Simples assim

Texto de Eduardo Maciel


Olá, meus queridos kurumateiros!

Nossa, como eu estava com saudades de vocês! Espero que estejam todos bem de saúde e que tenham tido um belo Natal. Independentemente da sua crença, independentemente de onde moram, a despeito das suas condições financeiras. Porque o Natal é sobre luz, sobre emanar boas energias. E quando muitas pessoas, ao mesmo tempo, no mesmo dia, emanam pensamentos bons, todo o planeta acaba envolto por essa vibração, e ela tem poder de cura. Simples assim.

E por falar em simplicidade, é sobre isso que vim assuntar com vocês hoje. No senso comum, o simples é tudo aquilo que não é complexo, certo? E todos sabemos (e como sabemos) que a vida é bastante complexa.

Mas isso se deve ao fato de que pensamos em nossas vidas de forma genérica, com tudo de bom e de ruim que a vida em si proporciona.

Já pensaram em analisar os dados e fatos da vida cotidiana de forma fatiada? Cada parte da vida separadamente?

Ah, como assim? O que acontece num setor da vida acaba produzindo efeitos nos demais setores, né? Até porque somos um só – individualmente – em todos esses compartimentos. Eu entendo. Mas não vim aqui pra facilitar as coisas. Vim para provocar reflexões, que possam ser úteis para cada um de vocês.

O quão mais fácil seria se pudéssemos lidar com cada parte da nossa vida isoladamente? Pois é, podemos. E ao exercitarmos isso, terminamos por perceber a simplicidade de cada parte. Essa noção é que faz a diferença, uma vez que as coisas simples são mais tranquilas de assimilar e cuidar.

Vendo os noticiários nos últimos dias, meu coração se entristeceu muito com a tragédia das chuvas, inundações e destruição na Bahia. Os estragos e a reconstrução da vida das famílias afetadas representam um problema de alta complexidade. Mas o ato de chover até que é simples. Deveríamos ter sido capazes de antever e proteger essas pessoas afetadas pela simplicidade da chuva, dentro da complexidade do seu alto volume em curto espaço de tempo. Mas não fomos. Ao menos não pra eles, ao menos não dessa vez.

E agora? Agora deixemos as obrigações dos governos (federal, estadual e municipais) com a complexidade das coisas, e coloquemos foco no que podemos fazer, onde e como conseguimos tomar parte nos esforços de ajuda, no nível mais simples possível.

Para tal, basta identificarmos instituições sérias dedicadas a apoiar as vítimas, e, de forma tão simples quanto comprarmos nosso cafezinho com pão na padaria, que façamos nossas doações, na medida do que podemos.

O mesmo se aplica aos planos e metas para 2022. Teremos um próximo ano particularmente complexo e difícil, ao que parece.

Isso dificulta sobremaneira o planejamento, pois olhamos para o ano novo com olhos de generalismo. Vamos fazer diferente? Que tal separarmos apenas as três metas, sonhos ou desejos mais relevantes dos demais? E desses, que tal escolhermos o mais simples e traçarmos um passo a passo de como conseguir alcançar ou realizar? Ao fazer isso, nos sentimos mais capazes, porque estaremos lidando com algo nada complicado e bem mais tangível. Sem expectativas enormes, e portanto sem frustrações maiores ainda.

Aceitam exercitar essa forma de pensar? Fiz assim esse ano e estou bem menos pressionado do que em anos pretéritos, quando achei que poderia abraçar o mundo e resolver todos os meus problemas.

Agora vocês devem estar me achando simplista. Simplista sim, porém nunca simplório.

O que amedronta é a onda enorme, nunca a marola. São os temporais, nunca a garoa tímida. Os tornados, nunca a leve brisa do mar.

Façam as coisas mais simples, e depois me contem se, como eu, se sentiram melhor. Afinal, estamos aqui para sentir e agir, focando em sermos felizes o máximo possível. Sabendo que menos é mais.

E que o ano novo de vocês seja simples. Simplesmente maravilhoso!

Até breve!


Conversação de paz, para além do tributo (merecido) a Sérgio Ricardo

Texto de Toinho Castro


Destaque para a bela colagem da capa, da artista Jhê

Mais um discaço chegando antes que o ano acabe, antes que o mundo acabe… pois quem sabe assim ele não acabe.

Conversação de paz (Tuhu Music, 2021), de João Gurgel, é sensacional. Um disco enxuto, com sete faixas, todas assinadas pelo grande, grande, Sérgio Ricardo, de quem João é filho e a quem o disco é um belíssimo tributo. Perdemos Sérgio Ricardo no ano passado, mas sua criatividade irrequieta, seu talento múltiplo e sem medo, afirma-se cada vez mais em sua qualidade. A gente ainda vai ver o Brasil prestando a devida homenagem a esse artista incrível. E não tem homenagem melhor que ouvir e gravar sua obra.

Dito isto…

João Gurgel alinha aqui um repertório muito esperto, escapando do óbvio, pinçado com precisão no trabalho de SR. Conversação de paz, a música, do disco Arrebentatação, de 1971, abre o disco com uma contemporaneidade fora de série, marca da poesia e das composições de Sérgio Ricardo, e que percorre todo esse disco. Estamos nesse mundo em guerra, nesse país em que se faz necessária, urgente, uma conversação de paz. Bom demais ouvir a ironia misturada com doçura, do que poderia ser uma conversa em frente a televisão ou no botequim.

Ana Ana Onu
Está me dando sono
Acordar o dono
O dono do sono
O dono do abandono
O dono do Esporte Clube das Nações
O dono do ar que eu respiro
Respiro pra te amar

E na sequência vem, pra mim, a grande alegria e surpresa do disco, o resgate de Emília, música tema da boneca de pano que bagunçava as coisas e as ideias, na edição clássica da série do Sítio do Picapau Amarelo, nos anos 1970. Não tenho notícia dessa música que não seja no disco com a trilha do seriado, lançado em 1977. Então trazê-la a tona, com esse arranjo lindo, é um presente pra gente que nem eu, que conheceu Sérgio Ricardo com essa canção assombrosa (Possivelmente minha preferida ainda hoje).

Nesse link comento Emília em meio a outras histórias
sobre Sérgio Ricardo.

Para as outras plataformas, clique aqui!

A presença de Cacumbú no álbum, recém gravada pela irmã, Marina Lutfi, no seu álbum Outra dimensão, faz com que a gente tenha nesse ano de 2021 duas versões impecáveis dessa música. São duas leituras distintas, mas ambas com algo de assombroso, algo de soturno nessa crítica dilacerada, cortante, aguda, Caco de faca velha bico de urubu. Trata-se dos mares, das marés. Dos oceanos e dos peixes fugidios, do óleo derramado, mas também de nós, procurando ar pra respirar no meio em que vivemos, afogados na nossa própria natureza, recortados da vida, recortados com ponta de faca da tecitura das águas. Boiando inocentes.

Onde os saveiros onde as caravelas
Onde estão minhas jangadas
Onde o barco a vela

Gente, que música é essa. O arranjo de João é soturno, misterioso, história contada ao pé do ouvido, pra que ninguém desconfie que estamos tramando, ou que sabemos do que está acontecendo nesse mar que prolifera. Ter duas versões límpidas dessa música num ano que nos arrasou, é um alento.

Apesar desse texto parecer um faixa a faixa, não tenho nem cacife pra discorrer sobre a obra complexa e ousado de Sérgio Ricardo. Vou falando de apaixonado que sou, agradecido demais pelo generosidade desse disco, de João, que ainda nos oferece Bate Palma e Folha de papel, que acabei de conhecer com ele. Bichos da noite, sobre poema do pernambucano Joaquim Cardozo (Da peça O coronel de Macambira, começa com uns sopros, que vou te contar. Um clima de fuga aventurosa, de jornada escondida, pois São muitas horas da noite, são horas do bacurau... Estamos, pois, enfiados na mata noturna, testemunhando a dança dos bichos da noite. Comparada à original, é uma construção surpreendente, altamente cinematográfica. Afinal, o cinema tá impresso no DNA profundo de tudo que Sérgio Ricardo fez. Eu mesmo tenho com essa música uma história de beleza, de cinema, que fez com que ela entrasse na trilha de Bacurau, de Kleber Mendonça Filho. Mas isso é outra história. Vale ressaltar no registro de João, a voz luminosa de suas irmãs, Marina e Adriana Lutfi, num contraponto à escuridão em que a música nos conduz e nos perde. Lindo.

Lá vem a pedra fecha do disco, do disco Do lago a cachoeira, de 1979. Brilha a estrela em noite de orixás!

Conversação de paz é um testemunho instigante da riqueza da obra de Sérgio Ricardo. Confirma a absoluta necessidade de ouvir suas músicas, no Brasil de Hoje e de amanhã. É um trabalho político, de resistência, afetivo, lírico, bem humorado, cheio de ironia. Uma música sem tempo, que ocupa muitos espaços nos caminhos da música brasileira.

Mas é preciso que se diga…

Mais que um tributo (merecido) a Sérgio Ricardo, é um disco de João Gurgel, artista múltiplo e talentoso, que imprime às canções sua própria identidade. Arrisco-me a dizer que, entranhado na obra do pai, ele constituiu um disco autoral. A seleção do repertório, os arranjos, as participações, tudo tão acertado, tão preciso… É o primeiro disco de João, e primeiros discos que tem assim essa luminosidade, são tão necessários, tão renovadores da nossa fé na música. Nada como a alegria de ouvir um disco novo, fresco, cheio de vida e estradas abertas como esse Conversação de paz, que nos chega no apagar das luzes de um ano muito difícil, quase impossível. Chega como potência, promessa de horizontes abertos.

O menino do campo

Um conto de André Moreno — Umas mãos debruçando-se a arar terra, outros colhendo flores e frutos, alguns capinando as matas e plantando as sementes, outros na caça, uns fazendo a alimentação e, as crianças, claro, brincando, imitando os adultos.

André Moreno, mais um voz do Maranhão, de São Luiz. Uma voz jovem, potente e presente. Uma voz que não se cala, que não silencia, voz que se levanta ante a injustiça perene. André, seja bem-vindo à Kuruma’tá!

Mais uma recomendação preciosa da parceira Micaela Tavares!

Um conto de André Moreno —

Tudo isso porque não se confia
na delicadeza
dum engravatado indelicado.

Umas mãos debruçando-se a arar terra, outros colhendo flores e frutos, alguns capinando as matas e plantando as sementes, outros na caça, uns fazendo a alimentação e, as crianças, claro, brincando, imitando os adultos.

Mas o menino pressentia que naquela tarde a colheita não aconteceria da forma tradicional.

Não por maledicência do clima, muito menos incapacidade dos familiares e companheiros. Mas era por malevolência dos homens que chegavam nas terras vestidos com gravatas e seus ajudantes que possuíam armas.

O menino nunca havia visto alguém de gravata antes, não tinha porque, mas armas via todo santo dia. Já sabia que nem todo dia era santo, mas confiava nos segredos de Deus e na perseverança da comunidade, todos lá oravam aos fins da tarde, mas não puderam naquela específica.

Os homens de gravata e seus ajudantes pistoleiros levaram folhas e mais folhas escritas para mostrar ao seu pai, que não era dos caboclos letrados, mas que tratava dos assuntos da comunidade.

Era uma carta amarelada afirmando para sair daquela terra, isso dito em alto e bom som. Ela era da propriedade de um homem bem poderoso, que nem sangue de brasileiro tinha. Mas talvez eles não soubessem que como eles, de tempos em tempos vão pessoas alegando o mesmo. Dessa vez, os engravatados e armados tinham mais justeza do que falavam, aparentavam sustança na forma como ameaçaram o pai do menino e a comunidade.

Ele entendia que não arredava pé de sua terra, que não precisava ler as palavras para ter certeza das suas próprias, que se não avoassem dali qual galinha em terra de raposa; logo eles armados, mas em pouca quantidade, iriam se arrepender de não ter se despedido das esposas. O homem da gravata arrepiou-se todo, parece nunca ter visto a confiança de um camponês. Puxou o homem da arma para aconchegar no ouvido e sussurrou alguma criminalidade, que logo os dois se apaziguaram. Então eles prometeram de forma aprazível voltar e se despediram, mas ninguém do lado da colheita respondeu.

“Aqui ninguém se engabela com ameaça de grileiro”, afirmou o pai do menino, que logo saiu dialogando com cada companheiro da comunidade. Começaram a cerrar madeira, afiar facão, preparar espingardas que iriam se aposentar temporariamente de caçar bicho e agora protegeriam de gente, guardaram as colheitas no reservatório que era só para os momentos de pressa.

Tudo isso porque não se confia na delicadeza dum engravatado indelicado.

Tudo pronto, começaram a separar as tarefas, o que cada um devia fazer. A palavra “resistir” foi dita de forma uníssona. Aquela terra em que tanto se produziu e conquistou, que tinha casas e histórias, memorias e esperanças, seria entregue por qual razão? Essa pergunta para a comunidade nem existia, já que a resposta é que a terra jamais seria entregue. Cada um mais convicto que outro. O menino confiou-se e brilhou o olhar vendo o pai aprontando tudo para defender a vida das pessoas. Não era advogado, mas este sim defendia a vida das pessoas.

Ouviam nos rádios que as pessoas não gostavam deles, acusavam de invasores, mas como que eles eram invasores, se seus antepassados ali ergueram moradas? Acusavam de criminosos, mas como poderiam afirmar isso, se o trabalho na terra, sagrado pro camponês, era para alimento das famílias e comunidade? As pessoas da emissora não conhecem camponês, e aparentam nem mesmo querer conhecer.

No dia seguinte, os homens não vieram só engravatados e armados, mas vieram junto com os policiais. Desde cedo menino pobre sabe que aquela farda não serve para ele. Brincava de tiro com os outros guris, mas nunca se imaginando fardado. Chegaram lá na maior tirania, provando que não há tanta diferença entre capitão do mato e fardado do estado, e já foram buscando intimidar cada um.

Para estar lá, tinha que ter aval de político, de pastor, de rádio e tv, de tudo isso e o pior de tudo… é que eles tinham.

“Os jornalistas, os pastor das igrejas e os políticos preferem confiar na voz de gringo do que na voz de quem é parecido com eles”, pensou o menino.

“Seus preto imundo”, alegou um polícia, que nem tinha a cor tão branca assim, dirigindo à multidão de enxadas; é como se, ao menos, estivessem nessa terra só pretos. Tinha preto, amarelo, branco, tinha de tudo lá, mas se ele via todos com uma cor só, talvez o problema estivesse com a corporação, que não ensinou bem sobre cor aos comandados.

Viam e tratavam os camponeses como fossem gado, olhavam de forma pavorosa quase babando de tanta raiva. Gritavam e esperneavam alegando que se não saíssem dali o sangue iria pipocar, ignorando completamente que do lado da colheita tem todo tipo de vida.

Derrubaram o barracão onde o menino aprendeu a conviver desde mais menino, tantas vivências e brincadeiras que surgiam naquela mente que deixava a inocência de pouco há pouco. Esparramaram spray de pimenta nos olhos que por segundos acostumaram-se a uma nova visão. Ameaçaram gás lacrimogêneo, e tudo isso sem haver nenhum avanço do povo que ali estava.

Não vieram ter papo dessa vez, vieram dar solução cabal ao papel que nada dizia.

“Saiam dessa terra”, diziam eles. “E vamos para onde?”, indagou o menino.

Até que o engravatado surge da multidão de ombros, dos cachorros embevecidos, e se direciona ao pai do menino, que estava na frente do grupo de camponeses. “Vou dar duas horas para saírem daqui”, afirmou apontando na cara dele. “Vocês são muito canalhas, acham que somos fracos e não vamos resistir? Tão muito enganados. Por acaso nós somos criminosos? Nós somos trabalhadores, não tem criminoso nenhum nessas terras. A terra é de quem trabalha e nós que colhemos nela o que vocês comem!”, responde gritando para os dois lados e para si mesmo, este verdadeiro sujeito homem, revoltado com tamanha ingratidão.

Algo tomou conta do espírito do menino, do fundo da sua alma. Sua espinha gelou. Seus olhos, anteriormente atormentados, agora esvaiam-se em lágrimas, de uma espécie de esperança. De sobrolho dirigiu-se aos seus, viu no rosto de cada um e observou o seu próprio. Percebeu que estavam sozinhos contra todas as figuras imagináveis, mas, nunca estiveram tão juntos. Eram como um corpo só, uma mente só, uma única ideia, um único desejo.

A terra!

E não era somente aquela ali, que tinham desde antes de seu nascer, mas era toda terra que se concentrava nas mãos de homens como o tal gringo, que nem coragem para estar enfrentando-os tinha, que mandava capachos tentar açoitar adultos livres, que nem amava a terra, que nem dependia dela e muito menos iria arar nela.

Tomou-se de sua inocente existência dúvidas incontornáveis.

O que fez aqueles homens embrutecidos olharem seus iguais com tamanho desprezo e nojo, qual bicho qualquer? Por que tomar nossa terra? Por que todos não vivem juntos e de bem uns com os outros? Por que os que mais tem, mais querem ter à custa de outros?

Não se acomodou à sua angústia e ao medo dos seus. Não esperou a oração para exigir as respostas divinas, que aconteceria naquela tarde, e não aconteceu.

Quis responder ele mesmo agindo no ali, no real.

E tomado de revolta e, principalmente, do desejo de dar causa à sua dor, o menino tomou do chão um pedregulho qualquer e o dotou de sentido. O medo em seu âmago foi transformado em certeza da sua ação. Não resistiu à angústia imediata, a incertezas variadas e naquele lançamento, endereçado ao repulsivo homem da gravata listrada, deixou-se de ser um menino qualquer para tornar-se sujeito homem, como seu pai.

O endereço foi certeiro na cabeça do ignóbil homem, que desabou ao chão.

Logo os cabras armados sujeitaram-se ao susto, e apontaram seus fuzis para cima dos bravos camponeses, das mães com olhares pulsando de desgosto e elevando facões, das crianças compreendendo os passos da resistência com pedregulhos nas mãos, dos pais empunhando suas espingardas.

Todos eles perceberam naquele momento que a pedra não foi jogada só pelo menino, mas por todas as mãos, que na colheita agiam em conjunto, que seria feita naquela tarde, mas não pôde se realizar.

O seu pai começou a gritar como em uma guerra, vozes ecoaram como em um batalhão.

Não havia mais medo nos olhares, não havia mais equívocos ou ambiguidades nos pensamentos, muito menos tremelico nos lábios; havia sim uma inquebrantável, desejosa e racional coragem e confiança de que dali só um lado sairia vivo. E ninguém neste lado portava uniforme de polícia ou gravata.

Os polícias até tentaram pregar terror, mas acabaram aterrorizados com os bicos de espingarda, os brilhos dos facões, o formato dos pedregulhos, o ódio de cada um que estava ali gritando a existência para fora do peito. Não apenas as suas atuais existências, mas a de seus irmãos e de seus antepassados que fincaram os pés naquela terra, que se indignaram com o enredo escrito por latifundiários, de grandes lotes de terra na mão de quem produz fome e miséria.

Os polícias não estavam vendo apenas homens, mulheres e crianças; viam uma história de tragédias e de sucessos, de derrotas e de vitórias, de perdas e conquistas que era muito mais profunda e rica do que conseguiam imaginar.

Seus uniformes, umedecidos de suor e pânico, não sabiam se desertavam ou se partiam para o morticínio de um dos lados.

“A terra é para quem nela trabalha”, diziam uns camponeses ali. “Essa terra é nossa”, diziam outros camponeses dali.

E uma canção começou a formar-se dos pulmões extasiados pelo orgulho da união.

 “A história não falha, nós vamos ganhar.”

Todos ali, dos dois lados perceberam qual era o momento da história, não havia revezes, não havia questionamentos.

Os homens de uniforme, então, desataram a partir qual preá fugindo de onça ao meio dia. A pinta de coragem desvanece com o primeiro gesto da força do unir de mãos e braços.

O horário daquela tarde definiu a forma como enxergariam a vida em comunidade a partir dali. Não eram os mesmos, não podiam ser. As palavras se tornaram pequenas, até os caboclos contadores de história não estavam acreditando no feito.

Conseguiram apenas dizer o que tinham a dizer ao fincarem a bandeira de sua luta ao chão. 

 O Sol, retumbando sobre os bonés e chapéus, sobre as camisas e as calças informavam que o luxo de comemorar ainda não havia chegado. Ainda havia trabalho a fazer. 

Então o pai montou as equipes para o trabalho.

E olhando o menino nos olhos, percebeu que já não era mais um menino, seu pequeno ajudante até então, mas já era homem feito, de maturidade e responsabilidade. 

 E, nas novas divisões de tarefa, o menino ficou na parte das colheitas.


André Moreno tem 19 anos e aço faculdade de jornalismo na UFMA.

“Entendo a escrita, e a poesia em particular, como um instrumento de libertação dos oprimidos e acorrentados pelo modus operandi de um sistema de dominação material e colonização das mentes.

Entendo também como uma ferramenta de dar sentido à existência e aos intangíveis, pulsantes e, muita das vezes, dissonantes sentimentos que afloram no âmago das pessoas.” — André Moreno

EM BREVE, POESIAS DE ANDRÉ MORENO, AQUI NA KURUMA’TÁ. SE LIGUE!


Poema interiorano e outros poemas, de André Siqueira

Eis a sempre bem-vinda poesia que nos chega pelo inbox, pelos ventos digitais. É a Kuruma’tá ecoando seu espaço aberto por aí, nas cidades e mentes Brasil adentro.

O poeta André Siqueira, de Jacareí nos oferta generosamente cinco poemas de sua lavra e é com esses versos que começamos a semana Kuruma’tá, que é, essencialmente, uma casa de poesia. Seja bem-vindo, André. A gente agradece a chuva poética que goteja nossos beirais!

o silêncio quebrado apenas
pelo pernilongo da casa
mata o tempo das horas moucas


Poema interiorano

chove como sempre escreveram 
nos livros e canções amigas
distantes estamos contando 
os casos enquanto calangos 
correm na aridez do concreto 

fico sentado, vejo o verde 
aos borbotões entre a folhagem 
verde suculento que enverga 
uma saudação japonesa 
apanhando da gota estúpida 

ouvi melhor o meu quintal 
o mato tomando terreno 
roça a gotícula infinita 
restante que desce da telha 
cerâmica Vila Martins 

ligo as telas tão antenadas 
e transmitem a morte longa  
percebo o quintal e sorrio
o sorriso do filho, canta
o galo morador ilustre 
do bairro, a dona mora ali 
a tarde anila a calcedônia 
pelos ares duros do adeus 

levanto, saúdo o passeio
pela casa trancada em ponto
sem final que desce da telha 
cerâmica Vila Martins 

chove como sempre escreveram 
o pingo bate, fere a folha
que recurvada reza e vela 
vidas lembradas sobre a tarde 

uma gota insiste na telha
cerâmica Vila Martins 


(Sem título)

chuviscou nos telhados simples
as gotas dançavam dulcíssimas
trespassando os pedestres rápidos
indo e voltando pelo asfalto
empoçado numa renúncia
de quem cansou de tanta gente
que passa e não percebe os cacos
de esmeraldas nos velhos ombros
dos muros plantados nas terras
abertas pelas mãos passadas
silentes no canto da casa
erguida no solo tocado

chuviscou nos telhados simples
as gotas acertavam como
barcos de papel naufragando
no mar de imagens chuviscadas


(Sem título)

o silêncio quebrado apenas
pelo pernilongo da casa
mata o tempo das horas moucas
horas corredoras da noite
enquanto na parede o dono
é o relógio cafona como
a minha cara malpassada
nos ponteiros do meu relógio
sedento e sisudo conduz
a bocarra que enruga e cospe
os detritos vãos da memória


Fendido

Aqui começo a ter as fendas
na cara pobre. Bocejar
sussurração dos que começam
a caminhada relutante.

Exercitar o vazamento.
Preguiça tosca serpenteia
sem condução que tudo para,
qualquer momento, vaporoso.

O carcomido borrifar
de limo velho avarandado
da pele, carne cimentada.
E me confundo nesses móveis
empanturrados. Empenado
dentro da pena sem escrita.

Pincelo a casca leporina,
matamatá consome a margem
imersa. Limpo a tensa calha
tolhida e gasta no apagão
encouraçado na água cinza.

Encalacrado o caminhante
numa travessa corre ilhado.
Finjo mudez atrás da máscara.
Aqui começo a ser as fendas.


O cabide

O cabide quase
terno de precisas
curvas e despidas,
na ausência do terno
mostra o figurino
vazado, vazio
de nada. Percebo
na estranheza tão
guardada que posso,
atento, vestir
a roupa de magra
vista do cabide
discreto, guardado,
dispensado só.

André Siqueira é poeta e mora em Jacareí, interior de São Paulo e publiciu em 2020 seu primeiro livro de poesia por uma editora, intitulado As Manhãs Fechadas (editora Gataria). Tenho poemas publicados nas revistas Gueto, Mallarmargens, Ruído Manifesto, Subversa, entre outras. Atualmente sou colaborador da revista de literatura Pixé.


Jandaíra quer ficar – Parte 3

Uma fábula estranha de Toinho Castro —


Leia Jandaíra quer ficar – Parte 1
Leia Jandaíra quer ficar – Parte 2


De volta a praia, no dia seguinte, Jandaíra ergueu a urna com as cinzas de sua mãe na altura dos olhos, contra o cenário de céu azul e ondas quebrando na areia que se descortinava diante dela. Girou levemente a urna, de um certo prata fosco, sem adornos, a não ser por umas delicadas ranhuras. Jandaíra pensou que era um objeto de bom gosto, em contraste direto com o uso, que era carregar as cinzas inúteis de alguém. “Talvez alguém encontre consolo nisso”, pensou Jandaíra, levantando-se e caminhando, segurando atenciosamente a urna, em direção ao mar.

Adentrou um pouco as águas mornas de Boa Viagem, até cobrir seus pés. Olhou a urna mais uma vez e murmurou: Mãe, você morreu. Abriu a urna e derramou as cinzas no mar. Boa parte foi soprada pelo vento, o que não incomodou Jandaíra. Talvez ela tivesse até respirado um pouco de sua mãe. Dizem que Keith Richard cheirou as cinzas do pai. Ou terá sido da mãe? Ela pensou nessas coisas e aproveitou que estava de biquíni e a maré baixa, que revelava os arrecifes, e deu um mergulho. Ficou boiando na piscina das águas represadas pelos arrecifes, aparentemente a salvo dos tubarões que, dizem, rondavam por ali.

Abriu os olhos e viu os céus acima dela. Pensou nos servidores, murmurando sob o peso de muitas atmosferas, no fundo do mar, talvez não muito distante da costa. Talvez em fossas abissais. Ou talvez seja tudo uma grande mentira, um grande engodo. Concentrou-se ao máximo para captar essas vibrações inexplicáveis na águas, mas nada. Nada além do que seja a água do mar e suas marolas, seus sons, seu toque na pele.

Já em casa, de banho tomado, banho frio. Cheiro de Neutrox no ar e roupas leves porque os dias andam quentes, mais que o necessário para essa época do ano. Jandaíra senta junto à janela e olha pra rua. Ninguém indo, ninguém vindo. Uma cidade que vai se esvaziando de almas e corpos. Jandaíra cremou o da sua mãe, mas os outros… “o que é feito deles?!”, pergunta a si mesma, sem ter um resposta clara, satisfatória. Ela pegou o gravador e começou:

Nada como um dia a trás do outro, uma praia e outro dia, pra esclarecer as coisas. Minha mãe morreu e restou dela uma simulação, um algoritmo tresloucado que acha que é ela. Minha mãe morreu e joguei as cinzas dela no mar. Fico agora pensando nos corpos que foram deixados para trás, que não foram reivindicados. Fico pensando no destino deles. Vala comum ou um grande crematório. Hoje, na praia, quando pensei nisso pela primeira vez, lembrei de Soylen green. Viu o filme? Alerta de spoiler: os mortos são transformados em biscoitos para alimentar uma massa faminta, num mundo sem comida natural acessível aos meros, cada vez mais, mortais.

Se aparecerem uns biscoitos por aqui… serão o pai ou a mãe de quem? Ou quem será? O fato é que o que restou dessas pessoas, esses corpos perdidos, estão tendo um destino que desconhecemos, sobre o qual ninguém fala. Até porque restou pouca gente falando nesse mundo…

O telefone tocou no meio da gravação e Jandaíra, como sempre, toda atrapalhada para atender no meio de outra tarefa, sem saber o que clicar ou o que deslizar pro lado pra poder atender sem perder o áudio.

— Eu falando!
(pausa)
— Eu sei…. eu sei que fiquei de te ligar. Foi mal. Muita coisa na cabeça. tendo que por em dia umas coisas atrasadas. Enfim… que queres de mim?
(pausa)
— Huum… sei.
(pausa) Sei.
(pausa)
— É… podemos ir sim. Hoje?
(pausa)
— Ah, tranquilo. Amanhã tô de bobeira. Posso te ver sim.
(pausa)
— Ué!? Não vai ser uma despedida, né?! Você não tá exatamente indo embora. E você estará sempre acessível, não é isso?! —
Jandaíra riu baixinho e esse acessível foi carregado de uma doce ironia, que Zé percebeu sem muita dificuldade mas deixou passar.
— Certo. Amanhã então. Vou de bike… quase não tem mais ônibus. Táxi nem se fala, já não tinha antes!
(pausa)
— Te vejo amanhã.

Jandaíra desligou o telefone e revirou os olhos de cansaço do mundo e das pessoas deixando o mundo. Quantos amigos ainda tinha? E os corpos? E os corpos?, perguntava-se Jandaíra naquele fim de tarde.


O labirinto de W. J. Solha

Por Toinho Castro — 1/6 de Laranjas Mecânicas, Bananas de Dinamite, novo livro do poeta/escritor, cordelista, ator e artista plástico Waldemar José Solha, ou W. J. Solha, é um labirinto em que a gente deve procurar a entrada, não a saída. E essa busca só tem um caminho, a leitura. O livro é um longo poema, e eu sei que colocar as palavras livro, longo e poema numa mesma frase pode afastar as pessoas. Pois se aprocheguem!

Por Toinho Castro


Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.

— Clarice Lispector


1/6 de Laranjas Mecânicas, Bananas de Dinamite, novo livro do poeta/escritor, cordelista, ator e artista plástico Waldemar José Solha, ou W. J. Solha, é um labirinto em que a gente deve procurar a entrada, não a saída. E essa busca só tem um caminho, a leitura. O livro é um longo poema, e eu sei que colocar as palavras livro, longo e poema numa mesma frase pode afastar as pessoas. Pois se aprocheguem! Do livro, tenho lido sobre sua complexidade, da dificuldade de entendê-lo em seu todo ou mesmo em parte. Parem com isso. No longo poema de Solha há muitos planos de entendimento e ninguém precisa participar de todos, muito menos o tempo todo.

Cito Lispector, que todo mundo é fã, para tirar da mesa a carta do entendimento, da compreensão. As pessoas emocionam-se com uma bela música instrumental, com Bach ou (John) Coltrane, prescindindo de palavras. Entendem aquilo num nível que dispensa o discurso verbal. Não sugiro que a poesia de Solha seja musical, embora o seja. Mas que você pode dar conta dela sem essa pressa de saber o que ele quer dizer.

Suas páginas são como uma janela aberta com o mundo passando. Sentado na cabine do trem, olhando a paisagem através do vidro, quem está em movimento? Você ou o mundo? Em 1/6 de Laranjas Mecânicas, Bananas de Dinamite, quinto volume de seis tratados poético-filosóficos perpetrados pelo poeta (falta um ainda ser escrito), alinha registros, referências, da cultura clássica à cultura pop. A Bíblia em sua narrativa intensa, Shakespeare, Guimarães Rosa, Super-Homem, os césares… caleidoscópico, hipnotizante e bem humorado. Alterna lirismo, ironia, melancolia e surpresa.

Faz parecer que estamos num boteco, numa conversa animada entre velhos companheiros. Conversa que abarca a diversidade do mundo, de largos gestos e risos enquanto cai a noite imensa.

O livro de Solha, nascido em Sorocaba e radicado em João Pessoa, é mesmo esse labirinto, de pontes e desvãos, um jardim de veredas que se bifurcam, nas páginas, em nós, nos dias que se sucedem, adiante e também para trás, porque é, como no conto de Borges, um labirinto no tempo. Vida descortinada, de sobreposições e entroncamentos, vida de palavras e ideias. Que encanta, arrepia, aperreia, movimenta e, sobretudo, espanta.

W. J. Solha

Singles pra que te quero!

Por Toinho Castro

Gente, LP é bom demais mas tem coisas preciosas acontecendo no mundo encantado dos singles. Hoje a Kuruma’tá, pela mão de seu editor Toinho Castro, seleciona três joias recém lançadas, pra você curtir e, a partir delas, enveredar pelo trabalho desses artistas!

Bora lá conferir?!


BAGUM, com LIVIA NERY

Vem de Salvador esse som novíssimo, que chegou hoje às plataformas. Com um trabalho essencialmente instrumental, a banda Bagum se junta à voz límpida e bits/beats e texturas da Livia Nery para produzir esse beleza de música. Era você, tem letra da Lívia, ancorada num tecido eletrônico, muito bem almagamado com o essa sólida tradição do baixo/bateria/guitarra. Que coisa boa o som da Bagum que, confesso envergonhado, eu não conhecia. Conheci então em grande estilo, abrindo uma porta maravilhosa para novas músicas pra apertar o play!

Livia Nery: Voz Pedro Leonelli: Guitarra Pedro Tourinho: Baixo Pedro Oliveira: Sintetizador e efeitos Gabriel Burgos: Bateria Tiago Simões/Cremenow Studio: Produção, mixagem e masterização Distribuição: Fresh Selects. Vídeos e capa: Gabriel Rolin (@rollinos)


CARU

Ah, Caru, querida Caru, lá de Feira de Santana, com âncora lançada no Rio de Janeiro! Soltando esse super single, que vem na sequência de outra beleza, que é uma versão necessária de Tô voltando, de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, eternizada, como se diz, na voz de Simone! Mas isso é outro single! Diversidade Nordestina é composição da própria Caru e fala alto contra os clichês e olha pra gente bem de dentro desse olho atento a tudo que é o Nordeste! O Nordeste que é esse muito mais! Diversidade Nordestina tem força, tem humor e ironia.

Com essa música vou começar a contar sobre a experiência da minha vida de migrante. De pessoa deslocada. De cigania. Nômade. Um calango e seu mosquiteiro. Dessa baiana aqui, que vive em trânsito e longe de casa. — Caru.

Voz: CARU Composição: CARU Produção Musical: Paulo Mutti Preparação Vocal: Cecilia Spyer Guitarras, baixo e percussão: Paulo Mutti Bateria: Ruth Rosa Gravação bateria: Estúdio Caixa Preta Gravação voz: Estúdio Visom Mixagem: Paulo Mutti Masterização: Ricardo Dias


MARCELA DE SÁ

As ondas sonoras estão emanando do Rio de Janeiro, mas o pé tá no Nordeste, a grande estrela dessa seleção de singles! Depois de gravar nada mais, nada menos que Lenine, com sua O dia em que faremos contato, parceria com Braulio Tavares, Marcela de Sá nos chega com outro pernambucano: Otto, e sua Sem gravidade! Com produção e instrumental de João Gurgel, que lança hoje seu disco Conversação de Paz, a voz de Marcela encontra o espaço perfeito para se desenvolver e nos surpreender com essa canção tão somente corpo.

Produção musical e arranjo: João Gurgel Mix e master: Elton Bozza Capa: Toinho Castro Foto: Isabella Fragelli

PS: Tudo independente!


Viva! Chegou o Festival Levada, celebrando 10 anos!

O Levada completa uma década e se mantém fiel à sua ideia inicial de mostrar o quanto a música brasileira continua pujante e diversa.
— Jorge LZ, curador do Levada!

Gente, é sabido que a Kuruma’tá é fã do Festival Levada, que chega HOJE ao Teatro Rival Refit, celebrando dez anos, com uma história de contribuição poderosa à música independente brasileira. Levada é diversidade, é som bom, encruzilhada de tendências e renovação!

E é por ser fã de carteirinha que a Kuruma’tá convida geral pra prestigiar esse encontro luminoso, que lavar a alma da gente!

Depois de dois anos inacreditáveis que a gente vem vivendo, o Levada oferece shows presenciais nesse clássico que a gente ama, que é o Teatro Rival. Nessa primeira fase, são quatro apresentações, que começa hoje, com o retorno do Carne Doce, que apresentou-se no festival oito anos atrás. Foi, então, o primeiríssimo show da banda, confirmando a alma aberta do Levada, pioneiro na divulgação da música que a gente escuta hoje cheios de amor! Na sequência chega a Juliana Linhares, com seu incrível Nordeste Ficção (Confira o texto sobre o disco aqui na Kuruma’tá!), depois vem a maravilha da Foli Griô Orquestra e o encerramento com o rock alternativo do Maglore!

Viva o Levada e parabéns por 10 anos de INCRÍVEIS E INESQUECÍVEIS serviços prestados à cultura nacional!

Confira os artistas da primeira fase do Levada!

Teatro Rival Refit
– Rua Álvaro Alvim, 33 – Cinelândia – 21-2249-4469

Abertura da casa às 19h30

Vendas pelo SYMPLA e na bilheteria

Horário de funcionamento da bilheteria: de quarta a sexta, das 15h às 20h; aos sábados e feriados, das 16h às 20h30 (somente em dias de show)

Ingressos: R$ 20 (inteira) / R$ 10 (meia-entrada)


ABERTURA SERÁ COM CARNE DOCE, ATRAÇÃO DE 8 ANOS ATRÁS

FOLI GRIÔ ORQUESTRA VIRÁ COM RITMOS ANCESTRAIS

A 10ª Edição do Festival Levada continua a partir de 25 de janeiro de 2022, com mais oito atrações (a serem confirmadas) para se apresentarem no Estúdio Labsonica e uma exposição sobre os dez anos do Festival no Centro Cultural do Oi Futuro, no Flamengo, a partir de 02 de fevereiro.


“O Levada completa uma década e se mantém fiel à sua ideia inicial de mostrar o quanto a música brasileira continua pujante e diversa. Mesmo com as dificuldades impostas pela pandemia, a classe artística teve uma produção rica e, de certa forma, foi responsável por amenizar o sofrimento da sociedade, que se viu obrigada a enfrentar o isolamento social. Para a primeira etapa dessa edição comemorativa, no Rival, teremos quatro apresentações que comprovam o que eu estou dizendo”, explica o curador Jorge Lz.

Julio Zucca, sócio da Zucca Produções, é o responsável pela realização  do projeto, que se tornou um dos mais importante festival de música do país, por trazer aos palcos cariocas talentos do Brasil inteiro, antes deles aparecerem de forma mais constante em outros festivais e para a mídia. “Esse, aliás, é um dos pilares do Levada – que desde 2018, se antecipou ao mundo, ao transmitir ao vivo na Internet as suas apresentações. Em 2021, com todos já acostumados às lives que aliviaram o isolamento no auge da pandemia, os dez anos do Levada serão comemorados com doze shows presenciais e uma exposição, tudo com transmissão digital pelo canal do festival no YouTube, começando pelos quatro artistas já divulgados para o palco do Teatro Rival Refit”, reforça Julio Zucca.


Direto de São Luís do Maranhão, a poesia de Vinícius Veloso

Mais uma vez, nossa amiga e poeta Micaela Tavares dá a dica da boa poesia maranhense para as páginas da Revista Kuruma’tá! E assim compartilhamos com você o trabalho bonito de Vinícius Veloso!

Você conhece poetas, escritos, artistas? Pois se sim, a gente tá aceitando dicas de todo o Brasil!

Mais uma vez, nossa amiga e poeta Micaela Tavares dá a dica da boa poesia maranhense para as páginas da Revista Kuruma’tá! E assim compartilhamos com você o trabalho bonito de Vinícius Veloso!

O poeta segundo ele mesmo:

Meu nome é Vinícius Veloso, tenho 32 anos, sou de São Luís – MA. Minha relação com a poesia tem por volta de 10 anos, o que coincide com a criação e a manutenção do meu blog de poesia (Papo do Poeta), que é um espaço em que eu considero seguro e onde eu posso ser livre para falar de todos os sentimentos que a vida me desperta. Gosto de falar principalmente de amor e de saudade, mas também da minha cidade, das pessoas que observo, de refletir sobre a vida…

A poesia é ampla e ilimitada, e a palavra delata qual a obsessão do poeta.

E agora sua poesia:


Andar no Centro é um exercício de descobrimento

Andar pelo Centro é diariamente
um exercício de ternura gosto de observar
os detalhes:
desde a escadaria recém pintada
até o sol que de tão presente chega a invadir a rua,
e de repente
aquele dia despretensioso começa a me chamar atenção então
vejo o taxista ocioso
vejo a vendedora de coco e velhinhos na praça
discutindo os rumos da nação.
Vejo os boêmios no mercado e o sorveteiro que assovia
e canta boi,
vejo os casais se amando
as bandeiras ao vento cantarejando e lembro de junho que já se foi.
Andar no Centro é diariamente um encantar-se e espantar-se
com o que ronda a nossa vista, vejo uma vez mais o sol
que ocupa e encobre a pista observo ao longe
o desembarcar
e o caminhar dos turistas, mas de perto a realidade grita
observo pessoas passando fome e vários dizeres e protestos
na parede que abriga poetas e artistas.
Andar no Centro é diariamente
um exercício de nostalgia,
vejo crianças correndo pelas ruelas
e empinando pipa
vejo carne seca na janela
e lembro de como a minha avó fazia, vejo os lavadores de carro escutando reggae
(que ecoa longe e toca bonito),
vejo a velhinha que caminha com dificuldade e em sua cabeça, uma tábua de pirulito.
Andar no Centro é diariamente
um exercício de pertencimento pois não importa para onde eu veja ou aonde quer que eu vá
eu sei que aqui é o meu lugar!

04.07.2019


A flor do abraço

A flor do abraço heliotrópica
busca à luz do sentimento a perfeita localização
um lugar onde não esteja a sós como as sépalas, cálices e pétalas que só funcionam juntas
na inflorescência dos girassóis.

A flor do abraço enlaçadora
como se braços fossem sempre abertos
e de prontidão estende suas folhas para que natural seja abraçar outra alma com o seu coração…

Instante esse em que o tempo para Zera! E quando recomeça
A flor do abraço já virou canção.

A flor do abraço
é a beleza do girassol
é o “carrossel das abelhas” como diz o poeta
em metáfora é a flor do sol que eu desejo sem aspas…

06.09.2018


Poema sobre o nada ou Tinha um prédio no meio do caminho

O prédio atrapalha a minha visão
a vontade de querer enxergar o mundo de azul de assistir às cinco e quarenta e cinco da manhã o pôr-do-sol ao contrário
cinza alaranjado rosa amarelo em contraste à feia arquitetura que transforma pedra sem vida
em colunas cimentadas que atrapalham a minha vista.

Eu quero enxergar bisbilhotar debaixo das pedras que não têm,
mas que abrigam:
vida.

Eu quero espionar
o verde musgo das briófitas
o desabrochar das borboletas
o cochichar dos bem-te-vis
a palavra voando fora da asa
o milagrar de flores

Eu quero atirar pedras no céu
e acertar algum homem de pecado que dizem ser santo

mas há um prédio no meio do caminho
arranhando o céu sem carinho
como um amontoado de pedras desperdiçadas que sequer abrigam musgo

no meio do caminho há um prédio que atrapalha minha visão
que tem nome de cidade europeia ou de um homem branco qualquer que minhas retinas fatigadas
traduzem livremente:

Ed. Dr. Zé Ninguém
Nunca esquecerei desse acontecimento…

Manoel de Barros me entenderia
Carlos Drummond de Andrade também.

25.08.2021


Zênite solar

Teu corpo
é floresta tropical quente
úmido esplendoroso dos pés ao topo é beleza viva jacarandá
que faz sombra em meu corpo.

Por ele passeio cuidadoso
e admirador
cubro-o de carinhos e beijos
até chegar ao teu umbigo
– que é a linha do Equador,
centro imaginário do (meu) mundo que o divide em dois:
um antes de ti, tempo passado e outro muito melhor, depois.

Em minhas mãos tu escorres
como seiva
a precipitar-te de prazer
molhando meus dedos como um céu emocionado quando começa a chover.

Sigo percorrendo o teu corpo até o limite do solstício
onde a vida tem fim e começo
mas eu estou só no início,

E o que eu tenho é amor para te dar
teu corpo no meu corpo encaixados perfeitamente é meio dia
é o zênite solar.

09.06.2020


O último suspiro

Quando eu for embora deste plano não desejo lágrima nem despedida por todo o amor e poesia que respiro uma coisa só espero da vida:
que seja um verso o meu último suspiro.

29.05.2016


Bora cantar?! — Viradão de fim de ano Toda Voz Importa!

Coletivo Toda Voz Importa: Alice Sales, Roberta Jardim, Luiza Borges e Tássio Ramos

Quem canta seus males espanta, e não falta males para espantar nesse Brasil pandêmico, de muitos genocídios cotidianos e mazelas, sequelas e querelas.
Bora cantar?!

Então, assim sendo, bora se salvar gente, abrindo a voz e o canto! Cantar para se libertar, cantar pra ser gente e pássaro. O canto dá asas! E eu, você, aquela e aquele acolá, todos podem cantar. Cantar não é exatamente um dom, é também um potencial humano. Algo de que nós somos capazes. Cantar, a gente pode!

Então, pertinente o convite do coletivo Toda Voz Importa, para agora, no começo de Dezembro, você participar do Viradão de fim de ano Toda Voz Importa!

Confira:

Toda Voz Importa é um coletivo, formado por profissionais da educação musical, vocal e da musicoterapia. Fazem parte do Toda Voz Importa Luiza Borges e Roberta Jardim, cantoras e professoras de canto, Tássio Ramos, músico, produtor musical, educador musical e Alice Sales, cantora e musicoterapeuta. O grupo oferece vivências com práticas coletivas em que todos podem cantar, explorando suas possibilidades.
Nas suas dinâmicas o foco é nas interações entre indivíduo e grupo, voz e escuta, acolhimento e expressão, informaçãoe prática.
No Viradão Toda Voz Importa, são 6 encontros diferentes, sem pré requisitos!
Todos podem cantar!

INSCREVA-SE NO VIRADÃO TODA VOZ IMPORTA!

PROGRAMAÇÃO COMPLETA

02 / 12 – Quinta – 20h [ ABERTURA ]
Respirar e Cantar
Prática com Luiza Borges
Duração: 1 hora
Aberto à todos os inscritos no Viradão.

03 / 12 – Sexta – 20h
Toda Dedicatória Importa – Encontro musicoterapêutico
Com Alice Sales
Duração: 2 horas

04.12 – Sábado 9h
A Voz Materna Importa
Encontro com Roberta Jardim
Duração: 2 horas

04 / 12 – Sábado- 13h
Práticas de auto cuidado – Fluxos da Voz e do Corpo
Tema: Atm e Voz
Oficina com Aline Bernardi e LuizaBorges
Duração: 2 horas

05 / 12 – Domingo- 10h [ EXPRESSA! ]
Dinâmica com o TODA VOZ IMPORTA
duração: 2 horas e 30 min

05 / 12 – Domingo – 16 h
Sarau Aberto no @todavozimporta
— Aberto à todos os inscritos no Viradão —
Duração: 2 horas

Quem faz o Toda Voz Importa

LUIZA BORGES Cantora, professora de canto, compositora. Com dois álbuns solos lançados, “Romanceiro” e “Certezas Inacreditáveis”, voltados para a MPB contemporânea, e participação em diversos álbuns e projetos da cena musical independe carioca, apresentou-se em importantes casas de show e espaços midiáticos pelo Brasil. Trabalhou no teatro como cantora solista na peça “Com Amor, Vinícius” e com Pedro Cardoso na peça “Os Ignorantes”. É formada em Licenciatura em Música pela UNIRIO e no Método Herz para canto popular, criado pela professora Angela Herz. Orienta profissionais da voz e amadores em busca de autoconhecimento vocal e musical, em abordagens individuais ou em grupo. É uma das fundadoras e é coordenadora pedagógica do coletivo Toda Voz Importa; desenvolve os trabalhos “Laboratório Corpo Voz”, com a professora de AntiGinástica Andréa Cardoso, em SP e “Práticas de auto cuidado – fluxos da voz e do corpo”, com a bailarina e professora de dança Aline Bernardi. Trabalhou como preparadora vocal nos corais de empresas: Projac, Inmetro, Neoenergia, Vale e Firjan, Fiocruz e Finep, com os maestros Edu Morelembaum e Paulo Pauleira Malagutti.

ROBERTA JARDIM Graduada em Licenciatura em Música pela UniRio, Roberta especializou-se em canto pelo Método Herz de canto popular. Atua como educadora musical no município do Rio de Janeiro desde 2011 e como professora de canto. Foi professora da disciplina “Técnica Vocal” na Faculdade IBEC. Orientou diversos cantores e grupos vocais da cena musical carioca, como os elencos da Cia. Embando e as peças “Champagne & Confusão” e “Quero ser Ziraldo”, ambas sob direção de Fernando Philbert. Como cantora, realizou os projetos “Maternando no Jardim”, “Descoberta” e “Cores Alegres e Vivas”. Foi coralista no Coro de Câmara da Pró Arte sob regência do maestro Carlos Alberto Figueiredo. É certificada como educadora parental e especialista emocional pela Escola da Parentalidade e Educação Positiva em Portugal e pela Sociedade Brasileira de Inteligência Emocional (SBIE). Uma das fundadoras e diretora pedagógica do coletivo Toda Voz Importa, criadora dos projetos Ponte de Encontro, com a educadora parental Alice Scudeller, Podcast Questões Nossas, com a psicóloga Tâmara Damaceno e do perfil de instagram Maternando no Jardim (@roberta_jardim).

ALICE SALES Musicoterapeuta clínica, pós-graduada pelo Conservatório Brasileiro de Música. Atua em instituições e atendimentos particulares. É musicoterapeuta voluntária na Maternidade Escola da UFRJ e lá também integra o coletivo de musicoterapeuta MT-DTG. Como cantora, iniciou sua trajetória em corais e grupos vocais, tendo participado do grupo São Vicente a Cappella, com o qual venceu o concurso Nacional Funarte de Corais, participou de festivais internacionais e da gravação de DVD do grupo, na Sala Cecília Meireles.
Foi integrante da formação original do grupo vocal Ordinarius, lançando o CD “Rio de Choro” em diversos palcos do Brasil. Em janeiro de 2017 foi escolhida, por júri técnico, 2ª melhor intérprete no 1º Festival de Música do Teatro Municipal Ziembinski. Em 2017 estreou o Show ” A Estrela Dalva”, em homenagem ao centenário de Dalva de Oliveira. É integrante do grupo vocal Equale, com o qual em 2018 ganhou o 29° Prêmio da Música Brasileira, na categoria “melhor grupo de MPB”. É, também, advogada graduada pela UFRJ e pós- graduada pela UERJ. Possui Capacitação internacional em aconselhamento no luto pela Fundação Elisabeth Kübler-Ross Brasil (2021). Cantora, musicoterapeuta e uma das fundadoras do coletivo Toda Voz Importa.


TÁSSIO RAMOS Músico, produtor musical, arranjador e professor independente de música. Começou sua carreira no Rio Grande do Sul acompanhando grupos e artistas da região sul do Brasil e Uruguai. Desde 2006 no Rio de Janeiro, tocou e gravou com diversos artistas e projetos de música, tendo feito a direção musical de alguns destes trabalhos, produziu discos, atuou como músico e/ou diretor musical em dezenas de espetáculos de teatro e teatro musical, produziu discos de artistas e trilhas para shows e espetáculos de dança. Como professor independente, dá aulas de contrabaixo, violão e percepção musical. Diretor e produtor musical e um dos fundadores do coletivo Toda Voz Importa.