O lutador

Mesmo quando cala ou silencia, o homem não pode impedir que a linguagem faça dele um lutador para o qual o próprio acontecimento dos seres em geral se manifesta como um ringue. A linguagem abarca a totalidade da nossa experiência porque instaura a própria experiência da totalidade das coisas que são. O lutador já sempre se pronunciou sobre o mundo em sua totalidade. [Texto de Rodrigo Ribeiro]

Texto de Rodrigo Ribeiro


A Revista Kuruma’tá segura a cadência da poesia e traz uma colaboração preciosa do carioca Rodrigo Ribeiro, sobre o poema O lutador, do mineiro de Itabira Carlos Drummond de Andrade. Rodrigo Ribeiro também luta com palavras como professor e pesquisador do Departamento de Filosofia da UNIRIO e do Programa de Pós-graduação em Filosofia da UFRN. É autor de “Alienações do Mundo: uma interpretação da obra de Hannah Arendt” e outros trabalhos com ênfase em Filosofia Contemporânea.

Fonte: Arquivo Nacional / Wikipédia

Os versos do poema “O Lutador” de Carlos Drummond de Andrade nos falam sobre uma luta travada “com palavras”, ou seja, no seio da linguagem. Leiamos o poema:

Lutar com palavras 
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento 
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça. 

Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto.

Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado, 
sem roteiro de unha 
ou marca de dente
nessa pele clara. 
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.

Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo, 
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.

Iludo-me às vezes,
pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
aquela sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor
me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
Mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca, 
tudo se evapora.

O ciclo do dia
ora se conclui
e o inútil duelo
jamais se resolve. 
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve. 
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono.


O poema nos fala de uma luta “vã” porque “jamais se resolve”. Essa luta possui o caráter de uma irresolução que se inicia “mal rompe a manhã” e “prossegue nas ruas do sono”. Trata-se de um combate tão vão que não tem nem vencedor nem vencido. As palavras incitam ou provocam o combate. Mas quem é o lutador incitado? Quem já acorda tendo que aceitar a provocação desse combate e vai dormir ainda desafiado na urdidura dos sonhos? Quem é esse estranho lutador que, por mais que se arrisque, jamais será morto enquanto durar esse combate, visto que nele consiste toda a vitalidade de sua vida? O lutador somos nós. Nós quem? O que somos? Nada antes nem depois de lutarmos com as palavras. Até mesmo para sabermos quem ou o que somos já nos encontramos subitamente imersos e inseridos no combate com a linguagem. Como dizia o poeta Octávio Paz: “A palavra é o próprio homem. Somos feitos de palavras. Elas são nossa única realidade ou, pelo menos, o único testemunho de nossa realidade”. A luta para a qual somos continuamente desafiados é com as palavras e nunca contra elas, pois estaríamos lutando contra a nossa própria sombra. Mas que tipo de luta será essa? O que significará “lutar com palavras”? Será exclusividade do poeta? Será apenas o poeta o lutador? Estará na luta com as palavras apenas aquele que se dedica ao que Hölderlin chamou de “a mais inocente de todas as ocupações”? 

Sem dúvida, o poeta é um lutador exemplar, mas essa luta não está circunscrita apenas ao fazer poético, ou seja, um âmbito estritamente literário. Convido o leitor a enxergar nessa luta um sentido mais amplo, ou seja, o acontecimento da própria linguagem como aquilo sobre o qual se funda a presença dos homens no mundo, ou ainda, a luta poética que reside no seio do existir humano. Como diz Hölderlin, “poeticamente o homem habita esta terra”, a própria presença do homem no mundo está sempre em luta com as palavras e, assim, é poética, pois o existir humano acontece poeticamente, instaura-se a partir da luta com as palavras, ou seja, no seio da linguagem. “Mal rompe a manhã” e já estamos sempre inseridos em uma relação com nosso entorno através da linguagem.

A luta poética, portanto, ultrapassa o meramente literário e alcança a dimensão em que se funda a habitação humana no mundo, pois nessa luta se encontram unidas e tensionadas poesia e vida. A existência humana é poética porque mora na linguagem, porque a linguagem é a morada do mundo e porque o mundo é o ringue de uma ininterrupta luta com as palavras. A linguagem não é aqui apenas uma expressão oral ou escrita ou uma mera comunicação, mas a própria luta poética na e pela qual o mundo é conduzido à manifestação. Trazer e conduzir do encoberto para o desencobrimento é o que os gregos denominaram como poiesis, a produção, a criação (pro-ducere: levar, ducere, diante de, pro: conduzir ao ser o que ainda não era). É poético tudo que põe em obra ou opera o combate no qual acontece a luta pela abertura do mundo, uma interminável luta entre desencobrimento e encobrimento, uma luta para manter aberto e manifesto o mundo como morada dos homens. Trazer o mármore até a estátua, conduzir o som à glorificação musical, desencobrir a cor na pintura e conduzir a palavra ao poema são formas dessa luta poética posta em obra nas obras de arte. Mas em muitos outros campos da poiesis acontece essa luta por trazer (ducere) o aberto do mundo para diante (pro), sem, contudo, jamais obter uma abertura total e absoluta que eliminasse a própria luta e transformasse o mundo em mero palco rígido de coisas simplesmente dadas e disponíveis para a representação.    

O poema de Drummond nos fala da luta “com as palavras” e, assim, enfatiza a contenda com a linguagem. “Eis porque o mais perigoso dos bens, a linguagem, foi doado ao homem […]: para que testemunhe sobre aquilo que ele é”, diz Hölderlin. De início e na maioria das vezes, só lembramos expressamente da linguagem e das coisas que nos rodeiam como banalidades cotidianas que se compreendem por si mesmas. O acontecimento das coisas é demasiadamente trivial e familiar para ser imediatamente digno de nota. No mais das vezes, estamos satisfeitos em dizer muitas coisas sobre as coisas e em ter as coisas prontas para o uso diante de nós. Nem sempre satisfeitos com as coisas, mas sempre com tê-las “diante”. Tanto que a suposição de que as coisas possam não mais estar aí “diante de nós” provoca-nos a angústia diante da morte. Na imensa maioria das vezes, lutamos para saltarmos para fora dessa luta com as palavras. Mas sempre somos atingidos por sua força secreta, muitas vezes sem saber ao certo o que nos acontece. Dizer que “lutamos com palavras” e que somos “feitos de palavras” significa afirmar que a linguagem é nossa via de acesso ao mundo e ao pensamento. A linguagem (em sentido amplo, englobando língua, fala e palavra) é uma dimensão fundamental de nossa experiência que instaura e orienta os relacionamentos dos homens com eles próprios, com o mundo e com os outros. Lutamos com palavras para que o mundo configure sentido a ser apreendido e compartilhado pela linguagem. O lutador é um vivente que mantém e exerce sua vida numa luta com as palavras porque são elas que conferem unidade para a multiplicidade das coisas que nos rodeiam, demarcando valores e instaurando sentido, diferenciando e separando cada coisa em seu aspecto, em sua realidade, mostrando seu limite, determinação, nome. Lutamos com palavras porque somos rodeados por nomes que formam o limite e a realidade do que somos, do que nosso mundo é. É sempre a partir da luta com as palavras que se instaura um universo de sentido e compreensão no interior do qual as coisas vêm ao nosso encontro, propõem-se como isso e aquilo, manifestam-se em seus aspectos e determinações, valores e significações, identidade e diferença, etc. Ora, se a palavra é aquilo que deixa o mundo aparecer e se somos aquele que, para viver, precisam lutar com as palavras, então, isso significa dizer que o homem é o lutador, pois precisa estar encarnado em um mundo para viver. O mundo é sempre o ringue dessa luta diária por sentido e compreensão, orientação e valor no universo das realizações, no mundo dos usos e afazeres em que estamos sempre e a cada vez imersos e inseridos. Somente o lutador precisa estar presente no ringue do mundo para ser e se realizar, ou seja, somente o lutador, para vir a ser o que é, precisa dizer o ser das coisas e até mesmo o ser que ele próprio é. A pedra não precisa dizer para ser, os animais não precisam simbolizar a vida para viverem, a cadeira não precisa pensar na existência para existir, mas, para o lutador, viver é ter que dizer e elaborar a experiência com palavras na direção de significações jamais absolutas ou definitivas. Mas os demais seres, vivos e inanimados, não estão nessa luta? Eles não podem ser estranhos em suas próprias casas? Não estão todos os seres no ringue do mundo em sua totalidade ou a luta só ocorre naquele ser para o qual o próprio ser das coisas se abre na totalidade? A expressão “na totalidade” não significa apenas que, pela linguagem, o ringue no qual está inserida a luta com as palavras é quantitativamente maior e abrangente, mas, sobretudo, qualitativamente diferente do fenômeno vital. A origem e o sentido da abertura ao exterior que ocorre no animal, como simplesmente vivente, são inteiramente distintos da origem e do sentido da abertura para o mundo enquanto tal que se revela ou se desencobre ao homem. O animal se comporta em um ambiente, mas não em um mundo. Por exemplo, como ensina o famoso biólogo Jakob von Uexküll, quando alguém secciona o ventre de uma abelha e a coloca diante de uma porção de mel, seu instinto é o de sugar essa substância indefinidamente, pois não estando nunca cheia de mel, ela será cativa de seu instinto, das pulsões que a ligam ao seu ambiente de forma imediata. Outro exemplo: entre o mundo da aranha que tece sua teia de modo a torná-la invisível para pequenos insetos e a mosca que eventualmente cai presa dessa armadilha existem duas séries de acasos biológicos que se integram. A aranha nada sabe da mosca como tal; a mosca nada sabe da aranha como tal. Como diz Cassirer: “Entre o sistema receptor e o efetuador, que são encontrados em todas as espécies animais, observamos no homem um terceiro elo que podemos descrever como sistema simbólico. Essa nova aquisição transforma o conjunto da vida humana. Comparado aos outros animais, o homem não vive apenas em uma realidade mais ampla; vive, pode-se dizer, em uma nova dimensão de realidade”. Nessa nova dimensão simbólica, o mundo se manifesta como o ringue de uma luta com as palavras em nome de uma abertura de sentido e compreensão. Que a própria linguagem venha sendo determinada pela informação e operatividade técnica na comunicação já nos revela algo sobre nosso mundo atual. A mera troca de mensagens a serviço de tarefas predeterminadas torna indiscerníveis o homem, o animal, o organismo e a máquina, em nome da homogeneização, controle, funcionalização e operacionalização do real, reduzindo as relações entre homem e mundo às questões do trabalho, do consumo, das funções vegetativas, busca de certeza e segurança.

O homem é o lutador porque é “feito de palavras”, isto é, porque busca dizer o que as coisas são a fim de se pôr em acordo com elas, consigo mesmo e com os outros que também lutam com as palavras em nome de um mundo comum. Só a violência é muda e interrompe a luta com a palavra, pois o lutador se corresponde a um mundo compartilhável de coisas e significações no qual outros participam conosco. O mundo é o ringue dessa luta com as palavras porque os lutadores precisam de uma brecha para o aberto do mundo. A presença do homem no mundo se funda na palavra e pela palavra. “Nenhuma coisa existe onde a palavra falta”, diz um famoso verso de Stefan George. A linguagem faz imperar no homem um combativo pertencimento ao ser pela linguagem. Como ressalta Heidegger, “ainda que tivéssemos mil olhos e mil ouvidos, mil mãos e mil outros sentidos e órgãos, se, porém, a nossa essencialização não consistisse no poder da linguagem, permanecer-nos-ia fechado e vedado a realidade em seu todo: a realidade que nós mesmos somos, não menos do que a realidade que nós mesmos não somos”. As palavras não compõem um repertório de signos, regras gramaticais e sintaxe, mas sim algo que atravessa e domina o lutador em seu encontrar-se situado e lançado no ringue do mundo, aberto e exposto ao real como um todo. As palavras não podem ser encontradas dentro do mundo como coisas dentre outras, pois elas envolvem o lutador de tal modo que a luta se estabelece somente a partir de certa relação com a linguagem, organizando, orientando e definindo, de diferentes modos, a presença humana no mundo. É sempre no seio da linguagem ou a partir da luta com as palavras que o mundo e a presença do homem nele chegam a se manifestar, assumindo aspectos e determinações, identidades e diferenças, valores e significações, ordem e forma. Vê-se que o homem e as palavras estão tão um dentro do outro que perguntar pelo que é e para que serve a linguagem já sempre será perguntar sobre o que é e para que serve a própria existência humana e o que pode lhe conferir sentido, determinação e valor. Por isso dizia o poeta americano William Borroughs que a linguagem é um vírus, isto é, um vivente que vive quando se hospeda em outro (o homem). O homem existe como homem porque se hospeda na linguagem. Indagar o que são linguagem e realidade será sempre espantoso, visto que ao interrogá-las nos encontramos sempre já dentro delas e de tal modo constituído por elas que somos incluídos na própria interrogação. Esse movimento circular ocorre porque, investigando o que são linguagem e realidade, nunca nos sentimos seguros e apaziguados, visto que, ao contrário de todo aquietamento e asseguramento, esse questionamento será tanto mais significativo quanto mais não pudermos saber se somos os questionadores ou os questionados. Por isso dizia a poetiza Adélia Prado: “Quem entender a linguagem entende Deus/ cujo Filho é Verbo./ Morre quem entender./ A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,/ foi inventada para ser calada./ Em momentos de graça, infrequentíssimos,/ se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão./ Puro susto e terror”. 

Mesmo quando cala ou silencia, o homem não pode impedir que a linguagem faça dele um lutador para o qual o próprio acontecimento dos seres em geral se manifesta como um ringue. A linguagem abarca a totalidade da nossa experiência porque instaura a própria experiência da totalidade das coisas que são. O lutador já sempre se pronunciou sobre o mundo em sua totalidade. E isto não pelo fato dele falar expressamente sobre as coisas. Ser lutador já significa deixar as coisas em geral se manifestarem no seio da linguagem como isso e aquilo. Inserido na luta, ou seja, na abertura dessa correspondência ao mundo na e pela linguagem, o lutador não se acha no meio da natureza, ao lado das árvores, animais e coisas, pois ele não ocorre justaposto ao lado dos outros seres. A luta abre o acontecimento do próprio mundo como linguagem. Mas “totalidade” não quer dizer “totalização”, porque as palavras nunca excluem de si mesmas o inefável, o dito nunca exclui de si o não-dito e o indizível. Por isso as palavras “deslizam, perpassam levíssimas” e parecem “virar o rosto” para o poeta. Por isso a luta “parece sem fruto”, uma “caça ao vento” e as palavras parecem não ter “carne e sangue”, a cada dia “tudo se evapora” e a entrega nunca se consuma. Como diz Octavio Paz, “em um mundo regido pela lógica do mercado (…), pela lógica da eficácia, a poesia é uma atividade de rendimento nulo”. É que o poeta renuncia à posse absoluta da palavra. Essa renúncia decorre da condição de ser um lutador, isto é, sempre um estanho em sua própria casa. Como diz Octavio Paz: “o que caracteriza o poema é sua necessária dependência da palavra tanto como sua luta por transcendê-la”. O poema faz ver como a própria linguagem é uma luta ambígua. No uso corrente, as palavras são usadas e abusadas em suas funções comunicacionais. Mas, quando a linguagem aparece na poesia, as palavras deixam de ser ferramentas ao nosso dispor, prontas para o mero uso. Na luta poética, como diz Drummond, “as palavras serão servas de estranha majestade”. 

A luta é tanto mais poética ou criadora quanto mais nasce e se frutifica sempre a partir e em torno do inefável e do inesgotável. Todo palavrório transmissor não pode não dizer, pois pretende neutralizar a luta com as palavras. Mas a luta do poeta é sempre um dizer que nunca diz de uma vez por todas. O dizer que não pode não dizer é um dizer informativo em busca da objetividade do que nós mesmos não somos. Um dizer que não pode não dizer não consegue abandonar, ocultar, deixar e esquecer nada. É um dizer que anula a luta ao pretender intransitoriedade absoluta. É um dizer que não admite obscuridade, opacidade, contradição, ambivalência, o insondável, a experiência inexaurível, a incerteza, nenhuma contenda. Como diz Octavio Paz: “A palavra poética jamais é completamente deste mundo: sempre nos leva mais além, a outras terras, a outros céus, a outras verdades. A poesia parece escapar à lei de gravidade da história porque sua palavra nunca é inteiramente histórica. A imagem nunca quer dizer isto ou aquilo. Sucede justamente o contrário, como já se viu: a imagem diz isto e aquilo ao mesmo tempo. E mais ainda: isto é aquilo”. O “não” do “não dizer” poético não é, porém, algo negativo e faltoso, mas sim positivamente doador e inesgotável. É o “não” que jamais busca ser superado, resolvido, eliminado, mas, única e somente, preservado. Trata-se de um “não” vital, o “não” irreprimível da vida, esse que possibilita que a vida nunca deixe de seguir vivendo. Esse “não” é o sendo do ser, o que faz do ser um verbo e a infinição de um gerúndio: o andando do andar, o escrevendo do escrever, o aprendendo do aprender, o pensando do pensar, etc. A luta interminável com as palavras torna o poeta um estranho no lugar em que já sempre habita. Por isso, lutar com palavras é sempre um embate desconstrutivo com o já dito. Desconstruir não é destruir. É desfazer as construções, os hábitos de pensamento, sondando-lhes de onde eles puderam se constituir. Esse estranho trabalho de arquiteto, de desconstruir para habitar um aberto é o que caracteriza a tarefa filosófica tanto quanto a atividade poética. O filósofo e o poeta são lutadores exemplares porque são desabituados, comportam-se como estranhos no lugar em que habitam. Lutar com palavras é desconstruir o já dito e sabido e fazer aparecer o caráter sempre aberto e inexaurível da linguagem. A luta com as palavras apreende a vitalidade da vida em todas as suas formas, em todos os limites, em todas as configurações e modos. Lutar com palavras é se corresponder à vitalidade da vida.

Por mais estranha, marginal e curiosa que seja a sua circunstância, sua estadia e morada, o lutador não consegue se desconectar e se desprender da irrupção, da abertura ou da descoberta das coisas na linguagem. Como indaga Octavio Paz: “Se o homem é um ser que não é mas que está sendo, um ser que nunca acaba de ser, não é um ser de desejos tanto quanto um desejo de ser?” A linguagem atravessa, domina e reivindica de modo fundamental o lutador em seu combate com a totalidade, esta contenda que, continuamente e em qualquer situação, é necessariamente empreendida. “Luto todo o tempo”… Essa luta pelo pertencimento ao mundo por meio da linguagem faz com que o lutador nunca esteja no ringue como dentro de um universo meramente físico, pois o embate o coloca imerso e inserido em um universo simbólico. A luta com as palavras insere o lutador em uma ordem de existência que não é simplesmente natural (física e biológica), pois a linguagem converte o seu entorno de mero “meio biofísico” em mundo. Cassirer afirma que “a realidade física parece recuar em proporção ao avanço da atividade simbólica do homem. Em vez de lidar com as próprias coisas o homem está, de certo modo, conversando constantemente consigo mesmo. Envolveu-se de tal modo em formas linguísticas, imagens artísticas, símbolos míticos ou ritos religiosos que não consegue ver ou conhecer coisa alguma a não ser pela interposição desse meio artificial. (…) ‘O que perturba e assusta o homem’, disse Epíteto, “não são as coisas, mas suas opiniões e fantasias sobre as coisas”. A arte, a política e a filosofia são dimensões fundamentais dessa luta histórica com as palavras, essa constante contenda com a linguagem em nome da abertura do mundo. De tal modo que o poeta Hölderlin escreveu: “Muito experimentou o homem./Os celestiais muito nomeou,/Desde que somos uma conversa/E podemos ouvir uns aos outros”.     

Estar aberto ao mundo ou inserido nesse combate com as palavras exige do lutador ordenar o que lhe é dado no mundo, dirigir-se a algo de outro, estar sempre com um outro e ter que fazer com que esse outro se instale na palavra e se ofereça, assim, como símbolo de um mundo comum. É tão espantosa essa luta que nela se revela o quanto o lutador está nela porque quer, pois a necessidade da luta não lhe é imposta automaticamente, não lhe é imposta por constrangimentos naturais, como nos demais seres vivos. O suicídio é uma experiência possível somente para um vivente cuja vida é vivida na luta com as palavras. O lutador é tão impregnado pela linguagem que a luta ultrapassa a vida biológica e exige dele valores e significações que tornem a vida digna de ser vivida. Muito mais que exigências orgânicas e imperativos da espécie, o lutador precisa satisfazer exigências de linguagem para viver, exigências de pensamento, de orientação, de valorização e significação. Somente o lutador carece de viver a vida em conformidade com um mundo, ou seja, um universo de sentido e compreensão dentro do qual as coisas manifestem sua realidade e suas significações. Mais que ser-vivo, o homem precisa cuidar da vida na e pela linguagem. Cuidar diz cultivar e cultivo diz cultura (vinda do verbo latino colere, que significa cultivar, criar, tomar conta e cuidar). Uma cultura é um conjunto de práticas, comportamentos, ações e instituições pelas quais os homens se relacionam entre si e com a natureza em geral, agindo sobre ela ou através dela, modificando-a. Este conjunto funda a organização social, sua transformação e sua transmissão de geração a geração. Como diz os versos de Octávio Paz: “A palavra do homem/é filha da morte./Falamos porque somos/mortais: as palavras/não são signos, são anos./Ao dizer o que dizem/os nomes que dizemos/dizem tempo: nos dizem,/somos nomes do tempo./Conversar é humano”. A cultura que emerge da linguagem não é feita de signos, mas de anos porque não apenas nos entrega o que fomos e nos convida a ser o que somos, mas, sobretudo, responsabiliza-nos pelo que nos tornamos no tempo histórico das realizações. Nas artes, na política, na filosofia, na religião, nas ciências, pensamos e falamos em uma luta com as palavras instauradas ao longo de um processo de transformação histórica de mais de vinte e cinco séculos. É nessa luta que se demarca a força espiritual de uma cultura, a força que insufla ou sopra (spiritus) o sentido do real nas mais diversas realizações. Na luta com as palavras se cultiva valores, línguas, ritos, criam-se leis, instituições, demarcam-se aspectos e diferenças, unidades e relacionamentos. É tudo isso que constitui um mundo. A luta com as palavras deixa um mundo aparecer e tornar-se manifesto. Nessa luta emerge uma cultura ou uma experiência de pensamento no interior da qual instaura-se o ringue no aberto do mundo. 

Mas é preciso sempre ouvir a advertência intempestiva de Nietzsche aos “homens cultos” que se interessam pela cultura como “decoração ou adorno para a vida”: “O saber, consumido em excesso sem fome, sim, contra a necessidade, não atua mais como um agente transformador que impele para fora”. Portanto, o pensamento e a cultura são experiências fundamentais dessa luta com as palavras e, assim, não devem ser convertidos em meros objetos de estudo e consumo, isto é, como algo situado fora de nós, pois a cultura precisa ser o modo radical de ser e viver dos homens. Trata-se de uma luta porque a cultura não é algo pronto e acabado do qual podemos nos servir, e sim um estar exposto a um contínuo embate com o mundo, com os outros e consigo mesmo a partir de um universo de sentido, orientação e compreensão configurado historicamente no seio da linguagem. Nessa luta já estamos e nos movemos desde sempre. À intensidade com que somos atravessados e dominados por essa luta corresponde a raridade com que ela se nos apresenta enquanto tal. Só excepcionalmente nos voltamos propriamente para o mundo como lutadores, pois, no mais das vezes, só lembramos expressamente de nossa presença no ringue do mundo como algo que, para nós, compreende-se por si mesma. É por isso que o poeta é um lutador exemplar, ou seja, ele revela a luta enquanto luta. Como descreve J. Cocteau: “No instante de um relâmpago vemos um cachorro, uma carruagem, uma casa, pela primeira vez. Tudo o que oferecem de especial, de louco, de ridículo, de belo nos abate. Imediatamente após, o hábito apaga essa poderosa imagem com sua borracha. Fazemos festa ao cachorro, paramos a carruagem, habitamos a casa. Não os vemos mais. Eis o papel da poesia. Ela desvela, com toda a força do termo. Ela mostra nuas, sob uma luz que sacode o torpor, as coisas surpreendentes que nos circundam e que nossos sentidos registram mecanicamente”. De modo usual, a palavras são constantemente empregadas como moedas gastas que passam de mão em mão no nivelamento do uso corrente. Dizemos muitas coisas sobre todos os assuntos, muito por conta daquilo que se diz, como se passássemos cheques sem fundo de uma conta corrente cujo extrato nunca lemos. De início e na maioria das vezes, dispomos da linguagem como de um crédito concedido pela coletividade em que vivemos. De início e na maioria das vezes, vivemos como um autômato das palavras. Tudo aquilo que dizemos com uma palavra-moeda não é resultado de uma luta com as palavras, mas de um empenho de apaziguamento e de pacificação desse combate. Empenho nunca acabado, pois, paradoxalmente, não é exterior ao próprio combate e sim já é um modo de configuração da própria contenda com a linguagem. Lutamos com palavras também porque, de início e necessariamente, nós as herdamos como coisas dadas que se esforçam por colocar tudo e todos confortavelmente fora de combate. Mas não há nada para além ou para aquém dessa luta. Fugindo dessa luta originária resta a aglomeração entediante de coisas, onde já não se instaura nenhum mundo. De início e na maioria das vezes, o combate não se nos apresenta como combate, pois, como autômatos das palavras, vivemos na plena satisfação da existência dada. Só homens muito estranhos e combativos, tais como os poetas e os pensadores, de tempos em tempos, dão-se o trabalho de assumirem a luta com as palavras enquanto luta. Na luta com as palavras está posta em causa a coragem de pôr em questão a própria segurança e fiabilidade das “coisas”, pois todo peso parece desaparecer das coisas e se obscurece todo o sentido imediato. As coisas se transfiguram e parecem nos rodear pela vez primeira, como se antes nos fosse possível perceber-lhes mais a ausência do que a presença. Na luta poética do poeta, somos atingidos pela presença essencial das coisas. Por isso diz Heidegger: “o poeta fala sempre como se o ente se exprimisse e fosse interpelado pela vez primeira. No poetar do poeta, como no pensar do filósofo de tal sorte se instaura um mundo que qualquer coisa seja uma árvore, uma montanha, uma casa, o gorjear de um pássaro, perde toda monotonia e vulgaridade”. A poesia restitui ao mundo o seu peso ou a sua gravidade. O poeta mostra que “a linguagem é a casa do ser. Em seu abrigo habita o homem. Os pensadores e poetas são os guardiões desse abrigo”, como diz Heidegger. A luta com palavras mantém o mundo vivo. De tal modo que, para ser um autêntico lutador, não basta tomar conhecimento de algo, pois, como dizia um antigo professor-lutador, tomar conhecimento é uma capacidade que nos permite dispensarmo-nos de sermos o que conhecemos, arrancando do pensamento sua vitalidade. Em latim, arrancar se diz ab-strahere e arrancado ab-stractum. Para arrancar-se da alternativa de vida e morte, o conhecimento se torna abstrato. Abstrato quer dizer, em primeiro lugar e antes de tudo, fora da possibilidade de morrer e viver para poder estar todo dentro da segurança do poder. O ideal de todo “homem culto” é conhecer sem ser. Neste sentido, o conhecimento da cultura como fim em si mesmo visa a conhecer o amor sem amar, conhecer a vida sem viver, a morte sem morrer, conhecer a meditação sem meditar, conhecer o pensamento sem pensar, conhecer as palavras sem lutar com as palavras, conhecer a luta sem nela entrar, tomar conhecimento da luta sem ser um lutador.


Amoroso

Temos hoje o privilégio de publicar esse grande poeta que é o Nonato Gurgel. Ele nos enviou um poema que a gente pode até dizer que é inédito, pois teve uma versão publicada somente na sua página naquela rede social.
Um poema porque João morreu. Um poema que responde, provoca e atiça. [Poema de Nonato Gurgel]

Temos hoje o privilégio de publicar esse grande poeta que é o Nonato Gurgel. Ele nos enviou um poema que a gente pode até dizer que é inédito, pois teve uma versão publicada somente na sua página naquela rede social.

Um poema porque João morreu. Um poema que responde, provoca e atiça.

E antes do poema queremos aqui dizer que, além de poeta, Nonato é acadêmico, professor universitário, versado em letras e literaturas. Escreveu o trabalho Luvas na Marginália, sobre a poética de Ana Cristina Cesar. Isso pra deixar claro o papel e importância da Universidade Pública!

Poema de Nonato Gurgel


Para João Batista Morais e Ana Paula Cruz

I
Uma pessoa conhecida
não distingue entre cantar, encantar e inventar um jeito de cantar
Uma pessoa conhecida
não reconhece, na diferença, as linhagens anti musicais, desafinadas, oba-lá-lá
Uma pessoa conhecida
não tem ouvidos ‘privilegiados’, não depura o silêncio, o canto zen, undiú

II
Uma pessoa conhecida
não vê ‘coisas que só o coração’: menos pode ser mais amoroso em várias línguas
Uma pessoa conhecida
não ouve na base da ‘nota só, bim bom, precisa’, o samba ‘vexame’, mistura de etnias
Uma pessoa conhecida
não segue a trilha desse ‘pouquinho de Brasil’ moderno que dá cria a cada geração

III
Uma pessoa conhecida
não gosta de chuva, nem gosta de sol, ‘vou te contar’
Uma pessoa conhecida
não ecoa a batida que afina o ouvido surdo do mundo
Uma pessoa conhecida
renega a voz anasalada do nordestino cheio de bossa

IV
Uma pessoa conhecida desconhece
que ‘melhor do que o silêncio só João’


Nós não usamos blecaute

Se tentarmos entrar, a ladainha será a mesma. Tem que ter dinheiro para reservar uma mesa – diz o porteiro. Tem que se vestir direito – diz o gerente do puteiro. Nenhum a mais, nenhum a menos, o convescote está sempre regado. Apesar de esnobe e insultuoso, acredita manter-se petulantemente sigiloso. [Texto de Eduardo Frota]

Texto de Eduardo Frota


Você gostaria de entrar, mas ninguém o convidou.

Ainda assim, notou que a festa lá dentro é um farto banquete. Ranja os dentes: você vai ficar aqui do lado de fora com a gente. Vamos aguçar as fossas nasais para sentir o cheiro das sobras nos pratos dos comensais. Vamos empurrar ouvido adentro a cera acumulada e escutar apenas os graves de conversas emuladas. Nenhuma novidade. Vamos imaginar as mulheres de vestido longo e os homens, de fraque. Logo, logo o sol sorri. Eles não vão resistir.

Cairão num sono profundo.

Se tentarmos entrar, a ladainha será a mesma. Tem que ter dinheiro para reservar uma mesa – diz o porteiro. Tem que se vestir direito – diz o gerente do puteiro. Nenhum a  mais, nenhum a menos, o convescote está sempre regado. Apesar de esnobe e insultuoso, acredita manter-se petulantemente sigiloso. Por isso há blecautes nas janelas. Assim, os que estão lá dentro podem se refestelar à vontade. Ficam com o filé, rechaçam a moela.

Mal sabem eles sobre a revolução que começa a correr.

Fluímos ainda feito uma nascente, brotando devagar da terra, conquistando corações e mentes. Mal percebem eles, enquanto saciam suas ânsias, seus excessos, seus desejos. A gente identifica aquele fiapo de nervo preso entre os dentes. Afinal, a carne é fraca.

Peito, coxa, asa. A carne é muito fraca.

Foto: Boris Thaser

Gal Costa (1969) | Uma-obra prima que completa 50 anos

Minha relação com os discos começou muito cedo… não saberia dizer qual foi o primeiro que botei para girar na rádio vitrola Telefunken, que tínhamos em casa, mas lembro de ver várias vezes meu pai chegando do trabalho com um envelope debaixo do braço, do qual brotavam alguns discos… [Texto de Jorge LZ / Programa na Ponta da Agulha]

Texto de Jorge LZ / Programa na Ponta da Agulha


O primeiro álbum de Gal Costa completa 50 anos. Ela já tinha lançado, em 1967, o disco Domingo, mas esse era um LP dividido com Caetano Veloso. O “disco das plumas”, como ficou conhecido, foi gravado em 1968, mas lançado em 1969 e foi um impacto na minha cabeça de criança.

Minha relação com os discos começou muito cedo… não saberia dizer qual foi o primeiro que botei para girar na rádio vitrola Telefunken, que tínhamos em casa, mas lembro de ver várias vezes meu pai chegando do trabalho com um envelope debaixo do braço, do qual brotavam alguns discos… desde os compactos coloridos, que traziam historinhas infantis, até os long plays com as músicas que ele gostava de ouvir… Elis Regina, Sinatra, Tom Jobim, Jorge Ben, Beatles, Chico Buarque, Glenn Miller, Roberto Carlos, Nat King Cole… e por aí vai… para ele não importava muito o estilo, o negócio era a música ser boa, como costumava dizer. Essa foi uma das maiores heranças que recebi do velho Jorge: a capacidade de ter os ouvidos abertos para o mundo da música e para a música do mundo.

Eu tinha entre quatro anos de idade, quando uma noite meu pai chegou em casa, no dia de seu aniversário, com um de seus envelopes de discos… como sempre, corri para ver o que tinha ali e, entre eles, estava um que trazia na capa uma mulher de perfil e com plumas em volta do pescoço. Pedi para ouvir e já nos primeiros sons fiquei curioso… não conseguia identificar o que era aquilo, mas me remetia ao espaço sideral, coisa muito em voga no final dos anos 1960 por conta da conquista do espaço e da iminente chegada do homem na Lua… a partir daí entrava um órgão que tocava bem uma introdução bem comum na Jovem Guarda até a chegada de uma voz maravilhosa, que entoava “eu vou fazer uma canção pra ela, uma canção singela, brasileira, para lançar depois do carnaval…”… isso embalado por uma arranjo de cordas do maestro Rogério Duprat… a música é um verdadeiro achado e traz elementos românticos e psicodélicos, como um encontro de Roberto Carlos com Os Mutantes.

Gal Costa (1969) é uma obra importantíssima na história do tropicalismo e também da música popular brasileira. O disco deveria ser lançado em 1968, mas com a prisão de Caetano Veloso e Gilberto, a gravadora optou por segurar o disco e lançá-lo em um momento mais oportuno. Quando lançado, o disco trouxe uma nova oxigenação para o movimento, mesmo com suas principais vozes caladas pela ditadura militar. Gal acabou sendo nesse momento difícil a voz do tropicalismo e o fez com maestria. Essa obra prima reúne músicas brilhantes de compositores ligados ou não à Tropicália, que viraram clássicos do cancioneiro popular. É o caso da já citada “Não identificado”, de Caetano Veloso, “Saudosismo” e “Baby”, ambas de Caetano Veloso, “Divino, maravilhoso”, parceria de Caetano e Gilberto Gil, e “Que pena (ele já não gosta mais de mim)”, de Jorge Ben (sem Jor). 

Passeando pelo repertório, depois da abertura, temos “Sebastiana”, de Rossil Cavalcanti, um forró divertidíssimo, que já havia sido gravado antes (com destaque para as versões de Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga), ganhou uma roupagem roqueira e psicodélica, com participação de Gilberto Gil na guitarra e no vocal; “Lost in paradise”, de Caetano Veloso, é uma música bastante sofisticada e uma das primeiras letras do Caetano em inglês; “Namorinho de portão”, quase uma Jovem Guarda, de Tom Zé, que mais tarde ganharia uma versão do grupo Penélope, que reunia Erika Martins e Luisão Pereira, novamente com Gil na guitarra e na voz; “Saudosismo”, de Caetano Veloso, bela homenagem à Bossa Nova… um reconhecimento à revolução musical proposta por João Gilberto; “Se você pensa”, de Roberto e Erasmo Carlos, em uma versão melhor e mais poderosa que a original, encharcada de Soul e R&B; “Vou recomeçar”, novamente de Roberto e Erasmo… essa faixa é uma Jovem Guarda embalada em psicodelia; “Divino, maravilhoso”, de Caetano e Gilberto Gil, uma canção de protesto nada óbvia, mas que vai direto ao ponto e faz um chamado para a resistência; “Que pena (ele já não gosta mais de mim)”, samba-rock de Jorge Ben, que conta com Caetano no vocal e um violão não creditado a Jorge Ben, mas que dificilmente não foi tocado por ele; “Baby”, de Caetano Veloso, única música que não foi gravada para o disco, já que essa gravação é a mesma que entrou no disco “Tropicália – Panis et Circensis”, lançado no ano anterior; “A coisa mais linda que existe”, de Gilberto Gil e Torquato Neto, uma balada alegre e romântica, que retrata a juventude da época, que se encontrava em “festa e comício”; e, finalizando o disco, “Deus é amor”, um quase gospel de Jorge Ben.

A direção de produção do disco é de Manuel Berenbein, Rogério Duprat foi o responsável pela direção musical e assinou arranjos com Gilberto Gil e Lanny Gordin.

Em seu primeiro álbum, Gal Costa conquistou um lugar de destaque na música popular brasileira em um momento delicado, do ponto de vista político, e especial, do ponto de vista musical. O disco segue até hoje bastante atual e, para muitos (inclusive eu), segue como o melhor disco de Gal Costa.



Na ponta da agulha é um site parceiro do Kuruma’tá! Jorge LZ produz e apresenta o programa na Ponta da Agulha, na Rádio Graviola. Confira: napontadaagulha.ml

50

Você está lendo nossa 50ª publicação nesses 5 meses de existência, um texto para reafirmar nossa insistência em levar essa revista adiante. Não é fácil mas é prazeroso. Nem é tão difícil quanto parecia quando publicamos o primeiro texto e pensamos: e agora?! E agora é que cá estamos, firmes, fortes e bem humorados. [Texto de Revista Kuruma’tá]

Texto de Revista Kuruma’tá


Há exatos 5 meses, em 4 e fevereiro de 2019, a Kuruma’tá publicava seu primeiro artigo, na verdade uma combinação de dois textos, de Aderaldo Luciano e Toinho Castro, sobre esse livro espantoso que é Zé Limeira, o poeta do absurdo, de Orlando Tejo. É um livro em que biografado e biógrafo se combinam num terceiro elemento, altamente poético, imaginativo, e que nos deixa sem chão, sem saber onde começa ou termina a lenda de Zé Limeira, esse cantador paraibano que desafiou os caminhos da cantoria, do tempo e do espaço.

Com esse único texto nossa revista botou o pé na estrada poeirenta da poesia, da música, da literatura, do cinema e outros tantos assuntos que a gente vai arrumando aqui e acolá. No caminho vamos arrumando companheiros, gente que compartilha da mesma ânsia criativa, em busca de espaço para publicar suas ideias, imaginações. E a Kuruma’tá vai aprendendo a ser esse espaço. Um lugar de fala, de troca, de encontro.

A palavra coletivo anda surrada. Então vamos escapar pela tangente e dizer que Kuruma’tá é um ajuntamento de pessoas com vontade de escrever, publicar e ver no que dá! E o que tá dando é uma conversa boa que só. É gente de muitos lugares que passa por aqui, conectando pontos de vista, cidades, sotaques e olhares. Não é pouco mas ainda falta muito.

Falta muito mas já dá pra comemorar. Você está lendo nossa 50ª publicação nesses 5 meses de existência, um texto para reafirmar nossa insistência em levar essa revista adiante. Não é fácil mas é prazeroso. Nem é tão difícil quanto parecia quando publicamos o primeiro texto e pensamos: e agora?! E agora é que cá estamos, firmes, fortes e bem humorados. A cada dia alguém nos encontra em meio ao mundaréu de coisas que é a internet. Todo dia tem uma surpresinha boa, alguém que acessou no Acre, em Salvador, alguém que compartilha algo que a gente publicou, ou que nos recomenda a outro alguém.

Ao terminar de ler esse texto, faça uma pequena viagem no tempo pelas 49 estações que vieram antes. Conheça a Revista Kuruma’tá. Você pode gostar de umas coisas e não de outras, mas vai achar bom que a gente esteja por aqui, que esse lugar de imaginação exista. Quem sabe um dia você se junta a nós nessa outra viagem no tempo que é o daqui pra frente. O próximo artigo e o outro e o seguinte e ainda mais. Estamos gestando outras ideias e a fé é que a Kuruma’tá resista e ainda um começo para outras proposições.

Por enquanto vamos dando conta desse broto que cresce como dá, do jeito que a terra permite e nossos esforços alcançam. No mais é fazer a própria história, não parar de falar de cultura e querer dias sempre melhores.


A Revista Kuruma’tá agradece aos seus colaboradores e a todo mundo que lê, apoia, compartilha, curte e resiste/insiste com a gente. Ao passado e ao futuro, um brinde da Kuruma’ta!


Lucía, com acento no i e sotaque de Barcelona

Lucía quase nunca parava e gostava de ver tudo se mexer. Árvores, carros, lesmas, até as pedras tinham movimento. Estava sempre entre um ponto e outro e nesse estado se mantinha até que parava e constatava que a viagem tinha finalmente acontecido. [Texto de Adriana Nolasco]

Texto de Adriana Nolasco


17 horas. 14 graus em Lisboa. 28 em Angra dos Reis. 16 em Sevilha. 9 em Agerola. 23 em Montevidéo. 14 em Veneza. 5 em Nova York. O que Lucía, com acento no i e sotaque de Barcelona, mais gostava de fazer era viajar. Qualquer modalidade de viagem. A pé, de ônibus, barco, avião, espiritual, de ácido, bicicleta, interestadual, extraterrestre, pra dentro, pra fora. Por isso também amava aeroportos. A ponto de ir trabalhar lá, num dos piores empregos que tivera na vida: vendedora de freeshop, nos dias em que não trabalhava como garçonete na tasca ou no bistrô. Adorava ver os rostos, um pra cada pessoa no mundo, “e são muitos bilhões delas!”, se assombrava. O aeroporto contribuía com esse sentimento e alimentava ainda mais outro: o deslumbre pelo movimento. Lucía quase nunca parava e gostava de ver tudo se mexer. Árvores, carros, lesmas, até as pedras tinham movimento. Estava sempre entre um ponto e outro e nesse estado se mantinha até que parava e constatava que a viagem tinha finalmente acontecido. De a para b e depois de b para a: era na volta, precisamente em a, que sentia a onda bater. Por causa disso e de muitas outras coisas, Lucía foi se tornando uma fanática por determinados aplicativos, principalmente os de localização, mapas, meteorologia e hospedagem. Assim como os de viagens de forma geral. Uma necessidade de posicionamento, de construir em 3D tudo aquilo que pensava desconhecer. Cruzava dados e distâncias como ninguém. Latitudes, ruas, estados de espírito, metros quadrados, sotaques, direções do vento, tudo servia ao seu propósito. Porque ir para ela era simplesmente estar lá. Suspensa até o limite, pendurada entre o Mediterrâneo, o metrô, Berlim, a tasca, o aeroporto, Positano, a bicicleta, Lisboa à noite. Em longos passeios a pé pela street. Aeroportos são lugares de passagem, deveria se lembrar. Torre de Babel. Sempre gostou das cidades que tem lâmpadas amarelas. Esse foi um dos critérios da escolha do seu pouso, a base a partir da qual tudo percorria. Lucía, com acento no i e sotaque de Barcelona, repetia sempre essa frase pra que nunca se esquecessem de pronunciar seu nome corretamente. Também não conseguia não reparar em como aeromoças e comissários tinham uma pele de papel, mas admirava sua qualidade de sorrir e puxar malas com rodinhas. Consultou o aplicativo de metereologia. Em Lisboa fazia agora 16 graus, entardecia. Naquele dia Lucía fotografou as próprias mãos porque ficou boa da alergia na pele do dedo mindinho da mão direita assim: sem saber de nada. Gostava de fotografar, quase tudo. E nunca mostrar pra ninguém. Era uma prova pra si mesma de que tinha vivido aquilo, de que esteve ali. Porque senão achava muitas vezes que estava louca. Mas só estava sozinha.

Fotos de Adriana Nolasco

“Não siga mansamente para essa noite em paz”

E eu pensava no que eu teria ido comprar ali, naquele supermercado. Lista de compras improvisada na cabeça por nunca fui bom em listas de compras. Vinho, comprar vinho para brindar a Lou e Andy e John. Eu lá no meu quarto, num ano distante, colocando New York, recém lançado, para tocar. A voz de Lou anunciando os anos 90… The past keeps knock
knock knocking on my door / And I don’t want to hear it anymore. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Pô, fui no supermercado, peguei um carrinho daqueles com a roda bamba e cumpri o ritual sagrado de comprar o lixo que me mata pouco a pouco a cada dia. Só a mim não. Nem se iluda, você tá morrendo disso também. E também de outras coisas que matam quem compactuou com as comidas super processadas, os automóveis e o combustível fóssil. Aí fui lá no supermercado enorme, com suas avenidas onde não existem leis de trânsito, todo mundo no exercício contínuo do cada um por si. Longas lâmpadas fluorescentes despejando sua luz branca imaculada nas formiguinhas zanzando de corredor em corredor, ansiando por promoções.

Que lugar horroroso. A sorte é que as corporações canalizaram música por streaming nos celulares e eu podia entrar naquele círculo do inferno ouvindo Lou Reed, Perfect day. Aí tô lá, ouvindo Lou Reed e fui atingido por esse raio: Lou Reed morreu! Não, não foi hoje nem ontem. Faz um tempo já, uns anos eu acho. Mas é sempre como se alguém acabasse e gritar Fuja para as montanhas! Porra, Lou era casado com Laurie Anderson. Mas Laurie não morreu. Eu achava os dois um casal improvável, mas quem sou eu para achar o que quer que seja sobre isso, não é mesmo? Andy Warhol também morreu, antes de Lou. Lou e John Cale fizeram um disco lindo para Andy. Chama-se Songs for Drella. Drella era um apelido de Andy.

John Cale tá vivo, cabeça branca. Ele tá lindo… Nasceu no País de Gales, no mesmo março de 1942 que o nova iorquino Lou, com uma semana e um oceano de distância entre os dois. Outro dia vi uma entrevista com ele, sem legenda, lutando para decifrar algum inglês por dentro daquele sotaque. Há muitos anos vi um documentário sobre ele. Chamava-se Words for the Dying e era sobre a gravação de The Falklands suite, em que ele musicou os poemas de seu conterrâneo Dylan Thomas. Vi numa sessão obscura no CCBB; uns 80 minutos com a gente acompanhandoa gravação daquele disco que viria a ser lindo… um estúdio em Moscou, Brian Eno capitaneando a produção. Depois Braian e John fariam ainda um disco juntos, Wrong way up, que eu comprei bem baratinho numa distribuidora de discos enorme, que ficava na rua Imperial, no Recife.

Depois disso o tempo passou e esse filme ficou na minha cabeça para sempre, como um fantasma. Eu não lembrava mais do nome, só recentemente lembrei que a internet poderia me ajudar nisso e o redescobri. Ainda assim os sinais dele na web são mínimos, o suficiente para eu saber que não foi um sonho. Ou que seja um sonho. E é como num outro sonho dentro do sonho que lembro que Braulio Tavares, o Trupizupe de Campina Grande, ousou sua própria tradução para Do not go gentle into that good night, que Dylan Thomas publicou em 1952, dez anos depois do nascimento de John Cale.

Não siga mansamente para essa noite em paz.
Os velhos deviam arder e festejar, no fim do seu tempo.
Esbraveje, esbraveje contra a luz que se vai.

Embora homens sábios descubram o bem que a treva traz,
suas palavras não raiaram relâmpago algum, e eles
não seguem mansamente para essa noite em paz.

Homens bons lamentam, nos seus impulsos finais,
que seus feitos não brilhem sobre as ondas verdes;
esbraveje, esbraveje contra a luz que se vai.

Homens rebeldes, que arrebataram o sol em cantos fatais
mas só viram depois o quanto o fizeram sofrer,
não seguem mansamente para essa noite em paz.

Homens graves, à morte, vendo as luzes finais,
com olhos cegos alegres pelos meteoros que arderam,
esbravejam, esbravejam contra a luz que se vai.

E você, meu pai, que já se eleva para os seus umbrais,
que suas lágrimas me sirvam como maldição e bênção.
Não siga mansamente para essa noite em paz.
Esbraveje, esbraveje contra a luz que se vai.

(Tradução de Braulio Tavares)

Songs for Drella é um disco triste, sobre uma perda irreparável. Homens que se perderam antes mesmo que um deles morresse. Os caminhos todos interrompidos. Ao longo da gravação e apresentação do disco Lou e John brigaram, não encontraram, e nem poderiam mais encontrar, um equilíbrio qualquer. Mas ainda assim nos assombra o violino de Cale sob a voz de Reed.

I really miss you, I really miss your mind
I haven’t heard ideas like that for such a long, long time
I loved to watch you draw and watch you paint
But when I saw you last, I turned away…
(Lou cantando para Andy em Songs for Drella)

E eu pensava no que eu teria ido comprar ali, naquele supermercado. Lista de compras improvisada na cabeça por nunca fui bom em listas de compras. Vinho, comprar vinho para brindar a Lou e Andy e John. Eu lá no meu quarto, num ano distante, colocando New York, recém lançado, para tocar. A voz de Lou anunciando os anos 90… The past keeps knock
knock knocking on my door / And I don’t want to hear it anymore
. E ao mesmo tempo eu ouvia Laurie Anderson no Home of the brave. Como eu amava Laurie Anderson, com toda sua modernidade, tantas referências; parecia que eu tinha que ler um monte de livros para receber e entender aquilo. Tão diferente de Lou que era tão visceral e marginal e perdido e todas essas coisas que a gente amava porque não convivia com ele. Gente, como os dois acabaram juntos, né?! Eu nunca imaginaria! Mas é isso, estavam ali o tempo todo na mesma letra da ordem alfabética dos meus discos. Ambos, cada um a sua maneira, colocando à prova o sonho triste americano.

Você tem que se ligar que tudo isso me vinha à mente enquanto eu circulava meio a esmo pelos corredores do supermercado. Você sabia que Jean-Michel Jarre, ele mesmo, dos sintetizadores, fez um disco chamado Musique pour Supermarché? Foi prensada apenas uma cópia em vinil e diz-se que as masters foram destruídas. Lembro de quando via aqueles filmes americanos e tinhas aqueles supermercados enormes, brancos de luz, que só vim ver pessoalmente anos depois. Templos de consumo, pra voc~e ver que tudo, tudo é religião. E religião impõe a garrafa de vinho mágico já a bordo do carrinho; talvez eu precisasse de algum queijo para o ritual de invocar os deuses que persigo. Enveredando pelas áreas refrigeradas, cheias de iogurtes, presuntos e outras coisas que estragam sem a ajuda das máquinas, acabei por esbarrar nas carnes… E lembrei de Walt Whitman. Mas o Whitman de Allen Ginsberg, talvez por que Lou e Allen se conectavam na minha cabeça de alguma maneira. Lembrei inevitavelmente dos versos de Um supermercado na Califórnia, publicado em 1956 no livro Uivo e outros poemas. Este era um dos outros poemas.

Um supermercado na Califórnia

Como estive pensando em você esta noite, Walt Whitman, enquanto caminhava pelas ruas sob as árvores, com dor de cabeça, autoconsciente, olhando a lua cheia.

No meu cansaço faminto, fazendo o Shopping das imagens, entrei no supermercado das frutas de néon sonhando com tuas enumerações!

Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras fazendo suas compras a noite! Corredores cheios de maridos!

Esposas entre os abacates, bebês nos tomates! – e você, Garcia Lorca, o que fazia lá, no meio das melancias?

Eu o vi Walt Whitman, sem filhos, velho vagabundo solitário, remexendo nas carnes do refrigerador e lançando olhares para os garotos da mercearia.

Ouvi-o fazer perguntas a cada um deles; Quem matou as costeletas de porco? Qual o preço das bananas? Será você meu Anjo?

Caminhei entre as brilhantes pilhas de latarias, seguindo-o e sendo seguido na minha imaginação pelo detetive da loja.

Perambulamos juntos pelos amplos corredores com nosso passo solitário, provando alcachofras, pegando cada um dos petiscos gelados e nunca passando pelo caixa.

Aonde vamos, Walt Whitman? As portas fecharão em uma

hora. Para quais caminhos aponta tua barba esta noite? (Toco teu livro e sonho com nossa odisséia no supermercado e sinto-me absurdo)

Caminharemos a noite toda por solitárias ruas? As árvores somam sombras às sombras, luzes apagam-se nas casas, ficaremos ambos sós.

Vaguearemos sonhando com a América perdida do amor, passando pelos automóveis azuis nas vias expressas, voltando para nosso silencioso chalé?

Ah, pai querido, barba grisalha, velho e solitário professor de coragem, qual América era a sua quando Caronte parou de impelir sua balsa e Você na margem nevoenta, olhando a barca desaparecer nas negras águas do Letes?

https://www.youtube.com/watch?v=zcTI7em_w2E
Allen Ginsber lê Um supermercado na Califórnia, no Centro de Poesia da Universidade Estadual de São Francisco – 25 de outubro de 1956

As águas do Letes. Lembro exatamente de ler isso sentado na areia da praia de Ipanema, lembrando de um amigo que eu não via há muito tempo. Lembrei dele ali no supermercado, por causa de Whitman, que lemos tanto, por causa de Lou ou Allen. Escutamos juntos Strange Angels, de Laurie, quando foi lançado, no mesmo ano que New York. O encanto de uma pequena música, The dream before, que relia para nós o Anjo de Walter Benjamin que leu o anjo de Paul Klee, que fazíamos de conta compreender.

As águas do Letes, que Lou e Andy já haviam atravessado. O super movimentado Letes. Imagino um ocupado Caronte em viagens e mais viagens sobrepostas em camadas fora do tempo, para dar conta de toda essa gente, recebendo seus trocados como os caixas do supermercado onde eu vagava, como se tivesse roubado meu próprio barco para cruzar o Letes e tivesse me perdido, à deriva na correnteza. Em Farway, so close, de Win Wenders, Lou encontra o anjo Cassiel na pior e lhe dá algum dinheiro para se virar. Quantas vezes estamos por aí dando dinheiro a Caronte sem nem saber?

Angelus Novus, de Paul Klee (1920) – Atualmente faz parte da coleção do Museu de Israel, em Jerusalém.

Tudo no supermercado estava morto e embalado, tudo nos carrinhos empurrados por fantasmas. Só eu estava lúcido, talvez, salvo do transe pela música que fluía pelos fones de ouvido, salvo por um Whitman imaginário em busca de alimento para a alma vagante. Recentemente eu havia comprado a edição de leito de morte de seu Folhas de Relva e uma edição de bolso de Uivo e outros poemas. Lou morreu e Allen morreu e seu Uivo inteiro é uma litânia sobre a morte e contra a morte. John Cale está vivo em algum lugar, planejando um disco ou um show, sem pensar sobre Lou, me apego a isso, à vida que há no que John faz. Me apego a Laurie, Laurie Anderson, que mesmo quando fala da morte é somente por estar viva.

Abandonei ao relento das gôndolas as caixas, congelados, latas e sprays. Abandonei a morte no supermercado e caminhei à luz do dia procurando Walt Whitman sem encontrá-lo, carregando nas sacolas vinho e pão e queijo. No fone de ouvido, misturado ao ruído do ônibus que passava ao meu lado, tocava Style it takes, com John cantando…

Let’s do a movie here next week…

Fiquei com o frescor desse verso. Quando estávamos na universidade queríamos sempre fazer um filme na semana que vem e esse espírito livre vive em mim até hoje: Vamos fazer! Caminhando para longe do supermercado, cruzando ruas, ignorando semáforos e o movimentado tráfego do Letes ao meu redor.Uma ilha cercada de música, cercada de mortos que cantam aos mortos e vivos que cantam aos mortos e cantam porque… porque do contrário o supermercado vencerá. E isso não pode acontecer.


Meu nome é Numa Ciro

A Revista Kuruma’tá tem a alegria de trazer para você a poesia de Numa Ciro. Seu Martelo Agalopado, em resposta ao Trupizupe do poeta Braulio Tavares, é a porta que se abre para um universo riquíssimo, vibrante, feito de poesia, teatro e música. Numa Ciro tem ousadia e força no seu fazer artístico, que se mistura com sua vida e a vida de quem dela se aproxima. Planeta exercendo sua gravidade e fazendo a luz girar.

Poema de Numa Ciro


A Revista Kuruma’tá tem a alegria de trazer para você a poesia de Numa Ciro. Seu Martelo Agalopado, em resposta ao Trupizupe do poeta Braulio Tavares, é a porta que se abre para um universo riquíssimo, vibrante, feito de poesia, teatro e música. Numa Ciro tem ousadia e força no seu fazer artístico, que se mistura com sua vida e a vida de quem dela se aproxima. Planeta exercendo sua gravidade e fazendo a luz girar.

O poema Meu nome é Numa Ciro foi publicado originalmente no Lendário Livro. Lançado em maio de 2018 o Lendário Livro, pela Rubra Editora, é uma coletânea de poetas, com organização de Toinho Castro e participação de Numa Ciro, do próprio Toinho, Aderaldo Luciano, Braulio Tavares, Nonato Gurgel e Otto.

Este Martelo Agalopado responde ao desafio
Meu nome é Trupizupe
de Braulio Tavares

Pois não tinha serventia metáfora pura ou quase o povo é o
melhor artífice no seu martelo galopado no crivo do impossível
no vivo do inviável no crisol do incrível do seu galope
martelado…
Galáxias – Haroldo de Campos

Ao cantar desafio estou contigo
Oh poeta que sigo e admiro
Estatura não tenho mais prefiro
Ser o anjo que afasta o inimigo
A morada do amor é meu abrigo
O desejo da rima é combinar
O sentido do mote está no ar
Quem pegar na palavra diz o seu
Quem pensar que eu não canto escute o meu
É com ele que vou me apresentar

Meu nome é Numa Ciro
Sou a relva da Campina
Meu nome é Numa Ciro
A providência divina

Meu nome é Numa Ciro
Sou artista de Campina
Meu nome é Numa Ciro
A providência divina

Sou o vôo do desejo no horizonte
O riso da criança desejada
Lisboa, em Pessoa, visitada
A verdade beijou a minha fronte
Sou La Dolce Vita de uma fonte
A taça nas mãos do vencedor
O peito que acolhe o perdedor
A brisa da sorte na desdita
Sou a crença daquele que acredita
No projeto de paz de um sonhador…

Sou a voz que atravessa a escuridão
A voz da minha mãe sempre a cantar
As vozes das cantigas de ninar
A conversa que esquenta o coração
Sou boneca de pano de algodão
Imitou-me a rainha de Sabá
Do sermão eu soletro o bê-á-bá
Pelos meus belos olhos um império
Conquistou os recintos do mistério
Sem meu canto esse mundo o que será

Sou o susto da paixão inesperada
O beijo na bela adormecida
A valsa de Strauss em nossa vida
Quando o frevo revela a mascarada
Com a varinha de condão sou essa fada
Sou a mão que recebe o visitante
A casa que acolhe o habitante
E a certeza do pão de cada dia
Eu não posso viver sem harmonia
Sou Chiquinha Gonzaga e Alcione

Madalena confessou o meu pecado
Fui o ócio da primeira vagabunda
Dos meus sonhos a beleza é oriunda
A história nasceu do meu passado
Meu destino pelo verso foi traçado
Fui o sopro de Deus na criação
Sou o Bumba-meu-boi do Maranhão
No cordel sou a rima das sextilhas
Alice no País das Maravilhas
E as sete cataratas do sertão

Sou-o-chi-ne-lo-ve-lho-pro-can-sa-ço
A pausa no mundo que tem pressa
O carrinho na escada de Odessa
E a silhueta do velho Encouraçado
Sou a água que chove no roçado
E o sol que desponta na Sibéria
Utopia que acaba com a miséria
Sou a noiva no altar do casamento
A dor que caiu no esquecimento
E o remédio que mata bactéria.

Sou o dom de ler a mão de uma cigana
De Beethoven a nona sinfonia
Sou a noite que separa o dia-a-dia
E o domingo entre os dias da semana
Sou o fogo que alimenta a velha chama
A Natureza duradoura do amor
A violeta do olhar de Liz Taylor
Sou o fio que desmancha o labirinto
Eu só falo o que penso e o que sinto
Sou a boca carnuda de Bardot

Sou na Festa de Babette o apetite
Sou a bola na cesta do basquete
As coxas perfeitas da vedete
E a forma do belo em Afrodite
Sou A Nega Zefa A deusa Lilith
O raio de Iansã da Conceição
Vaidade aberta em leque do pavão
Sou as águas de março em abril
As cores da Aquarela do Brasil
Sou a força dos cabelos de Sansão

Só se fala atualmente em internete
Endereço eletrônico navegar
Comunica quem aprende a sitiar
Uma bomba que não mata mas impede
A conversa cara a cara sem confete
Pois eu acho esse caso muito sério
Manuscrito já perdeu o seu império
Sobre isso escrevi sem nostalgia
E pra não ter o atraso de um dia
Eu mandei-o para Braulio por e-méio

Meu nome é Numa Ciro
Sou a relva da Campina
Meu nome é Numa Ciro
A providência divina

Meu nome é Numa Ciro
Sou a relva da Campina
Meu nome é Numa Ciro
A providência divina

Aprendi com minha avó, desde menina,
A fazer da cantoria vocação
Assistindo Retalhos do Sertão
Na rádio Borborema de Campina
Zé Limeira confirmou a minha sina
James Joyce com Homero foi casado
Guimarães Flor Lispector encantado
Eu não posso viver sem escritura
Se transforma em criador a criatura
Quando eu canto martelo agalopado


Uma fotografia #02

Queremos compartilhar. Queremos que o outro veja e se assombre, como nós. Muitas vezes nosso parceiro nessas aventuras também estende o braço e aponta numa interjeição, num susto: Olha lá É mesmo! Aquilo? Aquele? Nossa, que lindo! Que terrível! Vamos fugir! [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


A moça, ao lado de sua amiga, ergueu o braço e apontou para algo no céu. Um gesto trivial, que tantos de nós fazemos no nosso cotidiano, para mostrar a alguém uma nuvem, um avião, a lua contra o azul do céu de fim de tarde. Sempre fazemos esse gesto para alguém, sempre para conduzir o olhar de alguém a algo que nos surpreende, nos encanta ou assusta.

Queremos compartilhar. Queremos que o outro veja e se assombre, como nós. Muitas vezes nosso parceiro nessas aventuras também estende o braço e aponta numa interjeição, num susto: Olha lá É mesmo! Aquilo? Aquele? Nossa, que lindo! Que terrível! Vamos fugir!

Esse gesto é tão mais importante que a coisa vista que foi nele que deteve-se nossa fotógrafa viajante do tempo. Um balão Um pássaro enorme? O riso no rosto das duas mulheres não denuncia o objeto do encanto, da fugaz felicidade que se estampa. Apontava para longe dali, para longe da cidade, para além dos prédios e da fiação. Vê-se que o que quer que seja está longe demais. Estão sorrindo, talvez, do impossível que de repente fez-se visto.

Talvez dali tenham resolvido mudar suas vidas. Nada sabemos, se eram amigas da fotógrafa ou se ela simplesmente as viu ao acaso. Não sabemos se há por aí uma foto do que quer que estivesse no céu naquele dia. Como creio que ela vem de um futuro ainda distante, mesmo para nós, pode ser que um dia essa foto chegue até ela, que então contará sua história.

Enquanto isso especulamos. Sobre tudo!

Pego a foto e penso na nossa viajante, vagando pelos antiquários e feiras de velharias em busca desse pedaço de papel que seguro nas mãos. Será então ainda mais antigo do que é agora. Como sei de tudo isso? Na verdade é que eu não sei….


Foto de autor desconhecido, adquirida numa barraca da feira de antiguidades da Praça XV, no Rio de Janeiro.

[Leia Uma fotografia #01]


O limite dos seus sonhos jaz no nosso anonimato

É estranho, injusto e até tacanho termos tentado com tanto afinco fazer contato com outras civilizações e acabarmos com o intento malogrado. Tudo, absolutamente tudo o que ouvimos foram ruídos, chiados e radiação de fundo. Buscamos fora do limite dos olhos, bem além dos nossos limítrofes sonhos, sociedades mais inteligentes. [Texto de Eduardo Frota]

Texto de Eduardo Frota



Os membros dos Jovens Pioneiros, um grupo de jovens do governo soviético, usam máscaras de gás como parte de um exercício de preparação para ataques na área de Leningrado, em 1937. — Viktor Bulla / Wikimedia Commons

O mundo acaba hoje – disse o profeta.

E aqui na Terra, em toda a superfície dessa rocha errante, os viventes desligaram seus aparelhos celulares pela primeira vez. Era um dia quente, excruciantemente quente. Com as palmas suadas, porém desocupadas, puderam todos estender a mão a quem ao lado estivesse. Para variar, deixamos para nos preocupar com tudo na última hora, no último suspiro. Não é possível que partiremos sem respostas. Não explicamos de onde viemos e nem para onde vamos. Se somos apenas uma ínfima peça integrante de um joguete preso à gravidade ou se somos uma ridícula raça fadada a mandar pelo opressivo e vasto espaço inúteis sondas e foguetes.

Vamos embora sem respostas? – insistiu um humano.

É estranho, injusto e até tacanho termos tentado com tanto afinco fazer contato com outras civilizações e acabarmos com o intento malogrado. Tudo, absolutamente tudo o que ouvimos foram ruídos, chiados e radiação de fundo. Buscamos fora do limite dos olhos, bem além dos nossos limítrofes sonhos, sociedades mais inteligentes. Obviamente, tão diferentes da gente, já que falhamos assombrosamente em usar a pouca capacidade que temos, na qualidade de mamíferos bípedes com encéfalo desenvolvido, de andar para frente. 

Nós enviamos sinais pedindo respostas – alegou um cientista.

Ele insistia, mas ninguém dava crédito, era o que parecia. A era das trevas fundou uma realidade brutal. Odiava-se a ciência, amava-se a onisciência episcopal. Tentamos via imagem, som, música, verso. Nada. Mas fizemos o melhor, decerto. 

Me dá um trocado? – pediu um mendigo.

Pobres e ricos, na hora do desfecho serão todos reduzidos a pó, em montes de cinzas da mesma cor. Serão varridos feito indigentes sem um pingo de cumplicidade, carisma ou amor. Para dizer a verdade, camaradas, mal conseguimos estabelecer uma conexão com nossos semelhantes, cujas diminutas diferenças jazem em microscópicas e reluzentes moléculas de ácido desoxirribonucleico.

E como vai ser?

O profeta provavelmente era o único que estava certo, como esteve em centenas de milhares de outras vezes. Até o cataclismo, seguiremos presos ao baile cósmico sem saber dançá-lo, pisando nos pés uns dos outros, burilando cinismo, sem perceber que a flecha do tempo segue adiante. 

O anonimato cósmico talvez seja uma saída digna. Podemos todos fechar os olhos.