A quarentena impõe um universo mínimo, feito de sinais do mundo exterior, mas mediado por uma interioridade que se vai descobrindo, percebendo. A quarentena é essa explosão pra dentro, que nos espreme e nos implode para um centro comum. E o horizonte de eventos que se contempla, só mesmo a poesia para traduzir.
A quarentena impõe um universo mínimo, feito de sinais do mundo exterior, mas mediado por uma interioridade que se vai descobrindo, percebendo. A quarentena é essa explosão pra dentro, que nos espreme e nos implode para um centro comum. E o horizonte de eventos que se contempla, só mesmo a poesia para traduzir.
do universo diz-se que expandirá lentamente para finalmente contrair-se ao ponto zero de um big bang novamente
parece pois que expandiu-se mundo além e também contraiu-se até minha soleira devorando a rua inteira
o que se sabe é que dessa porta não se passa A vista se esgarça ao olhar-se da janela e o que se vê é dentro de si a ardente sarça
neste mundo contraído que se impõe, flui o tempo muito lento resume-se aquilo que somos tudo que temos ao que temos e somos
aqui dentro
Poemas na quarentena – Tássia Veríssimo
Numa segunda-feira de tempo nublado, nesse outono no Rio de Janeiro, a poesia é uma iluminação muito bem-vinda. Em sua segunda colaboração com a Revista Kuruma’tá, Tássia Veríssimo nos traz esses versos sobre esse estar em casa tão diferente de uma quarentena, por conta de uma pandemia, vendo o mundo pelas janelas digitais dos aplicativos. As vidas 4K a desfilar na timeline. E a gente? [Poemas de Tássia Veríssimo]
Numa segunda-feira de tempo nublado, nesse outono no Rio de Janeiro, a poesia é uma iluminação muito bem-vinda. Em sua segunda colaboração com a Revista Kuruma’tá, Tássia Veríssimo nos traz esses versos sobre esse estar em casa tão diferente de uma quarentena, por conta de uma pandemia, vendo o mundo pelas janelas digitais dos aplicativos. As vidas 4K a desfilar na timeline. E a gente?
Resolveu que precisava de plantas pela casa Aquelas pessoas felizes, em suas casas felizes Que compartilhavam tudo nas telas Elas tinham filhos perfeitos, artísticos, poetas, músicos Acho que conseguiriam até construir um prédio de dez andares Tudo isso aos três anos e meio de idade Em suas salas perfeitas De suas vidas perfeitas Sem medos nem ansiedades Aquelas pessoas perfeitas, com filhos perfeitos Tinham samambaias e cactos Mas cactos grandes. Aqueles pequenos saíram de moda Talvez se ela, que não tinha filhos perfeitos Que só tinha uma cachorra que nem sabia o truque de deitar e rolar Comprasse uma samambaia Quem sabe seria perfeita Como a foto editada de um celular.
Pandemia II
O café da manhã posto na mesa da sala que faz as vezes de escritório A janela aberta, persianas levantadas em busca de um pouco de ar O mesmo cenário Janelas retangulares num edifício retangular Bege como a vida em isolamento como o desencanto com um país que não é e não sendo nos desampara Bege Bege Bege Com a imaginação que me resta e a sanidade que me falta pinto cada andar de uma cor Na reclusão autoimposta crio um arco-íris.
arte de toinho castro
Sonhei que acordava
Já com a manhã avançada eu andava pela casa. Morávamos, eu, Raquel e os gatos, num apartamento amplo, num velho prédio. Velho mesmo. Janelas de madeira, abertas, por onde entrava o sol matinal de um inverno. O prédio tinha quatro grandes apartamentos com piso de madeira, um piso antigo, descuidado. Móveis antigos, esparsos pela casa. E gatos. Muitos gatos circulando por ali. De repente me dei conta que não havia telas nas janelas e as portas, todas as portas estavam abertas. [Texto de Toinho Castro]
Eu sonhei que acordava. Ou melhor, que era acordado por alguém. Abria os olhos e lá estava à minha frente o rosto desconhecido de uma moça, que sorriu pra mim e falou: Lembra de mim? E não, eu não lembrava. Disse-lhe, sem faltar com a verdade, que estava sem óculos e que não a enxergava direito. Ela afastou-se para fazer algo e pude colocar os óculos e olhá-la novamente. Não, eu não lembrava dela. Ela me olhou sorrindo, sempre sorrindo, como quem está diante de uma criança confusa, e disse-me seu nome. Não, eu não ainda a reconhecia mas menti e disse que sim, disse que lembrava dela; talvez pra ter tempo de entender melhor o que estava acontecendo. Aos poucos percebi que era uma amiga de Raquel e que estava ali por algum motivo que o sonho não me contou; estava arrumando umas roupas, umas gavetas, quando Raquel chegou e as duas ficaram conversando. Em seguida saíram juntas para cuidar de algo que eu não sabia o que era. Estavam animadas como se fosse a manhã de um grande dia. Talvez fosse.
Já com a manhã avançada eu andava pela casa. Morávamos, eu, Raquel e os gatos, num apartamento amplo, num velho prédio. Velho mesmo. Janelas de madeira, abertas, por onde entrava o sol matinal de um inverno. O prédio tinha quatro grandes apartamentos com piso de madeira, um piso antigo, descuidado. Móveis antigos, esparsos pela casa. E gatos. Muitos gatos circulando por ali. De repente me dei conta que não havia telas nas janelas e que as portas, todas as portas, estavam abertas. Preocupei-me com nossos gatos, uma preocupação que não poderia existir no Eu do sonho; era uma preocupação que vinha de fora, do Eu que, quando acordado, morava num apartamento no terceiro andar. Preocupei-me, enfim, dos gatos terem acesso livre à rua. Procurei por eles e não os encontrei de imediato, até que vi Tesla, a pretinha, passando furtiva, como sempre. Olhei para a rua pela janela, o sol do inverno no meu rosto, e vi os outros gatos atravessando a rua e subindo em muros, passeando pelo mato baixo que se espalhava por ali. Algo naquilo tudo fazia sentido e acalmou minhas preocupações.
A cozinha era enorme, de piso de cimento, mas tingido com aquele pigmento vermelho. Ficava num plano mais baixo que o resto do apartamento e dava para um grande quintal, porque nosso apartamento era térreo. Todo o terreno em volta do prédio era de terra, irregular, com um jardim aleatório, árvores de diversos tamanhos. Olhando aquele quintal, como que pela primeira vez, eu pensei que era ótimo para reunir os amigos. De repente Naymme e André, amigos no mundo fora desse sonho, apareceram, vindos do apartamento ao lado. Vinham nos visitar e éramos vizinhos. Pareciam alegres e começamos uma conversa que não recordo o teor. Havia a cordialidade que não me seria estranha e confirmava que era ali que morávamos, que éramos aquelas pessoas e tínhamos um quintal enorme.
A moça que me acordou não apareceu mais. Raquel estava na cozinha comigo e parecia preparar algo, algum prato, café da manhã, talvez.
Acordei, e já não era mais o sonho. Já não era mais Recife. Manhã de inverno em Vila Isabel, subúrbio do Rio de Janeiro. Astronauta, nosso outro gato, acordou também e foi até a cozinha, pedindo comida. Não havia quintal, somente o sol de inverno entrando pela janela e banhando Tesla, nossa gatinha preta.
Poemas na quarentena – Wesley Almeida Paiva
Que a gente faça uma revista como a Kuruma’tá já nos anima, mas ver as pessoas enviando coisas pra gente publicar, isso nos ilumina! Ainda mais… ainda mais quando é poesia. Poesia é sempre bem-vinda e a Revista Kuruma’tá é uma casa de poesia, de poética e poetas. Sejam sempre bem-vindos. O querido Wesley Almeida Paiva enviou esse poema há tempos, e já devia tá achando que não apareceria nessas páginas. Mas o tempo de tudo chega e eis o poema dele publicado aqui com a gente. [Poema de Wesley Almeida Paiva]
Que a gente faça uma revista como a Kuruma’tá já nos anima, mas ver as pessoas enviando coisas pra gente publicar, isso nos ilumina! Ainda mais… ainda mais quando é poesia. Poesia é sempre bem-vinda e a Revista Kuruma’tá é uma casa de poesia, de poética e poetas. Sejam sempre bem-vindos. O querido Wesley Almeida Paiva enviou esse poema há tempos, e já devia tá achando que não apareceria nessas páginas. Mas o tempo de tudo chega e eis o poema dele publicado aqui com a gente. Potiguar da cidade de Alexandria (que nome belo, evocativo, de cidade…) Wesley é um seguidor fiel da Kuruma’tá e aqui ele desvela seu talento para o verso em meio à quarentena.
Vem de longe o silêncio das ruas – um silêncio estranho, forçado –, que adentra o meu quarto e chacoalha os meus ossos como um ruído que só a mim perturba.
(Eu que sempre apreciei a quietude dos campos, reviro-me e não encontro sossego nessa pseudocalma.)
Desço da cama; esfrego os olhos. Lá fora tudo parece tranquilo, menos aqui dentro. Ligo a TV. Desligo. As notícias não ajudam.
Retorno e deito; rogo pelo sono. Enquanto ele não chega, reflito. Talvez eu não seja esse ser tão recluso quanto supunha.
Já é madrugada. Meio sonolento faço o meu último pedido: — Que amanhã seja acordado pelo barulho, por todos os barulhos que incomodaram minha vida pré-Quarentena.
Arte de Toinho Castro sobre fotos da pxhere.com
Baú do Braulio: Adivinhações juninas
O São João nordestino é cheio de tradições que nós conhecemos “desde a mais tenra infância” e nos acostumamos a considerar nossas, tipicamente nossas, afetivamente nossas.
O que esquecemos às vezes é que essas tradições, por mais que deixem uma marca na nossa memória afetiva (na minha deixaram muitas, e profundas) não são pessoais, são coletivas. E vêm de longe. [Texto de Braulio Tavares]
O São João nordestino é cheio de tradições que nós conhecemos “desde a mais tenra infância” e nos acostumamos a considerar nossas, tipicamente nossas, afetivamente nossas.
O que esquecemos às vezes é que essas tradições, por mais que deixem uma marca na nossa memória afetiva (na minha deixaram muitas, e profundas) não são pessoais, são coletivas. E vêm de longe.
Por exemplo: a tradição das “moças casadoiras”, na véspera do São João, antes de irem dormir, deixar uma mesa posta para uma pessoa, na sala de jantar, com a casa fechada e as luzes apagadas. As moças ficam à espreita (alguém imagina que elas estão dormindo, por acaso?) porque reza a lenda que o “fantasma” do futuro noivo virá aparecer, atraído pela ceia.
Outro exemplo: segurar nas mãos uma bacia cheia dágua, junto à fogueira, para tentar ver o próprio reflexo à luz do fogo. Reza a lenda que se a pessoa conseguir se enxergar direito, estará viva no próximo São João. Se não, não.
Sempre racionalizei esta última superstição desse modo: se a pessoa está com saúde e mantém a bacia firme, ela se vê refletida. Já uma pessoa que balança a bacia o tempo todo (prejudicando o reflexo) é porque está enfraquecida e pode morrer. (Uma racionalização meio tênue, mas, enfim…)
A música junina guarda essas tradições.
Como em “Advinhação” (sic), de Aldemar Paiva, gravada por Marinês:
Botei a mesa com tanta alegria, dormi pensando e meu amor não veio… Não veio, não veio… E tristeza se meteu no meio… Não quero mais saber de adivinhação, não posso mais sofrer nem esperar em vão; desculpe São João mais resolvi pedir a Santo Antonio um pistolão.
Ou no clássico eterno “Brincadeira na fogueira”, de Antonio Barros e Cecéu:
São tradições nossas? Sem dúvida. Mas são nossas inclusive num sentido mais amplo, um sentido que nos aproxima de culturas e épocas muito diferentes. São de todos. Nossa festa junina assimilou rituais antigos que em princípio nada têm a ver com ela.
Na minha antologia Detetives do Sobrenatural (Casa da Palavra, 2014) incluí o conto de Manly Wade Wellman “A Ceia Silenciosa” (“Dumb Supper”, 1954). É uma aventura do seu “detetive do sobrenatural”, John the Balladeer: um cantador repentista que trazendo às costas seu violão com cordas de prata anda pelas estradas dos Montes Apalaches, defrontando-se com mistérios do outro mundo.
Wellman (1903-1986) era profundo conhecedor do folclore e da cultura popular dos EUA, e utilizava esse material em seus livros.
No conto, John the Balladeer se perde na floresta à noite, durante uma tempestade, e acaba chegando a uma casa misteriosa onde encontra uma mulher jovem, que está com uma mesa posta para uma pessoa. John acabou de ouvir, na vendinha do vilarejo, uma história sobre um crime acontecido ali, anos atrás. E a mulher lhe pede que empunhe o violão e cante, para chamar alguém.
Mas eu não conseguia parar de olhar para o modo como ela tinha arrumado aquela ceia silenciosa. Sabendo que ninguém fazia mais aquele tipo de coisa, e tendo ouvido falar nela naquela mesma noite, eu estava maravilhado em encontrá-la. Minha mente ficou repassando o que tantos professores diziam sobre esses costumes, que eram coisas provenientes da Velha Europa, em que ceias silenciosas eram preparadas no início dos tempos. (p. 146)
O “noivo” acaba aparecendo; há um desfecho terrível em que o crime antigo acaba se esclarecendo, mas para mim o grande detalhe do conto é a tradição de preparar a ceia para atrair o “fantasma”.
Virando a página:
Somerset Maugham (1874-1965) é para mim um dos grandes contadores de histórias da língua inglesa. Seu conto “Honolulu” (1921) se passa no Havaí, onde o narrador conhece um jovem capitão de navio e sua bela namorada.
O capitão conta que tempos atrás o imediato do navio se apaixonou pela namorada dele (que viajava a bordo), e botou-lhe um feitiço no qual ele, sendo ocidental, se recusava a crer. A namorada (que era havaiana, como o imediato) insistia com ele: enquanto o imediato estivesse vivo, o feitiço estaria funcionando – e ele acabaria morrendo.
A moça então explica ao capitão que se o sujeito
…fosse persuadido a olhar dentro de uma cabaça, cheia de água a ponto de produzir um reflexo, e esse reflexo fosse destruído ao se agitar a água, ele morreria, como se tivesse sido atingido por um raio; porque aquele reflexo é a sua alma.
Assim é feito, o imediato morre, e o capitão escapa.
Nem vou entrar aqui no gigantesco capítulo antropológico do uso da imagem como equivalente da alma ou da vida: a imagem no espelho, a imagem na fotografia, a imagem num pequeno boneco.
Volto ao ponto anterior: essas tradições são nossas porque são de todos. De todos os lugares e de todas as épocas. Antropólogos não têm feito outra coisa, de James Frazer a Lévi-Strauss, senão traçar esses mapas comparativos de imagens recorrentes. Tão recorrentes que fizeram C. G. Jung propor a teoria de um “inconsciente coletivo” que alimentaria todas as culturas humanas, como um profundo lençol freático de coisas que nos emocionam antes que sejamos capazes de explicá-las.
Escrito e publicado em Mundo Fantasmo em 13 de julho de 2018.
Erick Bernardes, o chefe da “Cambada”!
Hoje vim apresentar a vocês um escritor fantástico: Erick Bernardes. Natural de São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, e para mim o atual bambambã das crônicas. Conheci o Erick de uma forma super inusitada: ele escreveu a primeira crítica literária que recebi na vida, por ocasião da publicação do meu primeiro livro da série literária de resgate cultural dos sonetos, o SonetATO. A opinião dele está gravada para sempre na orelha do livro. Essa eu devo à Autografia Editora, que me publica. [Texto de Eduardo Maciel]
Queridos kurumateirxs, como estão? Espero que se encontrem bem!
Hoje vim apresentar a vocês um escritor fantástico: Erick Bernardes. Natural de São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, e para mim o atual bambambã das crônicas.
Conheci o Erick de uma forma super inusitada: ele escreveu a primeira crítica literária que recebi na vida, por ocasião da publicação do meu primeiro livro da série literária de resgate cultural dos sonetos, o SonetATO. A opinião dele está gravada para sempre na orelha do livro. Essa eu devo à Autografia Editora, que me publica.
Em seguida, pude conhecê-lo pessoalmente em um grupo cultural ligado à literatura (sobretudo a poética), lá em sua terra natal, e ao redor desse grupo acabei me aproximando mais dele. E, como não poderia deixar de ser, acabei mergulhando em seu trabalho. Essa eu devo ao Universo.
Durante o mergulho, ainda em curso, me rendi totalmente à qualidade da sua produção escrita, em especial as crônicas, publicadas em um periódico local e compilada em um livro.
Se vocês se dedicarem a ler o seu trabalho, ficarão maravilhadxs com as narrativas, extremamente bem costuradas e com um estilo que é só dele.
Recentemente, lançou um livro chamado “Cambada”, onde nos revela, através das crônicas compiladas, a realidade de vários bairros (no sentido histórico e afetivo), de São Gonçalo. E vai além, adicionando em cada texto uma pitada de curiosidades e ficção sobre esse município, o segundo maior do Estado do Rio de Janeiro em densidade demográfica.
Eu mesmo me confesso estupefato com a riqueza de informações que nos revela. Além, é óbvio, do inestimável serviço que presta aos gonçalenses sobre suas raizes.
Fica a dica de leitura: porque as histórias se repetem sem serem as mesmas, se conectando a ponto de podermos até mesmo fazer paralelos com a história de nossas próprias cidades.
Resolvi entrevistá-lo para que saibam um pouco mais sobre ele, por fora das minhas lentes já tendenciadas pela admiração que lhe dedico, como pessoa e como artista.
Então, sem mais delongas, vamos ler o que ele tem a dizer? Preparados? Então tá!
Erick, como é o teu processo criativo?
Eu vivo pensando em literatura, por isso costumo pensar cotidianamente aquilo que vou escrever. Não me isolo para projetar, levo a vida normalmente e, às vezes, me pego planejando o que vou escrever. Quando paro pra lançar na pagina do word as histórias, as narrativas nascem rapidinho, porque já foram maturadas na minha mente.
Por que escrever crônicas?
Confesso que não sei ao certo. Provável que seja por se tratar de uma espécie de texto híbrido, que aceita jogos de linguagens mais livres e prazerosos.
O que você gostaria de despertar no seu leitor?
Sobretudo o prazer acrescido do conhecimento. Entretem-se quem lê, aprende-se sem saber que está aprendendo.
Fala um pouco pra gente sobre seus livros e o trabalho de memória que você faz em São Gonçalo?
São frutos das convivências e interlocuções; cada livro traz as pessoas e lugares com os quais tive algum tipo de contato. O Panapaná (contos) está mais para minha memória de infância. Já o Cambada é parte do cotidiano mais próximo de agora, o livro contém memórias, mais ou menos permeadas pela ficção.
Como você se definiria?
Bem, etimologicamente definir é oferecer um fim explicativo (de+finis). Mas posso projetar um avatar e tentar me enxergar a partir de outro olhar mais abrangente. Creio que sou um ser que se doa através da arte, um homem em eterna construção, pai de família superpreocupado com o crescimento dos filhos e o futuro das crianças nesse mundo de tecnologias cada vez mais difíceis de acompanhar. Tenho minhas vaidades, claro, gosto de ser lido e comentado. Adoro ver a galera se divertindo com meus livros. Críticas negativas não me agradam (acho que no fundo ninguém gosta), mas preciso dessas críticas para me ver por outro ângulo e melhorar. Até porque eu também sou crítico literário profissional, algumas vezes preciso fazer com os outros aquilo que não gosto que façam comigo.
Ainda bem que a crítica que ele escreveu sobre o meu livro não se encaixou nessa última hipótese! Ufa!
Bem, queridxs, espero que tenham gostado de conhecer um pouco mais sobre esse talentoso escritor, e espero mais ainda que se dêem uma chance na leitura dos seus livros (para quem ainda não teve esse privilégio, é claro).
Tenho visto nas redes sociais campanhas, dentro da atual circunstância pandêmica e de isolamento, incentivando as pessoas a “abraçar um artista”.
Convido a todos vocês que o abracem, num abraço coletivo mesmo, virtual e vigoroso. Vocês não hão de se arrepender!
Fiquem em casa. Fiquem bem.
“Olha pro céu, meu amor…”
Com a chegada de junho se inicia o Ciclo Junino, independente de pandemia e quarentena. Hoje, 1º de junho, o mundo muda e se converte num vórtex, em que convergem Santo Antonio, São João e São Pedro. As grandes festas de rua estão canceladas, mas a festa interior é incontida. A festa interior ela acontece quando chega junho, sobretudo entre os nordestinos desse país. É uma coisa inscrita na pedra dos afetos, ou na madeira que queima nas fogueiras.
Com a chegada de junho se inicia o Ciclo Junino, independente de pandemia e quarentena. Hoje, 1º de junho, o mundo muda e se converte num vórtex, em que convergem Santo Antonio, São João e São Pedro. As grandes festas de rua estão canceladas, mas a festa interior é incontida. A festa interior ela acontece quando chega junho, sobretudo entre os nordestinos desse país. É uma coisa inscrita na pedra dos afetos, ou na madeira que queima nas fogueiras. Na sua palestra São João no Nordeste, realizada no dia 19 de junho de 1952, no Rotary Clube, o poeta Mauro Mota nos conta que São João e o Natal constituem, do Ceará a Alagoas, as grandes etapas do calendário popular. Não existem, na referências orais, Junho ou Dezembro. Existem o mês de São João e o mês de Natal. Tudo é feito para êles e em função dêles. As economias, a roupa nova, a venda e a compra de bichos, a casa, os noivados, os casamentos e até os filhos. Essa fala, recolhida de uma plaquete editada pela Editora Nordeste, no mesmo ano de 1952. com o registro completo da palestra na sede do Rotary, no Recife. Ali, Mauro Mota já fala do São João com nostalgia…
E então sentimos que a fogueira apagou há muito tempo. E que, no lugar dela, só existem cinzas. As cinzas da lenha e as cinzas do nosso do encantamento.
Pois vamos revirar as cinzas do encantamento e declarar abertas as festas de junho. De dentro da quarentena que nos impomos por respeito ao próximo, limpemos o arraial dentro da gente pra acolher as músicas, as comidas, as tradições e as histórias. Cabe muito nesse terreiro, nesse chão batido sob a noite estrelada que canta o mestre Luiz Gonzaga em Olha pro céu. Façamos um junho de encontros, ainda que virtuais, via Zoom, via Instagram, Youtube, o que seja… que toda essa tralha tecnológica esteja a serviço do encantamento junino e da troca de afetos, a serviço da memória da nossa gente, que cada um carrega um pouco, ou muito, dentro de si. Recentemente, revirando velhos negativos fotográficos, encontrei os registros de uma festa de São João que aconteceu no Recife, num certo fevereiro que se perdeu na cronologia. Sim, era fevereiro, era carnaval, mas com que saudade danada a gente do São João! E aí armamos a festa, arrumamos fogueira e fogos, sabe-se lá de onde, e iluminamos a noite e houve quadrilha e baião. Porque não importa quando, onde ou o que seja, o São João está somente esperando que alguém o acenda.
Com esse espírito a Kuruma’tá não se deixará render pela pandemia e amanhã, com um AoVivo especial no nosso Instagram, a gente acende a fogueira de São João com o cantor e compositor Escurinho, num bate-papo musical com Aderaldo Luciano. E esse será o primeiro de uma série de encontros que vamos promover ao longo do mês, com diversos artistas.
Agenda Ao Vivo Kuruma’tá para o São João
Dia 4 de junho Ana Carinhanha
Dia 11 de Junho Leo Rugero
Dia 18 de Junho Vitória do Pife
Dia 25 de junho Rejane Ribeiro
Dia 30 de junho Isabel Nascimento
Então venha com a gente, seja nosso par nessa quadrilha. Venha simbora ao som dessa música enraizada nos milharais, na taipa das casas enquanto estendemos de poste a poste o cordel de lâmpadas e bandeirinhas e ensaiamos os passos da dança. Tá sentindo esse cheiro no ar? Sera a vizinha mexendo a canjica? Ruído do fogo crepitando, as faíscas subindo no ar quente que nem balões. Sejam bem-vindxs ap Reino de Sao João
Por isso o direito fundamental: esperar. Mas esperar com horizonte à frente. E por isso o horizonte. Esse fundamento do humano. Um querer estar lá estando aqui. Uma força de passo à frente. O horizonte: essa presença visível de coisas não acontecidas. [Texto de Dênis Rubra]
O horizonte. Eis um direito fundamental. Acordar. Levantar. Olhar acima. Ver adiante. Um céu inteiro bem na sua frente.
Mas ver o amanhã é fácil. O difícil é enxergar um hoje. Ter o dom de sair da cama. Saber lidar com o que se apresenta à frente. Hoje. Na ausência da potência pra ser feliz. Quando o que resta é sonho. E no sonho o amanhã. E no amanhã o hoje. Ou, se não o hoje, algum jeito de chegar aonde quer que seja.
O leitor deve pensar: que isso? Eu explico.
Todo homem vive no hoje. E viver no hoje implica ter havido ontem. E já todo ontem implica um amanhã (mesmo que o amanhã seja agora). O que significa: vivemos uma eternidade imensa de instantes a espera do que há de ser.
Por isso o direito fundamental: esperar. Mas esperar com horizonte à frente. E por isso o horizonte. Esse fundamento do humano. Um querer estar lá estando aqui. Uma força de passo à frente. O horizonte: essa presença visível de coisas não acontecidas.
Como viver sem? Como acordar no escuro da esperança? Acordar e só. Levantar e só. Olhar a baixo e pensar: é isso?
Como não haver algum amanhã qualquer capaz de se fazer presente agora? Mesmo que distante. Algum futuro que acene. Aquele jeito do que vem vindo dizer já venho.Já vou. Mais um pouco e sou. Ah, como te espero!
Ah, como te espero! Veja bem: Eu não invoco o futuro! Eu só quero um hoje! Só peço um hoje! Um hoje apenas! Um hoje com algum horizonte que acene! Que me diga: Como vamos? E se eu disser: Mal. Responderá: Iremos juntos até estarmos bem. Está me vendo? Eu direi: Sim. E ouvirei de sua cor tão de horizonte… Me ver sempre será o suficiente.
Sonhei com um mar que não era azul
Eu tive um sonho noite passada. Era uma praia de águas esverdeadas. Quase deserta, como se fosse baixa temporada. Permanecia imóvel na faixa de areia, debaixo de um sol inclemente, observando as ondas se avolumando para além da arrebentação. Lá no fundo, havia uma pessoa. Não, não era possível ver o seu rosto. Mas eu sabia quem ela era, certamente. [Texto de Eduardo Frota]
Eu tive um sonho noite passada. Era uma praia de águas esverdeadas. Quase deserta, como se fosse baixa temporada. Permanecia imóvel na faixa de areia, debaixo de um sol inclemente, observando as ondas se avolumando para além da arrebentação. Lá no fundo, havia uma pessoa. Não, não era possível ver o seu rosto. Mas eu sabia quem ela era, certamente.
De repente, em mim levantou-se a necessidade de ir até lá e trazê-la à terra firme novamente. Não, ela não pedia por socorro. Mesmo que eu não pudesse ver o seu semblante, sabia que não estava desesperada. Ela não corria o risco de se afogar, ou qualquer outro desastre. Ainda assim, era um resgate.
Entrei na água gelada e comecei a empreender intensas braçadas para vencer as ondas que agora ameaçavam quebrar diante do meu rosto. No entanto, era difícil sair do lugar. Sentia a boca salgada. Usava meu corpo inteiro para tentar chegar mais perto dela, mas pouco me movia. A água começava a se assemelhar a areia-movediça.
Em determinado momento, fiquei completamente desorientado. Havia perdido ela de vista e, olhando para trás, não mais avistava a praia de onde tinha vindo. Era tudo um mar verde que só, tranquilo e imenso. Eu, no entanto, inquieto e pequeno. Percebi que meus pés não alcançavam o fundo. Percebi também que a minha respiração começava a ficar curta. Meus braços, cada vez mais curtos.
– A correnteza puxa – dizia uma placa.
– Logo eu, que nadava tão bem quando era criança – pensei.
Fui acordado quando uma onda, daquelas que se avolumavam, teimou em se quebrar sobre a minha cabeça, me deixando embrulhado, sem saber o que fazer.
Levantei exaurido, encharcado.
Meus pés, estranhamente, formigando. Como se estivessem sujos de areia.
Oração a Nossa Senhora da Cloroquina
Em meio à pandemia e à confusão de informações, conhecida popularmente como desinformação, a gente vai sendo jogado de um lado pra outro. Seguimos com nossas máscaras anti-Covid escondendo nossa cara de enganados, enquanto o número de infectados e mortos aumenta exponencialmente e o número de leitos diminui. Onde reside alguma luz nesse caminho escuro? Na arte, na poesia que enfrenta com poderosa ironia o domínio da violência! Bravo, Nonato! Bravo, poeta! [Poema de Nonato Gurgel]
Em meio à pandemia e à confusão de informações, conhecida popularmente como desinformação, a gente vai sendo jogado de um lado pra outro. Seguimos com nossas máscaras anti-Covid escondendo nossa cara de enganados, enquanto o número de infectados e mortos aumenta exponencialmente e o número de leitos diminui. Onde reside alguma luz nesse caminho escuro? Na arte, na poesia que enfrenta com poderosa ironia o domínio da violência! Bravo, Nonato! Bravo, poeta!
Estou exigindo a questão da cloroquina… E essa decisão passa por mim… Jair Bolsonaro
I
Nossa Senhora da Cloroquina dai-nos força para suportar em meio a essa pandemia as mudanças de ministros que não liberam o protocolo
Livrai-nos dos políticos e seus amigos donos de laboratórios que precisam vender remédios de olhos nas próximas eleições
Fazei com que eles entendam que a coloroquina é uma droga com efeitos colaterais e pode causar parada cardíaca hipoglicemia perda de consciência e que mudar o protocolo não salva vidas
II
Se a ciência e a Anvisa não atestam não adianta um político determinar que o exército produza 1 milhão de unidades por semana (antes eram produzidos 250 mil comprimidos a cada 2 anos)
Ajudai a entrar no céu aquela moça linda de Caxias que tomou cloroquina aos 17 anos e se foi
Não esqueça do Trump que é parceiro do fabricante do medicamento Ele deixou morrer quase 90 mil e agora está mudo parou de sugerir a droga contra a Covid19
Nossa Senhora da Cloroquina devolvei a respiração que eu tinha e que essa pandemia roubou amém