A Cálida noite de Eduardo Ezus

Revista Kuruma´tá recomenda! —


É de Natal, a Cidade do Sol, que vem a poesia de Eduardo Ezus, que está lançando, em novembro, seu segundo livro, Cálida Noite. A Kuruma’tá, que aposta na nova poesia, na descentralização criativa e na diversidade de vozes, fica feliz demais com essa publicação.

Lançado pela Margem Edições, de Belo Horizonte, o livro está em pré-venda até 16 de novembro, e se você acredita na poesia independe como a gente, chegue lá e reserve o seu.

Generosamente, Eduardo compartilha com a gente dois dos seus poemas:

*
Ali haveremos de retomar
o passeio sobre os instantes
e descalços sobre espessa areia fina
seremos como a noite é para a lua
o manto
À tábua rasa dos desejos
finda a sombra arvoreira
o mundo desabará
como em úmidas camadas salgadas
e entre as vagas será de vagar
a nossa vida.

*
De brumas a mover-se
em fulgor disperso no ar
é a matéria deste pensamento
Seguindo o itinerário tonto
em solo segue – tal qual o mar
também o sertão
esse lugar sem bússola
extenso e estreito
enquanto vaga o olhar
como em onda fosse brilho
e brio de existência líquida.

 

Da quarta capa de Cálida noite

É à noite – na desorganização das cidades – que se libera o calor residual do dia, retido nos telhados, nos prédios, no asfalto. É o retrato que se evola quando o sol se esconde deixando suas impressões, e só ao poeta cabem as chaves desse enigma, que nos revela, nos ilumina, através de seus versos. Tal qual o barqueiro, aqui é o jovem Eduardo Ezus quem conduz à jornada da madrugada interior, deslizando sobre o Aqueronte a tinta de seu barco ébrio em seu livro de estreia, Cálida Noite. É preciso coragem para a aventura, pois “Onde navego, o silêncio reina” nos diz. “Já não importa se as páginas / são escritas à beira do abismo”. 
Aviso aos navegantes.

– William Eloi, escritor.

Eduardo Ezus

Amândio Cardoso e seu Rio madaleno

— Poema de Amândio Cardoso O poema Rio Madaleno é mais uma colaboração do amigo, poeta e publicitário Amândio Cardoso, com seu olhar sensível sobre a cidade, que é também uma cidade interior.

— Poema de Amândio Cardoso

O poema Rio madaleno é mais uma colaboração do amigo, poeta e publicitário Amândio Cardoso, com seu olhar sensível sobre a cidade, que é também uma cidade interior.


Rio madaleno

Esse pouco rio que tenho, é o pouco rio que tenho
Para quê mais? Se esse é o rio que me cabe nos olhos
O pouco rio imenso que ocupa minha varanda
Verde e encurralado por prédios
Resiste como capivara esse pouco rio que resta
O rio, que na foto é um lago para quem vê da Argentina, é apenas uma ideia de longe
Esse pouco rio que vejo de cima me basta como um céu
Para que mais de um rio se neste olhar ele fica-me perfeito e eterno, como as lembranças da Mandela que ele carrega e cerca?
Fique assim como um rio madaleno
Leva me esse dia
Leva me Graças
Molha-me esta Páscoa

Abril de 2021

Ilustração de Amândio Cardoso

Ritos Encantatórios & Outras ladainhas, de Aline Cardoso

É através da palavra que existimos no mundo, decidimos iniciar ou fechar ciclos, é através do verbo que ritualizamos o cotidiano.
— Aline Cardoso


Texto de Toinho Castro

A paraibana Aline Cardoso é uma realizadora. Escritora/poeta, professora, editora, ativista cultural com o Sarau Selváticas. Neste instante em que escrevo, ela deve estar aprontando algo, elaborando páginas e livros, planejando inserções poéticas no cotidiano da cidade, revirando o interior pra destilar literatura. Conhecer Aline foi conhecer uma energia vibrante, corajosa. Isso está no seu texto, na sua poesia (que reside para além do texto inscrito na página). Poesia é uma condição humana e Aline sabe disso!

Entre 2019 e 2021 publicou os livros de poesia A proporção Áurea do Caos e Harpia. Agora ela nos chega com seu primeiro livro de prosa ficcional, Ritos Encantatórios & Outras ladainhas, pela sua editora, a Triluna! Diz Aline que não havia projeto para esse terceiro livro. Escritas num transe de 12 horas, as páginas lhe caíram como um raio. E que raio auspicioso foi esse, que raio revelador. São 20 textos curtos, espertos, ou melhor, despertos. Que se desenrolam como quem conversa com o leitor. E esse leitor é dinâmico, não pode ser passivo. É um leitor chamado a pensar, se pensar, se posicionar narrativamente. Como ela diz, é um convite ao leitor, para que ele cante para as serpentes. Bonito isso, né?!

Aline Cardoso inicia “Ritos encantatórios e outras ladainhas” fincando, com força, os pés no chão da identidade: “Eu sou negra e potiguara”. A firmeza desse posicionamento orienta sua escrita. E esse “sua” inclui todo o passado, o presente e o futuro que a constituem: a bisavó arrastada, domada, marcada e estuprada pelo invasor; a vó parteira; a mãe; ela mesma, professora: “eu quero tá dentro da escola pública. Pobre bem informado é hidra”; e sua filha.

Do prefácio de Alexsandro Lino

Palavra da Aline

É através da palavra que existimos no mundo, decidimos iniciar ou fechar ciclos, é através do verbo que ritualizamos o cotidiano. A linguagem que dá corpo a Ritos é fluida e de fácil compreensão, optei por produzir ficções curtas em primeira pessoa sem a descrição de personagens, exceto no primeiro texto que abre o livro. Voltando a atenção e o foco narrativo para o enredo, experimentei conduzir o leitor por diálogos breves, fluxos de consciência e especulações típicas do dia a dia. A conversação típica está imantada de poesia, é da palavra que nasce nos coletivos que a literatura precisa se alimentar para manter-se viva, para adentrar nos mais variados contextos. Procurei escrever como quem conversa com um amigo, como quem conta pequenos segredos, explorando a curiosidade do leitor ao não lhe entregar todos os elementos fechados e encerrados na minha concepção de ser. Quando escrevo em primeira pessoa dou ao outro o lugar agente, coloco-o ativo dentro da narrativa, cedo às vestes de serpente para que encarnem o livro, inauguro um serpentário e convido o leitor a cantar para as serpentes. Escrever, para mim, é sempre o exercício de rebuscar o que há de pulsante na vida e em nossas ladainhas, a fim de manter fresco o mistério, sangue que alimenta o encantamento pela palavra.

Lavro e dou fé!

Acredito enormemente no trabalho da Aline, no alcance de sua poética, ainda que seja prosa! Mais que isso, no alcance e relevância de sua atitude poética. Publicando sua prosa, em Ritos Encantatórios & Outras ladainhas, Aline abre novos espaços afirmativos. Apura

A Editora Triluna é independente, como Aline. O processo de publicação se dá com o apoio dos leitores, confirmando que é o leitor que dá vida ao livro. Tiragens pequenas, sob demanda, que vão espalhando a literatura da Paraíba pelo mundo. Os livros da Triluna podem ser encontrados na Biblioteca Pública de Nova York e nas bibliotecas das universidades de Stanford, Columbia e Yale. Ritos encantatórios já segue esse caminho. Aline tem ciência do caminho do livro, desde a escritura, passando pela sua produção, incluindo o projeto gráfico, até a distribuição e divulgação. Linha direta com quem importa. Com quem lê

Anote: Entre na lista de pedidos para a próxima tiragem de Ritos Encantatórios & Outras Ladainhas, entrando em contato direto com a Editora. O livro custa R$ 37,00 com frete incluso:

E-mail: [email protected]
Telefone: +55 83 99177-9399
Instagram: @editoratriluna


ALINE CARDOSO é natural da Parahyba, Feminista, Artivista, Professora de Linguagem, Mestra em análise do discurso pela UFPB, Provocadora cultural do Sarau Selváticas, Cofundadora do Sagaz Zine, Fundadora da Editora Triluna, Doula, Bruxa e Mãe Solo. Publicou entre 2019 e 2021 os livros de poesia: A proporção Áurea do Caos, Harpia e o seu primeiro livro de ficção: Ritos Encantarórios & Outras Ladainhas.

LEIA A POESIA DE ALINE CARDOSO NA KURUMA’TÁ


“Nunca esqueci de quem somos descentes” — Amar antes que amanheça, de Cristiane Sobral

Texto de Toinho Castro


É preciso ter curiosidade, é preciso querer mais e preencher lacunas. Nas livrarias, nos sebos, vá e procure por outros livros. Não por esse ou aquele outro do autor de sempre. A literatura é o reino das possibilidades. Por favor, leia abrindo portas, abrindo caminhos. Tenho nos últimos tempos me dedicado a isso, ao romper da rotina literária, do terreno familiar, para me embrenhar em matas de letras, riachos de palavras novas. Assim que dei com a literatura de Cristiane Sobral, que, vejam só, eu não conhecia. Uma autora com 11 livros publicados, num jogo de contos, poesia, teatro, ensaios. Uma mulher inquieta, pensante, com um texto desafiador. Uma mulher negra, que me aponta uma grandeza de tradições, ritos, narrativas e afetos, que eu preciso olhar. Preciso adentrar.

Aprender a ler outrem. Aprender é ler outrem.

Amar antes que amanheça (que título poderoso!) é o décimo primeiro livro de Cristiane Sobral. E aprender dela somente nesse livro, é uma denúncia da lacuna enorme que preciso preencher. Publicado pela bravíssima Editora Malê, o livro reúne 15 contos em que o amor é uma força motriz, e ao mesmo tempo uma leveza generosa. Um refúgio nesse mundo de tensões, atritos, violência. Amar antes que amanheça. Amar antes de tudo. Amar antes.

No conto que abre o livro (sem spoiler, por favor!), vamos sendo enredados numa história que se dá na rua, que vai desenhando um caminho e um desfecho, e que, de repente, se deslinda no real, num tapa de acorda! Quem és tu?! Demorei a entrar no segundo conto, porque aquele começo me chamava de volta. E voltei e li de novo, atento, sob uma perspectiva nova, didática, certeira. Que coisa bela ser tirado do lugar assim.

Aí sim fui para o segundo conto, e para o terceiro, numa jornada que não cessa e pede mais, mais dessa literatura que nos exige tirar o véu. O amor em toda parte para quem o procura e o inventa. São páginas de mitologias, história, geografias, revelações e, sobretudo, desse novelo/novela que é ser gente. A leitura de Amar antes que amanheça é tão fluida e natural, que quando você dá por si, o livro já tomou conta do seu imaginário, do seu pertencimento. Os povos negros que povoam suas páginas vem de tantas origens, tantos caminhos, para dar aqui, nesse labirinto de encontros e desencontros, a sua história. Leio para aprender. Leio para não esquecer.

Cristiane Sobral é uma contadora de histórias, e reúne ao seu redor as comunidades muitas, no tempo e no espaço, de que são feitas as vidas da gente. A história é essa pedra que cai na água e provoca essas ondas concêntricas, que vão se espalhando e impactando, transformando nossas vidas. É o papel de quem conta histórias. É sua força, iniciar esse ciclo de mãos dadas.

A literatura afro-brasileira é porta e janela abertas. E convite. Temos muito o que ler nessa senda. A obra de Cristiane Sobral tá me chamando, e a esse chamado eu atendo.


Em 2010, Cristiane Sobral publicou seu primeiro livro individual, Não vou mais lavar os pratos. Dele destaco o poema que dá nome ao livro, para compartilhar a energia poética de Cristiane e sua força afirmativa, de vida.

NÃO VOU MAIS LAVAR OS PRATOS

Não vou mais lavar os pratos
Nem vou limpar a poeira dos móveis
Sinto muito
Comecei a ler
Abri outro dia um livro e uma semana depois decidi
Não levo mais o lixo para a lixeira
Nem arrumo a bagunça das folhas que caem no quintal
Sinto muito
Depois de ler percebi a estética dos pratos
a estética dos traços, a ética, a estática
Olho minhas mãos quando mudam a página dos livros
Mãos bem mais macias que antes
Sinto que posso começar a ser a todo instante
Sinto. Qualquer coisa
Não vou mais lavar. Nem levar
Seus tapetes para lavar a seco
Tenho os olhos rasos d’água
Sinto muito
Agora que comecei a ler quero entender
O porquê, por quê?
E o porquê
Existem coisas
Eu li, e li, e li
Eu até sorri
E deixei o feijão queimar…
Olha que o feijão sempre demora a ficar pronto
Considere que os tempos agora são outros…
Ah, esqueci de dizer
Não vou mais
Resolvi ficar um tempo comigo
Resolvi ler sobre o que se passa conosco
Você nem me espere
Você nem me chame
Não vou
De tudo o que jamais li, de tudo o que jamais entendi
Você foi o que passou
Passou do limite, passou da medida, passou do alfabeto
Desalfabetizou
Não vou mais lavar as coisas e encobrir a verdadeira sujeira
Nem limpar a poeira e espalhar o pó daqui para lá e de lá para cá
Desinfetarei as minhas mãos e não tocarei suas partes móveis
Não tocarei no álcool
Depois de tantos anos alfabetizada
Aprendi a ler
Depois de tanto tempo juntos
Aprendi a separar

Meu tênis do seu sapato
Minha gaveta das suas gravatas
Meu perfume do seu cheiro
Minha tela da sua moldura
Sendo assim, não lavo mais nada
E olho a sujeira no fundo do copo

Sempre chega o momento
De sacudir, de investir, de traduzir
Não lavo mais pratos
Li a assinatura da minha lei áurea escrita em negro maiúsculo
Em letras tamanho 18, espaço duplo
Aboli

Não lavo mais os pratos
Quero travessas de prata
Cozinhas de luxo
E jóias de ouro
Legítimas

Está decretada a lei áurea


Mais livros da Editora Malê na Blooks Livraria

Voar é com os pássaros

Texto de Toinho Castro —


Voar é foda, né?!

A primeira vez que viajei de avião, eu era pequeno. Foi com meu pai. Subimos as escadas de um Boeing 727 no Recife, para um voo rumo a Natal, que provavelmente durou menos que 30 minutos e que me apareceu uma eternidade acima das nuvens. Era uma viagem que fazíamos frequentemente de ônibus, pela empresa Nápoles e que, na época, talvez durasse umas cinco horas. Não sei a razão dessa viagem de avião, eu e meu pai. Eu era pequeno. Talvez ele quisesse me proporcionar essa curta aventura. Enorme, porém.

Jamais esquecerei as linhas das estradas, como se eu estivesse olhando num mapa. Nem a múltipla tonalidade dos verdes das matas, e das cidades, maiores ou menores, se insurgindo da terra. Aglomerados de gentes, casas, postes, desejos, vidas inteiras vividas ali, naquele pequenos núcleos, que do alto me pareciam mais neurônios. Acho que, então, eu não sabia o que era um neurônio e essa imagem me vem agora, enquanto escrevo. Mas certamente as vi, as cidades, como afloramentos, olhos d’água brotando e se espalhando. Hoje comparamos a uma espécie de doença, se espalhando e consumindo a terra, moendo a terra para produzir lixo. Do alto assim, não se vê pessoas, mas o efeito delas no mundo. Mas isso é outro assunto.

Fonte: Wikipédia

Aqui, quero falar de voar, dessa visão dos cursos dos rios lá embaixo, serpenteando e reluzindo, espelhos do sol e da lua. De passar entre as nuvens, de ver suas copas flocadas, como de árvores. Eu sempre fui fascinado por nuvens. Seus nomes me fascinavam… Cumulus, Stratos, Cirrus! Vê-las da perspectiva do chão era já incrível e lá estava eu, voando entre elas, acima delas. E acima de mim, alguns quilômetros acima de mim, a gradação da atmosfera, desfazendo rumo ao espaço exterior. Naquela época, voar de avião era algo um tanto solene. Desde a emissão das passagem, belos carnês preenchidos com a letra caprichosa da moça do balcão do aeroporto, os procedimentos de segurança e o fato, triste, de que não podíamos abrir as janelas. Tudo isso somava-se em ondas de ansiedade que se acumulavam no coração, acelerado, enquanto o avião corria na pista até perder o contato das rodas com o chão. Ali, havia uma suspensão do mundo, e eu realizava um sonho do homem das cavernas. Pensei: Voar então é isso…

Não, não é isso.

Voar é com os pássaros. Aqui me aproprio do título dado no Brasil ao filme Brewster McCloud (1970), do diretor americano Robert Altman. Devo essa a Altman. Esse filme invadiu meu imaginário e era um dos meus títulos prediletos das noites e madrugadas na TV. Ativou sonhos, de voar e de fazer filmes. Voar é com os pássaros virou esse dito que define a situação em que a gente vive, de seres atados à terra. Não, não voamos. Viajar de avião, planar de asa delta e veículos afins, não é voar. Voar é com os pássaros. Mesmo as borboletas, parecem mais levadas pelo ar que qualquer coisa.

Ilustração de Michael Foreman, para Peter Pan.

Outro dia estava assistindo ao filme Em busca da Terra do Nunca (Finding Neverland, de 2004), que conta a história da amizade de J. M. Barrie com Sylvia Llewelyn Davies e seus filhos. Dessa amizade, da relação de afeto do escritor com as crianças, nasceu o clássico Peter Pan. Acompanhamos essa criação no filme, e numa das cenas, um ensaio para a estreia da peça (Sim, Peter Pan foi primeiro uma peça, e só depois foi convertido em livro), os filhos de Sylvia brincam no palco e experimentam ser erguidos pelas cordas que simulam o voo das personagens. Quando a peça é, enfim, exibida, essa, a cena do voo, é o encantamento. Lembro do mesmo encantamento ao ler o livro, Wendy e seus irmãos, e Peter, voando pela janela para a Terra do Nunca. A janela do meu quarto era basculante e eu jamais poderia alçar voo através dela. Rever esse filme e reler Peter Pan, me levaram a escrever esse texto E a vontade de voar, que às vezes dá!

Muitas são as fantasias do voo. Sonhar voando é a definição do ato de sonhar. Buscar o voo, vencer a gravidade, fazer aviõezinhos de papel e construir máquinas complexas, poderosas e caras, somente para se erguer acima das coisas… e ainda assim saber que não poderemos, jamais, bater os braços e sair cruzando os céus, com as pessoas lá embaixo, miúdas, formigas atarefadas, correndo pelas ruas, pelos campos, e apontando, maravilhadas, os dedos em nossas direção.

Voar é com os pássaros.

Quando me levou naquele 727, rumo a Natal, meu pai não fazia ideia do que estava me proporcionando. E acho que nunca disse isso a ele.


Com atraso e com carinho | Órbita, de Mariana Volker

Texto de Toinho Castro


É muito livro, muito disco, muito filme, muita gente, muita arte, muita cultura! Ainda bem, né?! Mas fica difícil dar conta de tudo. Tanta coisa que a gente acessa, aprecia, se espanta e quer comentar, espalhar pros quatro cantos, nos quatro ventos… mas nem sempre a gente consegue. Então alinho aqui uns comentários sobre um trabalho lindo, que me pegou pela alma.

Sim, já deveria ter escrito algo há muito tempo, mas eis-me aqui, agora, a me redimir. Com atraso e com carinho.


ÓRBITA, de Mariana Volker

Querida Mariana.

Eu já te acompanhava e ao teu talento. Por isso, Órbita, seu disco, não deveria ter me surpreendido. Mas que bom que me surpreendeu, que alegria. Isso demonstra o quanto você é capaz de transcender e crescer cada vez mais a cada nova proposição. Isso é lindo. órbita, é lindo. Precisava escrever isso há tempos, mas foi ficando pra depois e depois e demorou. E dois anos se passaram… Que loucura! Mas ao longo dessa demora, posso dizer que muito me demorei nas audições que fiz do seu disco. Muitas. Foi um disco que não saiu da vitrola… algumas canções em especial, mas não era raro deixá-lo acontecer do início ao fim. Uma das trilhas que me levitaram nessa pandemia sem fim (que há de logo acabar!).

Eu sou daqueles que gosta de ouvir uma música de novo e de novo. Adoro looping musicais. E algumas de suas canções me pegou pra valer. Não tiver puder em escutar + Amor, Cheia de curvas ou a própria Óbrita, repetidamente, feito criança que busca aprender algo. Me divirto com sua leveza, me empolgo com o sotaque tão pop e tão bom, e uma delicadeza pra falar de amor, pra falar de si com amor, pra falar comigo, com a gente, com essa clareza. Porque chegou a hora de falar.

Naquele filme A lula e a baleia, sobre o impacto da separação de um casal sobre os filhos, tem a história do filho mais velho, que vai participar de um festival no colégio, e a gente, ao longo do filme, vê ele ensaiando Hey you!, do Pink Floyd… e no dia da apresentação ele anuncia: vou cantar agora uma música que eu fiz. E se põe a tocar Hey you!. Quando, por fim, confrontado com o fato de que não tinha escrito aquela música, que era de uma banda famosa, ele retruca: mas eu poderia ter feito!

Toda essa historinha pra dizer que Órbita, a música, eu poderia ter feito, tal o nível de identificação! Quando escuto, sempre, fico comovido, com seu canto, sua voz linda, o arranjo. Aqueles versos tão bem alinhados e certeiros. Com a natureza óbvia de que essa música fala do que eu sinto, do que eu vivo: Você que acredita no amor / Você que acredita em disco voador… E Cheia de dobras! O que é essa música?! Amo como o piano está em toda parte, porque é seu instrumento, e ele vai se espalhando nas músicas como água, como água do mar, no seu fluxo e refluxo. No seu disco há gravidade, essa força que a gente não vê, e que está em tudo. O piano denuncia essa gravidade poderosa.

É um maravilhoso disco de amor, disco de vida, que escutei demais ao longo dessa pandemiaUma música atrás da outra com você afirmando e reafirmando a necessidade do amor, da diversidade, da alegria, da verdade e do enfrentamento interior. Que coisa linda. Um disco que dá vontade de conversar, de dançar, de ligar pra uma velha amizade e dizer: Preste atenção, meu bem… Agora mesmo tô aqui na noite de Vila Isabel, com seu disco lindo na vitrola, a vitrola virtual do streaming, sentindo essa intensidade de resposta ao tempo, ao seu tempo. Escuto e fico feliz. Pelo que nele há de simples, de denso e de difícil e desafiador. Vixe, que eu queria ele em vinil!

Essa cartinha, Mariana, é somente pra isso. Pra dizer que adoro Órbita, que tenho um grande respeito pelo seu trabalho e que acompanho, com meu telescópio, essa sua trajetória orbital, de perto. Nesse céu noturno e constelar em que sua música se move. E desde de Órbita você tem inventado, criado, construído parcerias, em meio a uma pandemia, e isso é incrível! Bom demais, Mariana!

Com atraso e com carinho
Toinho

PS. E que voz linda é essa, gente?!


Mais de Mariana Volker


O Yin e o Yang no xirê dos Orixás

Texto de Eduardo Macedo


“Será que a Teoria da evolução também se aplica ao restante do Universo? Será que os planetas que melhor se adaptaram ao ordenamento dos seus sóis são os que sobreviveram? Pode ser que sim. Isso me faz pensar que esta subserviência astrológica é justo o que permite a existência de um outro tipo de vida, outra energia, agora transgressora, que pulsa oculta, na antimatéria, no vazio do Cosmos e no branco de uma folha de papel, à sombra de letras sobrepostas. Se os átomos e moléculas que nos compõem, um dia foram poeira estelar, então também podemos pensar o contrário: um dia voltaremos a ser, quem sabe, uma pedra no solo de Marte ou algum dos anéis de Saturno. O desafio é esse. Descobrir que a nossa Shangrilá existe, e que nos será apresentada quando formos levados por entre entranhas desconhecidas de um buraco negro distante”.

Foto de Felix Mittermeier

Muito me impressiona – mas não surpreende – que culturas tão diversas e distintas quanto as da Civilização Chinesa e da Civilização Africana Iorubá tenham feito, milhares de anos antes de Cristo, uma leitura cosmogônica parecida e tenham transformado o produto dessas observações e análises em idéias aplicáveis ao cotidiano de suas sociedades. Em ambas está sempre presente a ideia de harmonia dinâmica e cíclica, que se equilibra através da espiral do tempo.

Antes da Era Colonial, os povos depois reunidos sob a denominação “iorubás” constituíam uma federação de cidades-estados tendo como centro IléIfé. O termo yorubá era usado apenas para denominar o povo de Oyó. A partir do século 19, missionários colonizadores passaram a incluir outros povos sob a mesma denominação: egbás, ijebus e ijexás, dentre outros (Nei Lopes. “Ifá Lucumí – o resgate da tradição”. Editora Pallas, 2019).

No culto às forças conhecidas como Orixás, o universo é vivenciado e compreendido como um processo dinâmico em que forças se atraem e se repelem, se equilibram e se desequilibram. Segundo essa cosmovisão, o equilíbrio não configura uma harmonia estática, mas uma situação de constante movimento – o que também ocorre, em dimensão sobrenatural, no universo das divindades (Nei Lopes. “Ifá Lucumí – o resgate da tradição”. Editora Pallas, 2019).

Xirê é uma palavra Yorubá que significa roda, ciranda ou dança para a evocação dos Orixás conforme cada nação. Como em tudo o mais no Candomblé, tem também os seus preceitos e existe não só uma ordem a se respeitar, como existem palavras e saudações específicas que devem ser ditas para que a convocação dos Orixás seja correta (Fernando Cardoso Rezende Alves. “Xirê: o ritual como performance entre a cultura e o corpo”. TCC (UFU), 2017).

A ordem de evocação das divindades me parece variar conforme varia a referência bibliográfica, o que talvez seja a expressão de possibilidades reais, conforme a Nação ou mesmo a Casa onde o ritual toma lugar. Não pertencendo a nenhuma religião de matriz africana e, dado o forte componente da tradição oral no meio e a justificada preocupação em não vulgarizar conhecimentos sagrados, peço desculpas antecipadas aos que detém de fato esse conhecimento, a quem manifesto o meu profundo respeito. Minha única intenção é conectar e transcender assuntos e áreas do conhecimento.

“…É importante ressaltar que ao longo do processo de sedimentação das religiões africanas no Brasil, alguns coletivos se propuseram a recuperar os cultos de suas nações especificas, porém ainda marcados pela fusão de práticas e cultos propiciados pela diáspora. Pois bem: há variadas nações como Ketu, Angola,Omolokô, Efon e Jêje, todas da antiga região do Benin (Fernando Cardoso Rezende Alves. “Xirê: o ritual como performance entre a cultura e o corpo”. TCC (UFU), 2017).

Vejamos então:

No xirê (ciranda) dos Orixás estão presentes quatro elementos básicos e suas dezesseis qualidades. Fogo, Terra, Água e Ar contém quatro Orixás em permanente comunhão. Do elemento Fogo temos Elegbara, Ogum, Oxumaré e Xangô. Em Elegbara temos a representação do fogo do centro da Terra, o núcleo de ferro e níquel fundidos e incandescentes em seu ponto mais elevado de temperatura. Após receber o movimento de Ogum, a força do caminho, este conteúdo pode ser visto quando das erupções dos vulcões. E daí se organiza em rios de larva que escorrem pelos declives montanhosos como Oxumaré. Posteriormente chega à cristalização das pedras vulcânicas em Xangô. Podemos entender que em Elegbara encontramos o início criador de nossa inventividade, nossa libido, para o surgimento do novo que vai ganhar possibilidades criativas a partir da movimentação feita em Ogum, podendo ser devidamente classificado e organizado em Oxumaré. E receber a arte final em Xangô.

Foto de Clive Kim
Foto de Arnie Watkins

No elemento Terra os quatro elementais são Obaluaiê, Oxóssi, Ossaim e Obá. Aquela pedra vulcânica passa por uma natural transformação até virar um chão empedrado e duro, a terra mais seca existente, símbolo de realidade crua e nua. Ali reside os poderes transmutatórios de Obaluaiê. Ao primeiro contato com a água vai possibilitando a existência de vida animal e vegetal no reino de Oxóssi. Com novos elementos a ecologia ganha diversidade e complexidade. Na preciosidade de plantas, ervas e flores quem manda é Ossaim. Onde a terra é mais molhada se situa Obá. A dura realidade da terra seca deve ser ultrapassada utilizando-se a razão para construir cidades e conhecimentos.

Chegando ao elemento água nos vemos frente às nossas emoções. Nessa dimensão encontram-se Nanã, Oxum, Iemanjá e Ewá. Após a infiltração da água na terra e da realização da fertilidade no estado de lama ela brota pura e límpida. Nanã trabalha nessas fontes e nascentes. Na medida em que escorre, primeiro de maneira doce e suave e depois mais fortemente pelos rios chegamos no campo de trabalho coordenado por Oxum. Os rios caminham para o mar, com toda sua enorme diversidade de vida, nos domínios de Iemanjá. Ao evaporar a água passa do estado líquido para o gasoso sob a égide de Ewá. Nossas emoções são nossas águas: se apresentam puras e límpidas quando nascem e depois correm pelos campos propiciando o surgimento de cidades, fazendo a junção de nossas realidades buscadoras, colocando nossa razão emparelhada ao afeto e assim trazendo nossas paixões e nosso desejo de nos misturar, de criar famílias. Razão e emoção vão nos ajudar a transcender valores na medida em que partimos para novas dimensões.

Foto de Nandhu Kumar
Foto de Daphne Zaras

O elemento “Ar” é quem rege o quarto estágio da dança. Ali estão presentes Iansã, Irôko (o tempo), Ifá e Oxalá. Na mudança para o estado gasoso a água se torna o ar. Que circula, às vezes de forma suave e às vezes com o vigor de grandes tempestades, com a marca registrada da liberdade pois segue em qualquer direção e contorna qualquer obstáculo. Aí trabalha Iansã. O mesmo vento que derruba árvores também espalha sementes e, com elas, o potencial de novas vidas. Em sua ação produzirá muitos segmentos, que somente serão percebidos mais futuramente. Entra aí em ação o Orixá Tempo. Responsável por insondáveis mistérios que podem resultar em grande sabedoria, acúmulo histórico de conhecimento que encontra sua aplicabilidade dando contorno vivencial ao que chamamos destino. Na dimensão dos destinos trabalha Ifá. Extremamente sutil é o resultado desse processo, quando se encerra no encontro com a dimensão maior do amor, e em sua expressão final como ternura, onde reina Oxalá.

Na “Religião Tradicional Africana” a comunicação dos Orixás e demais forças sobrenaturais com os humanos se dá por meio das “falas” dos odus (signos) no sistema divinatório Ifá. Ifá é também semelhante ao I Ching, método divinatório da cultura chinesa cujas figuras – os hexagramas – são formados por séries de linhas inteiras e partidas, semelhantes aos elementos que compõem as representações gráficas dos odus (Nei Lopes. “Ifá Lucumí – o resgate da tradição”. Editora Pallas, 2019). Para se ter idéia do porque é chamado de “sagrado”, tanto o Taoísmo quanto o Confucionismo deitam suas raízes sobre o I Ching (Richard Wilhelm, tradutor do livro para o inglês).

A observação do mundo em torno de si e em seu próprio interior levaram o homem chinês – assim como o africano – à percepção de um fluir contínuo do qual nada escapa. Tudo muda, toda ordem se desordena e se reordena ciclicamente. Opostos se alternam. Tudo muda, mas a mutação é imutável. Há que se compreender, então, os estágios da mutação.

No início, o Livro das Mutações era usado apenas como oráculo e consistia numa coleção de signos, onde o “sim” era representado por uma linha inteira (yang) e o “não” por uma linha partida (yin). Em um segundo tempo as linhas foram combinadas em pares, resultando em quatro possibilidades. A cada uma dessas combinações adicionou-se uma terceira linha, dando origem aos oito trigramas:

Cada trigrama foi associado a uma imagem: Céu, Terra, Trovão, Água, Montanha, Vento, Fogo e Lago, respectivamente. Mas as imagens representam não as coisas, em seu estado de ser, mas suas tendências de movimento. De modo a abranger uma multiplicidade de estágios nos ciclos de cada mutação as oito imagens foram combinadas umas com as outras, dando origem a 64 (sessenta e quatro) hexagramas, com linhas sobrepostas. mutações é o Tao, cujo postulado fundamental é expresso na mandala do Yin e do Yang.

A mesma idéia de ciclicidade é percebida nesses símbolos. Yin como energia mais densa, posta em movimento pela energia quente e etérea Yang. A figura onde duas gotas, uma branca e outra preta se enroscam, com um ponto de cor diferente na “cabeça” de cada gota não é uma imagem estática. É preciso ver movimento, vida nas polaridades complementares e interinfiltrantes.

O Yin se associa à noite e o Yang ao dia. Às seis da manhã e seis da tarde temos momentos de transição. Ao meio-dia e à meia-noite o máximo de intensidade de cada polo. Da mesma forma se dá, ao longo do ano, na sucessão de estações. Verão como Yang máximo, Inverno como Yin máximo e primavera e outono como estações de transição. E também ao longo da vida, na alternância entre infância (primavera), juventude (verão, yang máximo), vida adulta (transição, outono da vida) e velhice – o inverno existencial.

Em épocas e locais diferentes, duas das maiores e mais importantes civilizações da história da humanidade tiveram percepções semelhantes, que foram determinantes no desenvolvimento de sua agricultura, medicina, das regras de relações sociais e até na organização das burocracias de Estado. A expressão desses conhecimentos é simbólica. África e Ásia conversam. O texto é um convite para darmos ouvido à essa prosa, darmos significados aos símbolos, darmos a mão e entrarmos na ciranda. Vamos dançar?


Eduardo Macedo Amigo mineiro e grande entusiasta da Kuruma’tá. Médico clínico geral e acupunturista, mestre e doutor em epidemiologia. Mas também solidário, leitor afetivo de Jorge Amado e apaixonado pelos sertões.


Severino Honorato, o poeta na Natureza

Por Aderaldo Luciano


Quem sai de Campina Grande, a Rainha da Borborema, na Paraíba, com destino a João Pessoa, capital do estado, a meio caminho entre uma cidade e outra, encontrará uma localidade chamada Cajá. Ponto de parada para um café com a famosa tapioca do Irmão Firmino, é uma espécie de entroncamento rodoviário, pois quem entrar, um pouquinho antes, à direita, vai chegar em Itabaiana, terra de Sivuca, e, quem entrar à esquerda, chegará em Gurinhém e daí com mais uns poucos quilômetros estará em Mulungu. E é essa cidade, esse pequeno município, situado na região de Guarabira, que nos interessará.

Não se entedie, leitor, com essa pequena introdução geográfica, é apenas um pretexto para falar do poeta Severino Honorato, nascido naquela região, no Sítio Cipoal de Utinga, em fevereiro de 1963. Naquele tempo, o clima ameno, as chuvas perenes, ofereciam um certo caudal ao Rio Mamanguape, cujo leito passa mais adiante, na cidade de Alagoinha. Essas mesmas chuvas fortaleceram o verde, presente nas árvores, nos roçados, nas veredas e caminhos, nos capins e nas capoeiras. Consequentemente a fauna também se fazia ver e ouvir, os animais pequenos e os de criação.

O próprio nome da cidade é retirado da grande árvore conhecida como mulungu. O desenho dessa planta, que sobe aos céus e se espalha como ícone do afeto, povoa o horizonte e quem o vê de longe já sente o seu poder, medicinal que é. Severino Honorato nasceu aí nesse meio, vivendo as vertentes e as caminhagens, ouvindo os pássaros e se assustando com os trovões no tempo de inverno. Esse contato com a Natureza, sagrada para nossos ancestrais, ensinamento de pais e avós, fortaleceu e fez perdurar nele o cuidado, o carinho e o bom trato com o ambiente que habitava. Quando encontra a poesia em sua vida, imediatamente esse motivo lhe habita os versos:

Voltando um pouco no tempo
Num cenário sem magia
Em versos e estrofes faço
Pelo olhar da poesia
Confissões e desabafos
Sobre a nossa Ecologia.

É assim, com esse retorno à primeira infância, que ele inicia o folheto Salve a Natureza – Inclusive o Ser Humano. A magia de sua antiga vivência sofre um corte com a comparação com os dias atuais. E isso fere o poeta, no corpo e na alma. Oriundo do engajamento nas lutas sociais, Honorato, com o poder poético na voz e na letra, observa as contradições da Humanidade. Quando falamos do Rio Mamanguape, perto de sua cidade, rio perene naqueles tempos, nutrido pelas chuvas e pelas matas ciliares nas margens de seu leito, foi por percebermos nesse mesmo poema sua preocupação geral:

Não há mais rios perenes
Serpenteando as cidades
Aquíferos são atingidos
Por ações de insanidades
Mananciais de água doce
Sofrem ações de maldades.

Mais adiante, numa reflexão para si e para os leitores e ouvintes de seus versos, o poeta Honorato abre sua maleta de observações e conselhos para um mundo melhor:

Quem agride a Natureza
Seu conteúdo destrói
Por impulsos da riqueza
Sua fortuna constrói
Mas pagará alto preço
Vilão que se diz herói.

No segundo volume de Salve a Natureza – Inclusive o Ser Humano, a reflexão vai para além da denúncia sobre a agressão ao meio ambiente. Nesse volume, o poeta pensa na mão humana adulterando os genes naturais para a produção de grãos em longa escala. Os alimentos transgênicos tomaram conta do agronegócio, movido pelo capitalismo enlouquecido. Está já na abertura do seu poema:

Querem alterar a gene
das células da natureza
a Ciência está criando
Gene livre de impureza
mas esquecem os cientistas
que as melhores conquistas
são práticas da singeleza!

O conhecimento das regras do cordel, poesia nascida nos rincões nordestinos, oferta a Honorato certa facilidade para a transmissão de sua mensagem. O abraço que o cordel lhe deu é devolvido com maestria nos versos, na métrica e na rima. Ele sabe utilizar o poema para a reflexão, para criar o que nós, estudiosos e observadores dessa forma poética genuinamente brasileira, chamamos de cordel ensaístico. Porque o que Honorato escreve nesses dois volumes de Salve a Natureza – Inclusive o Ser Humano é um ensaio ecológico no qual pensa, reflete e promove o bem-estar social a partir do respeito e cuidado com a Natureza:

Tá na contramão da História
extração sem garantir
plena sustentabilidade
fazendo a vida imergir
nas profundezas da lama
na contaminada fama
que faz o justo sentir!

Os dois folhetos são de 2016, edições do próprio autor, distribuídas em feiras e escolas e eventos. Quando, em 2020, o poeta escreve Carta ao Planeta, a partir das constatações catastróficas sobre a vida na Terra, um pedido de perdão, em nome da Humanidade, é o seu tema principal. O poeta se sente cúmplice da tragédia ambiental planetária e brasileira. As sextilhas de seu cordel foram construídas sobre a dor, sobre o medo, sobre o horror. Mas não é apenas o pedido de perdão. É também a reflexão política mais imediata e certeira. O poeta não poupa os senhores da guerra:

Eu implantei ditaduras
Dizendo que era o bem
Inspirei a inquisição
A guerra insana também
Do luxo criei o lixo
Para pisar mais alguém.

Essa Carta ao Planeta é mais que uma carta, é mais que um pedido de perdão, é uma peça política, é a exposição das vísceras do sistema político e econômico mundial, sentado sobre o lucro a qualquer preço, sobre o desperdício alimentar em detrimento da fome, sobre as perseguições étnicas, sobre genocídios e o desespero dos mais pobres. Como disse, Honorato é um poeta pautado pela ação política, mas sem descuidar da poética:

Perdão por disseminar
Mentiras e falsidades
Eu descobri tudo o quanto
Gozando das liberdades
Mas encontrei no humano
Um pacote de maldades.

Uma das tradições do cordel brasileiro é ser testemunha da história. É uma prática que vem desde os pioneiros e o mais prolífico deles foi Leandro Gomes de Barros, conhecido como Pai do Cordel. Foi ele quem criou, além da forma poética, o sistema literário cordelístico. Tudo o que se pratica hoje nessa forma poética foi criado por ele, ampliado por ele e por ele pensado. Severino Honorato é um discípulo de Leandro. O próprio município onde nasceu deve ter visto o Pai do Cordel passando em direção a Guarabira para visitar seus parentes. O próprio Honorato encontrou, na feira da cidade, os folhetos de Leandro à venda na voz e na banca de algum folheteiro.

Falávamos da tradição de o poeta de cordel ser testemunha da história, narrar os fatos marcantes da sociedade, suas tragédias e comédias. Antes da Carta ao Planeta, Honorato escrevera Brumadinho: Descaso, Tragédia, Crimes. Como o título esclarece é uma obra de intensa reflexão sobre o fato acontecido em Minas Gerais, que chocou o país. A tragédia de Brumadinho é o mais terrível desastre ecológico brasileiro, com danos ambientais irreparáveis, perdas de vidas humanas e destruição da fauna, da flora e dos sistemas pluviais. Honorato consciente de seu papel de repórter e comentarista cordeliano nos inoculou de tensão:

Quem vai sentir minha dor?
Quem conserta meu penar?
Quem vai consolar meu choro
Com tal zelo até parar?
Quem transportará os mortos
Por entre caminhos tortos
Aos túmulos doutro lugar?

São questionamentos, na sextilha do cordel, cutucando firmes e certeiros, a consciência do mundo. Um poema tão forte, escrito para nos levantar do chão. Toda essa força contida no poema tem um histórico. A sensibilidade do poeta que sai de Mulungu, na Paraíba do Norte, e vem para o Rio de Janeiro construir sua dignidade, erguer seu marco de vida, maltratado no dia-a-dia da sobrevivência, recheado de saudade e, muitas vezes ou a maioria das vezes, de solidão. Marcado por essa trajetória, vivido e formado nas lutas sociais e nos atos de resistência, o poeta construiu sua ética e a encaminhou para a causa da preservação da Natureza, da Sustentabilidade, do Grito da Terra e dos Excluídos.

Talvez a última estrofe do poema sobre Brumadinho conclua um emblema para descrever o poeta em sua plenitude. Sua trajetória no universo cordelístico já está delineada e louvada e reconhecida. Sua contribuição para o sistema literário criado por Leandro Gomes de Barros é imensa. Vive em Honorato duas qualidades e virtudes: é humilde sem ser submisso, é excelência sem arrogância. O resumo está na estrofe final de Brumadinho: Descaso, Tragédia, Crimes, como sempre com sua assinatura que não vem em acróstico, mas estendida dentro do próprio texto, parte da própria estrofe, complemento da sextilha:

Este Honorato repele
Riqueza com ilusão
Promessa de vida justa
Sem devida comprovação
Sou contra o poder ingrato
Que assegura em seu ato
O ciclo da escravidão.

Quem vai de Campina Grande, a Vila Nova da Rainha, na Paraíba do Norte, para a capital João Pessoa, pela BR-230, a Transamazônica, passará pelo Cajá, um entreposto para descansar as pernas e comer a tapioca do Irmão Firmino. Um pouquinho antes verá uma placa que aponta para a direita: Itabaiana, Terra de Sivuca. Para a esquerda tem a placa que diz: Gurinhém. Gostaria muito de ver, a cada viagem que fizer, a placa que dirá, apontando para a esquerda: Mulungu, Terra de Severino Honorato.


Jorge du Peixe canta Luiz Gonzaga

Texto de Aderaldo Luciano —


O Nordeste continuaria existindo caso Luiz Gonzaga não tivesse aterrissado por lá há mais cem anos. Teria a mesma paisagem, os mesmos problemas. Seria o mesmo complexo de gentes e regiões. Comportaria os mesmos cenários de pedras e areias, plantas e rios, mares e florestas, caatingas e sertões. Mas faltaria muito para adornar-lhe a alma. Sem Gonzaga quase seríamos sonâmbulos. Ele, mais que ninguém, brindou-nos com uma moldura indelével, uma corrente sonora diferente, recheada de suspiros, ritmos coronários, estalidos metálicos. A isso resolveu chamar de BAIÃO.

Gonzaga plantou a sanfona entre nós, estampou a zabumba em nossos corpos, trancafiou-nos dentro de um triângulo e imortalizou-nos no registro de sua voz. Dentro do seu matulão convivemos, bichos e coisas, aves e paisagens. Pela manhã, do seu chapéu, saltaram galos anunciando o dia, sabiás acalentando as horas, acauãs premeditando as tristezas, assuns-pretos assobiando as dores, vens-vens prenunciando amores. O seu peito abrigava o canto dolente e retotono dos vaqueiros mortos e a pabulagem dos boiadeiros vivos. As ladainhas e os benditos aninhavam-se por ali, buscando eternidade. E um dia, em 2021, dele saltou-nos Jorge du Peixe.

Em releituras belas e disciplinadas, sem macular as melodias, sem invencionices modernosas, Baião Granfino, de Jorge du Peixe, prolonga a alma gonzagueana, avança sobre os nossos dias com seu timbre rouco, mas afinado, seu selo grave, em momento tão agudo de nossas crises existenciais. Jorge segura o baião como um filho frágil, acabado de vir ao mundo. E o baião o sustenta com sua vitalidade. Quanta beleza em suas veredas sonoras, quanta sutileza no seu cantar que, a alguns deve ter assustado, mas que a mim, apaixonou-me. Não feriu a majestade, vestiu-se e caminhou com ela. Trouxe o Assum Preto e sua sina complexa, difícil, dolente, talvez anunciando a sua mesma dor, abrindo um álbum cheio de lirismo e paz, dentro na luta.

A Sanfona Sentida nos fala tão delicada em nosso coração à mostra que nos faz chorar, pelo fôlego que nos falta enquanto sociedade vilipendiada por dias sem ar. O instrumental, corretíssimo, entre a sanfona chorona e chorosa, apaixonante, e um baixo em marcação profunda, capoeirística algumas vezes. Uma percussão adornada pela bateria disciplinada, ciente de suas entradas e saídas. Certezas me carregam de que Dominguinhos aprova, entre as nuvens doiradas. Não sei se Anastácia o ouviu, mas em ouvindo, não se furtará ao peito aberto e receptivo. É minha opinião.

A seleção de canções e sua disposição no álbum, iniciada com Assum Preto, como escrevi acima, essa seleção e essa disposição foram pensadas, anotadas, estudadas, cronometradas. Há um prólogo épico, uma invocação, seguida de uma proposição e um oferecimento. Segue-se uma contação de histórias de amor e alumbramento (Orélia), de despedida e sofrimento (Qui Nem Jiló), de dor na solidão (Sabiá), de redescoberta do amor e da existência (Acácia Amarela). Na sétima casa do álbum, esse número místico e completo, Jorge du Peixe entra com a louvação à ancestralidade (Rei Bantu). Depois dessa iluminação, a vestimenta do baião cumpre seu destino (Baião Granfino).

Cacimba Nova lança um olhar melancólico ao passado de fausto, mas Pagode Russo nos chama de volta à terra e nos grita e empurra para a celebração, pois estamos vivos e fazendo acontecer para a eternidade que virá. Quando o Fole Roncou, as almas recebem o ápice dessa celebração, com guitarras, pedais, eletricidade e a beleza absoluta de Cátia de França, encarnação do talento, do engenho e da arte. Belo álbum que em mim trouxe de volta a Ideia, a Letra, a Vida. Obrigado, Jorge du Peixe, sua voz arrancou-me a lágrima. E com ela, novamente, o Texto. Como diz Cátia, na última frase dos trabalhos: “Isso é eterno!”


Geno e seus pintos

Texto de Eduardo Maciel


Olá, kurumateires amades!

Vim contar uma história pra vocês…

Era uma vez um senhor de meia idade, de nome Geno Syda. Apesar de sua pouca inteligência e atitudes duvidosas, Geno era um homem patriota. Na cabeça dele ele era. Ele podia fazer tudo em dissonância, mas naqueles muitos momentos em que se detinha, mais demoradamente que o esperado, em frente ao espelho, ele poderia chorar jurando seu patriotismo.

De gado, ele entendia muito. Muito mesmo. Era inclusive chamado de Rei do Gado na época da novela, reparem que pândego!

Ai ai… Esse Sr. Geno… Secretamente nutria uma paixão ainda maior do que pelo gado e seu título de Rei: ele amava pintos!

Gente, por favor não me levem a mal! Quando falo pinto, não tem nada fálico aqui! Juro. Até porque se Geno vier aqui para ler esse texto e suspeitar que estou a duvidar de sua masculinidade bruta é capaz de eu levar um tiro de fuzil na cabeça.

Não contei ainda? Então. Geno é além de tudo um colecionador de armas pesadas, porque pra ele um povo armado nunca será escravizado. Enfim… Deixa eu voltar pro pinto…

Esse amor de Geno por pintos sempre foi algo secreto, como eu disse. Ele adorava a cor amarela dos pintos, aquele amarelo tipo o da camisa da seleção brasileira de futebol, sabe?

Mas o segredinho ruiu quando ele resolveu comprar uns pintos na feira livre, que acontecia periodicamente. Foi lá, comprou um montão de pintos e os numerou, chamando cada um pelo seu respectivo número. Que graça!

Ele todos os dias ia lá no cercadinho dos pintos, os alimentava, e chegava até a conversar com eles! Pitoresco.

É claro que, com tanto pinto, muitos se aventuravam a sair do cercadinho. Esses, pro Geno, eram pintos rebeldes: como ousariam contrariar seus mandamentos? Enfim. Por mais que ele tentasse, não conseguia controlar essa rebeldia toda.

Certa vez, amanheceu o dia da Independência do Brasil. Geno acordou animado, muito animado. Afinal ele se achava um patriota, vocês lembram?

Acordou, vestiu sua melhor roupa e foi passear em seu Volkswagen conversível, para ver a movimentação na rua. Seguiu logo pro local onde seus amigos se encontram, pra sentir maior pertencimento.

Depois do passeio, voltou pra casa e começou a beber pra comemorar. Bebeu e bebeu. Comemorou bastante! E, é claro, ficou embriagado, mais do que sempre tivera sido mesmo sóbrio.

Vários dos seus pintos rebeldes, que tinham deixado o cercadinho sem a autorização de Geno, estavam espalhados pela casa, a piar. Piando forte.

Alguns estavam em cima do sofá, no mesmo lugar em que se deixou deitar o corpo ébrio de Geno. Ele deitou sobre os pintos e imediatamente adormeceu.

Seus sonhos não eram sonhos quaisquer. Eram devaneios! E neles, Geno ouvia (dessa vez nem tão marcadamente) um piar ao fundo. Um piar cada vez mais sufocado, engasgado e soterrado. Geno se sentia feliz, por fazer calar (ao menos em seu assim chamado sonho) aqueles pintos rebeldes. Ah, que sonho! Puro sonho!

Ele acorda. Se levanta e, ressacado de tantos estímulos excessivos da véspera, olha para o sofá.

Imediatamente percebe os pintos mortos. Se espanta, pois no sonho ele achava que eram menos pintos no sofá. Que prejuízo, ele pensa. Mas logo destorce o pensamento, no afago interno trazido pela constatação de que ele precisaria alimentar menos pintos, e a economia nas finanças sempre seria mais importante do que o prejuízo com a morte de pintos. Principalmente os rebeldes.

Satisfeito, vai lá cumprir sua rotina, a de dar de comer aos pintos do cercado.

Mas eles não estavam mais lá.

Nenhum deles estava.

É que todos ouviram e viram bem claramente como o dono deles, Geno Syda, foi negligente e agressivo com os pintos rebeldes. E se rebelaram todos.

Quanto a Geno, sem ter mais nenhum pinto pra chamar de seu, restou aquela sensação de fracasso. Dela ele jamais se recuperou. O que já era de se esperar. Afinal, ele era mesmo irrecuperável!