No Tabuleiro do Brasil, com Geraldo do Norte

Geraldo comandava nas madrugadas das sextas e sábados, na Rádio Nacional e em seguida na EBC, essa riqueza que era No Tabuleiro do Brasil, um programa de 3 horas de duração que resgatava e dava luz a uma produção que, fora dali, não tem vez nos veículos de comunicação. Escutar o programa era viajar no tempo e no espaço, sentir o sabor tradicional da rádio brasileira, conhecer nomes, estilos e talentos. Um tapa na cara de quem diz que a música do Brasil acabou. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro

Pandemia e quarentena, asteroides passando de raspão, discos voadores revelados pelo Pentágono… o mundo anda em polvorosa, mas em meio a toda essa confusão em que nos metemos, ou nos meteram, a gente tem que resgatar boas notícias antes que o sol se ponha, antes do final de cada dia. E nessa busca por acender lâmpadas em meio a escuridão, trazemos essa notícia que clareia tudo, porque tem a ver com cultura, com música, com o resgate do que há de bom nesse Brasil. Estou falando da volta do programa de rádio No Tabuleiro do Brasil, com apresentação desse mestre que é o querido Geraldo do Norte.

Tive a alegria de conhecer Geraldo pessoalmente por obra e graça do poeta Aderaldo Luciano, que o convocou para os encontros da ACACANCACA (Academia Carioca do Acadêmicos e Não-acadêmicos da Carioca), ali nas mesas Galeteria Cruzeiro, saída Rio Branco do metrô da Carioca. Entre muita conversa boa, poesias e viagens pelo cancioneiro brasileiro, Geraldo descortinou seu conhecimento musical desse país enorme e diverso. Um conhecimento não enciclopédico, mas afetivo. Cada encontro com Geraldo é uma aula, das boas! Daí ser um mestre.

Geraldo e sua Parelhas ao fundo, no Seridó, Rio Grande do Norte – Arquivo Pesoal

Geraldo comandava nas madrugadas das sextas e sábados, na Rádio Nacional e em seguida na EBC, essa riqueza que era No Tabuleiro do Brasil, um programa de 3 horas de duração que resgatava e dava luz a uma produção que, fora dali, não tem vez nos veículos de comunicação. Escutar o programa era viajar no tempo e no espaço, sentir o sabor tradicional da rádio brasileira, conhecer nomes, estilos e talentos. Um tapa na cara de quem diz que a música do Brasil acabou. Está vivíssima e Geraldo do Norte, nosso amigo Geraldo Ferreira, é um de seus principais divulgadores.

Na onda do desmonte que assola o país o programa de Geraldo foi vitimado, num dano sem tamanho à nossa cultura. Tirar a voz de Geraldo das ondas da rádio, das nossas madrugadas, foi mais um golpe dentre golpes que esse Brasil vem sofrendo. Estávamos nós sentindo uma falta danada do boa noite de Geraldo e da narrativa saborosa que alinhava o programa.

Mas eis que, Geraldo telefona na semana passada para me dar a grande notícia, das melhores desse período esquisito de pandemia e desmando, de que No Tabuleiro do Brasil está de volta! Dessa vez às 6 da manhã dos domingos, na rádio web Viva o Samba, que tem uma programação de 20 horas dedicada ao samba e ao choro. A estreia já é nesse próximo domingo, dia 3 de maio. Se você for esperto e ama música brasileira como anda dizendo por aí que ama, vai acordar cedo e sintonizar No Tabuleiro do Brasil. Bate até uma emoção.

Nesses tempos de Covid-19, essa doença com nome de congresso de produtores de vídeo, a gente sente falta de sentar às mesas da Galeteria Cruzeiro para trocar palavras, rimas e ideias com Geraldo, um poeta de mão cheia e coração aberto, com seus versos que falam de sua gente, de sua distante Parelhas, no Rio Grande do Norte, dos sertões e das cidades e dos aprendizados que a gente tira desses dias que vivemos.

Aderaldo Luciano e Geraldo do Norte na casa do artista plástico Ciro Fernandes

Então, está anotado na agenda?
No Tabuleiro do Brasil, com Geraldo do Norte
na rádio Viva o Samba
A partir do próximo domingo, dia 3 de maio
às 6 da manhã!

Eu estarei escutando atentamente e muito feliz. Espero que você também!


Para os que ainda estão em casa

Da varanda, os versos ainda andam à espreita. Eis o que o escritor, à espera, observou sentado em seu trono – uma cadeira barata com armação de alumínio estrategicamente posicionada para que a correnteza não tornasse turva a vista que se desnudava diante de seus olhos. [Texto de Eduardo Frota]

Texto de Eduardo Frota


Rooms by the Sea, 1951, por Edward Hopper

Da varanda, os versos ainda andam à espreita. Eis o que o escritor, à espera, observou sentado em seu trono – uma cadeira barata com armação de alumínio estrategicamente posicionada para que a correnteza não tornasse turva a vista que se desnudava diante de seus olhos.

I
(“A sunday kind of love” – Etta James)

O sol nasce todo o dia a leste. Os primeiros raios chegam. Não cegam. O sol se põe todo dia a oeste, mas para pintar o firmamento ele usa paletas de cores distintas, distantes.

II
(“Everytime we say goodbye” – Ella Fitzgerald”)

O limite entre o céu e o mar é de um azul calmo, tranquilo. Ainda que as ondas quebrem com intensidade, de longe parecem algodão-doce. Um dulçor branco, puro. As ondas, por maiores que sejam, elas sabem que são oceano.

III
(“Blue moon” – Billie Holiday)

À noite, as luzes dos prédios parecem vaga-lumes, pontos luzidios. Substituem as estrelas, pontas fugidias. Não havia percebido que elas são coloridas.


Sem desperdício

Sendo uma crônica jornalística, porém, basta estarmos conectados com o mundo externo por algum advento tecnológico. Não nos locomovemos em carros voadores, como pensávamos sobre o século XXI, mas o futuro nos trouxe a internet, potência de informação muito mais incrível do que supôs Isaac Asimov. Às vezes até mais do que gostaríamos ou deveríamos. Ontem, por exemplo, fiquei sabendo de carreatas contra a quarentena em alguns pontos da cidade. [Crônica de Maria Cistina Martins]

Crônica de Maria Cistina Martins


Redes – Arte original de Maria Cristina Martins

Difícil escrever uma crônica sem sair de casa há mais de um mês, sequer para ir ao mercado, lugar que deve estar ainda mais fértil para boas histórias. Penso em situações que vão de “Ensaio sobre a cegueira” a “Supermercado”, do Porta dos Fundos. Crônica é um gênero muito relacionado à rua, à observação dos seres humanos em seu cotidiano. Não dá para imaginar os grandes cronistas escrevendo com facilidade sem acesso a tipos e “causos” urbanos.

Sendo uma crônica jornalística, porém, basta estarmos conectados com o mundo externo por algum advento tecnológico. Não nos locomovemos em carros voadores, como pensávamos sobre o século XXI, mas o futuro nos trouxe a internet, potência de informação muito mais incrível do que supôs Isaac Asimov. Às vezes até mais do que gostaríamos ou deveríamos. Ontem, por exemplo, fiquei sabendo de carreatas contra a quarentena em alguns pontos da cidade. Pessoas que saíram em seus carros, muitos de luxo, exigindo o fim do isolamento social, usando caixões para debochar das milhares de mortes provocadas pelo novo coronavírus. Essa notícia eu não queria ter visto. Por outro lado, sem saber, como reagir a esse tipo de atitude? Mas conseguimos reagir?

Melhor do que qualquer debate contra os que debocham da morte é seguir Brecht e não desperdiçar “um só pensamento com o que não pode mudar”, e retirar “do poço seu irmão, com as cordas que existem em abundância”. Enquanto uns clamam pelo fim do isolamento em nome da economia, fazendo a economia se sobrepor à vida, estabelecendo uma falsa dicotomia, outros organizam redes de solidariedade para que não se precise escolher entre morrer de fome ou de covid-19. É inspirador ver a capacidade que têm os grupos mais vulneráveis de se organizar e autogerir, como aconteceu em Paraisópolis, em São Paulo, e em Acari, no Rio de Janeiro. Não digo isso em contrário à justa cobrança que deve ser feita ao Poder Público. Já que estamos sob o sistema capitalista, desigual e injusto, no qual elegemos representantes para nos governar, é inadmissível que, em um momento como este, não haja medidas de proteção aos que precisam.

Digo isso porque, mais do que nunca, se não for “nós por nós”, como se usa nas quebradas, a situação será mais trágica do que as previsões apontam. E se formos privilegiar o debate com uma parede de ignorância e mau caratismo impermeável a qualquer lógica e bom senso, e mesmo ao emotivo, adoeceremos também mentalmente. Na atual conjuntura, estar bem informado, principalmente quando se está há mais de trinta dias sem sair de casa, pode ser produtivo para escrever uma crônica jornalística, mas nem sempre para viver. Como vi em um meme: mantenha-se informado, mas não muito, senão dá vontade de morrer.

Pode dar vontade de matar também, pois pode ser necessário que “esmaguem o patife egoísta que lhes atrapalha os movimentos, quando retiram do poço seu irmão, com as cordas que existem em abundância”.


Zé Ramalho é imortal dentro e fora do cordel

Aos 3 de outubro de 2019, Zé Ramalho completou 70 anos. Entre os atos de celebração, a reunião de todos os folhetos de cordel sobre o vate sertanejo ganhou vida no livro Zé Ramalho na Literatura de Cordel (De como o menino do Avohai tomou aura de visionário). Os autores Kydelmir Dantas e Aurílio Santos catalogaram e inventariaram as melhores obras. [Texto de Aderaldo Luciano]

Aos 3 de outubro de 2019, Zé Ramalho completou 70 anos. Entre os atos de celebração, a reunião de todos os folhetos de cordel sobre o vate sertanejo ganhou vida no livro Zé Ramalho na Literatura de Cordel (De como o menino do Avohai tomou aura de visionário). Os autores Kydelmir Dantas e Aurílio Santos catalogaram e inventariaram as melhores obras. O texto a seguir é a apresentação escrita por Aderaldo Luciano.

Texto de Aderaldo Luciano


Na pequena casa da Rua São José, nº 102, em Areia, na Paraíba do Norte, eu sintonizava a Rádio Caturité de Campina Grande, ZYI-676, AM. Não me lembro a hora, nem me lembro o dia. Nem o mês. Tampouco o que estava acontecendo no Brasil. Ou no mundo. Talvez o sol estivesse em Libra, a Lua em Aquário e Marte em Leão. Mas a palavra mágica AVOHAI, ponto central de uma canção com um arranjo estranho, agressivo e doce, sideral e telúrico, avoaria por dentro, me fazendo tremer o peito e alargar-me um nó, resultado de conflitos emocionais dos quais nunca mais me livrei.

Em 1978, aos 28-29 anos, José Ramalho Neto, Zé Ramalho da Paraíba, Zé Ramalho, assinava a primeira página de sua imortalidade. O poeta solitário, o cantador místico e o músico performático encontrariam nele a guarida, o afago, o ferro e o fogo, a alquimia e a profundidade, a pele e o cérebro, alguma dose de coração e inundações de sangue ancestral. Ao completar 70 anos de vida e ressurreição, todos esses ingredientes permanecem efusivos, ecoando da voz de baraúna, timbre sertanejo, consistência das pedras mais profundas, vindas do centro da Terra, do marco do fim do mundo.

O Homem se imortaliza na obra. Sua biografia é um misto de vida de gado, ao som dos aboios (reais e imaginários), de passos tatuados no chão das galáxias (onde as cabeças se encontram), da cor preta rasgada em veios no acetato (as agulhas de diamante lhe servirão de chicote), de abissais viagens pelas encruzilhadas da mente e horas e mais horas de peregrinação. Mas há outro caminho para a imortalidade: a letra elétrica, poética e imorredoura, aquela que tece e reage dentro do poema de cordel. Zé Ramalho é imortal na sextilha do cordel, assim como Lampião, Raul Seixas, Luiz Gonzaga, Padre Cícero.

A transição do poeta autor de cordéis (veja-se o folheto seminal Apocalypse) para personagem épico da própria matéria cordelística é fruto da importância e ascendência de Zé Ramalho sobre a Vida Brasileira. Os folhetos reunidos, os incontáveis versos de sete sílabas, a assinatura poética da poesia do povo, trazem até nossos olhos a dimensão imaterial de sua alma desenhada em Brejo do Cruz, onde nasceu a 3 de outubro de 1949. É vasta a produção sobre a obra ramalhiana, assim como é a vasta a produção sobre ele e com ele. Zé Ramalho empunha a espada, engatilha a viola, segue célere para o espaço infinito, aninha-se em nossos corações, repousa na poesia. O Velho cruza a soleira, há um tom mais leve no seu embornal!

Aderaldo Luciano
Mirante da Serra das Araras
Primavera de 2019

Zé Ramalho – Foto de Roberta Ramalho (Divulgação)

De volta ao passado

A igreja é o que se pode chamar de ex-voto. O maior que jamais imaginara conhecer. A peste negra havia enterrado um terço da população veneziana, mas a epidemia chegara ao fim. Nobres, padres, arquitetos, operários e a população lançam-se então à tarefa de erguer a basílica para agradecer à Santa Maria, e celebrar a graça (enfim) alcançada, pagamento de promessas inimagináveis. [ Texto de Napoleão de Paiva Sousa]

Texto de Napoleão de Paiva Sousa

A Revista Kuruma’tá traz hoje uma contribuição do médico, poeta e escritor Napoleão de Paiva Sousa. Nascido na cidade de Alexandria, no Rio Grande do Norte, Napoleão já publicou os livros Apenas Chegaram, Depois Comigo, E Por Acaso Deliro, de poesia. Tem na fila um livro de contos com lançamento previsto para este ano. Vamos torcer que esse ano ainda seja capaz de nos trazer esse livro novo de Napoleão, que será muito bem-vindo.


Foto de Juan RulfoDireitos reservados

O momento atual pode ser comparado àquele sujeito que leva fama de rico a vida inteira, morre de repente, e então descobre-se a verdade: de rico não tinha nada. Países da América, Ásia e, principalmente, da Europa, economias consolidadas, sobre quem se enchia a boca para nomeá-los “países de primeiro mundo”, mostram hoje, claramente, diante a aluvião de mortes e sofrimento nos seus territórios, que longe estão das portas do paraíso que se auto atribuíam. Descobriu-se desafortunadamente que têm sistemas de saúde mal estruturados, confusos, com nível lento de decisões, respostas mais lentas ainda, sem correta previsão de catástrofes e, pior, sem lastro operacional/financeiro para fazer frente às dificuldades, como a essa onda escura que se ergue sobre todos nós.

A Itália, quarta economia europeia, confessa não ter equipamentos – respiradores e EPIs – para assistir os seus; o governador e prefeito de NY convocam voluntários pela net, anunciando não ter insumos, máquinas e leitos suficientes para a assistência – a passos do colapso; a Inglaterra bate cabeça – em uma semana anuncia estratégias distintas para combater a Covid-19, e em seguida se rende ao unânime isolamento horizontal; a China, tão pujante na elevação anual do PIB, mistura num só balaio controles sanitários ultrapassados, tecnologia de ponta, e peneira política sofisticada e repressora de informações estratégicas de interesse humanitário – tornando suspeitas suas estatísticas, no mínimo. Constrangedor o mundo ocidental, de bolso liso, e a ONU, fazendo cara de paisagem ante as evidências de manipulação de informações, prisão de médicos, comportando-se como meros parceiros comerciais submissos e omissos, jogando aos porcos princípios éticos, morais, humanitários.

Quando vi por esses dias o jornalista Mainardi nas ruas esvaziadas de Veneza, indo desmanchado em direção à Basílica de Santa Maria della Salute, tive a estranha sensação de uma dupla volta ao passado: meu aniversário de 28 anos, ali, em frente a La Salute, como conhecida, deslumbrado com sua beleza barroca e uma história de quase 400 anos.

A igreja é o que se pode chamar de ex-voto. O maior que jamais imaginara conhecer. A peste negra havia enterrado um terço da população veneziana, mas a epidemia chegara ao fim. Nobres, padres, arquitetos, operários e a população lançam-se então à tarefa de erguer a basílica para agradecer à Santa Maria, e celebrar a graça (enfim) alcançada, pagamento de promessas inimagináveis.

A exótica cidade devastada por uma moléstia de origem não sabida. Seriam as águas, castigos divinos, emanações doentias, ou a população de ratos e pulgas que infestavam seus canais e ruas tortuosas? Sem medicamento algum para tratar, anterior a mais vaga noção do que um dia seriam as vacinas, com a medicina sem noção do que fazer, e mais, do que curar. Havia forte suspeita de que tudo começara na China – teria por acaso sido em Wuhan? – aportando depois no território da hoje Itália através de 8 galeões genoveses.

Lentamente (depois de décadas ou séculos) chegou-se a uma radiante descoberta: o valor do isolamento como meio de conter a propagação do mal. Tal como o de hoje, rebatizado de isolamento social. Afastar-se do convívio. A nobreza escondia-se em suas deslumbrantes propriedades rurais. A população contaminava-se indefesa nas ruas, no meio social. Anos para descobrir que a transmissão se dava pelas vias respiratórias e por secreções do corpo. A partir daí proibiram-se o acompanhamento de doentes por circunstantes, ou de rituais para velar os mortos.

É provável que por então as ruas do medievo estivessem coloridas de lenços cobrindo as faces das pessoas, a se defenderem dos temidos miasmas, emanações contaminantes, e outras crenças anteriores à microbiologia. Os médicos que cuidavam dos enfermos da peste usavam uma roupa preta de couro e uma máscara, igualmente de couro, em forma de bico de pássaro.

Séculos mais tarde passou-se ao uso de máscaras mais delicadas. Geralmente brancas ou azuis, com elástico.

Tão longe, tão perto.


Melancolia, de Carlos Cardoso

Nesses dias de quarentena esse é uma obra para ter ao alcance da mão. Volta e meia puxo ele do seu silêncio natural para falar comigo. Heloisa Buarque diz assim, de um jeito simples: Um livro belo. Sim, belo e consistente. Bem trançado com a matéria dos dias e dos sentimentos. Carlos Cardoso sabe o que está fazendo, tem um caminho bem trilhado e cruzar esse caminho me deixa muito feliz. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Nada como quando a poesia nos bate à porta. No meio de uma pandemia, o interfone toca… susto! Corre? O interfone? Quem será… É o moço da entrega. Entrega? Entrega de que? Descobri depois. Entrega da alma! Ou melhor, para a alma. Era, veja só, um livro de poemas. Protocolos quarentênicos cumpridos, vamos à leitura. Leitura ao vagar. leitura leve e lenta, como parece pedir essa poesia que me chegou. Gente, ter a poesia entrando assim, inesperada, na sua vida, é a melhor coisa. O livro? Chama-se Melancolia. Apropriado aos nossos dias, dirão os apressados. Mas com poesia não precisa haver pressa, ainda que um hai-kai de Leminski nos apresse a viver. A vida pode ter pressa, mas a poesia não. Não a poesia de Carlos Cardoso, em sua melancolia.

Por muitos anos fui um leitor adepto da poesia de vanguarda. De tantos ler manifestos dadaístas, concretos, acabei por abolir-me o verso. Tardiamente, naturalmente. Empunhando experiências de toda sorte, um dia me vi sentindo uma falta absurda do verso. Porque não, o verso não estava morto. Estava vivíssimo dentro de mim, esperando um gatilho. E foram muitos os gatilhos a disparar-me em direção às boas estrofes. Então, esse livro feito de versos, estrofes, página após página. O desenrolar e desenlace de cada palavra que se segue, me encanta. Para mim, ler poesia é voltar ao leito natural, ancestral. A poesia é anterior a tudo que se lê. Tá na raiz da gente e Melancolia toca essa raiz e a estimula

Não sou crítico, sou um leitor. Heloisa Buarque, na orelha do livro (que delícia que livros tenha orelhas), fala com muito mais propriedade, das tristezas vagas, do trabalho pela palavra fluida, ainda que escrita. A escrita é uma marcação. Quando lemos, o que há é um fio condutor e o poeta, ou a poesia (como se confundem esses dois, é o que está à margem dessa marcação. Por vezes inalcançável , por vezes nos falando de dentro de nós. Curioso você ler o que outra pessoa escreveu e isso falar de você. A gente pensa, que veio foi esse que o poeta alcançou e me encontrou, e falou como se fosse eu. Porque assim o escuto.

A palavra é um bem comum, que um poeta como Carlos Cardoso tece e destece, em nome de cada um e nós. Tem aquela brincadeira, do extraterrestre que chega à Terra e diz “Leve-me ao seu líder!”. Eu imagino que dirá:

— Leve-me ao Poeta!

Melancolia é um livro de encontro com a palavra, com essa essência. Não é poesia porque está em verso, mas porque fala como só a poesia pode falar. É denso e necessário. Inalcançável? Não, inevitável. incontornável, como a pedra, que é central no livro. Como ponto de equilíbrio.

Pedra pura

Essa pedra que carrego
sobre a balança que me peso
é pedra dura, de concreto
pedra que dói e cura, brilha

pedra pura!

Nesses dias de quarentena esse é uma obra para ter ao alcance da mão. Volta e meia puxo ele do seu silêncio natural para falar comigo. Heloisa Buarque diz assim, de um jeito simples: Um livro belo. Sim, belo e consistente. Bem trançado com a matéria dos dias e dos sentimentos. Carlos Cardoso sabe o que está fazendo, tem um caminho bem trilhado e cruzar esse caminho me deixa muito feliz. Abrir um livro de poesia como Melcancolia, faz-me recordar com graça aqueles dias em que eu ostentava a morte do verso. O verso está vivo, sempre vivo, muito vivo e está aqui para mexer com a gente, nos tirar do lugar, falar de nós e nos projetar no outro.

Só pra não deixar de contar esse detalhe… Melancolia recebeu o prêmio de melhor livro de poesia de 2019 da APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte.

A Revista Kuruma’tá entrou na campanha adote uma livraria e adotamos a Blooks Livraria. Fica então aqui a dica de comprar o livro Melancolia, de Carlos Cardoso, no site da Blooks!

Adote também uma livraria!
Queremos todas de portas abertas quando a quarentena terminar!


Bora brincar de soneto e logogrifo?

Sonetos e enigmas? Isso mesmo! Enigmas sob a forma de logogrifos.

Mas antes que eu conte a vocês o que são os logogrifos, o método para sua solução e um exemplo para vocês tentarem descobrir, preciso falar um pouco mais sobre esse sonetista, o Antônio de Paula, que foi ter com os deuses da arte em outro plano ainda nos anos oitenta do século passado. [Texto de Eduardo Maciel]

Texto de Eduardo Maciel


Olá, valorosos kurumateiros!

Trago hoje uma história linda e uma brincadeira. Gostam de resolver enigmas?

Pois bem. Participo de um grupo de Whatsapp cujo foco é educação, e foi lá que conheci o Joaquim de Paula. No grupo, ao saber que eu me dedico a escrever sonetos (dentre outras coisas), me contou que o pai dele tinha uma obra póstuma, chamada “FLORES DE PAPEL”, publicada pelo esforço conjunto da viúva do autor e seus familiares, unindo sonetos e enigmas. Chamou a minha atenção na hora!

Sonetos e enigmas? Isso mesmo! Enigmas sob a forma de logogrifos.

Mas antes que eu conte a vocês o que são os logogrifos, o método para sua solução e um exemplo para vocês tentarem descobrir, preciso falar um pouco mais sobre esse sonetista, o Antônio de Paula, que foi ter com os deuses da arte em outro plano ainda nos anos oitenta do século passado.

Me foi descrito como um senhor modesto e desprendido, que apesar do talento para as letras, não se considerava um intelectual. Era uma pessoa de muitos amigos e um profissional zeloso e correto, na chefia da Secretaria de Fazenda Pública do município de Montes Claros/MG. E para além disso, músico e poeta, amante dos epigramas e logogrifos. Um homem sensível, sem dúvidas.

Não divulgou seus poemas por uma questão de modéstia. No entanto, em sua época preencheu um espaço lúdico no “Jornal de Montes Claros”, onde aos domingos se encontrava com seus leitores através de sátiras grifadas com os números enigmáticos dos logogrifos. Isso sem mencionar os seus exímios talentos como violinista.

E como fruto desse trabalho, deixou um legado para lá de precioso: um dicionário para a decifração de enigmas com mais de cento e dez mil verbetes! Obra de valor inestimável.

Todos os sonetos são lindos demais, cheios de entusiasmo, francamente sarcásticos em sua maioria. Ao ler, a gente se coloca na cena na hora!

Sob o ponto de vista técnico, Antônio de Paula era um sonetista dedicado a um tipo de soneto conhecido como “Soneto Livre”, onde existe a estrutura de dois quartetos e dois tercetos inerente à maioria das espécies de soneto, mas não há um compromisso fixo com métrica e rima. Os sonetos são sonoros como precisam ser, apesar da falta de rigor sob esses dois últimos elementos.

Agora falemos sobre os logogrifos. Quem são eles? De onde eles vieram? De que se alimentam?

Deixarei o próprio autor nos contar:

“O logogrifo é, dentre os vários enigmas existentes, um dos mais difundidos e apreciados. De decifração muito simples, é composto de palavras-chave e de um conceito, só que aquelas são marcadas em negrito e o conceito, vem sempre em letras maiúsculas. Em um mesmo logogrifo, cada número representa sempre a mesma letra, sendo que a numeração mais alta corresponde ao número total de letras do conceito que trará a solução do enigma. Para melhor esclarecer a forma de decifração do enigma, foram adaptados por mim logogrifos a uma quadrilha popular. Vamos, pois, ao exemplo:

Baixa, baixa serraria
Que eu quero ver a cidade
Meu benzinho aqui tão perto
E eu MORRENDO de saudades…

4,1,8,7,11,6
3,10,7,7,6
7,2,5,4,7,6,7
4,12,13,7,6,1,13
9,8,7,9,4

Note-se aí que a solução deve conter 13 letras (o número mais alto do logogrifo) e que deve ser equivalente, na semântica, ao termo “MORRENDO”, que é o conceito. Anotaremos então em um papel as chaves e o número de letras da solução, como segue:

Baixa = 4,1,8,7,11,6
Serraria = 3,10,7,7,6
Ver = 7,2,5,4,7,6,7
Benzinho = 4,12,13,7,6,1,13
Perto = 9,8,7,9,4

SOLUÇÃO = 1,2,3,4,5,6,7,8,9,10,11,12,13

Iniciando agora a decifração procura-se, para cada palavra-chave, um sinônimo. Esse sinônimo será transferido para a solução, obedecendo a numeração existente sob cada letra. Chegaremos assim à resolução do enigma, que é a seguinte:

Baixa = Aderna (4,1,8,7,11,6), onde se associa a cada letra do sinônimo um dos números, na ordem.
Serraria = Serra (3,10,7,7,6)
Ver = Reparar (7,2,5,4,7,6,7)
Benzinho = Adorado (4,12,13,7,6,1,13)
Perto = Cerca (9,8,7,9,4)

SOLUÇÃO = DESAPARECENDO (1,2,3,4,5,6,7,8,9,10,11,12,13)

Está aí a decifração: “DESAPARECENDO”, que é um sinônimo de “MORRENDO”, termo que constitui o conceito!

A solução de um logogrifo pode às vezes ser representada por mais de uma palavra (expressão, locução) e até mesmo vir em sentido figurado.”

Fascinante, não é mesmo? Quando tive acesso ao livro pela primeira vez, e tendo entendido o conceito por trás da resolução do enigma, me pus a tentar solucionar todos os 76 sonetos que o livro abriga. Consegui resolver alguns, outros não. Para facilitar o exercício de vocês, vou reproduzir aqui mais um soneto com seu logogrifo, e em seguida a solução. Caso queiram tentar descobrir, não vale olhar a solução antes de se debruçarem sobre o logogrifo, combinado? O soneto escolhido segue abaixo. Vamos começar a brincadeira? Valendo!

“O Amado Filho do Construtor

Arnaldo pega a marmita,
Bife, arroz, frango e feijão.
Vai levar a supradita
Ao seu pai, na construção

A caminho o Arnaldo vai,
Mas não resiste ao bom cheiro
E devora o frango inteiro,
Levando o restante pro pai.

Não viste o frango ensopado
Que sua mãe prometeu,
Para o almoço, ó filho amado?

Caiu no chão, diz o Arnaldo
E apesar do esforço meu,
Só pude apanhar o CALDO!”

SOLUÇÃO = 21 LETRAS
9,2,7,20,8
5,1,19,17,9,13,9
16,9,8,14
11,5,21,7,17,4,10
5,6,9,7,12
11,5,15,3,5,18

Se não conseguirem de primeira, podem tentar de novo. Muito bom brincar de detetive e desvendar os enigmas que trazem os logogrifos!

E para conferirem se acertaram, a resposta correta é “suco extraído dos frutos”.

Tomara que tenham gostado do jogo. Eu particularmente adorei! Fora a história que envolve esse autor e essa obra, que me deixaram encantado.

Preciso agradecer imensamente a gentileza do Joaquim de Paula, filho do nosso autor revelado, que além de me autorizar a escrever sobre o pai dele me presenteou com esse livro sem igual.

Sonetos e logogrifos: adorei a combinação!


Experiência Copacabana #3

Tentei ignora-lo e apertei o passo. Ele repetia sem parar a pergunta. Me chamando de comunista, falando que eu era manipulado pela Globo Lixo e queria porque queria saber o motivo d’eu estar de mascará. De repente ele no bote, correu atrás de mim. [Texto de Experiência Copacabana]

Texto de Experiência Copacabana


Colagem e arte a partir de uma foto original do Copacabana Palace feita por Yusuke Kawasaki, sob licença Creative Commons

Enquanto andava focado pelas ruas de Copacabana, com meu fone de ouvido ligado ao meu mp3 player chinês, e de mascará, percebi de repente que um sujeito branco, com a camisa da CBF, começou a andar do meu lado. Notei que ele dizia algo e então tirei o fone e aí pude perceber o que ele gritava.

— Ei, comunista, você mesmo aí. Ei! Comuna! To falando com você. Tá com essa máscara por que? Heim, comunista? To falando com você.

Tentei ignora-lo e apertei o passo. Ele repetia sem parar a pergunta. Me chamando de comunista, falando que eu era manipulado pela Globo Lixo e queria porque queria saber o motivo d’eu estar de mascará. De repente ele no bote, correu atrás de mim.

—Ei maluco, sai fora – gritei.
—Seu comunista, por que você tá de mascara, porra?! —Dizia ele vindo em minha direção e agora tentando tirar a minha mascará.

Tentei segurar o maluco e foi nessa hora que ele mordeu a minha mão. Aí eu empurrei o cara acho que ele bateu a cabeça no chão, sei lá, não fiquei pra ver, Sai correndo para casa para lavar minha mão ou quem sabe até amputa-la. Chegando em casa lavei minha mão como se um cão raivoso tivesse me mordido. Liguei pro meu médico para saber o que fazer e enquanto falava, do nada fui me irritando com todo aquele papo sobre ciência que ele tava defecando no meu ouvido e desliguei na cara dele. A luz começou a me incomodar e botei um óculos escuro dentro de casa mesmo. Fui ver um pouco de TV, para vê se eu relaxava e me peguei falando sozinho como se estivesse sendo ouvido pelo ancora do jornal. Esbravejando sentado na minha poltrona que tudo que ele dizia era mentira e que tava todo mundo manipulado. Nessa hora, comecei a ficar tonto e fraco e foi aí que tive a ideia de pedir da farmácia várias caixas de Hidroxicloroquina. Quando chegou e abri todas as cartelas e amacei até virar pó e comecei a dar vários tecos de cloroquina, bebendo gin tônica e ouvindo Roupa Nova. Acordei na maior ressaca e olhei para o ferimento na minha mão e ele estava totalmente cicatrizado. Passei a mão no meu nariz e ele estava enorme, precisei das duas mãos para envolver ele inteiro. Corri para o banheiro, e foi aí que eu notei que não era mais meu rosto no reflexo do espelho. Eu estava com cara do Luciano Huck. Dei um grito de negação que pode ser ouvido a um quilômetro e foi nessa hora que, tomado pela ressaca e pela loucura de ver aquela imagem no espelho, sem pensar, ao som de Roupa Nova, eu cortei com uma navalha meu nariz fora, igual quando Van Gogh cortou a orelha ou quando Silvio cortou seu próprio membro em Engraçadinha.

E foi aí que eu acordei. Com o coração acelerado e tão suado que eu tive que por toda roupa de cama para bater. Não me lembro de já ter tido um pesadelo tão assustador. Preciso parar de comer pesado nessa quarentena. Como não consegui decifrar o meu sonho logo de cara eu resolvi não arriscar de ir na rua aquele dia e talvez nem nos próximos. Mais tarde, dando uma navegada na internet, eu ouvi o boato de que os sonhos de geral estão rolando de forma mais intensa e confusa nessa quarenta. O que será que o mundo onírico está querendo nos dizer? Vamos aguardar.

Ficar em casa na quarentena é muito diferente de ficar em casa porque você escolheu não sair. Também sair pra onde, filho? Beber com o gado aqui nos bares em Copa? Prefiro realmente cortar uma parte do meu corpo fora. Resolvi jogar um pouco de videogame. To jogando um daqueles RPGs gigantes que precisa de sei lá quantas horas para terminar e to sem pressa nenhuma também, fazendo todas as missões e sub missões e procurando todos os bauzinhos. E sem olhar na internet como resolve as paradas. Jogando roots.

Aí para ocupar a cabeça resolvi catar um projeto que eu larguei pela metade e retomar ele no facebook. Não é sobre Copacabana, mas as vezes até se passa em Copa, mas é sobre viagem no tempo e também histórias curtas variadas que envolvem elementos sobrenaturais e da cultura pop. Vai nesse link aqui depois Efeito Libélula e Outras Histórias que vou começar a postar lá regular. Já tem uns para ler lá. Eu quero me divertir escrevendo e divertir as pessoas com uma parada escapista e não ficar falando de quarentena e Covid-17, ops, quer dizer, Covid-19 eternamente. Que infelizmente se tornou o único assunto.


Humberto, Soparia e Garagem: três gerações de rock

Para uma fatia considerável de jovens sedentos por pelas novidades do rock mundial, nos anos 1970 e 1980, o endereço do hippie Humberto Brito, na Rua da Matriz, região central do Recife, tornou-se referência na cidade, em se tratando de coletividade e convergência de tribos. Lá, conviviam em harmonia tanto fãs do rock pesado de Black Sabbath como admiradores da poesia melancólica dos Smiths. [Texto de Pedro Siqueira]

Texto de Pedro Siqueira


Para uma fatia considerável de jovens sedentos por pelas novidades do rock mundial, nos anos 1970 e 1980, o endereço do hippie Humberto Brito, na Rua da Matriz, região central do Recife, tornou-se referência na cidade, em se tratando de coletividade e convergência de tribos. Lá, conviviam em harmonia tanto fãs do rock pesado de Black Sabbath como admiradores da poesia melancólica dos Smiths. A importância do espaço e de seu dono, falecido em 2014, aos 65 anos, é reconhecida até hoje por figuras-chave da cena musical que se formava nos anos 1990.

“No início dos anos 1980, eu ia direto na casa de Humberto, junto a Fred ZeroQuatro. Foi lá que descobrimos muita coisa que veio a ter influência em nosso trabalho. Compramos discos de Sex Pistols, Patti Smith… O primeiro álbum de David Bowie que tive foi comprado em Humberto”, relembra Renato L., ex-secretário de Cultura do Estado, e um dos cabeças da cena Mangue.

A “casa” ou “sebo de Humberto”, como ficou informalmente conhecida, era, de fato, a residência do lojista, que também comercializava alimentos orgânicos, além dos discos, em sua maioria de difícil acesso na época. “O esquema de distribuição das gravadoras era muito diferente. Podia demorar anos até que um disco mais alternativo chegasse às lojas, especialmente no Recife. Humberto acabava trazendo muito material do Rio, de São Paulo, ou até de fora”, conta Renato L.

Fred ZeroQuatro, vocalista da banda Mundo Livre S.A. e um dos autores do manifesto Caranguejos com Cérebro, espécie de carta de intenções da cena mangue, credita à casa de Humberto suas primeiras incursões no movimento punk rock, cujo lema, “faça você mesmo”, tornou-se influência tanto para a formação da banda, em 1984, quanto para a forma como os “mangueboys” organizavam seus eventos. “Mais do que o som, éramos interessados na estética punk, de ser um movimento articulado, bem planejado”, lembra ZeroQuatro.

Mesmo que, sonoramente, a casa de Humberto pouco tenha a ver com o estilo musical das bandas recifenses da cena mangue, o ponto foi um importante agregador de diferentes culturas, contando, também, com o fator do “boca-a-boca”, que gerou um nicho relativamente grande de clientes. Era comum, também, pessoas aparecem apenas para conversar, conhecer gente nova, ou simplesmente participar das sessões de audição promovidas por Humberto.

Rua da Matriz, 97 – Foto de Wilfred Gadêlha
Humberto Brito – Foto do acervo de Levi Cerqueira.

Até sua morte, Humberto Brito nunca deixou, oficialmente, de vender seus discos, mas, já nos anos 1990, com o avanço do CD sobre os discos de vinil, a rotatividade em sua loja foi minguando, curiosamente, ao passo em que o Movimento Mangue ascendia, e seus representantes também teriam um point para chamar de seu.

Soparia do Pina

Se cidades com fortes movimentos musicais como Seattle, Los Angeles e Nova York tiveram seus próprios bares, por onde passou boa parte das bandas que viriam a se destacar em seus meios, no Recife, havia a Soparia.

Inaugurada em 1991, pelo produtor e agitador cultural Roger de Renor, o espaço foi palco de evolução de bandas como Cordel do Fogo Encantado, Eddie, Mestre Ambrósio, Querosene Jacaré e os então já estabelecidos Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre SA.

“A Soparia tinha a questão de ser muito eclética. Tanto fazia, em uma noite, ter um show de punk rock, como, na outra, um de música eletrônica ou até forró e maracatu, cultura popular”, afirma Renato L. O espaço funcionou até 1999, na Avenida Herculano Bandeira, bairro do Pina.

Foto: Roger de Renor/Arquivo pessoal

“A Soparia, para mim, unia o útil ao agradável. Eu sempre gostei de juntar meus amigos para conversar, beber, ouvir música. Fazia festas e, então, decidi que podia ter meu próprio espaço”, conta Roger de Renor. 

Amigo de Chico Science, Fred ZeroQuatro e figura-chave da cena mangue, Renor é, talvez, a maior referência pernambucana, em se tratando de projetos variados que agregam todos os tipos de som, desde o rock pesado até o maracatu e a ciranda, como se orgulha de citar, enquanto relembra artistas que passaram pelo palco da Soparia. 

“Eu penso que quase todas as bandas que estavam surgindo na cena tocaram ali. Todo mundo se encontrava. Se tinha um festival, por exemplo, como o Abril Pro Rock, o público ia depois para a Soparia, e os artistas também. Lembro uma vez que os Paralamas do Sucesso tocaram no festival e depois seguiram para lá”, diz.

Como o nome sugere, a Soparia era, de fato, um local que servia sopas, mas as atrações iam além da pura gastronomia. O salão do local, espaço reservado para as apresentações ao vivo, virou referência para boa parte da juventude antenada da época. A aventura, no entanto, durou pouco e, em menos de dez anos, a Soparia encerrou as atividades, em um momento de efervescência da região no Pina, que passou a receber outros bares.

“Depois de mim, outras pessoas começaram a empreender ali no local. Criou-se um mercado, mas isso não existia. Posso dizer que o movimento que nasceu foi por causa da Soparia. Hoje virou negócio, chama-se Polo Pina. Naquele momento percebi que já não me encaixava mais naquilo”, pontua Roger.

Sempre ativo, o agitador cultural leva o espírito agregador que fez parte de sua fama para iniciativas como o programa de TV Sopa Diária e o projeto itinerante Som na Rural.

Cerveja e punk no Garagem

Com o fechamento da Soparia, a noite recifense ainda teria um respiro de inventividade com o Garagem, bar localizado no bairro das Graças, Zona Norte do Recife. Assim como seu predecessor, o espaço, famoso na cidade como “o único lugar do Recife em que era possível tomar cerveja até o dia raiar”, também serviu de reduto para a juventude underground recifense, mas voltado para as raízes do punk e do rock.

“O Garagem era o lugar que todo mundo ia. Gente de todo tipo passava lá depois que tivesse algum show rolando, e sempre ouvia bons sons. Até mesmo artistas famosos que vinham tocar no Recife acabavam tocando lá”, lembra Guilherme Moura, curador do portal Recife Rock. “Lembro de uma vez que Wander Wildner (cantor gaúcho, ícone do ‘punk brega’) tocou lá de graça, e não tinha sido anunciado direito, foi tudo no boca-a-boca, acabou lotando o espaço.”

“Nessa época, havia uma preocupação maior com a programação musical, tinha sempre shows. Mas era complicado. O Garagem nunca foi muito popular na vizinhança, era algo muito marginal. Não era incomum aparecer polícia durante os shows, revistando todo mundo. Isso acabava afastando o pessoal”, lamenta Guilherme.

O local, na verdade, iniciou as atividades ainda nos anos 1990, sob o nome Galletus e curadoria de Evandro Sena, hoje proprietário do espaço Iraq, na Boa Vista. “O Garagem se beneficiou muito desse espírito quase punk mesmo, de ser meio improvisado, você nunca sabia o que ia acontecer”, relembra Evandro.

Ao contrário da Soparia, no entanto, o Garagem teve um fim mais melancólico, sendo demolido em 2009, oficialmente, pela falta de alvará de funcionamento. Durante os anos de maior atividade, o espaço foi gerido pelo folclórico “Nilson”, e viu surgirem bandas como The Playboys, Mamelungos e Mellotrons, que, apesar de nunca terem cruzado a barreira do sucesso mainstream, foram referências na cena alternativa daquela geração.

Hoje, com o Iraq, na Boa Vista, Evandro também mantém vivo o espírito underground do Garagem. “Eu penso que é um tipo de público muito parecido. Quem ia ao Garagem também vai, hoje, ao Iraq. E aí sempre tem alguém que traz um amigo novo que curte, se interessa, e por aí vai ampliando”, comenta. 

É possível afirmar que, de certa forma, tanto a casa de Humberto, como a Soparia e o Garagem foram vítimas não só de fatores como especulação imobiliária, mas também de uma mudança nos padrões de consumo do público, talvez até mesmo em escala global. Mas mesmo em locais de nicho, a cena pernambucana, aos poucos, mostra sinais de vida.

PS. Não encontramos os créditos para as fotos de Humberto Brito e seu sebo. Se alguém souber o autor, por favor nos informar!


Memórias alheias

O ano é 2047. Há pouco iniciaram-se os leilões de memória, um novo pilar civilizacional. Ao constatarem a quantidade abissal de material afetivo perdido na nuvem, de pessoas falecidas – algo que em princípio parecia apenas um amontoado infinito e inútil de terabytes de lixo -, associado a apatia emocional de praticamente toda população existente… [Texto de Terêncio Porto]

Texto de Terêncio Porto

O ano é 2047. Há pouco iniciaram-se os leilões de memória, um novo pilar civilizacional. Ao constatarem a quantidade abissal de material afetivo perdido na nuvem, de pessoas falecidas – algo que em princípio parecia apenas um amontoado infinito e inútil de terabytes de lixo -, associado a apatia emocional de praticamente toda população existente, a partir da sugestão de um desses estagiários gênios recém contratados, com intermináveis insígnias reluzentes, próprias pra pronta admissão no mundo dos campeões, as grandes corporações inauguraram a novíssima modalidade de negócios. Como num reality show em que são leiloados armazéns abandonados cujos conteúdos são absolutamente desconhecidos, as pessoas rapidamente se afeiçoaram a novidade e começaram a comprar, em princípio a preços módicos, mas logo depois a preços exorbitantes, memórias alheias pra chamarem de suas. Fotos, vídeos, cheiros (o armazenamento digital de cheiros data de 2034), sons, tudo conteúdo pessoal e íntimo, 100% “original”. E dessa forma a ideia de simulacro se diluiu, na medida em que novas emoções deixaram de ser construídas, e praticamente a totalidade da população, em um tempo surpreendentemente veloz, aderiu e começou a viver e interagir com memórias de outrem, sem que pudessem escolher ou triar quais seriam estas (uma estranha sugestão do estagiário criador, mas que se mostrou uma das chaves do sucesso do novo negócio, a aleatoriedade da compra, só definida por tamanho, nunca por conteúdo.

— me vê 900 tera de novidades!
— mas 1000 dá desconto, senhor, não quer um pouco mais?

Memórias que dessa forma se tornavam hermeticamente originais, e relativizavam a própria ideia de simulacro.


Nosso colaborador e amigo Terêncio Porto nos chega com um pequeno conto, ou seria fábula? Num futuro não muito distante, na verdade bem ali, a memória terá outro significado na vida das pessoas