O afeto adaptado

Texto de Eduardo Maciel


Olá querides kurumateires!
Nossa, já não estava aguentando de tenta saudade! Espero que estejam todes bem e com saúde. E fazendo isolamento. E usando máscaras e álcool em gel. Sim. Mas não vim falar disso não.
Estou eu aqui no sofá, olhando o canvas imenso que chegou e que ainda está na embalagem (ele só vai pra parede na terça, não cabe em nenhum armário porque mede 1m20 x 1m60, e pra completar tenho 4 gatos de garras afiadas).
Pois bem. Estou eu aqui sentado, com meu cigarro e meu gin-tônica, e, numa troca de mensagem por WhatsApp, percebi! Percebi e signifiquei tão forte que me deu muita vontade de compartilhar com vocês.
Eu percebi! Tipo: indubitável, sabe?
Vou contar, sem mais delongas… Sabe aquela imagem de tempos mais leves e antigos, quando aqueles que se amavam romanticamente talhavam em árvores, de forma graciosa, suas iniciais com um coração as abrigando, como forma de deixar claro para todos que por ali passassem o tamanho de seu amor?
Então, gente! Não tem nada a ver com o “novo normal”, não o do tempo pandêmico! Mas um já não tão novo normal: a comunicação via internet, nos mais variados aplicativos de mensageria em tempo real.
Ressignifiquei essa memória no exato momento em que percebi que eu elegi alguns emojis especificamente para usar com algumas determinadas pessoas que eu amo.
E na fagulha da percepção, acabei achando exemplos de uso exclusivo de combinações fixas de emojis, apenas com essas tais pessoas…
Achei isso tão lindo, tão significativo…
Nos adaptamos, mudamos de formato e plataforma, mas se somos capazes disso, e duvido que ninguém aí se identifique, é por que mantemos essa raiz tão poderosa que é fazermos coisas especiais e únicas peles que amamos.
E saber que isso acontece, mesmo aqui no cantinho do sofá, qualificou ainda mais os dois coraçõezinhos cor de rosa que enviei pra ela ainda há pouco.
A gente passa batido pela modernidade num eterno apertar de botões, sem prestar atenção aos botões que apertamos, e pra quem. E com isso, acho que estamos deixando de aproveitar ao menos a faísca de poesia que pode estar em alguns comportamentos virtuais escondida. Essa faísca que tem o poder de nos incendiar a alma, assim, de assalto e tão sorrateiramente.
Faísca de amor.
Vejo as faíscas da brasa na ponta do meu cigarro. Tirando a parte dele que o cinzeiro fumou pra mim por estar aqui com vocês.
Sinto aquela vontade de dar mais um gole no gin. Assim sendo vou me despedindo por hora, mas deixo essa sementinha: não é que a gente faz homenagens usando emojis?!
Ainda em choque. Ou alcoolizado. Sem problemas: daria no mesmo, no final. Inté!


Poemas de Franck Santos

A Revista Kuruma’tá é um porto onde chegam poemas. E hoje recebemos o poeta Franck Santos, um libriano com ascendente em peixes, 50 anos, ilhado em São Luís do Maranhão. Franck em 5 livros publicados. Breve, sairá pela Editora Primata o ‘Prefiro regar as plantas’, livro de poemas.

A Revista Kuruma’tá é um porto onde chegam poemas. E hoje recebemos o poeta Franck Santos, um libriano com ascendente em peixes, 50 anos, ilhado em São Luís do Maranhão. Franck em 5 livros publicados. Breve, sairá pela Editora Primata o ‘Prefiro regar as plantas’, livro de poemas.

Franck, seja muito bem-vindo à Kuruma’tá!
E nós, vamos ler esses poemas, iluminando esses dias de quarentena e luto que nosso Brasil atravessa.

Dica: Entrevista de Franck Santos para o site Como eu Escrevo, do caríssimo José Nunes!


Este tempo é de coisas que nos deformam
Como seres das espécies pelágicas
Vivemos acima dos sedimentos
Mas ainda há pele tua sobre os lençóis, nos discos acumulados, nas fotografias, nos meus dentes.
Seremos sempre deslocados na geografia
Como a cicatriz que deixaste, como uma tatuagem, uma explosão, uma catástrofe,
O lobo que fugiu da sua alcateia
E guardei no pulmão.
Das viagens guardo recordações que agora vão preenchendo as paredes
Quase como a massa de água dos oceanos
Mas ainda compro flores, ameixas, melancias, morangos e tangerinas,
Antes que a esperança não seja só o calendário
O verão vá embora e leve esse cheiro de chuva e maracujá dos nossos corpos.
Para não morrer tanto
Deixarei acesa a lâmpada do corredor
Doce de caju na geladeira
Tudo que é de algodão nos armários do quarto
Nossa serenidade sem paralelo.


Aos 14 anos ele disse que apagou seu rosto de todas as fotografias dos álbuns de casa.
[ Aos 25 anos, o que mudou nos seus traços:
O sorriso?
Algum sinal de nascença?
As marcas de expressão?
Alguma cicatriz?
Os óculos? ]
Seu rosto é o mesmo
ou de vez em quando pega em tesouras, lâminas, canivetes, estiletes, facas,
e ainda brinca de cirurgião?


prefiro regar as plantas:

Leio que Marte e Saturno estão se alinhando no céu
Que Júpiter está cada dia mais próximo.
Penso que enquanto os planetas se conectam
Nos hemisférios tudo é vermelho
Deito no chão da casa quase em desespero e sinto falta de um dia de janeiro
Quando fazíamos coisas mais divertidas.
Nestes dias de tédio e readaptar-se a casa
Trajetos curtos
Repetir assuntos por telefone
Olho a planta baixa da cidade
As rosas que desabrocham no jardim
E prefiro regar as plantas
Mesmo que a loja de discos feche
Porque do Sul um amigo canta Maria Bethânia pra mim
Recita um poema
Enquanto as vozes silenciam no rádio e na vizinhança
E nos permitimos pequenas fugas.


viagens por cidades distantes:

Aquelas noites
no calor da nossa intimidade
Brilhamos como um farol.
Ardemos como Alexandria.
Na parede do quarto
um Atlas nos contemplava.


Cotidiano 3:

Entre vodca e gin
Ele preferia cachaça
E longas tardes na praia, sem mim.


Daqueles dias em que a vida da gente muda

Texto de Toinho Castro


Tenho sonhado muito. Sempre fui de dormir e sonhar, e acordar no dia seguinte egresso de um mundo mirabolante. Nos meus sonhos encontro pessoas, visito mundos, escuto e conto histórias. Descubro passagens, vejo mares e realizo ou assisto prodígios se realizarem. Sempre fui assim e dormir sempre foi um prazer de visitar e ser visitado por coisas extraordinárias. Prezo muito meu sonhar.

No último ano, de rígida quarentena, creio que vagar dos sonhos tenha se intensificado. Quando deito para dormir já penso: E lá vamos nós! Diante do caos do mundo os sonhos são refúgio, uma literatura íntima e poderosa fonte de recuperação de forças, ainda que no recanto sossegado do meu lar reine essa tranquilidade, mesmo que paralela à angústia de ver o país se desmanchando em mortos e tantas outras perdas.

Ontem à noite sonhei, claro. E foi um sonho curioso e por isso resolvi relatá-lo, e com isso, contar uma outra história que há tempos quero contar aqui. Sonhei que estava com uma amiga, ao menos no meu sonho era uma amiga, e contava-lhe um episódio que teria acontecido conosco, com nós dois. E eu contava a história e ela estava sentada num sofá baixo, e ria muito. Eu estava de pé, empolgado com aquela lembrança e gesticulava, tentando recordar os detalhes da história que eu contava, aos risos também, dizendo: Eu tenho certeza que era você naquela loja. E ela sorria, sem jamais confirmar ou negar.

E a história que eu contava no sonho, pra essa garota, realmente aconteceu. E assim, mais ou menos, se deu. Certa vez, eu estava com um dinheirinho pra comprar um disco. Era fins dos anos 80. Acho que em 1989, por conta de pequenos fatos que me chegam à memória, agora, enquanto escrevo. Na missão de comprar o LP eu resolvi visitar uma certa loja da Aky Discos, lá no Shopping Center Recife, que ficava perto do edifício Inês, onde morávamos.

Nessa loja trabalhava a garota do sonho. Eu não era amigo dela, a quem conhecia de vista, de acenos passageiros na faculdade. Ou seria nos bares ou sessões de cinema de arte que eventualmente reuniam as mesmas pessoas da cidade, em torno de um Godard, Fassbinder ou Truffaut. Ela tinha cabelos curtos, pretos, e era meio dark, meio gótica, talvez, meio tatuada. Assim a recordo. Mas pode ser também que a tenha visto uma ou duas vezes de preto e criei essa lembrança, de uma garota dark no Recife, trabalhando na loja de discos. O nome disso é cinema.

Entrei na loja, cumprimentei-a e fui folhear os discos, nas seções de música pop ou rock. A loja, pequena, estava vazia naquele meio de tarde não menos vazio, que eu tentava preencher encontrando algo que pudesse acender uma lâmpada em mim.

Foi aí que dei com um disco do Pet Shop Boys. A capa branca, minimalista e ironicamente elegante de Actually, lançado em 1987, me cativou. Eu começara a conhecer o pop eletrônico da dupla inglesa e estava bem animado a levá-lo pra casa. Eu já havia escutado algumas músicas do LP, na casa de amigos. Na casa de Kleber, talvez. Acho que o disco não estava lacrado. Acho que tirei o vinil da capa e, depois, o encarte. Gostava de ver os detalhes, o selo do disco, a ficha técnica. Assim eu me sentia numa loja de antiguidades, analisando um antigo mapa perdido e reencontrado, uma joia rara.

Levei o disco até o balcão, para pagar e sair dali o mais rápido possível, para me trancar num quarto na rua Pampulha. Mas eis que… Veja bem, isso realmente aconteceu e eu sonhei contado essa história para a garota da loja, que não reencontrei, provavelmente, desde esse dia. Mas eis que ela pegou o disco do Pet Shop Boys nas mãos, me olhou muito séria e disse:

— Não leva isso não.

Foi até os discos, colocou de volta o Pet Shop Boys e voltou com um outro, do qual só vislumbrei, inicialmente, o preto da capa.

Leva esse aqui! — Sentenciou e me entregou o LP.

Era Tender Prey, de Nick Cave, lançado há pouco por um novo selo, o Stiletto, que estava lançando no Brasil coisas como Durutti Column, Joy Division, Cocteau Twins e o próprio Nick Cave. Eu tinha visto uma reportagem sobre Nick Cave dias antes e pouco conhecia seu trabalho. A capa me impressionou e em tudo parecia oposto ao Pet Shop Boys. Na contra capa uma dedicatória ao ator que interpretara Pixote, no filme de Babenco, o jovem Fernando Ramos, assassinado pela polícia de São Paulo.

Aceitei o desafio, achei auspicioso e naquela tarde levei Nick Cave & The Bad Seeds para casa. E isso mudou minha vida, daquelas mudanças que somente os discos são capazes de produzir. Ela sorriu e eu também sorri. Não sei se tornei a vê-la depois disso. Mas tenho essa dívida, com essa pessoa que trouxe Nick Cave para minha vida.

Quando assisti ao show de Nick Cave em São Paulo, em 2018, eu lembrei desse dia.

É curioso que a gente conte, na vida real, ou desperta, as histórias dos sonhos, e eu tenha, nesse sonho, contado uma história da vida real. Que belo jogo de narrativas, algo inesperado. E que história, não é mesmo?! Um disco chega e muda tanta coisa, bagunça as perspectivas e nos enche de uma alegria que até então não conhecíamos. O Shopping Center Recife ainda jaz, enorme, dormente, sobre um cemitério de manguezais. A pequena loja da Aky Discos não existe mais e nunca mais vi, a não ser nesse sonho, a garota dark. No entanto os ecos daquele dia ainda vibram, como uma explosão primordial. Ainda escuto Nick Cave como algo novo, que me surpreende e encanta.


A pedra e a janela, nova música do Avoada!

A pedra e a janela é o novo som do Avoada, coletivo formado no final de 2018 pelos compositores Juvenil Silva, Marília Parente, Feiticeiro Julião e Marcelo Cavalcante. Os quatro tocam seus projetos individuais, mas se uniram para criar canções sobre os tempos em que vivemos e para pegar a estrada com seus violões, buscando conhecer mais o interior do Nordeste e mergulhar na cultura do Brasil profundo. [Texto de Toinho CAstro]

Texto de Toinho Castro


A pedra e a janela é o novo som do Avoada, coletivo formado no final de 2018 pelos compositores Juvenil Silva, Marília Parente, Feiticeiro Julião e Marcelo Cavalcante. Os quatro tocam seus projetos individuais, mas se uniram para criar canções sobre os tempos em que vivemos e para pegar a estrada com seus violões, buscando conhecer mais o interior do Nordeste e mergulhar na cultura do Brasil profundo

E a novíssima A pedra e a janela, composição de Feiticeiro Julião, é a canção desse mergulho e desses tempos que vivemos, embora a palavra enfrentamos seja mais apropriada. É um enfrentamento, e o Avoada tá na linha de frente da resistência artística, dando a real (ainda se fala isso?!) a esse senhor, que posto no comando do país, pôs-se a reclamar de ser vidraça!

A música surgiu quando os escândalos da família do presidente começaram a surgir na imprensa. Ele, que no congresso era acostumado a esculhambar quem estava no poder, agora, depois de dois anos de mandato, afirma que sua vida virou um inferno, virou a vidraça. É o que nos diz Feiticeiro Julião, autor da música.

Ah, como era fácil ser pedra/ Ah, como é difícil ser janela

Mas, e isso é leitura minha, vejo também as pedras a voar contras as nossas janelas, justamente contra nossas janelas abertas, contra nossa amplitude de coração. Tanto que ali na música tem um verso:

Não, não pise no meu coração

Que num contraponto, na doçura rascante da voz de Marília, parece que fala do nosso próprio coração pisado, partido. Eita, que música boa é assim, com mil leituras, transversais, diagonais, paralelas e profundas. Botei pra tocar aqui A pedra e a janela, muitas vezes… deu vontade de cantar, de dançar, de correr e tacar pedra na vidraça suja desses que se apossaram do país. Mas não do nosso imaginário, não do vento que passa pelas nossas janelas abertas.

E essa música danada de boa vai vai fazer parte do EP do grupo, que está em gestação plena e sai ainda em 2021 (que esse ano precisa de coisas boas!).E resistimos com músicas assim, com gente assim fazendo música. Obrigado, Avoada!

Avoada, em foto de Juvenil Silva

Produzida pelo coletivo, a faixa foi gravada nas casas de Juvenil Silva e Marcelo Cavalcante, respeitando o distanciamento e as regras sanitárias desse momento de pandemia.

Recentemente, a Avoada tocou no Festival No Ar Coquetel Molotov 2021, após trabalhar intensamente o EP “Marília, Marcelo, Julião e Juvenil” (2019), com o qual circularam pelo interior e por capitais do Nordeste antes da pandemia. O EP contou com videoclipes das quatro músicas, filmados pela própria banda e que estão disponíveis no Youtube.

Viva!! Gostamos demais!

Capa de A pedra e a janela, com arte de Juvenil Silva

A poesia de Jéssica Iancoski

Mesmo em tempos duros, talvez até principalmente em tempos duros, a poesia dá um jeito de chegar à nossa porta, ou à nossa caixa de e-mails. Foi assim que nos chegou a poesia de Jéssica Iancoski. Depois de uma troca de mensagens e ideias que foram ficando pra depois, no vácuo estranho das coisas por fazer. Passado algum tempo, que sempre parece muito tempo nesses tempos duros, Jéssica nos endereçou poemas; a melhor maneira de retomar uma conversa.

Mesmo em tempos duros, talvez até principalmente em tempos duros, a poesia dá um jeito de chegar à nossa porta, ou à nossa caixa de e-mails. Foi assim que nos chegou a poesia de Jéssica Iancoski. Depois de uma troca de mensagens e ideias que foram ficando pra depois, no vácuo estranho das coisas por fazer. Passado algum tempo, que sempre parece muito tempo nesses tempos duros, Jéssica nos endereçou poemas; a melhor maneira de retomar uma conversa.

Deixemos, pois, para que não fique para depois, que a força da poesia de Jéssica Iancoski chegue até você, como veio a nós. inesperadamente.

ADVÉRBIO

a palavra é avermelhada
talvez carnívora e pouco reflorestada
vale mais extirpada
da terra do âmago
e do ventre esmirrado dos homens

a palavra é servida crua e explorada
ao pé de mesas de paubrasília
maracutaia estripada
estrupício estropiado

solimões, urucum,
cachaça de jambu
colorau guaraná
buriti pupunha
pirarucu tucunaré

a palavra é tinta genocida
e des-mancha facilmente o advérbio
pororocas levantando sangue de verbo
jorrando brasis sem modo,
com intensidade, lugar e tempo
e demasiada negação des-matada,
macunaíma desvairada.


ÚLTIMAS NOTÍCIAS DO BRASIL E DOS BRASIS

a terra vai se rebelar
as florestas precisam ficar em pé”
diz cacique Raoni

carnaval de pandemia
tem praias cheias,
vejam fotografias

: tambaba guarita tabatinga
imbé moreré tupé
curuípe xangri-lá camburí
maracajaú taipu embaú

a doença não existe
afirma turista no litoral sul

é só soja e boi soja e boi
é só soja e boi
funai é ruralista

Aruka, último do povo Juma
morre vítima da pandemia
em Xingu ação de imunização
na base Diauarum
campanha antivacina nas aldeias
preocupa liderança indígena

turismo cai
banhistas batem recorde
trocam blocos por praias lotadas
evitam máscaras e
não massacres

“quando a árvore fica em pé,
faz sombra e fica frio
faz sombra e fica frio”
fica frio.

nadar nadar nadar
e morrer na praia na praia
e nada e nada
aglomeração piara
futuro incerto paira sobre vidas
e idas à praia à praia
pegar jacaré genocídio
presidente de biquíni
topless
e morre o índio.


NÃO É UM CANTO, É UM LAMENTO

criam boi em terra indígena
plantam soja em área ilegal
desmatam até a última pena
tiram o couro do solo animal

é uma pena é uma pena
é uma pena, um vendaval,
um coro, um lamento de aves
no desmatamento tropical

Ararajuba Arara Arapará
Japim Japu Juriti-Pupu
Saurá Suiriri Surucuá
Udu Urubu Uirapuru

É só soja e boi soja e boi
É só soja e boi soja e boi

— garimpo ogro é o agro —
negócios.


IBIAPINA

No ibi há Macaba
Emburi Indaiá

Guirá que pia
Não é só sabiá

: tem Jacu Macuco
Maritaca Tangará

vida com mais potira
se não fosse Ibiapina

é uma pena é uma pena
a Ibiapina a Ibiapina
a Ibiapina


Jéssica Iancoski é escritora, poeta e artista plástica. Publicou em várias antologias e revistas, nacionais e internacionais. Teve o poema “Rotina Decadente” reconhecido pela Academia Paranaense de Letras, aos 16 anos de idade. É idealizadora do Toma Aí Um Poema – o maior podcast lusófono de declamação de poesias, segundo o Spotify – com mais de 40 mil ouvintes diferentes, ao longo do tempo. Nasceu em Curitiba em 10 de Fevereiro de 1996. É formada em Letras pela Universidade Federal do Paraná e em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná.


Lawrence Ferlinghetti: Vida sem fim

Texto de Toinho Castro


Dias atrás uma amiga, Bárbara Porto, postou no Instagram um stories com uma frase do poeta americano Lawrence Ferlinghetti. Aquilo comoveu-me um tanto, como sempre um tanto me comove falar do poeta. Ela acabara de conhecê-lo e conversamos sobre minha própria descoberta de Ferlinghetti, lá pelos anos 1980, por conta da editora Brasiliense e sua coleção Circo de Letras, que me apresentou sua obra no livro Vida sem fim, de 1984.

A coletânea apresenta poemas de nove livros, num panorama de sua obre de 1955 a 1980, traduzidos por Nelson Ascher, Paulo Leminki, Marcos A. P. Ribeiro e Paulo Henriques Britto. O livro é uma aula maravilhosa de tradução (a edição é bilíngue) e do fazer poético. Ler e escrever não são operações mecânica de arrumação de alfabetos e ideias. São operações do espírito, e seu aprendizado depende de muitos ensinamentos e professores. Ferlinghetti me foi um desses professores que passaram pela minha e me ensinaram a ler, a escrever.

Ontem a mesma amiga, Bárbara, me mandou uma mensagem. O poeta havia morrido, na segunda passada, aos 101 anos. Havíamos dias antes comentado justamente sua longevidade, e o fato que no mês que vem faria 102 anos. A notícia, mais uma vez, me comoveu, pois passei aquele dia com o livro, Vida sem fim, para lá e para cá, lendo trechos, me surpreendendo de novo com tantos versos e poemas. Pensei que o poeta havia me chamado pra junto dele, ele que esteve todos esses anos, desde que passei na Livro 7 e comprei meu exemplar, junto a mim, sem nunca me abandonar.

Lawrence Ferlinghetti marcou a poesia americana, revelou poetas como Allen Ginsberg e seu Uivo, criou uma livraria chamada City Lights, que nome lindo, né?! Iluminou também gerações de poetas tempo e mundo afora. No meu canto, lá no Recife, na Imbiribeira, eu pude ler Lawrence Ferlinghetti, lá pelos meus 18 anos. Que impacto, que revelação de tantas coisas. Poetas assim descortinam ainda mais poetas e livros. Por conta dele , cheguei a Ginsberg e Kerouac, Antonio Bivar, Claudio Willer, Pound (e aí ele se encontrava com os concretos Augusto e Haroldo de Campos).

Chegar como poeta à vida de um jovem de 18 anos é cair como um raio, romper um dique. Foi assim com Lawrence Ferilinghetti na minha vida e na vida dos meus amigos, que compartilhávamos o amor pela poesia e pela arte e pela revolução da literatura e dos corpos, dos corações e mentes.

Vida sem fim, ou Endeless life, é um poema de 1980, que Leminski traduziu como Vida infinda. Sempre achei curioso que Leminski tivesse optado por essa tradução, quando o próprio título do livro era Vida sem fim. Confesso que quando cheguei ao poema e li Vida infinda, algo em mim se decepcionou com o poeta curitibano. Achava aquela opção tão pouco sonora, tão pouco fluida. Ao mesmo tempo fazia sentido, que preservava aquela letra D de Endless, de alguma maneira possível. Até hoje, ao ler o poema, penso nisso., nessas escolhas difíceis.

Infinda a esplêndida vida do mundo
Infindos seus lindos seus vivos seus vívidos
seus lindos seres vivos
ouvindo e vendo pensando e sentindo
dançando e rindo soluçando e ganindo
por tardes infindas infindas noites
de amor e êxtase júbilo e agonia

A vida de Ferlinghetti, dos poetas, é sem fim. Ele segue vivo em sua poesia sem concessões, radical e destemida. Poesia que empolga… agora mesmo, enquanto penso nele e nos seus versos, algo vibra em mim e me inquieta. E me tira do lugar de sempre, para sempre. 

Obrigado, Bárbara, por trazer Ferlinghetti para ainda mais perto de mim nesses dias.

Ontem comprei num sebo (pela internet) um exemplar de Um parque de diversões na cabeça, editado pela L&PM, um livro que eu devia a mim mesmo há muitos anos. Na descrição o vendedor informava que antiga proprietária havia feito anotações do dia em que comprou o livro, na Bienal do livro de 1986, com os nomes de todas as pessoas que estavam com ela naquele dia.  Auspicioso.


Os poços mais profundos
— de Lawrence Ferlinghetti

Botei a máscara de mergulhar e afundei / Alguns metros sob a superfície uns peixinhos nadavam a meu redor / Um pouco mais ao fundo alguns peixes de uns oito centímetros no máximo / Eu boio imóvel logo abaixo da superfície olhando para o fundo do poço / Bem lá no fundo entre as pedras no mais fundo do fundo eu de repente vejo uma truta gorda grande e cinzenta / uns quatro quilos talvez / perfeitamente imóvel contra as pedras cinzentas / Ela seria invisível da superfície e invisível sem a máscara / Então de repente vejo outra truta gorda / pouco menor que a primeira / bem perto dela / quase que sua sombra / também perfeitamente imóvel como se nem respirasse/apesar do riacho rápido que deságua sobre ela / Verão da grande seca / esse é o único poço mais fundo que resta / o próprio riacho reduzido a sete metros de largura / O poço isolado por corredeiras dos dois lados / Antes da seca os dois peixes entraram nele / depois o rio estreitou mais ainda e eles ficaram presos nesse poço cada vez menor e ficam imóveis esperando/prisioneiros/seu mundo cada vez menor / E permanecem no fundo inteiramente imóveis apegando-se ao que têm / Os pescadores não usam máscara e nunca veem os dois peixes lá no fundo e mergulhamos de novo & de novo olhando os peixes em meditação / uma disciplina de iogue que há de continuar até o riacho ficar seco / Então quem sabe vamos ver os dois ainda em posição de nadar / nadadeiras estendidas / bocas semiabertas / olhos semicerrados / Ou então / muito depois / seus esqueletos ainda intactos na mesma posição / assados no sol inclemente / como monges budistas queimados na posição de lótus / Ou ainda muito muito depois em outra época / dois esqueletos fósseis descobertos / estranha coisa extinta chamada Vida / E se ficássemos aqui com eles esperando esperando / os do futuro / talvez não pudessem imaginar um garoto e seu pai pescando neste riacho / ainda que encontrassem nossos crânios redondos junto com os peixes / Porém agora vendo a beleza desses peixes lá no fundo / tão imóveis / tão lindos / imersos em seu sonho profundo / no último poço profundo / Paramos de pescar viramos e voltamos para os poços mais profundos de nossas próprias vidas.


Compre na Blooks Livraria o livro ‘Amor nos tempos de fúria’, de 1988, publicado no Brasil pela L&PM Editora

Paris, 1968. Os estudantes da Sorbonne tomam as ruas com protestos, discursos e pichações. A eles unem-se trabalhadores, artistas e músicos, iniciando uma das maiores greves gerais da história. O calor desta revolução serve de pano de fundo para o encontro entre Annie, uma pintora americana, passional e idealista, e Julien, um cético banqueiro português que afirma ser anarquista de coração, mas que vive confortavelmente segundo o espírito burguês.

O consagrado poeta beat Lawrence Ferlinghetti revela seu talento para a prosa ao narrar a complicada paixão entre Annie e Julien. Entrelaçando a história íntima de seus personagens com os conflitos sociais da época, o autor faz uma síntese das questões políticas, filosóficas e artísticas que marcaram uma geração.

3 poemas de Milena Martins Moura

MILENA MARTINS MOURA é mestre em literatura brasileira e tradutora. É autora dos livros Promessa Vazia (2011), Os Oráculos dos meus Óculos (2014) e A Orquestra dos Inocentes Condenados (Primata, 2021, no prelo). Integra a equipe de poetas do portal Fazia Poesia. Publica suas produções em diversas esferas artísticas no Instagram @oraculos_dos_oculos.

Das coisas boas que dependem da internet… abrir o e-mail, depois de dias sem olhá-lo, para descobrir que chegaram poemas de Milena Martins Moura. Fazer uma leitura de encantamento antes de publicá-los aqui. Compartilhar esses poemas com quem segue a Kuruma’tá, é uma alegria, nessa revista em que a poesia, a boa poesia, é sempre tão bem-vinda. Obrigado, Milena.


1.

tenho uma dobra vermelha na pele do rosto
como um corte

entranha

você viu

a marca vermelha da cama no meu corpo
branco
onde dói o sol

você viu
os meus sinais em coleção
imitando a pose ereta de órion

ombro em rigel pé em betelgeuse

as partes proibidas à mostra
faz calor
e eu tenho sede

todos os tabus desnudados
constelações

e eu ariadne corpo celeste
vindo jantar nos escombros

as pontas dos seus dedos mastigando os meus contornos

entranha

todos os lábios
mordendo
a fraqueza da carne

2.

comecei no mundo com um grito de dor
o primeiro ar

comburente universal
fogo no peito

a minha história
que nasceu do grito
sucessão de notas descolocadas
em sol maior

fogo grave
queimadura

a minha história
escrava no fogo da forja

molda o passo torto
com que tento dançar
na ponta
do lápis

nanquim luz e sombra
todos os fados padecendo ao sol

o meu deposto aos pés do fogo
gota de sal na pele nos pelos

cai o pano

eu seco os olhos com o desfecho inesperado

eu seco o corpo da impureza nos poros

existir queimar as solas na areia
o mar que era longe
continua longe

3.

quanto mais risco mais sombra

o espaço que ocupo
no topo das ordenadas
imaginado o salto

é por isso que nos chamam geração y?

uma multidão de promessas vazias
procurando o medo pela janela
segurando ana c nos braços para que não caia
em 1984
quando não éramos nascidos

é por que nascemos sem asas
que o mar é convite?

sombra é aquilo que não se vê
senão de cima
de onde a imagem toda
do famoso grande quadro
se significa

aldebaran seguindo as plêiades no touro alado
ariadne vindo jantar

uma multidão de pequenos acontecimentos aleatórios
erguendo prédios e fazendo guerras
à espera do último sopro

o risco entre os nossos pés
e o firmamento


MILENA MARTINS MOURA é mestre em literatura brasileira e tradutora. É autora dos livros Promessa Vazia (2011), Os Oráculos dos meus Óculos (2014) e A Orquestra dos Inocentes Condenados (Primata, 2021, no prelo). Integra a equipe de poetas do portal Fazia Poesia. Publica suas produções em diversas esferas artísticas no Instagram @oraculos_dos_oculos.


Eu não posso deixar de me esquecer de mim

Lembro quando para cada dia havia uma sinfonia – você lembra também, bailarina? Para cada sonho, um solfejo. Barulhentos eram os pesadelos quando a música ficava longe, guardada como lembrança debaixo do travesseiro.[Texto de Eduardo Frota]

Texto de Eduardo Frota


Lembro quando a vida tinha trilha sonora – ele pensou, o trompetista do circo, querendo esquecer o que tocava, o que dizia. Cada nota, cada sopro, tudo em seu devido lugar. O som, o seu som. Todos os sons que cabiam no mundo. Até o som que o sol fazia quando batia no seu rosto e que me deixava mudo.

Lembro quando para cada dia havia uma sinfonia – você lembra também, bailarina? Para cada sonho, um solfejo. Barulhentos eram os pesadelos quando a música ficava longe, guardada como lembrança debaixo do travesseiro.

Lembro quando as colcheias e as palavras começaram a parecer fora de compasso – quem nunca… Nem poesia, nem afago, nem abraço. Nenhuma letra, nenhuma rima, nada dando conta de explicar ou abarcar o espetáculo da trilha da vida.

Eu tocaria só pra ver você dançar uma marchinha.

Esquece.

Onde está minha surdina?

LEIA outros contos de Eduardo Frota


O peso do pássaro morto, de Aline Bei

Talvez seja esse um comentário tardio sobre o livro O peso do pássaro morto (Lançado em 2017 pela brava Editora Nós, da Simone Paulino), de Aline Bei. Mas acontece que demorei a chegar até ele. Sou daqueles leitores que compra um livro e não o lê imediatamente. Deixo ele lá na estante, ou na Nuvem, no caso de um e-book. Muito se falou das qualidades desse primeiro romance da Aline. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Talvez seja esse um comentário tardio sobre o livro O peso do pássaro morto (Lançado em 2017 pela brava Editora Nós, da Simone Paulino), de Aline Bei. Mas acontece que demorei a chegar até ele. Sou daqueles leitores que compra um livro e não o lê imediatamente. Deixo ele lá na estante, ou na Nuvem, no caso de um e-book. Muito se falou das qualidades desse primeiro romance da Aline. Falou-se muito bem do livro, e fiquei com um olho nele, dormindo ali no meu Kindle; potencial, algorítmico. Mas o livro dormia um sono agitado, porque estava a me chamar. Até que vi a história da lista de livros que foi censurada e lá estava O peso do pássaro morto. “Chegou a hora de ler essas páginas”, pensei. Se o governo censurou, vamos ler!

O livro é uma vida. Uma vida narrada em primeira pessoa, dos 8 aos 52 anos. Quem lê é quem vive essa passagem de tempo, esse sucessivo encolher e expandir-se. É a vida de uma mulher. Bem poderia ser na primeira pessoa do plural, porque encontrei tantas mulheres nesse livro, tantos enfrentamentos que reconheço na vida das mulheres que conheço. Ao mesmo tempo a dor compartilhada, humana, que transcende gêneros, fronteiras, paredes.

Lá no começo eu falei em primeiro romance. É o que todos dizem, no release, nos ótimos artigos e críticas sobre o livro. Para mim é um longo poema. Um longo poema sobre a dor, sobre a morte, verdades incômodas e incontornáveis. E quanta propriedade nessa narrativa, quanto pertencimento… o que produz uma leitura em que dói e alivia. E dói de novo e nos deixa em suspensão… Com um Não é possível! preso na garganta.

O livro de Aline nos desafia a cada palavra. O livro de uma vida. Mas o que é a vida? Um tapa na cara? A maternidade? O distanciamento? O emprego ou o sonho? Ou a morte? A vida é a sucessão, ilusória, talvez, dos fatos que ocorrem a alguém? Ou o labirinto interior, onde esses mesmos fatos se embaralham, se sobrepõem e se conectam a outros, profundos, que muitas vezes escapam à vista? É nisso tudo que pensei enquanto percorri as páginas, a vida, os dias, de uma mulher sem nome, de mãos dadas com ela. Por vezes sentindo suas unhas se cravarem na palma da minha mão. O que isso significa? Aprendi nessas páginas de Aline Bei que sei pouco.

Essa mulher que vi crescer sob as nuvens, sob as circunstâncias de uma vida sem perspectiva, sob a presença da morte e da vida (O que é a vida?) se insinuando em coisas muito pequenas. Essa mulher me ensina a perguntar quem somos, diante disso tudo que vivemos.

Não quero dar spoiler, nem analisar ou me alongar uma crítica. Sou um leitor diante do livro, da beleza de um livro, ainda buscando uma voz para falar dele. Terminei um livro sobre um vida e fiquei pensando na morte. Uma de suas passagens me lembrou de um trecho do poema do Allen Ginsberg, chamado Relato de um sonho: Junho, 1955, do livro Sanduíches de realidade, que consta da edição Uivo e outros poemas, da LP&M. Ele escreveu o poema depois de sonhar com Joan Burroughs, que havia morrido tragicamente, em 1950:

Então soube que
ela era um sonho: e perguntei-lhe
— Joan, que espécie de sabedoria
têm os mortos? você ainda pode amar
suas amizades mortais?
O que você lembra de nós?

Deixo vocês aqui com essa mesma interrogação. Deixo vocês com o livro de Aline Bei. O peso do pássaro morto é desses livro para ler e reler, para atravessar com prazer e assombro. Que literatura boa a dela, que deixa a gente com tanto pensamentos na cabeça, com tantas questões e anseios. Um livro que te diz: Estamos vivos! E o que é a vida?


Compre na Blooks Livraria!

Circuito de lives Musicandarte!

E agora a boa notíca! O Musicandarte conseguiu patrocínio da Lei Aldir Blanc para realizar um circuito de lives, com Concerto/Aulas sobre MPB, que acontecerão em 7 semanas seguidas, de 13 de fevereiro à 27 de março, sempre aos sábados, as 16h, transmitidas simultaneamente pelo Instagram
@musicandarteoficial e Facebook.


Gente, vocês certamente devem lembrar do livro As viagens de Zequinha  no terreno dos Chorões, escrito por Marcia Feitosa e ilustrado por Lhaiza Morena. Comentamos sobre ele aqui na Kuruma’tá, nesse texto! O livro é parte de um projeto muito maior e muito bonito, que a Marcia vem realizando há 17 anos, com muita fé na cultura e na música brasileira. É o Musicandarte, projeto que pesquisa e resgata mais de 150 anos de história da MPB, suas origem, seus ícones e canções emblemáticas. Um rico panorama cultural para as gerações mais novas

E agora a boa notícia! O Musicandarte conseguiu patrocínio da Lei Aldir Blanc para realizar um circuito de lives, com Concerto/Aulas sobre MPB, que acontecerão em 7 semanas seguidas, de 13 de fevereiro à 27 de março, sempre aos sábados, as 16h, transmitidas simultaneamente pelo Instagram
@musicandarteoficial e Facebook.

A cada live um gênero musical representativo da MPB será abordado tanto de forma musical quanto didática. O Musicandarte falará sobre os pontos mais importantes daquele gênero e de seus compositores, permeando com canções que marcaram a época.
Ao final, haverá um momento de interação maior com o público, para debate, discussão e perguntas sobre o tema.

A primeira live será “Origens do Choro”, seguida por “Raízes do Samba”, “Era do Rádio “, “Bossa Nova “, “Festivais da Canção”, “Jovem Guarda” e ” Som do Nordeste”.

A Revista Kuruma’tá mais que apoia a iniciativa do Musicandarte e vai acompanhar de perto essas lives! Venha junto com a gente e vamos aprender mais sobre a música brasileira e ajudar a preservar esse legado imenso. E parabéns ao Musicandarte pela conquista vibrante, num período tão difícil para a arte e cultura! Estamos juntos!