O começo do fim do mundo

Com notícias assim começa o fim do mundo e ninguém percebe. Dias depois, já tarde da noite no mesmo laboratório, um assistente, sempre o assistente, se contaminou ao manipular as amostras da bactéria, que na verdade veio do espaço sideral. Sim, porque milhões de anos atrás, alienígenas de outro planeta utilizaram a própria Terra como laboratório, na tentativa de produzir vida no nosso planeta. [Texto de Joelson Pranto]

Texto de Joelson Pranto


Os cientistas extraíram DNA e bactéria de um bloco de gelo encontrado entre três e cinco metros abaixo da superfície de uma geleira na Antártica. Os pesquisadores utilizaram cinco amostras que tinham entre 100 mil e oito milhões de anos. Os micro-organismos voltaram à vida e começaram a se reproduzir quando os cientistas lhes ofereceram calor e nutrientes.

Extraído da edição online do jornal O Globo, do dia 08 de agosto de 2007, às 23h46m


Com notícias assim começa o fim do mundo e ninguém percebe. Dias depois, já tarde da noite no mesmo laboratório, um assistente, sempre o assistente, se contaminou ao manipular as amostras da bactéria, que na verdade veio do espaço sideral. Sim, porque milhões de anos atrás, alienígenas de outro planeta utilizaram a própria Terra como laboratório, na tentativa de produzir vida no nosso planeta. Disseminaram esporos e bactérias, manipularam códigos genéticos e por fim, cansados e com vontade de fazer outras coisas universo afora, abandonaram o planeta e suas experiências ficaram à própria sorte.

A vida, ao contrário do que imaginaram os alienígenas se afastando em suas naves, acabou por florescer e multiplicar-se. Mas na medida em que a evolução seguiu seu curso, coisas inimagináveis ficaram para trás, na sombra das eras geladas, até aquela noite; até aquele assistente esbarrar no que não deveria.

E foi assim que um anônimo começou a pandemia. Incontrolável ela se espalhou de cidade em cidade enquanto no laboratório perdido, onde quase todos os cientistas e médicos já morreram, travou-se a luta final para decifrar os códigos da criatura em busca de uma cura. Logo seria tarde demais…


No vácuo distante as naves poderosas e prateadas movem-se em silêncio. Nos seus interiores arquiva-se os dados do projeto de colonização e produção de vida naquele pequeno planeta, deixado para trás há milhões de anos. Movem-se rápidas, levando a cura a bordo sem sequer imaginar. São seres curiosos mas distraídos, que ainda manipulam as mesmas bactérias mas que já têm em mente novos projetos. Seu cortejo ruma para um novo mundo, cujas análises prévias apontam como promissor. Talvez acabem por abandoná-lo também.

Será que em seu périplo pela galáxia retornarão às vizinhanças da Terra, mundo já extinto e desolado, mas com insuspeitos sinais de uma vida que se desenvolveu, construiu cidades e sumiu sem deixar muitos vestígios?

Lição inestimável: Nunca ofereça calor e nutrientes a uma bactéria.


Descobrindo poesia

A poesia sabe que a procuro continuamente e não se furta de vir ao meu encontro. Esses encontros de agora, no entanto, são mediados por uma vida que já passa dos 50, por experiências e tantas leituras. Inevitável que seu sabor seja outro, distinto daqueles dias em que eu me sentava no gramado em frente ao prédio do CAC; ou mesmo antes, na escola, quando o livro de literatura me revelava o novo a cada virada de página. Parecia que eu havia caído num outro planeta, onde tudo ainda precisava ser nomeado. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Uma das minhas grandes amizades, foi assim que a conheci. Tempos de faculdade, primeiro semestre no CAC – Centro de Artes e Comunicação da UFPE, estudávamos eu e Anamélia na mesma turma; um grupo de estranhos numa sala, se tateando e entendendo, fazendo as primeiras conexões, algumas que durariam anos. Que duram até hoje. Certa tarde eu passei por Anamélia no hall do térreo do CAC e vi que ela usava um broche em que podia-se ler Que a crítica não toque na poesia, verso de uma música de Caetano Veloso. Enquanto cruzávamos o caminho um do outro, seguindo em direções opostas, apontei para o seu broche falei E que a crítica não toque na poesia, com um jeito que me era então característico, e que Ana certamente lembrará. Aquele broche foi como um sinal luminoso na noite, desses que se disparam de botes salva-vidas. Eu poderia nadar até ele e encontrar alguém e me reconhecer nessa pessoa, nesse bote à deriva sabe-se lá em que mar. Daí travamos amizade, conversas, passeios, bares, cinemas… e essa é apenas uma das coisas que a poesia trouxe para a minha vida.

Todo aquele período foi um período de descobertas. Já bem antes da faculdade eu me interessava por poesia e vim a conhecer tanta coisa que ainda me acompanha. Mas ali, no Centro de Artes, essas descobertas floresceram num sistema mais amplo de trocas. Assim como a Ana, a poesia me ligou a muitos novos amigos, que traziam consigo poetas e poemas, tudo novo para mim. Tenho uma enorme gratidão por essa pessoas. Depois que a gente sai da faculdade as coisas arrefecem um pouco e um dos desafios é manter acesa a curiosidade e sempre buscar se surpreender. Então sempre estive com o ouvido colado à parede, procurando ouvir a voz da poesia, seu chamamento. E frequentemente tenho sido agraciado pela descoberta de poetas e obras que me cativam e surpreendem. Recentemente me encantei pela generosidade de uma dupla de brasileiros que reside na Islândia e que orquestra uma verdadeira ciranda de tradutores, que dedicadamente vertem para o português a poesia nórdica. Trata-se de Francesca Cricelli e Luciano Dutra, responsáveis pelo projeto Um poema nórdico ao dia. Devo a eles e aos seus bravos colaboradores a alegria imensa de conhecer uma poesia que me escapava completamente. Graças a isso que se chama internet, entrei em contato com eles, que não pensaram duas vezes antes de produzir um texto sobre seu trabalho, selecionar poemas e compartilhar tudo isso conosco, aqui na Kuruma’tá.

A poesia sabe que a procuro continuamente e não se furta de vir ao meu encontro. Esses encontros de agora, no entanto, são mediados por uma vida que já passa dos 50, por experiências e tantas leituras. Inevitável que seu sabor seja outro, distinto daqueles dias em que eu me sentava no gramado em frente ao prédio do CAC; ou mesmo antes, na escola, quando o livro de literatura me revelava o novo a cada virada de página. Parecia que eu havia caído num outro planeta, onde tudo ainda precisava ser nomeado.

Só que recentemente, e tudo que escrevi nesse texto foi para chegar até aqui, eu senti de novo aquele sabor, de descobrir uma poeta como se fosse num mundo novo. A mesma sensação de quando abri certo livro de Allen Ginsberg na Livro 7, por causa do título, Uivo, lá nos anos 80. Uma sensação que a gente acha que pertence a outro tempo. E talvez pertença mesmo e seja um anacronismo senti-la, ou a reverberação quântica da simultaneidade dos eventos. Algo que transcende a ilusão do tempo linear. O fato é que descobrir a poeta argentina Alejandra Pizarnik, me surpreendeu e encantou. Creio que me surpreendeu mesmo não conhecê-la ainda, uma vez que sempre tive muita atenção com a literatura da América Latina. Temo que fosse, infelizmente, uma atenção muito masculina, que muito precisei trabalhar vida afora. Verdade que a poesia de Pizarnik chegou a pouco em terras brasileiras, em duas edições, dos livros Os trabalhos e as noites (1965)  e Árvore de Diana (1962), ambos lançados pela Relicário Edições, em 2018. Mesmo assim não tê-la ainda lido é uma falha na minha curiosidade, que não me levou às suas páginas. Mesmo ela sendo amiga de Julio Cortázar, que sempre admirei tanto. Cortázar que chegou a escrever um poema para Alejandra e que eu nunca havia lido, até poucos dias atrás., que pôs fim à própria vida, em 1972, aos 36 anos. Em 1972 eu tinha apenas 6 anos de idade, e um longo caminho pela frente até conhecer essa poeta de versos curtos e tristes, carregados de surrealismo e noite.

Obras de Alejandra Pizarnik editadas no Brasil


Estou aqui resistindo a acessar sua biografia. Lembro de tantos poetas que conheci sem saber coisa alguma sobre suas vidas, ou muito vagamente. A internet me trouxe Alejandra e tantos poetas, mas trouxe junto tanta informação que acaba por contaminar o que a gente lê. É a tal da faca de dois gumes. Sei que ela viveu uma vida curta, sei que não se encaixava, sei que conheceu gente como Cortázar, Octávio Paz, viajou, frequentou o meio literário e trocou cartas com Silvinia Ocampo… fragmentos de uma vida. De uma vida em fragmentação.Cada poeta nos oferece um mundo. O de Alejandra é um mundo em permanente despedida. Vou lendo poema por poema, me aprofundando nesse mundo ao mesmo tempo que o percebo a afastar-se.

Deixo aqui a dica de um texto da também poeta Laura Erber sobre Alejandra e sua poesia, publicado no Suplemento Pernambuco, em novembro de 2017:

Embora seja muitas vezes lida na clave biografista, a poesia de Pizarnik se faz em intenso e vertiginoso diálogo com outras vozes poéticas que ela incorpora e fagocita, macerando e revolvendo certos versos ou topos até o seu esvaziamento ou contradição, como se a poesia fosse um ato de leitura ao mesmo tempo crítico e passional, que coloca o sujeito da leitura em risco. Há um modo de incorporação por eco em que ela vai esgarçando o texto alheio até o ponto de decepção. Esse diálogo privilegia bastante a literatura francesa com a qual ela mantinha uma intimidade crítica bastante particular, autores como Breton, Reverdy, Lautréamont e Rimbaud são cruciais nesse jogo de diálogo com os mortos. — Texto completo aqui.

Alejandra Pizarnik, vou ler e reler seus poemas num aprendizado permanente. Seus livros estarão, certamente, entre aqueles aos quais eu sempre recorro, como quem recorre a um mantra ou a uma memória ou a um quarto com as cortinas fechadas, para apagar o mundo. E acender outro mundo, feito de linguagem, do marulho interior de uma pessoa envolvida numa busca de si, e talvez do outro, com esses livro na mão, a adivinhar quem partiu.

O poema que não digo,
o que não mereço.
Medo de ser duas
a caminho do espelho:
alguém em mim adormecido
me come e me bebe


Historinha de máscaras

Era uma vez um planeta lindo e animado. Seus habitantes viviam no maior agito, na maior correria. Todos viajavam, consumiam, ninguém ficava quieto. Quanto mais acelerado, mais imprescindível. Tinha shopping, escada rolante, open house, igreja, escola, academia. Muito pasto, muito prazo, carne, boleto, fumaça e p(r)egação. [Texto de Nonato Gurgel]

Texto de Nonato Gurgel


Ah quantas máscaras e submáscaras,
Usamos nós no rosto de alma
Fernando Pessoa


Era uma vez um planeta lindo e animado. Seus habitantes viviam no maior agito, na maior correria. Todos viajavam, consumiam, ninguém ficava quieto. Quanto mais acelerado, mais imprescindível. Tinha shopping, escada rolante, open house, igreja, escola, academia. Muito pasto, muito prazo, carne, boleto, fumaça e p(r)egação.

Naquele planeta poluído e desigual, tudo continuava trepidante, postergado, até que um vírus declamou Drummond: ‘Stop. A vida parou…’, e depois tocou Raul: ‘Plunct plact zum/ não vai a lugar nenhum’. O vírus curtia também a Tropicália, e releu os seus dois principais ícones: é preciso estar atento e só/ eu preciso refazer o só ser.

O planeta animado teve que passar uma segunda. A galera ficou zoada. Outros hábitos: niver com abraços virtuais, casamento via celular, classes média e alta lavando banheiros e panelas, descobrindo o óbvio: a faxineira põe o mundo para funcionar. Além de ficar isolado, pouco abraço. É preciso intensificar a higiene, rever alimentos, ficar imune dá trabalho. Para ir às compras, melhor usar máscaras, não é nada encantadora a alma das ruas onde tio eros perde agora de goleada para thanatus.

Excessos de si

Nas telas nossas de cada dia, a pandemia revelou a alminha global de cada país em tempos de necropolítica. Um país pediu para seus habitantes ficarem em casa e ler; outro, desprezou as recomendações da ciência e sugeriu jejum; teve país que enviou médicos, e teve país segurando máscaras, feito burguês empilhando carrinho em supermercado.

Quarentena prorrogada, qual o novo ritmo do planeta? Pessoas trancadas ficarão mais próximas? O futuro dirá, mas a gente sabe que quando pessoas se juntam, alguma coisa acontece. Já aconteceu. Duas semanas depois dos humanos fora da parada, os ares das cidades ficaram mais leves, os mares transbordaram. Coiotes passeiam livremente pelas ruas de São Francisco, um lobo circula por Volta Redonda. Peixes, cisnes, patos, a quarentena tornou mais cristalinas as águas de Veneza, e o Quartier Latin de Paris foi invadido por patinhos.

A bicharada voltou a ocupar o planeta. ‘Humanos, só os reinventados’, disse o pássaro descontraído, sem máscara nem jejum, em visita ao poeta e amigo João.


Filhos da Quarentena: uma luz negra de arte que brilha em Londres

Em uma das minhas viagens a Londres, há tempos atrás, um grande, grande amigo meu artista lá erradicado me apresentou ao Simon, já beirando meio século de vida. A partir desse encontro, tive acesso à sua obra, de uma vida inteira, composta de desenhos e ilustrações de inspiração noir.

Obra extensa, de extrema qualidade. Toda ela engavetada. 

Fiquei à época estupefato com aquilo, imaginando como um artista de mão cheia, tão ativo em sua produção desde a infância, não permitia que seu trabalho visse a luz do dia. Ou da noite, como creio ele preferir… [Texto e entrevista por Eduardo Maciel]

Texto de Eduardo Maciel


Ilustração de Simon Seddon

Olá, kurumateiros confinados!
(FIQUEM EM CASA) 

Em uma das minhas viagens a Londres, há tempos atrás, um grande, grande amigo meu artista, lá radicado, me apresentou ao Simon, já beirando meio século de vida. A partir desse encontro, tive acesso à sua obra, de uma vida inteira, composta de desenhos e ilustrações de inspiração noir.

Obra extensa, de extrema qualidade. Toda ela engavetada. 

Fiquei à época estupefato com aquilo, imaginando como um artista de mão cheia, tão ativo em sua produção desde a infância, não permitia que seu trabalho visse a luz do dia. Ou da noite, como creio ele preferir…

No entanto, respeitoso que sou, aceitei aquele ostracismo como escolha pessoal, apesar da satisfação por ter tido acesso a algo então exclusivo. Algo excelente, devo frisar.

E eis que agora, esse nosso amigo em comum, igualmente talentoso e quase tão tímido e introspectivo, me disse que ele havia criado um perfil no Instagram em tempos de confinamento para mostrar o seu trabalho. Antes tarde do que nunca, não é mesmo?

Aproveitei o momento para entrevistá-lo: sua primeira entrevista formal, por assim dizer. Uma honra para mim!

Mas antes das perguntas e respostas, quero apresentar a vocês o barril de carvalho francês (ou inglês) que abriga esse finíssimo vinho criativo. Vamos lá!

Simon Seddon foi sempre inspirado pelo melancólico, gótico e sobrenatural. Reunindo inspiração vinda de diversas fontes dentro da literatura e da cultura popular, ele trabalha através de suas narrativas usando lápis, caneta de tinta preta e papel comum.

Desejando originalmente ser um ilustrador de moda, ele foi incentivado a treinar para se tornar um teórico abstrato das cores, embora confirmasse seu amor pelo monocromático. Ele se permitiu à liberdade e disciplina através do processo de pintura para controlar o plano ilustrativo da imagem com uma abordagem mais subversiva.

Deu pra entender a densidade?
Então. Agora a entrevista:


O que te levou para a arte? 

Desde muito cedo, respondi ao mundo que me rodeava desenhando. As primeiras lembranças incluem a capa de um caderno de desenho, desenhos nas paredes de casa e o fascínio pelas diferenças entre as minhas interpretações e as do meu irmão gêmeo, sobre exatamente as mesmas coisas. Eu lutei academicamente durante toda a minha vida escolar, portanto a minha própria narrativa seria o óleo para pulsar minha criatividade e me ajudar a entender o mundo ao meu redor. 

Meu pai se suicidou quando eu era criança. Ele também tinha arte dentro dele. Era escultor. E exerceu uma influência mística em mim, sendo minha “criatividade” o único elemento de inspiração que eu carreguei dele. 

Quando e como foram o seu “despertar”?

Lembro-me de fazer um desenho de uma bruxa muito bonita (os contos de fada sempre exerceram um fascínio especial em mim). Levei a obra para a escola como parte de um projeto escolar. As crianças da minha turma não acreditaram que o desenho havia sido feito por mim. Apesar de ter me deixado com raiva, aquilo me gerou uma emoção estranha. A partir daquele momento, coloquei-me em competição direta e na mesma trajetória de outros operários da arte. De lá, fui para uma escola estadual muito estranha que, embora fosse academicamente pobre, por outro lado, tinha um departamento de arte incrível! Era como uma prisão que você deixava todas as noites e voltava pela manhã. Finalmente saí de lá aos 16 anos, sem qualificações. Eu havia me beneficiado muito com o entusiasmo e o incentivo do conhecimento dos tutores de arte. Eles foram levados a sério por mim, permitindo que eu me preservasse contra certos obstáculos. Eu e meu irmão (que também tem dons artísticos) passaríamos os próximos anos nos educando sozinhos e ficamos famintos por informações e idéias que alimentavam nossos sonhos e ambições – um desejo tão forte que nos envolveu como um oceano.

Considera que ser artista é algo que a gente nasce sendo ou que é algo que pode ser feito por quem quiser estudar pra ser?

Essa é uma pergunta difícil e só pode ser respondida em nível pessoal. É uma percepção mercurial que muda nos momentos-chave da sua vida criativa.

Carregado de preconceitos, o termo “artista”, é abordado em um contexto aspiracional, ou como rótulo de autenticação, ou ainda um elogio alcançado quando se pode ganhar a vida com esse rótulo, ao mesmo tempo que pode também excluir, desvalorizar e depreciar os impulsos criativos em alguns casos. 

Então, o que faz de alguns um artista? Acredito que alguns nascem mais intuitivamente criativos do que outros. Também acredito que existem diferentes níveis de criatividade os quais, sem serem nutridos ou reconhecidos cedo, recuam dentro dos indivíduos e como um desejo ou arrependimento, tornam-se quase que um fardo e um terrível desperdício de potencial, mas o mais importante nunca desaparece. Analisando por outro ponto de vista, há um fascinante preconceito que estudantes do ensino médio e nível universitário guardam: o de que a arte é a opção mais fácil em comparação com outras escolhas. Se começarmos com nessa noção, sendo desprovidos de compulsão ou imaginação, podemos perseguir a arte e sermos um artista – como uma opção facilmente alcançável. Uma opção em que simplesmente se está aderindo a um conjunto de “regras”, com as ferramentas certas, certos privilégios, intuição, confiança e plano de jogo definido. Todos podem com toda a certeza chegar, em algum momento, ai destino desejado. Por se separarem do elemento emocional compulsivo, eles se transformam em uma mercadoria com a qual seu objetivo pode ser direcionado. Não existe um caminho certo ou errado. Pessoalmente, sinto que o que me faz um artista é a compulsão em relação à narrativa do meu processo criativo e isso define o meu objetivo nesse sentido.

A arte é a linguagem ou a voz perturbadora do subconsciente e nós a utilizamos ou não. Meu conselho para os outros é: permita-se ser assombrado por essa voz.

De onde vem a sua inspiração?

Eu sempre amei imagens em geral. Uma inspiração é desencadeada por um quadro ou mais precisamente um quadro vivo, seja visual ou audível, pinturas, ilustrações de livros infantis, fotografias de moda ou uma cena em um filme. Eu não discrimino. Isso evocará um flash momentâneo como um pedaço vida em movimento ou ainda um filme que virá com sua própria narrativa, quase como uma visão, memória perdida ou sintonia com o outro lado em uma sessão espírita. Fico fascinado pelo melancólico e por aquele instante em que algo misteriosamente chama nossa atenção naquela área de nossa periferia visual. Momentos fantasmas e personagens ilusórios, cuja verdadeira identidade permanece um mistério. As mulheres são em grande parte as protagonistas do meu trabalho, e eu concordo com a escritora Angela Carter, que defendeu sua escolha de personagens e disse algo como: “Eu escrevo sobre mulheres porque as mulheres são mais interessantes que os homens.” 

Simples assim. E como fui criado em uma casa de mulheres, para mim isso é verdade. Com o tempo, algumas dessas visões são arquivadas em uma gaveta para nunca mais voltar e outras são persistentes e atravessam seus ossos e fazem o trabalho por você. Nos últimos 20 anos, a palavra escrita se tornou uma nova fonte de minha inspiração. Particularmente os contos, que se adequam à minha imaginação. Uma parte da música (geralmente um pequeno movimento em uma composição muito maior) pode desencadear uma imagem e seguirei a narrativa dessa idéia ou devaneio, como um eco de eventos imaginados. Suponho que amo o belo e o sinistro em igual medida, de modo que meu trabalho é uma transmutação dos dois. Por mero acaso, li recentemente um artigo sobre a cantora folclórica inglesa Frazey Ford, sobre a sobrevivência e sua educação traumática. Ela cita: “meu irmão mais velho me indicaria a beleza, mesmo se estivéssemos em uma situação perigosa. Se você tem o senso de beleza, você pode sobreviver às coisas.”

Como funciona o seu processo criativo? 

Quando começo a construir uma idéia, aprendi a não esperar que o trabalho final seja uma cópia desse primeiro “flash” ou visão! Com o tempo, aprendi apenas a usá-lo como chave, obtendo acesso a uma biblioteca interna que possui tudo o que é relevante para desenvolver ainda mais aquela idéia; esse é o período que chamo “casulo”. Inicialmente, começo com uma série de desenhos a lápis soltos ou “desenhos animados”. Alguns serão a idéia em sua forma básica original, rostos, figuras, móveis, etc.. Em seguida, eu começo a eliminar alguns elementos de forma rápida, quase brural. A atividade dentro deste casulo é o processo de edição, que ao cabo é o componente mais vital para qualquer processo criativo e uma habilidade necessária de aprendizagem. Quando estou satisfeito com a estrutura, começo a ajustá-la, ainda trabalhando a lápis, e a próxima etapa do treino começa. Essa é a parte mais horrível para mim e a mais exigente psicologicamente. O que se torna importante agora é o equilíbrio de objetos no plano da imagem. Um deve estar em conformidade com o outro, permitindo que o espectador corrija a passagem pelo espaço usando truques visuais sutis que o guia, quase como num mapa secreto. Esse estágio pode ser descrito como uma dança perversa, puxando uma pele sobre um esqueleto para ajustá-lo. Depois de concluída, a tinta preta deve ser aplicada e, novamente, a imagem será transformada ainda mais e surpreenderá você. A conclusão da imagem a partir deste ponto é muito lenta e exigente, e ao mesmo tempo desagradável, mas incrivelmente satisfatória.

Qual a mensagem que deseja transmitir com o que produz?

Permaneça fascinado com o passado, ou mais precisamente com elementos do passado, pois existem tesouros fabulosos enterrados sob o subconsciente das culturas. 

Não dê muita importância à relevância imediata, mas permita-se ser enfeitiçado pelo oculto e aparentemente sem importância. 

Utilize o passado como uma rota para o futuro. Não foque muito seu interesse na relevância de um contorno. Mantenha as habilidades humanas vivas. A imagem desenhada à mão é milagrosa. O fato de você poder manifestar algo de algum lugar fisicamente inacessível e dar-lhe vida torna-o milagroso. O fato de uma série complexa de marcas poder compor uma poesia visual que afeta pessoas de maneiras diferentes é profundo, mágico, um privilégio que não devemos descartar ou desvalorizar…

E por fim, seja fiel ao seu trabalho. É essencial se ter uma linguagem acessível e envolvente para sua alma poder sonhar.

Bela história. Belíssima. E mais bela ainda a obra. Que demorou para vir à tona sim. Mas que, apesar de Londres (cuja bruma insiste em esconder artistas expoentes em seu tempo), está aos poucos sendo revelada no Instagram.

Sigam o Simon:
@s.p.seddon

Na rede social e na coragem de se revelar. Seja cedo, seja tarde! Porque o tarde não existe entre os deuses da arte.


Seu Castro

Ontem, 4 de abril, foi aniversário do meu pai, seu Antonio, ou seu Castro, que se vivo estivesse completaria 86 anos. Ainda estaria a contar suas histórias? Ainda sentiria, sentado na frente do nosso pequeno prédio olhando a rua, o peso enorme das distâncias até Imperatriz, Belém, Tucuruí? Exatamente ali, onde o vi tantas vezes fitar o arruado que e levava até a Imbiribeira e à BR-101, exatamente ali começava o mundo pelo qual rodou por anos, sem saber como voltar. Sem saber para onde voltar. [Texto e poema de Toinho Castro]

Texto e poema de Toinho Castro


Ontem, 4 de abril, foi aniversário do meu pai, seu Antonio, ou seu Castro, que se vivo estivesse completaria 86 anos. Ainda estaria a contar suas histórias? Ainda sentiria, sentado na frente do nosso pequeno prédio olhando a rua, o peso enorme das distâncias até Imperatriz, Belém, Tucuruí? Exatamente ali, onde o vi tantas vezes fitar o arruado que levava até a Imbiribeira e à BR-101, exatamente ali começava o mundo pelo qual rodou por anos, sem saber como voltar. Sem saber para onde voltar.

Cadê você, seu Castro?
Em que BR Maranhão adentro,
em que posto Nassau noturno,
comendo agulha frita?

Por onde vaga essa
sua alma conflituosa
que desceu na terra
em Sertânia,
sem saber exatamente
pra onde ir ou o que fazer,
o que fazer de si?

Era um vagante
nesse mundo
e por isso viveu errante,
pelas estradas,
que nas estradas
era que se sentia
em casa.

Já em casa
era um estranho sem ninho
arremessado à poltrona
à TV e à ordem que o lar
impunha ao seu mundo
caótico, disruptivo.
Ao seu errar errático.

Onde, seu Castro,
a essa hora da noite,
está você?
De que telefone
ligará para a cabine
da TELPE naquele aeroporto
que não mais existe?

O que, em você,
ainda resiste contra a morte?
O que ainda lhe resta
daquela noite em que conheceu
minha mãe e ofereceu-lhe,
num curioso gesto de encanto,
uma lata de goiabada Peixe?

Penso às vezes, numa noite
como essa
ou varando uma estrada aberta:
Não nos deixe, seu Castro.
Não nos deixe.


Ainda hoje pergunto-me de que destino, talvez terrível, desviou-lhe aquela lata de goiabada, na noite do Arruda, no Recife, enquanto armavam a feira para o dia seguinte.


Kuruma’tá na Ponta da Agulha: Costuras de Singeleza | Camilla Farias ao vivo, com Fabricio da Rocha

Tempos de quarentena, shows adiados ou cancelados, espaços culturais fechados… o conforto nesses dias em que nos resta o espaço doméstico, a quem tem, certamente, o privilégio desse espaço, todo organizado, com internet, celular computador, o conforto tem sido os artistas, sempre a nos salvar, com seus cantos e instrumentos, talentos e generosidades, embalando nossa rotina de reclusão enquanto o mundo lá fora nos espera. [Texto de Jorge LZ e Toinho Castro]

Texto de Jorge LZ e Toinho Castro


Tempos de quarentena, shows adiados ou cancelados, espaços culturais fechados… o conforto nesses dias em que nos resta o espaço doméstico, a quem tem, certamente, o privilégio desse espaço, todo organizado, com internet, celular computador, o conforto tem sido os artistas, sempre a nos salvar, com seus cantos e instrumentos, talentos e generosidades, embalando nossa rotina de reclusão enquanto o mundo lá fora nos espera. A internet se abriu em lives, bate-papos, tesouros e relíquias sendo disponibilizados por artistas notórios. Mas o que comove mesmo é muita gente jovem, em começo de carreira, abrindo as janelas das suas contas de Instagram pra gente ser feliz com boa música. O Radiohead postar um concerto no YouTube pode ser maneiro, mas a cantora e compositora, que acabou de lançar um primeiro disco, compartilhar com geral um show delicado, voz e violão, pra elevar o espírito da gente… sim, isso comove.

E é com esse tom de admiração e respeito, que essa dobradinha aqui, formada pelo Programa na Ponta da Agulha e pela Revista Kuruma’tá, traz até você um áudio com uma hora de duração, feito de leveza e talento. Trata-se, como vocês já sacaram, da apresentação da Camilla Farias, com participação especialíssima do compositor e violonista Fabrício da Rocha, no Teatro Violeta Arraes (que nome lindo para um teatro!), na Fundação Casa Grande, em Nova Olinda, lá no Ceará. Imagina, no meio dessa confusão enorme em que nos metemos, a gente recebe uma mensagem iluminada da Camilla, falando desse registro, dividindo com a gente, e agora com vocês, essa preciosidade. O show aconteceu em 17 de janeiro de 2019, e hoje ele cai como uma luva, num momento em que precisamos demais de belezas assim.

Vamos ficar todos juntos nessa quarentena, curtindo essa noite de 2019, em que Camilla e Fabrício destilam tradição e abrem novos horizontes, com um setlist impecável, que a gente vai deixar pra você descobrir, música por música. Mas, de cara, é um passeio autoral e também de reverência ao nosso melhor cancioneiro.

Ficha Técnica do Show
Sonoplastia: Alan Cardoso
Iluminação: Daniel Pereira
Roadier: Matheus Moura e Pedro Vitor
Vinheta: Levy Pontes
Entrevista e fotografia: Letícia Dinz
Produção geral: Aécio Diniz


No dia 29 de fevereiro, esse dia louco que só acontece a cada 4 anos, escrevi um texto sobre o disco Singeleza – Para o mundo colorir, da Camilla Farias, e publiquei como conteúdo exclusivo do Instagram na Revista Kuruma’tá. Burlando a regrinha que criei (como toda regra, para ser quebrada!) e publico aqui essa resenha de um disco que cativou a mim e o Jorge LZ, pela sua qualidade, e por ter essa vibração única, que faz a gente querer escutar de novo e de novo.

Toinbo Castro

https://www.instagram.com/p/B9JzEjgJPFv/?utm_source=ig_web_copy_link

John Cage na 7 de setembro

E foi naquele 1985, ou terá sido 1986? Bom, a essa altura da vida, anos assim remotos são miudezas também. O que importa é que ao entrar na Livro 7, já naquelas primeiras estantes que haviam na entrada, dei de cara com um livro inesperado. O volume chamava-se De segunda a um ano, e reunia, com tradução de Rogério Duprat, escritos e conferências do músico americano John Cage. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Era o ano de 1985, quando adentrei no auge dos meus 19 anos o grande salão, ou melhor, galpão, em que consistia a Livro 7, livraria no centro do Recife, na rua 7 de setembro, que ostentava então o título sagrado de maior livraria do Brasil. E devia ser mesmo. Era um ritual ir até a Livro 7, vadear entre as prateleiras de livros, ler livros a esmo, conferir as novidades de um mercado editorial muitas vezes inalcançável para meu bolso. Mas ir até lá já era bom… Era como se o mundo tivesse acabado e só restado os livros; e estavam todos ali, reunidos. Foi lá que tive a dimensão de que a leitura era um recurso inesgotável e alcancei aquela tranquilidade de que sempre haveria livros para ler. A Livro 7 me tranquilizava diante do mundo . Um reino seguro e secreto,ainda que público. Acho que posso falar por muita gente, ao dizer que entrando ali acessávamos um espaço mágico, onde o tempo parecia em suspensão. Do lado de fora o circo pegando fogo no vuco-vuco da 7 de setembro, e um único passo, para dentro, nos colocava na redoma da leitura e estávamos protegido. Talvez seja uma visão por demais romântica; pois dane-se, que o seja. Desses miúdos romantismos vamos alimentando a nossa alma, se é que ela existe. Ou o que quer que existe. Se algo existe.

Foto: arquivo pessoal de Tarcísio Pereira , proprietário da Livro 7 | Fonte: Poraqui.com

E foi naquele 1985, ou terá sido 1986? Bom, a essa altura da vida, anos assim remotos são miudezas também. O que importa é que ao entrar na Livro 7, já naquelas primeiras estantes que haviam na entrada, dei de cara com um livro inesperado. O volume chamava-se De segunda a um ano, e reunia, com tradução de Rogério Duprat, escritos e conferências do músico americano John Cage. Há tempos que eu namorava John Cage e seu trabalho, por conta do meu contato com o Concretismo e todas as portas que os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, e Décio Pignatari, abriram na minha vida, no meu juízo. Dentre essa portas estava a que levava a Cage. Nem acreditei quando vi aquele livro ali, possível pra mim. Pus-me a folheá-lo com alegria, amor mesmo, observando a diagramação tão diferente. Os jogos tipográficos do longo e maravilhoso poema Diário: como melhorar o mundo (Você só tornará as coisas piores), os espaços, os brancos, a prosa bem humorada, aforismos, conferências… Duchamp, Schoenberg, Jasper Johns; cogumelos e música (essas duas paixões de Cage, que no idioma inglês se seguem no dicionário: Mushroons e Music). Era quase como se cada página fosse o começo de um novo livro. Depositei o livro de volta na prateleira com as mãos carregadas de eletricidade estática. Não comprei naquele dia mas não tardou a levá-lo pra casa, pra minha vida.

Para mim esse foi um livro de consulta permanente. Era a ele que eu sempre recorria, a consultá-lo como se fosse o I-Ching, ao acaso, como numa boa música de Cage. Seu trabalho me desafiava a pensar diferente o tempo inteiro. Que inteligência rápida e vibrante, que energia para transformar as coisas. Imaginava sua música pelo que eu lia a respeito. Anos depois é que fui escutar sua obra e sua risada aberta. Naquele ano de 1985, Cage esteve no Brasil, participando da Bienal de São Paulo. Eu não sabia disso. Não havia internet e eu sabia muito pouco. Mas esse pouco que eu sabia, e mesmo compreendia, me era muito precioso. Talvez eu não tivesse esses conteúdos muito ordenados na minha cabeça, porque era uma acesso muito fragmentado às coisas. Lembro que na minha aventura concretista li o Panaroma do Finnegans Wake, um livrinho vermelho danado da editora Perspectiva, sobre o último livro do James Joyce, com estudos e fragmentos traduzidos pelos irmãos Campos. Veja bem, era um livro de 1962, eu nem tinha nascido, mas que eu lia como se fosse novo. Isso porque ele inaugurava algo em mim. Era uma descoberta. Não entendia tudo mas ia captando mensagens e guardando para o futuro. Quando li que Cage havia musicado algo do Finngegans Wake tanta coisa se materializou em mim e fez sentido. Era um processo de aprendizado. De segunda a um ano chegou como uma peça perdida, que se encaixa num enorme quebra-cabeça. Posso dizer, hoje, que é um dos livros mais importantes da mim. Aquele dia em que dei com ele na Livro 7, foi um grande dia. Inesquecível. Um momento rápida na história de uma vida. A decisão de entrar numa livraria que mudou minha vida.

Preciso contar que minha cachorra, eventualmente, comeu meu livro, ou boa parte dele, quando eu já morava no Rio de Janeiro. Perdi assim meu oráculo, minha sorte de acaso, decorado de cabo a rabo e sempre novo. Mas como sempre achei minha cachorra, a Nina, mais importante que meus livros, ficou tudo bem. Aceitei o acaso e a perda. Passei a vivê-lo na minha cabeça, do que já carregava mesmo comigo. Nunca mais o encontrei numa livraria. Com a internet, com as livrarias online e a Estante Virtual, acabei por descobrir que tratava-se então de um livro raro e caro, fora de alcance. E assim foi por anos, até a editora Cobogó, da Isabel Diegues, colocá-lo de volta nas nossas vidas, com uma bem acabada reedição. Reencontrá-lo numa livraria teve esse sabor de velhos amigos que se reencontram. Retomei sua leitura ocasional e recorrente, ao acaso que tanto permeia a obra de Cage e seu pensamento. Aí, ano passado, gente, eu entro na Blooks Livraria, aqui no Rio, e lá na estante de lançamento eu vejo uma capa preta em que se lê: Silêncio. A mesma Cobogó acabara de lançar o primeiro livro de Cage a reunir seus textos. Quando eu li De segunda a um ano, lá em 1986, eu soube da existência desse livro e desde então vinho esperando que fosse lançado no Brasil. Uma espera de 33 anos que chegou ao fim. Leio a ele e De segunda a um ano como se fosse um livro só, e talvez o sejam, né?!

E hoje, com a web, navego no vasto universo da obra de John Cage e em tudo que com ela se conecta. Nomes como Merce Cunningham e Morton Feldman se materializaram, em vídeos que pude assistir, por exemplo, na UBU Web e em livros outros publicados, como o pequeno livro O futuro da música local, de Feldman, publicado pela Numa Editora. Essa editora também publicou o livro MUSICAGE palavras, uma conversação de Cage com Joan Retallack, devidamente adicionado à minha modesta biblioteca. Uma biblioteca que alimenta minha vida. Ainda não entendo tudo que leio nesses livros mas sempre achei também que nunca se trata de entender, mas de receber algo e permitir que isso nos transforme e mude nossa rota. Assim tem sido.

E agora que ensaio finalizar esse texto, que saiu mais longo que o imaginado, me vem essa memória incrível. Minha amiga Juliana Japiassú, naquele Recife dos anos 1990, comentando comigo o trabalho de Merce Cunnigham, que ela conhecera. Será real essa memória? Será real que assistimos a um a fita VHS com Merce dançando? Quero muito acreditar que sim. Que ali, remotos como estávamos, éramos capazes de ver o mundo e nos espantar e nos encantar com Merce, com Cage e com nós mesmos.


Um jeito de ajudar as livrarias a superar essa crise do COVID é comprar livros. Deixo aqui essa dica para você comprar na Blooks os livros de John Cage e Morton Feldman, e experienciar um pouco do que vivi e vivo com esses livros ou, quem sabe, e provavelmente, algo completamente diferente e novo. Clique nas capas para ver os livros na loja da Blooks, e aproveite com ver o que mais tem por lá. Uma riqueza de títulos.


Guardar é outra coisa

Agora estamos longe um dos outros. Longe mesmo. Fisicamente. Obrigatoriamente. Reflito novamente. Agora fazemos mais telefonemas. Eu pelo menos. E de vídeo (!!!) Até umas semanas atrás isso era o ápice da “invasão”. Mas eu confesso que sempre liguei. E sem avisar mesmo. Não me perdoem por isso. Bebo um gole d’água. Acendo meu cigarro de palha na varanda. Sentada na minha cadeira de sol, super confortável. Lembro do carinho que o amor me dá. [Texto de CARU]

Texto de CARU


Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la,
isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar, poema de Antonio Cícero
(Epígrafe por conta do editor)

Tô demorando. Pra entender. Pra escrever. Pra trabalhar. Pra refletir. O tempo agora é outro. Na verdade, eu começo a lembrar sobre teorias diversas. Todas sobre o tem-po. Quando nasci nem existia telefone celular. O telefone de minha casa era daqueles de girar o número. Não tinha botão. Depois de muitos botões, de muitos aparelhos, estamos na era da tela. Sem botão novamente. Desbloqueia com o olhar. Com impressão digital. Bloqueia uma “amizade” num clique, em um outro botão de lá de dentro da tela. Tudo assim. Rápido. Fácil. Sem muito esforço. O tempo é outro. É diferente. O tempo que eu levava pra contar uma história. Pra paquerar. Pra me vestir. Pra qualquer coisa. Era outro. Na minha época (sim, cheguei nessa fase de falar isso) não tinha meme. Era outro tipo de comunicação. De piada. De divertimento. De troca. Nesse momento, enquanto escrevo e enquanto estou em casa – por que posso – lembro daqueles momentos. Em frames. Aquela expressão do “era feliz e não sabia” grita aqui dendicasa

Agora estamos longe um dos outros. Longe mesmo. Fisicamente. Obrigatoriamente. Reflito novamente. Agora fazemos mais telefonemas. Eu pelo menos. E de vídeo (!!!) Até umas semanas atrás isso era o ápice da “invasão”. Mas eu confesso que sempre liguei. E sem avisar mesmo. Não me perdoem por isso. Bebo um gole d’água. Acendo meu cigarro de palha na varanda. Sentada na minha cadeira de sol, super confortável. Lembro do carinho que o amor me dá. Sinto saudades sempre. Observo a vizinhança que quase nunca esteve presente. E hoje está. Uma moça de biquini tomando sol. Uma criança correndo na varanda da frente. Pais brincando de cabana com seu filho. E o melhor: daqui há pouco o meu vizinho-doguinho vai latir pro prato de comida dele. Suspiro. Aproveito para dizer que esses pequenos momentos do agora, são como aqueles do passado. São para sempre. São eternos. Eu não vou esquecer disso. Porque demanda atenção. Demanda cuidado. Demanda olhar pro lado com outro tipo de olhar. Apreciação da vida normal. Sem julgamento. Fruição. Meu vizinho-doguinho começou a latir. Vou ali guardar ele. Guardar na memória. Junto com outros afetos que guardei. O que você tem escolhido guardar?

Foto de CARU

Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa: Mutantes

Rafael deixou o cabelo crescer até as costas, raspou tudo, furou orelhas, nariz e sobrancelha, usou malha canelada, camisa larga de mangas compridas, ouviu rap, reggae, techno, drum’n’bass, trip hop, electro. Rafael não é uma pessoa volúvel: é apenas um típico habitante de seu tempo… [Texto de Fábio fernandes]

Texto de Fábio Fernandes


Patrícia namora Rafael há três anos. Se é verdade o que dizem, que muita água passa por baixo da ponte num período tão longo de tempo, então para ela é como se um oceano inteiro tivesse rolado pelo canal estreito de seus vinte e cinco anos e derrubado todas as pontes que encontrasse pelo caminho. Nesses três anos Rafael deixou o cabelo crescer até as costas, raspou tudo, furou orelhas, nariz e sobrancelha, usou malha canelada, camisa larga de mangas compridas, ouviu rap, reggae, techno, drum’n’bass, trip hop, electro. Rafael não é uma pessoa volúvel: é apenas um típico habitante de seu tempo: inconstante, veloz, não acompanhando as mudanças, mas fazendo parte delas. Há um preço a pagar por isso, mas Rafael não tem tempo de perguntar qual seja ele.

Patrícia também é uma típica habitante da virada do século, só que do outro lado do espectro: prepara sua tese de mestrado, trabalha, junta dinheiro para realizar seus sonhos e desejos. Patrícia precisa de um alicerce sólido e seguro em que fundamentar suas ações. Ela suporta a escuridão do túnel porque sabe que existe uma luz ao final. Patrícia também sabe que Rafael é seu oposto: ele não vê o fim do túnel, simplesmente porque não está preocupado com isso. Prefere juntar o que encontra pelo caminho e acender velas, que iluminam precariamente mas lhe fornecem toda a luz de que precisa. Para Patrícia, Rafael é um mutante. E Patrícia tem medo de mutantes.


Corona, um banho de alegria

Na quarentena, posso fazer mil coisas mas não sei ainda por onde começo. Decisão, até agora, só a ida ao barbeiro. Raspei tudo. Depois de anos, voltei a ter uma baby face. Mas já me arrependi. Antes, me confundiam com o George Clooney. Hoje, é o Boy George quem sorri no meu espelho. Em nome da beleza e da minha sanidade, vou deixar crescer de novo. ^[Texto de Márcio Fabiano]

Poemas de Márcio Fabiano


Sou do tempo em que Corona era marca de ducha. Novidade anunciada com jingle chiclete na TV. Objeto desejado pela classe média, sempre louca para ter status. Ainda lembro quando tomei meu primeiro banho debaixo do chuveiro de grife. Me senti o Tio Patinhas.

Naqueles dias, vírus só nas aulas de biologia. Minha primeira professora, Maria José, era uma personagem de Dowton Abbey : elegante, classuda, mulher de outros tempos. Dominava os mitocôndrios mas não tinha pulso com a turma. Depois, veio Rose, enérgica e cheia de novidades. A primeira delas foi nos chamar para dissecarmos um sapo. O cão quem foi ver aquilo, menos eu. Desse dia em diante, tornei-me amigo dos animais.

O colégio era tradicional mas tinha suas peculiaridades. A direção era evangélica e pragmática. A festa dos 50 anos do bispo aconteceu na quadra. O diretor, membro respeitado da Igreja Batista, recepcionou o líder católico, que era esquerdista e foi um dos primeiros a pedir o voto para Lula na liturgia. Dom José Rodrigues era uma figuraça. Uma vez escrevi um texto em sua homenagem no jornal local. Meu pai chegou em casa e disse que um direitão fascista e homofóbico foi reclamar na agência bancária que o velho trabalhava. Eu perguntei, e o senhor disse o quê? “ Vou falar com meu filho, pode deixar.” Pragmático mesmo era meu pai. Disse que tinha orgulho do que escrevi e que o sujeito era cheio de pecados. O fascista hoje é uma estátua decadente na saída da cidade. Já Carlão, é um personagem de um mundo melhor. De vez em quando ele me manda recados nos sonhos. Freud explica. Doses de cuba livre também.

Nos anos 80, ninguém era ainda revolucionário ou de direita. A gente era dividido pelos apelidos ( criei a maioria) e pelas personalidades. Os mais quietos ou se lascavam com nossos bullyings ou se vingavam de maneira extrema. Tinha um, que de tanto ouvir nossas piadas, um dia transformou-se no Exterminador do Futuro. Nunca vi um sujeito de 1,57 crescer tanto movido pela ira. Nem o Hulk. Desse dia em diante, tornei-me amigo dos excluídos.

Em tempos de recesso, de distanciamento social, minhas memórias fervem. Já pensei na minha morte e estou criando uma playlist. Repetir o gesto do meu pai, que pediu as canções do Roberto e nós atendemos. Um primo ficou segurando o notebook durante boa parte do velório. Família é para isso. No meu vai ter Madonna, anos 70 e Luiz Gonzaga. Nordeste e Nova York. Tudo junto. E, please!!! Nem pensem em me homenagear vestindo camisas estampadas com minha cara. Se fizerem, eu volto igual aquela guria do filme “O Chamado”. Nunca mais vocês vão ter sossego.

Acordei disposto a redigir o testamento. Sei lá, o que tenho é pouco mas não quero que a letra fria da lei se meta em minhas emoções baratas. O problema é que quando você vai listar o que tem de material, sempre tem a porra do sentimento para dar pitaco nas suas decisões. Tenho dois quadros representando Frida Kahlo. Um vai para minha amiga Rita, lá em Serra Talhada. O outro pensei em enviar para o alemão, o gringo que ainda merece minha saudade e um poema meia-boca. Alguém sabe como se diz “ eu te amei porra” na língua da Angela Merkel?

Na quarentena, posso fazer mil coisas mas não sei ainda por onde começo. Decisão, até agora, só a ida ao barbeiro. Raspei tudo. Depois de anos, voltei a ter uma baby face. Mas já me arrependi. Antes, me confundiam com o George Clooney. Hoje, é o Boy George quem sorri no meu espelho. Em nome da beleza e da minha sanidade, vou deixar crescer de novo. Afinal, os dias são para colocar a barba de molho. Só que agora, a ducha é Lorenzetti. A vida tem isso. Perdão, Corona.