Pietá e seu Santo Sossego

O trio supera o desempenho de “Leve o que quiser”, que já era bem acima da média. Juliana, com voz linda, firme e afinada, cada vez mais destaca-se como uma das melhores intérpretes da música brasileira contemporânea; já Frederico e Rafael constroem caminhos musicais precisos, que dão ao Pietá uma sonoridade ao mesmo tempo surpreendente e aconchegante. [Texto de Jorge LZ]

Texto de Jorge LZ / Programa na Ponta da Agulha


Quatro anos depois do festejado “Leve o que quiser”, Juliana Linhares, Frederico Demarca e Rafael Lorga estão de volta com o segundo disco do Pietá – “Santo sossego”.

Nesta nova empreitada, o trio substituiu a pegada acústica do primeiro trabalho por uma sonoridade mais elétrica e mais contundente, lançando mão das guitarras e dos sintetizadores, totalmente em sintonia com o momento pelo qual passa o país… e é lindo ver o Pietá se posicionar de forma direta contra a evangelização feita por falsos profetas, misoginia, preconceito de gênero e de raça, corrupção, ascensão do neofascismo… enfim, contra o projeto de destruição de direitos que foi instituído. Mas, citando Che Guevara: “hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”… a poesia está presente e brilha através da performance do trio e também do repertório muito bem construído através de composições de Frederico Demarca com Claos Mozi, Iara Ferreira, Marcelo Fedrá e Renato Frazão, e também em parceria com Juliana Linhares e Rafael Lorga, como nos casos de “Oração pra Luzia”, “Virará” e “Mar de Sonhos”, canções espetaculares.

O trio supera o desempenho de “Leve o que quiser”, que já era bem acima da média. Juliana, com voz linda, firme e afinada, cada vez mais destaca-se como uma das melhores intérpretes da música brasileira contemporânea; já Frederico e Rafael constroem caminhos musicais precisos, que dão ao Pietá uma sonoridade ao mesmo tempo surpreendente e aconchegante.

“Santo sossego” foi produzido por Jr. Tostoi, um dos melhores e mais criativos produtores brasileiros, e contou com o reforço de Elisio Freitas, nas guitarras e viola, e Ivo Senra, nos sintetizadores. Participam do disco alguns nomes importantes do cenário contemporâneo, como Ilessi, Josyara, Khrystal, Lívia Nestrovski e Caio Prado.

Sem dúvida, “Santo sossego” é um grande disco, todos os ingredientes estão lá para que a receita dê certo, mas ele é muito mais que uma bem sucedida aventura artística… é um clamor para que se tenha atenção ao entorno, é uma convocação para que sejamos empáticos, é um chamado para que fiquemos unidos e assim lutemos para que os dias sejam mais justos.



Na ponta da agulha é um site parceiro do Kuruma’tá! Jorge LZ produz e apresenta o programa na Ponta da Agulha, na Rádio Graviola. Confira: napontadaagulha.ml


Uma fotografia #01

Chegar até a beira do mar, com a atração dessa luz que parece ser de uma lua muito cheia, superexposta. Mas que também pode ser o sol nascendo. Uma fotografia é pouco para falar desse mar, mas é o que temos. Há pontos luminosos que parecem flocos de neve flagrados por um flash e que, provavelmente, são defeitos da ampliação ou do negativo. Algo a ver com fungos que nasceram e morreram ali mesmo, na superfície do papel. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro

Chegar até a beira do mar, com a atração dessa luz que parece ser de uma lua muito cheia, superexposta. Mas que também pode ser o sol nascendo. Uma fotografia é pouco para falar desse mar, mas é o que temos. Há pontos luminosos que parecem flocos de neve flagrados por um flash e que, provavelmente, são defeitos da ampliação ou do negativo. Algo a ver com fungos que nasceram e morreram ali mesmo, na superfície do papel.

Quem quer que tenha feito essa foto, pode ter caminhado até as águas e molhado os pés, observando a onda aproximar-se e quebrar em espuma, um pouco antes de alcançar a areia.

Câmera na mão, feliz com uma possível bela foto, retornou. Para onde? Ou para quando? Ouvi falar, e você pode ter ouvido também, sobre a lenda de certa viajante do tempo cujo passatempo era tirar fotos com as câmeras da época que ela estivesse visitando. Então, antes de partir para uma nova viagem, ela revelava as fotografias e as deixava ali mesmo, em lugar qualquer. As fotos se misturavam a outras fotos, à vida das pessoas e se perdiam, sumiam no mundo.

E aí é que começa a verdadeira diversão dessa curiosa viajante. Lá no seu futuro, ela tenta reencontrar cada fotografia do seu percurso, visitando feiras, mercados de pulga, lojas de antiguidades e outras situações que o acaso posso proporcionar. E a cada foto reencontrada, uma alegria indescritível um reencontro. O cheiro do mar, do sal… a água nos pés. O sabor da aventura e os olhos cheios de lágrimas.


Foto de autor desconhecido, adquirida numa barraca da feira de antiguidades da Praça XV, no Rio de Janeiro. No verso, uma anotação feita a mão aponta que tenha sido tirada na praia de Areia preta, em Natal, no Rio Grande do Norte.


Pegando pesado!

A primeira pergunta que surge quando a gente bota pra tocar Onde há fumaça há fogo, novíssimo EP do Faces do Subúrbio é a seguinte: Como é que a gente ficou tanto tempo sem o som poderoso dessa banda? São 13 anos entre o último disco desses mestres do som pesado do Recife, Perito em Rima (2005), e a porrada na porta que se anuncia com essas cinco faixas que chegam aos nossos ouvidos. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Capa do novíssimo disco Onde há fumaça há fogo, do Faces do Subúrbio

Normalmente eu deixaria um texto assim para o parceiro Jorge LZ, do Programa Na Ponta da Agulha, que tem aqui na Kuruma’tá seu espaço para falar, com muito mais propriedade que eu, sobre as novidades sonoras do país! Mas… aqui o assunto é pessoal e afetivo, cabendo a mim, com alegria, escrever essas linhas que se seguem.

Era dezembro de 2018 e eu estava em casa, de bobeira, a milhas e milhas da Imbiribeira, lá no Recife. Eis que o zap blipa e é o parceiro Oni Silva, conectando lá da Cidade Maurícia para propor o irrecusável: escrever o texto sobre o novo disco que o pioneiro Faces do Subúrbio, grupo do qual é guitarrista, estava para lançar, batizado de Onde há fumaça há fogo. Como disse, tarefa irrecusável. Oni é amigo de longa data, dos tempos do ginasial, palavra essa que se perderá na obsolescência. Começamos a curtir rock’n’roll juntos, trocando uns discos e ideias. Movidos pela sensação da descoberta da melhor música do mundo, das amizades e por saber que a escola era somente algo que a gente tinha que aturar, algo a que precisaríamos sobreviver, escapar.

O tempo nos dirigiu em caminhos distintos e enquanto eu seguia as guitarras como ouvinte fervoroso, Oni empunhou sua própria guitarra, participando do cenário musical que se desenhou na cidade com louvor, até chegar ao peso pesado do Faces do Subúrbio, para trincar as paredes das salas de jantar pernambucanas…

(É nelas, 
mas de costas para o rio, 
que “as grandes famílias espirituais” da cidade 
chocam os ovos gordos 
de sua prosa. 
Na paz redonda das cozinhas, 
ei-las a revolver viciosamente 
seus caldeirões 
de preguiça viscosa).


— Trecho de O Cão sem plumas, de João Cabral de Melo Neto

Somente pela alegria de citar o Faces do Subúrbio e João Cabral no mesmo texto! E pensar que a poesia de Zé Brown se conecta com a de João Cabral por meio da latência do Capibaribe, do humano às suas margens, marginais, excluídos. Seus nomes podem mesmo até rimar num rap, embalados na guitarra sólida do parceiro Oni.

Eu e Oni, habitantes da Imbiribeira, cruzamos nossos caminhos novamente e seguimos honrando a memória rock’n’roll da nossa amizade que começou lá no Colégio Santa Bárbara.

Segue abaixo o que escrevi para essa banda histórica, que segue ela mesma escrevendo uma das grandes páginas da música de Pernambuco e do Brasil.


A primeira pergunta que surge quando a gente bota pra tocar Onde há fumaça há fogo, novíssimo EP do Faces do Subúrbio, é a seguinte: Como é que a gente ficou tanto tempo sem o som poderoso dessa banda? São 13 anos entre o último disco desses mestres do som pesado do Recife, Perito em Rima (2005), e a porrada na porta que se anuncia com essas cinco faixas que chegam aos nossos ouvidos. Mas bom é saber que todo esse tempo serviu para forjar um grande retorno, na hora em que o Brasil precisa dos versos de um poeta como Zé Brown, que escreveu todas as letras, e da sonoridade monstruosa desse pessoal que sabe o que está fazendo. E o que eles fazem, e muito bem, não é só música mas um chamamento à realidade. Nos primeiros versos de Onde há fumaça há fogo, música que abre o EP, Zé Brown já manda: É impressionante a falta de percepção / Século 21 não aprender essa lição.

E o que vem depois disso é lição atrás de lição, de como se faz um disco, de como não se perde o contato com as dores, conflitos e ansiedades da sua gente, de como o subúrbio mostra sua face, mostra a sua voz. Ouvi e ouvi de novo cada música e como quem cresceu nas quebradas do Recife, reconheço essa voz. E se ligue que as quebradas Brasil adentro estão conectadas, interligadas e compartilham suas vozes. Então o Faces do Subúrbio chega falando com geral, com os muitos centros que cada periferia tem. Zé Brown e Samuel Negão nos vocais, as guitarras de Oni e o baixo de Felipe Perez, e ainda Perna na bateria e DJ Beto na pick ups. Esse é o Faces que retorna pegando a gente pela consciência!

O EP abre com a música Onde há fumaça há fogo, que é a abertura perfeita. Chega com força e instrumental de respeito, mostrando que o Faces não é fumaça. É fogo aceso das palavras, e já é aí que a gente se toca da falta que a banda fazia! Em seguida vem a loteria de Atirador. Afiada e certeira, mostra que roleta russa da violência quem atira pode ser sempre a próxima vítima. Traz no meio da corrente sonora uma releitura da música Atirador, de Lula Queiroga, que participa nos vocais.

Aqui no Brasil também morre quem atira
Cuidado pra você não ficar na mira

Mal político é a terceira faixa que manda a real do labirinto sórdido das políticas do país. É quando a gente sente a força do Faces e a capacidade desse pessoal se conectar com a realidade de quem tá na rua. A música conta ainda com a Canibal, do Devotos, nos vocais. É quase como se agente estivesse no bar, na fila do ônibus, discutindo os desmando, sendo bombardeado pelo zap. O Ataque é Sem dó e sem pena, como a própria música fala. É o Faces tomando seu lugar, assumindo sem medo sua devida posição no cenário. Salve, DJ! E o EP encerra com Pinota, trazendo Pedro Ferreira na percussão e Nando Cordel nos vocais. É importante se ligar no que está à sua volta! E o Faces do Subúrbio está ligado, antenado, envolvido até o pescoço com o som pesado, o subúrbio, a poesia das ruas e becos e calçadas. E não pense que acabou. Apenas começou!

Faces do Subúrbio está de volta!


Onde há fumaça há fogo está disponível nas plataformas de streaming!


Nós, enfermos

Anticonvulsivante, antitérmico, anti-histamínico, ansiolítico, analgésico, anti-inflamatório, novalgina, codeína, morfina, antidepressivo, prednisona, soro fisiológico, metadona, fungicida, supositório de glicerina. Quimioterápico, homeopatia, terapia. O que não pode ser prescrito, nem deve ser manipulado, o que é curativo? O corpo aguenta a dose, retesa. Compaixão. Overdose dela. [Texto de Eduardo Frota]


E lá vamos nós com mais uma novíssima colaboração para nossa Revista Kuruma’tá. Chegou a vez do amigo e jornalista Eduardo Frota, que traz esse seu primeiro texto, de muitos que virão, que nos guia por entre as paredes dos hospitais e dos silêncios e barulhos da cabeça, dos pensamentos.

Texto de Eduardo Frota


I
Corredor de hospital e entrada de UTI são locais nos quais as potências de vida e morte se chocam de forma devastadora. Como dois trens em direções opostas. Ao maquinista, o controle. Ao enfermo, o descontrole: o bipe das máquinas, o ruído do ar-condicionado, o ranger das portas diante do entra-e-sai de gente. Como na plataforma, há um púlpito no qual o acento agudo das vozes em discussões ignóbeis ganha reverberação. O que deveria ser um solilóquio é amplificado e faz vibrar o ar ao redor. Barulho dói, diz o cartaz. Barulho dói.

II
Agora mesmo, nos confins do universo, milhões de estrelas nascem e morrem, cumprindo uma dança que nos escapa o compasso. Agora mesmo, dentro de cada um de nós, há células que nascem e morrem, cumprindo uma dança que nos escapa o compasso. Agora mesmo, ensaiamos o que dizer, o que falar, o que sentir. Escapamo-nos de nós mesmos. Não há compasso que desenhe um círculo perfeito.

III
Falta é arbitrada, machuca, é passível de punição. Produz um tipo de buraco no qual a matéria não se faz presente. Então entendemos que existe a ausência, esta sim etérea, flutuante, intangível, capaz de pairar sobre paragens distantes com a mesma lividez de sempre. Longe de ser o antônimo de presença, ausência é a sua permanência intacta, retilínea e uniforme, sem buracos.

IV
Há um relógio na parede de cada quarto de hospital. O mecanismo que impulsiona os ponteiros produz um ruído indecoroso. Trata-se da nossa necessidade em escalonar compassos milimetricamente. O tempo é seccionado por nós mesmos, aqueles que ainda não descobriram como retardar a ação do tempo em nós mesmos. Os relógios nas paredes dos quartos de hospitais somos nós mesmos. É um escárnio sutil que avilta nossos fantasmas. E cantam: não temos mais o tempo que passou.

THE MEDICAL SERVICES ON THE HOME FRONT, 1914-1918 (Q 18932) An operating theatre at the Royal Naval Hospital, Chatham. Copyright: © IWM. Original Source: http://www.iwm.org.uk/collections/item/object/205253361

V
Anticonvulsivante, antitérmico, anti-histamínico, ansiolítico, analgésico, anti-inflamatório, novalgina, codeína, morfina, antidepressivo, prednisona, soro fisiológico, metadona, fungicida, supositório de glicerina. Quimioterápico, homeopatia, terapia. O que não pode ser prescrito, nem deve ser manipulado, o que é curativo? O corpo aguenta a dose, retesa. Compaixão. Overdose dela.

VI
Não há mais ruído possível, não há mais nada. Não há mais um rio possível de ser nomeado, porque já é outro a passar. Fecho os olhos e o que vejo é ensurdecedor. Fecho os olhos porque o coração sofre de uma arritmia severa. Há em mim um sopro, o ruído de um sopro, que só pode ser ouvido quando a água acumulada nos meus olhos vence a barragem e desce feito o rio. O nome, eu não sei. Não queria que se chamasse dor. Queria que se chamasse apenas saudade.

VII
A sala de espera é feito um purgatório particular das angústias de cada paciente e de cada acompanhante presente. Todos, utentes da vida. Há um acordo velado e tácito, que permite perfilar lado a lado, frente a frente, cada um de nós – com seus receios, suas angústias, suas buscas por esteios. A nossa sala de espera não tinha revistas de pontas amassadas com fotografias de sorrisos amarelados. Era mais como uma sala de estar. Uma sala de estar em nós mesmos. Nossa sala permanece lotada de convivas. Brindemos nossa sala, brindemos o nosso estar.

VIII
Há um estranho sentado à mesa da minha sala. Ele devora a comida enquanto fala, de boca cheia, sobre o passado. Ele se levanta após a sobremesa e, refastelado, com os dedos ainda melados, decora os corredores com doces memórias das quais não há passado. Vai embora à francesa, sem se despedir. Bate a porta com força e deixa a chave na portaria. Amanhã ele está de volta. Penso em trocar a fechadura. Desisto. É melhor tirar os espelhos das paredes da minha casa.

IX
A rotina é como o mar em dia de ventania, em noite de ressaca. O ponto distante no fim do horizonte é um barco à deriva. A maré que enche, a espuma que farfalha, a vala que mantém tudo no mesmo lugar. O amor é feito o pescador em tempos de labuta endurecida, a estibordo, emborcando, desafiando a turbidez das águas tempestuosas. O movimento das ondas, o sobe e desce. Uma hora a bombordo, outra hora a boreste. O farol, ainda que distante, a leste. Distante, mas certo como o instante em que, do alto, gritará o navegante: estamos todos salvos.

X
É como se tivessem cortado o telefone.
Silêncio.
Nem um chiado.
Boleto vencido.

É como se tivessem cortado o gás, a luz, a água, a internet.
Devia ter chiado, porra!
Boleto atrasado.

É como se tivessem me cortado.
Fala comigo!
Silêncio.
Vencido.


Eduardo Frota é jornalista, escritor, barista, cinéfilo e ex-bonito. Escreve de texto institucional a bilhetinho de amor. Escreveu um livro de parágrafos, publicado pela Editora Jaguatirica, entitulado “Aqui jazem romances“. Escreve sobre café para diversas publicações do setor. Escreve sobre jiu-jitsu para a Gracie Mag. Escreve sobre o que faria se ganhasse na Mega-Sena: compraria uma igreja evangélica e a transformaria em um cinema.


Iara Ira – Ancestralidade e contemporaneidade da força feminina

Partindo do cruzamento de linguagens artísticas, em especial a música e o teatro, Iara Ira configura-se em um espetáculo poderoso, que transborda poesia através das vozes de três grandes cantoras: Duda Brack, Julia Vargas e Juliana Linhares. Cada uma delas exerce um poder e cantar particulares e juntas cantam um Brasil múltiplo em uma atmosfera contundente e dominada pela força feminina. [Texto de Jorge LZ / Programa na Ponta da Agulha]

Texto de Jorge LZ / Programa na Ponta da Agulha


Foto: Francisco Costa / Divulgação

Partindo do cruzamento de linguagens artísticas, em especial a música e o teatro, Iara Ira configura-se em um espetáculo poderoso, que transborda poesia através das vozes de três grandes cantoras: Duda Brack, Julia Vargas e Juliana Linhares. Cada uma delas exerce um poder e cantar particulares e juntas cantam um Brasil múltiplo em uma atmosfera contundente e dominada pela força feminina.

A ideia inicial é do produtor Philippe Baptiste… à lenda de Iara, maravilhosa e tradicional figura do folclore brasileiro, é incorporado o elemento da Ira, tão presente no nosso contemporâneo. Philippe trouxe Caio Riscado para a direção artística e Thiago Amud para a direção musical.

O repertório é muito bem amarrado e cria uma unidade dramatúrgica, que nos dá a sensação das músicas terem sido feitas de encomenda para o espetáculo. Apenas uma delas, Iara Ira, de Frederico Demarca (da banda Pietá) e Renato Frazão (do Coletivo Chama), foi composta com esse intuito. O time de compositores é formado por nomes como Baden Powell, Paulo César Pinheiro, Carlos Careqa, Guinga,Thiago Amud e Ian Ramil, entre outros.

Se Caio dá o toque teatral para o espetáculo, Thiago Amud tem em suas mãos Elisio Freitas, Ivo Senra e Lourenço Vasconcellos, que interagem de forma esplêndida com Duda, Julia e Juliana.

Na próxima terça-feira, dia 28, teremos mais uma oportunidade de passarmos por essa experiência, no Rio de Janeiro. O espetáculo estará em cartaz no Teatro Ginástico.

Iara Ira é trabalho essencial, principalmente nesse Brasil atual, onde a diversidade, a cultura, o pensamento e a expressão artística são perseguidos.

Iara Ira é um verdadeiro grito pela liberdade de ser e estar.


FICHA TÉCNICA

Cantoras: Duda Brack, Júlia Vargas e Juliana Linhares
Banda: Elisio Freitas, Ivo Senra e Lourenço Dias de Vasconcellos

Direção Musical: Thiago Amud
Direção artística: Caio Riscado
Direção de arte e Cenário: Victor Hugo Mattos
Técnico de som: Arthur Ferreira e Dioclau Serrano
Mixagem de som: Guilherme Marques (Estúdio Frigideira)
Iluminação: Alessandro Boschini
Caracterização: Manuela Monteiro
Fotos: Francisco Costa
Programação Visual: Lucas Canavarro
Figurinos: FAVST e WASABI
Idealização e Direção de produção: Philippe Baptiste (Areia Produções Musicais)
Assistente de produção: Lia Sarno e Bel Flaksman

SERVIÇO
Data: 28/05
Horário: 19h (cheguem cedo!!)
Ingressos:
R$ 30 (inteira)
R$ 15 (para jovens até 21 anos, estudantes, maiores de 60 anos e com a doação de 1KG de alimento não perecível)
R$ 7,50 (associado Sesc)

Teatro Sesc Ginástico
Endereço: Av. Graça Aranha, 187, Centro / RJ
Tel: (21) 2279-4027


Na ponta da agulha é um site parceiro do Kuruma’tá! Jorge LZ produz e apresenta o programa na Ponta da Agulha, na Rádio Graviola. Confira: napontadaagulha.ml


Coincidência ou sincronicidade? Como encontrei Luiz Ruffato

Pois foi isso que aconteceu comigo. Uma coincidência significativa. Nunca tinha ouvido falar de Luiz Ruffato, até que meu marido, vendo uma entrevista dele na TV, resolveu comprar um de seus livros, Eles eram muitos cavalos. Quando acabou de ler, me recomendou: você deveria ler esse livro, lembra um pouco o estilo do Sandro (William Junqueira), principalmente a liberdade da forma, uma coisa muito singular, você tem que ler. [Texto de Adriana Nolasco]

Texto de Adriana Nolasco


Coincidências podem nada significar, mas são uma espécie de mágica. Talvez seja o caso de chamar de sincronicidade, conceito desenvolvido pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, fundador da psicologia analítica, utilizado para definir acontecimentos que se relacionam não por relação de causa e consequência, mas sim de significado. A sincronicidade é também referida por Jung como “coincidência significativa”.

Pois foi isso que aconteceu comigo. Uma coincidência significativa. Nunca tinha ouvido falar de Luiz Ruffato, até que meu marido, vendo uma entrevista dele na TV, resolveu comprar um de seus livros, Eles eram muitos cavalos. Quando acabou de ler, me recomendou: você deveria ler esse livro, lembra um pouco o estilo do Sandro (William Junqueira), principalmente a liberdade da forma, uma coisa muito singular, você tem que ler (essa última frase foi repetida muitas vezes). Passadas algumas semanas, depois de acabar a leitura de Ninguém precisa acreditar em mim, do Juan Pablo Villalobos, outro dos meus escritores contemporâneos preferidos, me vi naquele momento “o que ler agora?” e resolvi embarcar na sugestão, sem muito entusiasmo nem muita expectativa, mas curiosa com o porquê da insistência na sugestão. O que teria esse livro a ver comigo do ponto de vista de outra pessoa? E, pensando bem, começar as coisas sem expectativa pode ser bom, mantém o caminho aberto para o que der e vier. Descobri que Eles eram muito cavalos não tem nada de ordinário ou comum, muito pelo contrário, pertence à categoria dos extraordinários. E não é preciso esperar, essa sensação já chega desde a primeira página. Passado num único dia, em São Paulo, o livro dá voz a múltiplos personagens, que não se encontram, e suas respectivas histórias, uma cacofonia de vozes que procuram dar conta da brutalidade e da solidão do cotidiano numa cidade grande, que poderia ser qualquer uma, mas por acaso é São Paulo. Uma teia de dramas humanos narrados em formatos tão diversos que surpreendem, abarcando desde a narrativa clássica até um cardápio, um diálogo, a descrição dos livros de uma estante, uma carta, um horóscopo, o trecho de um anúncio de jornal, parágrafos que não se completam e outras maravilhas.

Mas a coincidência ou sincronicidade não acaba aí. Depois de terminar o livro e ficar absolutamente encantada (parece que fico encantada com facilidade, mas parece também que tenho dado sorte ultimamente) postei uma foto da capa, com os dizeres “livro incrível”, numa rede social. Poucos dias depois me chega uma mensagem de uma amiga, que faz doutorado numa universidade carioca, com o cartaz de um evento: um encontro com Luiz Ruffato no dia 9 de maio. A Universidade era a PUC RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), onde estudei Comunicação Social há muitos anos atrás. Fazia tempo que não voltava lá e até a véspera do evento fiquei presa na boa e velha balança libriana (meu ascendente) da indecisão: vou ou não vou? Ia ter que faltar um outro compromisso blá blá blá, mas a razão do meu coração votou a favor e me disse: Adriana, quando você vai ter outra oportunidade de ver esse cara falar? Faça alguma coisa diferente, mulher! E lá fui eu. Quinta-feira, 9 de maio, 9 da manhã, campus da universidade, sala K102, pros íntimos Edifício Kennedy 102, o famoso pilotis da PUC, e eu, espécie de ET, penetrei naquele velho novo mundo, cheio de gente da idade que um dia eu já tive quando estive ali. Foi uma viagem. Ou melhor, a viagem começou ali. Dei um rolé, subi pra sala 102, cheguei cedo, esperei no corredor e na hora que achei que já tinha gente o suficiente, entrei na sala. Ninguém me perguntou quem eu era nem o que eu tava fazendo ali. Ótimo, primeira barreira vencida, sou uma anônima feliz. Agora era Luiz Ruffato, que já estava ali faz tempo se misturando com os seres humanos comuns, na sua mais cativante mineirice. Pessoa deliciosamente simples, sem frescuras, sem afetações nem arrogâncias de grande escritor. Porque de fato ele é um grande escritor, estava me dando conta disso, mas continuava sendo uma pessoa como outra qualquer, além de simpático, acessível, sério, engraçado, brilhante e com cara de padre.

O bate-papo/palestra começa e, distraída que sou, descubro deslumbrada que aquela era a terceira edição do Cavalos Day, data comemorativa ao livro promovida pelo Departamento de Comunicação, todos os anos, no dia em que se passa o romance! Dia 9 de Maio! E eu não havia percebido. Atinei também que o livro que tinha acabado de ler, não era qualquer livro, e por isso a celebração do seu dia. Vencedor dos prêmios APCA e Machado de Assis (da Biblioteca Nacional), Eles eram muitos cavalos foi considerado pelo jornal O Globo, entre outros, como um dos dez melhores livros de ficção da década, e está publicado na França, Itália, Portugal, Alemanha, Colômbia, Argentina, Estados Unidos, Finlândia, Cuba e Macedônia. Ufa. Uma voz que fala com muitos.

Foto de Adriana Nolasco

Abro um parênteses aqui. Nesse exato momento, em que a vida das Universidades públicas brasileiras, e do ensino público em geral, está ameaçada, foi um bálsamo e um cutucão circular pelo campus da PUC, mesmo sabendo que é uma Universidade particular. O ar que se respira ali é diferente. Tem outra densidade e me fez lembrar da intensidade da experiência do acesso à educação universitária, mesmo sabendo que na época em que a frequentamos não temos muita noção disso. Estar ali foi fundamental pra reforçar a importância desse locais, principalmente das Universidades Públicas, que também frequentei nos meus cinco anos de curso de Medicina na UERJ. Às vezes é necessária uma experiência de aproximação pra que nos lembremos de determinados porquês. E nesse sentido é preciso lutar firmemente a favor da educação pública de qualidade nesse país. Ela é a nossa base. E o evento do qual estava participando me lembrou disso.

Voltando ao Ruffato, entre outras coisas, disse que escreve pra si mesmo e se as pessoas gostarem, melhor ainda, que não gosta de fotografia sua em livro, que conversa com seus personagens, que lhe ditam o que escrever em seguida, que sempre soube sobre o que escrever, sobre o trabalhador brasileiro, mas que não sabia como e que Eles eram muito cavalos é um experimento em torno disso. E mais importante que tudo: garantiu que chegou à conclusão de que a literatura salva sim, porque tinha feito isso por ele. Nascido em Cataguases, Minas Gerais, em 1961, nunca imaginou onde ia chegar. Foi pipoqueiro, caixa de botequim, operário têxtil, torneiro mecânico, jornalista, sócio de assessoria de imprensa, gerente de lanchonete, vendedor de livros autônomo e novamente jornalista antes de finalmente se dedicar à literatura. Formado em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (olha e educação pública aí), publicou vários livros entre os quais Estive em Lisboa e lembrei de você (série “Amores Expressos”), Eles eram muitos cavalos, Flores artificiais, De mim já nem se lembra, Inferno Provisório e a Cidade dorme, todos pela Companhia das Letras.

Para quem ficou curioso e quiser uma aproximação maior com o Luiz, que nem aquela que eu mencionei com as Universidades, vale assitir o discurso que ele fez na abertura da Feira do Livro de Frankfurt em 2013.

O vídeo em si virou uma peça aclamada e procurada pelo seu conteúdo brilhante, transparente e inspirador. Uma homenagem à literatura e um retrato de Brasil que permanece fresco e contundente. Impossível não se afetar.

No final, mais algumas surpresas. Luiz estava lançando, aqui no Rio de Janeiro, naquele dia, o tal do 9 de maio, seu mais recente livro O verão tardio! E ele estava disponível pra venda logo ali, na sala de aula! Não pensei duas vezes, levaria O verão tardio e Estive em Lisboa e lembrei de você (porque amo Lisboa) para casa. O livreiro me incentivou: vai lá pegar dedicatória, ele sempre dá. E, timidez à parte, lá fui eu. O resultado: abraço apertado e três livros autografados com dedicatórias impossíveis de ler. O mineirinho me avisou: teria que decifrar sozinha o que estava escrito ali. Não decifrei até agora.

Já no ônibus de volta, começo a ler Estive em Lisboa e lembrei de você e encontro mais uma “coincidência significativa”: o protagonista joga pelada num time de futebol chamado Primeiro de Abril, dia do meu aniversário. Obrigada Luiz Ruffato, te conhecer foi um presente.

[Assista aqui a palestra de Luiz Ruffato no Cavalos Day, no dia 09 de maio de 2018]


adriana nolasco escapou da medicina, com sofreguidão. tem uma produtora carambolas -, muito prima de coletivos poéticos de cunho anárquico. entre outros planos, faz filmes, cometendo em quase todas as funções, com especial apego à fornalha. além, cutuca as letras e seus avessos, muitas vezes com vertigem no céu da boca. adestra sombras em conluio com a sorte e garimpa flores com a mesma astúcia que encontra esbarrões. já lavou calçadas, especulou em bolsas obtusas, traficou marfim em continentes distantes. atualmente, pensa em não pensar, com muita dificuldade.

adriana publicou em 2018 o livro Até quase perto, pela editora Urutau.


Odisseias

Tia Nadir era uma tia da minha mãe, irmã da minha avó, a quem eu e meus irmãos havíamos acostumado a chamar também de tia. Minha recordação é de uma pessoa doce, carinhosa, a quem víamos bastante. Morando no Recife, longe de sua querida Natal, minha mãe tinha em tia Nadir a família mais próxima, mais imediata, e a visitávamos com agradável frequência, em sua casa na Vila Tamandaré. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro

Eu devia ter meus doze anos de idade. Vai saber! Talvez um pouco mais ou um pouco menos. Mas já gostava de ficção científica, seja por causa dos filmes e séries, talvez por pertencer à primeira geração nascida após o ser humano deixar sua primeira pegada na lua.

Tia Nadir, sua irmã e minha avó, Mariola, com Larissa, minha sobrinha no colo.

Tia Nadir era uma tia da minha mãe, irmã da minha avó, a quem eu e meus irmãos havíamos acostumado a chamar também de tia. Minha recordação é de uma pessoa doce, carinhosa, a quem víamos bastante. Morando no Recife, longe de sua querida Natal, minha mãe tinha em tia Nadir a família mais próxima, mais imediata, e a visitávamos com agradável frequência, em sua casa na Vila Tamandaré.

Apresentados esses dois fatos, vou juntá-los num episódio de infância que me marcou imensamente. Na verdade, mais que um episódio, uma frase. Estávamos na casa de tia Nadir, num dia de sol recifense, plantas pelo jardim e algumas flores. Havia o alarido dos adultos e suas conversas importantes, fofocas familiares, novidades e as miudezas do dia a dia alinhadas, afiadas e distribuídas de modo a fazer a conversa render toda uma tarde. Eu me reservava, sempre calado, ao meu canto de menino, desinteressado dos mais velhos, daquele mundo da família, seus problemas, alegrias e convenções.

Nas minhas mãos a raiz da minha distração absorta, um exemplar de 2001 – Uma odisseia no espaço, de Arthur C. Clarke. O livro desafiava os limites do meu entendimento das coisas, mas já naquele tempo eu tinha essa percepção, de que entender é um luxo ao qual, muitas vezes, não podemos nos dar. Ao aceitava, ao ler certos livros, um prazer que não vinha da compreensão, mas de outras áreas da vida. Talvez como o prazer de uma viagem, as impressões físicas, sensoriais do deslocamento de um carro, de um avião, de uma nave espacial.

Tia Nadir, no vai e vem de buscar água ou uma velha foto para alimentar alguma troca de recordações, passou por mim e viu que eu estava lendo. Focou no meu livro aberto e o tomou delicadamente das minhas mãos, virando algumas páginas e lendo o título silenciosamente. Depois de devolver-me o livro sentenciou:

— Eu também vivi uma odisseia!

A partir daí começou a narrar uma longa e aventurosa viagem de ônibus, nos tempos em que viagens de ônibus eram aventuras, odisseias. Quando atravessar os estados brasileiros era uma imensa noite estrada adentro, pequenos vilarejos, cidades esparsas, precariedades e o vento atravessando as janelas abertas dos ônibus, por dias. Não recordo os detalhes, nem mesmo o destino. São Paulo, talvez. Mas lembro a vívida sensação de acompanhá-la pelo Brasil naqueles minutos que ela dedicou a me contar sua história. Sua odisseia.

Agora mesmo, enquanto escrevo, me vem à mente a imagem do meu pai, num caminhão, cruzando fronteiras estaduais, o mesmo velho vento no rosto, nomeando e bebendo seu café em cidade inomináveis para mim, então uma criança com conhecimento limitado do tamanho do Brasil. Um inconcebível e velho Ulisses, nessa visão por certo romantizada de um pai tentando ganhar seu dinheiro e contar suas histórias. Que cantos de seria escutou enquanto as cargas brasileiras sacolejavam na carroceria de algum caminhão perdido no crepúsculo entre o Piauí e o Maranhão, rumo à cidade de Imperatriz, certamente.

Minha mãe aventureira também, com a avó, que arrastava as netas preferidas, de trem, no trilhos entre Natal e Recife. Suas memórias de quando choveu horrores e só via da janela do trem as pontas dos pés de cana nos canaviais que se perdiam até o horizonte. Mar de canas, mar de chuvas. O rio extrapolando o próprio leito e cobrindo os trilhos. À frente do trem, um rapaz com uma longa vara, tateando a escuridão das águas para checar se a viagem poderia continuar a cada metro viajado, enquanto a chuva caía.

Odisseias são essas jornadas de transformação interior e que testemunham o mundo em transformação. Tia Nadir, meu pai, minha mãe… o Brasil quase inteiro descortinado da janela de um ônibus, um caminhão, um trem. Da janela de um hotel em Tucuruí, de onde se vê a vida que se leva.

Cantem as sereias, quebrem sobre o convés as ondas do mar dos canaviais. Estamos amarrados ao mastro, para poder, ao fim, contar a história.


Poesia Infiltrada

É Lei – e a Física está aí para nos mostrar isso. As cidades também estão sob a jurisdição desta lei, como não? E assim, quanto mais uma cidade se apresenta em suas vestimentas formais e tradicionais, maior será o seu impulso disruptivo, sua sede de novo. É só procurar nas vielas e esquinas; escute a boemia. A tradicional Coimbra não foge à regra e já pude espreitar o melhor de seu lado B aqui e acolá. [Texto de Lu Lessa Ventarola e Pedro Pousada]

Texto de Lu Lessa Ventarola e Pedro Pousada

Coimbra, 20 de abril de 2019 Como bem se sabe, forças opostas se atraem. Tipo verso e reverso. Sorte e azar. Bem e mal. Goibada e queijo (minas). A velha atração dos pervertidos pelos lugares santos. Tecnicamente dizemos “para toda ação, uma reação de mesma intensidade só que em sentido oposto”. O que, em linguagem poética, poderíamos traduzir assim: quanto maior o abismo maior é céu sobre ele. É Lei – e a Física está aí para nos mostrar isso. As cidades também estão sob a jurisdição desta lei, como não? E assim, quanto mais uma cidade se apresenta em suas vestimentas formais e tradicionais, maior será o seu impulso disruptivo, sua sede de novo. É só procurar nas vielas e esquinas; escute a boemia. A tradicional Coimbra não foge à regra e já pude espreitar o melhor de seu lado B aqui e acolá. Uma das minhas últimas (boas) surpresas foi assistir a uma apresentação de um trabalho de Nelson Ricardo, um artista doutorando no Colégio da Artes. Foi ver vida sendo injetada na arte e vice e versa. E o bendito dia me concedeu ainda mais um presente: conhecer Pedro Pousada, professor e artista comunista e, de quebra, perceber que a poesia se infiltrou nas frestas da nossa conversa. 

– E então Pedro,
Que alegria [!]
É você um comunista.

– É verdade.
Desde sempre. Até morrer.
Sal e Azar.

– Então e tu?
Também comunista?

– Claro!
Alimento criancinhas.

– Não as come.

– Pois.
Adotei o Pois.

– É sintoma do conformismo português.
Perigosa patologia cultural.

– Eu gosto. Parece resposta imediata.
Como um Sim.
Como um ponto final dado pelo outro.
Construção coletiva de frase.

– Mas não: é um ‘não vale a pena’
‘Nada a fazer’.

– Aí é perigoso.

– É conformismo coletivo.
Falta impulso, o salto em frente dos gauleses.
Ras de Bol – e partem tudo.

– Ras de Bol?

– Significa: ‘PORRA ESTOU FARTO!’


Quem é quem nessa poesia infiltrada!

Lu Lessa é mineira. Tem manias. Tem arca com nomes escritos. Formação acadêmica: Direito na UFJF. Formação Artística: Parque Lage (João Magalhães, Gianguido Bonfati, Helio Eichbauer, Charles Watson – professores). Fundou o MAP – Movimento Armado de Poesia, e por ele faz oficinas em escolas públicas e intervenções urbanas. Faz exposições artísticas por aí. A mais importante delas foi uma individual no CCBB-RJ, em outubro de 2017, com curadoria do Helio Eichbauer.

Pedro Pousada (1970) é um artista plástico com uma extensa experiência no campo de Desenho contemporâneo. Gosta de ensinar e de aprender e na sua atividade de docente e investigador universitário tem publicado artigos científicos no âmbito da teoria da arte e do cruzamento entre cultura artística contemporânea e cultura arquitetônica. Mas quando faz o que faz não pensa que seja artista e tem muitas dúvidas sobre o que isso possa significar nos dias de hoje.


Ter lido Lucila Nogueira

Como todo bom livro este me chegou pelas mãos de amigos, não recordo exatamente como. Devia ser o ano de 1984 ou 85. Não tinha 10 anos que havia sido lançado. Recordo também de tê-lo visto nas prateleiras da saudosa Livro 7, que por muitos anos ostentou o título de maior livraria do Brasil. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Almenara é um termo que designa estrutura vertical projectada pelo homem, intencionalmente visível como sinal de aviso para toda uma província inteira, costa, castelo, etc. Nessa torre era aceso um facho para dar sinal a longas distâncias. Do árabe al-manara, o termo é comummente empregue para designar as torres de mesquitas (Alcorana, Almádena, Minar, Minarete). Consistia numa torre de vigilância, localizada numa muralha ou numa zona geográfica elevada, que servia como um sistema de comunicação a longas distâncias, normalmente construídos nos merlões das torres ou num lugar alto de um castelo. (Wikipédia)

Almenara é, também, o primeiro livro de Lucila Nogueira, poeta nascida no Rio de Janeiro e radicada no Recife. Agraciado com o Prêmio Manuel Bandeira de poesia em 1978, foi editado no ano seguinte pela Civilização Brasileira, num pequeno e belo volume com capa do brilhante Eugênio Hirsch.

Como todo bom livro este me chegou pelas mãos de amigos, não recordo exatamente como. Devia ser o ano de 1984 ou 85. Não tinha 10 anos que havia sido lançado. Recordo também de tê-lo visto nas prateleiras da saudosa Livro 7, que por muitos anos ostentou o título de maior livraria do Brasil. Era um livro pequeno, não tanto maior que a palma da mão. dentro dele, entretanto, cabia um universo muito amplo e peculiar da poesia de Lucila; um universo cujas raias percorri com certo fervor, típico da juventude. Elegi Lucila facilmente como minha poeta preferida. Naquela época poetas preferidos iam e vinham, a cada nova descoberta. Não sei quanto tempo durou seu reinado de rainha especular, mística e arisca.

Na sua poesia li palavras pela primeira vez ou saboreei palavras inesperadas… campânulas, vergônteas, cariátide! Enveredei por mares, corredores e penumbras. Seus versos parecem rios de tão fluidos e volumosos, metafísicos e cheios de um sentido humano e, sobretudo, feminino. Voz de mulher, iluminando o cenário de um rapaz vagando por um Recife encantado de passado e também, por isso mesmo, opressivo. Num mundo de Manual Bandeira, João Cabral, Francisco Brennand, tantos homens, a voz de Lucila expandia horizontes e encurralava o machismo tradicional que tudo permeia. Ouvi-la foi encorajador no sentido de buscar ser outro.



Lucila Nogueira nasceu em março de 1950, 70 anos no ano que vem. Morreu há pouco, em dezembro de 2016. Escreveu mais de 20 livros que eu gostaria muito de ver as livrarias. Ela recebeu prêmios, foi homenageada e reconhecida por seus pares ainda em vida, teve sua obra traduzida, encarnou certa tradição poética e libertária pernambucana e participou ativamente da vida cultural do Recife. estranhamente seu nome não faz parte do Circuito da Poesia da cidade do Recife, uma iniciativa pública da prefeitura para divulgar e celebrar os poetas da cidade. A única mulher que consta do Circuito é Clarice Lispector, que não era poeta e viveu a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro. sua estátua orna a Praça Maciel Pinheiro, junto a qual a escritora viveu quando criança.

Quando viajo ao Recife, tento resgatar aquela cidade em que conheci a poesia de Lucila Nogueira. Ando pelas ruas do centro esbarrando na casa de Manuel Bandeira, no Capibaribe que João Cabral de Melo Neto eternizou no Cão sem plumas, em busca das cariátides, dos templos e dos véus. Espero anoitecer, aguardando que brilhe no alto da almenara uma chama que me guie.

Lucila Nogueira em Estocolmo – Fonte: Wikipédia

Aproveite a presença ténue de Lucila e leia sua entrevista para a Suplemento Pernambuco, em 2009: LUCILA NOGUEIRA: CONFISSÕES NUMA PISTA DE DANÇA VAZIA


A Máquina de Inscrever de Paloma Klisys

A Revista Kuruma’tá convida você a conhecer a incrível Máquina de Inscrever de Paloma Klisys! “Uma série de programas experimentais de rádio arte feitos para a internet que, numa versão transmídias se transforma e expande a esfera da arte sonora para as artes audio-visuais em apresentações com manipulação ao vivo de sons e imagens”. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Para quem não conhece, a Revista Kuruma’tá gostaria de apresentar o trabalho, ou melhor, um dos muitos trabalhos da multi-blaster-audiovisual-poética-lúdica artista Paloma Klisys. Conheci Paloma pelo Facebook, e por conta de acasos assim eu não reclamo da velha rede. No seu site, seu labirinto onírico, assim se define Paloma:

escritora, poeta, artista sonora e transmídias. Criadora INTERdependente, transitou nas últimas duas décadas por uma série de coletivos artísticos com características diferentes e desenvolve processos criativos translinguagens nos quais explora intercessões possíveis entre a performance/interferência urbana, o áudiovisual e a palavra falada e escrita.

Lavro e dou fé que é tudo verdade. Seu talento veloz, inquieto, inventou essa coisa incrível chamada Máquina de Inscrever, que compartilhamos aqui com vocês. A Máquina é uma entidade polissônica, convergência de vozes e pensamentos, ideias, sintetizada numa série de programas, de cerca de uma hora de duração. Esses programas da Máquina de Inscrever são colagens sonoras, com densidade poética e viés atento à realidade nos seus tantos planos. São um tecido feito de muitas colaborações, finamente costuradas por Paloma. uma obra de multiautoria! As fontes são muitas…. arquivos de domínio público, áudios vazados de grupos de WhatsApp, contribuições sonoras de artistas brasileiros e de outras nacionalidades que trabalham com experimetações sonoras, poetas de regiões diferentes do país e peças sonoras produzidas à partir de derivas urbanas.

Repito que a capacidade criativa de Paloma Klisys, seja na Máquina ou em outros projetos, é enorme. E também inspiradora. Instigante. Uma artista movida pelo mundo ao seu redor e que nos surpreende constantemente com seu trabalho que nunca para.

E agora, sem mais desvios, as edições certeiras da Máquina de inscrever!



Para conhecer mais e melhor o trabalho de Paloma Klisys visite seu site em:
www.labirintoonirico.com.br

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