Pernambuco dos canaviais

Kuruma’tá traz hoje uma preciosa colaboração do pernambucano Amândio Cardoso. Nascido na cidade do Recife, Amândio nos oferece um poema de sua lavra, de uma atualidade danada!

Kuruma’tá traz hoje uma preciosa colaboração do pernambucano Amândio Cardoso. Nascido na cidade do Recife, Amândio nos oferece um poema de sua lavra, de uma atualidade danada!

Poema de Amândio Cardoso


A partir de original foto de José Reynaldo da Fonseca | Sob Creative Commons

Eram as peles brancas das donas meninas magras que viam as peles negras gordas mexerem panelas pesadas de cobre, doce, goiaba.

Eram peles negras que viam as folhas das plantações de cana a cortarem a pele ao sol, a faca a cortar a pele do sol a queimar.

Eram peles brancas que viam o açúcar branco na mesa branca de linho engomado por peles negras.

Eram peles negras que viam o verde caldo no cobre virar uma cor de gosto de suor, doce.

Eram peles brancas e negras que viam na mesa branca de linho engomado, a prata, o ouro e o açúcar das peles escuras, o escurecer do dia.

Eram as peles negras que choravam e as peles brancas que se calavam, eram peles brancas que pediam, eram as peles negras que serviam.

Era a cor branca da casa iluminada ao jantar, e a cor vermelha da parede de cal, sangue de lágrimas que viam o luar.

Era a cor branca sobre a cor negra.


Amândio Cardoso é natural de Recife, nascido no Derby em dezembro de 1968, criado entre a Madalena e Casa Caiada, em Olinda. É luso descendente, filho de pai português e mãe pernambucana. Estudou em Olinda na infância, fez os seus estudos depois em Recife e formou-se em Publicidade pela Universidade Federal de Pernambuco. É publicitário, empresário e escreve.

A foto que ilustra o texto está sob licença Creative Commons e não foi produzida para a Revista Kuruma’tá. É uma recriação a partir de foto original de José Reynaldo da Fonseca. Confira a licença.


Beth Carvalho seguirá sempre “Muito na onda”

Minha pequena homenagem procura jogar luz em momento de sua carreira que não é muito conhecido. Trata-se de do disco “Muito na onda”, do Conjunto 3D. Antes de se tornar uma das principais vozes do samba, Beth Carvalho integrou a formação desse conjunto, um desdobramento do Trio 3D, do mestre Antônio Adolfo. [Texto de Jorge LZ | Programa na Ponta da agulha]

Texto de Jorge LZ | Programa na ponta da agulha


Em um ano que já mostrou que não está aí para brincadeiras, perdemos uma das figuras mais importantes da música popular brasileira: Beth Carvalho. É impossível não sentir o baque. Temos muito a lamentar, pois perdemos não só uma grande cantora. Perdemos, antes de tudo, um ser humano exemplar, que revelou vários talentos e sempre teve uma postura digna em relação ao Brasil, defendendo sempre a cultura e a cidadania.

Minha pequena homenagem procura jogar luz em momento de sua carreira que não é muito conhecido. Trata-se de do disco “Muito na onda”, do Conjunto 3D. Antes de se tornar uma das principais vozes do samba, Beth Carvalho integrou a formação desse conjunto, um desdobramento do Trio 3D, do mestre Antônio Adolfo, que como se não bastasse seu indiscutível talento musical, ainda foi o responsável por “Feito em casa”, primeiro disco independente da música popular brasileira, que foi lançado em lançado, em 1977 (mas isso é outra história…).

O Trio 3D era formado por Antonio Adolfo, Catcho Pomar (depois substituído por Carlos Monjardim) e Nelson Castro. Nos dois discos lançados, “Tema 3D” (1964) e “Trio 3D convida” (1965), participaram ainda Dom Um Romão, Arísio Rabin e Claudio Roditi no primeiro, e Raul de Souza, Maciel, Paulo Moura, J. T. Meirelles e Eumir Deodato, no segundo.

Em 1967, Antonio Adolfo mudou o nome para Conjunto 3D e mudou a formação do grupo, que passaria a contar com Nelson Castro (único da formação original), Gusmão, Helio Delmiro, Rubens Bassini, Jorginho Arena, Eduardo Conde e… Beth Carvalho. Beth, que já tinha lançado dois anos antes um compacto com as músicas Namorinho (Mário de Castro e Athayde) e Por quem morreu de amor (Roberto Menescal e Roberto Bôscoli), arranjadas por Eumir Deodato, despontava como uma das promessas da época. Promessa que acabou se concretizando em 1968, quando defendeu Andança, de Edmundo Souto, Paulinho Tapajós e Danilo Caymmi, no III Festival Internacional da Canção, em 1968.

Em “Muito na onda”, Beth mostra talento e desenvoltura em um repertório de bossa jazz, que mistura música brasileira e americana, de alguns jovens compositores, como o próprio Antonio Adolfo (Patruíra),  Marcos e Paulo Sérgio Valle (É preciso cantar e Sonho de lugar) e Gilberto Gil e João Augusto (Roda); e outros já consagrados, entre eles, Cole Porter (I’ve got you under my skin e Night and Day) e Herbie Hancock e Jon Hendricks (Watermelon man).

O jornalista, ator e compositor, Sérgio Malta, escreveu um texto na contra capa do disco e refere-se à Beth da seguinte forma “… O conjunto 3D desta vez enriquecido pela presença de Beth Carvalho… Beth é aquela coisinha linda que vem se apresentando em algumas das principais emissoras de TV do Rio e São Paulo. Canta gostoso à beça…”

Pois é, Beth sempre cantou bonito e sua voz e sua presença seguirão conosco, pois seu legado é gigante. Nos dias de hoje, em que vemos a burrice tomar conta de boa parte da sociedade, precisamos mais do que nunca nos inspirar na força e no talento de Beth Carvalho para que dias melhores venham!

Salve, Beth!


Na ponta da agulha é um site parceiro do Kuruma’tá! Jorge LZ produz e apresenta o programa na Ponta da Agulha, na Rádio Graviola. Confira: napontadaagulha.ml


Recife: Invenção e Estação

Nordeste, século XXI. Recife literária. Uma cidade assinada pelo verbo, pelas lentes culturais de autores modernos e contemporâneos como Jomard Muniz de Britto, Pietro Wagner, Delmo Montenegro, Everardo Norões, Siba Veloso, Marcelino Freire, Frederico Barbosa, Deborah Brennad, Majela Colares e Marco Pólo, dentre outros. [Texto de Nonato Gurgel]

Texto de Nonato Gurgel


Nordeste, século XXI. Recife literária. Uma cidade assinada pelo verbo, pelas lentes culturais de autores modernos e contemporâneos como Jomard Muniz de Britto, Pietro Wagner, Delmo Montenegro, Everardo Norões, Siba Veloso, Marcelino Freire, Frederico Barbosa, Deborah Brennad, Majela Colares e Marco Pólo, dentre outros.

I
o eco no bojo da macaíba’

O Nordeste configura-se, na Historiografia literária brasileira, como um dos espaços que mais produzem literatura. Principalmente poesia. Desde as estéticas da modernidade, no início do século XX, há uma conexão potente entre as poéticas modernas e os autores nordestinos, sejam eles Manuel Bandeira, João Cabral, Joaquim Cardoso, Hermilo Borba Filho, Ariano Suassuna, Sebastião Uchoa Leite (PE), Ferreira Gullar (MA), Mário Faustino (PI), Augusto dos Anjos (PB), Sosísgenes Costa (BA), Jorge Fernandes e Zila Mamede (RN) e Jorge de Lima (AL), além de muitos outros.

Essas poéticas são frequentemente resgatadas, como demonstram duas coletâneas: Invenção Recife, org. por Pietro Wagner e Delmo Montenegro, e Estação Recife, org. por Everardo Norões. Chama atenção, nesses poetas, as conversas com a tradição literária, e como esse diálogo parece escasso entre eles, poetas contemporâneos. Múltiplas formas e estéticas os inscrevem. Nessa inscrição, cada poeta, cada livro, cada poema parece sinalizar em si o esboço de uma poética particular.

Ou seja: tudo ilha. Esse isolamento é sugerido num poema de Pietro Wagner na coletânea Invenção Recife: ilha/ retém tuas águas/ para que se faça a cor do teu próximo dia. Do mesmo volume vem o aviso do escritor Jomard Muniz de Britto, acerca desse isolamento como mal poético: ‘…atenção, amantes do Parnaso: o auto-exílio pode ser a pior das doenças.’ Na apresentação, Fabrício Marques assinala a irreverência pernambucana, sinalizando sua vocação para a negação e o corte: Literatura navalha contra o papo raso da elite vesga.

Cartão posta com vista aérea da cidade do Recife

Para inventar esse Recife poético, foram selecionados dez autores, como o citado tropicalista Jomard Muniz. O poeta dos ‘arrecifes do desejo’ lança sua ‘bula’ para inscrever uma outra ‘doença de chagas tropicalistas’; na sua hommage a Murilo Mendes, ele constrói um “jogo de espelhos” que faz convergir, num mesmo verso, autores díspares como Shakeaspeare, Descartes e Leminski: adeus, hamlet. a deus, descartes. ao tudo, catatau.

A herança concretista da antologia é lida na “CAMISADEVÊNUS” de Marcelino Freire. Na sua hommage a Carlos Drummond, o leitor relê no celebrado verso ‘No meio do caminho tinha uma pedra’, a porção de sísifo na letra mineira. Destaca-se ainda Frederico Barbosa (Prêmio Jabuti de Poesia por Nada feito nada) e sua “Vocação do Recife” (Faca clara/ que ainda fala/ não), produtivo diálogo com Bandeira e sua “Evocação do Recife”.

Esse dialogismo com poetas pernambucanos pode ser aferido em vários textos do livro, principalmente em Siba Veloso. Mestre de maracatu, músico do grupo “Mestre Ambrósio”, ele é produtor de um dos versos que parece sintetizar o ritmo e o (des)compasso dessa Invenção Recife: Eu canto imitando os meus. A imitação desse canto resgata matrizes musicais da oralidade nordestina, põe o leitor de ouvido nos efeitos acústicos, significantes, como no verso …o eco/ no bojo da macaíba…

II
Quando a palavra muda a cor do dia

Estação Recife abre com o belo poema ‘Hoje’, de Deborah Brennad, autora de oito livros. Pertencente à geração de Ariano Suassuna e Hermilo Borba Filho, ela se destaca com uma poética enxuta, centrada na inscrição do tempo, como demonstram os seus títulos nesta antologia: Hoje, Dia é dia, Senhor tempo, Dezembro

Comparada com Invenção Recife, essa Estação…, apresenta autores com vasta produção literária e formação acadêmica. Alguns textos são caudalosos, como no belo poema ‘Alpendres e Currais’, de Majela Colares, na Litania que o jornalista e compositor Marco Pólo Guimarães dedica ao conterrâneo Osman Lins, ou no ‘Poema de despedida ao que parte’, de Maria de Lourdes Hortas.

Neste livro, os temas e as referências parecem mais centrados nos motivos regionais e autorais, sejam eles: Graciliano Ramos, Joaquim Cardozo, Jackson do Pandeiro, Olinda, Recife, o sertão nordestino, os silêncios rurais, as formas e os ferros dos engenhos, arrebóis e currais…. Através desses temas e motivos, a maioria desses autores parece celebrar a lição de Marco Pólo Guimarães: “Aprendi que só valem a pena as palavras/ que mudem a cor do dia”.


BIBLIOGRAFIA

MONTENEGRO, Delmo. e WAGNER, Pietro. (Org.). Invenção Recife. Coletânea Poética 2. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2004.

NORÕES, Everardo. et al. (Org.). Estação Recife। Coletânea Poética 2. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2004.


Texto de Nonato Gurgel
(Ilustração de Toinho Castro a partir de cartão postal sem data, mostrando o Marco Zero, no Recife, e imagem do poema Visão do último trem subindo ao céu, de Joaquim Cardozo, de 1970)

Vestindo o Brasil

A gente quando pensa em artes plásticas pensa sempre em quadros pinturas a óleo, esculturas ou gravuras. Mas tem essa arte circular, a arte da camiseta, que se insere numa mídia pop, mas que pode abarcar tradição, releituras culturais, experimentalismos e transcender o simples vestir.

Texto de Toinho Castro


Vamos falar aqui de uma beleza de trabalho que conhecemos ao visitar, pela primeira vez, a FIQC – Feira Independente de Qualquer Coisa, que é realizada na Tijuca, aqui no Rio de Janeiro, na querida praça Saenz Peña, a cada dois meses. A FIQC, por si própria, merece um texto dedicado, pelo trabalho que essa turma desenvolve com o pensamento e o fazer voltados para a tarefa linda de organizar e trazer para a rua, ou para a praça, a produção independente em áreas como arte, culinárias, moda e outras inventividades de quem bota a mão na massa para criar o novo.

Ali, entre as barracas da FIQC, demos de cara com a arte delicada da Gandã Brasil, dos irmãos Enrique e Ana Melo Quintslr, que então se chamava Dibamba e que mudou de nome porque mudar é bom, é redesenhar a própria história. Quando se anda numa feira os olhos da gente ficam vagando atentos em busca de cosias que nos despertem, que nos encantem. Mal bati os olhos nas estampas da Gandã meus olhos brilharam certeiros. Havia ali um chamado potente, ancestral quase, em linhas simples e carregadas de sentido. Comoveu.

A gente quando pensa em artes plásticas pensa sempre em quadros pinturas a óleo, esculturas ou gravuras. Mas tem essa arte circular, a arte da camiseta, que se insere numa mídia pop, mas que pode abarcar tradição, releituras culturais, experimentalismos e transcender o simples vestir. Se a camiseta tem algo de comunicação, as peças da Gandã, pensadas milimetricamente pela artista Ana Melo Quintslr, responsável pelas estampas que trazem vivamente os traços do Brasil profundo, dos gestos, das histórias, das pessoas, das fés.

A estamparia da Gandã, que leva jeito de gravura, desconhece fronteiras ao falar do disso tudo, passando pelas matas, pelos sertões, pelos subúrbios urbanos, pelos grafismos das gentes que habitam os recônditos da nação.

Conversamos na semana passada com a Ana, que contou a história dessas ideias. De como seu irmão com o dom empreendedor juntou-se a ela, que trouxe o outro dom, do fazer artístico, para juntos dialogarem com o Brasil e transmitirem essa conversa via camiseta! E sempre participando dos espaços independentes, como a FIQC e outras feiras que circulam pela cidade; sempre valorizando, com originalidade, essa independência.

Então do mesmo jeito que recomendo um livro, uma peça que tá na rua e merece ser vista ou uma exposição de fotografia, eu recomendo uma camiseta com estampa da Gandã, desses dois irmãos que são, para além de tudo, gente boa e pura simpatia. Recomendo vestir essa arte vibrante e brasileira, que nos fala do que somos.


Para descolar os produtos da Gandã, fique de olho na agenda da FICQ – feira Independente de Qualquer Coisa e no Facebook da própria Gandã Brasil.

Clique aqui para a loja online.


Texto de Toinho Castro

Passagem Malakoff

Na Aloísio Magalhães, então galeria, havia uma ampla sala dedicada a uma uma série de pinturas do João Câmara chamada Cenas da Vida Brasileira. Essas pinturas sempre me impressionaram e recordo de sempre vagar por elas, apreciando suas dimensões enormes e os detalhes da tinta sobre os painéis enormes, a precisão dos pincéis criando aquelas cenas tão realista mas recheadas de elementos tão inesperados. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Não sendo crítico de arte, ou mesmo conhecedor mais dedicado do tema, resta-me falar do maravilhamento diante de uma obra de arte. E é isso que pretendo aqui fazer ao comentar certa obra do pintor paraibano João Câmara.

Entre uma e outra onda
da nossa tempestade
podíamos avistá-la.

Recordo que no Recife, onde hoje é o Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães – MAMAM, ali na rua da Aurora, de frente para o Capibaribe e o sol que nasce iluminando a cidade, funcionava a Galeria de Arte Aloísio Magalhães. Era um lugar que eu gostava de visitar, sempre que podia. Lá cheguei a participar de duas coletivas, com desenhos feitos com pastel, cenas urbanas, escuras, quase apocalípticas, bem diferentes da vista que eu tinhas das janelas e sacadas do museu. O rio Capibaribe, moroso, carregando Pernambuco e sua história para tudo se desmanchar no mar.

João Cabral de Melo Neto, no seu Cão sem plumas, fala desse encontro/embate do rio Capibaribe com o mar…

O rio teme aquele mar 
como um cachorro 
teme uma porta entretanto aberta, 
como um mendigo, 
a igreja aparentemente aberta. 

Primeiro,
o mar devolve o rio. 
Fecha o mar ao rio 
seus brancos lençóis. 
O mar se fecha 
a tudo o que no rio 
são flores de terra, 
imagem de cão ou mendigo. 

Na Aloísio Magalhães, então galeria, havia uma ampla sala dedicada a uma uma série de pinturas do João Câmara chamada Cenas da Vida Brasileira. Essas pinturas sempre me impressionaram e recordo de sempre vagar por elas, apreciando suas dimensões enormes e os detalhes da tinta sobre os painéis enormes, a precisão dos pincéis criando aquelas cenas tão realista mas recheadas de elementos tão inesperados. Eu ficava a reconhecer personagens como Getúlio Vargas e Carlos Lacerda, vivendo de uma maneira muito peculiar, muito minha, a história do Brasil, que ali saía dos livros de modo surpreendente. De um dos cantos, ou da janela, de costas para o Capibaribe, eu costumava contemplar o salão com todos aqueles imensos quadros, como janelas no tempo. E aquilo era obra de uma pessoa. Isso sempre me impressionou e ainda me impressiona.

Nunca mais estive lá mas creio que os quadros ainda façam parte do acervo do Museu, ou se estão expostos. Uma grande experiência apreciá-los. E essa apreciação me levou ao mundo de João Câmara. Anos depois, longe do Recife e num futuro com internet, dei-me a pesquisar por João Câmara. Queria rever as Cenas da vida brasileira, mesmo miúdas no browser. Senti falta daquelas tardes, em alguma tarde em que o Rio de Janeiro me pareceu pouco, ou injusto. Nessas horas, compreensivelmente, eu me voltava para o Recife. Acabei lendo mais sobre João Câmara, seus outros trabalhos, tantos, que eu  não conhecia. E cheguei a esse quadro, chamado Passagem Malakoff. Na verdade um díptico, uma composição de dois quadros, ilustrando uma torre que se ergue no porto do Recife. A Torre Malakoff, construída entre 1853 a 1855, como observatório e portão monumental do Arsenal da Marinha, foi assim batizada pelos recifenses, em referência a uma fortaleza de mesmo nome, próxima à cidade de Sebastopol, onde russos e franceses se enfrentaram na Guerra da Criméia, que estava acontecendo e ilustrando os jornais provinciais naqueles mesmo período.

Numa época sem Google, ou sequer internet, pesquisar seu trabalho não era simples mas de alguma forma descobri um dos seus quadros, provavelmente em alguma publicação, que me marcou profundamente; um quadro que nunca tive a oportunidade de ver pessoalmente: O díptico Passagem Malakoff. uma pintura a óleo de sobre madeira e tela, representado a Torre Malaokff, numa vista de quem entra no porto do Recife.

Observar essa tela foi como uma viagem no tempo e um reencontro. Não, não há misticismo nessas palavras, mas o assombramento do viagem artística que saltou na minha mente: Já vi isso, pensei. Tempos depois cheguei mesmo a sonhar com essa cena, em que eu boiava numa pequena embarcação à entrada do porto, vendo a torre iluminada por alguma lua e os faroletes ver de vermelho marcando a passagem para as águas seguras do ancoradouro. Escutava o ruído da água batendo no casco de madeira do barco e a talvez os ruídos da cidade logo ali adiante. Mas até hoje não sei se, no sonho, eu estava chegando ou partindo do Recife. Mas a imagem da torre Malakoff, nos termos que João Câmara pintou, era agora minha. Há nela algo mesmo de sonho e talvez esse fio onírico tenha nos conectado.

Como afirmar se sonhei o que ele pintou ou se ele pintou o que eu sonharia?

Quando visito o Recife procuro sempre ver a torre, que foi erguida como parte do Portão Monumental do arsenal da Marinha e também observatório. Hoje é um espaço cultural, onde são promovidas exposições e outros encontros. Nunca subi ao seu terraço, para ver do alto a cidade que eu ansiava ou abandonava no meu sonho. Tenho uma velha fotografia, provavelmente dos anos 1920, que traz essa vista ensolarada de um Recife que já não existe. Sem dúvida uma foto que foi tirada do alto da torre.

Da última vez que visitei a cidade atravessei para o molhe que protege o porto, onde fica o parque de esculturas de Francisco Brennand. De lá vi a torre, pequena, sem a monumentalidade do sonho ou da pintura. Ainda assim meu coração vibrou com aquele marco, parecendo solitário sobre a planície aluvial sobre a qual Recife cresceu. Solitário como eu, ali no molhe entre o porto e o Atlântico.

Passagem Malakoff (díptico) | Óleo sobre tela e madeira 211 x 162 cm
Compõe a série Duas Cidades, do pintor paraibano João Câmara

Recomendo fortemente aproveitar os link nesse texto para conhecer o trabalho de João Câmara, especialmente as séries Cenas da vida brasileira e Duas cidades, da qual a Passagem Malakoff faz parte.

https://youtu.be/79KtzkVhrsg
https://youtu.be/Na1Ie4OB0_8

Texto de Toinho Castro

Uma obra de arte chamada “Eu sou o Rio”

Cultuado e disputado a tapa nos dias de hoje, o LP saiu pelo selo Plug, que era um braço da gravadora BMG dedicado ao indie da época, abarcando trabalhos diversos, como De Falla, Violeta de Outono e o fundamental Picassos Falsos, entre outros. [Tetxo de Jorge LZ —Na Ponta da Agulha]

Texto de Jorge LZ | Programa na ponta da agulha


Mostrando que a Cidade Maravilhosa não era apenas aquele manjado cartão postal ensolarado, o grupo carioca Black Future criou um dos discos mais inquietantes lançados em terras tupiniquins e que segue atual, mesmo tendo saído em 1988 – “Eu sou o Rio”.

As cabeças pensantes do grupo – Mario “Satanésio” Bandeira e Tantão – criaram um verdadeiro bestiário da alma carioca que transitava no submundo de lugares como a Lapa e a Galeria Alaska. Tentando explicar (o inexplicável), dá para dizer que Eu sou o Rio é um mistura de pós punk inglês, krautrorock, Talking Heads (da estranheza de músicas como I Zimbra, do Fear of music), samba, concretismo, Madame Satã e os morros cariocas… tudo isso envolvido por uma bruma lisérgica. Os malandros, os travestis, o caos e a loucura da grande cidade sobrepõem-se o easy going dos surfistas, das gatinhas, da galera da malhação e dos cidadãos de bem. No nights, Reflexão, Piada, Teatro de horror e a clássica faixa título são músicas que ironizam as instituições tradicionais: família, religião e estado e destilam desprezo pelo que é padronizado.

Cultuado e disputado a tapa nos dias de hoje, o LP saiu pelo selo Plug, que era um braço da gravadora BMG dedicado ao indie da época, abarcando trabalhos diversos, como De Falla, Violeta de Outono e o fundamental Picassos Falsos, entre outros. Na época de seu lançamento, o disco vendeu pouco e foi muito mal trabalhado pela gravadora. Completando a equação, o Black Future estava muito à frente de seu tempo e, por isso, um tanto quanto incompreendido. O público, que era ávido pelo pop direto, teve dificuldade com a trilha sonora proposta pelo grupo para um Rio de Janeiro caótico e apocalíptico.

Ao lado de Satanésio e Tantão, estavam Edinho, Olmar Jr. e Lui (figura conhecida e querida, que acabou virando nome de disco do Paralamas – O passo do Lui). Eu sou o Rio contou com participações estelares: Alex Antunes (Akira S. & As Garotas Que Erraram), Biba e Edu K (ambos do De Falla), Chacal, Edgar Scandurra (Ira!), Paulo Miklos (Titãs), Ronaldo Pereira (Finis Africae), Sartori (conforme o encarte, o pianista e ala no basquete, foi cedido gentilmente pelo Club de Regatas Vasco da Gama!) e Thomas Pappon (Fellini), que também foi o responsável pela produção.

Único registro feito pelo Black Future, “Eu sou o Rio”, que nunca foi reeditado (nem em CD), é mais que um disco, é uma obra de arte com toda amplitude que isso pode significar. Impossível passar indiferente por ele, já que é provocativo, é dedo na ferida, é nervo exposto.

O Black Future criou em 1988 um instantâneo com as contradições da Cidade Maravilhosa… passados 31 anos, os versos finais da música título continuam a nos assombrar:

… O Rio do desespero e da maldade
O Rio da mediocridade
O Rio da falta de sonhos
O Rio, o Rio, o Rio…

https://www.youtube.com/watch?v=yVQyrm35b5Y

Texto de Jorge LZ


Na ponta da agulha é um site parceiro do Kuruma’tá! Jorge LZ produz e apresenta o programa na Ponta da Agulha, na Rádio Graviola. Confira: napontadaagulha.ml


Lucia Berlin, te amo

Lendo o “Manual da Faxineira”, da Lucia Berlin. Todo dia penso em postar “Lucia Berlin, te amo.” Todo dia, desde o meu aniversário, um estarrecimento. Nunca li nada igual. Claro que se pode falar isso de muitos autores, mas essa daí tá me tirando do sério, no melhor dos sentidos. O livro, de contos, tem pouco mais de 500 páginas. [Texto de Terêncio Porto]

Com você a primeira colaboração do caríssimo Terêncio Porto, esritor, poeta, artista audiovisual, que chega na lagoa serena do Kuruma’tá revirando as águas e trazendo à tona a escritora norteamericana Lucia Berlin. Bem-vindo, Terêncio!

Toinho Castro (Editor)

Texto de Terêncio Porto


Oaxaca, México, 1964

Lendo o “Manual da Faxineira”, da Lucia Berlin. Todo dia penso em postar “Lucia Berlin, te amo.” Todo dia, desde o meu aniversário, um estarrecimento. Nunca li nada igual. Claro que se pode falar isso de muitos autores, mas essa daí tá me tirando do sério, no melhor dos sentidos. O livro, de contos, tem pouco mais de 500 páginas. Pouca gente sabe quem é ela, a Lucia, isso tendo em vista que ela – mais um hit póstumo desse mercado macabro que é o literário, o verdadeiro exército dos White Walkers – entrou em moda recentemente. Foi descoberta. Estou já na reta final do livro e, depois de tanto conto que me deixou profundamente mexido de um jeito diferente etc (fiquei aqui buscando uma palavra, já tinha usado “estarrecimento”, então “estarrecido”, que seria a escolha natural, não dava pé, ia meter um “boquiaberto”, soou muito empolado, fiquei com isso aí mesmo), a maioria abertamente autobiográfico, agora parece que Lucia meteu uma quarta marcha na saída da curva e emendou 3 contos seguidos, a saber, “Carmen”, “Silêncio” e “Mijito”, que simplesmente foram as 3 paradas mais brutais que eu já li na minha vida.

Não sou um grande leitor de contos, mas, apesar disso, um dos meus dois livros de cabeceira é de contos, e na verdade ele é uma pequena coleção de livros de contos, o “Contos Reunidos”, do Rubem Fonseca, uma soma quase total de tudo que ele havia publicado até o começo dos anos 90, ou seja, ouro puro, e na ordem certa. Dá pra ver a musculatura se desenvolvendo (só lia ele fora de ordem, só recentemente reli na ordem natural, pra constatar isso, sendo que o mais forte não é necessariamente o mais bonito). Acho que ele pediu pra excluir um conto, por isso é quase total, mas não importa. Eles são bem conhecidos, consagrados como pérolas, todas MUITO brutais, tanto na forma como no conteúdo, sintonia perfeita entre as partes. Se é pra usar uma palavra só, tem que ser essa: brutal. Porque violento pacas, bem como certeiro. Se vem em tom maior ou menor, não importa, sempre cutuca as vísceras.

Bom, o fato é que Lucia já tinha me surpreendido com uma infância que incluiu arrancar os dentes remanescentes do avô dentista pra que ele pudesse usar sua nova dentadura, ocasião na qual se ele desmaiasse de dor era melhor pra todo mundo, já tinha me surpreendido com um mal fadado aborto clandestino na fronteira México – EUA, anos 50, me surpreendido com o maior suspense e as maiores vibrações do ponto de vista de uma mulher linda e terna, fracassada, traumatizada, marginal, sobrevivente, querendo viver, se debatendo, querendo viver, sem parar. Histórias e memórias sobrepostas como uma pilha de panquecas depois de um terremoto, overlaps de intimidades e cacos de enredos biográficos que se repetem fragmentadamente, e que fazem muito mais e maior sentido como teia de emoções, isso sem tirar nem um pouco o mérito da prosa seca e precisa demais, além das tramas de tirar o fôlego etc, muito pelo contrário, um lance iluminando o outro, sem parar.

“Joe disse que era afetado e falso, que eu só devia escrever sobre o que eu sinto, não inventar uma coisa sobre um velho que eu nunca conheci. Eu não me importo com o que eles disseram. Li o conto centenas de vezes.

Claro que me importo.”

“Perguntei a Kentshereve como ele achava que era. Ele levantou a mão e a encostou na minha, de modo que todos os nossos dedos se tocassem, depois me falou para passar o polegar e o indicador pelos nossos dedos que estavam encostados. Não dá para saber qual é qual. Deve ser algo assim, disse ele.”

“Nunca ocorre a ninguém que, tendo vivido no Chile, é natural que eu goste de um latino, alguém que sente as coisas.”

Mas aí chegaram esses 3 contos e colocaram a coisa em um patamar ainda acima, aquela estante inalcançável da casa do seu avô, onde ficava guardada alguma coisa tão especial que você não conseguia nem imaginar o que era. Fizeram o Rubem Fonseca, no seu melhor, parecer light. Isso mesmo. Rubem Fonseca top, bolacha de arroz; Lucia Berlin no “Manual da faxineira”, porquinho a pururuca. Foi duro enfrentar esses contos. E tinha tido um, um pouco antes, se não me engano o anterior ao anterior, “Quero ver aquele seu sorriso”, que tinha sido uma obra prima, estruturado de maneira maior e mais possante que os primeiros da fila, inclusive com um plot em que uma das partes tem um puta sotaque Chandleriano, sendo que praticamente tudo antes era perfeito, então vá explicar, só lendo mesmo. É inacreditável. Toda vez que o mercado descobre uma autora ou um autor postumamente, revelando-a como dinamite pura, muito melhor que 99% de tudo que é publicado, eu penso: “Filhos da puta, não são vocês quem escolhem, são vocês que excluem”.

Obrigado, Lucia, te amo.


Lucia, Jeff e Mark, Acapulco, 1961.
Foto: Buddy Berlin

Credor lunático e lavrador quixotesco, Terêncio Porto comete em conluio com sua sombra artimanhas dotadas de asas. Constrói sendas em paragens antigas e cria runas, as quais pastoreia com suas 4 gatas de sol a sol, até que só restem gêiseres de solidões abruptas e sem step.

Terêncio acaba de lançar seu primeiro livro de poesias. No bolso do peito uma bússola quebrada foi lançado pela Editora Viés e pode ser adquirido clicando aqui!

Fotos: ©2018 Literary Estate of Lucia Berlin LP


HQs e poesia na Paraíba dos anos 80

Estava tentando escrever um trabalho crítico sobre Piteco-Ingá, edição de luxo de Shiko a partir do clássico personagem de Maurício de Souza. Fui revolver minha pequena dúzia de livros para ver se encontrava alguma luz norteadora. Elenquei: Alex Ross, Will Eisner, Moaci Cirne, Álvaro de Moya, Goida, Pierre Couperie, Maurice Horn, Umberto Eco e um bocado de coisa. [Texto de Aderaldo Luciano]

Texto de Aderaldo Luciano


Estava tentando escrever um trabalho crítico sobre Piteco-Ingá, edição de luxo de Shiko a partir do clássico personagem de Maurício de Souza. Fui revolver minha pequena dúzia de livros para ver se encontrava alguma luz norteadora. Elenquei: Alex Ross, Will Eisner, Moaci Cirne, Álvaro de Moya, Goida, Pierre Couperie, Maurice Horn, Umberto Eco e um bocado de coisa. Sou um aficionado da banda desenhada e um observador. Não sou um estudioso, embora tenha me metido com Joe Sacco e Marjane Satrapi, Hal Foster e Alex Raymond. Mas o melhor de tudo é que, entre eles, ali na quina da estante, escondidinho como um vagalume de dia, estava A Incrível História Dos Quadrinhos – 20 Anos De HQ Da Paraíba, de Henrique Magalhães.

Uma produção da Marca de Fantasia, da Acacia e Sancho Pança, saída em 1983, merecia, por parte da intelectualidade paraibana, uma comemoração. Reli-o imediatamente, rindo e aprendendo, relembrando que o encontrei, por incrível que pareça, num sebo no Rio de Janeiro. Além de historiografar, Henrique Magalhães consegue arejar nossa cabeça e nos alerta para o elemento mais arrojado do autor de quadrinhos: a persistência. Em suas páginas reencontramos, no passado, os amigos do presente. Heróis nascidos da pena e da caneta e da ousadia oferecem aos de hoje a possibilidade de trilhar um caminho de certa forma mais leve. Nesse ponto foi me afastando do que me levara até ele, agora.

Outro dia, Bráulio Tavares citava o Flama, personagem de Deodato Borges. Um caso no qual o personagem saiu de um programa da Rádio Borborema de Campina Grande direto para o papel em As Aventura Do Flama. O herói campinense, vestindo o mesmo colant, a capa e aquela máscara mínima foi um sucesso que durou 5 números. Consegui, num desses milagres, encontrar um número lá no Cata-Livros, sebo na rodoviária velha, nem sei mais como, já na década de 80, que perdeu-se nessas minhas viagens. Por outro lado, Welta, de Emir Ribeiro, aquela heroína gostosona, era a mulher que todos nós, adolescentes, gostaríamos de encontrar. E nós a encontramos pela primeira vez num suplemento da revista da FUNESC, chamado Leve Metal, se não me engano.

Henrique Magalhães, nesse seu trabalho, faz o inventário desses episódios: entre suplementos e heróis e tiras e autores. Fiquei ainda mais feliz porque revi a inesquecível Maria, personagem solteirona, muitas vezes ácida, outras ingênua, outras sonhadora, de quem eu gostava com todo o afeto porque era a cara de minha tia Joana. Para quem quer ter um olhar sobre as origens de nossas HQs paraibanas é um ótimo encontro. Nesses momentos medonhos e decisivos nos quais o jornalismo paraibano, a “imprenÇa”, como escreveria Japiassu, se meteu, parece que há uma tênue luz de dignidade, vinda do passado.

Agora a Carro de Boi: quando começaram os anos 80, nós, adolescentes que pensávamos em poesia no interior da Paraíba, não conhecíamos os autores paraibanos. Desconhecíamos o movimento Sanhauhá e sabíamos muito pouco do Jaguaribe Carne. Conhecíamos mais o cinema documental com as figuras de Wladimir de Carvalho, Linduarte Noronha, Machado Bittencourt, João Ramiro Neto e Ipojuca Pontes.

A pequena cidade de Areia, na região do Brejo, abrigava por essa época o seu Festival de Artes, reunindo peregrinos das artes de todo o Brasil. No ano de 82, chegava às nossas mãos alguns livros produzidos pelo Governo do Estado, sob o comando de Tarcísio Burity. A antologia Carro de Boi – a nova poesia paraibana, organizada por Juca Pontes, publicada no ano anterior, foi a primeira carta de orientação para nós.

Nela, estavam os novos. Aqueles que faziam a poesia na Paraíba. E nós, que nos julgávamos os novos, chegáramos a conclusão de que não éramos nada. A Carro de Boi, todavia, não trazia autores interioranos, os que como eu, morávamos no interior. Estava recheada de autores radicados na capital ou em Campina Grande (que não era bem o interior)a mais importante cidade paraibana naquele momento. Não havia a política de interiorização das ações culturais e tudo rumava para o litoral. O Festival de Artes de Areia era uma excessão política.

A Carro de Boi foi importantíssima mesmo assim. Lembro-me de ficar discutindo com os colegas quem era o melhor poeta, se Saulo Mendonça ou José Leite Guerra. Figuravam na antologia dois nomes que seriam conhecidos nacionalmente: Zé Ramalho, cujo Apocalypse estava reproduzido quase na íntegra, ou mesmo na íntegra, e que viria a se transformar em sucessos musicais com os nomes de Canção Agalopada e Beira Mar, Beira Mar Capítulo II e Beira Mar Capítulo Final. E Braulio Tavares, com Caldeirão dos Mitos, gravada depois por Elba Ramalho.

Eulajosé Dias de Araújo, Águia Mendes, Políbio Alves, Jomar Souto, Aldo Lopes, Marcos Agra, Marcos Tavares, Arland de Souza Lopes, José Antonio Assunção e o próprio organizador Juca Pontes formavam o time representante do esquadrão poético paraibano. Outro, Sérgio de Castro Pinto, terminou por se transformar em nome de referência por seu engajamento poético e crítico, professor da Universidade Federal da Paraíba. Mas foi a Carro de Boi que o levou para o interior.

A Carro de Boi trazia uma epígrafe de Lúcio Lins, poeta que se solidificaria na década de 90, morto em 2005, que reproduzimos como ágora, ao redor da qual elevaram-se os edifícios:

bordam-se palavras
que calam as rendeiras
quando em seu ofício


depois de finda a renda
vestem-se os poemas
em vários exercícios.

(Lúcio Lins – Dois Movimentos) 


Desconstrução do Conselheiro

Enquanto as tropas não chegam, ouço aboios, ouço urros e berros, zumbidos, miados, cacarejos e pios ouço, ouço o estouro da boiada, o relógio da saudade. Do verde inverno gotejante, telhas, goteiras, capelas, igrejas que construímos juntos, cisternas, campos de futebol, rezas inventadas no solo seco do sertão sem ser só. Os beatos não são fanáticos, ah não são. [Texto de Nonato Gurgel]

Kuruma’tá traz até você a colaboração do parceiro, professor e poeta Nonato Gurgel. No texto inédito, o monólogo interior de Antonio Conselheiro, seus sonhos, memórias e viagens pelo tempo/espaço dos sertões da Bahia.

Texto de Nonato Gurgel


Sertões da Bahia, 1897
Enquanto as tropas não chegam


I

Desde Quixeramobim, no Ceará, nunca saí do Nordeste. Banhado pelo Vaza Barris, fui ficando pelos sertões de Canudos. Estoquei ventos, silêncios, palavras, fui ficando luz e sombra, fui virando louco e lenda, virei o Bom Jesus que eu não era quando o meu bem foi embora.

II

Deserdei pelo avesso. Peregrino do meio dia, fiz prédicas, comício aos bichos, pregações às pedras, aos córregos, passeios sob o sol pelas veredas sem fim. Prosas do fim da noite no chão de barro batido, conversas infindas no calor da hora, à luz do lampião na sala de reboco. Imagens e sinos do Belo Monte repicam no meu peito. Na verdade, repicam no meu corpo inteiro. Em sonhos que são Deus, trago nos olhos os templos repletos de rostos e sombras, Ana Bom Jesus, Beatinho, Benta, Pajeú, Leão de Natuba, tantos outros. Outros folheiam páginas, paisagens, lírios do campo, os bichos, as Horas Marianas. Não sou nada e nada tenho, além dos sonhos e do Breviário que não paro de escrever, os apontamentos, sermões.

III

Enquanto as tropas não chegam, ouço aboios, ouço urros e berros, zumbidos, miados, cacarejos e pios ouço, ouço o estouro da boiada, o relógio da saudade. Do verde inverno gotejante, telhas, goteiras, capelas, igrejas que construímos juntos, cisternas, campos de futebol, rezas inventadas no solo seco do sertão sem ser só. Os beatos não são fanáticos, ah não são. Têm ouvido treinado e saudades de Sebastião, o santo, o rei louco, ‘sim, louco, porque quis grandeza’. Escutam feito prece a chuva, os ventos do fim do dia. Avisados dos pecados republicanos, advinham os impostos, a mudança das estações, o silvo alado, o voo do vem vem que benze, a casca da serpente, a guerra do fim do mundo. Advinham também a escrita do futuro, Canudos todo por fazer, meu Deus, eles vão me degolar, como degolaram Zumbi, como degolarão Lampião, Gumercindo e tantos outros nessa história tropical de tropas, golpes e degolas.


Para José Celso Martinez Corrêa que me revelou o Conselheiro.


Texto de Nonato Gurgel

Nonato Gurgel nasceu em Caraúbas-RN, é professor do curso de Letras da UFRRJ e autor de miniSertão (2014), Luvas na Marginália (2016) e Nonada: floração da prosa no sertão (inédito).

Ilustração Toinho Castro, a partir de várias visões de Conselheiro

Jorge Mautner é cultura e amor

Dedicado ao parceiro Nelson Jacobina, falecido em 2012, “Não há abismo em que o Brasil caiba” traz 14 faixas (13 delas inéditas, a exceção é “Yeshua Ben Joseph”) compostas só por Mautner ou em parceria com os integrantes do Tono, Domenico Lancellotti e João Paulo Reys. [Tetxo de Jorge LZ —Na Ponta da Agulha]

Na Ponta da Agulha chegando na Kuruma’tá para trazer até nós a riqueza do novo disco de Jorge Mautner! Escrito e generosamente compartilhado por Jorge LZ!

Texto de Jorge LZ | Programa na ponta da agulha


Treze anos depois de “Revirão”, seu último disco lançado, Jorge Mautner está de volta com “Não há abismo em que o Brasil caiba”, acompanhado e produzido pela banda Tono – Ana Cláudia Lomelino, Bem Gil, Bruno Di Lullo e Rafael Rocha. O disco chega hoje em todas as plataformas digitais e também sairá em CD (pela gravadora Deck) e LP (pela Noize Record Club).

Além disso, a Editora Azougue começa a relançar seis volumes da obra completa de Mautner, a começar por “Deus da chuva e da morte”, romance de 1962, e o canal HBO exibirá a série “Kaos em ação”, com roteiro de João Paulo Reys.

O título do disco saiu de uma frase do filósofo português Agostinho da Silva, que achava que o Brasil tinha um futuro grandioso pela frente (assim esperamos!). Dedicado ao parceiro Nelson Jacobina, falecido em 2012, “Não há abismo em que o Brasil caiba” traz 14 faixas (13 delas inéditas, a exceção é “Yeshua Ben Joseph”) compostas só por Mautner ou em parceria com os integrantes do Tono, Domenico Lancellotti e João Paulo Reys. Em todas elas o Brasil é protagonista e algumas homenagens são feitas à Marielle Franco, Ruth, sua mulher há 50 anos, sua filha Amora e sua neta, Julia. Outros temas são a alegria carnavalesca, a educação e uma segunda abolição (que essa se cumpra agora, de fato e de direito).

Mautner costuma dizer que em suas músicas só cabem três acordes (em entrevista ao jornalista Leonardo Lichote, disse em tom jocoso que a entrada de um quarto acorde seria motivo de fuzilamento). Essa simplicidade, que poderia ser um fator limitador, na verdade é perfeita para realçar o pensamento Mautneriano, que em seu “humanismo cósmico” é ao mesmo tempo quântico e xamânico. Somado a tudo isso, a participação da banda Tono faz crescer ainda mais o brilho desse projeto. Bem Gil, Bruno Di Lullo e Rafael Rocha, que já acompanhavam Mautner desde 2013, recebem o reforço de Ana Cláudia Lomelino, artista espetacular, além de ser dona de uma das vozes mais bonitas da música brasileira contemporânea.

Nesse momento é significativo todo esse movimento proposto por Jorge Mautner. Levando-se em conta a fase horrorosa em que o país e o planeta estão mergulhados, a única salvação possível é através da cultura e do amor, e poucos artistas encarnam tão bem essas duas forças.

Salve, Jorge!


Na ponta da agulha é um site parceiro do Kuruma’tá! Jorge LZ produz e apresenta o programa na Ponta da Agulha, na Rádio Graviola. Confira: napontadaagulha.ml