Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa: O Mistério do Quarto Fechado

Texto de Fábio Fernandes


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Você lê atentamente a mensagem de erro no browser do seu computador.

Mas não faz a menor idéia do que significa isso.

Depois de dois dias com trabalho atrasado e tentando reconfigurar sua máquina, você desiste de querer ser melhor que a máquina e liga para um técnico. Que vai te cobrar os olhos da cara só para uma visita de avaliação.

Você olha para a tela do monitor como se ela fosse uma tábua cuneiforme. Por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento. Você não entende absolutamente nada do que existe dentro dela. É um mistério.

É assim que elas dominam o mundo.


Os circos do meu tempo

Texto de Toinho Castro


No meu tempo os circos exibiam pedras trazidas de vários planetas em pequenas gaiolas, ao lado de fora da lona colorida, muitas vezes expostas ao sol. Havia pedras até mesmo de Júpiter, que é basicamente composto por gases. “Essas pedras flutuam, ou boiam, por assim dizer, nos gases jupiterianos, que são por demais densos”, explicava-me o homem do circo, aquele que tomava conta das pedras.

Especulava-se, entre a meninada, que esse vasto homem havia recolhido pessoalmente aquelas pedras nas suas viagens extraplanetárias. Falava-se que ele falava muitos idiomas, alguns extintos, e que receberia os marcianos, em nome dos governos da Terra, quando eles, por fim, aqui chegassem. Não faltava quem duvidasse da origem extraplanetárias das pedras, que viriam de outros planetas, mas do cinturão de asteroides que preenche o vazio entre Marte e Júpiter. Num desses asteroides, o maior deles, estaria a cidade natal do nosso homem do circo, onde o seu povo ainda o esperava.

Muitas vezes, antes do espetáculo começar, víamos palhaços, trapezistas e domadores de feras observando as pedras, silenciosos. Às vezes com lágrimas nos olhos. Alguns davam as mãos ou recostavam a cabeça no ombro de um companheiro de picadeiro. Em certos dias pares nos era permitido tocar nas pedras, e as tocávamos com as mãos trêmulas. Depois corríamos para o homem do realejo, para tirar a sorte e saber dos destinos que se abririam para nós… porque havíamos tocado as pedras.

Éramos jovens, efémeros, e aquelas pedras, eternas, ainda estariam encantando e confundindo outras crianças, dali a duzentos, trezentos séculos. Seu guardião, ele mesmo como uma velha rocha, a mirar a passagem dos dias e o trânsito sem fim de curiosos e ladrões. Lembramos sempre do nosso vizinho, Aqbar, que roubou uma das pedras de Netuno e nunca mais foi visto. Dizem que enriqueceu, dizem que os netunianos vieram buscá-lo e hoje ele vaga através da densa neblina azulada que assombra as poucas cidades do hemisfério sul do planeta, onde não entendem sua língua.

Hoje sei que há um mercado negro de pedras planetárias, sei que pessoas morrem ou desaparecem. Sei que, de alguma forma, sou diferente por tê-las tocado na minha infância. Hoje também sou um itinerante, um vagante… quando estou numa cidade e descubro que o circo chegou, arrumo minhas poucas coisas e parto. E trato de nunca mais ser visto ali outra vez.

Cedo ou tarde as cidades se esgotarão na minha fuga, e um dia, na última cidade, estarei diante das pedras, no último dos circos.


Dois anos dessa estranha melodia

Texto de Toinho Castro


Quando, em fins de 2019, o Spotify me enviou aquela geral com as músicas que mais escutei naquele ano, todas as músicas do disco Estranha melodia, da Livia Nery, estavam entre as primeiras da lista.

Em setembro eu tive a oportunidade de acompanhar de perto o querido Festival Levada, graças ao amigo e parceiríssimo Jorge Lz. Alguns shows, concorridos, aconteceram no LabSonica, do Oi Futuro. Um espaço especial, em que a apresentação acontecia dentro de um aquário, uma espécie de estúdio, com uma parede de vidro separando artista e a pequena plateia. Uma arrumação curiosa, que eu não sabia se daria certo. E deu.

Chegamos lá para ver a Livia Nery, artista de Salvador que estava ali justamente para lançar o Estranha Melodia. Eu não sabia nada sobre o trabalho dela e tudo que escutei ali, a energia que emanava de dentro daquele estúdio, me impactou imensamente. Livia redimensionou o espaço do Labsonica, com sua voz cristalina e a força e qualidade irrepreensível de sua música. O repertório era basicamente o disco. De uma lindeza, não vou dizer rara, afinal o Brasil é mesmos rico de talentos assim, mas peculiar, inesperada.

Saímos dali carregados na leveza daquele cancioneiro, que enveredava pelo Brasil profundo, sem se furtar ao moderno, ao eletrônico, não só como flerte, mas como costura do trabalho. Saímos dali impressionados e fomos, beber à potência dessa música. Estávamos eu, Raquel, minha companheira, Jorge e própria Livia e sua mãe, Zidi! Daí surgiram laços de amizade e um respeito enorme pelo trabalho da Livia. Que só cresce.

Éramos só alegria e não imaginávamos o que 2020 nos reservava.

Estranha Melodia tem sido um grande companheiro desde que o mundo desabou sobre nós. Um disco de audição recorrente. E hoje, 7 de junho, de 2021, essa joia completa dois anos. Completa dois anos com o país em quarentena, devastado e atravessando dias escuros. Estranha melodia fornece a luminosidade necessária pra gente enfrentar essa pauleira cotidiana. Acredito que é um disco que tem seu lugar reservado nessa história bonita da nossa música.

Nesse instante ele tá aqui no play, com seu lirismo, sua cadência, com seu Brasil acima e melhor que isso que tá aí. Tocando com sua empatia, a nos dizer “Aumente o som”.

Esse texto é uma pequena comemoração desse disco, porque gosto demais dele. Gosto da Livia, da Zidi, tão querida, do Jorge (e da Aline Falcão com seu talento aos teclados, que enriqueceu o Estranha melodia, e seu riso que não falha!). É uma comemoração pessoal, desses grandes encontros que a vida proporciona. Nessas horas dá saudade do mundo pré-pandemia, e nos vem, de algum modo, a certeza de que vamos recuperar o que nele havia de bom.

“Deixa o sal limpar, deixa o sal limpar”

Hoje Livia nos surpreende com a bela Superego, uma música inédita, que ficou de fora do álbum que agora é revelada. Que presente! Vamos escutar e compartilhar com as amizades.


PS. Nesse mesmo dia do show da Livia, conhecemos a talentosa e querida demais Caru! Outro grande encontro, de gente que vem pra ficar! Um dia e tanto!


“é preciso esperar um milagre / para se ter algum controle” — a poesia de Claudia Schroeder em As partes nuas

Texto de Toinho Castro


Que pode haver de maior ou menor que um toque?
Walt Whitman

Li numa entrevista da Claudia Schroeder que os poemas que compõem seu livro As partes nuas, lançado em maio passado, foram escritos nos últimos quatro anos, sem intenção prévia de formarem um livro. Isso muito me impressiona, dada a coerência e fluidez das páginas que ando lendo e relendo nesses dias.

As partes nuas é um livro muito bonito. É tentador associar a ele todas essas palavras que nos surgem no pensamento quando se trata de poesia… lirismo, ternura e afins. Quero evitá-las.

As páginas que Claudia Schroeder alinhou no seu livro são finamente costuradas. Tudo faz sentido e somos levados de poema a poema com naturalidade. É quase um romance em versos. Estamos acostumados à ideia do romance enquanto prosa, enquanto fatos encadeados. Mas esse pequeno livro, leio como a história de uma mulher. Não há linearidade porque todos os caminhos se cruzam. As percepções estão enlinhadas e o corpo, o corpo da poeta, e da poesia, não é sólido.

Essa relação ‘poesia / corpo’…. acabei por encontrá-la na primeira frase da apresentação do livro, escrita pelo poeta português, a quem muito admiro, José Luís Peixoto. “Os poemas são corpos”, diz ele. Costumo deixar as apresentações e prefácios para o final, e com esse livro não foi diferente. Encontrar essa frase reforçou meu sentimento do poder físico desse livro, que me acompanhou toda a leitura.

Sim, são poemas do corpo. Ou corporais, o que não exclui a alma. Corpo da mulher, da poeta, mas também do leitor, marcado pelas suas próprias experiências; pela própria sexualidade e memória. Memória do corpo.

Que esse livro, As parte nuas, tenha sido publicado agora, em meio à pandemia, à ruptura dos distanciamentos, das máscaras e da assepsia, é de enorme precisão. Uma leitura que cai certeira, a nos recuperar como gente. Dores, prazeres, amores, cheiros, a velhice, a pele, o sexo, as bocas, os medos. Lista infinda do que é uma criatura no mundo. Eu não conhecia o trabalho de Claudia. Alegro-me em conhecê-lo aqui e agora.

Escrevo e o livro está aqui ao meu lado. Lá no começo disse que As partes nuas, era um livro bonito. Isso vale também para o objeto físico. Uma bela edição da querida e histórica Francisco Alves. É uma arte gráfica que me surpreendeu. O formato, o projeto/diagramação, a arte de José Bechara tão bem trabalhada em todo o contexto de livro. A vontade física de tocá-lo, segurá-lo.

As partes nuas evoca nossa existência, tecida de encontros e toques, desfiada pelo corpo e pela alma, essa testemunha do corpo.


Notícia boa em tempos difíceis: Lançamento da revista cassandra

Hoje é um lindo dia! Entra no ar a revista cassandra, uma revista feita por mulheres. Esse morte é importante, necessário, e aqui na Kuruma’tá é uma felicidade compartilhar isso com nossa comunidade. Cassandra é, na verdade, mais que uma revista feita por mulheres. É uma revista feita de suas vozes e origens, suas artes e literaturas. Sua resistência. Sim, porque cassandra é, necessariamente, um espaço de resistência nesses dias que atravessamos.

Pra gente, aqui na Kuruma’tá, cassandraé uma companheira e apostamos nas muitas trocas que faremos, para fortalecer a rede de cultura que cresce a cada dia.

São doze mulheres na organização da revista: Milena Martins Moura (colaboradora da Kuruma’tá, com seus poemas), Cecília LoboPriscila BrancoGabriele Marques e Beatriz Rocha . Junto com elas, outras sete mulheres participam como colunistas Ana Yanca Andreza AndradeCamile VeigaChristy Najarro GuzmánGianna L. C. , Luzia Rohr e a editora da Revista DesvarioThainá Carvalho

Editoras e autoras da Cassandra

Assista ao vídeo de lançamento da cassandra no Instagram da Revista!

“Toda mulher é um grito.
cassandra é um grito.”


A colonização

Texto de Toinho Castro


I

Depois de meses de obras, não sem alguma polêmica, o Matadouro Público abandonado é agora, oficialmente, um centro cultural que transforma o nosso bairro num pólo gerador de arte, cultura e entretenimento para a cidade. O que ninguém sabe, exceto eu e um restrito grupo de amigos, é da verdadeira vontade por trás dessa singela inauguração com direito, diga-se, a autoridades e jornalistas.

Sabemos, há muito, que eles estão entre nós mas não fazíamos ideia das suas estratégias de colonização. Agora tudo está claro e a verdade é terrível. Estamos sendo colonizados por uma raça alienígena construtora de centros culturais.

O mecanismo e as consequências desse obscuro movimento são mistério. e nossos líderes políticos já são joguetes na mãos dos alienígenas de outro planeta, cedendo cada vez mais espaços públicos para seus propósitos de conquista. Secretamente avançam na hierarquia das instituições e têm acesso a números e dados que completam suas agudas e seculares observações do nosso planeta. Estão nas bibliotecas e escolas, muitos dirigem nossos ônibus e assim descobriram que a arte é o caminho mais rápido para nos conquistar. Vemos então as filas aos domingos para ver exposições de grandes pintores e as crianças inocentes participando das oficinas de argila e socialização.

Por trás de tudo estão os raios selenitas e marcianos. Pinturas e esculturas emitindo sinais vertiginosos para cada mente. Logo, a cada novo centro e a cada nova exposição, tudo estará controlado. Um mundo de apreciadores de arte e cultura, cultivado por seres estranhos. Um dia eles farão a colheita e todos os centros culturais entrarão em sintonia, monitorando vastas regiões do planeta. Seremos presas fáceis.

Estamos deixando o bairro ainda hoje, no meio da noite para não levantar suspeitas. O antigo Matadouro Público fica a duas quadras daqui. Não passar por ele significa dar uma grande volta e não cruzar a ponte, que abrevia os caminhos. Soube que ontem já ostentava grandes cartazes anunciando uma monumental exposição de Salvador Dali e a performance de um artista performático local. Vamos tomar o caminho mais longo e evitar que as crianças sejam monitoradas pelos raios selenitas, pelos raios marcianos. Artista performático local, era só o que faltava. Estão indo longe demais.

II

Acabei de voltar do parque e está cheio de esculturas. A imprensa está lá, como sempre, e há guardas para impedir que algum vândalo ou louco as danifique. Os loucos sabem tão bem quanto nós o que está se passando. Tentei estudar o posicionamento das peças para entender sua configuração e que tipo de raios estão emitindo, mas não quis me expor demais às radiações artísticas e voltei para a hospedaria. Havia comentários de que, ao cair da noite, haveria um concerto de música barroca, e pessoas embevecidas já circulavam por lá com cara de que gostavam de música barroca.

Vítimas, vítimas inocentes.

Acreditamos que eles têm pressa, que eles querem mais e não vão parar. Os centros culturais se multiplicam e quase já não há para onde fugir. E também não queremos deixar a cidade. Devemos ficar aqui e procurar meios para neutralizar os efeitos dos raios. Devemos interceptar amigos e conhecidos a caminho de uma mostra de filmes e desviá-lo para uma pescaria ou uma cerveja numa esquina qualquer. Vamos agindo assim, sabemos que cedo ou tarde, no fim de semana seguinte, talvez, ele vai acabar indo ver a tal mostra ou a exposição itinerante do Dalí. Porém, de alguma maneira, atrasamos o golpe final por mais uns dias, atrapalhamos o plano perfeito que eles elaboraram.

Nosso objetivo não é mais ganhar essa guerra perdida, mas morrer em plena luta. Ou morrer como agentes secretos, incógnitos e heroicos. E inúteis.

Impressionante a quantidade de coisas que já deixamos para trás, fugindo. Isso deve ter algum valor no combate, deve criar algum efeito nas máquinas que certamente funcionam nos porões de cada centro cultural que eles conseguem inaugurar. Algo naqueles chips alienígenas deve falhar porque insistimos, porque lutamos até o fim das nossas alternativas.

O parque agora é um local proibido. Não podemos mais cortar caminho por ele para ir ao supermercado e assim os nossos caminhos se tornam mais longos a cada dia. Logo estaremos ilhados. Comprei protetores auriculares para barrar as ondas magnéticas do concerto de música barroca. Amanhã, porém, não poderemos evitar os comentários da vizinhança, do quanto tudo foi belo e educativo e da importância da música barroca para as novas gerações.

Eles estão por perto, eu sei, anotando tudo. Nada escapa às suas observações. Isso os ajuda a programar os próximo eventos e a investir em certos artistas ou mesmo movimentos. Seguimos tentando atrapalhar, com opiniões dissonantes, contraditórias e arrumando discussões em mesa de bar por afirmar que lugar de música barroca é no século XVII. Acabamos criando desavenças com os vizinhos; e não frequentar centros culturais é péssimo para nossa imagem. Mas, como eu já disse, não estamos mais nem aí. Perdemos a guerra; estamos fugindo e deixando campos minados para trás.


Artistas morrendo. Mas e o emprego?

Texto de Eduardo Maciel


Olá, kurumateires amados!

Tenho falado muito nos últimos tempos sobre o tsunami devastador dessa mal gerida pandemia e da falência econômica brasileira sobre as artes e a cultura. Pobres artistas. A gente que lute.

Enquanto luto, tenho empatizado muito com o pessoal que está entrando no mercado formal de trabalho (fora das artes) e que hoje precisa lutar também. Principalmente para traçar planos, nesse momento sombrio e bizarro.

Brasil com taxas altíssimas de desemprego. Taxas ainda mais altas de desalentados (confesso que ainda não me habituei com esse conceito). Muita oferta, baixa procura. Adam Smith (que Deus o tenha em bom lugar) já nos dizia que isso quer dizer que o valor/hora/trabalhada tende a uma curva decrescente.

Daí alguém quebra o silêncio e grita:

MAS EU VOU ME FORMAR!!! E AGORAAAAA?

Antes de desanimar totalmente, tenha um plano. Vou resumir um plano que acho coerente. Temos 3 macro setores de mercado para atuar: 

A) INDUSTRIA

B) SERVIÇOS 

C) COMÉRCIO 

Momento de me jogarem pedras, por não ter mencionado as techs, unicórnios e similares. Aceito as pedras, mas foi proposital. Nem todo mundo consegue ter acesso a esses portais de dimensões mais modernas…

Fez sentido? Então vem! Por onde começar a buscar entre essas 3 opções? Partindo da premissa de que esraremos sempre buscando equilíbrio de vida, indico a seguinte ordem: B, A, C. Serviços, Indústria, Comércio. Busque oportunidades nessa ordem, se desejam experimentar um pouco de tudo, acumulando o máximo num tempo mínimo. 😃😃. Já me explico:

  • Se você se dedicar em uma consultoria sendo jovem, no início da trajetória, vai começar com pouco no bolso mas terá a segurança de um plano de carreira (me refiro às grandes consultorias). E vai se expor a diversos clientes, diversas realidades e oportunidades de aprender e ser valorizado por isso. Coisa de criar raiz mesmo.
  • Depois, acho bacana tentar exercitar o outro lado da moeda: estar numa grande indústria de base e começar a contratar consultorias para te dar aquele tipo de apoio que você costumava dar lá no início.
  • Aí é cair no comércio, preferencialmente num grande varejo, para que tudo acabe fazendo sentido: você precisa prestar o melhor serviço, e lidar com processos produtivos!

Eu sei. Mencionei o adjetivo GRANDE para me referir às empresas em cada etapa, na ordem que vejo ser vencedora.

Sei também que lá no início falei sobre as dificuldades de se inserir no mercado.

Como assim?

Antes de entregar a sua carreira, que você está começando agora, a um tiroteio de currículos rezando pra algum germinar, trace para si um caminho, um sonhar grande dentro de um grande possível, e se dedique.

Busque pessoas e peça ajuda (mostrando o seu potencial, claro), tenha coragem e ousadia, e persiga o seu objetivo, sem jamais se desviar do seu propósito nesse mundo. E se der medo em algum momento, me chama no privado. Ninguém larga a mão de ninguém!

Por favor compartilhe as dicas com todos os jovens cabisbaixos que estiverem ao seu alcance. 

Afinal: o que é o escuro senão o segundo que antecede a luz…

Até breve…


“Lutar contra a tristeza é uma guerra necessária” — A poesia de Upile Chisala

Texto de Toinho Castro


O título desse texto é um poema, um poema de um verso, da jovem Upile Chisala. Digo jovem porque ela tem pouco mais de vinte anos, e lembrei de mim mesmo, apesar de todas as distâncias entre nós, com essa idade, lá no Recife, escrevendo meus poemas. Como eu queria, naqueles dias, ter topado com um livro como o de Upile.

Eu destilo melanina e mel (Editora Leya, 2020) me chega tantos anos depois, mas não me chega atrasado. A força de livros assim é sempre entrar nas nossas vidas no momento preciso, na hora em que mais precisamos deles. É um livro que eu abro e me apresenta uma nova voz, uma vivência que me ensina. Sabe, em todo livro a gente precisa aprender a ler. Toda leitura precisa ser de aprendizado. Aprendizado do outro, de si mesmo. De lugares no mundo, geografias, tradições.

Li na orelha do livro (adoro!) que Upile é uma contadora de histórias. Então vejo cada um dos seus poemas como pequenos universos. Uma intensidade concisa. Não há títulos e como enxergar a fronteiras entre um poema e outro? Como não pensar que seja tudo, por outro lado, um grande poema, feito de fragmentos e observações do mundo, da vida de uma mulher negra, africana, forte. E essa mulher africana falando comigo, aqui no Rio de Janeiro, comigo que cresci lendo tantos homens. Por isso, hoje, falo em aprendizado da leitura o tempo todo.

Mulheres como Upile me recolocam no mundo e me sinto jovem como elas, com o frescor iluminado dessa poesia que atravessou oceanos.

Meus ossos atravessaram oceanos para encontrar você.
Se eu pedisse,
eles fariam tudo de novo.

Às vezes o livro é como um manual, apontamentos. Lembretes contra a tristeza do mundo. Mesmo quando os poemas são tristes eles se erguem contra a tristeza. Imagino Upile anotando esses versos em cadernos, post-its, na palma da mão como quem anota um telefone importante, de alguém que se quer muito rever. Imagino ela carregando esses poemas, antes que virassem livros. E minha vontade é de carregar esse livro por aí. Poemas para serem carregados com a gente, na hora da fuga, na hora do metrô lotado ou da praia vazia.

A voz da minha mãe é o meu lar.
— Upile Chisala


Upile Chisala nasceu na República do Malawi, na África Oriental. Um país que tem como fronteiras Moçambique, Tanzânia e Zâmbia, e é banhando pelo Lago Malawi, um dos grandes lagos africanos. Malawi significa, na Língua Nianja (cinianja ou chewa), nascer do sol.

Leia um perfil, e entrevista (em inglês), com Upile Chisala no site OkayAfrica.

Compre Eu destilo melanina e mel na Blooks Livraria!


Eu amo a L&PM

Texto de Toinho Castro


A gente, que gosta de livro, quando encontra alguém que também gosta de livro, se dana a falar sobre nossas preferências de autores, ou a obra que mais marcou ou sobre nossas listas de livros por ler o já lidos. São temas inevitáveis, que rendem muitas conversas e essa coisa deliciosa que é a descoberta das afinidades. A emoção sutil de encontrar alguém com quem compartilhar esse amor pela literatura, e poder sugerir um livro.

Mas, e as editoras? Vamos conversar sobre as editoras, que são essas casas que dão saída aos livros, que materializam num objeto singular o trabalho de autores, designers, tradutores, revisores, editores e tantos profissionais que se envolvem nesse sonho.

Pois, queria dizer que tem essa editora que eu amo.

Meus pais cuidaram que eu tivesse a educação adequada, e me educaram para que eu sempre procurasse por mais. E esse mais estava nas livrarias, nos sebos, nas mãos de amigos prestimosos, que me apresentaram a muita coisa que funcionou como uma escola paralela, enriquecendo meu cotidiano, trazendo sentido onde não havia e criando confusão quando necessário.

Quando comecei a me torna isso que posso chamar de leitor, eu lia sem noção da existência das editoras. Eu lia livros. Até que comecei a notar padrões, livros que quando reunidos tinham uma liga, uma mensagem, uma história. A história de quem os editou! Lá estava a editora, bem sob meu nariz… ou meus olhos. E de repente eu já não procurava por títulos ou autores somente. Procurava por editoras.

E foi aí que encontrei a L&PM. E gente, como eu amo a L&PM.

Dos esforços reunidos dos jovens Paulo de Almeida Lima e Ivan Pinheiro Machado, nasce a L&PM, em 1974, na cidade de Porto Alegre. Oito anos mais nova que eu, falta pouco para a editora completar 50 anos. São quase 50 anos direto na veia da leitorada brasileira, lançando livros com sagacidade e inteligência. Nossa, como li, e ainda leio, os livros da L&PM!

Bom larguei o jornalismo pra não ter que levantar dados ou biografias. Então vamos falar de amor… Devo a essa editora corajosa toda uma educação para a leitura, a literatura e a poesia. Foi em suas páginas que dei com o Uivo, de Allen Ginsberg, numa edição de 1984, com tradução de Claudio Willer. De Ginsberg para Lawrence Ferlinghetti e o mundo da poesia beatnik. Uivo foi uma espécie de portal mágico, e o mundo que então se abria era o da L&PM.

Li tantos autores, de perder a conta… Bukowski, Edgar Alan Poe, García Lorca, John Fante, Florbela Espanca. E li muito porque os livros era baratos… acho que a L&PM tem a maior coleção de livros de bolso do Brasil. Creio que sejam centenas de títulos. De acordo com o site da editora, são quase 1400 títulos, a preços bem camaradas. Todo livro tinha que ter uma versão de bolso!

A L&PM me veio assim tão forte à lembrança, porque comprei uma edição de Verdes vales do fim do mundo, biografia das andanças do Antônio Bivar pela Europa, nos anos 70. Meu exemplar comprado na Livro 7, no Recife, lá em 1985 ou 1986, sumiu com as mudanças, na mão de alguma amizade. Então vi ontem uma promoção na internet e não resisti. Amanhã terei novamente esse livro delicioso do Bivar nas minhas mãos e vai ser um reencontro e tanto. Daqui de onde escrevo esse texto, vejo na estante uns volumes pequenos da L&PM, aos quais sempre recorro. Já disse que amo a L&PM?!

Outro dia, conversando com o Aderaldo Luciano, falamos da L&PM, da importância dela pra gente, pra nossa formação como leitores e escritores. Como gente, né?! Falamos dos livros singulares, que reviraram nossos pensamentos e encheram as nossas cabeças de ideias. Ler aqueles livros dava vontade de escrever. Uma vontade que não passa.

Lembro de, já no Rio de Janeiro, sentar na areia do Leblon, num fim de tarde, e abrir aquela velha edição de Uivo, comprada também na Livro 7. A luz já ficando meio mortiça e eu insistindo em enxergar aqueles versos, enquanto acendia o Hotel Marina às minhas costas, e eu pensando, comovido, em como que alguém havia resolvido lançar, aqui no Brasil, aquele livro que havia mudado minha vida.



E não esquecer jamais que perdemos o Antônio Bivar para A Covid-19, em 5 de julho de 2020


A aldeia, a água serenada, as estrelas e o zum zum zum, com Déa Trancoso

Texto de Aderaldo Luciano


1.

Essa alma de Déa Trancoso é de sopro. A aragem de sua voz é o respiro. O tum tum tum do coração avança e retorna, ameaça e se acalma. Mundo difícil esse, mundo esquisito esse, mas o caminho desenhado por Déa não é cataclismático. Há um sistema filosófico iniciado no fundo do rio, subido à terra, penetrado à mata, diluído à alma. O encontro das menores partículas universais com o infinito misterioso e desconhecido. Linda luz como fogo ao vidro. A cobra coral de Seu Tupinambá.

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Seu Tupinambá
Quando vem na aldeia
Ele traz na cinta
Uma cobra coral
Oi’é uma cobra coral.

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2.

Fui nascido, criado e iniciado nas artes naturais, no olhar e na entrega à Natureza como fonte de cura e crescimento interior. Durante 21 dias, com intervalo de 3 dias entre cada 7 dias, minha mãe, dona Mocinha, atenta, me oferecia água serenada quando sentia sobre mim alguma energia reversa. Tenho ouvido Déa Trancoso como quem prepara esse ritual. Na canção-testemunho Água Serenada, do poderoso álbum Serendipity, mergulhei em minhas memórias. Talvez dona Mocinha estivesse me preparando para ouvir tão bela vereda músico-natural. Essa minina Déa nos oferece água serenada. Os elementais, com a Luz, entram em nosso templo e morada, corpo e caixa existencial, e nos embalam na rede fluida da Vida.

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Eu não canto
Do jeito que eu já cantei
Bebi água serenada
E até a voz eu mudei
Eu mudei
Até a voz eu mudei
Bebi água serenada
E o coração eu lavei
Eu lavei
O coração eu lavei
Bebi água serenada
Cantei em paz
Serenei
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3.

Nesses últimos meses, ouvindo Déa Trancoso, sua voz doce, sua canção pétala, sua seara pronta para a colheita, seus leirões bem adubados, entendo, por muito meditar, o quão é grandiosa a existência. Talvez eu fosse me matar um dia, mas ouvi Déa Trancoso. Talvez eu fosse ao pó uma noite, e irei, mas com o som do riacho, com o eco viajando pelas estrelas, pela canção que me atravessou. Aliás só restarão as estrelas. Quando chegar a tarde, o final da tarde, e o caminho estiver entre a penumbra e o breu, eu sei que só restarão as estrelas. Para elas seguirei. Num caminho de flores e pássaros. Como o bem-te-vi.

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Dos desejos e dos beijos
Das potências e das carências
Só restarão as estrelas

Das agruras e das paúras
Dos sabores e amargores

Só ficarão as estrelas
Só as estrelas saberão o caminho
Só as estrelas sobreviverão
Só as estrelas escaparão de fininho
Só as estrelas recomeçarão

Dos sofrimentos e dos alentos
Dos mistérios e das perguntas
Só restarão as estrelas

Das ciências e ignorâncias
Das supercordas e das lembranças
Só ficarão as estrelas

Só as estrelas saberão o caminho
Só as estrelas sobreviverão
Só as estrelas escaparão de fininho
Só as estrelas recomeçarão
Só as estrelas são as estrelas

São as estrelas diamantes no céu?
São estrelas diamantes cravejados no céu?

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4.

Corri atrás das águas e as águas me carregaram. Areia ficou para trás. Havia um poço no antigo Rio do Canto. O chamávamos Poço da Traíra. E para lá fomos no inverno, quando do rio cheio, quando das águas brabas, quando dos redemoinhos, quando dos desafios de meninos perdidos sob o céu. As águas me abraçaram. O chão de areia fugiu dos meus pés. Hoje, ouvindo o Zum Zum Zum, com Déa Trancoso e Paulo Bellinati, relembrei desse episódio delicado no Poço da Traíra. Água com Areia não se pode misturar, água vai simbora, Areia fica no lugar. O Rio me carregou pro mar e hoje é Odoyá! Ainda há pouco, a voz de Déa fez fluir toda a água que me trouxe. Sou metade água, metade Areia. No meio do mar.

****
Água com areia
Não se pode misturar
Água vai simbora
Areia fica no lugar

Saravá, Rainha do Mar, Saravá!

Zum zum zum
Lá no meio do mar

Odoyá!
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