#NowPlaying Niu Uêive

Texto de Fernando Vasconcelos


#NowPlaying Tava aqui fazendo a timeline da Niu Uêive brasileira, esse fenômeno fonográfico da juventude bem nascida branca do sul que passava férias nos EUA naquele tempo que não existia internet e dominou o nosso pop anos 80 e, ainda antes do grande Júlio Barroso 1953-1984 causar com a banda Gang 90 e As Absurdettes meio B-52s (mas Júlio dizia que a inspiração era mais pra Kid Creole and The Coconuts e Gang ele tirou do Gang of Four) no MPB Shell Globo 1981 com Perdidos na Selva, quando voltou de NYC, onde chegou a ser DJ do C.B.G.B. e de onde trouxe as garotas Alice Pink Pank e Mae East, ufa pausa…

…em meio ao mar de cantoras brasileiras fazendo a linha cantora chique de barzinho ou musa emepebê, gravadora WEA lançou apenas como Marina a gatinha carioca Marina Lima em 1979 com um visual sexy hetera roqueira remetendo mais à Joan Jett, Debbie Harry, contemporâneas da new wave lançada na segunda metade dos anos 70 nos EUA. Marina, que passou a juventude na Califórnia, voltou para se lançar no mercado musical, talentosa compositora junto com o irmão Antônio Cícero. O disco nada roqueiro emplacou médio, abria com versão para Solidão de Dolores Duran e acho que Transas de Amor fez sucesso nas rádios talvez trilha de novela.

A nova gravadora Ariola bancou o segundo disco com o single Nosso Estranho Amor feat Caetano Veloso que fez um sucesso fenomenal, abrindo espaço pra Marina gravar o terceiro e mais autoral Certos Acordes, que acho uma pequena joia e tenho até hoje o vinil. De Charme do Mundo a Avenida Brasil, a perfeição pop com arranjos foda. Parei de acompanhar por aí mas estava apenas começando o sucesso de Marina Lima.

Voltando à Niu Uêive brasileira, a Blitz (nosso B-52s tropical) estourou primeiro em 1982 e a Gang 90 gravou em 1983 o fundamental álbum homônimo, o único com Júlio na formação, entrando em abertura de novela global, com a ajuda amiga de Cazuza, filho do dono da Som Livre, com a ótima Nosso Louco Amor. Telefone foi outro grande hit do álbum que tinha até uma versão de I Know But I Dont Know do Blondie. No estúdio de gravação, a banda contou com o baterista Gigante Brasil e o baixista Otávio Fialho, que tocavam com Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção, da brilhante vanguarda pop paulistana de 1980. Júlio Barroso, conhecido como o “marginal conservador” pelas roupas à David Byrne que usava, morreu em 1984 aos 30 anos, caindo da janela do apê onde morava em SP, quando enfim a Gang 90 via sucesso e dinheiro e várias bandas de pop rock estreavam no Brasil.

https://www.youtube.com/watch?v=knay1whxxHs
https://www.youtube.com/watch?v=snbLVpcw-kU

p.s. depois solto um post das várias bandas do rock brasileiro mainstream que pipocaram a partir de 1984 na rabeta da New Wave gringa que já era meio passado.


Golpe de vista – Filme ensaio de Michel Schettert

Dica de Toinho Castro


Golpe de vista é um belo trabalho do cineasta Michel Schettert que precisa ser vista por quem ama o cinema, porque quem tem o cuidado de acompanhar a história do cinema brasileiro, sobretudo quando envolve o Cinema Novo e figuras como as de Glauber Rocha e Anselmo Duarte. É sobre essas duas grandiosidade da nossa sétima arte que Michel se debruça, tendo como vórtex, a realização do primeiro, e único, até agora, filme brasileiro ganhador da prestigiosa Palma de Ouro, no Festival de Cannes: O Pagador de Promessas (1962).

Se, enquanto ensaio, Golpe de vista analisa o entrechoque Glauder/Duarte e sua reverberação no cinema brasileiro, enquanto filme produz uma narrativa por demais poética, numa acertadíssima edição sobre imagens de arquivo. E há, ainda, numa espécie de pontuação a centralidade da câmera. De Dib Lutfi.

Anselmo Duarte permanece como um grande realizador e olhar para seu cinema, revisitá-lo, é necessário pra fazer, não só cinema, mas qualquer arte no Brasil. Golpe de vista é uma oportunidade cristalina desse olhar. Um filme curto, com muitas camadas e vieses, que merece ser visto mais de uma vez.

E você pode assisti-lo agora e tirar suas próprias conclusões e abrir seus próprios caminhos, no CINELIMETE:

Golpe de Vista, de Michel Schettert

Assista também a mostra online de Anselmo Duarte, com quatro dos seus filmes.


A convite do Cinelimite realizei este filme ensaio para a retrospectiva sobre Anselmo Duarte, primeiro cineasta brasileiro a ganhar a Palma de Ouro em Cannes. Pesquisei muito sobre a carreira dele, lendo sua biografia (coleção Aplauso), escutando sua entrevista (Museu da Imagem e do Som) e analisando acervos de imprensa. No recorte que fiz, achei que a encrenca com Glauber Rocha não poderia passar batido e o desencontro com Dib Lutfi também não. Mas para além disso, devo dizer que Anselmo Duarte foi um apaixonado pelo cinema e resistiu à entrada da televisão nos anos 1960. Ele investiu tudo o que tinha para continuar fazendo filmes, mesmo sendo diminuído pela turma do Cinema Novo. Vereda da Salvação (1965, mesmo ano de O Desafio, de Paulo César Saraceni) é o símbolo de sua transformação estética, na qual a câmera assume uma mobilidade jamais esperada para a época. Este filme infelizmente foi censuradíssimo, tanto pelo governo quanto pelos colegas de profissão, mas que valeria a pena ser restaurado só pelo fato de apresentar questões sobre a fé.

Viva Anselmo Duarte, Glauber Rocha e Dib Lutfi! Este ensaio fílmico é para vocês.


Uma carta para Manoel de Barros

Sempre, na Kuruma’tá, essa alegria de receber colaborações espontâneas de gente de todo o Brasil. Hoje abrimos nosso espaço para o escritor, professor universitário e jornalista Alessandro José Padin Ferreira, que nos traz uma bela crônica dedicada ao poeta Manoel de Barros. Bem-vindo à Kuruma’tá, Alessandro!


Crônica de Alessandro José Padin Ferreira


Não reli nenhum dos seus poemas ontem, quando fui dormir pensando em você. Só lembro, nesta minha memória falha que erra até o Hino Nacional, que você entende o canto dos passarinhos, o dançar da terra sob os pés e a beleza de folha balançando em frente à janela, mesmo que não haja flores.

Os passarinhos daqui foram embora lá pra floresta. Aquele vermelhinho, então, nunca mais vi. A terra, coberta pelo concreto, e as flores são, como sempre, resistência. O dia não começa com o som da brisa que vem do mar, tentando acalmar as urgências da rotina. É com o som tonitruante das estacas que lembro onde estou e que tudo pode ser mais duro.

Quando escrevo, mais um caminhão dá uma freada violenta e o rugir do motor reforça minha impotência. Devo ir embora? Não sei. Estou tão cansado e andar por aí pode ser perigoso. Até o sorriso gratuito, que gosto de dar para desconhecidos embrutecidos, é censurado pela máscara que raspa minha barba e me faz sentir pequeno diante de tudo.

Deu uma vontade danada de ler um poema seu agora, para lembrar da minha humanidade e de que nem tudo são ambição e cifras. Deu uma vontade danada de dançar sob a terra, imitar os passarinhos, distribuir flores para os funcionários da obra levarem, com um pouco de ternura, para as suas amadas nos barracos da vida.

Deu uma vontade imensa de ser ridículo aos olhos de quem se acha normal, pois, nesta etapa da vida, concluo que são os ridículos que fazem tudo valer a pena. Aqueles que riem de si mesmos, que não usam guarda-chuva, que tomam café sem açúcar e que param na esquina para ver a goiabeira da infância.

Manoel, hoje é quinta-feira, dia dos Caboclos. É dia de tomar banho de ervas. Alecrim, Aniz Estrelado e outras que preciso ver lá na lista, pois sou esquecido. Acho que vou fazer isso no jardim, para não sujar muito o banheiro.

Fica bem, amigo. Prometo que hoje vou dormir lendo algum poema seu.

Um beijo.


Alessandro José Padin Ferreira é escritor, professor universitário e jornalista. Graduado em Comunicação Social, com ênfase em Jornalismo, pela Universidade Católica de Santos, é mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Após anos dedicados à atividade jornalística e acadêmica, retomou os estudos em linguagens poéticas, vem participando de antologias e prepara o seu primeiro livro com poemas.


Hoje tem Delia Fischer

Texto de Toinho Castro


Que coisa maravilhosa uma grande artista, ao piano, navegando pelas músicas que ela ama, que são de sua formação, do seu coração. É isso o disco novíssimo da Delia Fischer, intitulado, oportunamente, Hoje. Enfiados, que estamos, no meio dessa pandemia, muitos olham para o passado, que não é mais, e outros para o futuro, na expectativa de um retorno ao que havia, ou de algo que seja novo. Então ser chamado assim, com um disco desse, para o HOJE, é um recado precioso. E que o hoje seja feito de ontens, mais ainda!!

Pois é assim esse trabalho lindo da Delia, um caminhar por um cenário afetivo, de grandes canções da música brasileira, grandes compositores que teceram a trilha sonora do Brasil.

Abrindo com Milton Nascimento, e sua Tempo de amar, o álbum segue emocionante até seu encerramento, com a única inédita, num belíssimo dueto com Ney Matogrosso. Na passagem entre uma e outra… Taiguara, que com sua Hoje, dá título ao trabalho, mais Beto Guedes, Ivan Lins, Beatles, Björk, , Flávio Venturini (NASCENTE!!) e o grande Guilherme Arantes. E a gente vai escutando essa seleção que foi sendo tecida ao longo de muitas lives da artista nessa pandemia que não acaba (mas que vai acabar!). São canções que foram refinadas no talento de Delia, ao limite do cristalino. A gente escuta sem acreditar que essas músicas ainda possuem tantas dimensões a serem exploradas e reveladas. É uma riqueza enorme que Delia nos propõe com seu disco. E encantados atendemos seu chamado e nos deixamos levar na leveza redime na confusão desses dias.

Momento afeto pessoal… essa é uma das minhas músicas mais preferidas e vê-la surgir assim, aqui, nessa interpretação comovente, é uma grande alegria.

Fica aqui então, pra vocês, a dica desse trabalho incrível. E não poderia ser diferente com uma artista de tantas camadas e sensibilidades. Hoje está disponível nos plataformas de streaming, e você precisa dar play agora mesmo:

Spotify | Deezer | iTunes

Delia Fischer, ao vivo no Rival!

E mais! É hoje, gente, 2 de julho, que a compositora e pianista Delia Fischer abre as portas mágicas do nosso querido, amado, Teatro Rival Refit, com 40% da capacidade máxima da casa. Ela apresenta o show “Hoje” para promover o álbum homônimo que chegou às plataformas de streaming dia 21 de maio. 

Delia Fischer se apresenta cantando e tocando piano, com a colaboração do cantor e contrabaixista Matias Correa. No repertório, sucessos de Ivan Lins, Guilherme Arantes, Taiguara, Beto Guedes, Beatles, Björk e muito mais.

Ficha Técnica
Delia Fischer: voz e piano
Matias Correa: contrabaixo e voz
Direção musical de Delia Fischer e Matias Correa
Captação de imagens e mídias sociais: Moira Osorio
Fotos de divulgação: Nando Chagas.
Produção do show André Oliveira

Serviço: 2/7, sexta, às 19h30
Ingressos: R$ 47,50 (meia) e R$ 95 (inteira)
Teatro Rival Refit: Rua Álvaro Alvim, 33 – Cinelândia, Rio de Janeiro – RJ, 20031-010
Telefone: (21) 2240-4469
https://www.teatrorivalrefit.com.br/
LINK: https://bileto.sympla.com.br/event/67867/d/100033

PROTOCOLOS DE SEGURANÇA CONTRA COVID-19:

O Teatro Rival Refit vai abrir para lotação reduzida, 40% de sua capacidade total, a fim de que seja obedecido o distanciamento mínimo obrigatório.

A casa começa a receber o público às 18h30, com som ambiente, ar condicionado e serviço de bar, seguindo, claro, todos os protocolos sanitários para proteger público, artistas e funcionários.

Vale lembrar que, antes de cada show, a casa passa por processos de higienização e sanitização, feitos por empresa especializada. E nossa equipe está treinada para seguir todos os protocolos de segurança indicados pelas autoridades competentes.

Na entrada, todos terão temperatura aferida, e haverá dispensers de álcool 70° em gel distribuídos pelas dependências do teatro.

O uso de máscara é obrigatório para entrar e circular pela casa. Clientes só podem retirar a máscara para o consumo de bebida e comida, sentados em seus devidos lugares.

Cuidar da própria saúde e da saúde dos outros é também uma forma de resistência.

Contamos com a compreensão e a colaboração de todos. Desde já, agradecemos de coração.

Seja bem-vindo!
Equipe Teatro Rival Refit.

Delia Fischer – Foto: Nando Chagas

Daniel — Um poema de Milena Martins Moura

Daniel

como herança recebi olhos com defeito
de um verde-escuro encardido
amarelado no meio

recebi também um álbum de fotografias
com rostos de mulheres sem nome
que reconheço ao espelho

cada qual com sua nódoa de mofo a lamber

herdei dentes grandes e um candelabro de louça
e um jogo de prantos que foi da minha avó

o menino jesus de praga ficou com minha mãe

e a madama de porcelana
passeando o cachorro de porcelana
na vitrola em 89
foi dada a uma madama
não dada a passeios nem cães

herdei pintas marrons
e predisposição a câncer de pele
bulhas cardíacas desiguais
e baixa estatura

e aquela pasta de couro que tinha cheiro de gaveta fechada
onde ficavam os poemas dele que eram só meus

herdei também uma orelha mais alta que a outra
pelo que meus óculos andam sempre tortos

e a vontade de escrever isso em versos

o azul perdido dos olhos do morto
domina soberano as quinas dos móveis
e os soslaios de desprezo
dos parentes com dinheiro

está nos tios que exibem orgulhosos
as conquistas aumentadas
dos filhos que criaram

o rosto do morto está no relógio de ouro
dado ao meu pai
que entrou na família por casamento

e nos cantos caídos dos lábios da minha mãe
que entrou na família
porque nascer é sempre à força

no meu nariz
as sardas do morto se camuflam
como palavra esquecida pouco antes de lembrada
daquelas que é preciso estar buscando

e sua voz
que julguei imperecível
veio sumindo como se chorasse

o morto tinha nome de anjo sussurrado em prece aflita
e ignorada

o silêncio onipresente
dos deuses
por quem ninguém mais
quer morrer


“Para quem insiste em sonhar” — A poesia de Maria Clara Parente

Texto de Toinho Castro

Duas palavras que eu gosto na língua portuguesa, essa nossa língua. Um delas é réstea. A outra é fresta. São palavras que estão ligadas… normalmente, é através de uma fresta que vaza a luz numa réstea, numa réstea de sol. A fresta, então, é uma passagem. Mas há algo que, nela, no seu entre, resta. Algo que não chegou a este lado e não está mais do lado de lá . Algo obscuro, apenas percebido.. Algo de nós, ou de além.

Recebi, da poeta Maria Clara Parente, o seu livro nas frestas das fendas. Na dedicatória ela me escreveu: esse livro é uma forma que encontrei de olhar nas frestas (7Letras, 2020). Perdão, Maria Clara, pela indiscrição, ao revelar aqui parte de uma dedicatória. Mas quando a li, a dedicatória, eu a recebi como um convite a perceber as frestas, essas fissuras que estão, afinal, em toda parte, do mundo e de nós. E achei fantástico esse convite, não para atravessá-las, como a luz, o sopro, não para espiar o outro lado, mas para olhar bem pra elas, reparar no que ali se acumula, no que ali germina.

Viro a página da dedicatória e adentro esse território que Maria Clara nos oferece com sua poesia. As pessoas costumam muito relacionar o romance literário, o conto, a prosa em geral, à ideia de criação de mundos. Talvez o fato de ter cenários, narrativas, personagens… talvez isso estimule esse pensamento. Mas a poesia é criadora de mundos também.

E é um mundo inteiro que encontramos nesse tecido de palavras, de tudo que se agarrou na passagem das fendas, das fissuras. A poeta anda pelo mundo, passa por Altamira, Berlin, Cartagena; placas tectônicas, cartografias ilusórias, sonhos… mas o tempo inteiro (O que é mesmo o tempo?) a poeta se move dentro de si. Toda poesia é essa viagem pra dentro, desses encontros dispersos, das luminosidades que escapam. O íntimo, não revelado, mas percebido. Leio cada poema sem definir a leitura, apenas me surpreendendo e encantado com a precisão dos versos, às vezes contra a imprecisão da vida, às vezes de mãos dadas com ela.

o ser humano é a fresta, por onde tudo passa. E é em nós que fica um pouco de quase tudo. O poema é o espaço dessa transição entre mundos, filtrando, interpretando e propondo o que talvez seja um modo de transcender essa existência nas fendas das frestas.

A você que me lê, sugiro com alegria a leitura desse livro de Maria Clara Parente. Não poderia estrear nas estantes com mais pertinência, essa poeta. A experiência poética é sempre rica, pois nos desloca do óbvio, desse mundo que se impõe como narrativa única, onipresente, e nos deriva por ventos e correntes inesperadas. A poesia desse livro, essa poesia sensível ao mais humanos em nós, ao humano do amor, da dúvida, da busca permanente e do olhar que não evita esse outro, agarrado às frestas da nossa condição.


Estranhos anjos: Recordando Eugenio, um amigo que morreu

Texto de Toinho Castro


Para Eugenio Conolly

Eu era criança e minha irmã devia ter seus 16 pra 17 anos. Era ali os fins dos anos 70 e ela tinha uma turma ótima, muito animada. Todos jovens e alegres, pelos menos pra mim, que observava tudo de dentro da minha infância. Como em toda turma, havia suas tensões, seus amores, correspondidos ou não, histórias mirabolantes, como se todos ali se conhecessem desde sempre e compartilhariam a vida até o fim. E o fim era algo tão distante, tão longe no horizonte, para aqueles jovens destemidos, imortais, inspirados e volúveis. O fim era distante demais. Perto mesmo era a praia, era Itamaracá, os bares do Recife, as noites de violões e canções madrugada adentro, na casa de um, de outro, de qualquer um que a eles se juntasse.

Era comum irem lá pra casa. Meus pais sempre foram hospitaleiros, sempre gostaram da casa cheia, sempre gostaram e receberam muito bem nossas amizades. Essa turma da minha irmã, dos meus irmãos, gostava muito de ir lá pra casa. Sentiam-se à vontade no nosso apartamento no edifício Inês, na Pampulha. Espalhavam-se pelo sofá, no chão da sala, com aquele piso que já não existe mais, que ninguém mais quer em casa. Iam e vinha da cozinha, abriam a geladeira sem cerimônia, porque nosso apartamento era uma extensão de suas casa. Sentiam-se seguros e alegres lá.

Tonhão, alto e bonitão, exímio violonista já naquela idade, puxava as canções que se cantavam naqueles tempos, com sua voz grave e bonita. E geral acompanhava, entre risos e cerveja e petiscos. Chico Buarque, MPB4, Milton Nascimento, Elis Regina, Clara Nunes… era os anos 70, o país sob a ditadura militar e nossa casa era um flanco dessa resistência simples, miúda, talvez, mas cheia de esperança que aquilo tudo ia acabar cantando aquelas músicas. Bem… um dia acabou.

Numa dessas farras, que avançava pelas altas horas, o sono pegou o menino que eu era então. Lá do quarto, sonolento, eu escutava a festa, resistindo a adormecer para não perder nada. Coisa de criança em casa animada, né?!

No apartamento da gente tinha uma espécie de entroncamento, quando você saía da sala, que dava para todos os cômodos. Dali você podia ir para a cozinha, o banheiros, os quartos… Passando por ali, talvez para pegar uma bebida na geladeira, ou ir no banheiro, Eugenio me viu no quarto e veio me dar atenção. Coisa que nem todos faziam com uma criança naquela época.

Eugenio era um dos grandes amigos da minha irmão. Frequentador querido demais da nossa casa. Meus pais adoravam ele. Eu adorava Eugenio. Ele era leve, simpático, alto, gentil, caloroso e engraçado. Era somente um rapaz, mas já era tudo isso. Ele entrou no quarto, sentou-se ao lado da minha cama e pôs-se a conversar comigo. Naquela idade eu estava aprendendo a gostar de rock e acho que havia acabado de descobrir o Supertramp. Eugenio pegou minha cópia do Crime of the century, um disco que a banda havia lançado em 1974 e que eu adorava. Nem lembro como tinha esse disco lá em casa… se meus pais compraram, se meus irmãos, se apareceu lá por mágica. Mas era um dos primeiros discos do viria a ser minha coleção de rock, que me acompanhou e me protegeu de tudo, até que deixei o Recife para morar no Rio, sem trazê-la comigo.

Talvez Eugenio tenha conversado comigo sobre o Supertramp e sobre os discos e bandas que ele gostava por alguns minutos. A mim, pareceram longas horas de uma delicada atenção. Ter tido o cuidado, e vontade, de sentar ali comigo e me dar atenção genuína e ouvir minhas ingênuas opiniões de jovem aprendiz do rock’n’roll, é algo que hoje me comove.

Em algum momento a festa o convocou de volta. E acabei por adormecer, com o Crime of the century junto a mim e os sons alegres daquele encontro de jovens amigos, embalando essa adorável transição entre a vigília e o sono.

Como em toda turma, os caminhos cruzados eventualmente se desmancham, vidas segue traçados inesperados e as pessoas se separam. Minha irmã foi pra Brasília ao fim da faculdade, Eugenio casou e cada foi levando a vida que se apresentava, conquistada ou não. Perdi, por consequência, o contato com todos. Afinal, eram amigos da minha irmã.

O tempo passou e, como diz minha mãe, levou tudo. Mas nos últimos anos, por conta da internet das redes sociais, minha irmã refez alguns desses encontros, recuperando diálogos, lembranças e construindo algo novo, certamente. Um desses reencontros foi Eugênio…. nem acreditei e o adicionei também no Instagram. Entre lies e alguma mensagem, pouco trocamos, mas pude acompanhar sua vida em frames, em flashes. E mesmo com a distância dos espaços e dos tempos, mesmo tendo sido somente uma criança, que acompanhava com os olhos brilhando os amigos dos irmãos. Bem, Eugenio era, mesmo que nem soubesse, meu amigo.

Nesse fim de semana soube que Eugenio morreu, subitamente. Inesperadamente.

Que golpe na minha irmã. Dia desses falou com ele. Dia desses marcaram de se rever quando tudo isso, a pandemia e essa ascensão da maldade, acabasse (porque vai acabar!). Mas não deu tempo. Eu tinha essa esperança também de revê-lo e dizer: Lembra aquela noite em que você me deu atenção e conversou comigo sobre rock?! Às vezes você compartilha somente uma coisa com uma pessoa, mas isso é suficiente pra te ensinar coisas que você não vai esquecer, e que vão constituir algo que faz de você o que você é.


Sempre lembro dessa turma, e de Eugenio, quando escuto uma canção da Laurie Anderson, chamada Strange Angels.

Well it was one of those days larger than life
When your friends came to dinner
And they stayed the night
And then they cleaned out the refrigerator
They ate everything in sight
And then they stayed up in the living room
And they cried all night
Strange angels – singing just for me
Old stories – they’re haunting me
This is nothing like I thought it would be.


Tuini: Disco lindo e clipe novo!

Texto de Toinho Castro


Tuini – Foto de Marília Cabral

Não tem muito tempo que minha amiga Mônica me passou a dica da Tuini e seu disco novo, Encanto. Uma pessoa lança um disco, ou um livro, filme, etc, em tempos como esses que vivemos, em que resistimos bravamente, eu quero logo prestar atenção, saber o que é, de onde vem, o que me traz. Com esse disco, de estreia, da Tuini, lançado em maio, não foi diferente. Imediatamente dei play na vitrola virtual do Spotify (Ah, quem dera esse disco em vinil…) e, nossa, que alegria.

É um disco que, desde a capa, transmite uma força, uma vibração autêntica. E vamos combinar que é preciso arte que gere alegria em tempos de pandemia, não é mesmo?!

Agora mesmo, enquanto escrevo, boto o disco pra tocar de novo e começa logo com um baião, Janela! Nesse junho, nesse friozinho carioca, a canção traz um cheiro junino, uma esperança de varanda, de quintal, de conversa na calçada. Vou escutando música a música desse disco cheio de gente, que canta, que chama um ao outro, gente que dança. Mesmo sentado aqui na cadeira, enquanto digito essas linhas, a alma balança, a alma dança.

Recordo que lá em casa, quando eu morava no Recife, tinha um jasmineiro bem na entrada, junto ao portão. Aí escuto Jasmineiro, me convocando a memória. Se há uma nostalgia no cancioneiro de Tuini, há um impulso adiante, impulso de vida. Ter futuro é ter memória. Numa conversa com o Brasil, ela vai levando seu disco. E o Brasil de Tuini é esse país que brota do chão. Brasil dos mistérios, Brasil sonhado.

Fica a dica, bote Encanto pra tocar! Chame seu par, seja quem for, pra dançar. Vá pra janela e cante alto. E não se engane com a doçura, a leveza, a ternura. Encanto é um disco de resistência. De um país que resiste no verso, na moda da viola, na flauta, na voz dessa mulher desfiando a beleza e o poder da nossa cultura. Se ligue, tem uma janela aberta no meio dessa pandemia! Foi Tuini quem abriu!


E Tuini nos reserva ainda encantos, surpresas. Ontem foi lançado o clipe da música Navegante, que encerra o álbum lindamente.

“É uma canção que trata de questões muito profundas. Fala do percurso da vida. Todos nós somos navegantes em busca de encontrar a nossa própria água e alçar os vôos que nos esperam nesse plano. E é muito significativo que o clipe dessa canção seja um making of, pois, para mim, a gravação desse disco é um dos maiores voos da minha existência”, diz Tuini sobre o trabalho, que você pode apreciar aqui!


Tuini tá bem acompanhada demais em Encanto. Confira a riqueza:
Diogo Sili (violão, produção e direção musical), Luís Barcelos (bandolim), Marcelo Cebukin (flautas), Ramon Múrcia (percussão) e o saudoso Chico Oliveira (baixo) fornecem a base. Kiko Horta (acordeon), Yuri Villar (sax soprano), Maria Clara Valle (violoncelo), Renata Neves (violino), Tina Solon (viola), Bruno Repsold (baixo acústico) e Rodrigo Abreu (quenas) trazem as suas contribuições. Os arranjos, em clima nordestino, são de Luiz Morais, que coassina a direção musical com Sili.


Com esta publicação a Revista Kuruma’tá chega a 400 artigos publicados online! Viva!

“Vovó falou que tenho sopro divino no peito” — A poesia de Iyadirê Zidanes

Recife e Olinda são cidades que existem num plano poético, cidades narradas. Existem porque são contadas. Então poetas, nelas, não falta. E ser poeta de lá é ser poeta de si e de além. Nesse contexto, nessa linha imaginária de poetas, se encaixa Iyadirê. Faz tempo que a conheci, de passagem pelo Rio de Janeiro, vívida, límpida, atenta, elétrica e suave.

Assim sua poesia , uma vez que a li, não me surpreendeu em sua lindeza, e me surpreendeu, naquele susto, súbito de ler algo que encanta.

Há tempos tô de olho nesses versos e hoje os publico na nossa Kuruma’tá. — Toinho Castro, editor da Kuruma’tá


Poesias de Iyadirê Zidanes


Mar majestade

Batesse como onda
Mar aberto, eu sei
São lindos seus recortes
És imensidão
Sou barco flutuante
E veja
O tempo é rei
Tu pleno movimento
Eu embarcação
Te quero
Perceba
Já disse
Não nego
Teus olhos marejam, me trazem pra perto
Mergulho intenso
Paralisa tempo
E converso com o rei pra ter tu mais perto
Não suma
Consome todo meu encanto
Flutua meu versos
Paralisa tempo
Batesse como onda
Mar aberto, eu sei
São lindos seus recortes
és imensidão
Teu colo maresia
Eu embarquei.

 


Sopro divino

Vovó falou que tenho sopro divino no peito,
Sopro divino no peito.
Dos tempos em que tinha menos concreto pra se olhar,
Menos concreto a se pisar.
Dos tempos que as pessoas olhavam para cima e tinha estrelas como nossos olhos
que brilham, jaboticaba.
Que o chão tinha terra
Vovó falou que tenho sopro divino no peito,
Sopro divino no peito.
Igual às árvores que balançam com a força da água que passa na beira do rio.
Vovó falou que tenho sopro divino no peito,
Sopro divino no peito.
Me contou que peito forte temos todos nós,
Nós! Que vivemos a ser desafiados…
Aquele que já nasce condenado…
Quem consegue sorrir mesmo suportando o peso do fardo.
O fardo?
Sim, de ter nascido com o sopro divino no peito.
E eu que tenho sopro divino no peito!
Igual riso de criança pedindo confeito
Tenho sopro divino no peito.
Sopro
divino
no peito!

 


Pelas tabelas

Ninguém sabe da missa um terço
E quem se atreve a ter razão?
Distancias dialogais
Mais que conforto, estratégia…
Tanto desencanto
Mas não vale dar a face pra vida bater
Mantenha seu elo
Que já basta no peito uma vontade bigorna
E um desejo martelo.
Limpe o pensamento, acho que o tremor e até a parte que sai de mim.
Vontade que escorre não para,
Esses desejos tudo pedra que não dá pra furar…
Mantenha seus elos
Que já basta esse desejo martelo
E essa vontade bigorna!

 


Permear

Dizem dos corpos que deixam outros corpos passarem através de seus poros,
permeáveis.
Antes de questionar se toquem!
Para questionar
ou para tirar a dúvida se
ao menos você transpassaria.
Talvez gostaríamos tanto de ser impermeáveis
IMpermeáveis
Mesmo permeando por todos/ por nós/ por esses/ aqueles/ os outros.
Precisamos mais moldar?
Assim como as gotículas atravessam nossa pele ou como o toque que de transpassar
arrepia!
Imagina se tu se apaixonasse?
Que tal se apaixonar por você ?
Por ela?
Poderias transpassar pra tu
O que tanto derrama.

 


Deleite

Deleta-me de tua mente
deleta-me de nossos planos
minha mente em panos quentes…
Deleto-a-ti.
Deixa queimar as pontas dos dedos
para me soltar sem pena depois de tragar-me ao fim.
Por fim, me amassa, recolhe as cinzas
e limpa teu cinzeiro
até que não haja uma fagulha de mim.


Diver(cidade)

Texto de Eduardo Maciel


Olá, querides kurumateires!

Eu não poderia deixar passar batido o mês do orgulho LGBTQAIP+ sem vir aqui derramar algumas palavras sobre o tema com vocês. Não mesmo.

Não me considero um militante da causa, porque em caso contrário deveria ter uma agenda pessoal de engajamento específico nesse tema. Mas com certeza, por estar representado na sopinha de letras, me sinto compelido a falar algumas coisas sobre esse assunto.

Poderia começar frisando aquele clichê mais do que necessário que atesta que “orientação sexual não é uma escolha, mas o preconceito é”. Excelente começo. E tudo o que vem a seguir aqui no meu texto parte desse princípio.

Sou branco e privilegiado por ter tido acesso a muitas coisas que deveriam na vida ser garantidas a todos os seres humanos, mas infelizmente não o são. Por esse motivo, passei um longo tempo da vida não me achando no direito de me apropriar da voz das minorias, da periferia latu sensu. Confesso que ainda sinto um certo desconforto, já que a realidade nua e crua certamente é bem mais penosa para um monte de gente que eu sequer conheço. Porém, a empatia me aproxima. E no fim das contas todo mundo merece ser ouvido (ou lido), independentemente de qualquer coisa. E é com aquele clichê e essa última afirmativa que gostaria de ter a atenção de vocês.

Querendo ou não, sou uma pessoa exposta. Mas cismo em achar que não me exponho muito quanto a questões pessoais. Vai entender…

O fato é que sou gay assumido, casado formalmente com um homem que, além de ser meu marido, ainda me brindou com a possibilidade de conviver e exercer influência sobre duas crianças, meus enteados. Uma faceta das tantas e tantas famílias modernas das quais ouvimos falar, sobejamente nos últimos tempos. Porque o tempo não para, nem as evoluções sociais.

No entanto, me parece que, se por um lado nos grandes centros urbanos brasileiros a questão do convívio harmônico entre pessoas diversas seja algo mais difundido, o contrário ocorre nos vastos rincões desse Brasil de meu Deus.

Temos sim notícia de muitas atrocidades contra o povo gay (generalizando aqui) praticadas no ambiente das cidades, e é com base nessas ocorrências e incidentes que são materializadas pesquisas e estatísticas de ataques homofóbicos, transfóbicos e similares. E em cada caso concreto existe sim um cerne de absurdo nesse tipo de violência, seja ela física ou psicológica. Temos que enfrentar o problema e sim, precisamos do engajamento de TODES, gays ou não, em defesa dos nossos direitos humanos e portanto fundamentais. Essa luta está apenas começando, e dela não hei de me esquivar. Ainda que isso me exponha.

Agora me digam: já pararam para imaginar a sombra que torna invisíveis essas atrocidades em locais mais ermos, distantes dos centros urbanos?

Gente, podem acreditar: nesses lugares, a situação é MUITO PIOR. Caps lock hiper necessário. Por um lado, porque as vítimas sequer sobrevivem para contar a história. Por outro, porque quem sobrevive acaba tentando curar suas cicatrizes em casa, na penumbra e não raro escondidos até mesmo de seus familiares, por medo desse tipo de exposição. E todos esses casos de perseguição acabam não vindo à tona, e portanto sequer são contabilizados. 

Sem o registro do problema, como então dar visibilidade à homofobia interiorana? Como trazer para o debate essas maldades praticadas diuturnamente no campo, no interior? Como fazer com que essas pessoas tenham acesso a ferramentas de proteção ou reparação, às quais todos têm direito?

Vocês podem pensar: ah, é pra isso que servem as ONGs e demais entidades protetivas. Certo? Em parte. 

Há muitas organizações que tentam penetrar os ambientes mais longevos para legitimar para esses grupos sociais uma saída, mas que ainda assim não cobrem a totalidade dos casos. Nem perto disso.

E comparando as cidades com essas áreas, vemos o problema expandido em progressão geométrica.

Isso me tira o sono muitas vezes, e acho que alguém deveria falar sobre essa discrepância. Que seja eu esse alguém. Porque tal reflexão é de extrema relevância e urgência.

Acho maravilhosas as paradas e eventos (nesses tempos pandêmicos virtuais) que chamam a atenção da sociedade para a luta LGBTQAIP+. No entanto, já perceberam que essas manifestações só existem nas capitais?

Não deveria ser assim. Diversidade é bom para todo mundo. Diversidade faz uma soma se transformar em multiplicação. Diversidade une, não separa. E somos diversos por natureza. É uma questão de aceitação e consciência. Uau, então deveria transcender as barreiras de tempo e espaço!

Mas, infelizmente, não é isso o que acontece.

Qual a solução? Eu mesmo me faço repetidamente essa pergunta. Sem achar uma só resposta que resolva o problema. Creio que as respostas são várias, na verdade.

Mas de uma coisa tenho absoluta convicção: tudo começa a partir do momento em que descortinamos o problema. Quando falamos sobre ele. Quando refletimos a respeito. 

Por isso resolvi compartilhar esse texto com vocês, na esperança de acender aquela faísca, sabem? A faísca que é a gênese da ação, da atitude.

Pensem em como cada um de nós, que vamos passar uns dias em casas de praia ou campo, podemos fazer a diferença nesses locais. 

Pensem em como podemos indagar com conhecidos e afins, que estão inseridos nas periferias, sobre essa questão. Como podemos descortinar para essas pessoas invisibilizadas ao menos uma opção que não seja a morte, a perseguição, a violência, o bullying e o descaso.

E, assim, ampliarmos as geografias onde o “orgulho gay” se materializa. 

Estão de acordo? Precisamos acordar, coletivamente. Porque enquanto isso não ocorre, muitos de nós dormem sem saber se verão a luz do dia seguinte. Literalmente.

Fiquem em paz, cuidem de si e dos demais, e (se der), comemorem o fato de que não temos todos os mesmos desejos. Pois é justamente isso que nos permite realizar individualmente os nossos próprios desejos! 

Happy Pride para todes! 🌈🌈