A noite em que um disco voador quase destruiu Recife

Texto de Toinho Castro


Recife, 1975. Depois da grande enchente, veio a grande falta de luz. Ainda criança e brincando na rua, eu soube… um grande disco voador pairava, invisível, sobre a cidade, sugando nossos recursos energéticos, levando o Recife à escuridão. Não podíamos vê-lo porque ele ele era tecido de misteriosos materiais, ininteligíveis pra nós, e assim, invisíveis. Ainda assim nos afetava com seu poderoso magnetismo e suas antenas de plasma que estavam apontadas para nós, para as nossas casas e ruas.

As autoridades sabiam e estavam trancadas em suas salas, esperando, naturalmente, o pior. Faltava luz e brincávamos na rua, enquanto nossos pais estavam conversavam na calçada. Hoje penso que havia um zumbido muito leve, quase imperceptível, que a tudo permeava. Reverberava nas conversas, na bola que rolava de um pé para o outro, no carro da companhia de energia, zanzando, de uma esquina parra outra, em busca de um curto circuito qualquer num poste qualquer, sem sequer saber por onde começar.

Hoje ainda há um zumbido que a tudo permeia.

Disse a mim mesmo que não haveria amanhã, que o disco era grande demais e logo romperia a trama do tempo-espaço para destruir, com seus raios selenitas, seus raios marcianos, as nossas vidas pequenas, pacatas. A guerra nunca estivera tão próxima, nem mesmo quando a minha mãe era menina, em Natal, e os malditos nazistas estavam prestes a saltar sobre o Atlântico, para invadir e destruir Parnamirim.

A invasão nunca fora tão eminente e estávamos ali para testemunhá-la. Sentado na calçada eu sabia que erámos os mais importantes de todos os tempos, porque o que veríamos não haveria como contar a ninguém. Não teríamos palavras, nem tempo. E talvez ninguém depois de nós para saber, para lembrar em histórias e cantigas.

Quando adormeci ainda faltava luz. Acordei no dia seguinte e ao abrir a geladeira, percebi que seu interior estava gelado e iluminado pela pequena lâmpada que enfeitava suas profundezas remotas. Eu mesmo tornei-me remoto, longe de mim mesmo. Corri para a janela e um dia de sol me esperava lá fora. Senti que o disco havia ido embora, fato confirmado pelos olhares dos meus amigos da rua. Decepcionado, retomei meus dias de menino e cresci com o desejo de que uma grande mentira estivesse sendo contada.


A poesia de Anamélia Mello

Conheci Anamélia nos primeiros dias de Universidade, lá no Recife. Era 1987 e éramos da mesma turma de Comunicação, no Centro de Artes e Comunicação da UFPE. Lembro que certa tarde, quando cruzamos nossos caminhos no hall de entrada do CAC e vi que ela trazia na blusa um botton com um verso de Caetano Veloso: Que a acrítica não toque na poesia, daquela música sensacional e muito pouco comentada, Ele me deu um beijo na boca.

Esse verso nos aproximou. A poesia nos aproximou e compartilhamos aqueles dias de universidade, dias dourados, levados por um aguçado senso poético da vida.

Naqueles tempos já experimentávamos versos e rimas, e é uma alegria ver que Anamélia se consolidou como poeta, desenvolveu um trabalho que hoje compartilhamos com você que generosamente nos segue e nos lê.

Agora vamos a uma pequena amostra, cinco poemas, do talento de Anamélia Mello, que ainda traz a poesia na blusa, na pele, no coração. —Toinho Castro, editor da Kuruma’tá


Poesias de Anamélia Mello

O ARBÍTRIO DAS ÁGUAS

Acordo.
A boca enorme da água
aplaca tudo.
Logo nada restará
de nossos sonhos parcos.
Lavados os carros
o caos se agiganta.
As pessoas recolhem tudo que podem
mas não sabem o que fazer consigo mesmas.

Levanto.
A morte jaz sobre as pedras das casas
em frente ao lixo que bóia
junto com os escombros de um dia
passado em alerta máximo.
Dor extrema
que tudo leva em seu regaço:
móvel, folha, criança e o descompasso
do horizonte branco
monocromático.
Não há tempo fútil possível.
Todos os assuntos são graves.

Acordo… levanto…
Mas quisera jamais ter abandonado
o estado de sonho…


CANSAÇO

Dia de trabalho árduo, muitos cálculos
Sobre a divisão do tempo, a organização do horário
O oposto dos anos sedentários
Em que são longas as horas
Dedicadas ao ócio ou jogadas fora

Dia de duros esforços, muito fôlego
Para continuar de arrojo em arrojo
Em que é impossível parar
Inútil fugir da raia
Em que o sensato é andar
Pra frente e esquecer a mágoa

Dia de suor luzente na fronte
E dor aguda nos músculos
Dia de ruga na testa em busca de Deus
O oposto do dia de festa
O oposto do dia do adeus
Há que se traçar metas, seguir cronograma
Há que calçar os sapatos e esquecer a cama

Há que esquecer o prazer, o jogo e o flerte
Urge checar o cheque e o balancete!
Ousar cair na gandaia, entornar o copo?
Não hoje, agora não dá, é inviável
Favor esquecer o provável
Faça-o inadiável!

Dia de árduo decoro, duros esquemas
Sobretudo dia de bater as pernas
Enfrentar o ônibus e as filas
Apressar o passo rumo ao objetivo
Calcular o lucro, descontar os ganhos
Apertar o cinto, esquecer os sonhos…


DUO DE SOMBRAS

A claridade oprimia a alma com um riacho de gotas de suor
a realidade era miragem, que o trôpego andar percorria
nada respirava, mas a luta pelo ar
era o sinal de que seria encontrado
o ouro das manhãs e tardes

O abraço era sôfrego, seus raios apertavam a Terra
tudo em brasa secava como se a morte fosse o clima seco
o vento de abanos queimava a pele
ouviam-se cantos de pássaros, mas os olhos mal enxergavam
poderia ser qualquer coisa aquela imagem ilusória

O que é duro quebra, e o gelo não se derrete
forma crostas e reluz mais que o mundo
reflete tudo a neve, até o sol, reflete estrelas
é ameaçada por nuvens, quem quer ser água vive
vaza e congela por inteira sem dar trégua
insensível brisa gélida

Água em neve fôfa toma a forma dos bancos, das escadas, das curvas dos carros
pesa nos galhos o gelo, enfeita os rios
amarela ao pôr-do-sol, escurece no ônix da noite
faz brilhar toda superfície
desperta nossa atenção, aguça, vivifica
envolve, mas impele adiante
em seu congelante desafio

E vida brota no inverno, no verão, dentro e fora de mim, na coleção infinita da eternidade…


SEM DÚVIDAS NEM CERTEZAS

Eu te vi luzir a chama em bares de esquinas
afogando o sábado em espumas branco-nuvem e douradas.
Eu te vi espargido na grama em frente ao edifício
buscando estrelas na abóbada celeste.

Ouvi teu canto marinho e o som do teu violino
incendiando horas gélidas na passagem do tempo.
Senti o pulsar do músculo íngreme do teu peito
que batizava as emoções em hierarquias.

De ti nunca previ um só movimento de vida,
a vida que em ti inflava velas para a grande travessia
em redemoinhos, pensamentos, sentimentos e crenças
sempre questionadores e prontos para o aprendizado.

Quando eras tomado pela Musa, veio de amor que te pulsava dentro
compunhas elegias as mais atrevidas e decantavas a sorte e o tormento
Quando ias embora, a ponte se erguia para nadares outras correntezas
e eu me descobria nem fora nem dentro, num agora sem tempo
sem dúvidas e sem certezas.


É NOITE

É de noite que brilha
a estação de nenúfares
o gelo dos teus olhos
a me ver passar
o escuro de chumbo 
e de pólvora.

É de noite que colo 
meu olhar ao teu olhar
e inauguro a mútua
transparência de almas.

É de noite que venho cobrar
a força das pelejas do dia
a acidez do teu coração
nossa rudeza característica.

É noite quando
nossos corpos se enlaçam
e bailamos em picos sagrados
sem nada distinguir ao nosso redor.

É a estação das pedras cortantes
o vício das madressilvas
os campos bordados de luz
mais branda que o tempo
o gesto simbiótico
a simbologia da cópula.

É noite quando me deito
em cima de séculos sombrios
apago a lamparina da razão
e me entrego ao delírio.

São feixes de momentos aprazíveis
em que me pego absorto
no ritmo alucinado do teu gôzo
no pouso firme que te doei.

É noite quando sigo fielmente
meu destino escolhido
deixando para trás, cativo
meu músculo esquerdo
abraçando teu espírito
feito a luz de um espelho.


Anamélia Cabral de Vasconcellos de Azevedo Mello, psicóloga pós-graduada do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco desde 2014. Atende como psicóloga clínica, terapeuta ayurvédica e terapeuta floral em consultório próprio e na modalidade online. É membro da Academia de Artes, Ciências e Letras do Brasil e da União Brasileira de Escritores Seção Pernambuco. Membro do grupo Teia Literária há 7 anos, com quem co-participou de 4 livros de poesia e contos: “Coletânea Pegadas da Escrita”, “Mulheres feitas de tempo” e “Nós dos eus” e “Ecos da Resistência. Participou também da coletânea “Carrero com 70”, em homenagem a Raimundo Carrero. Escreveu um livro de poesia em português e outro em inglês, ainda não publicados. Vem recitando seus poemas em locais culturais em Londres, Recife e em lives no Youtube. Atualmente, está gestando um novo livro de poemas e um de contos. Instagram: @anameliamello.


Poemas do livro ‘Harpia’, por Aline Cardoso

A poeta paraibana Aline Cardoso, Mulher Negra, Feminista, Mãe, Doula, Professora, Escritora, Editora e Dona de casa – Bruxa em tempo integral, nos oferece a beleza de sua poesia, com uma seleção de cinco poemas do seu livro Harpia, publicado em 2020.

É com alegria que a gente publica esses poemas e recebe Aline nos caminhos da Kuruma’tá, essa revista que ama poesia, que compartilha poesia e poetas, que acredita demais na força da cultura.

Seja bem-vinda, Aline!


Poemas de Aline Cardoso

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pelo Instagram!

EURÍALE

Caí em águas negras
Ontem à noite,
Átrio aço maciço
Penetrando o breu.

Bestas bioluminescentes
Precipitavam-se ronceiras
Farejando os nós
Entre meus seios.

Miose,
Petrifiquei papilas e ardis
Avioletando a carne
Densa de cada lábio.

Euríale, transmutei a morte
Em meu chocalho dourado,
Circunscrevi muitos nomes
Em minhas escamas.


MOIRAS

As moiras vêm à noite,
Montando frísios
Carregam víboras,
Anéis de prata,
Um olho e três destinos.
Coloquem as chaves
Nas fechaduras.


FÊNIX

A urgência corrói 
Minhas asas,
Pássaro em cinzas,
Reviverei
Em voo limpo

Peito de céu aberto,
Tenho feridas
Ressequidas
Pela fúria com que
Enfrento os dias


HERA

Vim de outras eras
Erva-daninha-brava,
Urtiga-vermelha,
Saliva sumo de
Comigo-ninguém-pode.


RÉQUIEM

Um corvo
Cantará no dia do nosso 
Casamento
Uniremos carne e vida
Ao grito prometeico
De quem diz estar
Para sempre atado.
Fígado exposto
Feridas abertas
Vertendo o rubro
Amor de quem se dá
Cru à presa.


VOZ

Telúrica-antropofágica
Acherontia atropos
Em voo psíquico-onírico
Mariposa posta
Em teus lábios.


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Ou ainda no site da Editora Tribuna!

Aline Cardoso: Mulher Negra, Feminista, Mãe, Doula, Professora, Escritora, Editora e Dona de casa – Bruxa em tempo integral. Aline nasceu em João Pessoa no dia 23 de Agosto de 1991. Estudou na rede pública de ensino de sua cidade durante a educação básica; Tornou-se mãe de Marina entre 2015 e 2016; Cursou especialização em Língua, Linguagem e Literatura entre 2016 e 2017; Tornou-se organizadora do Sarau Selváticas – de autoria feminina – em 2017; Graduou-se em Letras com habilitação em Língua Portuguesa pela Universidade Federal da Paraíba em 2018 e começou a integrar o Zine Coletivo Sagaz Zine, onde trabalha com poemas e artes visuais;; Fundou a Editora Triluna em 2019, visando a publicação de mulheres, principalmente mulheres negras; Em 2020, foi titulada Mestra em linguística na área de Análise do Discurso pelo Proling – UFPB. Escreve para organizar e emaranhar ideias. “A proporção áurea do caos”, seu primeiro livro, é fruto de quase cinco anos de escrita, timidez, introspecção, descobertas e amadurecimentos, além de, é claro, simbolizar o rompimento com o título de engavetadora de poemas. Momentos e fragmentos da memórias estão agora eternamente livres, das páginas desse livro para o âmago dos leitores. Em 2020 publicou Harpia, pela Editora Tribuna! Atualmente a poeta no seu terceiro livro: Garimpo de Silêncios.

Crimes Impossíveis | Nova aventura da Editora Bandeirola com Braulio Tavares

Depois do sucesso, previsível e muito justo, da campanha de financiamento coletivo para uma novíssima edição dos dois clássicos da ficção científica brasileira, A espinha dorsal da memória e Mundo Fantasmo, de Braulio Tavares, a editora Bandeirola, na pessoa linda de Sandra Abrano e sua equipe, inventa mais uma aventura!

Agora é o livro Crimes Impossíveis, com curadoria, apresentação e tradução de Braulio Tavares, direto de sua Biblioteca Pessoal. É mais um passo destemido dessa parceria que se formou entre autor e editora! Uma parceria, diga-se, que promete muitas surpresas para o futuro próximo! Aguardemos!

Mas enquanto o futuro não chega com mais novidades espertas, a gente mergulha de cabeça na campanha para publicação de Crimes Impossíveis, que já está a todo vapor no site do Catarse, esperando sua colaboração! Participe!

Para falar do livro e da campanha, conversamos numa live histórica, com o Braulio e a Sandra Abrano. Participam do papo nossos editores, Toinho Castro e Aderaldo Luciano! Confira abaixo o registro do encontro virtual, com 3 horas de duração! Prepare a pipoca!


Mais sobre o livro e sobre a campanha

CRIMES IMPOSSÍVEIS reúne contos da primeira fase da literatura detetivesca, desde os mestres isolados do século 19 até a década de 1930, considerada a Era de Ouro desse tipo de narrativa, nos explica Braulio Tavares no prefácio deste livro. Vemos o desenvolvimento de um dos conceitos mais curiosos do conto e do romance policial – o crime impossível ou de “quarto fechado”.

CRIMES IMPOSSÍVEIS é uma antologia com tema inédito no Brasil, com narrativas cuidadosamente selecionadas entre as pioneiras do tema conhecido como “o quebra-cabeças” da literatura policial.

CLIQUE AQUI E VISITE A PÁGINA OFICAL DA CAMPANHA DO CRIMES IMPOSSÍVEIS NO CATARSE!


#livrariascariocas #livrariasdobrasil

Texto de Revista Kuruma’tá


Interior da Blooks Livraria

Diante da devastação causada no país, em múltiplos níveis, pela gestão da crise da Covid-19, um grupo de livrarias do Rio de Janeiro criou a campanha Livrarias Cariocas, para se posicionar e atuar no sentido de garantir o espaço e existência das livrarias no mundo que começa a se desenhar para um futuro que está bem ali. Você consegue imaginar um mundo sem livrarias? Não, né?! Pois trata-se disso.

O triste demais é saber que o mundo sem livrarias já existe, em muitos bairros e cidades do Brasil, quase como se o natural fosse não existir livrarias. O sonho do Livrarias Cariocas é ser não só um gesto de autopreservação, mas um ponto de partida para uma discussão mais ampla do tema, de modo a alimentar uma corrente que possa reverter essa realidade estranha, um movimento que dê a dimensão da importância do papel da livraria nas comunidades. Muito mais que lojas, as livrarias tem se tornado, cada vez mais, pontos de cultura, vórtices para onde convergem debates, encontros, a diversidade das trocas culturais.

É preciso que você, gente boa que gosta de livros, leituras e culturas, se alinhe com esse movimento, com essa barreira de contenção contra tudo que ameaça as livrarias e os livros no Brasil. Livrarias Cariocas… parece muito localizado, né. Mas a gente precisa começar por algum lugar, e sair então agregando, somando e se multiplicando em iniciativas similares e antenadas com o mesmo propósito. Quem sabe a gente chega lá, quem sabe a gente acaba por criar um mundo novo, em quye não falte uma livraria a um cidade.

A gente sabe que a questão do livro é maior, é mais complexa, um país como o Brasil. Se as livrarias estão sob ameaça, imagine então as bibliotecas e o próprio livro em si. Então vamos nos apoiar e nos organizar. É mais que ser contra a Amazon. É ser a favor do livro e do acesso democrático à cultura; é ser a favor da diversidade desse ecossistema, que inclui de editoras à livreiros e livreiras e, sem dúvida, leitores.

A livraria e bibliotecas são os caminhos mais bonitos entre um livro e quem o lê.


Participam dessa iniciativa:

@livrariaargumento
@livrariaberinjela
@blooks
@folhaseca37
@janela_livraria
@livrarialeonardodavinci
@livrarialimabarreto
@livraria_malasartes


O Squonk (Lacrimacorpus dissolvens.)

Do livro Fearsome Creatures of the Lumberwoods: With a Few Desert and Mountain Beasts, de William T. Cox, editado em 1910 — Ilustração de Coert Du Bois.

O livro de William T. Cox, reúne lendas e relatos de estranhas feras que habitavam as regiões madeireiras do norte dos Estados Unidos e Canadá.

Sendo esta uma tradução livre, sugestões de ajustes e mesmo correções são bem-vindas. A ideia é traduzir todo o livro. Se for um trabalho coletivo, tanto melhor.

TRADUÇÃO LIVRE DE JULIANA MATOS


O habitat natural do squonk é muito limitado. Poucas pessoas fora da Pensilvânia já ouviram falar desse animal estranho, que é considerado bastante comum nas florestas de cicuta daquele estado. O squonk tem muito pouca disposição, geralmente passeando ao entardecer. Por causa de sua pele inadequada, coberta de verrugas e manchas, ele está sempre infeliz; na verdade, as pessoas que são mais capazes de julgar dizem que ele é o mais mórbido dos animais. Os caçadores que são bons em rastrear são capazes de seguir um squonk por sua trilha manchada de lágrimas, pois o animal chora constantemente. Quando encurralado e a fuga parece impossível, ou quando surpreso e assustado, pode até se dissolver em lágrimas. Os caçadores de Squonk têm mais sucesso em noites geladas de luar, quando as lágrimas são derramadas lentamente e o animal não gosta de se movimentar; pode-se então ouvir o choro sob os galhos das escuras árvores de cicuta. O Sr. J. P. Wentling, anteriormente da Pensilvânia, mas agora em St. Anthony Park, Minnesota, teve uma experiência decepcionante com um squonk perto de Mont Alto. Ele fez uma captura inteligente, imitando o squonk e induzindo-o a pular dentro de um saco, no qual ele o carregava para casa, quando de repente o fardo diminuiu e o choro cessou. Wentling desenrolou o saco e olhou para dentro. Não havia nada além de lágrimas e borbulhas.


Texto original

THE SQUONK (Lacrimacorpus dissolvens.)

The range of the squonk is very limited. Few people outside of Pennsylvania have ever heard of the quaint beast, which is said to be fairly common in the hemlock forests of that State. The squonk is of a very retiring disposition, generally traveling about at twilight and dusk. Because of its misfitting skin, which is covered with warts and moles, it is always unhappy ; in fact it is said, by people who are best able to judge, to be the most morbid of beast. Hunters who are good at tracking are able to follow a squonk by its tear-stained trail, for the animal weeps constantly. When cornered and escape seems impossible, or when surprised and frightened, it may even dissolve itself in tears. Squonk hunters are most successful on frosty moonlight nights, when tears are shed slowly and the animal dislikes moving about ; it may then be heard weeping under the boughs of dark hemlock trees. Mr. J. P. Wentling, formerly of Pennsylvania, but now at St. Anthony Park, Minnesota, had a disappointing experience with a squonk near Mont Alto. He made a clever capture by mimicking the squonk and inducing it to hop into a sack, in which he was carrying it home, when suddenly the burden lightened and the weeping ceased. Wentling unslung the sack and looked in. There was nothing but tears and bubbles.



¿Una mariposa en mi pecho?

Texto de Eduardo Frota


A gente faz exame pra ver o que tem lá dentro. Pra ver o que a gente não consegue ver quando fica de frente pro espelho. O que não quer dizer que a gente não sinta. O negócio tá lá tão dentro, mas tão dentro, que há quase uma certeza absoluta de que provavelmente somente um exame pode dizer o que é.

Mas a gente tem que aprender a ler exame. Médico aprendeu a ler exame. A gente, não. A gente aprendeu a ler, mas nem todo mundo pratica a leitura. Porque pra certas leituras não basta identificar as letras. Acreditem: há quem não saiba ler poesia. Muitos por aí não sabem ler o outro também, seus semelhantes, que têm a mesma quantidade de olhos, pernas e braços. Quanto mais exame, quanto mais bula de remédio, quanto mais dicionário, quanto mais as entrelinhas, quanto mais sei lá o quê. Cada vez fica tudo mais difíci de ler.

Só que o incômodo existia. Não era questão de leitura, era latente lá dentro na altura do peito. Então eu fui ao médico e ele pediu pra fazer um exame, uma chapa, um raio-x, que era pra que ele pudesse ler o que havia em mim. Depois, podia receitar um remédio. Pra mais tarde ele repetir o exame e ver se aquilo que eu estava sentindo já havia ido embora.

— Há quanto tempo você sente isso?
— Muito tempo.
— Muito quanto?
— Mais de ano, menos de mês.
— Parece com o quê?
— Não sei explicar.
— Usa uma metáfora…
— Tipo aquilo de poesia?
— É. Tipo parecem borboletas no estômago.
— Não, nem parece. É mais em cima.
— Sim, mas tipo isso. Usa uma metáfora tipo isso.
— Tá mais pra mariposa.
— Onde?
— No peito, né?
— Mariposas no peito…
— É que mariposa não voa leve. Voa pesado.
— Bate nas coisas, né?
— É, borboleta pousa. Pousa nas flores.
— Mariposa se debate contra as paredes, né?
— É, e ela não é colorida. É sempre da mesma cor.
— Mas tem grande e pequena, né?
— Tem, verdade. Mas borboleta não?
— As borboletas no estômago costumam ser do mesmo tamanho.
— Aí o remédio é sempre o mesmo, então…
— Nem sempre, porque há quem goste delas.
— No estômago?
— Sim! Você ficaria surpreso.
— Só se chamar um caçador de borboleta.
— Hahahahahahahaha!
— Hahahahahahahaha…
— Vou botar isso na receita da próxima vez.
— A sua letra parece um voo de borboleta, até.
— Borboleta é bom, que é fácil de desenhar.
— Mariposa é difícil. Acho que não consigo.
— Tá ligado que borboleta em espanhol é mariposa?
— Olha, não sabia!
— ¡Una mariposa!
— En mi peito…
— Pecho. Peito em espanhol é pecho.
— Ah, bacana!
— Mas seu caso, ao que parece, é mariposa no peito mesmo.
— Se for, tem cura?
— Ah, sempre tem. Boas chances delas voarem embora.
— Delas?
— Quase sempre andam em bando. Tipo borboleta.
— Inseto é foda, né?
— Porra, nem me fala. Me amarro em inseto.
— Eu também.
— Bom, faz o exame e volta aqui pra gente ver o que é.

O exame deu uma mancha. Mas nem era no pulmão, não. Era bem no coração mesmo. Dava pra ver ele manchado mesmo sem saber ler exame. Voltei ao médico com a chapa debaixo do braço. Ele olhou, olhou mais um pouco e resolveu pedir uma segunda opinião de um colega que entendia desses negócios de metáfora. É que não era mariposa no peito. Pediu pra entrar no consultório um amigo que era poeta, que sabia ler essas coisas. O poeta, com um semblante tranquilo no rosto, chegou perto do exame. Franziu o cenho. Colocou os óculos pra perto e olhou, olhou mais um pouco. Colocou os óculos para longe e leu tudo de novo. Virou-se pra mim, mas não havia sorriso.

— Já vi isso antes.
— É mariposa, né?
— Nem é. Isso aí é saudade mesmo.
— Saudade sai em exame desde quando?
— É que tem que aprender a ler.
— Mas e agora?
— Toda vez que você fizer um exame, vai aparecer.
— Não vai embora?
— Não, nem é como borboleta no estômago.
— Mariposa…
— Nem como mariposa no peito.
— E tem remédio.
— Sinto muito, não tem.
— Então o que eu faço?
— Aprenda a ler.
— Exame?
— Não, poesia.
— E vai adiantar.
— Talvez.
— Mas e se não adiantar?
— Pelo menos você vai ter aprendido a ler poesia.
— E a saudade vai embora?
— Quando você aprender a ler, não vai querer que ela vá embora.
— Mas não é bom…
— Também não é ruim…
— Mas eu queria um remédio.
— Só que não tem receita pra isso.

Estava escrito no laudo que quem aprende a ler poesia consegue botar borboleta pra pousar no jardim. Ou botar mariposa pra se debater nas paredes.

Foto: arte feita pela tatuadora alemã Leitbild 
https://www.tattooers.net/pt/tatuador/leitbild/

“Tenho reparado nos ipês pela cidade” — Poemas de Micaela Tavares

Poemas de Micaela Tavares

Ah, nos cativou de pronto a poesia de Micaela Tavares, que nos chegou de surpresa, na nossa caixa mágica de correio eletrônico, com seus ipês, com seus olhares de amor, com sua poesia inscrita nas paredes do ap, na pele, na camiseta, no riso sob o sol, nas ruas da cidade.

Seja bem-vinda à Kuruma’tá, Micaela!


Romance Sapatão

Quando me apaixono
busco por apartamentos em locação
decorados de varandas
plantas que sobreviveriam no inverno
ou no verão
uma vida juntas, um espaço nosso
quem sabe um toca-discos
gato, cachorro, espada de São Jorge
ou a samambaia
pendurada na beira da escada
do lado de fora
recaindo sobre a varanda
do ap
que visitei no Instagram
Quando me apaixono
penso na vida a duas
que poderíamos ter
faria batata com curry
suquinho de caju pra você
quem sabe rir um pouco mais da tv
antes de escolher
o filme da noite – série não porque podemos dormir e perder
a parte boa
Quando me apaixono
traço os planos de hoje & de amanhã
busco a música que te ouvi cantarolar
na noite passada
e me apeteço na lembrança
dos teus lábios dançando
antes de urgir o grito de boa noite
Quando me apaixono
lembro da hora e afogo o tempo
dito que as regras do que passa
nada se vai
me vejo de mãos dadas
quase caladas por tanta coisa a dizer
Quando me apaixono
fecho os olhos para lembrar
esqueço de esquecer
Vai que dessa vez eu me apaixono
e concretizo esse querer
comprando aquele ap
montando a varanda
trazendo o gato, cachorro, a samambaia
te chamando para morar comigo
esse embolado todo
eu&você.

Talvez ela tenha me fisgado

ontem
eu falava bem mais das meninas
as quais não hei de negar
que adoro
quando tão desengonçadas
armam planos
criam fábulas
para me ver
hoje
eu falo bem mais da menina
a qual não hei de negar
que adoro
quando tão arrepiada
sussurra baixo um segredo
que me faz gaguejar
e me render
qual era o assunto?


Alguém me ensina a amar só quem me ama, por favor

eu finjo não ver
mas estou quase sempre vendo

a rua lá embaixo
a samambaia crescendo
teus olhos – um tiro

estou quase sempre vendo
e quando tu não vens
não tem graça
fico tonta
perco a piada
enquanto tu não vens
mas quando te vejo entrar
te vejo chegar
eu finjo não ver
mas estou quase sempre vendo

I’m bad for you but

I’m bad
tentei te escrever canções
perdi o trecho que dizia
que me acompanharia no
teu ukulele azul
eu pensava em notícias para dar:
o cinema em que íamos fechou
e te vejo tímida ao beijar-me
sob a areia
talvez eles vejam
e não me importo
que vejam
porém, darling, tu te importas
mas tudo bem!
às vezes jogo pedras
na água e faço-as quicar
consegue ver? Talvez não viste pois atendia o celular
darling, I’m bad for you but
estou disposta a esperar
as cinco horas de trânsito sem sinal
me fazem enlouquecer sem você
por isso
escrevo poemas

Tenho reparado nos ipês pela cidade

o meu corpo
restringe
que tua alma
me queira

pouco me importa
o corpo dos
outros pouco me
interessam fico
de ver se vens
quando vens
vou
abaixo a cabeça
enrubesço
mas volto o olhar
ao teu – de vez em sempre

procuro pelo melô
que dançamos na
mesma intensidade
em que reparo os
ipês floridos
pela cidade: como se
fosse a última coisa a se
fazer antes de
morrer.

Me incomoda

me incomoda que
aos meus pais
não incomode
o racismo
o patriarcado
a voz do presidente
o cerco no planalto
as laranjas no mercado
a cor da nova era
a política severa
o rompimento do silêncio
a minha luta
aos meus pais
interessa
onde vou que horas volto
não lute contra forças maiores
estude mas não se revolte
cresça mas não apareça
olhe mas não use a voz

logo eles que
em 1964 viram
o Brasil ruir em sangue
logo eles que
são da era do fascismo registrado
logo eles que
não avisavam a hora de voltar pra casa

Não é o amor que falta

Afinal o que importa não é a literatura
ou o riso da menina quase bonita que ao teu lado
sobressalta cinco rimas sem coração
alguns dias de angústia
seis bocas para consolar

É preciso o amor de repente fazer graça
ver aeroplanos na linha de pouso
as luzes de uma cidade que não conhece
desculpe sou jovem não tenho tantos planos

Hoje é o dia de todos os demônios
quase esqueço minha dor
foco na dor dos outros

No poema da Wislawa foi muito bem-dito:
Ninguém na família jamais morreu de amor.


Micaela Tavares (21 anos): aquariana com ascendente em peixes – por isso escrevo poemas. estudante de Direito na UEMA nas horas restantes. leitora apaixonada dos poetas marginais e contemporâneos. Possui poemas publicados nas revistas Variações e Quatetê. Em breve autora publicada do 1º livro cujo nome será Tenho reparado nos ipês pela cidade pela Editora Folheando. 


Todo suicídio é um homicídio – Livro de Lupeu Lacerda

Texto de Toinho Castro


O livro Todo suicídio é um homicídio, do poeta Lupeu Lacerda, é uma festa literária. É isso que tenho a dizer desse volume que enfileira uma série de histórias, cenas, vivências, com algo de prosa e algo de poema, como se entre os dois não houvesse distinção, pois não há mesmo. Não nas páginas de Lupeu.

Lupeu tá lá em Juazeiro, Juazeiro da Bahia, e desse centro magnético, dessas ruas alinhadas de povoado que virou cidade grande, mas que ainda reserva o encantamento do pequeno, do provinciano, enquanto projeta-se em linhas de ônibus, edifícios, bairros que se espalham a perder de vista.

O poeta é testemunha da mudança, mas também da permanência. O poeta observa os acontecimentos que se dão, como num truque de física quântica, porque ele está ali a observá-los. Cada poema, ou história do livro, é feita de camadas, reflexos e interjeições. Mais que para a frente, para a próxima sentença, a escrita de Lupeu aponta para dentro, para o enlinhado de pessoas, diálogos, sustos, paixões, para dentro daquilo que a gente é e nem sabe.

Esse enlinhado em que a gente resiste ao peso da realidade, ou do que chamam realidade, e que talvez seja o discurso do poder a nos suicidar, dia a dia. Escapar desse ditame é o que Lupeu faz ao traçar em letras o cotidiano multifacetado de uma Juazeiro que é o mundo, que comporta e abarca os tempos tantos.

Gosto demais de ler Lupeu, gente! Como disse a ele, na conversa que tivemos, juntamente com Aderaldo Luciano, numa sessão do AoVivo Kuruma’tá (vídeo disponível aqui no fim do texto), ler esse livro é como viajar numa máquina de teletransporte quebrada, que te joga de um mundo para outro, de uma realidade a outra, que estica e encolhe seus átomos a cada virada de página.

Recomendo demais a leitura atenta desse livro, que tem essa capa linda do ilustrador Reginaldo Farias. É tudo um impacto só, uma porrada só. Todo suicídio é um homicídio, mais que uma afirmação, é uma provocação, um chamado ao pensamento crítico e às trincheiras dessa guerra contra à mesmice e o conformismo.

Abraço, Lupeu!

O homem velho androide solitário olha o olho da ave e espera a morte, a nave, a sorte. A canção do androide se desfaz na desfaçatez da tez do oitavo andar. O homem velho androide liga o liquidificador da dor multicultural e fica triste pela carona perdida e pelo roteiro não escrito de um filme com final absolutamente infeliz. Nada a dizer do quase tudo escutado. Nada a dizer da joia falsa no dedo. Nada a dizer da vertigem da viagem primeira. Nada a dizer do mais ou menos dito antes do primeiro café da manhã. O homem velho androide sonha um verso não escrito por Maiacovski. O astronauta blade runner não gosta de poesia. Senta olhando a chuva e espera a morte do homem velho androide. Da ave. A queda da nave. O astronauta sabe: a sorte é um planeta desconhecido.

Compre seu exemplar de Todo suicídio é um homicídio direto no Instagram de Lupeu Lacerda!

O livro

Texto de Toinho Castro


Nossa tendência é achar que um livro é um objeto. É tátil, tem peso, volume… podemos carregá-lo, emprestá-lo, perdê-lo. Ah, a triste sensação de perder um livro, de vasculhar a estante e não encontrá-lo. Mesmo esse “procurar por algo”, alimenta essa ideia de que o livro é um objeto.

Mas pensar o livro como objeto é pensá-lo de um jeito pouco. É pegar o livro e diminuí-lo a condição de… um objeto. O livro é mais que isso, mais amplo, mais profundo, mais vasto.

No seu conto O livro de areia, o escritor argentino Jorge Luis Borges, um amante dos livros, imaginou um livro infinito, com um número infinito de páginas entre a capa e a contracapa. Ao tê-lo nas mãos, o julgaríamos, erroneamente, como um objeto.

Todo livro é esse infinito, porque ele não se encerra na escrita e nem mesmo numa leitura. O que se dá entre a capa e a contra capa é um contínuo processo vivo, dinâmico, de transformação. Diz Heráclito que nunca podemos colocar os pés no mesmo rio. Porque muda o rio sempre. E mudamos nós. A parábola de Heráclito vale para os livros.

Dito isto… não, o livro não é um objeto. É um processo, uma vivência. Mais que um produto, é uma realização, das grandes, das boas… talvez uma das maiores da humanidade, junto com a roda e o domínio do fogo. E o mais importante: O livro é uma realização coletiva. Isso é que é bonito.

O livro é um emocionante encontro, que reúne em torno de si, gente que escreve, que lê, gente que edita, que imprime… Gente que te recebe numa livraria, logo ali na esquina, e de uma conversa tira da cartola um livro que você vai amar e recomendar. Autores, editoras, livrarias, livreiros e livreiras, numa cadeia de eventos para que nós, qualquer um de nós, leitores, sejamos tocados pelo Livro de Areia de Borges.

A despeito de ter volume, peso e ocupar uma determinada área no espaço, o livro não cabe em caixas. Não cabe sequer numa pessoa… quando a gente lê um livro, queremos logo compartilhar, indicar a alguém, emprestar, dar de presente. A gente quer sentar para um café e contar: Olha, tô lendo esse livro incrível! E cativar a outra pessoa para lê-lo também. Porque, digam o que disserem, o livro quer se espalhar entre as pessoas. Isso é o seu existir.

Por isso eu defendo o livro. Por isso, quando qualquer um levanta uma letra contra o livro, eu o defendo. Quando dizem que o livro vai morrer, vai acabar, eu caio na risada, porque todo mundo que profetizou esse apocalipse, ou morreu ou vai morrer antes do livro. Porque o livro resiste bravamente em nós. Acredito que todo mundo tende a ler um livro. Você vai dizer que isso é bobagem, que muita gente não quer ler, não acha que precisar ler.

Essas pessoas, na verdade, estão sendo impedidas de ler. Só não sabem disso. Seja pelas circunstâncias da vida, por estar nublado pelo canto de sereia, já desafinado, da produtividade e do mercado, ou mesmo pela miséria a que tantos são submetidos cotidianamente. A leitura é um querer intrínseco ao ser humano. É um direito do qual precisamos tomar consciência.

O livro, essa potência, precisa estar ao alcance de qualquer um. Precisamos de livros, livrarias, bibliotecas e de uma educação libertadora, que abra o caminho para os livros na vida de qualquer pessoa.

O livro é um dos principais elos dessa rede a que chamamos civilização, e a compreensão disso salva o livro e o mundo como a gente compreende.

Um mundo sem livro seria um mundo pior. Um mundo aberto aos devoradores de mundo. Qualquer um que queira o fim dos livros, que planeje dificultar o acesso aos livros ou até proibi-los, como muitos tentaram, quer um mundo de ruínas, de pessoas em ruína. Então a luta pelos livros, por mais livros que iluminem o espírito, é permanente. Porque essa gente sem alma não descansa. Então não podemos descansar também, e devemos andar pelo mundo carregando livros.

Somos nós, abrindo livros no metrô, no ônibus, no parque. Somos nós recomendando livros para as amizades, para gente estranha nas ruas, com trocamos algumas palavras circunstâncias. Quero que olhem a terra do espaço e vejam livros, pessoas com seus livros no colo, pessoas lendo em suas casas, lendo para seus filhos e arrumando seus livros numa estante.

O livro… esse vórtice, esse redemoinho, para onde convergem as histórias e as pessoas.