Hoje é aniversário de Caetano Veloso. Tá tendo live dele, na internet, e eu to ouvindo aqui ele cantar O homem velho, com uma voz delicada, velha, linda. Não conheço Caetano, não convivi com ele, não tenho foto com ele. Sou o que se chama de fã. Uma palavra meio rejeitada e confusa, mas reivindico pra mim essa palavra desgastada e cafona. E fazendo isso ouso aqui desejar a Caetano parabéns, feliz aniversário, saúde, felicidade e essas coisas boas que a gente que pra quem é do nosso afeto. [Texto de Toinho Castro]
Hoje é aniversário de Caetano Veloso. Tá tendo live dele, na internet, e eu tô ouvindo aqui ele cantar O homem velho, com uma voz delicada, velha, linda. Não conheço Caetano, não convivi com ele, não tenho foto com ele. Sou o que se chama de fã. Uma palavra meio rejeitada e confusa, mas reivindico pra mim essa palavra desgastada e cafona. E fazendo isso ouso aqui desejar a Caetano parabéns, feliz aniversário, saúde, felicidade e essas coisas boas que a gente que pra quem é do nosso afeto. A voz de Caetano é, pra mim, a voz de um pertencimento. Quando ele canta eu estou cantando, quando ele canta eu sou baiano de Salvador, de Santo Amaro da Purificação, daqueles sertões fronteiriços com Pernambuco, com o rio São Francisco dividindo o mundo.
Não me canso de Caetano, desde que o escutava no meu quarto miúdo, na Imbiribeira, longe de tudo. Escutava aquele disco lindo, Muito – Dentro da Estrela Azulada, com ele na capa, com a cabeça deita no colo da mãe. Quem faz uma capa de disco assim? Caetano fez. Dona Canô acariciando os cabelos do filho, uma imagem de mãe e de terra, como a Terra da canção que abre o disco, uma das canções mais importantes que já escutei. E nossa, eu escutava Cá Já, e escutava de novo e de novo, muitas vezes. São João, Xangô menino, que coisa bela de se escutar.
Caetano me deu esse cruzamento dos caminhos da fé, me deu essa crença sem vergonha, um chamamento diverso de povos. Adoro escutar essa palavra, Xangô. Ele canta e está dito, e Xangô ecoa onde estou. E eu que venho do Nordeste, do dentro junino, cada vez que escuto essa música é uma celebração da saudade. Viva o milho verde! Esse disco dá é vontade de chorar, escutando sobre o errante navegante, quem jamais te esqueceria. Não conheço Caetano mas ele é um grande amigo e esse disco é a prova disso. Esse e Cinema transcendental.
Toda vez que escuto Trilhos urbanos parece que é a primeira vez que escuto, é a mesma surpresa, a mesma frescura que sai dali, daquela melodia, daquele poema que se dá em música. Era tanta descoberta nessa disco… Quando achei ali no fim do lado A, inesperada, Elegia, feita de um poema de John Donne, que eu já amava, por causa de Augusto de Campos. Augusto, o Augusto, ali num disco, vertendo John Donne para o português e Caetano desfiando do poeta inglês Minha América, minha terra a vista! Discos de aprendizado. E digo, são muitos discos, muitas músicas alinhadas planetariamente com a gente, desde que o samba é samba.
É uma trilha sonora que atravessa desertos, BRs Brasil adentro, florestas, manguezais recifenses. Quando Caetano canta o tempo para, o tempo passa, o tempo se desmancha nas mãos da gente, areia de ampulheta. O melhor o tempo esconde, longe muito longe, mas bem dentro, aqui. A tradução dos anos, como isso mexe comigo, como isso norteia pensamentos meus nessa cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Escuto Caetano e penso na minha mãe, dona Lenira, lá em Natal, nascida em 1936, e que saiu pelo mundo com seu Antonio, meu pai. E enquanto esses pensamentos me acometem, Caetano canta na sua live, com seus filhos adultos.
Quando eu estava lá na Imbiribeira, ouvindo Muito pela primeira vez, não havia internet, não havia live… ou melhor, o mundo era uma grande live; e hoje, com tantas lives, o mundo parece playback. Mas quando parece a velha fita a rodar de novo, Caetano canta sua sua live, com sua voz de um senhor de 78 anos, e é essa voz que rejuvenesce suas canções. É com essa voz que ele diz que o mundo ainda é novo. É com essa voz que a gente se reencontra com aquele rapaz na capa de Cinema Transcendental, cabeludo, sentado na praia, olhando o mar. Uma vez estive em Salvador, e sentei sozinho na praia, assim mesmo, olhando o mar. Me senti Caetano Veloso. Que coisa boa.
Lançamentos preciosos pra escutar, curtir e compartilhar!
Viva e cheia de energia como poucos nessa pandemia, a música brasileira não para. Não para de surpreender, de alegrar e iluminar nossas vidas em meio a essa confusão em que nos metemos, ou nos meteram, ou ainda um tanto dos dois! Hoje, numa sexta-feira, aniversário de Caetano Veloso e já encostando no Dia dos Pais, fica a dica dessa pérolas preciosas lançadas ao vento, pra gente botar pra tocar e aumentar o volume, pro som das caixas se sobrepor à distopia que quer acinzentar o horizonte.
Amor eterno de Marcelo Correia e Bad in Bahia de Octavio Cardozzo, com participação de Luiza Brina, chegando nas plataformas digitais!
Viva e cheia de energia como poucos nessa pandemia, a música brasileira não para. Não para de surpreender, de alegrar e iluminar nossas vidas em meio a essa confusão em que nos metemos, ou nos meteram, ou ainda um tanto dos dois! Hoje, numa sexta-feira, aniversário de Caetano Veloso e já encostando no Dia dos Pais, fica a dica dessa pérolas preciosas lançadas ao vento, pra gente botar pra tocar e aumentar o volume, pro som das caixas se sobrepor à distopia que quer acinzentar o horizonte.
Amor eterno
Marcelo Correia e sua filha, Liz – Foto de Priscila Rabello
Marcelo Correiaé músico e é pai, e desse encontro de destinos a gente recebe essa canção linda, de afeto, composta e gravada em meio à pandemia e quarentena. Amor eterno, essa novíssima é sobre estar perto estar junto, viver esse diálogo contínuo de pai e filha, ou filho, todo mundo aprendendo a criar saídas quando tudo parece estar fechado. E as saídas estão, claro, no encontro, no brincar, no reconhecer uns aos outros como seres lúdicos.
Na sua própria infância Marcelo já vivia música, e depois já adulto, depois de dez anos trabalhando na tal da indústria farmacêutica, resolveu viver de música, que no fundo é viver da infância que a gente carrega. O nascimento da filha deu rumo, deu norte e um tema. “De repente, passei a escrever músicas sobre a paternidade e a nova rotina de dono de casa”. Que bom que isso se deu assim e a gente tem hoje suas canções pra escutar e refletir sobre essa relação que todos nós vivemos, seja por um lado ou outro.
Lençol e cadeiras são cabana para se montar Se não há parque, o sofá é nosso pula-pula Se não há praia, monto a banheira, a gente imita o mar Na brincadeira a gente vai para qualquer lugar
Amor eterno já está disponível nas plataformas de streaming e já pode tocar na sua casa e clarear a quarentena, mesmo que você não tenha filhos, porque é mesmo uma canção do amor.
Bad in Bahia
Octavio Cardozzo – Foto de Gabriela OtatiLuiza Brina – Foto de Joel de Holanda
Duas criaturas de Minas Gerais chegando juntas nesse 7 de agosto com uma parceria linda. Bad in Bahia é a música nova de Octavio Cardozzo, com a Luiza Brina, segunda de uma tríade de singles que prenunciam o disco Tá todo mundo mal, seu terceiro álbum! E gente, essa música tem uma história linda pra ser contada. De novo, história de encontros. Dois anos atrás, Octavio viu Luiza performar com Julia Branco uma canção dos Paralamas do Sucesso, Mensagem de amor, no show Soltar os cavalos, da Julia. Aquele arranjo da Luiza pro sucesso dos Paralamas deixou Octavio ligado e naquele mesmo dia ele compôs Bad in Bahia, com direito a citação de Back to Bahia de Luiza, que por sua vez conversa com Gil e Caetano e Bethânia! Olha só quantas conexões, quantos curto-circuitos acontecendo pra uma música assim vir à tona. Só pode ser mesmo bonita e bem-vinda.
É uma honra ter influenciado o Octavio de alguma forma a fazer essa música. — Luiza Brina
E é claro que Octavio trouxe Luiza pra música. Ela gravou remotamente sua participação e nisso as pontas da história se juntam, caminhos que se encontram misturando tanta coisa boa numa música linda. E enquanto Tá todo mundo mal não chega, a gente curte Bad in Bahia, com direito a esse videoclipe produzido por Peleja Lab!
E se alguém te disser que a música brasileira não é mais a mesma, que tá morta ou qualquer heresia parecida, você manda essas canções pra pessoa, pra ela despertar pra esse mundo novo que surge todo dia pro cancioneiro nacional! Né?!
Dicas preciosas direto da Belmira Comunicação, que já é parceira das ideias!
Tenho quase
Quase é um advérbio. É uma palavra invariável que funciona como um modificador de um verbo. Ela tem me modificado. Afinal, tenho quase 30. Tenho quase coisas. Quase eu consegui. Quase acabou. Quase eu recebi. Quase eu fui contratada. Foi por pouco. Foi quase. Quase. Quaaase, rapaz [Texto de Caru]
ETIM lat. quasi ‘do mesmo modo que; como; pouco mais ou menos; como se, aparentemente’ .
Quase é um advérbio. É uma palavra invariável que funciona como um modificador de um verbo. Ela tem me modificado. Afinal, tenho quase 30. Tenho quase coisas. Quase eu consegui. Quase acabou. Quase eu recebi. Quase eu fui contratada. Foi por pouco. Foi quase. Quase. Quaaase, rapaz.
Modificador de realidade. Realidade parada. Uma realidade parada que você sente não parar. Mesmo que precise. Você vive sem tempo num momento em que tempo é, em tese, o que você mais tem. Quase entreguei. Atrasei. Desculpa! Amanhã eu entrego.
Eu quase fiquei essa quarentena sem escrever. Quase. Pois aqui estou. Quase finalizei um curso. Quase que não finalizei outros (mas fiz). A preguiça era grande. Ainda bem que noutro dia eu meditei. Voltei a meditar. Porque se não…Quase ia tudo por água abaixo. Nesse tempo tenho aprendido muito. Acredito que você também. Eu espero. O aprendizado desses últimos dias tem sido: não me julgar. Porque pra mim, muita coisa, tem sido quase. Outras não, por supuesto. Tenho praticado bastante meu espanhol. Os cursos que finalizei foram ótimos. Mas enquanto escrevo agora, penso: quem precisa ler isso? Tem sentido? Acrescentará algo no dia de alguém? Autossabotagem do inferno. Pelamordedeus. Compus músicas novas. Quer ouvir? Pode ser que pra mim seja um outro quase. Um pouco mais ou menos. Mas se modificar uma só pessoa, em alguns segundos, já valeu. Um verbo modificado. IR. SER. DANÇAR. SORRIR. CHORAR. LIGAR. VOAR. VOLTAR. Como se diz?
Cara, tem sido difícil. E agradeço quem me segura pra não cair. Quem segura minha mão. Ou minhas costas. Ou sobe o ombrinho quando ele dá aquela caída. Meu sogro, nesse instante, me receitaria seis gotinhas de clonazepam. Eu espero seis horas ou seis dias e passa. É preciso viver uns dias de quase. Assim, dou valor ao dia que se completa. Ao dia de conquistas inteiras. Repleto de alegria. Só assim, conhecendo um, sei que é no outro que quero estar. Conjugue agora comigo o verbo modificado conseguir:
Eu c_____ Tu c_____ Ele c_____ Nós c____ Vós c____ Eles c____
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Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa: Gravidade zero
Você quase esqueceu. Cadê neurônio depois de tanto álcool na cabeça? A única lembrança que ainda lhe resta daquela noite foi o salto: apostou – dizem que foi a dinheiro, mas isso você faz questão de não lembrar – com os amigos na festa para ver quanto tempo cada um levaria para tocar o chão, pulando do alto da janela do segundo andar da casa. [Texto de Fábio Fernandes]
Você quase esqueceu. Cadê neurônio depois de tanto álcool na cabeça? A única lembrança que ainda lhe resta daquela noite foi o salto: apostou – dizem que foi a dinheiro, mas isso você faz questão de não lembrar – com os amigos na festa para ver quanto tempo cada um levaria para tocar o chão, pulando do alto da janela do segundo andar da casa.
Você também não lembra que foi o único, que todo mundo riu da sua cara, que você estava tão bêbado que não sabia. Você tinha dezesseis anos e achava que sabia de tudo. Achava inclusive que conseguiria retardar o salto em pleno ar e descer suavemente, como uma pluma, um saco de plástico.
Você ainda não havia estudado fenomenologia da percepção e outros babados, a noção de tempo interno do observador, etcétera, etcétera. Foi por isso que o salto durou para sempre, sua besta.
Mais tarde, você seria levado ao hospital com fratura múltipla no braço esquerdo e na clavícula, mas o médico, que se chamava Newton (isso você não vai esquecer tão cedo) examinaria as chapas de raios-x e diria simplesmente: não houve gravidade. Você acha que ele estava tirando um sarro da sua cara.
Sobre a depressão
Verdade: quando escrevo, me sinto em transe, me sinto repleto, me sinto útil e me sinto atendendo ao meu chamado nessa vida.
Pena saber que nem todo mundo se abre pra encontrar coisas que apenas existem no plano dos sonhos, e aproveito que estou compartilhando com vocês essa reflexão para convida-los a fazê-lo. Deixem seus interiores lhes mandarem mensagens! [Texto de Eduardo Maciel]
Texto de Eduardo Maciel
Olá, queridxs kurumateirxs!
Hoje venho compartilhar com vocês um pouco de como o Sol começou a brilhar para mim, após um período bem triste de depressão… Mas antes de falar da minha experiência, queria frisar que depressão não é um mito, não é frescura, não se trata de capricho ou falta de força de vontade. Depressão é doença, e como todas as doenças, carece de tratamento médico especializado. Quem já teve sabe! Há algum tempo, já em um lugar de superação e distanciamento dessa terrível doença, comecei a pensar nas causas que me levaram a ficar deprimido, e dessa análise surgiram temas. Vários temas chegaram, cada um a seu momento, e nesse meu artigo, quero contar pra vocês sobre as reflexões que fiz nas searas da literatura, da educação e da arte. Em outubro de 2018 eu estava preparando o lançamento do meu primeiro livro. Já tinha feito o meu encontro com os sonetos e já tinha um objetivo para canalizar nisso minha energia criativa. Delícia de encontro, aliás. Para ser sincero, um encontro definitivo e que seria o abre-alas para tantos outros encontros: me encontrei com a clareza sobre quem são os meus amigos de verdade, com a abertura emocional para fazer novos. Me encontrei com um emprego que amo (não se vive de arte no Brasil, e eu sou muito ciente da realidade, por mais que não consiga deixar de flertar sempre com a fantasia). Me encontrei afetivamente e com isso abracei outros tipos de afeto: crianças sempre me movem, e nesse caso específico me mostraram a importância da educação familiar, e como é gratificante me sentir parte de algo assim. Me deparei com mais dois lançamentos de livro, com prêmios, reconhecimento vindo do meu público (ao qual humildemente sirvo), venda de minha obra, críticas a ela: em maioria boas, graças ao Universo e aos deuses que protegem as mãos de quem empunha uma caneta ou digita o resultado da conexão segura em banda larga entre a mente e o coração. Dei de cara com desafios de continuidade, antologias, da difícil tarefa de ser jurado de um concurso literário pela primeira vez. Acreditem: se trata de uma responsabilidade imensa. E me deparo agora com o grande significado que tudo isso revela para mim, porque quando escrevo (seja em prosa ou em verso) experimento um prazer indescritível. Verdade: quando escrevo, me sinto em transe, me sinto repleto, me sinto útil e me sinto atendendo ao meu chamado nessa vida. Pena saber que nem todo mundo se abre pra encontrar coisas que apenas existem no plano dos sonhos, e aproveito que estou compartilhando com vocês essa reflexão para convida-los a fazê-lo. Deixem seus interiores lhes mandarem mensagens! O resultado do balanço no meu caso é com certeza positivo, talvez o mais positivo de toda a minha vida, e quero agradecer a todos vocês que estão lendo essas palavras, por tornarem a minha experiência própria uma ferramenta útil para qualquer pessoa. Deixem o Sol interior brilhar! Inté!
Astronautas
A imagem não é muito boa, há sempre algum ruído e a gente sente o esforço dos dados, dos pixels, para migrar entre nós, carregando as imagens de uns para os outros. O som é sempre um pouco metálico, estranho, sempre um pouco fanhoso, porque nossos microfones e altofalantes, ou fones de ouvido, não são mesmo grande coisa. Então enquanto eu converso com alguém, tento filtrar aquele som pela memória, a fim de recuperar a voz da pessoa. [Texto de Toinho Castro]
A imagem não é muito boa, há sempre algum ruído e a gente sente o esforço dos dados, dos pixels, para migrar entre nós, carregando as imagens de uns para os outros. O som é sempre um pouco metálico, estranho, sempre um pouco fanhoso, porque nossos microfones e altofalantes, ou fones de ouvido, não são mesmo grande coisa. Então enquanto eu converso com alguém, tento filtrar aquele som pela memória, a fim de recuperar a voz da pessoa. A fim, na verdade, de não perdê-la, como aos poucos vamos esquecendo a voz dos mortos. Então, cada palavra dita é ouvida com atenção, é polida, burilada, até que, por fim, a pessoa esteja ali, naquela voz. Sempre haverá uma dúvida… a memória sempre tem algo de armadilha. Mas é o que temos… tudo pede essa contraprova. Por fim, há o delay. Há sempre um delay. Você sabia que a luz do sol leva 8 minutos para cumprir seu caminho até a terra? Se o sol apagasse sua fornalha neste exato instante, levaríamos oito longos minutos para descobrir. Com algum aviso de antecedência, poderíamos aproveitar esses oito minutos da melhor forma, estirados na grama dos parques, até o mundo acabar. Pelo menos os que estivessem no lado iluminado do planeta.
Com o som não é diferente. Na mesa do bar, com as amizades, toda a conversa parece acontecer imediatamente, em tempo real, mas a verdade é que as palavras viajam pelo ar, graças ao ar, e levam um tempo, ainda que mínimo, imperceptível, para chegar a quem está ao seu lado ou do outro lado da mesa. Na transmissão de vídeo, a qual estamos resignados, a pessoa chega até você com um atraso evidente. Muitas vezes a voz se desencontra do movimento dos lábios, perdendo a sincronia, nas duas direções da conversa. Às vezes isso causa pequenas confusões, sobreposições de falas e risos. E, eventualemnte, algo se perde.
Sinto como se estivéssemos, cada um de nós, vivendo em estações espaciais, orbitando a terra, quilômetros acima da superfície. Em tudo que fazemos há certa falta de gravidade. Olhamos pela janela e vemos um mundo silencioso a girar em torno do próprio eixo, no seu ciclo infindável em torno do sol, esse mesmo sol que leva oito minutos para nos alcançar. Entre nós e o mundo, entre cada uma dessas estações espaciais, também a girar em torno de um eixo, temos essa espécie de vácuo, que se estende longamente, alcançando mesmo a vida interior de cada astronauta, que parecemos ser, em seu isolamento, em seu núcleo familiar, por trás de cada janela que dá para esse planeta ao qual ansiamos retornar. Ao qual acabaremos por retornar, posto que a cada volta parece que estamos mais próximos, perdendo pouco a pouco a altitude. E enquanto isso sinais de vídeo, de áudio, bits, pixels, vão sendo arremessados de uma estação a outra e a outra e a outra. Conversas cruzadas, telegráficas, cansadas, intensas, sobre o mundo lá fora, sobre as pessoas que queremos ser quando enfim… quando enfim o que? Quando o mundo for novo outra vez? Quando o medo cessar? Quando eu ou você pisarmos na rua, como um Neil Armstrong tardio, redescobrindo o que sempre esteve ali? As árvores, as pontes, as longas avenidas, o rio Capibaribe, a padaria na esquina.
Até lá, nossos aparelhos monitoram as condições do ar, das superfícies, das ruas; e volta e meia alguém arrisca uma caminhada lá fora. Máscara no rosto e andar hesitante, quase arrastando atrás de si um fio de ariadne para não se perder, para poder voltar antes que caia a noite, a tempo de uma última videochamada que ilumine o quarto escuro. Já notou isso? Quando um rosto aparece na tela do celular, uma luminosidade nos acerta; uma claridade. O tom da luminosidade sobe. É um alento. As telas são nossa fonte da luz que cada um carrega em si. Cada ponto de luz, em cada casa… uma pessoa.
E falamos de cá e de lá, disso e daquilo, puxamos assunto como quem puxa o ar para respirar. Como se a conexão pudesse cair se ficássemos em silêncio; como se o que nos ligasse fossem as palavras. Eu e você, num bar, estaríamos possivelmente calados, bebendo nosso chope ou nosso vinho, na delicadeza de nada ter que falar. Satisfeitos em estar ali, lado a lado, brindando, talvez, ao silêncio. Esse silêncio impossível nas teleconferências que seguem preenhendo a falta do contato físico, em que precisamos preencher cada instante com algo a dizer. Cada vez mais, enquanto fundamos no vazio do cosmo, nos tornamos voz. Nos tornamos o inatingível, algo imaginário, uma possibilidade, uma potência. Enquanto respondermos às chamadas, tudo bem…
Olho pela escotilha da minha estação espacial, do meu laboratório cuja experiência sou eu, e anseio o mundo. O celular na mesa, calado, denuncia meu maior medo, o “silêncio no rádio”; todas as estações fora do ar, solitárias em suas órbitas. Um zunido, um ruído de fundo, daquela explosão em que tudo se originou, para terminarmos assim, isolados uns dos outros, construindo pontes imaginárias que podem ruir como qualquer ponte.
Espero que não. Espero reabrir a escotilha num dia de verão.
Os sabores da cultura popular
Chega-nos nesse sábado inverno, com fiapos de sol, ecos da culinária brasileira, pela voz afetiva da paraense de Marajó, criada em Belém, Raíra Moraes. Apaixonada por música e cultura popular, Raíra faz pesquisa nessa área há uns dez anos, sempre atrelando música, culinária local e manifestações de raiz. Só muito amor pela gastronomia, por enxergá-la como cultura e veículo das tradições e história do povo, das gentes desse país enorme e profundamente culinário. Onde se vai encontram-se sabores, combinações inesperadas de ingredientes e descobertas. Com esse olhar e, claro, paladar, Raíra compartilha com a gente suas impressões e experiências. [Texto de Raíra Moraes]
Chega-nos nesse sábado inverno, com fiapos de sol, ecos da culinária brasileira, pela voz afetiva da paraense de Marajó, criada em Belém, Raíra Moraes. Apaixonada por música e cultura popular, Raíra faz pesquisa nessa área há uns dez anos, sempre atrelando música, culinária local e manifestações de raiz. Só muito amor pela gastronomia, por enxergá-la como cultura e veículo das tradições e história do povo, das gentes desse país enorme e profundamente culinário. Onde se vai encontram-se sabores, combinações inesperadas de ingredientes e descobertas. Com esse olhar e, claro, paladar, Raíra compartilha com a gente suas impressões e experiências. Bem-vinda, Raíra, à mesa da Kuruma’tá!
Há uns dez anos, na penúltima vez que estive em Salvador, passando por uma passarela, vi uma senhora toda de branco, uma carinha com um sorriso lindo, sentada com algumas panelas ao seu redor e uns paninhos alvíssimos cobrindo-as. Resolvi me aproximar e experimentar o que tivesse de diferente ali. E eis que ela me ofereceu o mingau de carimã!
Eu amo mingau! E, esse, assim como o de tapioca, o de arroz com castanha-do-Pará, o de buriti e o de banana verde, que tomo em Belém, me pegou de cheio! Nunca tinha ouvido falar desse “tal” carimã… Mas, foi amor de primeira! A textura macia, tenra, suave e, ao mesmo tempo, forte, e saborosa foram tomando conta das minhas papilas gustativas.
Pronto, viciei! Todos os dias, precisando, ou não, eu subia aquela passarela, movida pelo desejo de tomar o mingau, exatamente igual àqueles desenhos animados onde os personagens saem voando, levados pelo cheiro de comidas deliciosas. Depois disso, retornei em Salvador uma única vez, mas, nunca mais encontrei esse mingau…
E, estes dias, ele tem estado na minha memória “palativa”. Égua da vontade! Resolvi, então, eu mesma fazer! Iniciei minha pesquisa para produzir todo o processo, desde a puba, matéria-prima do mingau. Hoje comecei a tratar a macaxeira. Ela ficará mergulhada nessa água, com a panela tampada, por uns dez dias, que é quando estará pronta para a feitura da puba. Vai dar um trabalho, mas a saudade do mingau é maior! Às vezes, precisamos mais de coragem que de disposição!
Meu ovo caipira de cada dia
Não é linda essa imagem? E o sabor mais ainda! Há quatro anos consumindo diariamente dois ovos caipiras quentes, não consigo mais imaginar meu desjejum sem eles. Para onde quer que eu viaje, saio carregando comigo algumas dúzias. Seja em avião, ônibus, carro, barco, e sem quebrar nenhum! Os amigos rolam de rir ao me verem chegar com uma montanha de ovos. Mas, ovo caipira de verdade não se encontra em todo lugar e, mesmo quando encontra, o acesso não é tão simples. Um dos alimentos mais completos que existem, riquíssimo em vitaminas. Bora comer ovo!
Camarão e resto’s
E hoje fiz uma receita do maravilhoso chef paraense, e um dos maiores do Brasil, Paulo Martins! Ele foi o primeiro a experimentar, criar e utilizar as riquezas dos sabores amazônicos na gastronomia, e foi responsável pela divulgação dessa culinária pelo mundo, e não o Alex Atala, como erroneamente muitas pessoas acham. Aliás, o Atala aprendeu tudo de gastronomia amazônica com o Paulo! “Camarão a resto’s” é uma receita de camarão com molho de bacuri. Bacuri é uma fruta super cheirosa, e deliciosa, que temos no Pará, cujo sabor adocicado, e levemente ácido, combina perfeitamente nessa receita. Gente, divino.
Poesia através do Atlântico
Sabem aquele contato que a gente faz, aí se perde no rebuliço das horas, dos dias, dos e-mails, das mensagens?! Pois… Eis que reencontrei dias desses um desses elos perdidos das conversas ao acaso. A artista Lu Lessa, residente na boa Coimbra, me falou desse moço, o Alexandre Gigas, amigo, poeta, artista como ela. Que a gente tinha que trocar ideias, palavras, feitos heroicos! Email vai e vem e some, mas na confusão de distrações Gigas deixou-nos um poema a ser publicado na Kuruma’tá. Reencontrá-lo foi graça alcançada, item no somatório das coisas boas que se insurgem contra as coisas ruins. [Poemas de Alexandre Valinhos Gigas]
Sabe aquele contato que a gente faz, aí se perde no rebuliço das horas, dos dias, dos e-mails, das mensagens?! Pois… Eis que reencontrei dias desses um desses elos perdidos das conversas ao acaso. A artista Lu Lessa, residente na boa Coimbra, me falou desse moço, o Alexandre Gigas, amigo, poeta, artista como ela. Que a gente tinha que trocar ideias, palavras, feitos heroicos! E-mail vai e vem e some, mas na confusão de distrações Gigas deixou-nos uns poemas a serem publicado na Kuruma’tá. Reencontrá-los foi graça alcançada, item no somatório das coisas boas que se insurgem contra as coisas ruins.
São cinco poema inéditos, pensados para um volume chamado Caixa de fósforos. Somando aqui os dias que passaram desde essa troca de mensagens, pode ser que o livro já esteja por aí e não sejam mais inéditos esses poemas. Mas vale ainda assim por essa ponte cruzando o Atlântico e pela beleza desses versos.
— Toinho Castro
Poemas de Alexandre Valinhos Gigas
1.
Um velho da minha aldeia indicou-me um poço sem fundo para além do dedo mais esticado com que perfurava o verde da encosta. Os poços, como as grutas, são túneis de passagem aos sonhos que o desconhecido encerra. Fiquei abismado pelo segredo tamanho que esse “sem fundo” continha. Fui procurá-lo, escondido, para que só eu medisse o meu medo até à sua tenebrosa boca e só a minha coragem carregasse a pedra com que sondaria a profundidade do segredo.
Nessa noite, nasceu a ideia de eco que a pedra reproduziria se fundo houvesse e, sonhando, media os anéis de água que percorreriam a terra desde aí, que abririam o caminho que só eu conheceria. Atirei mal a pedra – pensava – que isto dos labirintos ocultos revelam todas as possibilidades.
À segunda tentativa fugi, porque o urrar do vento ainda não me tinha sido explicado e ter coragem sozinho me pareceu absurdo. A terceira pedra foi atirada com ajuda, que confirmou ter o poço cinco metros de altura. Não ouvi mais as cantilenas do velho, em pretérito de entender o vento.
Hoje, trago comigo um velho feito de anéis ecoantes, os olhos espetados no verde das encostas, medindo o sonho sem fundo onde caí. Ouço o outro pela boca do vento, urrando o terror escondido na terra, perfurando o medo de caminhar para além da coragem de encontrar o absurdo.
2.
Ouvi histórias, em primeira mão, dos velhos-meninos da guerra civil espanhola. De forma indirecta, dos descendentes dos fantasmas sem sepulcro, que ainda deambulam pelos silêncios incómodos de alguns encontros de família. Sempre que recebi esses murros no estômago olhei ou imaginei o céu aberto que os fuzilados olhavam antes do tiro. Nunca pensei nos seus gritos ou palavras de ordem, porque o Lorca me falou de amor tantas vezes, nos almoços do trabalho, na pausa da exumação dos cadáveres mudos. Preferia a visão muito romântica da luta anti-fascista na europa colonial-democrata. Agora sou menos ingénuo. Ao observar as plantações de arame farpado nas mentalidades que me circundam, sinto que tenho de ser pragmático. Tenho de guardar um fósforo para uma mecha de pólvora seguir o meu caminho de luta ou para o derradeiro cigarro que me calará perante o azul das convicções onde me afirmo.
3.
A zona de conforto, à noite, é uma densa selva que o fósforo reabre no mundo concreto de uma vela. Na visão das molduras, a tribo festiva celebra a respiração das árvores, o correr das águas jovens escavando caminhos. O murmúrio dinâmico das copas, insistindo na música que fala de esperança. Prendi a arquitectura da cidade num arame – o corpo numa suspensão de compostagem – os elementos dando novos sentidos à caótica alma. Memórias secas flutuando pelos regatos.
A árvore diz que o fado é um choro que limpa as memórias duras e as transforma em amor. A árvore diz que a curiosidade sobre o outro deve servir o melhor conhecimento sobre o outro para do outro melhor cuidar.
Ao esfregar os olhos esqueci o ponto de chegada. Re-aprendi, sem método e objetivo, que as fontes das águas limpas nascem no céu e as lágrimas são um som interior que as transporta do azul à terra quente. Cada um é um filtro. Os meus pés germinaram mil braços, como lava que inventa a nova ilha na ebulição das águas doridas. Talvez um continente antigo desperte na invenção de um novo labirinto.
A vela ardeu. Tudo retoma a quente normalidade da mão que, na minha, conforta o regresso a este eu, que nunca conheci.
4.
Fome Estou farto da fome. A fome entranha-se no corpo e em tudo o que pauta o quotidiano. A fome não se esfolia com o duche e cheira a sabão azul. A fome tem um odor nauseabundo. A fome tem tártaro nos dentes e não tem cáries. A fome tem um brilho opaco nos olhos, os braços caídos no tronco e os passos lentos, lentos. A fome tem o rosto da Autoridade Tributária e Aduaneira, ditas Finanças, numa missiva recebida pela manhã. A fome é tutelada e gerida pela SS, dita Segurança Social, e pelos seus agentes de olhar frio, mas também piedoso, beato e casto. A Tutela da fome desconhece a fome. A fome é ministrada em cursos profissionais. Os cátedros da fome nunca sentiram fome. A fome é um número estatístico a diminuir nas pastas dos decisores políticos. Para os decisores políticos, num jantar privado, a fome é um conceito abstracto, subjectivo e bastante discutível. A fome tem a sigla FMI. A fome não tem partido e desistiu da democracia, se é que alguma vez nela pensou. A fome é o improviso das horas que ribombam no estômago. A fome é ter pressa e voar num carro emprestado e cruzar com polícias à caça da multa, por directivas das chefias. A fome é uma multidão crescente de anjos sem asas em queda permanente. A fome exerce-se todos os dias. A fome não sente amor nem ódio porque só sente fome. A fome não tem sequer inveja dos ricos ou de quem consegue comer, mas está atenta ao que sobra nos pratos em casa, nas mesas das esplanadas e nos caixotes do lixo. A fome é a salvação bíblica de uma velha que entra pela porta dos céus por um buraco de uma agulha. A fome é a porta dos fundos para o paraíso. A fome é notar nos ratos da sociedade que se multiplicam e que ninguém vê. A fome são ratos escondidos nas tocas, ao abandono, depois de remexerem no lixo ao anoitecer. A fome alimenta o terror e a indignação dos que comem. A fome é o olhar fleumático do comentador político na mesa farta do café. A fome engorda muita gente. A fome é um ordenado mínimo, é um segundo trabalho, um terceiro, uns biscates para o vizinho ou conhecido. A fome é 100% disso tudo o que se dá, mais uma taxa de juro variável sobre tudo o que existe, incluindo o ar que se respira. A fome são dias de desistência; as roupas empilhadas por passar a ferro, a casa por arrumar, um abraço ao próprio corpo dormente e dorido no sofá, uma lágrima furtiva no silêncio da hora mais solitária. A fome são remendos de roupas velhas. A fome são muitos quilos de arroz. A fome é a obstinação em viver. A fome é uma luta titânica e utópica. A fome é encontrar a réstia de esperança na caixa de Pandora, pelo meio do turbilhão dos males do mundo e nunca parar, nunca desistir; correr de um lado para o outro entre trabalhos e afazeres voluntários e sorrir quase sempre numa voluptuosa embriaguez de carência. A fome é uma embriaguez insana de fé sobre o dogma da sobrevivência amanhã. A fome é não ter soluções e improvisar na venda dos objectos que perdem utilidade, nas moedas perdidas nas calçadas, nas moedas deixadas ao abandono nos parquímetros dos estacionamentos. A fome é a desculpa moral para a peça de fruta roubada do quintal vizinho. A fome é doença e taxas moderadoras ao pequeno-almoço no hospital. A fome é o aviso do médico para a falta de proteínas e vitaminas enquanto passa receitas de comprimidos que engordam a Indústria Farmacêutica. A fome são uns trocos emprestados que nunca se vão devolver. A fome são listas de dívidas nas casas de comércio. A fome é caridade de pessoas com menos fome. A fome é a caridade dos amigos e um silêncio de obrigado. A fome é desistência do orgulho. A fome são inúmeros obstáculos concretos ultrapassados metaforicamente pela alma e a razão. A fome são velhos a pedir moedinhas nos becos. A fome são sonhos de criança por cumprir. A fome é uma piça enterrada no sonho, esporra que lubrifica a garganta seca e nota que, cheirando a podridão, ainda se respira. A fome é “Puta que os pariu a todos”. A fome não pode ser silêncio, agora!
5. A criança corria regando-se de suor como orvalho em erva daninha. O Verão trazia a debulhadora industrial e a maravilha da técnica aos ermos serranos. A tarde amarelada enrolava-se nos dedos gretados dos velhos. O cheiro da terra curtida erguia-se na pausa do olhar cansado. A criança suspendia-se no suor da testa dos outros, como orvalho em árvores antigas; os velhos enfardando os erros herdados, na sombra da máquina, sussurrando leis gerais a debulhar. O suor sumindo-se na terra pobre rumo às fontes termais burguesas do vale. O dia fechava-se nos lenços sujos pendendo dos bolsos rotos, nos passos lentos rumo a casa onde Pandora guardara a Esperança. Não lembro o que a criança concluía no regresso nocturno de bicicleta; que justaposição de imagens a iluminação pública fomentava no embalo dos pedais rumo ao sono.
O sonho separava a semente dos fardos de ideias secas, que serviam a fome de todos os seres. Germinavam poemas, de crescimento lento, nascidos nas mãos jovens calejadas. Cada palavra um inocente eco escrito do esforço que assomou à garganta e saiu livre pelos dedos, como música. Cada sentido uma alienação primitiva contra o dogma cristão capitalista. Cada verso a urgência infantil do labor sem lucro, como construindo praças nos baldios, que todos podem frequentar. Cada estrofe a crueldade hierárquica de patrões, ou o lenço limpo que cega a Justiça do mundo. A erva daninha foi despertando entre o amor ou a natureza, como objectos do trabalho livre. Pela manhã sobrava o tempo de brincar, em mais um dia estendido no ruminar dos rebanhos, no soberbo chilrear dos pássaros, no florescer orvalhado e nunca concluído do futuro.
Movimentos
Poesia tem seu lugar cativo na Kuruma’tá, ainda mais a poesia de Maria Cristina Martins, que sempre abre uma janela nova aqui na revista. Aqui ela nos apresenta três poemas de sua nova lavra. Adoro essa expressão, que vem de lavoura, de lavrar a terra. E não é assim que a gente faz poesia? E para completar, acompanha o conjunto de três poemas temos ainda uma arte da série de trabalhos que Maria Cristina vem desenvolvendo com pintura. Tudo de bom na Kuruma’tá, graças a essa colaboração, esse encontro de gentes que sonham e escrevem poesia. [Poemas de Maria Cristina Martins]
Poesia tem seu lugar cativo na Kuruma’tá, ainda mais a poesia de Maria Cristina Martins, que sempre abre uma janela nova aqui na revista. Aqui ela nos apresenta três poemas de sua nova lavra. Adoro essa expressão, que vem de lavoura, de lavrar a terra. E não é assim que a gente faz poesia? E para completar, acompanha ainda o conjunto de três poemas, uma arte da série de trabalhos que Maria Cristina vem desenvolvendo com pintura. Tudo de bom na Kuruma’tá, graças a essa colaboração, esse encontro de gentes que sonham e escrevem poesia.
Poemas de Maria Cristina Martins
MOVIMENTOS
1. Cotidiano
Não é que a poesia me cause dor nas costas ou me tire o sono da madrugada
Não é que as crianças sejam caixas-pretas como os cachorros quando latem demasiado dentro do silêncio
De tudo o que vi até agora nada é tão doce e agudo nem há vaga maior no mar
bando de nuvens instáveis inconsciente projetado parir poema ninar cachorro escrever criança
2. Impulsivo
calma olha pras tuas mãos sangrando dos murros em ponta de faca anzóis fincados na boca teus lábios rasgados às vezes por nada
o mundo é grande como o intestino o mundo é pequeno como o dedo mindinho de um recém-nascido
também corto sangro e faço sangrar quando me quebro mas vidro sempre morre
quando calma entrar na tua cabeça como apelido para teus disparos quando teus atos forem frios objetivos claros alvos destacados no horizonte equilíbrio será teu nome certeiro será teu faro
3. Contraditório
desta feita pensei o contrário que os rios são sempre os mesmos as águas evaporam viram nuvens depois voltam na chuva e alimentam aqueles mesmos rios
– Quando você choveu transbordou o rio que passava atrás da sua casa
decidi que meu objeto preferido são os pedaços de corda que guardaria no sótão caso tivesse um por suas duas funções opostas
– Quando você dançava a fugir da sombra eu pensava no entanto é isto: a sombra a põe em movimento
Arte de Maria Cristina Martins
O Ano Dois Mil e Vinte / Mudou Meu Planejamento
O ano de dois mil e vinte não tá moleza pra geral. Naquele momento cintilizante dos abraços, dos fogos, dos votos de feliz ano novo e do champagne, ou da Cidra, tava todo mundo sonhando, planejando mil coisas. Mas aí o ano que veio não era exatamente aquele que a gente tava contando. E tivemos que mudar nosso planejamento.
O ano de dois mil e vinte não tá moleza pra geral. Naquele momento cintilizante dos abraços, dos fogos, dos votos de feliz ano novo e do champagne, ou da Cidra, tava todo mundo sonhando, planejando mil coisas. Mas aí o ano que veio não era exatamente aquele que a gente tava contando. E tivemos que mudar nosso planejamento.
E somente mesmo uma poeta pra pegar esse nó cego e fazer poesia, e ter ainda humor pra compartilhar com a gente, versejando com esperança. O nome disso é luz no fim do túnel. Fiquem então com os versos da poeta Izabel Nascimento, mulher cordelista, inspiradíssima, que esteve com a gente celebrando o São João, com um bate-papo certeiro com Aderaldo Luciano em que se falou sobre poesia, sobre as festas juninas e os rumos do cordel nesse país machista e com tantos desafios. Confira no nosso Instagram.
Dois mil e vinte não é mole não, mas é com poesia que a gente vai enfrentá-lo, atravessá-lo de cabeça erguida para novos brindes e sonhos.
Versos de Izabel Nascimento
Planejei comprar passagem Para outro Continente Porém fiz bela viagem Visitando a minha mente Programei muitas saídas Mas me vi noutras medidas De profundo ensinamento Todo sábio é bom ouvinte O Ano Dois Mil e Vinte Mudou Meu Planejamento.
Meu limite do cartão Todo mês extrapolava Muitas coisas eu comprava Sem a menor precisão Hoje estando em reclusão Mudei o procedimento Limitei meu orçamento Pensando no mês seguinte O Ano Dois Mil e Vinte Mudou Meu Planejamento.
Meu casamento marcado Para o meio deste ano Mas na mudança de plano O noivo ficou zangado Santo Antônio deu recado Sobre o meu cancelamento Afirmou que um casamento Sem forró é grande acinte O Ano Dois Mil e Vinte Mudou Meu Planejamento.
Na ausência dos abraços Abracei a poesia E depois da Pandemia Hei de renovar os laços Fiz dos meus versos dois braços Dando e recebendo alento Pois afeto é no momento O melhor contribuinte O Ano Dois Mil e Vinte Mudou Meu Planejamento.