Elegeram Daniel rei | Parte III

Inchava bem onde o indicador encontra a palma da mão. Enquanto o inspetor inspecionava o local, Lezinho o observou tão de perto que sentiu alguma coisa que podia ser medo ou carinho. Dava para ver que os fios de cabelo penteados para trás rareavam, e aqui e ali já se via a pele do topo da cabeça do inspetor. Dava para sentir o cheiro de álcool do desodorante. O menino teve vontade de contar tudo. {Texto de Diego Franco Gonçales]

Texto de Diego Franco Gonçales


— Isso é bater. – O inspetor voltou a pegar a mão de Lezinho. O menino ofegava com o assombro de um recém-nascido. — Mexa os dedos. Tranquilo. Mexa os dedos. — Havia uma novidade na voz dele, um fio de seda adicionado àquela trama de sisal.

— O Daniel.
— O quê?
— Foi o Daniel.
— O que tem o Daniel?
— O Daniel mandou jogar o Vítor de cima da sedinha.
— Sedinha?
— A sedinha é a casa da árvore. A sede, onde a gente se junta. Faz reunião da turma. A gente chama de sedinha.
— Certo… E por que o Daniel jogou o Vítor lá de cima?
— Mandou jogar.
— Mandou jogar. Pode parar de mexer os dedos. Dói?
— Não. Um pouco.
— Deixa eu ver.

Inchava bem onde o indicador encontra a palma da mão. Enquanto o inspetor inspecionava o local, Lezinho o observou tão de perto que sentiu alguma coisa que podia ser medo ou carinho. Dava para ver que os fios de cabelo penteados para trás rareavam, e aqui e ali já se via a pele do topo da cabeça do inspetor. Dava para sentir o cheiro de álcool do desodorante. O menino teve vontade de contar tudo.

— Eu perdi a eleição.
— Eleição. — O inspetor sentou-se ao lado de Lezinho — Eleição. O que você quer me contar, Leandro?
–— A gente viu a eleição e quis fazer igual dessa vez na turma. Você votou?
— Votou?
— Não teve eleição de prefeito agora? Não foi eleição? Minha mãe votou.
— É, teve. Mas eu não fui. Não sabia como fazer.
— É simples. – Lezinho gostava de se sentir ensinando — Escreve no papel os nomes de quem quer ser alguma coisa e os outros fazem um xis na frente de quem acha que tem que ser.
— Não, isso eu sei. É outra coisa que eu não sei. Deixa pra lá.
— E se eu te explicar?
— Esquece. Eu quero saber o que aconteceu nessa tal eleição de vocês.
— Ah… a gente fez igual. — Lezinho perdeu o ânimo com o desinteresse do inspetor – A gente sempre escolhe o rei da turma. Hoje a gente votou.
— Espera um pouco. – o inspetor levantou do sofá e foi até a cadeira da diretora. Passou a mão no espaldar acolchoado. Uma bela cadeira – Me conta. Que turma?
— Eu e o Danone. O Vítor, o Daniel, o Cauê. E o Agulha e o… — e a voz de Lezinho coloriu-se de coragem – e o Tiago. Foi o Tiago que jogou o Vítor porque o Daniel mandou. Porque o Daniel virou rei na eleição.
— Rei. O que faz um rei?
— Você não sabe o que é um rei? — e Lezinho riu um pouco da ingenuidade do inspetor. Lá ia ele ensinar mais uma vez – Eu era o rei até ontem. O rei manda e os outros obedecem.
— E que tipo de coisa você mandava?
— Ah. — Lezinho pressentiu uma armadilha — Siga-o-mestre, pega-pega. Essas coisas.
— Leandro. Leandro. — O inspetor deu dois passos em direção ao sofá como quem iria forçar alguma coisa. Mas desistiu e ficou parado no meio do caminho — Tudo bem. Pega-pega e essas coisas. Um pega-pega jogou o Vítor da casa da árvore.
— Nossa, mas que difícil pra você entender. Vou te explicar. O Daniel virou rei. – Lezinho tentou enxergar alguma reação que confirmasse no rosto do inspetor que ao menos isso ele entendeu. Enxergou apenas sinais dúbios, mas prosseguiu mesmo assim – E ficou bravo porque o Vítor votou em mim. Só eu e ele votamos em mim. Aí o Daniel falou que ia dar um castigo. O Danone falou que não tinha isso em eleição, que quem ganha eleição não pode tudo. O Cauê falou que eleição de rei é diferente. Entendeu até aqui? — Lezinho tomava por dúvida os sinais de incredulidade que o rosto do inspetor emitia.
— Entendi sim. Continua.
— Então! — Lezinho já falava sorrindo. O inspetor, o inspetor!, ele ensinando o inspetor! — Eles ficaram brigando por causa disso. O rei pode, o rei não pode, maior merda. Desculpa. Eu não fiquei brigando, porque eu tinha ficado bravo, e o Tiago também não, porque é estranho. O Tiago ficou perto da porta o tempo todo. No meio da bagunça ele pegou o Vítor e jogou lá de cima. O Vítor caiu e gritou igual um macaco, sei lá. Aí o Tiago falou: “Pronto, castiguei. O rei pode”. Entendeu?

O inspetor enfiou a mão no bolso e de lá tirou o pente de osso; voltou à janela e aos cobogós destruídos e ficou penteando o cabelo. Lezinho fala a verdade? Lezinho mente? E aí? Quando se virou, o fio de seda tinha desaparecido de sua voz.

— Mentiroso. Sabe o que acontece se você estiver mentindo? Eu vou chamar a polícia. Você conhece a polícia, Leandro. Sabe o que eu fiz com seu dedo? A polícia vai fazer pior. Você está mentindo, Leandro? Eu vou chamar as outras crianças aqui. Conta a verdade.

Aquilo ofendeu Lezinho. Havia um histórico entre eles e havia aquele dia; havia o passo irreversível dado pelo inspetor, a torção no dedo que os aproximara em estatuto; havia o sacrifício de Lezinho por um ritual de amadurecimento, a aceitação com naturalidade daquela punição injusta; havia essa promessa de enfim escapar ao lugar de menininho ao qual ele se vê obrigado por convenções que detesta, a subordinação do inspetor aos seus ensinamentos sobre a turma, sobre o rei, sobre a eleição; e tudo isso para quê? Para o inspetor pôr a sombra da polícia contra ele, para o acusar do que nunca fez, para o ameaçar mesquinhamente com a presença de crianças ali, justo agora que ele deixou de ser uma? Para lembrá-lo de seu pai entalado no corró de uma viatura? Para desconsiderar a sinceridade que sempre dispensou ao inspetor, sinal de, por isso e apesar de tudo, seu afeto? Para ter que encarar aqueles que há pouco se achavam melhor que ele por serem amigos do rei, justo ele, que agora era homem-homem mesmo, um homem assim como é homem o inspetor? Aquilo machucou Lezinho mais que a mão do inspetor. Ele sentiu vontade de vomitar. Ele encolheu os dedos dentro do tênis. Ele levantou do sofá e correu para a porta, onde foi agarrado pela cintura e suspenso do chão.

— Filho da puta! Cuzão! Filho da puta!
Os cotovelos bateram no rosto do inspetor e as pernas na porta, mas em instantes ele já estava de volta ao sofá e o vermelhão, ao seu rosto.
— Eu te odeio! Você me machucou, olha a minha mão! Olha aqui, filho da puta! Socorro! Ele vai me matar! Socorro!
— Não, não. Eu acredito. Tá tudo bem, eu acredito!

Lezinho parou um segundo e olhou para aquele homem quase ajoelhado à sua frente. As coisas pareciam estar ficando mais interessantes. Agora Lezinho era um homem como o inspetor. Mas só isso? Não. Talvez mais, mais homem. Mais homem que o inspetor. Lezinho olhou para a mão machucada. O inchaço não permitia fechar bem os dedos.

Batidas à porta. Alguém irado mandava a destrancar e perguntava o que diabos acontecia ali.

Com o indicador da outra mão, Lezinho apontou o machucado e voltou a gritar, olhando dentro dos olhos do inspetor.


O sino ainda dobra

Os caudatários dos pretensos líderes sedentos de poder se esforçam para passar verdades cada vez mais evanescentes. Os sons raivosos, debochados e caluniadores já possuem audiência cativa, não somente na virtualidade dos grupos de whatsapp, como também nas rodas de conversa de ponta de esquina. São os aparatos tecnológicos modernizantes a serviço dos interesses da nossa política senescente. [Texto de Carlos Augusto Pereira dos Santos]

Hoje na Revista Kuruma’tá a primeira colaboração em texto de um cidadão de Camocim, Ceará, conterrâneo do querido livreiro Francisco Olivar, cujo belo trabalho de popularização do livro e da leitura já foi tratado aqui nas nossas páginas. Carlos Augusto é parceiro de conversas nos encontros da Carioca e agora também navegador da Kuruma’tá! Seja bem-vindo!

Texto de Carlos Augusto Pereira dos Santos


Praça da Matriz. Camocim-CE. Provavelmente década de 1930. Foto: Domínio Público.

Escutar uma cidade é também sentir sua história. Deste modo os sons configuram o que os historiadores estão chamando de “paisagem sonora”. Do meu posto de observação, apuro as oiças e o que me chega é uma algaravia que remete tanto aos sons de outrora, quanto às emissões sonoras da modernidade.
Dito isto, acordo com a batida seca da madeira no caixão do tapioqueiro que passa de manhãzinha. Se me dispuser a ficar na calçada da minha rua, o vendedor de peixe, de camarão, passarão de bicicleta anunciando e vendendo os produtos do mar com seus bordões característicos.

O barulho e o tráfego de veículos automotores denuncia o aumento da frota. Ouvir o ronco do mar agora, só na madrugada. Aqui e acolá um carro de som ultrapassa os decibéis permitidos propagandeando alguma loja. Tento me concentrar na leitura de um livro.

No entanto, existe algo de novo no ar, infestando o éter, disseminando-se nas redes sociais – os famosos áudios que atualizam os bastidores da politicagem local. Os caudatários dos pretensos líderes sedentos de poder se esforçam para passar verdades cada vez mais evanescentes. Os sons raivosos, debochados e caluniadores já possuem audiência cativa, não somente na virtualidade dos grupos de whatsapp, como também nas rodas de conversa de ponta de esquina. São os aparatos tecnológicos modernizantes a serviço dos interesses da nossa política senescente.

A tarde cai. Em meio ao burburinho vespertino, distingo o badalar hierático do sino da Matriz. Alguém ainda se toca com seu toque como algum chamado para um ritual sagrado? O importante é que ele ainda dobra…

Praça da Matriz. Camocim-CE. 2017. Foto: Aroldo Viana.

Tem alguém aí?

No quarto que compartilhávamos, no fim do corredor, de porta trancada, estávamos esquecidos pelos adulto, distraídos pela bebida e pela conversa. Improvisamos com um abajur uma meia-luz penumbrosa que parecia ter efeito sobre a natureza dos sons, silenciando todo alarido que vinha de fora do quarto. Como havia muitas camas e pouco chão disponível, tratamos de afastá-las na direção das paredes, abrindo espaço para dispor os itens essenciais àquela aventura de crianças desocupadas. Verdadeiras oficinas do Cão ambulantes. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Naquela época, sem tanto asfalto, sem tantos edifícios tão altos e espelhados, Natal era uma cidade que esfriava quando chegava a noite. Na esquina do Brasil, tendo às suas margens o Oceano Atlântico, a cidade era varrida por um vento que crispava-lhe as árvores, as dunas, as águas do próprio oceano e do rio Potengi. Nós, os primos, estávamos ali, em casa, no sossego da noite familiar. Eventualmente o som da gaita do meu tio e o riso dos adultos em meio ao bate-papo, as histórias que se contam quando se encontram os que andavam distantes. Os tios que não se viam há algum tempo e se encontravam porque minha mãe estava ali presente, vinda, comigo, lá do Recife, para passar as férias. Então era família reunida, os casos, a memória de uma Natal ainda mais antiga que essa que narro, ainda mais fria nas noites daqueles anos mais distantes que o Recife.

No quarto que compartilhávamos, no fim do corredor, de porta trancada, estávamos esquecidos pelos adulto, distraídos que estavam pela bebida e pela conversa. Improvisamos com um abajur uma meia-luz penumbrosa, que parecia ter efeito sobre a natureza dos sons, silenciando todo alarido que vinha de fora do quarto. Como havia muitas camas e pouco chão disponível, tratamos de afastá-las na direção das paredes, abrindo espaço para dispor os itens essenciais àquela aventura de crianças desocupadas. Verdadeiras oficinas do Cão ambulantes. E o que eram esses itens? Pedaços de papel contendo as letras do alfabeto, os números e as palavras Sim e Não, um copo americano surrupiado da cozinha e uma vela (e fósforos para acendê-la). Bem, você já deve imaginar o uso mágico que daríamos a tais artefatos.

Conduzir a sessão coube ao mais velho de nós, que orientou a disposição do alfabeto num círculo e o acendimento ritualístico da vela, que precisou de três ou quatro palitos para acender, o que nos pareceu um estranho presságio. A atmosfera carregada de mundo paralelos começou a desabar sobre nós. Dava pra cortar de faca, como se diz. Rezamos alguma reza, inventada ou não, que 40 anos depois não sei dizer qual foi, e que teria nos garantido alguma segurança contra espíritos mal intencionados. O copo americano da minha tia foi colocado no centro do circulo alfabético e meu primo, sacerdote-mor, descansou a mão direita, claro, sobre o copo, quase sem tocá-lo. Era necessário garantir que o copo se moveria por uma vontade sobrenatural, e não pelo esforço discreto do primo. Esperávamos isso dele, e dos espíritos.

Entoamos um mantra que achamos apropriado e fechamos os olhos, até que lembramos de abri-los, ou não veríamos os resultados do contato com o Plano Astral. Meu primo, o sacerdote-mor, começou a alternar as perguntas “Tem alguém aqui?” e “Alguém quer falar?” enquanto já de olhos irresistivelmente abertos e atentos. E foi assim, de olhos arregalados, que vimos o copo se deslocar até o papelzinho tosco em que havíamos escrito a palavra Sim. O primo tirou num rápido reflexo a mão do copo, como se tivesse levado um choque e alegou que “sentiu algo”, que não foi muito bem explicado o que seria. Aquela coisa terna chamado copo americano ficou ali, junto do sim, e eu poderia jurar que ele vibrava levemente, como que carregado de uma estranha energia e bem seria capaz de produzir uma faísca, um choque súbito. Mas àquela altura estávamos já altamente sugestionados, enebriados, embriagados pelo vinho da curiosidade e do medo, duas coisas que quando combinadas disparam o nosso coração e nos torna capazes de ver coisas; e se não as vemos, as inventamos. Fato.

Mas o que queríamos saber agora era o nome de quem quer que estivesse ali. Seguindo o combinado tive direito à primeira pergunta, digamos assim, mais pessoal. E então perguntei seu nome.

A resposta não veio de pronto e um vento inesperado, apesar das janelas fechadas, perturbou a chama da vela. Mas como nos foi aconselhado não tirar os olhos do copo, isso foi uma coisa que percebemos somente de relance, junto com um calafrio que atravessou a todos, para nos abandonar em seguida. Foi um pausa dramática, digna de uma ópera ou de um filme B de suspense. As mãos do meu primo repousavam, mãos de menino, sobre o copo, que tinha a água até quase a borda. Pareceu-nos que a água era um elemento importante na conexão. Talvez a gente tenha mesmo lida em algum lugar que essa era a configuração ideal para fazer contato com as almas. Pensei que ali havia água, o fogo da vela, o ar que nos rodeava e ensaiava sustos e mesmo a terra… imaginei que éramos nós a terra. Simbolicamente, claro. Devaneios de menino na expectativa de uma resposta do além-mundo

O sacerdote-primo-mor deu um tremelique e o copo começou a se mover em direção à letra E, depois migrou para o M e seguiu para o I de igreja. As duas últimas letras citadas pela presença foram o Z e o Y. Espere! Tem mais uma… um K.

— Emizyk!?

Isso mesmo, Emizyk. Seja lá o que isso fosse. Pela primeira vez na noite desviamos o olhar do copo, que jazia ainda junto à letra K, com a superfície da água vibrando ainda. Fitamos uns aos outros com desconfiança, pois Emizyk não parecia um nome apropriado para um espírito. A menos que ali estivesse uma alma gozadora, como chegaram a nos alertar, que esse tipo de brincadeira atraía mais desocupados que figuras elegantes. Mas fizemos os ritos com retidão e o tom solene necessário. Dificilmente um desordeiro se interessaria pela nossa companhia. Assim julgávamos. Mas o fato é que ali estava Emizyk a nos desafiar o pensamento, desordeiro ou não; iluminado ou mergulhado em escuridão, Emizyk aguardava uma manifestação de nossa parte. Como ele nos fez esperar pela resposta estranha, deixá-lo esperar um pouco seria um gesto de diplomacia para estabelecer limites. Não estávamos ali à disposição da pessoa… ainda que estivéssemos. De qualquer maneira cabia a nós dar continuidade à conversação com o lado de lá das paredes ectoplasmáticas que separavam nossos mundos.

As mãos imantadas do primo mais velho retomaram o copo, bem como as rezas e os olhos fechados. Em meio às loas um de nós (como saber quem na confusão dos anos?) fez a pergunta cuja resposta mudou completamente o rumo daquela prosa. — Quando você morreu?

— Mas eu estou vivo! — Respondeu Emizyk e saltamos de olhos serenos e rosto compenetrado para olhos arregalados e máscaras de espanto!

Como assim, vivo?! Será que o mundo de lá seria como um espelho e, para quem lá estivesse, nós seríamos os mortos? Bem, a partir daquele momento passamos a considerar tudo possível e só nos restava uma pergunta.

— Se você está vio, então onde você está? De onde tá falando? —

Não era à toa que ele era o sacerdote-mor. Foi preciso, certeiro, deixando nosso fantasma com a obrigação ética de responder na mesma medida de objetividade.

— Bem… eu estou no Segundo Mundo.

Deduzimos, naturalmente que, se ele estava no Mundo… — E nós estamos no Primeiro Mundo!

— Não, retrucou Emizyk. — Vocês estão no Terceiro Mundo!

A partir de agora vou poupar-lhes da lerdeza mística e do vai-e-vem do copo para finalmente compartilhar o que nos foi revelado por Emizyk. Primeiro ficamos indignados por ser terceiro mundo até no plano astral, mas com as idas e vindas de perguntas, respostas e sustos, descobrimos que o Segundo Mundo de que nosso interlocutor falava era… Vênus, o Segundo Mundo, ou segunda órbita, a partir do Sol. A nossa Terra, ocupando a terceira órbita, seria o Terceiro Mundo. Isso nos aliviou o embaraço e multiplicou a ansiedade com que trocávamos ideias e descobríamos essas peculiaridades do nosso sistema solar. Espíritos, que nada! O tempo inteiro a humanidade, ou pelo menos os adeptos da assim chamada brincadeira do copo, vinha conversando com venusianos, que encontraram nessa distração um meio de comunicação eficaz. A densa camada de nuvens ácidas que envolvia o planeta providenciava uma poderosíssima antena, capaz de captar, converter, transmitir e sabe-se lá mais o que, qualquer tipo de transmissão efetuada de qualquer lugar num longo raio que extrapolava a órbita de Júpiter. Foi assim que começaram a receber chamadas do tipo que estávamos realizando. O copo com água funcionava como ponto focal e qualquer um, em Vênus, poderia responder nosso apelo.

Sim, muitas vezes um desocupado atendia. E sim, quando perceberam que a gente achava que falávamos com o mundo dos mortos, começaram também a se divertir e criar suas próprias narrativas para nos distrair das nossas vidas vazias. Emizyk resolveu quebrar o protocolo e falou um pouco de verdade no nosso bate-papo, não sem criar alguma confusão. Lá em Vênus também se morre, como em, aparentemente, qualquer lugar onde floresça a vida. E lá também não se sabe o que é feito de quem morre. Especula-se, imagina-se, inventa-se. Sonhos e esperanças alimentam as muitas religiões dos que habitam o Segundo Mundo, que vive, segundo Emizyk, um tempo de ventura que já dura mil anos.

Do nosso mundo eles acompanham tudo, das guerras ao futebol, e parecem satisfeitos com esse canal peculiar, não espiritual mas espirituoso, para conversar com essas almas perdidas do Terceiro Mundo e saber de suas desventuras. Quantas vezes aqueceram o coração de alguém fingindo ser um ente querido que havia partido…

Em algum momento a conversa foi interrompida, no meio de uma frase, e não conseguimos recuperar naquela noite o contato com Emizyk, nem nas muitas outras noites que enfeitaram aquelas férias. Além do mais, crianças se distraem com a praia, a bola com a molecada da outra rua e com o pão doce com guaraná Antártica na calçada da avó. Emizyk se embaralhou com tudo isso e aos poucos foi ficando para trás. O copo americano, vazio, ficou bolando muitos dias pelo quarto até ser recuperado pela minha tia. Recordo que dias depois vimos Vênus, Vésper, a Estrela Dalva da canção As Pastorinhas, de Noel Rosa e João de Barro. Um planeta que brilha tanto que mereceu ser chamado de estrela. Subia no horizonte em contraponto com a Lua e sabíamos, intimamente que tínhamos uma amizade ali, a 0,28 UA (Unidades Astronômicas) de distância do nosso Terceiro Mundo. Não sabemos até hoje se era um menino ou uma garota, ou uma tia idosa ou um mestre de alguma luta marcial que só exista em Vênus. Nunca ouvimos sua voz e imaginamos, cheios de esperança, que lembra de nós. Com seu telescópio talvez observe a Terra. Talvez seja impossível falar duas vezes com a mesma pessoa em nossos planetas. Talvez agora mesmo, alguém, em algum lugar perdido desse planeta, esteja manejando o copo mágico, invocando espíritos e conversando, sem imaginar, com Emizyk. Talvez até Emizyk esteja falando de nós, da nossa conversa décadas atrás. Tentando, quem sabe, nos reencontrar.


Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa: O Imperador da Galáxia

E o pai do Imperador. Um homem isolado, que se perde em um tempo em que tudo era melhor. O Imperador concorda plenamente com seu pai, para ele o melhor ser humano que já existiu. Um homem bom, digno, incapaz de fazer qualquer maldade. E que destruíram sem dó nem piedade, e só consegue encontrar na bebida e em discos antigos o lenitivo para seu sofrimento. [Fábio Fernandes]

Texto de Fábio Fernandes


A partir de imagem Phere.

Sério e taciturno, o Imperador da Galáxia contempla sentado seu reino pela tela do computador. Os olhos atentos vasculhando as mensagens, ele mal percebe os óculos que caem na ponta do nariz, as espinhas que povoam seu rosto, a barriga enorme que salta para fora da blusa de algodão puída.

O Regente Supremo de Toda a Espécie Humana é um garoto de treze anos.

Ninguém sabe que é ele quem controla os destinos de todos. Só ele. Mas isso por enquanto está bem. Quanto menos gente interferir em sua vida, melhor. Não que haja muita gente que seja capaz de interferir na vida ocupada do Imperador da Galáxia. A Rainha-Mãe morreu há muito (para falar a verdade, ele mal a conheceu). Sua irmã, a Princesa, vive trancada em seus aposentos, de onde exala um cheiro enjoativo de incensos e coisas proibidas que ela usa com fins secretos.

E o pai do Imperador. Um homem isolado, que se perde em um tempo em que tudo era melhor. O Imperador concorda plenamente com seu pai, para ele o melhor ser humano que já existiu. Um homem bom, digno, incapaz de fazer qualquer maldade. E que destruíram sem dó nem piedade, e só consegue encontrar na bebida e em discos antigos o lenitivo para seu sofrimento. Nesses momentos o Imperador se lamenta, sofre solidário, e jura que fará algo a respeito. Mas hoje não.

O Imperador passa seus dias reinando supremo em listas de discussão no espaço cibernético, emitindo opiniões, lançando conceitos, revoltando-se contra os infiéis decadentes. Pouco lhe importa que lhe atirem pedras: no fundo, sabe que está certo.

Há muito resolveu o problema da barriga. O Imperador da Galáxia parou de olhar seu corpo no espelho.


Elegeram Daniel rei | Parte II

Ao seu lado, o inspetor penteando compulsivamente para trás os cabelos; à sua frente, mas de costas, a professora de artes engolindo um copo de água com açúcar. A sala da direção era um cômodo pelado: uma mesa com papéis da diretora (cujo expediente começava depois do almoço), duas cadeiras onde alunos encrencados sentavam-se ao lado de mães envergonhadas ou, raramente, de pais desnorteados, um sofá de canto e nada mais. O cheiro das bitucas de Palace provindas dos dois maços diários da diretora era a única decoração por ali. [Texto de Diego Franco Gonçales]

Texto de Diego Franco Gonçales


Lezinho já havia parado de chorar, mas seu rosto ainda era uma bagunça vermelha. Rir de fato não era a melhor das reações que ele poderia ter tido ao ver passar Vítor carregado em uma maca, disso ele meio que tinha ciência, mas uma risada merecia aquele puxão de orelha da professora de artes? Do fogo no lixo do pátio à bombinha na privada do banheiro; das intimidações de colegas de sala à falsificação da assinatura da mãe; dos “merda” e “cu” no recreio às fugas pulando o muro – tudo lhe parecia mais grave que agora e nunca, nunca acarretou encostarem a mão nele. Isso era coisa de se esperar de casa, da rua, não da escola, e por isso, de raiva, ele chorou.

Ao seu lado, o inspetor penteando compulsivamente para trás os cabelos; à sua frente, mas de costas, a professora de artes engolindo um copo de água com açúcar. A sala da direção era um cômodo pelado: uma mesa com papéis da diretora (cujo expediente começava depois do almoço), duas cadeiras onde alunos encrencados sentavam-se ao lado de mães envergonhadas ou, raramente, de pais desnorteados, um sofá de canto e nada mais. O cheiro das bitucas de Palace provindas dos dois maços diários da diretora era a única decoração por ali.

– Você, você passou todos os limites, rapazinho. Todos todos todos, Leandro! – a professora falou ainda de costas, mal terminado o copo, para surpresa do inspetor e do menino. Nem a água com açúcar a acalmou? – Quebrou o braço! Do Vítor!
— Eu!?
— Você!
— Eu seu c… – e Lezinho intuiu que de que nada adiantou ter suprimido o “u”, porque só com o “c” a palavra inteira já imperava por toda a sala de direção, mais forte que o cheiro de cigarro apagado, agulhando os ouvidos da professora e do inspetor.
— O quê!? Você vai ser expulso, seu seu seu… animalzinho! – E a professora abaixou, tirou um sapato e avançou com intenção predadora, mas mancando um pouco porque a ausência de um scarpin deixou uma perna mais comprida que a outra. Ela sentiu ser um pouco ridícula a cena, e por isso parou no meio do caminho soltando um ruído de bexiga esvaziando – Não é possível…
— Leandro, olha pra mim. – o inspetor comandou – Eu quero saber como tudo isso aconteceu.
— Com ela aqui eu não conto.
— Ah, pronto! – e agora a professora não se importou em mancar e partiu para cima de Lezinho. O menino fez a expressão mais corajosa que conseguia e ficou firme, nem piscar piscou. Só não tomou uma sapatada porque o braço da professora foi interceptado pelo inspetor.
— Professora, a senhora precisa se acalmar. Por favor, tome um ar no pátio. Por favor – o inspetor gesticulou em direção à porta.

A professora de artes fechou os olhos e inspirou quanto ar lhe foi possível. Seus permanentes muito negros e muito compridos tremelicaram.
– Ok. – ela disse. Abriu a porta para sair e deu com crianças, professores e funcionários da escola no calor da fofoca. A professora de artes passou por entre eles expirando forte e tremendo os cabelos.
– Com licença. – o inspetor fechou a porta – E agora, o senhor está satisfeito? Mais alguma exigência, Leandro?

A ironia não mereceu resposta do menino, mas o atingiu. Por algum motivo, ele não conseguia manter para o inspetor a expressão corajosa e a impassibilidade do corpo que ostentou frente à professora de artes. Ajeitar as nádegas milímetros para o lado foi tudo o que Lezinho fez como expressão do seu desconforto, mas isso não escapou ao inspetor.
— Vejo que mais nenhuma mesmo.
— Ela não pode me bater.
— Ela não te bateu.
— Ela me puxou pela orelha.
— Puxar a orelha não é bater. Bater é o que você fez. Você quebrou o braço do Vítor.
— Eu!?
— Vo-cê quebrou o braço do Vítor.
— Eu não!

Lezinho sente orgulho de suas “reinações” – assim chamava o inspetor as rebeldias e provocações ao menos quinzenais do aluno problemático, e assim ele acreditava, pelo nenhum esforço de disfarce ou negação a que o menino se digna quando pego. Ele tenta, sim, não ser descoberto quando apronta, mas por engenhoso que seja, por aluno inteligente que sempre tenha sido, ileso de recuperações em qualquer matéria, que dirá repetições de ano, Lezinho é, ao cabo, um menino de 10 anos a serem completados dali pouco menos de um mês, naquele dezembro de 1992, e seu arsenal de dissimulações é reduzido e de calibre infantil. Pego, a tradição é Lezinho fazer correr um fogoso “É, fui eu!” por entre sua dentição ainda em parte decídua minutos depois de ser posto naquele sofá. Negar três vezes a participação no acidente daquela manhã chamou a atenção do inspetor. Ele foi até a janela que dava para a rua, àquela hora livre de carros e pessoas. E aí? Pelo retrospecto, era igualmente defensável confiar e desconfiar de Lezinho. O inspetor passou um tempo olhando os decrépitos cobogós sessentistas do muro da casa de frente à escola, que ruíam dia a dia.
– Mas riu. Ou não, também? Me diga por que riu, então. Achou engraçado? Achou bonito?
– A tia Mara riu também.
– A Mara… a Dona Mara… O que tem a ver a Dona Mara? Ela já aprontou tudo o que você aprontou, Leandro? Deixe ela de fora. Isso se ela riu mesmo. Eu acho que você está mentindo. Você está mentindo. Você está mentindo, Leandro?
– Eu só achei engraçado ele gritando. Não sabia que o braço dele quebrou.
– O braço dele que-brou? – E o inspetor saiu da janela, o muro em ruínas e a mão quebrada de Vítor virando uma coisa só – Eu não sabia que braços quebram, Leandro. Eu achava que braços eram quebrados. Como o senhor me explica isso?
– Eu preciso ir pra aula.
– É? Precisa?
O inspetor foi até a porta e virou o trinco.
– Você vai pra aula quando me falar o que aconteceu naquele parquinho. Você vai falar e é agora.

O inspetor se aproximou do sofá. Seus passos até Lezinho foram calmos, em paz, flutuantes até. Aquela suavidade inusual amedrontou a criança, acostumada à rispidez e secura do inspetor. Ele próprio se surpreendeu, sentindo-se descolado do corpo, um mero observador, um proprietário minimamente envolvido de uma máquina autônoma e decidida no nível mais profundo de suas roldanas.

O inspetor sentou ao lado do menino e tomou sua mão; a disparidade entre as mãos do inspetor e do menino, uma jovem, mínima, de unhas um pouco encardidas, enfiada na palma de uma enorme, alva mas com sulcos da cor de colostro, os fez parecer animais de espécies diferentes. O inspetor pousou ainda a outra mão por cima da de Lezinho. Pelos pretos que pareciam encerados cobriam todas as falanges. A pele gelada do inspetor arrepiou o braço de Lezinho.

— De novo: o que deu em você, filho, pra fazer isso com o Vítor?
— Tio, me deixa ir pra aula…

O que parecia mais um desvio choroso e falso de Lezinho foi uma senha para o inspetor libertar a vontade há muito pronta, há muito reprimida. Sua mão que estava por cima pescou com precisão o indicador do menino e o torceu no sentido contrário do fechamento dos dedos. Rápido, limpo, eficaz. Só a flexibilidade infantil salvou aquele osso de se partir.

Então esse dia chegou. Como seria machucar uma criança? A fantasia de que esse dia chegaria avançava sobre os pensamentos do instrutor sempre que a paciência dele era pouca e as reinações eram muitas; povoava a cabeça dele na hora do sono e preenchia o espaço entre os parágrafos de notinhas sobre etiqueta de revistas Seleções que ele lia enquanto a porteira Mara, sua namorada secreta (porque relações entre funcionários eram proibidas pela escola), preparava o almoço dos finais de semana; essa fantasia um pouco assombrava e um pouco temperava as tentativas de desconexão com o trabalho de inspetoria. Como seria machucar uma criança? Ele gostava de se afirmar como um inspetor à moda antiga, e não raro externava para colegas uma saudade caricata de palmatórias e reguadas, mas aquilo para ele nunca foi machucar. Castigar um aluno batendo em suas mãos ou nádegas com instrumentos oficiais, quando isso ainda era aceitável, equivalia a ensinar aritmética, decorar nomes de capitais, preencher cadernos de caligrafia: era do jogo. Ele queria mesmo saber como era sair do jogo. O que a criança precisaria fazer? Qual método ele usaria? Que sabores residuais ficariam em sua boca? Como seria machucar uma criança? Agora ele sabia. Não era bom.


Uma lua cheia para banhar a sua rua inteira

Andar com a cabeça para baixo, cabisbaixo, nunca mais. Há muito tempo as pessoas decidiram que era melhor olhar para cima, para as estrelas, a fim de entender seus propósitos, seus meios, seus fins aqui embaixo. Era tão óbvio: deveria ter sido sempre assim com cada um de nós, do nascimento ao óbito. Era uma nova chance para a nossa espécie, um novo paradigma para qualquer espécime terrestre. Nem CPF, nem RG, nem certidão. A posição dos astros do rebento se sobrepunham a qualquer outro tipo de argumento. [Texto de Eduardo Frota]

Texto de Eduardo Frota


Planisphère Céleste Donnant Les Divisions Des Étoiles Fixes en Constellations et leurs classifications jusqua’à la 5ème Grandeur. — Fonte: Wikipédia

Andar com a cabeça para baixo, cabisbaixo, nunca mais. Há muito tempo as pessoas decidiram que era melhor olhar para cima, para as estrelas, a fim de entender seus propósitos, seus meios, seus fins aqui embaixo. Era tão óbvio: deveria ter sido sempre assim com cada um de nós, do nascimento ao óbito. Era uma nova chance para a nossa espécie, um novo paradigma para qualquer espécime  terrestre. Nem CPF, nem RG, nem certidão. A posição dos astros do rebento se sobrepunham a qualquer outro tipo de argumento.

Rápido: calculemos hora e data! Todo ser humano tinha direito a um mapa astral de linhas coloridas rabiscadas em um círculo, numa espécie de mandala que substituiria, por exemplo, um currículo. Contratar uma funcionária taurina, eleger um político pisciano, dar à luz uma filha leonina, ler um autor escorpiano.

O GPS agora funcionava em dois sistemas diferentes: as ruas e as luas. O primeiro, para onde se queria chegar em horas ou minutos. O segundo, para onde se apontava o sonho, para onde flui naturalmente o prumo da vida, da luz. Desluzir a presença dos astros, diziam as autoridades no assunto, era o cúmulo!

E assim a humanidade caminharia por séculos, até que por uma fatalidade precisasse mudar de planeta. O único problema? Refazer os cálculos em uma nova morada, descendente por descendente, estrela por estrela, ascendente por ascendente.

A gravidade dos astros, todas as mecânicas invisíveis, teriam que ser recalculadas. Só uma dessas grandezas – dessas que não são calculadas usando ábacos ou astrolábios – permanecia imutável. Uma atração que fugia às leis da ciência. Em sua nova casa, da janela do quarto, lá estará a minha lua cheia banhando de amor a sua rua toda, inteira.


Manifesto pela literatura

Queiram todos admitir ou não, vivemos tempos bastante sombrios não apenas naquele Estado, mas em todo o Brasil. Estamos acompanhando inertes os atos de tortura à nossa democracia, onde a imprensa é imprensada, onde se permite desmatar florestas, onde se quer armar cidadãos de bem, onde se desrespeita o direito indígena, tão crucial para que se mantenha a base de nossa identidade. Isso sem mencionar cortes em medicamentos para a população doente, sucateamento de seculares instituições de ensino, de desmerecimento das artes e vampirização de seus operários. [Texto de Eduardo Maciel]

Texto de Eduardo Maciel


Imagem: Eduardo Maciel

Sei que estou devendo um texto falando do meu projeto envolvendo o resgate cultural dos sonetos em nossa literatura poética contemporânea, mas não será dessa vez que vou pagar o que devo. Devo e não nego. Pago em quinze dias.

No entanto, vou permanecer na canoa da contemporaneidade para falar do que recentemente ocorreu em Rondônia, por iniciativa da Secretaria de Estado da Educação, que ousou implementar oficial e formalmente censura a diversas obras literárias de relevância indiscutível.

E isso implica em eu precisar me posicionar sobre dois temas: a censura como instrumento autocrático e como ferramenta letal para a cultura.

No campo da autocracia, feita realidade em Rondônia, a censura me enfurece mas não me surpreende. 

Queiram todos admitir ou não, vivemos tempos bastante sombrios não apenas naquele Estado, mas em todo o Brasil. Estamos acompanhando inertes os atos de tortura à nossa democracia, onde a imprensa é imprensada, onde se permite desmatar florestas, onde se quer armar cidadãos de bem, onde se desrespeita o direito indígena, tão crucial para que se mantenha a base de nossa identidade. Isso sem mencionar cortes em medicamentos para a população doente, sucateamento de seculares instituições de ensino, de desmerecimento das artes e vampirização de seus operários. 

Estamos acompanhando. E não estamos fazendo nada.

O que me leva ao segundo ponto de análise, que é o olhar sobre a censura como veneno para a nossa cultura. Como já mencionei, estamos nós brasileiros nos acostumando (que dado alarmante) com o já mencionado desmerecimento das artes. E como nos permitimos usar de inércia quanto a isso? Como?

Por mais que eu tente racionalizar, por mais que eu entenda sobre as tolas teorias a respeito de viradas ideológicas, por mais que eu respeite o poder do voto popular, não consigo aceitar que estamos apenas observando. E talvez essa seja a razão maior desse meu texto, porque não quero pertencer a esse grupo que se cala. Não quero ficar inerte. Não mesmo. 

E digo isso com a mesma clareza de não estar aqui me posicionando politicamente, porque não sou de esquerda nem de direita, e tampouco acredito na própria República Presidencialista na qual insistimos aqui no Brasil.

Mas política é uma coisa. Aceitação de censura, é outra.

Ariano Suassuna já disse certa vez que “quem gosta de ler não morre só”. Certíssimo. 

Mas se por um lado temos gente empenhada em incentivar nos outros o gosto pela leitura, o hábito saudável e edificante do ler, por outro temos o poder público mandando recolher livros por tê-los como ameaça a um plano de governo. Como se a literatura pudesse ser alcançada por qualquer governo. Não pode!

Porque literatura é linguagem da arte, e arte é a linguagem da alma. E todo (ou quase todo) ser humano tem alma. E isso independe de qual governo está no poder.

Bem, então o que está faltando na população é deixar que suas almas falem, já que seus olhos não se desprendem das polarizações digitais e suas mentes só conseguem pensar com egoísmo.

E quando nossas almas falarem, falarão em um só sotaque nos quatro cantos desse imenso país.

Deixemos nossas almas livres para falar, e saibamos ouvir a sua voz.

Qualquer censura é uma mordaça para a alma, para a cultura, para o que fez de nós o que somos, para nossa memória e história, para nossa identidade, individual e coletiva.

Precisamos fazer alguma coisa. Não quero ficar inerte. Não mesmo. E você?


O sertão de Pombal, terra das terras

Pelo rio, embora assoreado e habitado pelas gigogas e outras plantas, assenta-se o verde em suas margens, banha-se a verde vida nos meninos imberbes nele mergulhando. O céu é profundamente azul, pelo dia, e profusamente estrelado, durante a noite. Nos intervalos do dia, na aurora, e da noite, no entardecer, o sangue do sol pintará seus desesperos. [Texto de Aderaldo Luciano]

Texto de Aderaldo Luciano


A rua da Matriz – Foto de Aderaldo Luciano

A cidade de Pombal, no sertão paraibano, foi agraciada pela geografia, pela arquitetura, pela intervenção criativa do povo, pelo nascimento, nela, de Leandro Gomes de Barros, o pai do cordel brasileiro, o fundador do sistema literário cordelístico, marca nordestínica, emblema nacional.

Pombal é uma cidade plana, acorda na planície, nela se revela e vive e cria. Talvez por isso, e mesmo por isso, em sua tangente corre o Rio Piancó na busca do Piranhas, mais abaixo. O rio não corta, nem esquarteja a cidade, o rio como que a delimita, dá-lhe ordem de não avançar sobre si.

A BR 230, iniciada no litoral, nas pestanas cavilosas de Cabedelo, adentra a Paraíba, apartando-a em dois cordões: o azul e o encarnado. Em Pombal, essa BR, seu asfalto quentíssimo e escaldante, tenta ser um rio, mas seu fluxo é de mão dupla, seu caminho é ambidestro, não corre só para o mar, nem foi pensada para tal.

Pelo rio, embora assoreado e habitado pelas gigogas e outras plantas, assenta-se o verde em suas margens, banha-se a verde vida nos meninos imberbes nele mergulhando. O céu é profundamente azul, pelo dia, e profusamente estrelado, durante a noite. Nos intervalos do dia, na aurora, e da noite, no entardecer, o sangue do sol pintará seus desesperos.

O azul e o encarnado nos folguedos – Foto de Aderaldo Luciano

O azul e o encarnado são as cores do povo, lembrança e resquício remoto de Dom Sebastião, de Maurício de Nassau, do Rei Janduhí, dos Pegas e Panatis, dos galegos espadaúdos, dos negros assinalados, da lança e dos clavinotes sangrentos de Teodósio de Oliveira Ledo. São as cores intensas e fumegantes, desafiadoras e desafiadas, espadas matizadas, maracás de fundos decibéis.

A Igreja do Rosário, o rosário de Nossa Senhora, e essa senhora sendo do Rosário dos Pretos, desfralda sua presença inaugurando a Praça do Centenário, deixando aberto o maior pátio de igreja de toda a Paraíba, imagem de um tempo de longas vigílias e intensas manifestações. Da porta centenária dessa igreja, esculpida, a porta, em madeira fixe e inexpugnável, quem olha para o lado direito vê a antiga cadeia pública, hoje Casa da Cultura. E é essa casa que deveria reger aquele destino.

A antiga chaminé da Brasil Oiticica S/A, produtora de óleo vegetal extraída do fruto que deu nome à fábrica, sobreviveu, como muitas pelo país, à decadência e queda de suas bases de tijolo e cimento, de vigas e almas trabalhadoras. Venceu a especulação imobiliária, desafiou as máquinas Caterpillar e os tratores de esteira. É um portal para outra dimensão. Para a dimensão de um tempo fausto e astuto, açoitador de trabalhadores, bajulador de capitalistas.

A chaminé da Brasil Oiticica – Foto de Aderaldo Luciano

Mas eis que, debaixo de seu guarda-chuva, sob as penas de sua vida malfadada, pisando os tapetes encarnados e azuis, aos quais me referi anteriormente, desfilam, pactuados com o mesmo tempo, os Congos, trazendo um Rei que tudo pode, guizos que tudo tocam, canções que a tudo encantam, indumentárias que reciclam os costumes, coroas e paletós, saiotes e chapéus pontiagudos, passos e coreografia imutáveis, sorrisos e olhares desafiadores.

Logo a seguir percebe-se o Reisado, plantado, como os Congos, na carga da cor e da origem, rasgados coros africanos, espátulas e espadas guardiãs, mais coroas de ouro imaginário e pedras rutilantes catadas nas estrelas do Carreiro de São Tiago. Vê-se acolá, no centro de suas pupilas, o desbravar do povo que nunca apagou sua chaminé e, como aquela da fábrica, vencedora e guerreira, sustentáculo e cetro, trono e imensidão, sol pontiagudo e Vento Aracati.

Ó, Pontões pombalenses, vós que trouxestes a espontaneidade no canto e na dança, no corpo e espírito, no sopro de vida e na vida malsinada, escrevei com vossas lanças e cores um tempo precioso no qual o respeito pelas tradições e a formação de quadros sejam a fumaça intensa a anunciar que nos porões dos que em nada contribuem já se incineram sua falta de delicadeza com as coisas do povo.

E vem a procissão da Irmandade do Rosário desafiar os brancos senhores que em tudo mandavam. Ela chega com muita calma e esperança, cautela e arquitetura, louvar a Virgem de Nazaré, conquistando seu lugar à sombra, alcançando seu lugar devido, sequestrado pelos anos pesados, e ainda não devolvido. A Irmandade é a sentinela, está a postos na defesa da tradição, cantando e rezando e pegando nas armas se preciso for.

E nesse rosário de fé e resistência aproxima-se, nos mesmos tapetes, vestindo o branco da paz inexistente, a capoeira nada sutil em seus passos de luta, lúdica e telúrica, manhã de Zumbi, tarde da Escrava Anastácia, noite de João Cândido, madrugada de João do Vale, eternidade da resiliência. Os mestres postam-se ao lado de Besouro. Os neófitos já voam nos seus cangapés. Saudáveis instrumentos na santa cozinha em que fervem os refrões. Paraná, ê, Paraná, ê, Paraná!

E o Boi Iaiá assobe-se das cinzas, realiza-se, não como visão, mas como possibilidade. O boi é tão mágico, e tão visagem, e tão imaginário, e tão presente que os meninos o temem, que os antigos não querem domá-lo, e os que brincam o tangem como o boi mais brabo de todo sertão. É o Boi Misterioso cantado por Leandro Gomes de Barros, o Boi Surubim, o Boi Espácio, o Boi Soberano, o boi aruá. Tudo e todos transformam Pombal no polo cultural do sertão paraibano.


Elegeram Daniel rei | Parte I

O inspetor chegou a esboçar uma contenção, mas o menino já tinha se virado sobre a lateral e espalmado a mão no chão para se levantar. Mas uma fratura de Colles no rádio direito, como mais tarde anunciaria para a diretora da escola o ortopedista do pronto-socorro, o impediu: numa manifestação exuberante da elasticidade da pele humana, o peso do corpo fez a mão de Vítor se desencaixar, indo parar na metade do braço. [Texto de Diego Franco Gonçales]

Texto de Diego Franco Gonçales


Na rua, pais ainda se aglomeravam em frente à escola, as últimas crianças se despedindo sob mochilas azul-marinho medindo metade delas. No pátio, as séries primárias começando a formar filas, a poucos minutos de seguir cada uma para sua sala, sua professora e seus cadernos encapados. Era o início de um dia escolar, e os alunos, bem-dormidos e dispostos, decoravam o ar com um mosaico sonoro nada preguiçoso. Mas para um grito daquele, eletrizando a manhã que ficaria marcada como a em que elegeram Daniel rei, era cedo demais.

Som assim, o rasante de uma estridência coesa, só era registrado em recreios, e dos mais problemáticos. O inspetor sabia disso, e quando deixou seu posto de organizador de começo de dia foi para assumir o de convicto disciplinador de momentos críticos. Algumas crianças correram, abandonando filas e rodas de conversa e brincadeira; o inspetor leu nelas a direção a ser seguida. Meticuloso, engrenou sua progressão de emergência, rápida o suficiente para alcançar algumas das crianças e paralisá-las com um toque no ombro e um estralar de língua, mas não o bastante para ser considerada uma carreira aberta. Seco e determinado como seu bigode fino, um praticante de marcha atlética em trajes sociais, foi estancando alunos até aquela curva à esquerda, bem no final do pátio, onde começa o corredor que dá no parquinho. Ali, quatro merendeiras amontoavam as cabeças na janela da cozinha em um dégradé de expressões: curiosidade alegre, interesse apreensivo, aflição contida e temor sofrido, e para elas o inspetor exibiu a palma da mão em um misto de “fica aí” com “deixa comigo”.

A mesma mão subiu à testa na forma de viseira assim que ele deixou a cobertura do pátio. O sol daquele novembro, as pessoas não esquecem, esbanjava potência já antes das oito da manhã. Enquanto seus olhos, acostumados ao esmaecido do pátio, tentavam se adequar à luminosidade, o inspetor apenas distinguia, e mal, o tatuzão, a casa na árvore, o escorregador, brinquedos de maior volume, e um contra-fluxo de crianças, algumas chorando, e bem. Era a medida que ele precisava para elaborar, baseado em experiências regressas, uma intuição do que estaria acontecendo e até a causa. Lezinho, pensou, e agora ele correu.

(Seus muitos anos de experiência profissional concorrem com os poucos junto ao Lezinho para firmar a lógica da sua dedução. Nisso, o inspetor é irrepreensível, e mais à frente esse foi o argumento da sua defesa – argumento que, embora não o tenha salvo da exoneração, foi aceito para livrá-lo de um processo criminal.)

Havia até meninas andando de costas, perplexas com a mão na boca, quando o inspetor chegou ao que parecia ser o epicentro da ocorrência – um círculo de crianças posicionado embaixo da casa na árvore, pequena cabana de madeira a uns dois metros e meio de altura, construída sobre o tronco de um flamboyant morto há muitos anos. Dá licença, dá licença, e no centro do círculo, barriga para o chão, braços e pernas tortos como os desenhos de assassinados feitos com giz em filme policiais, desacordado na melhor hipótese, Vítor.

O inspetor pouco podia fazer por Vítor além de conferir respiração e batimento cardíaco. Respirava e batia. Seu curso de primeiros socorros doutrinava a não remoção de vítimas de traumas, desacordadas ou não, e doutrina é coisa séria. O inspetor olhou por ali e detestou o que viu. Só crianças, ninguém da equipe. O apito negro era seu único recurso.

A professora de artes foi a primeira a acorrer ao chamado ardido do apito do inspetor. Sua sala é a mais próxima do parquinho, proximidade conquistada no começo daquele ano quando ela venceu o professor de educação física, seu principal concorrente na disputa pela sala bem-localizada, distribuindo aos demais professores cópias mimeografadas do seu texto “Indução da criatividade lógico-espacial-estética no 1º grau: uma defesa heurístico-paisagística do uso da sala 7 pela disciplina de Educação Artística” – todos na Reunião de Planejamento Anual/1992 da “E.E.P.S.G. Sandra Souza Suzuki” houveram por bem concordar com ela tão rápido quanto possível para matar no berço o demônio que ameaçava prolongar aquele encontro. Ela armava uma roda de carteiras para uma aula sobre cores quando ouviu a primeira sequência de silvos picados. Imaginou um proibidíssimo futebol de bola de papel sendo dispersado pelo inspetor e continuou seu trabalho, mas mais e mais sequências de apitos a levaram até a janela. O inspetor, de pé, tinha um braço para baixo, apontando uma criança caída de bruços, e o outro para cima, balançando nervoso.

— Aiaiai, quem é essa crian… ô, meu Deus, é o Vítor! – a professora disse conforme corria, a interjeição ainda na saída do prédio e o nome da criança já ao lado do inspetor.

— Professora, a senhora pode, por favor, ficar aqui enquanto eu vou à secretaria telefonar pra uma ambulância? – E, falando para as crianças, o inspetor arqueou as sobrancelhas – Vocês, comigo.

À exceção de uma menina da 4ª série, as crianças imediatamente se ajuntaram ao redor do inspetor. Para ela, o inspetor arqueou também o bigode e repetiu:

— Co-migo.

Ainda assim, ela não se moveu. Vítor estava acordando, e para a menina aquela cena conseguia ser mais premente que as sobrancelhas, o bigode e as sílabas tensionadas do inspetor.

O inspetor chegou a esboçar uma contenção, mas o menino já tinha se virado sobre a lateral e espalmado a mão no chão para se levantar. Mas uma fratura de Colles no rádio direito, como mais tarde anunciaria para a diretora da escola o ortopedista do pronto-socorro, o impediu: numa manifestação exuberante da elasticidade da pele humana, o peso do corpo fez a mão de Vítor se desencaixar, indo parar na metade do braço. Ele gritou mais um daqueles gritos elétricos, rolou até ficar de costas no chão, e, com a mão quebrada pendendo como uma bandeira a meio-mastro, esgoelou com toda a saúde de um pulmão de dez anos:

– Eu vou morrer! Eu vou morrer! Eu vou morrer!


Do que eu esperava encontrar…

Teve aquela hora ontem, no show OK OK OK, do Gilberto Gil, em que todo mundo saiu do palco e ficou só ele, aquele senhor lindo de 77 anos, cabeça branca, com seu violão. E o que ele cantou ali, sozinho… sozinho não, corrijo-me agora mesmo, carregado da tradição da música brasileira, dos quintais, das mangueiras, da gente da calçada, da conversa fiada dos vizinhos, das badaladas das seis horas, hora do Angelus, da troca da guarda. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Teve aquela hora ontem, no show OK OK OK, do Gilberto Gil, em que todo mundo saiu do palco e ficou só ele, aquele senhor lindo de 77 anos, cabeça branca, com seu violão. E o que ele cantou ali, sozinho… sozinho não, corrijo-me agora mesmo, mas carregado da tradição da música brasileira, dos quintais, das mangueiras, da gente da calçada, da conversa fiada dos vizinhos, das badaladas das seis horas, hora do Angelus, da troca da guarda. Estava ali com seus pais, seus avós, seus outros tantos que atravessaram o oceano e ainda antes, sob sabe-se lá que baobá que ainda hoje deve viver em algum lugar. Ali, no palco, sozinho como não estava, cantou, ou entoou, Se eu quiser falar com Deus.

Quando a gente assiste a um espetáculo como esse, e vai escrever sobre isso, a gente quer falar dos detalhes, né? Do som, do setlist, das participações, dos destaques… quero não. Estava eu ali com seu Gilberto, com sua história, sem cordas pra segurar.

Ele ali, cantando essa canção lançada no distante ano da graça de 1981, era como um elo, um halo no meio do palco, esse lugar em que se sente tão bem. Vejo artistas que chamam pessoas da plateia para o palco, essa gentileza de nos permitir o lugar do sagrado. Seu Gilberto não chamou a plateia para o palco ontem. Ao som e sabor de Quem quiser falar com Deus fomos carregados, embalados, e o palco estendeu-se, como um lençol que se estende sobre as pedras junto ao rio para quarar. Quero só falar disso. Desse sol em nosso lençol.

Um espetáculo assim, um encontro desse tamanho, é sempre um momento de alegria. E como tal, um momento de aprendizado. A música é aula do que somos e aprender é lembrar do que sabemos. Seu Gilberto é que nem aqueles totens no nicho da sala, talhado na madeira, a nos atiçar a memória. A dizer: Recorda, pessoa! E aí você lembra. E aí você canta baixinho com ele, feitio de oração, os versos da canção, da poesia, do vão entre as gerações e do mar que vai subindo e preenchendo o vão. Bem sei que tô falando demais e talvez falando bobagem. Mas aprendi mesmo com esse mestre da nossa música que falar é bom, que falar besteira é bom, é necessário pra falar de nós. É bom ser caudaloso e perder um pouco o rumo e controle das palavras, para que elas falem para além do que nós falamos.

Pois perdoe que eu seja eloquente sobre uma canção tão contida, tão delicada. É que saí dali com vontade de falar, de cantar, de recuperar tudo isso que a gente vai perdendo no cotidiano de ruídos e conflitos e aperreios que o mundo nos joga aos nossos pés pra que a gente atravesse.

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar, vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar

Termino esse texto com um agradecimento, não ao artista somente, mas a tudo que ele concentra, encarna, desmancha, desfaz no ar para nós. Criatura, entidade, inscrição, sentado com seu violão terno sobre o palco, foco da luz branca que atravessa o escuro, dos olhares, de todos aqueles ouvidos, de todos aqueles corações abertos ao seu canto.

Saí dali e pensei: Há quanto tempo, meu Deus, essa voz me acompanha!