Recife

Hoje a cidade do Recife faz aniversário. Em dias assim, eu que estou longe, acabo assaltado por lembranças. Elas me chegam embaralhadas, truncadas. Lembranças sempre noturnas. As noites do recife, quando eu a atravessava pra lá e pra cá, com amigos, às vezes sozinho, sacolejando no ônibus, Jordão Baixo ou Encruzilhada / Boa Viagem. Em busca de uma cerveja gelada, de amigos pra conversar. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Hoje, 12 de março, a cidade do Recife faz aniversário. Em dias assim, eu que estou longe, acabo assaltado por lembranças. Elas me chegam embaralhadas, truncadas. Lembranças sempre noturnas. As noites do recife, quando eu a atravessava pra lá e pra cá, com amigos, às vezes sozinho, sacolejando no ônibus, Jordão Baixo ou Encruzilhada / Boa Viagem. Em busca de uma cerveja gelada, de amigos pra conversar. A desolação da Avenida Sul, arruinada, como um filme pós-apocalíptico… certa praça que eu adorava, por trás do Museu do Estado, cheia de eucaliptos. Memória da memória… começo já a lembrar das lembranças, como se alguém, em mim, me contasse. Certa noite, num bar com uma amiga, olhamos para a rua de frente pra nós e vimos, num sobrado velho, como pareciam todos os sobrados, uma placa: Clube dos Mágicos. Rimos e nos espantamos… era tarde da noite e ficamos imaginando o que poderia estar acontecendo ali dentro, a portas trancas, janelas cerradas. A reunião dos mágicos sombrios da cidade, aquela cidade assombrada em que éramos fantasmas.

Teve essa lua cheia, nascendo no horizonte escuro do mar, do Atlântico, que parecia uma explosão nuclear, como uma bolha alaranjada E eu quis que fosse uma explosão nuclear que rompesse o tédio daqueles dias, mas era a lua. Voltei pra casa, na Imbiribeira, sempre de ônibus, sempre de noite. Sim, lembranças sempre noturnas, com o cheiro do jasmim que minha mãe plantou, que cresceu e floriu tantas vezes. Já naquela época eu li um texto de Jorge Luis Borges em que ele falava dessa eternidade noturna.

Nenhuma casa se aventurava à rua; a figueira escurecia a esquina; os portõezinhos – mais altos que as alongadas linhas das paredes – pareciam trabalhados com a mesma substância infinita da noite.
(Jorge Luis Borges, em Nova refutação do tempo; traduzido por Sérgio Molina)

Talvez seja isso. Talvez eu tenha eternizado Recife uma longa noite, em que tudo aconteceu… o Clube dos Mágicos, o rio moroso, arratando-se sob as pontes, o pontilhão da Rede ferroviária cruzando por sobre a Avenida Sul, o terreno na esquina da minha rua onde por tantos anos houve somente mato. E eu, criança, fantasiava um reino secreto, escondido naquele terreno, um reino vagaluminoso e inalcançável, que me era como uma intuição. No seu centro remoto jazia o que teria restado do vasto manguezal que fora um dia tudo aquilo, todas aquelas ruas.

Como sempre trata-se do que não mais existe. Alcançar esse centro não me é dado. Por isso não penso no Recife como um lugar em que eu possa ir. A cidade que visito ocasionalmente, e que também se chama recife, pertence a outras pessoas, que a recordarão um dia, onde quer que estejam, como se lhes pertencesse. Reservo-me o folhear de minhas páginas noturnas. E quando desço do avião, no Aeroporto dos Guararapes, eu as fecho, essas páginas, para que não se confundam com o que verei, para queeu não me confunda e pense que voltei.

recife me espera
em algum lugar do mapa
a cerca de duas horas
de onde agora me encontro
em altitude de cruzeiro
acalantado
pelo rugido
das turbinas

da janela posso ver um rio
que não é o capibaribe
— lá longe ainda —
mas que tem aquela
cor de enchente
que reconheço
enchente que ansiei em 1975
e que nunca chegou
na imbiribeira

na velocidade do jato
ficou pra trás o rio sem nome
barrento
ficaram pra trás na memória
a imbiribeira
e a cheia de 75
num lugar onde mal podem
ser alcançadas

à frente desse voo
resta um recife irreconhecível
idioma que não compreendo
intraduzível
outra cidade
sobre a cidade em que vivi
como aquelas cidades
construídas sobre uma colina
outra colina
mil colinas

minha rua ter sido asfaltada
já diz muito
esperamos tanto aquele asfalto
uma vida inteira com a rua de terra
cheia de buracos
e enlameada quando vinha a chuva
pro asfalto chegar tarde demais

pensando hoje na minha rua
é como se tivessem explodido uma bomba
que matou alguns
e espalhou
os outros moradores
pelo mundo
nas mais inesperadas direções

e depois asfaltaram tudo
para que não houvesse provas
para que não houvesse
evidências
para que ninguém
achasse o caminho de volta

Poema de Toinho Castro publicado em Lendário Livro – Editora Rubra, 2018


De ouvido nas perifas

Nas trilhas das identidades, no território das margens (2019) é o título do livro organizado pelo professor, poeta e compositor Idemburgo Frazão, em parceria com a professora Patrícia Rangel. O livro é fruto da produção cultural desenvolvida pela dupla de pesquisadores do grupo Margens da Literatura, UNIGRANRIO, Duque de Caxias-RJ. [Texto de Nonato Gurgel]

Texto de Nonato Gurgel


Nas trilhas das identidades, no território das margens (2019) é o título do livro organizado pelo professor, poeta e compositor Idemburgo Frazão, em parceria com a professora Patrícia Rangel. O livro é fruto da produção cultural desenvolvida pela dupla de pesquisadores do grupo Margens da Literatura, UNIGRANRIO, Duque de Caxias-RJ.

Além deste livro de ensaios que tematizam questões periféricas na contemporaneidade, Frazão é coautor de Clementina Cadê Você (Funarte/LBA), e acaba de lançar Lima Barreto: diálogos marginais e identidades periféricas (2019). O volume reúne 5 ensaios que privilegiam gêneros ‘menores’ como a crônica, a carta, o diário e, além de Lima, o autor dialoga com escritores ausentes do cânone literário como João Antônio e Carolina Maria de Jesus.

Esse dialogismo leva em conta alguns temas como o racismo, a memória, loucura, pobreza e exclusão social. Discute também o lugar de voz, um conceito polêmico que incomoda principalmente quem tem, ou sempre teve garantido esse espaço que é também o lugar da crítica. Esse lugar é caro ao cronista Lima Barreto, como lemos no final do ensaio ‘O cronista e a língua literária: um estudo das crônicas de Lima Barreto sobre o carnaval’:

A partir da interpretação que aqui se faz da crônica ‘Sobre o carnaval’, pode-se afirmar que Lima Barreto… via no carnaval e em eventos de grandes concentrações de pessoas em torno da alegria e do riso, uma possibilidade de inverter, de modificar seu enfadado estado de espírito, dotando-o de maior viço. Mas como o autor não investe nessa possibilidade de ‘conversão’ à alegria, o carnaval se apresenta enquanto uma espécie de ‘epifania abortada’ pela supremacia crítica do autor.’

Na ficção, Frazão estreou com os poemas dO Livro das Figuras (2010). Segundo Lia Calabre, o texto foi escrito com base no ‘diálogo com jovens’ e nos ‘exercícios de intertextualidade’, resultando num ‘jogo entre o óbvio e o improvável’. Esse ‘diálogo’ e os ‘exercícios’ são audíveis nesse poema curto, com ecos da modernidade oswaldiana:

Metamorfose

Sorriu

Os autores modernos são os mais relidos nesta poética, como sugere esse poema de versos curtos, cuja rapidez remete às poéticas alternativas e marginais dos anos 70/80:

Margem Rosa

A terceira margem do rio
Deságua no sertão
Do pensamento

Além de Guimarães Rosa, ecos de outros modernos, como Drummond e Gullar, são audíveis neste livro que estetiza os afetos e as miudezas do cotidiano, com ênfase na metalinguagem e na performance dos bichos. Essa ênfase nos animais tematiza o segundo livro de poemas, Graças de Deus: um gato (2014) que termina assim:

Manha de pai
Força de mãe
Deus proteja

Menino
Gato (?)


Sonete-se!

Finalmente chegou o momento de pagar aquela dívida antiga, lembram? De eu contar pra vocês um pouco mais a respeito do meu projeto envolvendo esse intrigante e apaixonante tipo poético chamado soneto? [Texto de Eduardo Maciel]

Texto de Eduardo Maciel


Olá, queridos kurumateirxs!

Finalmente chegou o momento de pagar aquela dívida antiga, lembram? De eu contar pra vocês um pouco mais a respeito do meu projeto envolvendo esse intrigante e apaixonante tipo poético chamado soneto?

Então: vou contar tudinho (o que já aconteceu, o que está acontecendo e o que vem por aí). 

Mas antes, preciso dizer que tenho me sentido muito abençoado por estar conseguindo levar esse projeto adiante num momento em que se peleja tanto para emplacar algo que possa ter um quê de originalidade, liberdade e relevância na cultura brasileira.

Muito abençoado mesmo. E agradecido por ver minha obra ser tão bem recebida por onde a levo, ou por onde ela se faz entrar.

Agora sim: MUITO PRAZER EM CONHECER VOCÊ!

O PROJETO

Resgate de sonetos no cenário da literatura brasileira em todas as suas vinte formas de composição, com o lançamento previsto de sete livros (ou temporadas de uma série literária com cinquenta episódios cada), cujas artes de capa se inter-relacionam (ao final formam as cores do arco-íris) e os títulos são sempre neologismos envolvendo o radical da palavra SONETO, sendo que em todos eles os poemas conversam com outras linguagens da arte. O projeto contempla ações de ativação que coloquem protagonismo na outra arte que acompanha os sonetos. No caso de SonetIMAGEM, foi uma exposição de fotografia realizada na Casa de Cultura Villa Olivia. 

Para o terceiro, o SonetILUSTRA, a ser lançado no fim de abril, também está prevista uma exposição com intervenções culturais ao vivo e sempre tendo como base esse papo interessantíssimo entre sonetos e desenhos.

OS LIVROS

  • SonetATO – lançado em 2018.
  • SonetIMAGEM – lançado em 2019.
  • SonetILUSTRA – a ser lançado em abril de 2020.
  • SonetONS – sonetos musicados com cifras para violão e QR code no livro para acesso às 50 músicas e show itinerante.
  • SonetEATRO – sonetos conversando com artes cênicas. Haverá uma peça itinerante mediante inscrição em editais, na qual a fala dos personagens são os versos dos sonetos. Único que precisa ser lido em sequência, e onde todos os 50 sonetos serão do tipo italiano.
  • SonetERROR sonetos focados no gênero de suspense/thriller ou terror, até hoje apenas explorado em prosa e não em verso. A ideia é torná-lo público em feiras do gênero, como ativação.
  • SonetEMPERO – sonetos articulados com a temática da alimentação saudável, culinária entendida como arte e como promoção da saúde e do prazer na alimentação, para encerramento do projeto.

Livro 3 já no forno e mais dois em produção paralela. Talvez essa seja a causa de algumas olheiras ocasionais. Adoráveis olheiras essas.

Até breve! Beijos, abraços e carícias da moda!


Com o Pará nas guitarras: Um bate-papo com Lucas Estrela

Lucas é esse jovem guitarrista do Pará, que tem dois discos maravilhosos nas plataformas de streaming, que são Sal ou Moscou e Farol. Descobri o som de Lucas por acaso, numa dessas sacadas luminosas que, às vezes, os algoritmos nos oferecem. Dei play e tô dando play até hoje no som desse cara. E melhor ainda… Lucas foi a porta da música paraense e suas guitarradas e sua diversidade de sons e de vozes. Um universo novo e multifacetado que estou adentrando e aprendendo e amando. [Texto e entrevista de Toinho Castro]

Texto e entrevista de Toinho Castro


Gente, o Lucas Estrela é um jovem músico paraense que está com um trabalho afiadíssimo, representando uma nova geração da música do Pará que, como sempre, vem surpreendendo. Com dois discos na bagagem e muitos shows e parcerias, Lucas entrou no toca-discos da Revista Kuruma’tá e não saiu mais. Preparando um novo disco, Lele deu uma pausa leve no seu retiro criativo e conversou com Toinho Castro, via Zap, para a Kuruma’tá.



Lucas Estrela no Festival Levada – Foto de Toinho Castro

Eu ia começar esse texto dizendo que uma das grandes surpresa dessa última edição do Festival Levada, em setembro do ano passado, foi o show do músico paraense Lucas Estrela. Mas isso não é verdade, porque não era surpresa alguma a apresentação sensacional do Lucas, com uma banda enxuta de dois habitantes e suas guitarras e circuitos eletrônicos mandando ver no espaço LabSonica do Lab Oi Futuro, no Catete! Foi uma noite de alegria e muita dança, em que ninguém ficou parado. Vamos agradecer por essa noite ao Levada e à curadoria certeira de Jorge LZ, que sacou a dimensão aquele som poderia ter no estúdio do oi Futuro. Bom demais… a partir, a sintonia que eu tinha com esse trabalho só cresceu e tiro mais os olhos e ouvidos da timeline do Lucas no Instagram!

Lucas é esse jovem guitarrista do Pará, que tem dois discos maravilhosos nas plataformas de streaming, que são Sal ou Moscou e Farol. Descobri o som de Lucas por acaso, numa dessas sacadas luminosas que, às vezes, os algoritmos nos oferecem. Dei play e tô dando play até hoje no som desse cara. E melhor ainda… foi a porta da música paraense e suas guitarradas e sua diversidade de sons e de vozes. Um universo novo e multifacetado que estou adentrando e aprendendo e amando.

Depois do Levada em outubro, ele participou do show Pará Pop, no Palco Sunset do Rock’in’Rio com Dona Onete, Pio Lobato, Fafá de Belém, Gaby Amarantos e Jaloo! Grande momento da música brasileira no maior festival de música do mundo. Um momento em que a identidade musical paraense disse, com força e talento, a que veio. E isso é muito lucas Estrela, um músico que acredita no encontro e na parceria, em compartilhar aprendizados e caminhos.

Quando comprei o compacto de 7″ do Lucas, vinil lindo com duas faixas, Farol e A sereia (Com participação do Lucas Santtana), acabei travando ali uma conversa via direct, no Instagram e iniciamos uma amizade que levou ao bate-papo, agora via zap, em áudio, que tive com ele ontem; porque a gente tem que usar essas tecnologias pra fazer as conexões possíveis e necessárias! E que conversa boa!

Agora vá lá e dê seu play no trabalho do Lucas e da turma do Pará nas plataformas de streaming, fique ligado nos shows que estão sempre acontecendo por aí. da parte da Kuruma’tá, vamos sempre divulgar a música paraense, com muito gosto.


Lucas Estrela no Festival Levada – Foto de Toinho Castro

Entrevista disponível também no Mixcloud:


Para ler: Viagem ao centro da Terra, de Júlio Verne

Hoje trazemos uma colaboração do amigo Joelson Pranto, comentando esse clássico absoluto de Júlio Verne, Viagem ao centro da Terra. Alguns dirão que não há novidade alguma nesse livro… E certamente é um livro sobre o qual muito já se disse e a edição comentada nem é mesmo uma novidade também. Ainda assim é sempre bom lembrar de livros assim. Até porque é uma obra que está naquela classe de livros que são tão enraizados na cultura que muita gente acha que leu sem ter lido. Aproveite que essa edição ainda pode ser encontrada nas livrarias. Se já leu, leia novamente. Leia com seus filhos. [Texto de Joelson Pranto]

Hoje trazemos uma colaboração do amigo Joelson Pranto, comentando esse clássico absoluto de Júlio Verne, Viagem ao centro da Terra. Alguns dirão que não há novidade alguma nesse livro… E certamente é um livro sobre o qual muito já se disse e a edição comentada nem é mesmo uma novidade também. Ainda assim é sempre bom lembrar de livros assim. Até porque é uma obra que está naquela classe de livros que são tão enraizados na cultura que muita gente acha que leu sem ter lido. Aproveite que essa edição ainda pode ser encontrada nas livrarias. Se já leu, leia novamente. Leia com seus filhos.

Joelson, apesar do sobrenome, é um cara feliz.

Texto de Joelson Pranto


A história de Viagem ao centro da Terra, segundo romance de Júlio Verne, todos conhecem… Em 1863 o professor e cientista alemão Otto Lidenbrock encontra um manuscrito de Arne Saknussemm, um alquimista islandês do século XVI, que uma vez decifrado aponta o caminho rumo ao centro da Terra, cuja entrada estaria na boca do vulcão Sneffels, na Islândia. O impetuoso e destemido professor arrasta a si e seu sobrinho Axel , narrador da aventura, da Alemanha até a terra gelada de Saknussemm. Lá, guiados por Hans, um guia local, eles adentram as entranhas do planeta e começam uma aventura de tirar o fôlego! Na verdade, Júlio Verne se certifica de criar uma história emocionante desde as primeiras páginas, em que um acontecimento grandioso, de ordem histórica, vai desabando sobre seus personagens e os empurrando sempre adiante, sempre de súbito, movidos pelo professor Lidenbrock, com sua irritação, sua urgência em realizar o nunca feito, ou melhor, alcançado por um único e lendário homem, Saknussemm.

Mas que move o professor Lidenbrock não é a aventura, mas a ciência. A cada passo da jornada a ciência do século 19, ansiando pelo século 20, nos desafia e provoca. Não há espaço para malabarismos místicos ou metafísicos. Lidenbrock navega num mundo onde reinam as evidências. Tudo tem uma explicação. E se essa explicação se mostrar insuficiente, outra tomará o seu lugar. Entre as provisões que carregam não faltam instrumentos de medição que possam asseverar os dados, confirmar ou refutar hipóteses.

Eu lendo a ótima edição da coleção Clássicos da Zahar, um belo exemplar de capa dura, recheado com as ilustrações que Édouard Riou criou para a edição de 1867 e com muitas notas de rodapé, que explicam, contextualizam e atualizam informações; um conteúdo precioso para a leitura contemporânea da obra.

Monte Sneffels – Foto de Anjali Kiggal / CC BY-SA ()

Tem uma cena do livro em que o Lidenbrock e Axel estão em Copenhague, a caminho do destino enorme, e o professor leva o sobrinho para visitar uma pequena igreja e o faz subir ao alto do campanário, por uma vertiginosa escarada em espiral. Para descer às profundezas Axel deverá primeiro subir às alturas, porque em ambas reside a vertigem, do mundo, da vida. A torre se erguia na noite, acima da cidade, e as nuvens deslizavam logo acima de suas cabeças. É um momento lindo do livro. Logo estarão no topo do Sneffels, outro jogo lindo de ideias.. Subir ao alto de um vulcão para poder descer ao mais fundo, rumo ao núcleo. Verne poderia tê-los feito descer por tantas cavernas, mas os enviou para a violência adormecida de um vulcão, numa ilha fria e distante, tal era o seu senso de aventura e de diversidade científica para explorar. Que livro maravilhoso. Não é à toa que foi editado, em 1864, como parte da série Les voyages extraordinaires, que reunia 54 novelas de Verne, entre elas Cinco semanas num balão e Vinte mil léguas submarinas.

É um livro mágico. Abrir suas páginas é abrir a porta de um mundo labiríntico. Os subterrâneos do professor Lidenbrock parecem nos ensinar que a Terra é como a Tardis, a nave do Doctor Who: Maior por dentro que por fora. Quando pensamos que eles estarão sufocados, entranhados, esmagados sob o peso dos continentes e mares, descobrimos vastas paisagens e camadas e mais camadas de passados possíveis, como se rumássemos, ao mesmo tempo, ao infinitesimal. O mundo dentro do mundo dentro do mundo. Essa é a beleza de Viagem ao centro da Terra… Mesmo que nossa jornada seja para dentro, o que nos espera é sempre o infinito.


Em tempos de negação da ciência livros como esse são um lenitivo, mesmo com os anacronismo, que são devidamente tratados pelas notas que acompanham a narrativa. por isso ler Júlio Verne é tão legal e importante, junto com outros livros atuais que trazem a ciência em primeiro plano. Vamos falar de ciência, gente!

No mais, as edições atuais do escritor francês utilizam a grafia Jules Vernes, mas eu mantenho o meu Júlio Verne, que trago desde a infância, quando li pela primeira vez essas páginas de paixão e aventura.

Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa: O Viajante do Tempo

Quando criança, ouvia os discos de 78 rotações do pai e sonhava com um tempo que não conhecera, mas que sem dúvida era melhor do que aquela infância insossa no quintal de terra batida cheio de árvores frutíferas e mil brincadeiras. Para o Viajante, tempo bom era o de seus pais. [Texto de Fábio Fernandes]

Texto de Fábio Fernandes


Foto original: Pxhere.com

O Viajante do Tempo vivia no passado. Nunca conhecera momento melhor do que aquele que já se fora e não voltaria mais.

Quando criança, ouvia os discos de 78 rotações do pai e sonhava com um tempo que não conhecera, mas que sem dúvida era melhor do que aquela infância insossa no quintal de terra batida cheio de árvores frutíferas e mil brincadeiras. Para o Viajante, tempo bom era o de seus pais.

Na adolescência, gostava de levar a namorada (que conhecera na infância) para ver o mar, e cantarolar tangos e boleros em seu ouvido. Os boleros naquele tempo eram razoavelmente novos.

Casou-se com ela, teve um casal de filhos. Abriu um brechó. Tinha um carro velho, caindo aos pedaços. Era incapaz de lidar com novidades.

Até que veio a má notícia. Sua mulher tinha câncer.

Ela não durou muito. E o Viajante ficou só, com os filhos, os discos, as lembranças.

Preferiu os discos e as lembranças.

O Viajante nunca mais voltou ao presente.


O Bruxo não para

A fortuna crítica de Machado de Assis é extensa e não para de crescer. Hoje mesmo, nas redes sociais, o prof. e poeta Antonio Carlos Secchin cita o 1o vol (1908-1939) da fortuna do Bruxo do Cosme Velho, e apresenta um 2o vol a partir de 1939. Composta de romance, conto, ensaio, teatro, crítica, crônica, jornalismo e poesia, a bibliografia do Bruxo dialoga com as chamadas altas literaturas, com o cânone literário ocidental. [Texto de Nonato Gurgel]

Texto de Nonato Gurgel


A fortuna crítica de Machado de Assis é extensa e não para de crescer. Hoje mesmo, nas redes sociais, o prof. e poeta Antonio Carlos Secchin cita o 1o vol (1908-1939) da fortuna do Bruxo do Cosme Velho, e apresenta um 2o vol a partir de 1939. Composta de romance, conto, ensaio, teatro, crítica, crônica, jornalismo e poesia, a bibliografia do Bruxo dialoga com as chamadas altas literaturas, com o cânone literário ocidental.

Nesse diálogo com a tradição, Machado aciona intertextos entre a literatura, culturas e outras áreas do saber como a história, a mitologia e a filosofia, sem perder de vista ‘sua excelência’, os fatos, principalmente os fatos sócio-políticos. Munido de múltiplos procedimentos estéticos e culturais como a intertextualidade, a metalinguagem, o corte, o diálogo com o leitor, a paródia e a ironia, Machado antecipa, de certa forma, a linhagem moderna de nossa literatura.

Dentre esses procedimentos modernos, a professora Sônia Grund elege os intertextos como tema do seu livro Intertextualidades em Memórias Póstumas de Brás Cubas: as múltiplas vozes em Machado de Assis. A leitura desse livro se transforma numa espécie de visita a uma minibiblioteca universal, formada pelos autores ingleses, espanhóis, latinos, gregos, italianos, portugueses, franceses e árabes que ecoam nas páginas do Bruxo.

É prazerosa essa viagem polifônica repleta de citações, alusões, epígrafes, traduções e paródias. Ao ler com acuidade esses ‘elementos formadores’ da intertextualidade, Sonia ratifica o lugar central de Machado no nosso cânone. Em tempos nos quais o preconceito e o racismo afloram, é bom lembrar que embora seja composto, em sua grande maioria, por homens brancos, o nosso cânone tem, no seu centro, um autor negro, ‘filho de uma escrava num país onde a escravidão só foi abolida quando ele tinha quase cinquenta anos’.


Meu coração eu sei por que bate feliz em SP

Ao invés de uma diástole corriqueira, corre por mim um impulso elétrico que provoca um arrepio intenso, daqueles prazerosos de se sentir. É que ele se dá conta de que a distância, aquela física mesmo, acabou de ser encurtada. E este abraço no qual cabe um mundo, terá apenas o comprimento dos meus braços, o que é suficiente para manter você perto, com todos os outros músculos fazendo força para que não acabe. [Texto de Eduardo Frota]

Texto de Eduardo Frota


Foto de Toinho Castro

Para Bia Cardenas


Toda vez que o avião toca o solo em Congonhas, este músculo dentro do meu peito, cuja função é bombear sangue para o meu corpo inteiro, bate intensamente duas vezes. Duas vezes.

Ao invés de uma sístole comum, uma enxurrada de endorfina é bombeada e encharca as veias em mim. É que ele percebe que está em São Paulo, este palco aberto onde ensaio um espetáculo toda vez que escuto, aqui dentro, aplausos silenciosos – feito aqueles nos quais os espectadores apenas estalam os dedos para não se sobrepor ao som ao redor. 

Ao invés de uma diástole corriqueira, corre por mim um impulso elétrico que provoca um arrepio intenso, daqueles prazerosos de se sentir. É que ele se dá conta de que a distância, aquela física mesmo, acabou de ser encurtada. E este abraço no qual cabe um mundo, terá apenas o comprimento dos meus braços, o que é suficiente para manter você perto, com todos os outros músculos fazendo força para que não acabe. 

São Paulo é mesmo especial. Você é mesmo especial.

Desde o primeiro dia em que me vi na cidade, ainda criança, percebi que era diferente. As cores, o clima, as pessoas, a temperatura das coisas. Sempre que vejo você, já um adulto feito, sua presença permanece em mim, suas cores, a temperatura do seu pescoço.

Encontrar o poema que mora por entre as ruas de São Paulo nem foi tão difícil. Foi, sim, um exercício de reconhecer que a minha casa está em mim, onde quer que eu vá. A minha janela está aberta. A paisagem, ainda incompleta. Mas os versos chegam aos montes, trazidos por ondas de endorfina e por horas de arrepios. Nem mais um pio: ei-lo, aqui.

O desenho do horizonte de São Paulo
As linhas de cima, as linhas de baixo
São diferentes
Das que foram traçadas nas alamedas
Que desembocam em ruas sem saída

É sobre não querer sair daqui
É sobre reaprender a colorir
Pois as cores que usam aqui
Não se repetem
Tintas, grafites, canetas permanentes
Que escrevem em mim
Indelevelmente, assim:

…a luz dos dias aqui encanta.
…o escuro da noite convida a uma dança.

Traçados, retas, curvas
Copio com esquadros os caminhos
Que me levam a querer voltar
Em um mapa no qual gosto de estar
Levemente, incompletamente, perdido

Um beijo apenas, para que não se perca
Tempo
Para contemplar como corre num sopro
Vento

Há um lirismo diferente
Uma rima a cada esquina
Talvez a cidade seja, ela mesma
Poesia
E se alguma coisa acontece, é uma arritmia
Dessas, dos amantes
Dessas, enormes
Visíveis do alto de um mirante


A zeladora da loucura

Lembro quando compramos, eu e meu amigo Winston, nas nossas primeiras aventuras comerciais na web, o CD do Chelsea Girl. Talvez seja essa uma falsa lembrança… mas Nico, Winston, Chelsea Girl, Lou reed, Velvet Underground, são temas muito entrelaçados na minha memória, como se um fizesse parte dos outros. Ouvir o CD era abrir outra vez aquela porta… [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Sábado de Carnaval com o Galo da Madrugada despertando o Recife e eu aqui, num Rio de Janeiro não menos montado na folia, pensando em Nico. Pensando naquela dama de voz profunda, nascida Christa Päffgen, em Colônia, na Alemanha, no distante ano de 1938, às margens da Segunda Grande Guerra, que eclodiria no ano seguinte. Girei a roleta do Spotify em busca de Chelsea Girl, seu primeiro álbum solo de 1967, após ficar ao léu da nau confusa e sem rumo que estava por se tornar o Velvet Underground.

Foi no disco “da banana”, o primeiro do Velvet, que escutei a voz de Nico pela primeira vez. Sem todas as informações que passei a ter ao longo dos anos, ainda mais depois do advento da internet, escutar aquela voz era como encarar um mistério, um fantasma; algo como se vislumbrasse, de súbito outro mundo. All tomorrow’s parties era essa brecha que se abriu no meu quarto, na Imbiribeira, Sobrenatural era a palavra, como se de repente uma presença se impusesse entre aquelas quatro paredes. Ali abracei algo que passou a fazer parte da minha vida até hoje. A sonoridade da voz de Nico; uma voz que também se impusera, de alguma maneira, sobre o disco do Velvet, como uma assombração.

Lembro quando compramos, eu e meu amigo Winston, nas nossas primeiras aventuras comerciais na web, o CD do Chelsea Girl. Talvez seja essa uma falsa lembrança… mas Nico, Winston, Chelsea Girl, Lou reed, Velvet Underground, são temas muito entrelaçados na minha memória, como se um fizesse parte dos outros. Ouvir o CD era abrir outra vez aquela porta… Nico não gostara do disco, das flautas, do clima pastoril, meio folk, meio pop, recheado de composições de Lou Reed, John Cale, Dylan e Jackson Browne. Na época a gente não pensava muito nisso, acho. Era um disco de Nico e amávamos. Era estranho aquela mesma voz que dilacerou All tomorrow’s parties entoando os versos de The Fairest of the seasons. Mas era o que tínhamos.

Até que nos chegou às mãos The marble index, aquele estranho monólito negro, denso, complexo. Com todas as músicas escritas por Nico e produção de John Cale, The marble index é um disco triste, carregado de angústia e originalidade. Quando o chamo de monólito me vem à mente o filme de Satanley Kubrick, 2001 – Uma odisseia no espaço, lançado no meio ano de 1968. Os primevos de Kubrick bem poderiam estar diante do disco de Nico, pelo menos era assim que eu me sentia. Sempre que pensávamos em 1968 vinha-nos ao juízo o Jefferson Airplane, a contracultura, as guitarra de Hendrix, o LSD. E ali não poderia haver nada mais diferente. Acho que o escutamos nos anos 1990 e ainda era um disco desafiador, difícil, que nos impelia a olhar a música pop por um ângulo completamente novo. Ainda hoje posso escutá-lo como algo novo, algo que me surpreende e encanta. E assusta também.

Música que Nico escreveu para seu filho, Ari.

Nico morreu em Ibiza, onde passava férias com seu filho Ari, no ano de 1988, antes de completar 50 anos. Teve um ataque cardíaco enquanto andava de bicicleta e bateu com a cabeça ao cair. Um fim inesperado para a musa soturna Levou uma vida atormentada, mergulhada no vício em heroína, e nos legou uma pequena discografia de seis discos. Escutá-los é um salto na escuridão, nos desvãos da música pop, é andar perdido como ela andou e não saber voltar. Mesmo Chelsea Girl, com tudo que nele a ela foi negado, carrega algo que é impossível domar. Nem mesmo as flautas, que ela tanto odiava, foram capazes de esconder a solidão que perpassa a voz de Nico.

Esse texto escrito em pleno carnaval carioca, é porque, hoje, Nico não sai da minha cabeça. Talvez porque a mensagem massiva da folia me obrigasse a um contraponto, uma voz dissonante. Encontrei nela o desconforto necessário do diferente e do novo, do inapreensível. Quem sabe desperte em você a curiosidade de ouvir seus discos, a despeito do que te empurram cotidianamente os algoritmos. Vamos enganá-los com a música de Nico.

Obrigado, Christa Päffgen.

Janitor of lunacy
Paralyze my infancy
Petrify the empty cradle
Bring hope to them and me

Janitor of tyranny
Testify my vanity
Mortalize my memory
Deceive the Devil’s deed

Tolerate my jealousy
Recognize the desperate need

Janitor of lunacy
Identify my destiny
Revive the living dream
Forgive their begging scream

Seal the giving of their seed
Disease the breathing grief


Para Winston Araújo


Meu cocar é do Cacique

Há meses, recebi o convite de uma amiga do meio artístico para ser convidado especial da Ala Cheyenne do Cacique de Ramos, e aceitei gentilmente o convite. Foi uma honra pra mim entrar naquela quadra sagrada, que abriga um patrimônio imaterial do Rio de Janeiro que existe desde 1961 e vem há décadas firmando sua identidade com apoio do povo de Olaria e Ramos, tribos indígenas do Brasil e mesmo da América do Norte. [Texto de Eduardo Maciel]

Texto de Eduardo Maciel


Olá, gente linda! Não tem como: mais uma vez ficarei devendo aquele papo sobre sonetos. Mas vocês entendem, né? Afinal é Carnaval! E nada é capaz de refrear essa força poderosa da cultura brasileira. Nadinha mesmo!

De há muito escuto dizer que o Carnaval aproxima as pessoas, e na minha humilde opinião é essa mesmo a intenção, certo? Particularmente, considerando ao menos uma década, tenho consistentemente me exilado do Rio de Janeiro em busca de carnavais diferentes. Vocês sabem, né? Tumulto, violência, criminalidade, preços altíssimos. Enfim: aquele velho “pacotão carioca”, com ou sem Crivella.

Mas este ano resolvi fazer diferente. Há meses, recebi o convite de uma amiga do meio artístico para ser convidado especial da Ala Cheyenne do Cacique de Ramos, e aceitei gentilmente o convite. Foi uma honra pra mim entrar naquela quadra sagrada, que abriga um patrimônio imaterial do Rio de Janeiro que existe desde 1961 e vem há décadas firmando sua identidade com apoio do povo de Olaria e Ramos, tribos indígenas do Brasil e mesmo da América do Norte. Cacique que é o bloco de rua brasileiro mais famoso no mundo. Cacique assentado sob a tamarindeira, com a bênção dos orixás e das comunidades tradicionais.

Cacique liderado pelo presidente Bira, Ubirajara, que tem em suas veias correndo sangue com ancestralidade indígena. Cacique, uma linda extravagância de talentos e de onde vieram grandes nomes do nosso samba. E pra onde convergem tantos outros, que ainda serão catapultados na direção da relevância.
Sim, porque tudo no Cacique de Ramos trata de relevância.
Me senti tão acolhido como convidado especial, fui tão extremamente bem recebido naquela quadra, naquela ala, que passei a ser componente e a frequentar o grupo. Passei a ir às feijoadas aos domingos, e assim hoje me sinto parte.

Mas ainda que você não queira ser componente de ala nenhuma, ainda assim poderá frequentar gratuitamente a quadra, e aproveitar o que há de melhor na cena do samba. E garanto: será muito bem recebidx, e sairá de lá querendo mais.
Falar sobre o Cacique de Ramos é isso. A recente polêmica sobre questões identitárias (ao menos nesse caso), se torna tão insignificante que o melhor a fazer é ignorar a polêmica. Primeiro porque se algum bloco pode se vestir de índio no Carnaval é esse o bloco, segundo porque se o Cacique deve explicação sobre seu modo de desfilar é ao povo indígena que o apoia. Terceiro porque a questão indígena de verdade está ligada à permissão para se minerar em área demarcada e protegida e aos recentes atos de agressão e morte a representantes de nossos povos nativos.

E qualquer tentativa de aliar um discurso moralista ou identitário às fantasias do bloco nada mais é do que uma tentativa de tirar o foco do que realmente importa. Até porque as fantasias do Cacique de Ramos se parecem mais com as de apaches do que com os nossos povos nativos.

Usamos fantasias indígenas porque temos essa permissão, e o fazemos com a maior das reverências, com o orgulho de quem balança uma bandeira nacional em evento patriótico, com a grandiosidade de quem quer representar – e não emular – um ou mais povos que aqui estavam bem antes de nós.

Acabo de sair do desfile de domingo, de abertura do Carnaval do Cacique, e estou em êxtase. Que energia maravilhosa, quanto respeito pela tradição, quanta tradição pelo respeito! Uma das sensações mais extraordinárias que já senti na vida, principalmente como estreante e convidado especial da Ala Cheyenne. E por isso devo agradecer ao Lério presidente da ala, ao Bira presidente do Cacique e à Alexandra das Trufas do Conhecimento por me fazer o convite. E a todos os cheyennes que me tratam como família sempre.

Polêmica porque usamos cocar com pena? Ah, por favor!
Prestemos mais atenção naqueles que usam, sem pena alguma do povo, nariz de palhaço e suástica nazista debaixo dos nossos narizes. Mesmo quando não é Carnaval.

E amanhã, na terça, vem acompanhar o último desfile do Cacique de Ramos na Avenida Chile, Rio de Janeiro nesse Carnaval. Venha reverenciar conosco as nossas tradições, porque Carnaval é isso! Tradição cultural, e não perseguição ideológica seja de quem for.

E os sonetos? Da quinzena que vem não passa. Prometo.