Hoje há quem tema seu nome. antes do escurecer recolhem as crianças e cantam canções que as resguarda da sombra erma de Salazar. uma sopa especial protege os viajantes que precisam atravessar a colina, preparada com cominho, carne de uma ave selvagem e água do riacho. o mesmo riacho que Salazar batizou. Os homens vão e muitas vezes não voltam. [Texto de Toinho Castro]
Quem teve notícias de Guilherme Salazar? quem soube de sua sombra a vagar pelos ermos do Poço da Panela quando aquilo lá era apenas uma campina exposta ao vento? Lembro bem, lembro bem de quando atravessou, impávido, o cruel atlântico para desaguar em terras de Pernambuco e adentrar o pequeno rio que parecia confirmar todas as profecias que ele, desde sua mais tenra infância, ouvira falar.
Ah, que a infância de Salazar ainda é um mistério que paira sobre a bancada dos mais renomados historiadores, tal qual a infância de Jesus. Envolvida em névoas densas que só deixam entrever o pai alcoólatra e a mãe trapezista e bilhetera de um circo que passava pela cidade… Dizem quem foi largado para as freiras, nos portais do claustro. Dizem que foi entregue às feras que rondavam a aldeia e por elas criado. Dizem, dizem, dizem… Mas na verdade pouco ou quase nada se sabe. Sabe-se das lendas antigas e profecias que ele certamente escutou e mal teve pernas para andar, seguiu.
Matou homens, honrou mulheres. roubou, desafiou, participou de duelos e contendas. Foi general de guerras, invadiu o oriente, o ocidente e dizem até que elaborou um terrível plano para invadir o centro da terra. Foi ele quem negociou a paz com os selenitas e abriu, por fim, os portões dos oceanos para o seu povo.
Sei que foi esse mesmo Guilherme Salazar que, aos trapos, esquecido pela sua tripulação e pelo resto do reino, perdido em alucinações e devaneios sem fim, navegou primeiro no riacho escuro que sangrava a terra como um fio de ariadne. Inaugurou com seus olhos essas paisagens e cenários e fincou sua bandeira rasgada, desvairada, testemunha de um ocaso há muito previsto em búzios, conchas, vidros e alumínios.
Hoje há quem tema seu nome. antes do escurecer recolhem as crianças e cantam canções que as resguarda da sombra erma de Salazar. uma sopa especial protege os viajantes que precisam atravessar a colina, preparada com cominho, carne de uma ave selvagem e água do riacho. o mesmo riacho que Salazar batizou. Os homens vão e muitas vezes não voltam. Dizem que reúnem-se a Salazar em sua clareira. cantam canções que são escutadas a milhas de distância. em noites sem lua marcham pelas ruas do Poço e aguardam a guerra… A grande guerra que Guilherme Salazar viu em seus sonhos e que começaria ali, na Estrada Real do Poço. a grande guerra que assombraria sua existência, que o levou a perder-se, a morrer e a errar sobre a mesma terra encantada e amaldiçoada onde ergueu-se esta vila, marco indeterminado de uma busca que nunca cessará
Obviamente esta é uma obra de imaginação e ficção. Qualquer coincidência não passa de coincidência.
Se não for a bomba, então será o dia seguinte
Quando olharam para o céu e perceberam que aquele ponto escuro cortando o ar era uma bomba, houve pouco tempo para procurar abrigo. Havia sinais de que tudo corria, de que tudo perseguia o fluxo. Não levou uma hora, mas também não levou um minuto. Os segundos que se seguiram após o lançamento foram inclementemente mudos. Era possível ouvir as engrenagens dos relógios de pulso. O curso do tempo, a pausa para o autoindulto, um súbito arrebatamento, transes em súcubus. [Texto de Eduardo Frota]
Do norte vem luz dourada; Deus vem em temível majestade. Jó 37:22
Quando olharam para o céu e perceberam que aquele ponto escuro cortando o ar era uma bomba, houve pouco tempo para procurar abrigo. Havia sinais de que tudo corria, de que tudo perseguia o fluxo. Não levou uma hora, mas também não levou um minuto. Os segundos que se seguiram após o lançamento foram inclementemente mudos. Era possível ouvir as engrenagens dos relógios de pulso. O curso do tempo, a pausa para o autoindulto, um súbito arrebatamento, transes em súcubus.
Porque não era o instante em que a explosão aconteceria. Era o que viria depois.
Quando a luz banhou o espaço em branco, não fez-se noite, muito menos dia. Após o brilho, a onda de choque empurrou indiscriminadamente toda a matéria que resistia. Não fez-se um sobrevivente, nem uma vítima. Porque para o curso das vidas o corpo não era o suficiente. O peso da alma não era pouco. Por isso, não era o som ou a fúria, era o que vinha depois: nem paixão, nem ira.
Depois da bomba, nada mais cabia.
Não era o que o profeta dizia, era o monólogo que vinha depois. Não era a hora em que a criança dormia, era o sonho que vinha depois. Não era o orgasmo comungado pelo casal que se unia, era o afago que vinha depois. Não era o brinde entre os amigos, era a ressaca que vinha depois.
Depois da bomba, nada mais movia.
Não era a direção que as placas apontavam, era o desvio que vinha depois. Não era o defeito nos semáforos das avenidas, era a colisão que vinha depois.
Depois da bomba, nada mais servia.
Não havia som, não havia música. Não havia mais concerto à vida. Porque não era o tempo que se levava para ouvir uma palavra, era a afonia que vinha depois.
Depois da bomba, tudo poesia.
Foto > Nuclear missiles prepared for destruction at a base near the city of Nizhny Novgorod in Russia. Vladimir Mashatin/Agence France-Presse
Um filme B
Numa sexta-feira qualquer, Lara foi trabalhar como fazia todos os dias. Um dia normal em seu trabalho desprovido de qualquer glamour. Apenas mais uma burocrata fazendo o necessário para pagar as contas, enquanto sonha com uma mudança de carreira. Quem sabe um dia criava coragem de se mudar para Nova York e abrir um brechó virtual? Pensava enquanto preenchia mais uma planilha sobre custos de papel higiênico e produtos de limpeza para uma licitação com a qual não se importava. [Texto de Tássia Veríssimo]
Numa sexta-feira qualquer, Lara foi trabalhar como fazia todos os dias. Um dia normal em seu trabalho desprovido de qualquer glamour. Apenas mais uma burocrata fazendo o necessário para pagar as contas, enquanto sonha com uma mudança de carreira. Quem sabe um dia criava coragem de se mudar para Nova York e abrir um brechó virtual? Pensava enquanto preenchia mais uma planilha sobre custos de papel higiênico e produtos de limpeza para uma licitação com a qual não se importava.
Nesse dia, porém, a repartição estava mais agitada do que de costume e não era em razão de alguma uma nova fofoca sobre quem estava dormindo com quem ou sobre a perda de cargos e funções. O tema das conversas girava em torno de uma tal doença vinda de além-mar. Lara já tinha ouvido falar dela, mas até então estava em negação, afinal parecia tão distante. E os problemas concretos tão grandes e se acumulando como poeira no canto dos móveis.
Naquele final de semana desmarcou os compromissos e ficou em casa, fingindo que era apenas por vontade de descansar e não por medo. Na segunda-feira acordou e o mundo parecia igual. Mas logo percebeu que não. Apesar de não ter sido transformada em um inseto gigante ela também estava presa em alguma espécie de universo paralelo. De uma hora para outra sentiu que foi magicamente transportada para algum tipo de filme-catástrofe de baixo orçamento, sem que tenha se inscrito para fazer a figuração em tão lamentável obra.
Precisou de um tempo para entender que na falta de verba para a maquiagem dos zumbis comedores de cérebros, havia sido escalado para supervilão um ser microscópico, desses que por não poder ser visto a olho nu causa mais pânico do que qualquer monstro com uma serra elétrica e uma máscara duvidosa. Como vencer o que não se vê? Como lidar com uma ameaça que pode estar em qualquer lugar e m qualquer um? Todos viraram vítimas e suspeitos.
Como auxiliares do vilão – afinal com uma ameaça invisível é necessário que se incluam ajudantes de carne e osso para dar mais emoção à obra – descobriu que foram convidados homens engravatados que passaram a usar os meios de comunicação para negar ou minimizar a existência do perigo invisível. Assistindo a mais um lamentável pronunciamento na televisão, Lara concluiu que na verdade os engravatados sabem bem dos riscos e apenas não se importam A sua sanha por dinheiro faz com que eles deixem qualquer Lex Luthor no chinelo. O plano deles? Ela tinha certeza que era matar vovozinhas simpáticas que fazem crochê para não perder alguns trocados na bolsa de valores.
O visual dos heróis dessa nada rica produção? Um figurino composto de roupas brancas – atemporal e barato, faz o filme parecer cult até – máscaras descartáveis, luvas de látex e potes de álcool 70%, que atualmente valem mais do que barras de ouro que valem mais do dinheiro. Nesse momento, Lara pensou que a piada ruim só quem cresceu assistindo Silvio Santos na televisão de tubo da sala da avó iria entender e deu um sorriso ao lembrar das tardes de domingo no subúrbio.
Mas, voltemos ao filme.
Nessa grande aventura épica do cinema B o desafio de nossa heroína é fazer compras sem voltar contaminada. Descer as escadas do prédio – melhor evitar elevadores – merece a trilha sonora de Psicose tocando no celular. Comprar papel higiênico – o novo fetiche da classe média brasileira – se tornou uma odisseia que envolve o uso de vestimenta de guerra, distância de ummetroemeio de qualquer possível hospedeiro e rapidez. Isso tudo sem coçar os olhos, nariz ou boca. A volta à base requer uma rotina de banho, lavagem de roupas e desinfecção de produtos com detergente que deixaria qualquer germofóbico com tendências a orgasmos múltiplos.
Enquanto limpa o pacote de biscoito com o mesmo cuidado que se tem ao dar banho num bebê de seis meses, Lara, que é apenas uma pessoa qualquer que está presa nessa aventura com outros bilhões de não-atores, pensa no dia de hoje e de amanhã. Incertezas sobre o dinheiro das contas. Medo da morte. Saudades dos amigos. Total descrença na viabilidade da educação a distância no meio de uma pandemia. Ódio do patrão cobrando disponibilidade 24 horas. Vontade de jogar alguém pela janela. Vontade de se jogar da janela. Mas lembra que o hospital está lotado e não pode.
Larga o pacote de biscoitos, Lara abre a garrafa de cerveja – porque sem cachaça ninguém segura esse rojão – e senta no sofá com a pior culpa de todas. A culpa por não estar aprendendo japonês enquanto faz crossfit e cozinha pratos dignos de um restaurante com estrelas Michelin, tendo como pano de fundo a mais nova live de dupla sertaneja do momento.
Derrotada pelas próprias angústias, pega o celular, faz uma vídeo-chamada para a mãe, abraça o cachorro, chora. Os filmes de terror não costumam dar espaço para a elaboração dos sentimentos. Mas nessa obra há o tempo da elaboração. Muitos minutos dos espectadores assistindo o choro e chorando junto na Netflix porque cinema não pode mais. Uma catarse necessária. Estamos com medo. E tudo bem. Talvez Cannes se interesse.
Fim de Junho
No dia seguinte podíamos ver na frente de casa a fogueira reduzida às cinzas e brasas esparsas, ainda acesas à luz da manhã. A cinza das horas, talvez. Da noite anterior o cheiro do milho persiste, mais na memória que no ar, ou na língua. O último dia de Junho ia assim se esvaindo, como as próprias fogueiras que ao longo do mês enfeitaram a rua e aqueceram histórias e conversas. [Texto de Toinho Castro]
Eu sei que é junho, o doido e gris seteiro Com seu capuz escuro e bolorento — Geraldo Valença
No dia seguinte podíamos ver na frente de casa a fogueira reduzida às cinzas e brasas esparsas, ainda acesas à luz da manhã. A cinza das horas, talvez. Da noite anterior o cheiro do milho persiste, mais na memória que no ar, ou na língua. O último dia de Junho ia assim se esvaindo, como as próprias fogueiras que ao longo do mês enfeitaram a rua e aqueceram histórias e conversas. Lembro de, menino, ficar observando o crepitar da lenha, a incontinência meio selvagem do fogo e as fagulhas, ao revirar-se as brasas para assar o milho, a subir no ar quente, como mínimos balões, traçando caminhos randômicos até cessarem, desaparecerem, como quase tudo, ou tudo, diria minha mãe, desaparece. Fim de junho, fim de um mês inteiro de ansiedade pelas noites frias e estampidos da bombas e rojões reservados aos adultos, ou aos jovens afoitos.
Recordo uma noite em que rodávamos, eu e uns amigos, de carro pelo Recife, noite de Junho claro. Éramos já universitários, indo de um bar para outro, na zona norte da cidade, e percebíamos, sem comentar uns com os outros, uma neblina fina que cobria tudo. Seguíamos em silêncio mas algo pedia para ser dito, então um de nós, não lembro quem, falou: É São João. Até hoje não sei se ele se referia à época em que estávamos ou se mesmo ao santo, que naquela neblina se manifestava entre nós. Era pois a fumaça das fogueiras, que ali por onde passávamos não víamos sinal delas. Apenas a fumaça fina, como uma friagem a emoldurar a noite. Talvez a fumaça de fogueiras pretéritas, há muito apagas, como um espírito, um ectoplasma . E nos era dado ver porque havíamos bebido, porque estávamos em silêncio e possivelmente sem rumo. Era São João… murmuro ainda hoje.
Lá vem Julho. São Pedro, o último da trindade junina a se manifestar, já cerrou as portas do seu dia, e colocou a chave na gaveta, ao lado da cama em que dorme São João. Santo Antonio, debruçado na janela, olha para o céu uma última vez antes de fechá-la. Julho acompanha Junho, sobre o tapete das brasas adormecidas, até o sorvedouro onde, por fim, o fio do seu último dia escoará. Silêncio na rua Pampulha, silêncio na Imbiribeira. Todos dormem enquanto Junho se vai. Todos em suas casas, em suas camas, como São João. Todos dormindo, profundamente.
Orgulho Gay
Olá, meus caros kurumateiros!
Hoje é segunda, e ontem foi o dia do assim resumido “orgulho gay”. Resumido, eu disse.
Resumido porém não encolhido. Na verdade estou aqui na ressaca pandêmica e isolada de tanto festejo, em casa, pelo marco da luta desse grupo vasto, oprimido, assassinado como em nenhum outro país do planeta, vilipendiado da roda do poder econômico, visto ainda como uma gente marginal, alijada de oportunidades das mais diversas [Texto de Eduardo Maciel]
Olá, meus caros kurumateiros! Hoje é segunda, e ontem foi o dia do assim resumido “orgulho gay”. Resumido, eu disse. Resumido porém não encolhido. Na verdade estou aqui na ressaca pandêmica e isolada de tanto festejo, em casa, pelo marco da luta desse grupo vasto, oprimido, assassinado como em nenhum outro país do planeta, vilipendiado da roda do poder econômico, visto ainda como uma gente marginal, alijada de oportunidades das mais diversas, dentre as quais destaco a oportunidade (que na realidade deveria ser um direito inalienável) de serem quem são, sem nenhum tipo de censura ou inferioridade. Luta desse grupo. No qual me insiro, com orgulho. Sou casado com um homem que amo, tenho uma linda família com ele e seus dois filhos que só me devolvem amor. E nesse clima, gostaria de trazer a memória desse movimento, e espero que empatizem com o relato. Em 28/06/1969, nos Estados Unidos, pessoas ligadas ao movimento LGBTQAIP+ enfrentaram a opressão policial contra os direitos inalienáveis desse grupo. Esse evento foi o marco histórico do movimento organizado. No Brasil, o movimento começou a se organizar em 1977, por incentivo do advogado João Antônio Mascarenhas, radicado no Rio de Janeiro. A pauta da luta LGBTQAIP+ orbita em torno das seguintes demandas:
– Apresentação de projetos de lei que punam a discriminação; – Não permitir que pessoas jurídicas ou físicas, que tenham algum registro de discriminação, participem de licitações públicas; – Apoio à apuração e punição efetiva para atos discriminatórios – Criação, revitalização e fortalecimento de órgãos defensores dos direitos LGBTQAIP+; – Respeito às diferentes orientações sexuais como pauta em escolas formadoras de policiais; – Criação de diversos canais de denúncia para crimes discriminatórios; – Engajamento da sociedade na luta pelos direitos LGBTQAIP+; – Facilitação de acesso a procedimentos médicos de redesignação de gênero; – Inserção, no currículo escolar obrigatório, da pauta antidiscriminatória; – Incentivo a eventos socioculturais de empoderamento LGBTQAIP+; – Criação de programas específicos de saúde voltados para esse público; e – Implantação de políticas públicas que garantam, para esse grupo, acesso a emprego e renda.
Particularmente, defendo todas essas demandas, por entender que o direito à cidadania deve ser irrestrito. A luta LGBTQAIP+ é uma luta minha. Da minha família, dos meus amigos. Mas deveria ser também uma luta sua, de cada um de vocês, que se identifiquem ou não com cada uma dessas letras na sopinha de letras que tenta nos agrupar e com isso nos fortalecer. Fica aqui um abraço a todos vocês, a todos nós, que lutamos contra preconceitos de toda natureza! Inté!
Gilberto Passos Gil Moreira
Hoje é aniversário de Gilberto Gil, esse artista central na nossa cultura, central na nossa vida porque é a conexão de tantos caminhos, de tantas linhagens e vozes. A generosidade do seu talento luminoso é um abre-alas… fico aqui pensando em tantas portas que Gil abriu pra gente, das tantas direções para onde sua voz apontou e para onde seguimos sem medo, com fé! A música negra e universal de Gil está cravada em nossos corações, e por isso resistimos e marcamos essa linha divisória, que separa a vida de todo o resto que é contra ela. [Texto e poema de Toinho Castro]
Hoje é aniversário de Gilberto Gil, esse artista central na nossa cultura, central na nossa vida porque é a conexão de tantos caminhos, de tantas linhagens e vozes. A generosidade do seu talento luminoso é um abre-alas… fico aqui pensando em tantas portas que Gil abriu pra gente, das tantas direções para onde sua voz apontou e para onde seguimos sem medo, com fé! A música negra e universal de Gil está cravada em nossos corações, e por isso resistimos e marcamos essa linha divisória, que separa a vida de todo o resto que é contra ela. Gil é nosso marco afirmativo. A canção cantada por nós, mirando o amanhecer.
Há tempos escrevi para ele esse poema, que já circulava nas redes sociais e que de tempos em tempos recupero para pontuar a grandeza desse artista. Hoje o oficializo aqui na Kuruma’tá, como poema dedicado a quem comungar com essa fé.
Gilberto Passos Gil Moreira esse nome que é um verso quase uma poesia inteira outro dia ouvi você cantar aquela canção da menina baiana num velho disco de vinil que ressoou na minha caixa craniana me convidando pra dançar deixando-me febril
e lá fui eu para lá para além do ano 2000 e não me contive de alegria por sua música profunda que a tudo alumia e inunda não me contive onde eu estava em quem eu sou e saí pela rua a todo vapor e pensei em você menino baiano de salvador pisando as pedras do calçamento sujeito ao encantamento da Bahia e da Nação para fazer da própria música o pão para reparti-la com os irmãos
escuto aquela canção da menina baiana do menino negro de salvador atomizado na raiz do cabelo no dna de raiz africana na raiz da macaxeira menino que se chama um verso — Gilberto Passos Gil Moreira
corre, menino corre que amanhã é dia de luta corre que amanhã é dia de feira
Obrigado, Gil. Você foi um dos meus professores de poesia.
Um filtro de barro dentro de casa
Quando deu-se a pandemia e na sequência a quarentena no Rio de Janeiro, resolvi por em prática um ideia que há tempo vinha alentando: Comprar um filtro de barro. Sem saber do que viria pela frente e já de olho no colapso dos sistemas, pensei logo que poderíamos ter dificuldade de comprar água mineral. Como vínhamos de uma crise hídrica, por conta da contaminação do principal sistema de abastecimento do estado do Rio, beber água mineral tornou-se uma rotina, mesmo depois que o problema sentiu-se resolvido. [Texto de Toinho Castro]
Quando deu-se a pandemia e na sequência a quarentena no Rio de Janeiro, resolvi por em prática um ideia que há tempo vinha alentando: Comprar um filtro de barro. Sem saber do que viria pela frente e já de olho no colapso dos sistemas, pensei logo que poderíamos ter dificuldade de comprar água mineral. Como vínhamos de uma crise hídrica, por conta da contaminação do principal sistema de abastecimento do estado do Rio, beber água mineral tornou-se uma rotina, mesmo depois que o problema sentiu-se resolvido. O filtro de barro seria a garantia de ter água para beber enquanto cumpríssimos os ditames do isolamento e distanciamento social, que estava já a pautar nosso cotidiano.
Comprar um filtro de barro é trazer uma pessoa pra dentro de casa. O bicho não é plug & play. Tem um processo, uma adaptação à nova vida que ele vai levar fora da lojinha em que dormia até ser resgatado. Antes de poder beber a água que ele verte, é preciso filtrar uns bons litros da mesma até que se vá certo gosto que a enfeita, por demais desagradável. Diz o folheto da vela (ou como se lê, o elemento filtrante), que deve-se filtrar uns 30 litros de água antes que esteja adequada para o consumo. Aí começa a relação com essa criatura que é o filtro de barro. Primeiro a gente ferve a água da torneira que vai abastecê-lo. Então deixamos que ela esfrie naturalmente para que seja derramada na entranhas do filtro, como uma pequena cascata cristalina. O som que isso faz já é lindo, da água caindo no oco da parte superior do filtro, que se ocupa desse volume que ainda será filtrado. Depois de tampada a abertura, imagino o silêncio naquele interior escuro, como de remotas cavernas, ou poços nos ermos do sertão.
E aí temos que dar conta da filtragem desses desses primeiros litros até que um primeiro copo de água pode ser experimentado, uma água como que depurada, maturada, que não é simplesmente obtida, mas extraída das virtudes da lentidão. Esse primeiro copo sela a comunhão da família com o filtro, que agora sim, convertido na sua utilidade mágica elege-se como um novo membro, a partilhar do aconchego que é uma casa.
Uma coisa boa do filtro de barro? Suas paredes frias. Você encosta a mão no filtro e sente a friagem do barro, como se acumulasse noites. A textura do material, a lisura que se deu àquele elemento extraído do chão rude. Quando olho para o filtro de barro, lembro das barreiras que a estrada cortava no caminho entre o Recife e Natal, caminho de minha infância. Recordo que de certa feita o ônibus da Viação Nápoles quebrou bem junto a uma dessas barreiras. Nas longas horas em que esperávamos a chegada de um novo ônibus para nos levar ao destino, aproveitei para gravar ali no paredão de barro o meu nome, mesmo sabendo que seria lavado pelas chuvas. Olho para o filtro, penso no seu dentro e me vem esse nome inscrito simbolicamente em seu interior; irmanados que somos então.
filtro de barro que de sua posição de lótus me observa que dentro de si reserva a água que mata minha sede
filtro de barro que no silêncio só se escuta o gota a gota do teu pulso que nem balanço de rede
Outra coisa boa do filtro de barro, além da água que nos provê, naturalmente, é esse pingo que se escuta de dentro dele. Noite dessas, já tarde, passei por ele e escutei aquele gotejar, esparso mas recorrente, compassado. Uma música mínima, que pontua sua existência e compromisso com o resto da família. Quando o pingo cai e encontra a água, já filtrada, que repousa no compartimento inferior do filtro (inferior na posição física que ocupa no filtro, mas superior na missão de conter e dar saída à água de beber), escutamos aquele som que é como séculos, como o som da primeira gota que caiu numa porção de água. Tem um eco e um oco que invade ouvido, adentra o juízo de um jeito que você até escuta uma voz remota chamando: menino, vem beber água!
Isso é um filtro de barro dentro de casa. Outro dia, enchendo uma garrafa, a água já minguava em sua torneira quando o inclinei, para que mais água, que eu sabia dentro dele, pudesse sair e completar minha tarefa de encher a garrafa. Que gesto de tantas gerações, que me veio tão naturalmente, como respirar. Lembrei de um texto de Julio Cortázar, no seu O jogo da amarelinha:
Penso nos gestos esquecidos, nos muitos salamaleques e palavras dos nossos avós, pouco a pouco perdidos, não herdados, caídos um atrás do outro da árvore do tempo. Esta noite encontrei uma vela sobre a mesa e, para brincar, acendi-a e andei com ela pelo corredor. O ar causado pelo movimento ia apagá-la e, então, vi levantar-se sozinha a minha mão esquerda, abrigando e protegendo a chama como uma cortina viva que afastava o ar. Enquanto o fogo se endireitava, outra vez alerta, pensei que esse gesto fora o gesto de todos nós durante milhares de anos, durante a Idade do Fogo, até que a trocaram pela luz elétrica.
Olhamos para ele e sei quele nos olha, concentrado que está no chamado ao qual atende, um sistema fechado, autorregulado, que só precisa que você o abasteça. Como uma ostra secreta, assaltada por um grão de areia, vai gerando suas pérolas límpidas, que nos oferece com silenciosa generosidade. Espírito antigo, como os gatos, é um elemental da casa, uma presença ancestral e carregada de história. Beber água do filtro de barro é beber água como minha mãe e meu pai, como meus avós, beber como se fosse de um riacho secular, infiltrado na nossa cozinha, o riacho subterrâneo que o professor Lidenbrock usou de guia na sua viagem ao centro da terra, o Hans Bach. Água lenta, como lento deve ser o mundo, a verter-se dentro de si.
Junho
Na memória afetiva, Junho começa em março com a procissão de São José. No sertão baiano, os católicos cantavam rimas ao Santo carpinteiro, pedindo chuva para irrigar as sementes de milho. Em Junho, com a colheita farta, as rezas e canções são para o trio católico e tão nordestino: Antônio, João Batista e Pedro. Junho é meu avô acendendo a fogueira e minha avó ofertando a mesa farta. Desde menino, eu sempre olho para o céu nesse mês tão glorioso. [Texto e poema de Márcio Fabiano]
Na memória afetiva, Junho começa em março com a procissão de São José. No sertão baiano, os católicos cantavam rimas ao Santo carpinteiro, pedindo chuva para irrigar as sementes de milho. Em Junho, com a colheita farta, as rezas e canções são para o trio católico e tão nordestino: Antônio, João Batista e Pedro. Junho é meu avô acendendo a fogueira e minha avó ofertando a mesa farta. Desde menino, eu sempre olho para o céu nesse mês tão glorioso.
Foto de Toinho Castro
Junho
Estouros no meu coração Olhos de mil cores Bandeiras trêmulas Ventos sopram dores
Olha o fogo menino- grita a senhora.
Junho
Lembranças na brasa ardente Cinzas no meu pulso Fé e fumaça O menino pirraça A velha acha graça
Junho
O velho acende a fogueira João está dormindo A comida está na mesa João está pedindo Os meninos fazem festa João está dormindo O balão está no céu João está subindo Para ver o menino Jesus, que em seus braços de luz, abençoa o Santo, o menino e a festa.
Sérgio Ricardo em 3 histórias
Hoje é aniversário de um dos grandes nomes da cultura brasileira. Artista completo, pleno, Sérgio Ricardo transita pela música, artes plásticas, cinema, poesia, com uma obra vasta e riquíssima. É um artista sem medo, que vem traduzindo o Brasil para quem quer entender desde que me entendo de gente, de brasileiro. São 88 anos de vida e uma obra de resistência… [Texto de Toinho Castro]
Hoje é aniversário de um dos grandes nomes da cultura brasileira. Artista completo, pleno, Sérgio Ricardo transita pela música, artes plásticas, cinema, poesia, com uma obra vasta e riquíssima. É um artista sem medo, que vem traduzindo o Brasil para quem quer entender desde que me entendo de gente, de brasileiro. São 88 anos de vida e uma obra de resistência, que vai se desenhando desde os anos 1950, passando pela febre dos festivais, atravessando a ditadura, compondo trilhas, fazendo filmes e desafiando o Brasil sem ceder aos modismos e bons-mocismos. Seu nome está inscrito em verdadeiras pedras monumentais como Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, filme para o qual criou uma trilha tão poderosa e marcante quanto o próprio filme. Por conta do teor de suas letras e mesmo da sonoridade de seu cancioneiro, podemos facilmente de imaginá-lo como cantor de protesto… a repercussão de discos como o que gravou em 1973, que traz Calabouço, pode nos enganar. Mas não, não se engane, que Sérgio Ricardo é mais amplo que um rótulo. Sua música é valente, é uma música que vem do povo, da força das tradições musicais, e aponta continuamente para o futuro. É um Brasil adentro danado!
Para entrar nessa celebração de vida e obra mágicas de Sérgio Ricardo para falar um pouco de como alguém assim se conecta com a vida da gente, com nossa história familiar e afetividade, como molda nosso imaginário e gostos e escreve linhas de fogo na nossa história.
Primeira história
Quando eu era criança, contei isso para Marina, sua filha, eu tinha medo de Sérgio Ricardo. Sua imagem em preto e branco, com o violão em punho, aquele violão prestes a se arrebentar contra a mesmice, carregado de tensão, tensão do artista em crianção! Era uma imagem que assustava uma criança que crescia prestando atenção ao mundo. Mas quando eu escutei Calabouço foi que se deu aquele sentimento de profundeza e escuridão, que eu sabia que atormentava o país. Meus país era muito politizados e eu já tinha essa percepção da dor que se instalava, mesmo sem entendê-la completamente, sem entender a dimensão daquela violência que passávamos. Calabouço me transmitiu exatamente o que era aqui. Eu escutava aquela sua voz densa, intensa, como uma verdade se instalando.
Cala a boca, moço!
Eu ouvia as conversas e ia juntando as pontas sob a guia daquela canção, para saber do Brasil. Eu era criança e não daria conta de tanta coisa, mas Calabouço me alertou, me despertou e despertar assim assusta a gente. Olha o vazio nas almas / Olha um violeiro de alma vazia. Recentemente comprei o disco em vinil, botei pra rodar na vitrolinha e entre ruído talhado nos sulcos, pelos 47 anos que se passaram desde seu lançamento, recuperei aquela sensação de poder de uma voz, de como uma canção pode ser determinante no nosso aprendizado e identidade com uma nação. Cidadania que chama, né?
Segunda história
Ainda moleque, ligado na TV pra assistir o Sítio do Picapau Amarelo, série da Globo baseada na obra de Monteiro Lobato, eu reencontro Sérgio Ricardo, meio sem saber direito. Os livros de Lobato mesmo, até então, eu nunca havia lido. Minha aventura literária era a coleção Vagalume, os livros de Maria José Dupré, Lúcia Machado de Almeida… mas ali na telinha luminosa da TV da sala reinava o Sítio e as invenções de Narizinho, Pedrinho, Emília e do Visconde de Sabugosa. E o que nos carregava naquelas histórias aventurosas era uma trilha sonora linda, caprichadíssima, realizada pela nata da música brasileira. Depois de grande é que a gente vê a constelação que tinha ali, reunindo nomes como Dorival Caymmi, Doces Bárbaros, Gilberto Gil, João Bosco… e Sérgio Ricardo, interpretando, de sua autoria, a música de Emília.
De novo a visitação da poesia. Acho que foi uma das primeiras vezes em que a ideia de poesia se instalou na minha cabeça. Essa coisa da imagem poética. Talvez eu pudesse dizer isso de qualquer música daquela trilha. Todas erguiam o véu para um outro modo de ler o mundo. Mas em Emília tem uns versos que até hoje atiçam minha própria inspiração e imaginação.
Por mais que o sol se esconde Cruzes se cravem no raiar do dia
São versos em que vejo a criatividade plástica de Sérgio Ricardo. Mas naqueles dias, com meus dez ou 11 anos, eu projetava em minha imaginação esse sol se pondo, essas cruzes cravadas num raiar de dia. Eu não sei se entendia muito bem esses versos; e acho que talvez ainda não entenda e muito possivelmente isso não importa. Importa a força dessa imagem na mente de uma criança, impulsionando o desejo de ser também poeta e escrever coisas que os outros não entendam.
Terceira história
Poucos anos atrás, Kleber Mendonça Filho, diretor, ao lado de Juliano Dornelles, desse filme incrível que é Bacurau, me enviou o roteiro do mesmo, para que eu desse lesse. Eu e Kleber somos amigos desde os tempos de faculdade e tenho a alegria de acompanhar de perto sua carreira, desde os primeiros filmes. Sempre trocamos ideia e não foi diferente com Bacurau. Algum tempo depois de ler o roteiro e comprei aqui no centro do Rio, um vinil do Sérgio Ricardo, uma coletânea daquela coleção Nova história da Música Popular Brasileira, da Abril Cultural, de 1978. São discos que eram lançados em série, acompanhados de fascículo com história de vida e obra do artistas contemplados em cada volume. Ouvindo o do Sérgio Ricardo, esbarrei em Bichos da Noite, música originalmente escrita para a peça O Coronel De Macambira, do poeta pernambucano Joaquim Cardozo.
Escutei aquele rito, aquela passagem sombria, e pensei imediatamente no roteiro, que ainda não era filme. Havia ali aquela carga que parecia aflorar do arruado de Bacurau. Achei a música no YouTube e mandei pra Kleber naquele dia mesmo. Algum tempo passou, mais de ano, certamente, e não tive notícias daquele e-mail. Até que então encontramos, eu e Kleber, aqui no Rio de Janeiro e fomos jantar. Ao perguntar pela música, se ele havia recebido, ele avexou-se em responder “Nossa, Toinho! A música tá no filme! Mexeu demais com o filme…”. Imagine minha alegria por ter dado esse verso, que não é meu, ao poema que é Bacurau! Ter estendidos as mão e feito essa conexão me comove. Quando assisti, finalmente, ao filme no Cine Odeon, na Cinelândia, e aquela voz que conheço desde Calabouço soou desde dentro da tela, da terra, do sertão nordestino, do povo daquele vilarejo…. que emoção. Foi um reencontro com alguém que nunca encontrei, mas que me acompanhou vida afora, com suas lições de poesia e cidadania, no sentido de reconhecer, pela música, um pertencimento e uma responsabilidade.
Parabéns, Sérgio Ricardo. E obrigado por tudo que não esquecerei.
Desvirado pra lua
Eu não, já me acostumei. A mãe sempre diz que nasci “desvirado pra lua”. Sei não. Desde a ocupação que teve lá na escola, tem uns colegas falando umas coisas diferentes, políticas, umas palavras difíceis, ainda não consigo entender tudo, mas fazem mais sentido do que as palavras da mãe. As pessoas acham que na perifa só tem analfabeto ou burro. É que só estudar não garante nada, não.
“Sei que não pode sair, tio”, eu disse. Que homem chato, aquele de máscara, e nem pra comprar uma bala! Vi duas garotas saindo de um carro, do outro lado da rua, com quentinhas e garrafas de água. Atravessei, me livrando do mascarado e doido pra descolar um rango. Mas já tinha endereço e quantidade certos: uma família que “morava” num canto de calçada.
Elas já vinham lá de cima e estavam indo direto na população de rua. “Eu também não tenho casa, não”, disse. Não dava pra perceber, estava de tênis, blusa e bermuda mais ou menos limpas. Não era muito verdade, e também não era mentira. Tenho casa, mas não posso voltar desde ontem, me meti quando meu padrasto batia na minha mãe. Acabei apanhando também e sendo expulso. Só deu tempo de pegar umas roupas e enfiar na mochila.
O que a mãe podia fazer? Não deu em nada ir à polícia ano passado, só deixou o cara com mais raiva. Falei pra ela de umas pessoas que ajudavam mulheres assim, mas ela estava sem coragem. Quando meu padrasto soubesse, e ele ia saber, ficaria pior. Coragem ela queria pra matar o desgraçado, que nem uma amiga, que depois se mandou pra bem longe.
“Amanhã a gente vem de novo, tá bom?” Fiz que sim com a cabeça, pensando “mais um dia sem comer não mata. Se eu não morrer antes desse troço aí que geral tá falando”. Devo ter pensado alto, elas ficaram tristes.
Eu não, já me acostumei. A mãe sempre diz que nasci “desvirado pra lua”. Sei não. Desde a ocupação que teve lá na escola, tem uns colegas falando umas coisas diferentes, políticas, umas palavras difíceis, ainda não consigo entender tudo, mas fazem mais sentido do que as palavras da mãe. As pessoas acham que na perifa só tem analfabeto ou burro. É que só estudar não garante nada, não. Não tem espaço pra todo mundo, ainda mais pra gente. A gente tem que se esforçar muito mais pra conseguir qualquer coisa.
Agora só espero arrumar algum até o fim do dia. Dinheiro, rango, carinho. Sei que tá mais difícil, as ruas mais vazias, lojas e bares fechados, restaurante não tá podendo doar, pra não juntar muita gente. Quem sabe pelo menos não descolo umas máscaras divertidas?
Como será que tá a mãe? Quando eu for maior, vou livrar a gente daquele cara. Se der pra resolver na boa, no correto, melhor. Mas se for necessário, terá de ser… Como é mesmo que os colegas falam? Autodefesa. Preciso ficar mais velho e mais forte, me organizar. Torcer pra dar tempo. Se eu sobreviver a esse troço aí que geral tá falando, um dia salvo a minha mãe.