,
que na vida você
engravidou e abandonou.

Eu sou a negra
que você
manipulou e que
no passado se odiou.

Eu sou a negra
que
você mata 
e não dá em nada.

Eu sou a negra que
você diz ser moreninha,
mulata e parda.

Eu sou negra!
A mesma negra que
você passou a mão,
a mesma que você
enxerga
como produto, objeto,
exploração.

Eu sou a negra
que é negra. Que tem
consciência e orgulho
no peito.
Que é humana e
merece igualdade 
e respeito. 

Eu sou a negra que
honra seus ancestrais.
Que sobrevive e vive
conquistando seus
ideais.

Sou a negra que no
passado e no presente
lutou e luta por libertação. 

Eu sou negra!

Sua lança não pode
mais me atingir.
Porque você querendo
ou não.
Eu existo e vou resistir.

Você tentou me calar, 
mas minha história não seu
apagou.
Negra de corpo e alma. 
Negra soul.


Independência Poética: Dheyne de Souza

Dheyne de Souza é poeta, goiana e feminista. Publicou poesia no livro lâminas (Martelo, 2020), além da plaquete era uma promessa; era pra cuidar; ela engravidou; ela se perdeu; (lola frita, 2022)

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA

Poeta de hoje: Dheyne de Souza

Dheyne de Souza é poeta, goiana e feminista. Publicou poesia no livro lâminas (Martelo, 2020), além da plaquete era uma promessa; era pra cuidar; ela engravidou; ela se perdeu; (lola frita, 2022). Faz parte de um coletivo de poetas mulheres (@bidecoletivo), com uma antologia a ser lançada em 2023 pela Editora Urutau, selo Hecatombe. Está no prelo, pela editora Aboio, seu primeiro romance. É doutoranda em Literatura Brasileira (USP). Usa a rede social @dheynedesouza.

O que te inspirou a começar a escrever?

Não me lembro muito bem o que exatamente me moveu a começar a escrever. Talvez tenha sido uma série de circunstâncias, como a vontade de ficar só, a ânsia de inventar mundos e personagens, a curiosidade pelos detalhes do chão. Acho que escrevo desde muito criança, antes mesmo de saber grafar as imaginações. Um pouco aérea, um pouco estranha, um pouco calada, penso que tudo isso foi se misturando entre o que eu parecia, o que eu era e o que venho (sub)vertendo em escrita. Talvez as várias faces e fases do silêncio. Talvez o barulho incontrolável do mundo, das pessoas, das faltas. Tomara que tudo.

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

Hoje em dia, eu espero. Já houve época em que me desesperava muito por não conseguir escrever, inventava que estava passando por fases, que depois viria uma transformação mirabolante e uma nova vertigem na linguagem. Mas agora entendo que faz parte do processo. Pode ser que, à medida que os anos vão passando, a vida vai se mostrando mais feroz, travando uma luta conosco, nem sempre justa, nem sempre leal, especialmente se somos mulheres. Fico pensando que depende de nós mesmas e de nossas circunstâncias várias, quem sabe, sopesar o que vale a pena. Confesso que, muitas vezes, deixo algumas armas de lado e deito no campo. Recuperar forças, escudos e ânsias. Digo a mim mesma que me tornarei mais inquebrantável. Às vezes funciona

Seu maior sonho como escritor(a)?

Acho que nunca pensei nesses termos, mas o que me veio à mente como utopia foi: sobreviver de escrita. É um ofício cruel, de diversos modos. Condições formais, temáticas, econômicas, raciais, socioculturais, de gênero(s), de geografias, de opções e demandas. Acho que não tenho um sonho maior, talvez vários.

Assunto preferido de escrever?

Isso varia muito. Nos últimos anos, tenho sentido um ímpeto do pensar político. De reconhecer-me nas intersecções, de encontrar o outro, as outras.

Um elogio para sua própria escrita?

Difícil responder tão de dentro. Acho que, pelo tempo que sei que levo trabalhando nisso, diria que as camuflagens da linguagem.

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Já publiquei livros de poemas. O primeiro foi pequenos mundos caóticos (PUC/Kelps, 2011), depois lâminas (Martelo, 2020) e uma plaquete chamada era uma promessa; era pra cuidar; ela engravidou; ela se perdeu; (lola frita, 2022). E está no prelo, pela editora Aboio, meu primeiro livro em prosa, um romance.

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

Acho que depende do cotidiano, talvez tudo. Morando no centro de São Paulo, um grande despertador de reflexão é a condição desumana das pessoas em situação de rua e dos dependentes químicos, no que chamam de Cracolândia, ou Centro do Medo, segundo Datena, ou ainda, para muitos moradores, efeito de especulação imobiliária. Já tentei escrever sobre os vários tipos de sentimentos que tenho ou acho que as pessoas têm, mas ainda estou processando essas experiências. O que falamos, o que fazemos, o que somos como humanidade, não sei aonde viemos parar.

Qual dos seus poemas mais te define?

Bem difícil. Não sei se minhas produções literárias realmente me definem. Talvez, lá no fundo, eu ache que a poesia ou a prosa não define ninguém, e talvez mesmo esteja na contramão disso, talvez nem seja esse o campo, enfim. Tergiversando um pouco a pergunta, tem um poema que é uma conjugação de memória, de sensação e de invenção do que acho que foi minha primeira relação com o ato poético. O poema se chama poiesis e está no livro lâminas (Martelo, 2020):

poiesis

enquanto os risos escorriam nos pés
na grama
nos galhos
nos céus
dos outros no tempo
em que sempre voltamos
jamais estaremos

uma criança, longe, muda, exangue, sentada
num canto daquele muro
(como no canto dos outros muros que agora a
derrubam
feito um sino mudo)

nesse canto lhe deram uma rosa
era uma rosa comum, cor-de-rosa, jovem, justa, virgem
não soube o que fazer com tanta verdade
embora sequer soubesse disso
de que agora a memória sabe
do jeito que a memória sabe saber reticente

poderia ter passado a tarde toda
aquela criança
talvez eras
com a rosa nas mãos

poderia dizer do cheiro daquela pétala uma obra aberta
do tônus firme do seu corpo frágil
das inverossimilhanças do contorno
na sua cor silenciosa
dos rosas da rosa

se fosse dizível

mas quando o sol se punha
naquela época

pés sujos
risos suados
cabelos ventados
fôlegos rotos

mas a rosa
intacta
naquelas mãos tão pequenas meu deus e que já sustinham o medo
de ser túmulo

qual teria sido o erro
que cometeram aqueles dedos
incapazes ainda de todo mal que agora teciam tão displicentemente

tomaram-lhe a rosa sem
não foi sequer capaz de
despedaçaram todas as pétalas e sépalas
ouviam-se ranger suas veias
enquanto ensinavam que era assim
que se brincava com as flores

foi a primeira vez para ela
que a poesia
colheu o seu silêncio
humano

Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

Não consigo pensar em uma parte fácil. Acho que rememorar, elaborar, refletir, expressar, revisar, escrever, apagar, esquecer, sobreviver, tudo são dificuldades, internas e externas. Escolho trabalhar com as dificuldades da escrita e descobrir em cada um desses processos e produtos suas dificuldades – e, quem sabe, além de sofrer, aprender com elas.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

Talvez, a narrativa “O oco”, de Hilda Hilst. Não sei se pelo contato muito próximo nos últimos anos, mas, a cada vez que releio essa narrativa ou mesmo trechos dela, fico abismada com o trabalho submerso com a linguagem e curiosíssima com os desconhecidos que ela lacuna.


Um livro de Dheyne de Souza

Nome da obra?

lâminas.

Quando e em qual editora foi publicada?

Publicada em 2020, pela Martelo Casa Editorial, uma editora independente de Goiânia-GO..

Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?

Eu acho que não existe um tema central. Gosto bastante de trabalhar com metalinguagem e questões político-sociais e feministas, mas não só.

As poesias são divididas em fases nessa obra? Se sim, o que te motivou a fazer isso?

Eu não dividi em fases os poemas desse livro. Na verdade, sou péssima para pensar uma história e uma ordem, talvez porque eu considere, ao menos nesse caso, cada poema um universo em si. Estou tentando exercitar isso hoje em dia, mas tenho dificuldades de ordenar. Em lâminas, publicado em 2020, o editor, Miguel Jubé, contribuiu com sugestões para alterar a ordem dos poemas, até porque enviei pra ele em ordem cronológica, que é a que costumo fazer em meus arquivos pessoais. Esse livro reúne poemas de cerca de uma década, entre 2011 e 2020, então muitas temáticas e experimentações formais e linguísticas passaram por mim e por eles. No momento atual, estou trabalhando em um próximo livro de poemas, e neste sim estou procurando exercitar um ordenamento de poemas e de ritmos temáticos, organizados de modo mais consciente das questões políticas, sociais e feministas que o atravessam.

O que te incentivou a escrever esse livro?

Esse livro reuniu alguns dos poemas que escrevi nesse período de quase dez anos, que foi a lacuna temporal desde o livro anterior que havia publicado de forma impressa. Eu não estava pensando em publicar lâminas. Foi conversando com amigos e com o editor que resolvi selecionar os poemas, com ajuda e incentivo deles. Então, foi uma reunião de poemas diversos e, ao mesmo tempo, que testemunham uma década de muitas transformações pessoais e coletivas, sociais e estéticas.

A sequência dos poemas conta alguma história?

Não exatamente. Partindo do que comentei antes, talvez haja um testemunho, em cada poema, de um tempo e de um espaço ao longo de uma década. Mas é só uma interpretação minha, não costumo falar muito disso, gosto mais de ouvir as impressões dos outros.

Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?

Sim. E acho que em toda obra há.

Qual a relevância dos personagens implícitos/explícitos da obra?

Em cada poema, acho que há uma história, que depende muito da pessoa que lê, de como chega, bate e reverbera nela. Bom, talvez esse seja um sonho, um desejo, um convite. Dizendo por mim, como leitora da minha própria obra – se for possível pensar nesses termos –, no poema que citei antes, o “poiesis”, a personagem daquela criança traz memórias e ficções muito particulares para mim, mas acho que as imagens ali podem remeter cada um a um canto muito singular da sua infância. Enfim, talvez devesse apenas dizer: os mistérios.

Qual a poesia mais marcante desse livro?

Para mim, acho que a última, “80 tiros”. O próprio título remete a um fato histórico de que trata o poema e que me causou e me causa imensa preocupação, enorme indignação, extrema necessidade de escrever.

80 tiros

80 tiros 80.
do gatilho o estado fardado armado rindo 80
uma família.
um civil negro.
80 tiros.
não era o alvo
foi engano
80 tiros
ensurdecendo o país. o judiciário não
80 tiros. uma pessoa humana, era o princípio da dignidade. fundamental. o judiciário não
80 tiros. garantindo o direito individual, coletivo e social, o judiciário não
80 tiros. crime militar. judiciário 80
como foi o som do primeiro tiro 80?
apologia à tortura 80 ustra 80 o judiciário não
banalização, legitimação, estímulo
80 tiros
e nenhuma palavra sã do executivo
quem executa
o judiciário não pergunta não responde não garante
80 tiros. oitenta.
como foi o som do último tiro 80?
como é o som do judiciário
80
como vamos contar?
80
como vamos seguir?
80
como se judicia
80
judiciário ouça
80 tiros.
arma. flash. fim.
do estado 80
do judiciário 80
do cidadão
80 tiros ultrapassaram a constituição
o juízo
qual foi seu juízo final, cidadão
qual será
80 tiros e nenhuma
80 tiros não foram balas perdidas
que as balas nunca são na verdade perdidas na era da tecnologia legalização morte
80 o porte
a cor da bala é negra 80
80 cápsulas no seu colo, judiciário
conta o seu poder
80 tiros
qual a justiça
estadual, militar, eleitoral, do trabalho, federal,
superior
supremo
socorro
qual o seu papel 80
80 cápsulas
80 tiros
oitenta vezes
oitenta judiciário
oitenta executivo como não lhe cabe juízo de valor 80
quanto vale vida tiro oitenta
legislativo
socorro
o judiciário cala
80 mata
morremos assim na velocidade do tiro
qual o cheiro da pólvora estado?
um tiro mata
oitenta tiros eu não sei contar eu não sei medir eu não sei rezar eu não sei 80
o judiciário sabe.
80 tiros nunca poderão esgotar como
ordem
já podeis da pátria filhos
ver
80 tiros
na área de jurisdição militar
o que significa que
80 repita comigo oitenta não desce oitenta não sai oitenta não dá oitenta tente fugir oitenta pro estado oitenta tenta dizer tenta um murro na parede oitenta vezes tenta oitenta vezes gritar tenta oitenta caracteres oitenta não cabe não sai não engole
80 tiros
do estado
o poder emana do povo 80
80 vezes
oitenta
como incidente lamentável judiciário executivo legislativo foram oitenta tiros do estado
não há incidente a mira é negra
não há lamento a mira 80
medo surpresa ou violenta emoção
80 tiros o que são
o judiciário o que faz
pra quem serve 80
80 quando se diz oitenta
é um som é um número é um fuzil
passando na rua 80
a via é pública
a vida não
a cor o buraco negro oitenta
oitenta clarice oitenta
o que faremos
pra quem pedimos
pra que morremos
80
não cabe num poema não cabe 80 sangra
tenta
80 o som do tiro
80 foi engano
80 rindo
80
rindo
tiro
culatra
pólvora
o estado rindo
ruindo
o judiciário o que
oitenta
somos 80 o que somos somos 80 o que somas não somos 80
o som
o tom
o músico da cor

80

j u d i c i a r o i t e n t a


O jogo

Texto de Toinho Castro — Marlene sorriu porque tinha acabado de levar uma bronca do jogo, por algo que dissera. E que eu nem percebera, porque eu olhava para os búzios jogados sobre o tecido branco que cobria uma pequena área da pequena mesa.

Texto de Toinho Castro

Xilogravura de José Lourenço (Juazeiro do Norte – CE)

Marlene sorriu porque tinha acabado de levar uma bronca do jogo, por algo que dissera. E que eu nem percebera, porque eu olhava para os búzios jogados sobre o tecido branco que cobria uma pequena área da pequena mesa. De olhos fixos no jogo, eu imaginava as linhas de força que ali se cruzavam, ou dali emergiam. Lembrava daquelas ilustrações dos velhos livros de ciência, das linhas de força de um campo magnético em torno de um imã. Ou mesmo as recentes representações das trajetórias explosivas de partículas no LHC.

Aquilo estava falando sobre mim. Sem que eu pudesse escutá-lo. Ou seria aquele ruído que parecia sublinhar o aparente silêncio da sala. De súbito ela me disse, tirando os olhos do jogo e me alcançando como se fosse de longe:

— Não era pra você ter nascido.

E isso, meu nascimento, só se deu pelas forças de Oxalá e Iansã, que me insistiram no mundo. Sim, meu parto foi difícil. Foi cesárea, ou nem seria. É o que dizem, o que ouvi de minha mãe, que não sabia dessas duas forças a me puxar, a me disputar com… com o quê? A morte? O oco do tempo? Só sei que venceram o cabo de guerra, e eu só soube disso naquela sala com Marlene, que era vetor das palavras que contam a história escondida de cada pessoa.

Ela ia narrando tortuosamente, e pontualmente me relacionando mais e mais a Oxalá, lembrando-me sempre, como uma nota de rodapé, como um beliscão: mas tem Iansã. E eu fico aqui, perscrutando a dança desses dois, que só agora sei que são os que estão. Oxalá sábio, velho. Oxalufã… Mas tem Iansã. E hoje, com essa ventania de chegada de frente fria, como não lembrar dela? Sou desses que abre janelas na tempestade. Sou desses.

Marlene disse que sou antigo

Foi meu primeiro jogo. Eu não sabia o que dizer, o que perguntar. Se deveria perguntar ou saber. Deixei-me levar. Ouvi e acreditei naquela forma antiga, ancestral, de saber das coisas e dizê-las. E curiosamente agora sei ainda menos do que sabia, porque vislumbro que há tanto mais que não sei. Porque portas e janelas só se abrem para o desconhecido. Quando não vemos o que não sabemos, é porque está tudo fechado.

Agradeci a Marlene. Agradeço ainda.

Não era pra ter nascido. Mas eu nasci, porque era pra eu nascer. Que mundo incrível em que essas duas afirmações podem ser verdadeiras, como o Gato de Schrödinger.


Poemas de Míriam Freitas

Inbox mágico trazendo versos pra gente! Seja bem-vinda, Míriam!

Escritora, mineira e doutora em literatura comparada. É professora no IFSUDESTE- Juiz de Fora. Publicou contos, ensaios, poemas e narrativas curtas. A memória é uma oficina de ossos (Urutau, 2023) é o seu quarto livro de poemas.

A generosidade é um gole d’água
na boca do deserto.


SÓS

Ficar só
como um único peixe no aquário
é habitar no ventre a água
de um mar sem violinos.

 


SOBRE DOAR

A generosidade é um gole d’água
na boca do deserto.

 


SOLIDÃO I

Olhe para dentro,
há o turbilhão das vozes,
íntimas raízes, mortos que falam.
O solitário não fala, mente.
Traduz de si para si
o calendário da alma.
Dentro
− realisticamente −
ninguém
ninguém.

 


PISCA- ALERTA

Hoje acordei
para alimentar os pássaros
e libertar as crianças
dos cardumes da violência.

 


CONSTATAÇÃO

Lendo (agora) um poema de Whitman
sei que os cemitérios estão dentro
de cada homem
ou mulher
na travessia em direção
ao deserto das sombras.

Sei que no útero da loucura
reside a morte.

(Também) sei que
os hospícios são a morada dos pássaros.

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Impermanência com disfarces sociais. Escutar o ar. Antes do tempo das cordas, de T.S. Eliot, e de um caracol que ressoa pelo mundo, de Octavio Paz, a poesia surgiu nos ossos. Cava. Na origem do vazio, sobra a sede de “Luz e sal”, o silêncio, a sombra de sua sombra, como bem dito por Alejandra Pizarnik, por aqui sopra sobras. Freitas parece se conectar exatamente com essa esfera quando apresenta A memória é uma oficina de ossos, obra de fôlego e de impacto, viajante dos símbolos da finitude, livro-nauta da sobrevivência de tuk-tuks nervosos, pois “de um relógio/à procura de novos instintos” permanecemos com um grito, sorrindo, alados. Viver também é grafar um piano constante: nestes densos poemas há vibrações de toques como uma “Sonata ao Luar”, de Ludwig Van Beethoven “embaixo das unhas/dentro dos ouvidos”. Mírian ludibria e convida “à caça do tigre de papel”, em um girassol espelhar refugiando a memória do mundo: porque somos ninguém no mesmo sonho, vícios à imagem prelúdica de “forças ciprestes”. E deitados ao sol, de repente, escutamos assobios, e você já me lê, ao vivo. Continue: “o corpo cresce:”.

Mariana Basílio


Um grito em cada poema | Girvany de Morais

Nasci no dia 27 de março de 1965, num lugarejo chamado Vaqueta, no município de Açucena, às margens do Rio Santo Antônio, sendo meus pais Maria Dias Martins e Juventino Martins de Morais, portanto há 51 anos estou pelejando nesse mundo remando minha canoa, como fazia nos velhos tempos, no Rio Santo Antônio, rio que navega de forma indelével na minha vida.

Sempre gostei de ler, eo meu primeiro livro, ganhei do meu irmão mais velho, livro pedido pela escola, que se chamava “As mais belas estórias”, não me lembro do autor que fez a compilação das estórias.

Desde a tenra idade, toda manifestação artística me encantava, em especial a Literatura. Gosto de Drummond, Pablo Neruda, Mário Quintana e Bertold Brecht, não querendo ser pretensioso, confesso que fui influenciado por ele; gosto também de Charles Baudelaire, Pedro Tierra e, na prosa, admiro João Guimarães Rosa, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Ernest Hemingway, cujo livro “O velho e o Mar” já o reli quatro vezes; cito também, como meu escritor predileto, Gabriel Garcia Marques, como é maravilhoso. Cem Anos de Solidão! É puro êxtase.

Digo com ironia que não consegui ser nada na vida, inventei de ser poeta, não sei se sou dos bons.

Trabalho na Prefeitura Municipal de Açucena, no setor de fiscalização. Como podem ver, sou funcionário público. Como dói, como diria Drummond.

Girvany de Morais


SELEÇÃO DE POEMAS

A MORTE DA POESIA

A poesia saiu a caminhar pela cidade e tinha chovido,
veio um carro em alta velocidade e jogou lama na poesia,
em seguida veio um carro velho e jogou dióxido de carbono na cara da poesia, como vivia no mundo da lua, quase foi atropelada por um motoqueiro que a xingou:
— Saia do meio da rua, filha da puta. Veio a bicicleta que desviou dela numa fração de segundos,

veio o cavaleiro esporeando seu animal e quase a pisoteou,
a moça que sonhava com seu namorado nem deu bom dia,
o político que cumprimentava seus eleitores, nem a reconheceu, poesia não dá voto.
A louca a falar mal dos problemas da cidade a xingou – Vá caçar serviço sua vagabunda!
O policial quase a prendeu por vadiagem, os cães a lambia,
o pedreiro nem dava importância, tinha paredes a levantar, o gari quase a varreu, o professor, fez troça: afinal era de exatas o homem

de negócios a odiou ,não cogitava a hipótese de perder tempo, a municipalidade pensava seriamente em decretar a sua inutilidade pública, e varrê-la através de Decreto Municipal para outras bandas.

 


A ZÉ CELSO

Um louco tropical desfila em terra brasilis,
o seu coração está pleno de plumas e paetês, arlequim desvairado, transfigurando em terras tupiniquins, os seus delírios,
lembrando que na terra dos falsos Messias,
é sempre desejos latentes,
a inundar nossos corpos lascivos.

 


DESJEJUM

Traga-me café com leite, pão com manteiga, degustarei como se fosse um banquete real.
Traga-me um guardanapo, que é pra limpar os restos
como convém as boas normas de educação,
e depois de saciada a fome, andar a esmo,
digerir o tempo.

 


HOMOFOBIA

Ouvi uns que gritavam nomes feios.
Vi outros armados de pau, senti o cheiro daqueles que exalavam ódio.
Ouvi a maldição dos crédulos, que entoavam as suas iras
nos altares.
Vi os homens que marcharam pela moral e bons costumes. vi os jornais, vi as TVs, ouvi o
rádio, propagando as suas ideias. vi o cerco fechado,
vi o beco sem saída,

quando ouvi outros que gritaram: VIVA O AMOR!!!

 


LAMENTO

O Rio Santo Antônio deságua nas minhas veias,
e transborda no meu coração, por isso minha saudade está inundada
de sonhos, e desejos de navegar.


Independência Poética: Daniela Rezende

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA
Poeta de hoje: Daniela Rezende

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA

Poeta de hoje: Daniela Rezende

Daniela Rezende é escritora e artista educadora. Bacharela em história da arte pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e mestra em letras pela Universidade de São Paulo (USP), nasceu e mora em São Paulo. Publicou textos em revistas virtuais e zines. Teve um videopoema apresentado no 4º Concurso de Videopoesia da Desvairada – Feira de Poesia de São Paulo (2020). Integrou o Curso Livre de Preparação de Escritores – CLIPE, pela Casa das Rosas (2021). Pela editora Urutau, lançou Uma mulher só não faz verão (2022).

O que te inspirou a começar a escrever?

Questões pessoais, relacionadas a processos de autocompreensão com os quais eu não sabia lidar muito bem. Eu estava com vinte e oito anos quando comecei a escrever – e a publicar nas minhas redes sociais os textos que eu escrevia – e passava por uma grande crise de identidade, advinda do término de um casamento, da finalização de um mestrado e do desemprego, por consequência.

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

A questão do bloqueio é sempre uma dificuldade. Em geral, eu tento lembrar que ele é uma fase, algo temporário, e ficar tranquila com isso. Se o bloqueio vem quando estou no meio de um projeto, eu tento trabalhar em outras frentes: na continuação das pesquisas para a escrita, de forma a me alimentar o máximo possível sobre aquele tema ou aquela estrutura poética que venho desenvolvendo, ou na releitura e reescrita do que já foi feito.

Se, por outro lado, o bloqueio vem em um momento entre projetos, tento não me preocupar tanto e escrever um pouquinho a cada dia, nem que seja uma frase ou um verso, sobre qualquer coisa. Isso tudo apenas para manter a escrita e a atenção para a escrita sempre fluindo.

Seu maior sonho como escritor(a)?

Não sei responder exatamente. Talvez meu maior sonho como escritora tenha algo a ver com o reconhecimento público da minha atividade, da minha obra e daquilo que escrevo.

Assunto preferido de escrever?

Gosto de escrever sobre mulheres, sobre suas vidas interiores e perspectivas. Também gosto muito de escrever sobre animais e bichos – provavelmente, pois adoro a parte da pesquisa que envolve conhecer mais sobre a natureza.

Um elogio para sua própria escrita?

Um elogio recorrente que a maior parte dos leitores faz em relação à minha escrita é o de que ela é muito forte e muito cortante. Tenho a impressão de que as pessoas verdadeiramente não esperam por isso, por essa contundência, quando me conhecem.

Já um dos elogios mais recentes que uma pessoa em uma live de poesia disse – e que me deixou muito feliz e reflexiva – é o de que minha poesia é inovadora. Eu não sei se compreendo exatamente o que aquela pessoa quis dizer naquele momento, mas considero um grande elogio para um escritor.

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Sim, publiquei um livro de poesia chamado “Uma mulher só não faz verão”, em 2022, pela Editora Urutau.

Também participei de uma antologia de contos para mulheres escritoras no ano de 2022, organizada pela Editora Primata. A publicação se intitula “Cartografias – vol. 1: contos de autoras brasileiras”.

Por fim, em 2023, aguardo a publicação da plaquete de poesia “Mãe fantasma”, uma vez mais pela Editora Primata.

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

As coisas que sonho, as coisas que sinto e as coisas que observo no dia a dia. Essas são as minhas principais inspirações para escrever.

Contudo, uma grande parte dos meus poemas vem daquilo que roubo de tudo o que está ao meu redor, cotidianamente. Assim, as histórias que os amigos me contam, os programas de televisão, um trecho de um livro, uma fala em um podcast: tudo acaba virando material bruto para a escrita.

Qual dos seus poemas mais te define?

Todos eles, sem exceção.

Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

Acredito que iniciar e terminar um poema é, ao mesmo tempo, a parte mais fácil e a mais difícil da escrita. Mas isso depende muito do dia.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

Tenho muitas obras favoritas e a maior parte delas é formada por romances. Costumo dizer que o meu livro preferido do mundo é “A insustentável leveza do ser” (1983), do escritor tcheco Milan Kundera. Jamais superei a leitura dessa obra.


Um livro de Daniela Rezende

Nome da obra?

“Uma mulher só não faz verão”.

Quando e em qual editora foi publicada?

Em 2022, pela Editora Urutau.

Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?

Sim, os temas centrais dos poemas deste livro são: mulheres, bichos, corpos e violências.

As poesias são divididas em fases nessa obra? Se sim, o que te motivou a fazer isso?

Não, elas são organizadas a partir das relações temáticas estabelecidas entre os textos.

O que te incentivou a escrever esse livro?

O fato de que eu estava fazendo um curso de escrita, o CLIPE – Curso Livre de Preparação do Escritor, oferecido pela Casa das Rosas em São Paulo, SP.

Como, ao longo do curso, estava produzindo muito e conversando com outros poetas, todas as semanas, a ideia de organizar esse livro foi tomando corpo aos poucos e passei, então, a escrever e a pesquisar para a escrita com mais consciência e intencionalidade.

É possível destacar uma poesia que mais se assemelha a seu cotidiano?

Acho que não. Todas partiram de algo muito específico e, sem dúvida, ligado ao cotidiano.

A sequência dos poemas conta alguma história?

De alguma forma, sim. Contudo, essa história – ou histórias – não deve ser lida e entendida de forma linear, progressiva, mas, sim, circular, cíclica.

Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?

Sim. Não apenas nessa obra, mas em tudo o que eu faço, seja na literatura, no meu trabalho como educadora em museus, ou na minha faculdade e formação acadêmica, existe uma posição política bastante clara de minha parte sobre os feminismos e as questões raciais e de gênero que me tocam profundamente.

Qual a relevância dos personagens implícitos/explícitos da obra?

Eu adoro contar histórias. Logo no início do livro há, por exemplo, um poema intitulado “mugido”, no qual incluo a personagem Paulo, um açougueiro. Essa personagem vive se repetindo nos meus textos, inclusive se desdobrando para além da poesia, em contos e em trechos de prosa que venho produzindo. Penso que a relevância dela para a minha obra é, ao mesmo tempo, simbólica e material e pode ser compreendida como uma encarnação da própria violência que acomete determinados corpos em nossa sociedade.

Qual a poesia mais marcante desse livro?

Para mim ou para os leitores? Para os leitores, eu diria que alguns dos poemas mais marcantes são “mugido”, “a buceta da brasileira vale menos do que o kg do feijão”, “georgia” e “poema das pernas que abrem”. Já para mim, é impossível apontar um texto só.


Dizer meu bem

Texto de Toinho Castro — “Meu bem”, que coisa linda de se dizer a alguém. Fiz esse quase poema meio sem querer, ou talvez porque com “meu bem” não reste nada a dizer além da poesia. Outro dia de manhã, na padaria, a moça atrás do balcão me falou assim: Vai querer o que, meu bem?

Texto de Toinho Castro


Ilustração de Edmundo Rodrigues, para o livro A ilha perdida, de Maria José Dupré

“Meu bem”, que coisa linda de se dizer a alguém. Fiz esse quase poema meio sem querer, ou talvez porque com “meu bem” não reste nada a dizer além da poesia. Outro dia de manhã, na padaria, a moça atrás do balcão me falou assim: Vai querer o que, meu bem?

De repente ela pareceu-me cheia de magia, de poderes, coo se pudesse realizar sonhos antigos. Quase que eu digo: quero ser astronauta. Voar até a lua. Quero ter um submarino. Quero ter vivido a história de A ilha perdida, de Maria José Dupré. Tal é o poder do “meu bem” quando a gente o escuta, vindo de alguém.

Conformei-me com média e pão na chapa. Mas certamente carregados de algo bom, que não sei o que.

“Meu bem” é mais bonito que “meu amor”, que tem, talvez, algo de impositivo, de definitivo. E ao mesmo tempo pede algo, quase exige um posicionamento. Algo de filma americano com final feliz, a muito custo desenhado pelos roteiristas. “Meu bem” é de uma leveza, de uma finura. Você pode ouvir, sorrir e mexer o café no balcão da padaria. E sua vida vai seguir. Parece sempre que logo depois a gente vai ouvir uma promessa, uma jura. “Meu amor” fecha uma porta. “Meu bem” abre janelas, areja a sala. Chama você pra entrar e se fazer de casa. Parece casual e displicente. Por isso, real.

Talvez você ache que estou viajando, delirando, jogando assunto fora. Não, meu bem. Sei muito bem o que estou a dizer. Quando escuto um “meu bem”, mesmo que nem seja pra mim, aposto num dia bom. Mesmo que não seja pra mim.


O ser amor

Texto de Ana Egito — Pra tudo tem o olhar, pra todos basta o nosso olhar que interpreta o sonho, a sanha, o bem e o mal, o medo e esperança, o cinismo onde dói e lateja a dor da incapacidade de ser melhor do que o espelho reflete, o convexo diante de nossos próprios olhos.

Texto de Ana Egito


O Ser Amor Me encantei com o que me fez sorrir, escolhi ser meu ofício o que pudesse me permitir estar entre o tempo e o além dele, mesmo sabendo que tudo poderia ruir, se extinguir, mas a possibilidade sempre presente de reversão de todo e qualquer mal, me fez acreditar que o horizonte é infinito e tem o brilho do renascimento.

Pra tudo tem o olhar, pra todos basta o nosso olhar que interpreta o sonho, a sanha, o bem e o mal, o medo e esperança, o cinismo onde dói e lateja a dor da incapacidade de ser melhor do que o espelho reflete, o convexo diante de nossos próprios olhos. Embora pareça ser o luar encanto dos apaixonados, desdenha-se do pavor a quem na escuridão da noite se esconda e nos açoita, o medo é também parte de uma cultura que sobrevive há séculos nos mais ingênuos atos, cantigas de ninar, sedução em plena pele, na seda, nas pedras, no reflexo das águas, calmaria, tempestade. 

Quem não guarda dentro de si, vozes ocultas na ternura do colo de mãe, ou mesmo nos braços protetores que abraçam e abrandam, ainda, nas vielas sombrias que só a espera do milagre aqueceu um coração?

Em tudo vejo vontade, mas vantagem, me arrisco a dizer que é privilégio dos que ofertam, somente um coração tomado pela compaixão é capaz de reconhecer o encantamento ao findar do ato, o olhar que sobressaltado à surpresa feliz se encontra, momento mágico, luz! 

Este é meu ofício, busca intensa e incansável por uma vida que possa prolongar a alegria por um minuto que seja, pelas palavras, sons, cores e gestos que a natureza nos ensina desde nossa chegada. O que me encanta me faz sorrir, e como é emocionante ver alguém sorrindo!