Você tá em casa, de bobeira, aí, de repente, recebe uma mensagem do além. Ok, não do além, mas do desconhecido. [Poemas e desenhos de Marrisson]Alguém que não é seu amigo está te enviando uma mensagem via Facebook. Clico para conferir e dou de cara com Marrisson, que, recomendado pelo amigo, poeta e colaborador Márcio Fabiano, veio perscrutar as águas da Kuruma’tá e fazer essa oferta dos seus versos e desenhos, pra gente publicar.
Você tá em casa, de bobeira, aí, de repente, recebe uma mensagem do além. Ok, não do além, mas do desconhecido. Alguém que não é seu amigo está te enviando uma mensagem via Facebook. Clico para conferir e dou de cara com Marrisson, que, recomendado pelo amigo, poeta e colaborador Márcio Fabiano, veio perscrutar as águas da Kuruma’tá e fazer essa oferta dos seus versos e desenhos, pra gente publicar.
Marrison é de Irecê, na Bahia, mora em Juazeiro e resolveu, na cara-de-pau, misturar palavras e desenhos… não que estes sejam ilustrações das primeiras. São entidades independentes, de vida própria, que convivem com os versos de Marrisson, nem complementando, nem contradizendo.
Esse trabalho é muito bem-vindo na Revista Kuruma’tá e é com ele que eu deixo vocês.
há vontade de tocar há vontade de compor acobertando os olhos desvendando a língua perdido na linguagem produzindo ele mesmo ele fica em cada página perdido em partes.
variação de um
na possibilidade de ser vários pra quê ser um só? demorei sentar e escrever era Deus foi eu lírico será… o que? na possibilidade de ser vários me escondo ou me exponho tortuoso ou centrado romântico ou pé no chão complexo ou simples na verdade… nessas possibilidades sou simplicidade o complexo me cansa de tudo, sou eu dentro ou fora influência e influenciado na possibilidade sou todos.
me apago
escrevo mais pra mim mais apago que escrevo o desenho é mais fluido sou extintor de mim mesmo.
fingidor
eu me perco, Pessoa quem sou eu? ou qual sou eu? produção ou pessoa? talvez eu seja tinta.
Marrisson lançou recentemente o livro Vixe, que pode ser adquirido clicando aqui! Ou na imagem!
Deixa o sal limpar | As estranhas melodias de Livia Nery
O Festival Levada trouxe uma brisa fresca e poderosa para o Rio de Janeiro nos últimos meses de agosto e setembro. Vento bom, de gente nova e cheia de energia e talento. Frequentar os shows do Levada foi uma renovação de fé, que pega aquela velha conversa de que a música brasileira está acabada e joga no lixo. O Levada mostra que a música brasileira está viva, inventiva e vibrante. Dentre as surpresas que me reservou o festival encontrei a Livia Nery. [Texto de Toinho Castro]
Capa de Estranha Melodia – Foto e direção de arte de Caroline Bittencourt | Projeto gráfico de Olápis | Estilo de Isadora Gallas | Make de kaká Ribeiro | Assistência de produção de Bruna Palma
O Festival Levada trouxe uma brisa fresca e poderosa para o Rio de Janeiro nos últimos meses de agosto e setembro. Vento bom, de gente nova e cheia de energia e talento. Frequentar os shows do Levada foi uma renovação de fé, que pega aquela velha conversa de que a música brasileira está acabada e joga no lixo. O Levada mostra que a música brasileira está viva, inventiva e vibrante. Dentre as surpresas que me reservou o festival encontrei a Livia Nery, artista baiana que lançou há pouco o disco Estranha melodia (Máquina de Louco, 2019). Adentramos então o espaço Labsonica, no Lab Oi Futuro, sem saber o que nos esperava, ou mais precisamente sem nada esperar. Fiz uma estranha questão de não escutar o disco da Livia antes do show, coisa que poderia ter feito via plataformas de streaming. Queria chegar ali para o que desse e viesse. E veio!
Livia Nery e sua banda não cabiam no estúdio do Labsonica. Diga-se que os shows do Levada no Labsonica foram uma peculiaridade. Um grande espaço com um estúdio de gravação no meio, onde os músicos tocavam, como num aquário. A gente ficava de fora, assistindo, ouvindo, curtindo separados por pelas camadas de vidro que isolavam o estúdio. Parecia que não ia funcionar. Mas funcionou lindamente. E de dentro desse aquário de som e luz, Livia Nery e mandou muito, mas muito bem. Deixou-nos a todos impressionados com o alcance de sua voz, a riqueza deus seus arranjos e repertório. respirei aliviado e feliz com cada música que dali saía.
Para mim, nordestino errante no Rio de Janeiro, que carrega raízes de sertões e de mangues, a música de Livia foi um feliz reencontro. A música de Livia carrega também raízes e memória. Por outro lado tem esse namoro com o contemporâneo, os beats e bits das maquininhas eletrônicas que fornecem pulsação a esse coração que viaja pela roça, pela praia, pela cidade.
Estranhas melodias tem dez anos de gestação antes de ser vir à tona longe da Bahia, em São Paulo, produzido pela própria Livia e pelo músico e produtor Curumin. E o que eu li sobre o processo de produção desse disco envolve muita generosidade, muita troca e sutilizes para imprimir no mundo um trabalho de tamanha sutiliza. Medida certa entre acústico e eletrônico, conversa afiada de instrumentos e voz como se um precisasse do outro, como se estivessem continuamente a se complementar. A gente não vê excessos, sobras, penduricalhos… a gente escuta um disco preciso, milimétrico em sua desenvoltura, sem deixar de ser espontâneo, livre, quente. Gente, tá tudo o lugar. Incrível. Livia, sua banda e participantes ( Edgard Scandurra, Lucas Martins, Edy Trombone, Maurício Badé, Tatiana Lirio, Johanna Gaschler, Marcelo Galter, Israel Lima e Jorge Solovera) formam um sistema muito harmônico, que faz de Estranhas melodias, ao contrário do que propõe o título, algo tão familiar, tão perto da gente… que é difícil largar a audição. No dia seguinte ao show o disco não saiu do looping aqui na Kuruma’tá!
Uma coisa que mexe no disco é a questão da memória. Quando escuto Ave sal, impossível não mergulhar nas minhas próprias lembranças do banho de mar, da água morna do Nordeste te acolhendo e os ruídos do mundo submergindo.
Noite quente do sol do dia todo que esquentou água do porto só pra gente mergulhar
bem fundo na Pedra do Ouriço depois encostar o umbigo devagar no chão do mar
E no instante da maré vazante o corpo flutuando deixa o sal entrar
Em Cantoria, um contraponto de lirismo em relação ao groove que permeia o disco, a memória está ali, quase como um filme sobre essa vida do campo, em que a dureza dialoga com a delicadeza, da madeira queimando, da lua e da viola esquentando a noite. Tudo é um registro sensorial…. a mão na enxada, a mesma mão que carrega o milho, a lenha, que produz o afago e arpeja a melodia.
A poeta Livia Nery emerge da noite na roça com toda força, para traçar/escrever uma cena brasileira inesquecível: o terreiro, a noite, as gentes. O amor, enfim.
Depois de um dia cheio na cabeça da enxada subo aqui nesse lajedo hora de voltar pra casa
Da vereda pego atalho pra chegar bem mais ligeiro que o perfume que me espera eu chega até sentir o cheiro
Levo paca e milho verde que catei na velha estrada que de noite tem banquete para toda filharada
Menino, dê cá a lenha é noite de lua cheia a coruja sai da toca e o fogo queima a madeira
Viola encostou no peito esquentando a noite fria as crianças no folguedo nossa reza é cantoria
Na esteira em que eu me deito guardo um credo pra meu deus agradeço a minha sorte por tudo que ele me deu
No lajedo, um casebre na ribeira, um roçado e no peito acesa a chama de amar e ser amado
O que nos aproxima de um trabalho de arte, muitas vezes, é o quanto ele conversa conosco sobre quem somos. Sobre o que trazemos na bagagem da memória, no tecido do corpo. Trabalhamos cotidianamente com a ideia de que a memória está na cabeça, na mente… mas a memória habita todo o corpo. Livia parece que sabe disso e a memória está impregnada em seu trabalho por gestos, toques, movimentos.
Sacudindo nos caminhos de Vinte léguas, música da cantora Evinha, do trio Esperança, do seu álbum solo de 1974… única canção dos disco que não é de autoria de Livia, mas que se encaixa no todo com elegância, peça de Tetris que ocupou seu preciso, e necessário, espaço. Música que se espalha por um Brasil estradeiro, de tantas distâncias, mas também um caminhar pra dentro, balançando o coração. Uma canção que faz uma ponte coerente que sai da musicalidade contemporânea e chega a esse território da música brasileira que transitou com o soul, o jazz, numa modernidade impressionante, que soa atualíssima.
Irresistível falar de cada canção do disco, mandar um faixa por faixa integral, mas quero mesmo é te deixar com essa curiosidade que arrepia e que te faz correr pra ouvir um disco… essa coisa mágica que é um disco. Essa coisa mágica, cheia de entalhes e filigranas, apoiada em raízes, histórias e corações que é estranha melodia. Essas pérolas estão brotando no terreno fértil do nosso cancioneiro. seja curioso, não espere pela TV ou pela rádio para te dizer o que escutar. Busque caminhos alternativos, festivais como o Levada, procure saber o que seus amigos estão ouvindo. Música é troca e aprendizado.
Confira o bate-papo de Toinho Castro com Livia Nery na ÁudioKuruma’tá!
Livia Nery e banda no Festival Levada, 19 de setembro de 2019 (Fotos de Toinho Castro)
Não se esqueça de fazer um pedido quando atravessar a ponte
A vontade é a construção de uma ponte, lenta e custosamente, para ligar uma margem a outra. Uma ponte de estrutura sólida, mas que também precisa ser maleável para suportar a ventania. A passagem deve ser livre, sem pedágios, sem cancelas e com portões sempre abertos em ambos os lados. [Texto de Eduardo Frota]
Há um rio corrente entre as duas margens e não se sabe como chamá-lo, nem ao menos se deve ser chamado. Como disse Mário Quintana: nunca dê um nome a um rio, pois sempre é outro o rio a passar. Caminho, um caminho para passos que levam invariavelmente a querer fazer a travessia, a querer que o outro também experimente o que é a travessia.
— Atravessar é fugir com vontade de voltar atravessado.
A vontade é a construção de uma ponte, lenta e custosamente, para ligar uma margem a outra. Uma ponte de estrutura sólida, mas que também precisa ser maleável para suportar a ventania. A passagem deve ser livre, sem pedágios, sem cancelas e com portões sempre abertos em ambos os lados. Para que, em festa, um receba o outro de braços também abertos.
— A ponte é um caminho cujo retorno só é possível quando já se chegou a outro lugar.
Barcos, remos, rumos. Durante a construção, pode-se atravessar esse rio inominável que flui entre as margens a nado também. Demora um pouco mais, é um mergulho solitário, mas é uma ótima atividade para o corpo e para a mente.
Até o dia em que não precisemos mais procurar em vão uma terceira margem, aquela ininteligível de Guimarães Rosa. A ponte, a esta altura, estará adornada feito aquela do quadro de Monet, em Giverny, com o espelho d’água pontilhado de lindos lírios.
Enquanto o rio inominável da vida flui, olhe para a outra margem. Vê o sinal?
— Vem, atravessa.
Maracatron | Parte 3
Todos nós corríamos exultantes pelos corredores circulares, e até ameaçávamos subir para o gramado do estádio, enquanto ele, calmamente, bebia café e organizava sua coleção de revistas em quadrinhos. Quando encontramos com ele deu de ombros balbuciou com tédio e ironia indisfarçáveis algo como: Ah, claro.. as partículas inexistentes devem estar bem felizes que vocês finalmente as descobriram… [Texto de Toinho Castro]
Aqui, embaixo do Maracanã, a tabela periódica é um papel sem valor, sendo utilizada basicamente como alvo para jogar dardos. Os elementos com os quais lidamos no nosso cotidiano são outros, de outra ordem. Falo, naturalmente, das instáveis partículas inexistentes, cuja inexistência foi verificada aqui mesmo no Maracatron. Jadeir, como sempre, agiu como se soubesse da existência das partículas inexistentes desde o ano anterior. Ele sempre age como se tivesse tido conhecimento do que quer que seja um ano antes de qualquer um da equipe. Todos nós corríamos exultantes pelos corredores circulares, e até ameaçávamos subir para o gramado do estádio, enquanto ele, calmamente, bebia café e organizava sua coleção de revistas em quadrinhos. Quando encontramos com ele deu de ombros balbuciou com tédio e ironia indisfarçáveis algo como: Ah, claro.. as partículas inexistentes devem estar bem felizes que vocês finalmente as descobriram…
As partículas inexistentes merecem esse nome porque elas simplesmente não existem. Mas assim como as coisas que existem, as que não existem também cumprem determinadas funções na ordem do cosmos. A descoberta dessas partículas nos permitiu entender a mecânica da inexistência e a sua influência sobre os acontecimentos que envolvem as coisas que existem. Sei que o que existe já dá muito trabalho, e agora ter que lidar com o que não existe parece uma tarefa idiota. Talvez, realmente, o seja… mas não há como voltar atrás nesse passo da ciência, ou o que quer que se faça aqui no Maracatron. As partículas inexistentes, definitivamente, está provado, existem. Ou não existem?
Jadeir acha que esse assunto deve ser, como sempre, levado às últimas conseqüências. Ele gosta de dizer, com os olhos brilhando, que a infância acabou. “Quando essas partículas se põem em movimento no centro vertiginoso do Maracatron, nada garante que seu time vai ganhar”.
Bombardear núcleos de partículas inexistentes virou um esporte de sucesso por aqui, só comparável ao arremesso de dardos na tabela periódica. Quando estamos de bobeira, sem tarefas a cumprir, vamos até o centro de controle do acelerador e ficamos a disparar rajadas de energia a esmo, tentando acertar os núcleos. É um esporte que consome muita energia, do país, diga-se, e com resultados inesperados. Podemos bombardeá-los indefinidamente, por dias, sem que nada se altere em sua natureza. Inútil a tarefa de tentar transformá-las em partículas tradicionais, dessas que se encontram em cada esquina. Uma partícula inexistente é uma espécie de Clint Eastwood na física. Elas percorrem a circunferência do acelerador impávidas, nada pode detê-las…
E esporte ainda mais radical é discutir sobre elas com o Jadeir, sobretudo se você as compara à antimatéria. Ele interrompe a discussão e diz: sinto muito, mas tenho que voltar. E volta, sabe-se lá para onde! E realmente, isso fica no ar. De onde vem o Jadeir quando o encontramos por aí, no refeitório, na sala de reuniões… ele sempre parece que está vindo de algum lugar, se é que você me entende. Sei que sempre estamos em algum lugar antes de chegar a outro, mas em Jadeir isso é uma coisa muito clara, aguda. Chega a incomodar. De onde será que vem o Jadeir? Pra onde será que ele volta?
Hoje o Jadeir me convidou para bombardear núcleos. Ele tem uma teoria, sabe-se lá qual, e quer demonstrá-la. Já sei que quatro bairros vão ficar sem luz com essa brincadeira de desocupados gastando dinheiro público (se bem que a origem do dinheiro que sustenta o Maracatron é tão misteriosa quando o Jadeir). Provavelmente ele está sem ter o que fazer e quer se divertir e conversar um pouco. Se de repente um núcleo se parte ou se funde ao ser bombardeado, e uma anomalia qualquer é causada, atrapalhando o trânsito ou o telejornal… vai ser uma farra daquelas, com direito a cerveja secreta e gelada que a gente sempre arruma por aqui.
Mas talvez a gente fique apenas vendo uma partícula que não existe passeando pelo vazio total do acelerador, circulando no infinito que é a vida das coisas que não existem, enchendo a cabeça da gente de dúvidas à respeito da estrutura do mundo. Quer dizer, a minha cabeça oca, porque a do Jadeir, certamente está cheia de certezas. E, certamente, todas assustadoras.
Na primeira publicação dessa semana, uma terça-feira em que a primavera ainda cheira a inverno, no levemente frio do Rio de Janeiro, a poesia de Jaciara Rosa, poeta e jornalista que já nos presenteou com seu texto Sobre pedras e rosas, e que muito ainda iluminará as páginas da Revista Kuruma’tá. [Poemas de Jaciara Rosa]
Na primeira publicação dessa semana, uma terça-feira em que a primavera ainda cheira a inverno, no levemente frio do Rio de Janeiro, a poesia de Jaciara Rosa, poeta e jornalista que já nos presenteou com seu texto Sobre pedras e rosas, e que muito ainda iluminará as páginas da Revista Kuruma’tá.
Sejamos únicos, simplesmente nós Pra fazer jus ao arranjo misterioso dos deuses que provocaram esse encontro.
Agradeçamos com nossas delicadezas e corpos, e velas, incensos, frutas, folhas e flores, oferendas de amores…
A viagem, palavra sua de encaixe perfeito, que seja fora do tempo conhecido, das conveniências e padrões
Utopia? Que seja. Ganhamos o presente da reinvenção, isso deve querer dizer algo…
E a mensagem mais preciosa, creio, está muito além de um gozo breve.
universo em desencanto
desapaixonei perdidamente estou em estado de graça com esse feito mão na luva dentro do meu peito
intensa, sorrio rendo obrigados ando flutuando vi passarinho verde
desapaixonei perdidamente
pausa pro diário
Um dia de ansiedade máxima me renderam até agora:
cinco calcinhas e um biquini lavados um cachorro imundo de chuva, limpo da lama dois quadros de fotos pregados na parede, um deles já cheio delas muitas lembranças, um chorinho de autopiedade
muita palpitação e, a ponto de infartar, duas releituras do livro de frases do Quintana uma ligação pro homem que quero, risos nervosos e insegurança e medo um poema enviado pra ele reconhecendo meu diletantismo nessa conquista
cinco ou mais audições do disco do boca livre de 1980 muitas mensagens escritas e áudios para o melhor amigo conversas boas com a faxineira uma coletânea da rita ribeiro enquanto escrevo mais esse texto um nhoque sem graça uma laranja cortada em quatro e, até o meio da tarde, foi assim…
conclusão parcial dos fatos: nos feriados e apaixonada sou muito produtiva.
fidalgo
A ele meu agradecimento para o todo desse homem saboroso e sutil fidalgo, alto, do alto dos seus novos pelos na cara solto debaixo da sua nova roupa de linho alva
A ele obrigada pela noite, pelo dia pelas noites e dias e manhãs, tardes e madrugadas de toda palavra confessada, ouvida e falada cantada, assobiada pelo silêncio que já conseguimos ter pelas notas de sândalo na nuca dele, agradeço
pelas notas que ele toca pelas notas que ele me toca ajoelhada, obedeço
Desmedida-mente
o desejo não tinha dúvida era só uma questão de decidir qual santa clara? teresa?
tenho nas coxas marcas leves de dedos que passaram por aqui com vontade no lençol, o líquido das uvas negro amor tocando sem parar dentro de mim a vibração do tesão, da criação, do contato amoroso, da fome, os toques, texturas, falas, gemidos, a memória contamina os batimentos.
ficou a partitura e o pedido preu tocar pra você pra cantar pra você achei lindo isso você divide o palco e isso é raro
ficou o pedido pra te levar no casarão da meditação ficou muita vontade de estar com você de novo, de ter mais cuidado, mais silêncio, menos álcool talvez, rs… me atrapalhei? será o que ele está pensando? será que tem vontade de me chamar pra sair logo? será que vai fazer a sessão de análise primeiro e me convidar depois? será que vai pirar de medo e sumir? O que será que será?…
lembranças de muitas palavras, de sabedoria recém-adquirida, ainda tão novinha, frágil… histórias fortes compartilhadas em poucas horas, álbum de fámilia, que doido, não consegui controlar, fui falando, seu interesse, sua escuta, ele nunca diria que estava chato. agora sei, a medida é minha será que dá pra encontrar de novo pra fazer de novo, mas de outro jeito?
Quero você por ser você Nome com pedaço de instrumento no meio Suas cordas, minhas mãos, meus braços Seus abraços
Foto de Marcelo Nóbrega
Baú do Braulio: Os Livros Proibidos
Ninguém lembra Cassandra Rios, que nunca foi grande escritora, mas foi perseguida durante décadas por seus romances eróticos: Tessa, a Gata, A Paranóica, Eudemônia, O Bruxo Espanhol… Li na adolescência (na casa de meus primos) A Lua Escondida, uma história de paixão lésbica; e anos depois li As Mulheres dos Cabelos de Metal, uma ficção científica erótica que passou despercebida até da censura. Quando as pessoas fazem campanha pela liberação da literatura erótica, geralmente estão pensando em Joyce ou Miller. Minha dúvida é: na hora do naufrágio, esses intelectuais teriam coragem de colocar Cassandra Rios no bote salva-vidas? [Textos de Braulio Tavares]
Estamos começando hoje na Revista Kuruma’tá uma nova seção, Baú do Braulio, com uma seleção, ou como se diz hoje, uma curadoria de artigos que o poeta Braulio Tavares vem publicando ao longo dos anos no seu blog Mundo Fantasmo. Naturalmente teremos ainda textos inéditos do bardo de Campina Grande aparecendo por aqui, mas desse baú fantástico que é o Mundo Fantasmo, vai sair muita coisa boa pra gente ler na Kuruma’tá!
E começamos a empreitada com quatro textos que Braulio publicou em 2011, pela “Banned Books Week”, ou Semana do Livros Banidos, ou censurados, que nesse estranho ano de 2019 começa na semana que vem (22 a 28 de setembro) e que acontece nos Estados Unidos. Trata-se de uma semana dedicada luta contra a censura na literatura. Um tema muito apropriado aos dias de hoje no Brasil.
Está começando nos EUA a Semana dos Libros Proibidos (“Banned Books Week”), celebrada na última semana do mês de setembro. É uma iniciativa conjunta de associações representando editores, professores, livreiros, bibliotecas e entidades culturais que combatem a censura a obras literárias, desde a proibição pura e simples até a sua retirada de currículos e do acervo de bibliotecas. Eu nunca tive um livro proibido pela censura. Tive uma música (“Nordeste Independente”, composta com Ivanildo Vila Nova, gravada por Elba Ramalho) que teve sua execução pública proibida durante o último ano da ditadura militar. Mas é como leitor que durante os próximos dias comentarei algumas dessas obras que foram retiradas de circulação, e por que motivos isso aconteceu.
Os principais motivos para um livro ser proibido são: 1) conteúdo sexual; 2) cenas de violência ou sadismo; 3) linguagem chocante (não necessariamente palavrões de cunho sexual, mas linguagem considerada agressiva, vulgar, violenta, etc.); 4) cenas envolvendo drogas e parecendo endossar o seu uso; 5) conteúdo racista ou discriminatório contra maiorias; 6) idéias políticas contrárias ao regime vigente; 7) agressões, calúnias ou afirmações graves contra um indivíduo ou grupo. Há outros, com certeza; estou enumerando de memória. As razões mudam de lugar para lugar.
A liberdade de literatura é muito parecida com a liberdade de imprensa. Todo mundo é a favor até o instante em que se torna vítima dessa liberdade, até quando surge um livro dizendo algo que nos ofende, nos envergonha ou nos ameaça. Nesse instante, nosso discurso democrático vai dar uma volta no espaço sideral, e a vontade que a gente tem é mandar apreender aquele livro, queimá-lo em praça pública, e premiar o autor com uma surra de fio-desencapado e um banho de sal grosso.
Digo isto para lembrar que a luta pela liberdade de expressão não é uma luta do Bem contra o Mal, a luta dos Cem Por Cento Certos contra os Cem Por Cento Errados. É um dilema, uma encruzilhada entre duas opções, ambas envolvendo ganhos numa direção e perdas na outra. Somos contra a proibição de James Joyce ou de Rubem Fonseca, mas aposto que muitos de nós somos a favor da proibição dos livros de Hitler. Cada sociedade se define pelos seus critérios para proibir um livro e ameaçar seu autor, porque ao fazer isto ela atinge um limite de si própria, atinge aquela fronteira ética na qual em nome dos mais elevados valores se cometem os atos mais graves. Somos todos a favor da liberdade de expressão. Mas cada um de nós tem pelo menos um livro que proibiria com prazer e vingança. Bora, rapaz. Fala a verdade.
A Semana dos Livros Proibidos (última semana de setembro), chama a atenção para o que os organizadores, nos EUA, chamam de “Banned and Challenged Books”. “Banned” é o livro banido, proibido oficialmente por um governo, com todas as consequências (apreensão policial dos exemplares à venda, com prejuízo para o livreiro, etc.). Muitas vezes isto envolve a ameaça à liberdade ou à integridade física do autor ou do editor. “Challenged” significa que o livro é impugnado, questionado, denunciado por grupos ou entidades, sob a alegação de que infringe algum princípio. O número de livros denunciados, claro, é muito maior do que o de livros de fato proibidos, já que nem toda denúncia é aceita. Ainda assim, o estrago é grande, porque a denúncia produz efeitos locais, principalmente no que diz respeito à eliminação de livros das bibliotecas e do currículo escolar de colégios e universidades.
Todo mundo entende que o Minha Luta (“Mein Kampf”) de Hitler seja proibido. O furibundo alemão é o saco-de-pancadas preferencial do Ocidente. A tal ponto, aliás, que por todo lado brotam jovens carrancudos, insatisfeitos, irritados com a hipocrisia da época, e começando a murmurar uns com os outros: “Por que será que proibiram o livro do cara? Vai ver que ele denunciava isso-tudo-que-está-aí… Era um idealista…”. E pronto, a proibição tem um resultado inverso: projeta uma aura de contestação e de martírio sobre a obra de um desorientado.
Já os livros de Harry Potter têm sido largamente denunciados nos EUA porque grupos evangélicos de variadas colorações os consideram uma apologia ao satanismo, à magia negra, etc. Se você acha isso absurdo, e que Harry Potter é inofensivo, o que dizer então da denúncia contra a série Capitão Cueca de Dav Pilkey? Sucesso aqui no Brasil, os livrinhos ficaram em sexto lugar na lista de obras mais denunciadas nos EUA em 2002, por “falta de sensibilidade”, por serem “inadequados à faixa etária” e por “encorajarem as crianças a desobedecer as autoridades”. Pois é. Começa com Capitão Cueca, daqui a pouco os meninos vão estar lendo Che Guevara.
A denúncia contra Harry Potter, é claro, é proporcional ao seu sucesso. Há incontáveis livros sobre meninos bruxos que entram e saem dos lares e das escolas sem que ninguém lhes dê importância ou os considere Os Evangelhos de Belfegor. Mas os professores não são bobos. Harry Potter foi um movimento social em torno de um livro, um movimento que arrebatou dezenas de milhões de garotos. Ninguém faz sucesso impunemente. Ninguém atinge milhões de pessoas sem que alguma autoridade se debruce sobre o caso, luneta em punho, para saber por quê.
A Semana dos Livros Proibidos (24-set a 1-out) pretende, entre outras coisas, defender a liberdade de expressão e de publicação de livros. Uma estatística curiosa no saite da American Library Association mostra que da lista dos “100 Romances mais Importantes do Século 20” escolhidos pelo Radcliffe Publishing Course, 46 foram em algum momento proibidos ou denunciados para proibição em algum país. Geralmente por questões morais, porque o livro contém cenas de sexo explícito; ou defende atos sexuais considerados ofensivos (homossexualismo, adultério, promiscuidade, prostituição, masturbação, etc); ou usa linguagem ofensiva, imoral (palavrões, etc.). Esses valores mudam de país para país. O que é pornográfico aqui não o é acolá, então não é de admirar que o Ulisses de Joyce, o Lolita de Nabokov, os Trópicos de Henry Miller e O Amante de Lady Chatterley de D. H. Lawrence tenham sido proibidos mundo afora, inclusive em seus países de origem.
Nenhum desses livros, que eu me lembre foi proibido no Brasil. Eram cercados de tabus e de críticas, mas eram publicados, sim, e ninguém foi preso por vendê-los “por baixo do pano”. Paulo Francis se referia a Lady Chatterley como “o livro que todo mundo leu segurando com uma mão só”. Talvez tenha sido assim para a geração dele; eu me lembro em 1967, no Estadual da Prata, o pessoal com ar conspiratório emprestando uns aos outros o Sexus de Henry Miller e indicando: “Capítulo 16…”. Era em plena ditadura, mas esses livros passavam. A Revolução Sexual estava embranquecendo os cabelos dos nossos pais, mas os pilares da Pátria permaneciam incólumes. A ditadura estava mais preocupada em proibir coisas mais específicas; talvez o Que Fazer? de Lênin ou o Torturas e Torturados de Márcio Moreira Alves.
Ninguém lembra Cassandra Rios, que nunca foi grande escritora, mas foi perseguida durante décadas por seus romances eróticos: Tessa, a Gata, A Paranóica, Eudemônia, O Bruxo Espanhol… Li na adolescência (na casa de meus primos) A Lua Escondida, uma história de paixão lésbica; e anos depois li As Mulheres dos Cabelos de Metal, uma ficção científica erótica que passou despercebida até da censura. Quando as pessoas fazem campanha pela liberação da literatura erótica, geralmente estão pensando em Joyce ou Miller. Minha dúvida é: na hora do naufrágio, esses intelectuais teriam coragem de colocar Cassandra Rios no bote salva-vidas? Ou a salvação é apenas para os que são também intelectuais? A arte “redime” o erotismo? É preciso ser uma grande obra literária para que os intelectuais se mobilizem contra sua proibição?
Checando as estatísticas de livros denunciados ou proibidos no período 1990-2010 nos Estados Unidos, temos números interessantes. Razão das denúncias: sexo explícito, 3.169; linguagem ofensiva, 2.658; violência, 2.289; livros inadequados para a faixa etária do grupo-alvo, 2.232. Drogas? Lá embaixo na lista, com 382. Política? Idem, com 319. Esses números claramente se referem ao universo escolar, infanto-juvenil, que é onde se exerce o peso da censura e do puritanismo nos EUA. Nesse mesmo período, os números dizem (por ordem decrescente) que a origem das denúncias veio das seguintes instituições: escola, 4.048; biblioteca escolar, 3.659; biblioteca pública, 2.679. Universidades aparecem com apenas 141 denúncias.
Nos EUA, existe liberdade para discutir idéias políticas, mas por outro lado o país é vítima de um puritanismo alucinado que cria as situações mais estapafúrdias. Tipo aquelas notícias em que um garoto de seis anos é acusado de assédio sexual porque beijou na escola uma coleguinha de cinco. Os EUA sempre me deram a impressão de um país onde é mais fácil publicar um livro propondo a derrubada do capitalismo do que um livro em que os personagens façam sexo oral.
No Brasil, já foram proibidos mais livros pelo seu conteúdo político do que por conteúdo sexual. Dizem que Feliz Ano Novo de Rubem Fonseca só foi proibido porque um figurão do governo militar se escandalizou com a linguagem e o tema do conto-título (marginais invadem uma festa de reveillon de ricaços, estupram e matam quem bem entendem) e não descansou enquanto o livro não foi proibido. Algo parecido ocorreu com Zero de Ignácio de Loyola Brandão. Não me lembro de livros infantis proibidos pela ditadura.
Aqui no Brasil está surgindo uma censura do politicamente correto em que indivíduos ou grupos se julgam insultados porque um personagem de um livro diz alguma ofensa contra eles, e pedem a proibição do livro. É a democratização da censura. Em breve chegaremos ao aperfeiçoamento final desse método, quando qualquer pessoa pode denunciar um livro e solicitar oficialmente sua proibição, alegando que foi prejudicado.
As filhas de Garrincha conseguiram proibir a biografia do jogador, escrita por Ruy Castro; Roberto Carlos conseguiu tirar das livrarias sua biografia escrita por Paulo César de Araújo. Ora, há uma porção de livros-de-fofocas e livros maledicentes por aí, sobre gente famosa. Como digo sempre, a liberdade de expressão significa, também, a liberdade de expressão para ao maledicentes – os quais, se for o caso, terão que pagar por isso de alguma forma. Nem toda censura é política, mas toda censura é censura.
Na casa do meu irmão, improvisamos um cômodo perto da cozinha e lá ela sentou-se na cama e pediu para que matássemos um capão (um galo novo) e preparássemos um pirão com as vísceras, uma receita de família que ela guardava com muito carinho. Assim foi feito. Ela comeu com tanto prazer que fiquei comovido. Lambia os dedos numa atitude que me deixava sempre irritado, mas nesse dia eu sorria com aquela cena maravilhosa de minha mãe comendo e saboreando com todas as papilas e olhares o mesmo prato amigo de minha infância. [Texto de Aderaldo Luciano]
É preciso morrer para viver. Na manhã do dia 5 de setembro de 1989, há 30 anos, minha sobrinha Netinha bateu em minha porta para me dizer que minha mãe acordara de um sono que durava já três dias. Era uma terça-feira e aquilo me soava como uma ressurreição. Ela havia voltado de um coma anterior de 20 dias para me dizer que estivera com seus pais em um plano paralelo ao nosso. E naquele dia mesmo me dissera a quantidade de pessoas que estava presente na enfermaria onde só estávamos eu e ela. O médico chamou-me e foi sucinto: “Pode levar sua mãe para casa e fazer-lhe todas as vontades. Nossos recursos acabaram.” Foi o que fiz.
Na casa do meu irmão, improvisamos um cômodo perto da cozinha e lá ela sentou-se na cama e pediu para que matássemos um capão (um galo novo) e preparássemos um pirão com as vísceras, uma receita de família que ela guardava com muito carinho. Assim foi feito. Ela comeu com tanto prazer que fiquei comovido. Lambia os dedos numa atitude que me deixava sempre irritado, mas nesse dia eu sorria com aquela cena maravilhosa de minha mãe comendo e saboreando com todas as papilas e olhares o mesmo prato amigo de minha infância. Depois lavamos suas mãos e sua boca, ela deitou-se, puxou o cobertor e dormiu por três dias.
Acordou para dizer que havia caminhado pelos velhos caminhos de criança. Tomara banho no Rio do Brás, atravessara o riacho de Pinturas, subira à chã de Independência, passara pelo engenho São Francisco, percorrera as veredas de Cantinhos e conversara animadamente com Tio Bastião. E, pela primeira vez em 25 anos, falara o nome de meu pai, que eu não conhecia nem nunca suspeitara que fosse o mesmo homem de quem todos tinham medo naquelas terras de meu Deus. Minha mãe morreu com muita doçura e fantasia aos 58 anos de idade, de acordo com o registro civil, mas eram 60, pelo batistério. No dia 17 de setembro, doze dias depois de seu sepultamento, sonhei com ela me balançando na rede. Acordei com a certeza de que a única pessoa que realmente me amou, acima de tudo e contra tudo, desaparecera para sempre. Desde então me sinto só e choro desgraçadamente
Foto de Rosa Luiza Barbosa Luciano
Sonete-se com Eduardo Maciel
Cada livro tem 50 sonetos, sendo que no novíssimo SonetIMAGEM cada soneto é acompanhado de uma imagem, trabalhando o potencial imagético da poesia, a força visual dos versos. É um dança de significados, em que os pares, poesia e imagem, estão de mãos dadas, entrelaçando seus passos. Coisa linda, além de poeta ser fotógrafo e saber juntar as duas coisas assim, com essa consistência. [Texto de Toinho Castro]
A melhor coisa é quando os livros caem nas nossas mãos, vindos do inesperado. Livros de poesia então, nem se fala. Aí me chega, via um papo no Messenger, do Facebook a dica de dois livros de poesia, assim, do nada, numa certa manhã… dois livros de poesia. Ou melhor, dois livros de sonetos.
Sonetos, vocês deveriam saber, é aquela forma clássica de poesia, de quatro estrofes, que surgiu na Itália mas que muita gente boa mundo afora fez uso brilhante. Leia-se, Shakespeare, Vinícius, Neruda, Florbela… Mas me veio o soneto mesmo por outra via, menos conhecida, por conta dos laços e histórias da minha família do Rio Grande do Norte. Auta de Souza foi uma poeta potiguar, nascida na cidade de Macaíba, em 12 de setembro de 1876. Publicou um único livro, Horto, que foi onde encontrei os primeiros sonetos que li, que amei. Fascinava-me a forma, a cadência e a previsibilidade das rimas. Meu coração meio que ansiava aquele jogo de encontros fonéticos e ritmos a cada verso.
Hoje, tantos anos depois, encontro-me lendo os livros SonetATO e SonetIMAGEM (Ambos pela Editora Autografia), de Eduardo Maciel, poeta que resolveu colocar, numa série de 7 livros, o soneto no microscópio, bailar com ele, invocar suas mais diversas encarnações, suas metamorfoses.
Cada livro tem 50 sonetos, sendo que no novíssimo SonetIMAGEM cada soneto é acompanhado de uma imagem, trabalhando o potencial imagético da poesia, a força visual dos versos. É um dança de significados, em que os pares, poesia e imagem, estão de mãos dadas, entrelaçando seus passos. Coisa linda, além de poeta ser fotógrafo e saber juntar as duas coisas assim, com essa consistência. A cada poema, a cada imagem, o autor vai nos dando uma aula sobre essa coisa linda, que por vezes parece esquecida, que é o soneto. Aprendemos suas formas múltiplas que surgiram com o tempo, as variações de sua estrutura e de como essas possibilidades são ricas e cativantes. Aprendemos que, para além do soneto clássico italiano (Com as rimas organizadas assim: ABAB / ABAB / CDC / DCD), existem o soneto mononostrófico, o sonetilho em redondilha maior, o soneto polar…. e assim por diante. Cada um com a descrição de sua estrutura e jogo de rimas. Assim enveredamos por esse universo riquíssimo que o poeta quer resgatar, trazer à tona. É uma abertura de portas.
A poesia de verso livre, moderna, contemporânea, muito nos ensinou, mas Eduardo Maciel, com talento de poeta, mostra que o rigor de uma forma como o soneto, ainda tem muito a nos entregar e, sobretudo, ainda tem muita surpresa e jogo de cintura.
Eduardo é um poeta de mão cheia, que não se contenta em ser didático. Ele quer que a gente conheça o soneto mas quer também que a gente sonhe, que a gente viaje e reflita. Sua poesia versátil é carregada de lirismo, humor, política e carinho, tudo rimado, metrificado. E o que te pode parecer um estrutura fechada acaba por mostrar-se uma liberdade.
Pensando nesses sonetos me ponho a pensar na arquitetura, esse misto de arte e técnica, em que sobre cálculos, precisões (métricas?!), engenharias, assenta-se a poesia. Uma dependendo da outra, uma sendo porque a outra é. Os livros de Eduardo Maciel, fotógrafo, poeta, definem-se nesse desafio, que ele lança a si mesmo e a nós, seus leitores. O desafio de alinhar forma e conteúdo como irmãs, companheiras de longa jornada. Desafio aceito, no aguardo dos próximos livros da série. Deu vontade de reler muitos sonetos que já li, a começar por Auta de Souza, os 20 sonetos de amor de Pablo Neruda, Flobela Espanca (O mundo, o que é o mundo, ó meu amor?!)… e deu mesmo vontade de escrever sonetos, encaixar sentimentos, visões e sonhos nessa forma tão antiga (Século XIII!!), precisa e bela.
Parabéns, Eduardo. Cativaste!
E a você, leitor do Rio de Janeiro que também foi cativado pelo projeto do poeta, fica o convite! Amanhã, 14 de setembro, tem Vernissage do poeta, apresentando SonetIMAGE, na Avenida Treze de maio, 47 – sala 2103 (Edifício Itú), centro, do Rio de Janeiro, das 14h às 17h!
Os seus sonhos ainda vão despertar contigo
Inês sonhou que vivia numa antiga cidadela do império chinês. Vestia um roupão pesado e fazia chá a homens de negócio inescrupulosos e amargos. Doíam-lhe os ombros, a coluna, os joelhos – todos os ossos. Deixou cair a xícara no tatame, olhou para o inverno que se desenhava lá fora e pensou por um instante. O que era intenção, virou ação. Saiu apenas de roupa de baixo para nunca mais preparar nenhuma infusão. [Texto de Eduardo Frota]
Dia de sol no Rio de Janeiro, andando por aí acabei encontrando com o amigo e colaborador fiel da Kuruma’tá, Eduardo Frota. Sentamos num bar para papear rapidamente e ele me deu aquela boa notícia que eu amo escutar: Tem texto novo lá no Drive. Outra coisa boa que ele me falou é que andava sonhando muito. E os sonhos, como todo mundo sabe, tendem a se misturar com a realidade. Encontrei mesmo com ele ou terei sonhado? Não sei, mas o texto estava no Drive. E agora está aqui para você, na Revista Kuruma’tá.
Olavo sonhou que era um escravo. Trabalhava em uma plantação de milho no sul dos Estados Unidos. Observou um trem distante apitar e começou a correr, aos gritos. Convocou os colegas. A liberdade se abria a léguas daquele lugar. Ainda munido de um punhado de espigas, conseguiu alcançar a última composição. Para trás ficava o senhorio e o chão.
(acordou e foi fazer pipoca)
II
Inês sonhou que vivia numa antiga cidadela do império chinês. Vestia um roupão pesado e fazia chá a homens de negócio inescrupulosos e amargos. Doíam-lhe os ombros, a coluna, os joelhos – todos os ossos. Deixou cair a xícara no tatame, olhou para o inverno que se desenhava lá fora e pensou por um instante. O que era intenção, virou ação. Saiu apenas de roupa de baixo para nunca mais preparar nenhuma infusão.
(acordou e foi preparar café)
III
Janaina sonhou que era uma bailarina. Dançava uma música da qual não gostava, mas assim fazia porque era obrigada. Bailava com um par que não era do seu gosto. Foi então que pisou no pé do moço. Espantado, ele pediu para parar a dança. Ela, feito criança, deixou com que os pés lhe guiassem por outro ritmo. Agora, expressava-se de acordo com o que lhe era mais íntimo. Com o tempo, acabou achando um par ideal, com quem dançou uma salsa. Pois bem: valsa, nunca mais.
(acordou ao som de um rock)
IV
Jorge sonhou que era um lorde. Desses, ingleses. Compromissos, reuniões. Sentia que tudo isso não passava de jogo de interesse. Estava cansado, aflito, farto. Resolveu, então, sair do castelo e andar feito indigente. Conheceu, nos braços de uma plebeia, o amor de verdade, diligente. Se desfez do fraque, da gravata e do capote. Descobriu que era isso o que sempre quis. Era agora um homem de sorte.
(acordou e foi jogar na loteria)
Cinco poemas das ‘Liras Perdidas’ de Sousândrade
Fui apresentado à poesia de Sousândrade foram os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, no livro Re visão de Sousândrade, há muitos anos. Recentemente, passeando pelo centro do Rio, encontrei na Banca do Olivar, ali na Carioca, um livro que estampava na capa: Sousândrade – Inéditos. Dada a raridade da ocorrência do poeta, saquei os dois reais que Francisco Olivar cobra por qualquer livro exposto na sua banca e sentei numa mesa do galeto ali do lado para apreciá-lo. E que beleza! [Texto e seleção de Toinho Castro]
Fui apresentado à poesia de Sousândrade pelos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, no livro Re visão de Sousândrade, há muitos anos. Recentemente, passeando pelo centro do Rio, encontrei na Banca do Olivar, ali na Carioca, um livro que estampava na capa: Sousândrade – Inéditos. Dada a raridade da ocorrência do poeta, saquei os dois reais que Francisco Olivar cobra por qualquer livro exposto na sua banca e sentei numa mesa do galeto ali do lado para apreciá-lo. E que beleza!
Trata-se de uma edição crítica, com introdução e notas de Frederick G. Williams e Jomar Moraes, publicada em São Luiz do Maranhão em 1970, trazendo à luz os poemas de Harpa de Ouro e Liras Perdidas, manuscritos que se julgavam perdidos para sempre e que acabaram descobertos por Frederick, na Biblioteca Pública do Maranhão. O pesquisador norte-americano estava no Brasil para elaboração de sua tese de doutorado em Literatura Brasileira, tendo a vida e obra de Sousândrade como tema.
Hoje, relendo o livro, resolvi selecionar e compartilhar alguns de seus poemas e dar visibilidade nesse mar de coisas da internet, aos versos do poeta maranhense que o Brasil insiste em esquecer.
No mais, recomendo buscar pelo poeta nos sebos do país e falar sobre isso no seu blog, no Facebook, Instagram, o que seja. Um poeta da importância de Sousândrade precisa ser lido e relido e discutido e trabalhado, nas conversas, nas salas de aula, nos grupos do zap.
Borboleta e Raio do Sol (Paris, 1855)
Da selva frondosa Na sombra acordou Gentil pousalousa Centelha, voou.
E as aves trinaram E a brisa correu E as ondas rolaram De azul como céu:
Que doce harmonia! Que amena soidão Raiando do dia A luz! E a visão
Do sol, que aparece Dentre oiro e rubi, Dos montes, e desce Dos vales. Eu vi
Gentil pousalousa Qual olhos de amor, Turbada – encantada No prado e na flor.
E os raios em molhos sol s’ergue aos céus, E a louca é qual olhos Aos vãos escarcéus:
Nos bosques, agora, Na várzea de luz, No lago de aurora Que a chama e seduz,
Dos bosques, perdida No aroma, no amor, Aos raios erguida Balança-se a flor…
O aéreo amaranto Quem viu? – Se perdeu. Dizei dela o encanto: Amou e… morreu.
Que sorte minguada! Que triste existir Da vida irradiada De glória e de rir!
Mas – que nos importa Ser onda ou ser Théos, Se o mar não aporta Pra fora dos céus?
Sopa, assado e sobremesa
Sopa, uma gota d’orvalho sobre uma folha de acácia; assado, uma asa de borboleta doirada pelo raio do sol; sobremesa, uma pétala de rosa meio-roída por uma abelha.
Catulle Mendès (Banquete das fadas)
Bebo, bebo a sopa-orvalhos Em prato de açucenal; Colheradas beijos-hinos! Hinos! hinos! – Comi mal-assada, em sal,
Asa bela ao sol doirada, – E o doce virgíneo mel Sobremesa-paraíso Riso! riso! No dedo lhe pondo o anel.
Ai o prado d’alva acácia! Brando – sonoro Bemol! – Ai grelha a chiar do assado Tão doirado! – Ai sobremesa do sol!
– Sala de jantar, natura, Roseirais; relvas, abril, Cantos, encantos, paraíso, Riso, riso, Onda pura e céus de anil.
– Que as fadas dançando adiantes Com vestes de oiro e de tul: Em punho as taças-diamantes Levantem, brindes, ovantes (Dou o champanha) a Catulle.
Green-Star (New York)
– Como os céus formosos brilham! venha ver a Ursa maior! a Ursa menor – “Vinte trilham Ursas nos céus! que terror! Sei de um urso”… – Que inimigo!… Mamã! mamã, quantas Ursas há nos céus? – Duas. “Vos digo, menina, três.” – Oh Senhor! “Tá! tá! tá!…” – Allright, e calo. mas, aquela estrela é verde – “Verde? girl?! eu, rose-opalo vejo-lhe o lume tremer.” – Já começa… é verde! é verde! – “É amarela, mulher! verde há uma…” – Há vinte! há trinta! toda a terra a enverdecer! – “Que a vencedora não minta! verde esp’rança! oh meu tesoiro destes amplos firmamentos Cheios qual dos pensamentos desta bela terra em flor! Quando frouxas meadas de oiro se desatam, luminosos teus cabelos gloriosos são qual do astro o resplendor! Na tua voz há luz, centelhas destas rosas do Sarão: verde estrela! verde estrela tu, que me roubas a calma, que nos olhos tens tua alma, há, entre os céus e o horizonte amor… tens amor?” – I dont’t! –
Flirtations (Manhattanville)
Ninguém ande à encruzilhada Por noites de São João – Vejam a mal-assombrada, Meninas! “Oh, a visão!…”
– Cora, qual é tua sorte? “Na Quinta Avenida, à corte, Casarei.” – Sempre never cada Fanny? “Morrerei.” – E tu, Augusta, rubores? Vão ver, que sorte de amores… “Eu sonhei.”
Pior do que encruzilhadas De visões; portas e escadas Destes céus de Manhattán Com que aí stão-se aninhando Alvoradas? matinando Toda a noite até manhã? “Fogo! fogo! é rato! é gato!” – Matinada de Babel! Meninas, mudem de quarto, Há mais quem durma no hotel!
São as três; doirada tarde, Vêm da escola e em risos ledos, O olhar longínquo de que arde, Atiram beijos co’os dedos.
Ora, estudando as lições: “Diga, diga, as professoras Deram tese – Os dois vulcões Maiores – Belas senhoras, Há crescenças… sobre os Andes Que são da terra as mais grandes… Rindo Fanny, Cora alada E ar Augusta de graduada – “Andes são serras: vulcões, Sir! os maiores do mundo!?” – Oh! que estão no céu profundo Chamas lançando em festões? “Yes! Yes!” – Que rugem? `strugem Com lavas bravas?! “Yes! Yes!” – São, my girl, dois corações… “Oh! oh! oh!”